A Canção de Taduno

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Este ano tenho aproveitado para explorar um pouco mais a literatura africana, já que a par da asiática é onde eu tenho maiores lacunas.

O Netgalley, de que eu já falei num post anterior, tem sido uma ajuda preciosa nesse capítulo pois tem-me dado a conhecer imensos livros e autores aos quais eu não chegaria de outra forma. Só a título de exemplo, o argelino Yasmina Khadra e a moçambicana Paulina Chiziane.

Esta foi mais uma vez uma aposta ganha, ao ter tido o prazer de ler o livro de estreia deste autor nigeriano. Uma espécie de história alegórica que nos remete a um passado recente em que a Nigéria esteve debaixo do jugo duma junta militar, mas que faz eco de qualquer país que tenha vivido a realidade duma ditadura.

E nessa realidade fala-nos do poder da música como catalizador de mudança, como agregador dum povo, e também do dilema de ser fiel aos nossos princípios ou ser fiel àqueles que nos são próximos.

Não é um livro perfeito, e em certos pontos a narrativa é um pouco monótona e confusa, mas de qualquer forma é um livro que aconselho pela originalidade com que aborda um tema delicado. Por enquanto apenas disponível em inglês.

O fim do Verão

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Já há algum tempo que não parava por aqui. Isto de alimentar um blog nem sempre é tarefa fácil. O final do Verão tem sido atribulado. Por um lado, têm havido mais horas de trabalho, e depois de um dia passado ao computador a olhar para folhas de Excel nem sempre apetece chegar a casa e ligar o computador para ainda vir escrever.

Nos fins de semana a última coisa que apetece é ficar em casa, e temos andado a aproveitar os últimos cartuchos de bom tempo para passear na praia, jardins, esplanadas, tudo o que tenha sol e ar.

Mas isso não significa que as leituras tenham parado, antes pelo contrário. Houve bastante leitura, embora nem toda tenha valido a pena. Estou finalmente com algum tempo para me organizar, por isso nos próximos dias irei partilhar as coisas que andei a ler por aqui.

Entretanto fica um brinde ao fim do Verão, que na realidade só acaba quando eu quiser.

A Vegetariana ou o mundo dos sonhos

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Falei há uns tempos no vencedor do Man Booker International deste ano, The Vegetarian, e finalmente tive a oportunidade de o terminar. Mesmo agora que a versão traduzida para português está quase a chegar.

Foi um livro difícil de entrar a principio, e durante as primeiras páginas estive um pouco indecisa se gostava ou não do que lia. O primeiro narrador não é um personagem por quem se sinta simpatia, e as diferenças culturais são notórias e nem sempre fáceis de gerir, principalmente para nós mulheres. No entanto a história começa a desenrolar-se e a ser cada vez mais envolvente e leva-nos de arrasto pelo estranho mundo dos sonhos.

Na realidade o vegetarianismo não é o ponto central do livro e serve apenas como ponto de partida, ou se quisermos, como ponto de referência. Neste caso é um símbolo de quebra das normas e convenções, de asserção de individualidade pessoal e de como isso pode ser incómodo para os que nos rodeiam.

Até que ponto é fácil para nós seguirmos os nossos sonhos e as nossas convicções, ou estamos na realidade presos a ideias pré concebidas, e conceitos de normalidade e sobretudo a uma ideia muito generalizada de como a vida deve ser vivida e a que padrões devemos aderir. Até que ponto seguir indiscriminadamente um sonho sem apoios acaba por nos poder levar à loucura.

Um livro que é por vezes lindíssimo, com imagens de pura beleza, principalmente no segundo capítulo, noutras vezes frio e brutal, lê-se num sopro e deixa-nos a pensar.

Recomendo a todos que gostam de histórias pouco convencionais, do colorido asiático e de reflectir.

Goodreads Review

“Perhaps this is all a kind of dream” She bows her head. But then, as though suddenly struck by something, she brings her mouth right up to Yeong-hye’s ear and carries on speaking, forming the words carefully, one by one. “I have dreams too, you know. Dreams… and I could let myself dissolve into them, let them take me over… but surely the dream isn’t all there is? We have to wake up at some point, don’t we? Because… because then…”

O que aí vem de novidades

A vegetariana

O Observador na sua newsletter diária enviou-me hoje uma lista muito pormenorizada das novidades que posso esperar das nossas editoras para esta reentré. Achei interessante e estava bem estruturado, e assim deu para ter uma ideia do que se vai passar nos próximos tempos.

Uma das coisas que registei com agrado é que a vencedora do International Man Booker vai ser editada pela D. Quixote agora em Setembro (na foto). Eu terminei neste momento a versão em inglês e a gostei muito (critica em breve), por isso fiquei contente por saber que está a chegar a versão em português.

Também vi por lá outros dos nomeados deste ano, o que quer dizer que o nosso mercado está atento e em movimento. Outra coisa que me agradou foi ver muita poesia na calha. Nunca há demasiada poesia, e diz que vem lá um novo livro da Adília Lopes.

Nem os livros infantis escaparam desta mostra de edições, que vai até Novembro. É só espreitar.

Caminhar por uma causa

Portugal N S Nariz Vermelho

Quase no inicio deste blog falei aqui dum livro em que o autor caminhou de norte a sul dos Estados Unidos para protestar contra a construção dum enorme oleoduto e do seu impacto ambiental. Caminhar por uma causa é algo recorrente, basta ver as inúmeras caminhadas organizadas nas mais variadas temáticas, cancro da mama, colour run, corrida da mulher, e podíamos ficar aqui o resto do dia.

Este ano descobri no Facebook uma caminhada mais solitária, mas nem por isso menos solidária, divertida e animada. A Teresa propôs-se a caminhar Portugal de norte a sul de nariz vermelho exactamente para angariar fundos para a Operação Nariz Vermelho.

Diariamente vamos seguindo as aventuras da Teresa pelas cidades onde passa, as pessoas que a acolhem e podemos mesmo ouvi-la na RDP internacional. Mas mais importante ainda, podemos “juntar-nos” a ela contribuindo para esta causa na página que está associada ao projecto, aqui.

Quando vejo os seus posts diários penso nas enormes diferenças para o livro que li no inicio do ano. Não só Portugal é do tamanho dum pequeno estado americano, como a Teresa pode andar livremente por (quase) todo o seu território sem ter medo de levar um tiro por invasão de propriedade privada. Por outro lado não deve deparar-se com kilometros sem fim de paisagem sem intervenção humana.

Um projecto interessante, vão espreitar!

No País dos Sacanas

jorge-de-sena

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glandulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

Jorge de Sena 10/10/1973