Sem Título

ana-teceideiro

Saída do café encontro no chão
uma garrafinha verde.

Era uma bela garrafinha,
pensei,
para colocar uma flor.

Enquanto lavava para tirar
o cheiro e o rótulo
lembrei-me de um homem
que pousava ali para os lados
das Avenidas Novas

comia às vezes só molho e pão
e tinha sempre à sua frente
uma flor
dentro de uma garrafa suja.

Um dia estendi-lhe
uma peça de fruta à sobremesa
e ele sorridente
convidou-me a comer também
daquele prato
de aspecto catástrofe

Lembro-me de ter pensado que
há coisas que só se engolem
com muita fome e uma flor à frente.

Mas ele era um sem-abrigo ainda jovem
qualquer dia
já nem vai precisar da flor.

Ana Tecedeiro in Deitar a Trazer

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Projectos para 2017

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Depois de ter feito o balanço do ano de 2016, está agora na altura de fazer planos para 2017. Não sou mulher de resoluções de fim de ano, porque acho que há um limite de desilusões que podemos infligir a nós próprios, mas gosto de ter algumas linhas orientadoras. E foi nisso que pensei para o próximo ano:

– Depois de ter ido a dois continentes em 2016, este ano precisamos de descanso. Mais o Peixinho Vermelho que eu, verdade, mas definitivamente a nossa carteira precisa de algum tempo de recuperação. Felizmente os passeios pequenos também me entusiasmam muito e já comecei a planear o nosso “vá para fora cá dentro”.

– Livros, livros e mais livros. No início do ano o Goodreads pede-nos um objectivo, e eu sou sempre conservadora. O ano passado comecei por dizer 30, mas acabei a ler 60. Como sou ligeiramente obsessiva compulsiva, não quero obrigar-me a escolher livros só porque são pequenos e me vão permitir atingir um objectivo parvo, que não interessa a ninguém para além de mim. Cada um com as suas dificuldades mentais. Este ano aposto nos 40.

– Continuar a  ler Agatha Christie e Terry Pratchett por ordem de publicação (ver ponto acima sobre obsessão compulsão). São dois autores que gosto e que um dia gostaria de ter lido os livros todos. Vou voltando a eles lentamente, sem pressas, como quem toma um café com um velho amigo.

– Acabar a saga do Sandman do Neil Gaiman, que comecei em 2016. Faltam-me 4 livros que tenciono acabar este ano. Tenho mais uns quantos livros de BD na calha, 3 para ser exacta, que é um género que eu gosto muito.

– Continuar a encher o blog (e a minha vida) de poesia. Desde que aprendi a escrever que encho cadernos com poemas. Quadras em miúda, depressão existencial em adolescente, e, depois dum intervalo em que o trabalho de escritório me matou os neurónios da criatividade, voltei a encher qualquer papel que encontro livre, ou as notas do telemóvel com os meus apontamentos. Como ainda é muito cedo para os partilhar, vou mostrando poemas que me tocam de quem escreve melhor que eu, essencialmente escritores portugueses dos séculos XX e XXI.

E como não sou ambiciosa são estes os meus planos. Há mais um ou dois mas ficam só para mim. Um feliz 2017 para todos.

Balanço de 2016

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Chegados a esta altura do ano impõe-se fazer um balanço de como foi 2016, o ano em que retomei a escrita de blogs depois duma paragem de quase 10 anos, dum modo totalmente diferente.

Foi essencialmente um ano cheio de livros e viagens, duas das minhas coisas favoritas. Depois de muitos anos a sonhar com isso, consegui finalmente pôr de pé o projecto da viagem a São Tomé, paraíso sonhado desde muito nova, e não fiquei nem um bocadinho desiludida. Foi tal e qual como idealizei e melhor ainda. Conheci pessoas fantásticas, paisagens deslumbrantes, e fiquei com o bichinho de voltar mais vezes, sempre que o orçamento o permitir, porque, apesar da ilha ser pequena, é gigante em tesouros para descobrir. Falta muita coisa para ver e conto os dias para voltar.

Tive também a sorte de ganhar uma viagem a Phuket através do concurso da Autoridade de Turismo da Tailândia, e assim cumprir mais um objectivo pessoal de viajar até ao Sudeste Asiático, esse local mítico de pessoas sorridentes. Uma viagem mais curta mas muito interessante e cheia de coisas bonitas para ver. Ficou a vontade de voltar e explorar melhor toda a zona.

Mas também de livros se fez 2016. 60, a acreditar na estatística do Goodreads, que sendo eu um bocadinho obsessiva compulsiva estará certa com certeza. Desses, apenas 4 têm a nota máxima. O que para mim faz sentido, muitos livros são bons, mas poucos são sublimes. Estas quatro se-lo-ão com certeza, e todos foram falados aqui:

  • Pauline Chiziane – um olhar muito feminino sobre a poligamia disfarçada, e a riqueza da literatura africana num só livro. Forte e bonito.
  • Neil Gaiman – No ano em que comecei a reler a saga do deus dos sonhos, este foi para mim o mais bonitos dos tomos que me foi dado ler até agora. Ainda faltam 3 volumes, venha 2017.
  • Helen Simonson – uma escritora que eu não conhecia, mas que fiquei rendida. Já tenho o primeiro livro dela no Kindle para ler em 2017.
  • João Sem Medo – Porque tinha de haver um livro português nesta lista, já que há tantos e tão bons. Este é maravilhoso, delicioso, e nunca me cansarei de o divulgar. Ainda este Natal o ofereci a um amigo secreto!

2016 foi também o ano de regressar à poesia. Para já como espectadora, que ainda é cedo para partilhar algo de meu, mas foi com um poema que este blog nasceu, e espero que 2017 seja um ano cheio de poetas portugueses nestas páginas. Para já estou a investigar o que por aí se faz neste século XXI para depois aqui mostrar, seguindo o único critério relevante para mim, que é eu gostar ou não gostar.

E este blog teria sido certamente diferente se eu não tivesse aderido logo em Janeiro ao Netgalley, o site que me tem providenciado livros ainda antes de serem lançados no mercado, alguns deles entre os melhores que eu li este ano. Um mundo novo de oportunidades de leitura se abriram graças a este site, e a única coisa que tenho de fazer é o que já fazia antes, deixar uma critica no Goodreads.

Foi um ano cheio, obrigada por estarem desse lado, agora venha 2017. Boas festas para todos.

Um romance de pré-guerra

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Sinto que passei todo o 2016 à procura dum livro que tivesse uma boa história, que me prendesse ao Kindle e que me fizesse desejar estar sempre a ler. Afinal, mal sabia eu que durante todo o ano tive um livro assim dentro do Kindle sem lhe pegar. Logo em Janeiro pedi no Netgalley um exemplar deste “The summer before the war”, mas depois, por uma razão ou por outra, acabei por nunca me entusiasmar a lê-lo. E assim ficou em banho-maria.

Agora, quando vi no Goodreads que ele estava a votos para um dos melhores de 2016 pensei que se calhar andava com uma pérola e nem tinha percebido. E não me desiludiu.

A história do livro não é muito elaborada. No ano de 1914 uma jovem solteira que tinha perdido o seu pai e com isso a sua independência financeira vê-se forçada a ir trabalhar como professora de Latim numa escola duma aldeia recôndita do Sussex. Só que uma mulher solteira, jovem, ser professora de Latim era na realidade uma coisa arrojada para a época. E não demora muito para que forças de oposição se reúnam, bem como para que um romance floresça.

Mas é muito mais que a história que torna este um livro tão apetecível. O ambiente da narrativa é deslumbrante, parte Jane Austen, parte Agatha Christie. O english countryside com os seus usos e costumes acompanha-nos a cada passo. E os diálogos são soberbos, muito bem construídos, com um sarcasmo e uma inteligência que não é comum encontrar-se.

Por outro lado a história é-nos subtilmente desvendada e não entregue de bandeja como se um filme série B se tratasse. Espera-se que o leitor tenha inteligência para perceber nas entrelinhas e não seja preciso explicar tudo, e isso também é raro nos dias de hoje.

Foi um livro muito refrescante, fiquei muito interessada em ler o livro de estreia da autora. Uma prova que chic-lit pode ser bem feita.

Goodreads review

Duas Vezes Nada

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É assim, amiga. Encontramo-nos
quando calha nos bares de antigamente,
deixando que sobre o tampo azul
das mesas volte a pousar
um baço cemitério de garrafas.

Constatamos o pior,  os seus aspectos.
Corpos e livros que foram ficando
por ler na voracidade da noite de Lisboa.
De facto, crescemos em alcoolémia,
acordamos tarde, em pânico,
e perdemos  os dias e os dentes
com uma espécie de resignação.
(Não temos, ao que parece, serventia.)

Sorrimos um pouco, ao terceiro
gin, como quem renasce para a morte,
seus gestos de ternura ou de exuberância.
Talvez tenhamos calculado mal
o ângulo da queda, esta vitória
sem nobreza dos venenos todos.

Mas agora é tarde. Tudo fechou
para nós, para sempre. O amor,
o desejo, até o onanismo da destruição.
Antes de procurares a esmola
do último táxi, fica esta imagem
parada, a desvanecer-se
no frio mais frio da memória:

não dois corpos sentados a trocarem
medo, cigarros e palavras póstumas,
mas duas vezes nada, ninguém,
o silêncio da noite destronando
as cadeiras onde por razão nenhuma
nos sentámos. Os anos, amiga, passaram.

Manuel de Freitas

A arte de mudar e viajar

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Aqui há uns dias (bastantes) terminei de ler mais um livro proporcionado pelo Netgalley. Este será publicado algures no início de 2017 e relata-nos a história verídica de Kim Dinan e o seu marido que largaram casa, emprego estável, família e largaram pelo mundo a viajar. Para puderem de algum modo ser parte deste projecto, uns amigos próximos ofereceram-lhes um envelope amarelo com dinheiro para distribuírem como achassem relevante, sem grandes preocupações a não ser sentirem-se bem a fazê-lo.

Este é o ponto de partida daquele que à primeira vista é um livro de viagens, mas que na realidade é uma história sobre a procura do auto-conhecimento, uma jornada de crescimento, e o que é que cada um de nós precisa realmente para nos sentirmos felizes.

Kim precisou de 2 anos a viajar e um envelope amarelo para fazer uma busca interior e perceber o que é que a fazia sentir feliz e realizada. Outros precisarão de mais ou de menos, mas acho que a mensagem mais importante deste livro é que nunca é tarde para fazermos alguma coisa por nós e realmente olharmos para dentro e percebermos o que nos faz felizes. Se nesse processo conseguirmos trazer felicidade a mais alguém, melhor ainda.

A vida de Kim é muito diferente hoje, e podemos segui-la no seu blog, onde ela ainda tenta espalhar alegria.

Goodreads Review

Um homem e os seus exércitos

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Os leitores deste cantinho sabem que eu sou grande fã do Kindle e das suas vantagens porque já falei largamente sobre o assunto. Aqui por exemplo.  No entanto há coisas num livro que são irreprodutíveis e a principal é o acto de emprestar. A simples acção de pegar num volume e pensar que ele iria agradar à pessoa X, ou como me aconteceu a semana passada, um colega chegar com um saco cheio de livros para eu escolher os que queria trazer emprestados. Isso é a beleza dos livros que o Kindle realmente e infelizmente não consegue repetir, e foi exactamente assim que eu cheguei a esta pérola a semana passada.

Com um nome absolutamente inpronunciável, este autor brasileiro escreveu a história de Mayer, o Capitão Birodidjan, um homem judeu, visionário, que sonha em mudar a humanidade, fundar a Nova Birobidjan, uma colónia socialista utópica onde possa viver em conjunto com o Companheiro Porco, a Companheira Cabra, a Companheira Galinha (de quem não gostará mas que se recriminará por isso), ou quem sabe com os seus companheiros do lar de idosos.

Um retrato dos anos da Segunda Guerra Mundial, recheado dum realismo mágico, mas profundamente acutilante, é impossível não rir enquanto as sátiras sociais passam por nós a um ritmo alucinante mas ao mesmo tempo subtil.

É um livro recheado de homenzinhos, sempre presentes na vida de Mayer, que o acompanham e assistem aos seus discursos, apenas em silhueta.

Uma pérola de 1973 que se leu num fôlego e que eu aconselho a quem o conseguir encontrar. Eu li a edição da Caminho que se vê acima.

Boas Leituras

Goodreads Review

lenin