Blade Runner 2049

Jared Leto

Hoje foi dia de ir ao cinema ver o Blade Runner 2049. Curiosamente só em Janeiro deste ano tinha colmatado a minha falha cultural e tinha visto o Blade Runner original graças ao Cinepop, mas fiquei rendida, mesmo sendo um filme de 1982 e sem a espectacularidade dos efeitos especiais de hoje em dia. Ou se calhar, por isso mesmo.

Quem segue o Peixinho sabe que tenho gostos muito ecléticos, mas ficção cientifica está no topo das minhas preferências. Da boa, daquela que nos faz pensar na posição do ser humano no mundo, no universo se quiserem, na nossa postura, na maneira como interagimos uns com os outros, com o espaço que nos rodeia, com as instituições politicas e religiosas. Quem acha que ficção cientifica são apenas naves aos tiros é porque está confinado à visão que Hollywood nos quis dar, porque também é essa que vende.

Mas felizmente há muito mais para além disso, e boa ficção cientifica em todas as suas vertentes, é um dos ramos da literatura que se aproxima da filosofia. E o primeiro Blade Runner certamente é um exemplo disso. Baseado no livro de Philip K. Dick “Do Androids Dream of Electric Sheep” que já está alegremente no meu Kindle à espera de vez para ser lido. Se tiverem paciência para ler uma boa opinião sobre este fenómeno podem ler esta crónica do Observador, cujo autor conseguiu ser bem mais eloquente do que eu.

Mas de volta ao Blade Runner 2049, em que substituimos um muito convincente Rutger Hauer por uns valores seguros de Hollywood, o Ryan Gosling e o Jared Leto. E confesso que isso já me fazia ir com a pulga atrás da orelha. E na realidade encontrei exactamente aquilo que estava à espera. O filme é bom, visualmente continua a ser uma beleza, a música (já não de Vangelis, mas de Hans Zimmer) é espectacular e super adequada, e não se pode dizer que esteja sobrecarregado de efeitos especiais ou lutas infinitas, como os normais blockbusters do género (no entanto não vale a pena ser visto em 3D na minha humilde opinião).

Mas onde o primeiro era subtileza e suavidade, onde eramos conduzidos subtilmente a tirar as nossas próprias conclusões (ficou sempre no ar a pergunta se Deckard é ou não um replicant), neste somos levados pela mão quase como crianças e tudo nos é mostrado e explicado, nada nos é deixado à imaginação. Se calhar deve-se ao facto de eu já ter visto o director’s cut, sem a narração em off que tinha esse mesmo propósito, de explicar ao pobre público aquilo que estavam a ver.

E o monólogo final do Rutger Hauer “Tears in the Rain imprime um toque final de humanidade ao filme, que não esteve presente nesta sequela. Portanto, gostei mas não achei que tivesse o toque de genialidade da versão de 1982. Ainda assim, bastante melhor do que qualquer dos filmes que nos mostraram nas apresentações.

 

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Ler à Sombra das Palhinhas

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Outra vista da tapada que vimos numa das caminhadas

Os dois dias seguintes foram de descanso apenas. Manhã de caminhada pela aldeia a tentar conhecer o mais possível, ou ver pássaros típicos do interior alentejano, e depois na sesta praia fluvial.

A calma retornou ao local e conseguimos desfrutar de tranquilidade e despachar alguns livros à beira de água. Na realidade nestas férias vimos imensas aves diferentes e bonitas, como gaios, poupas e até umas abetardas passaram à frente do nosso carro, mas todas se esconderam diligentemente de cada vez que saí de casa de câmera em punho. Terão de acreditar na minha palavra.

O dia seguinte seria novamente de passeio, que ainda havia muitos tesouros escondidos por descobrir, venham até cá para saber tudo.

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Há vestígios de estruturas da mina escondidos por toda a parte
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Apesar do calor, as cores do Outono já se insinuavam.
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O sol a pôr-se nas traseiras da aldeia.

Finalmente, a Mina

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As Oficinas, mesmo à entrada das ruínas da Mina.

E ao terceiro dia seria tempo de descansar? Ainda não.

Ora um dos motivos de interesse de estarmos na Mina de São Domingos é exactamente o que lhe deu o nome. Por isso toca a levantar cedo (mais coisa menos coisa) e ir conhecer as ruínas da Mina, que além de tudo são um local interessantíssimo para fotografar. A mina esteve em laboração muito tempo, mas as edificações que se podem ver pertencem ao período em que foi explorada pela empresa inglesa Mason & Barry, de 1858 a 1966. É também um bom local para observação de aves, principalmente a zona da Achada do Gamo (ficará para outras núpcias)

Se pensarem visitar a mina aconselho alguma investigação prévia. Por exemplo aqui encontram um mapa do local e aqui encontram mais informação. Isso evita que andem como nós, baratas tontas debaixo dum sol escaldante, já que a informação no local é escassa, está dispersa e por vezes em locais pouco intuitivos. Regressámos sem nunca ter visitado a parte que está na Achada do Gamo, mas isso é apenas mais uma razão para voltarmos. Aconselho também calçado confortável. Eu tinha umas sandálias de caminhada e chegou, mas se tivesse ido de havaianas não me tinha dado bem, que o terreno é acidentado e cheio de coisas perigosas. E como sempre, muita água, que o sol alentejano, mesmo em meados de Setembro, não é para brincadeiras.

De resto têm diversos percursos que podem seguir, imensas ruínas interessantes. Fico sempre fascinada a pensar como seria tudo aquilo quando a mina estava em plena laboração e havia um caminho de ferro, uma indústria, importavam-se trabalhadores. Aconselho vivamente uma visita.

À tarde fomos finalmente espreitar a praia fluvial e a aposta foi ganha. Passada a euforia do fim de semana associado a fim de quinzena, ao que se juntou o fim da época balnear, o Peixinho estava no seu elemento, um sítio calmo e com pouca gente. A praia é muito arranjadinha, com chapéus de palha gratuitos à disposição, a água muito limpa e a envolvente bonita. Pessoalmente tinha dispensado a RFM toda a tarde aos berros na esplanada, mas nos dias seguintes fui para uma palhinha mais longe e isso deixou de ser problema. A Tapada Grande, nome dado à albufeira, foi também legado deixado pela empresa mineira, que precisava de muita água para o seu processo de extração de minério.

Mas assim ficámos o resto da tarde pacatamente a retemperar forças. Os próximos dias não iriam ser muito diferentes disto, passadas debaixo das palhinhas a ler preguiçosamente os livros que trouxemos na mala. Venham até cá que conto-vos tudo.

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Um pormenor da zona das oficinas
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A corta, zona que era explorada a céu aberto em diversos patamares e que está hoje cheia de águas ácidas e contaminadas
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Um pormenor da água que enche a corta
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O malacate, engenho hidráulico que servia para retirar água da zona de corte.
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Malacate
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As oficinas
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O cais da mina
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A central eléctrica
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Fim de tarde, recuperar forças na praia fluvial.

Serpa é já ali em cima

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A típica paisagem alentejana que nos acompanhou em todos os passeios.

Como disse no dia anterior, mais uma vez comecei as férias doente. Desta vez, num almoço fora ainda no trabalho apanhei uma virose qualquer que me fez ficar com um piquinho de febre e uma relação muito próxima com todas as casas de banho dos sítios onde íamos parando na viagem. Neste segundo dia acordei mais arrebitada, já sem febre, e pronta a ir rumo a Serpa, para juntar um dia de passeio com as necessárias compras. Mas primeiro faríamos um desvio até ao Pulo do Lobo.

Desde os tempos de faculdade que tinha curiosidade em conhecer este acidente geológico, onde o poderoso Guadiana é estrangulado numa cascata de pouco mais de um metro de largura, tão estreita que um lobo poderia atravessar de um salto, e daí o seu nome. Indo pelo lado de Serpa, como nós fomos, encontramos uma paisagem imponente, mas para chegar à cascata propriamente dita ainda é uma caminhada íngreme por mau caminho. Noutras circunstâncias teríamos ido lá abaixo, mas estava muito calor, estávamos sem água, e ficámos a meio caminho. Mas dava para ver que indo por Mértola se fica mais perto de água. Fica para a próxima. No entanto, valeu muito a pena pelo cenário que encontrámos, dramático, e como estávamos do lado “errado”, tivemos a vantagem de estarmos praticamente sozinhos a desfrutar daquele pedaço de paraíso. Um luxo nos dias que correm.

Paragem seguinte, Serpa. Já era perto da hora de almoço e eu já estava furiosamente a pesquisar restaurantes, acabámos por ir parar ao Alentejano, depois de termos sido rejeitados sem cerimónia pelo Molhó bico, e de eu ter andado a fazer um circuito de WC de cafés pelo centro da vila (todos limpinhos, fiquei impressionada). O Alentejano foi uma categoria, com umas belas bochechas de porco estufadas, que obviamente não devia ter comido, mas fui incapaz de resistir. Ao menos caíram bem. O pão de rala da sobremesa não impressionou, mas se calhar foi pelo meu sentimento de culpa a comê-lo.

Depois foi passear pelo centro de Serpa, o seu Castelo, o aqueduto, caminhar nas muralhas. Vale muito a pena, é muito bonito. O museu no castelo está muito bem conseguido, com um filme explicativo de muita qualidade e que vale a pena perder 5 minutos a ver. É incrível como cada vez mais por este Portugal interior se encontram equipamentos muito bem conseguidos (obrigada fundos comunitários bem aplicados por gente com vontade) que nos ajudam a perceber a nossa história, geologia, biologia. Pena não haver mais gente a desfrutar deles, que na maioria das vezes são gratuitos ou a preços irrisórios.

Depois duma tarde a desmoer bochechas e pão de rala debaixo do sol inclemente do Alentejo, hora de voltar para o ponto de partida. Deixo aqui nota alta para a qualidade das casas de banho, nas quais fui parando frequentemente. Dia seguinte, mais passeata.

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O Pulo do Lobo, aquela garganta estreita ali ao fundo
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As bochechas, deliciosas.
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Hilarião, hilariante. Cada terra com seu santo.
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E com o seu motivo de orgulho.
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Estive tão tentada a usar o elevador. Mas acabei por ter vergonha.
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Uma vista dos telhados circundantes, uns mais criativos que outros.
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Alentejo até perder de vista.
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O interior do Castelo, depois de termos passeado pelas muralhas.
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Cá fora, rodeando Serpa, o Aqueduto. Impressionante.
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Ainda o Aqueduto.

Rumo a Sul

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A igreja da aldeia

Depois de ter começado a ilustrar estas férias exactamente pelo fim, está na altura de voltar ao principio, e esse foi há já algum tempo, mais concretamente um sábado a meio de Setembro.

Finalmente era tempo da última prestação das férias deste ano, e mais uma vez íamos para fora cá dentro. Este ano tínhamos pensado em conhecer zonas novas, e Mértola já há muito que andava na nossa mira. Acabámos por nos decidir por Mina de São Domingos por causa da praia fluvial, já que peixinho que se preze tem de estar ao pé de água.

Como sempre, investigamos a zona previamente, porque faz parte do prazer da viagem, e tracei um plano para as férias, completamente flexível e adaptável ao que fôssemos encontrar e ao que nos apetecesse fazer na altura. Sábado saímos directamente do tai chi para 3 horas de viagem para o remoto interior do baixo Alentejo. A viagem foi muito agradável, o calor de Setembro é mais reconfortante que abrasador e tudo decorreu com tranquilidade, apesar das cegonhas já terem partido.

Mas quando chegámos ao destino esperava-nos uma surpresa. O sitio que antecipavamos que fosse calma e pacatez, estava cheio que nem um ovo. Imaginem conduzir 3h por estradas semi desertas e no fim chegarem à Fonte da Telha num domingo de Agosto. Foi o que nós sentimos. Ainda fomos à esplanada da praia fluvial beber uma água, mas não havia 1 cm de areia disponível, nem vontade de entrar na confusão. A própria água tinha mais pranchas de padel e gaivotas que pessoas.

Teríamos de mudar os planos. O domingo não ia ser passado tranquilamente na praia, até porque supermercado só a 40 km, por isso o dia seguinte seria de passeata.

Por agora, foi voltar para o que seria a nossa casa nos próximos dias e recuperar a forma, até porque pela milionésima vez este ano, estava a começar as férias doente.

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A vista da nossa casa.

Miró e os Livros

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Pormenor duma tela, ou como o Miró afinal conhecia o Peixinho. 

Resolvi começar a contar as minhas aventuras destas férias exactamente pelo fim, que foi o dia de hoje. Depois de uma semana no Alentejo com alguns contratempos pelo meio, esta manhã decidimos ter um tempo cultural. Já que tinha perdido a exposição do Miró em Serralves, desta vez não quis deixar escapar a oportunidade de a ver na Ajuda, por isso foi por lá que começámos o dia.

A exposição não é grande, apesar de ter 85 obras, mas creio que é bastante representativa de vários momentos da evolução deste pintor. O enquadramento dado pelo Palácio da Ajuda é também uma mais valia, uma espécie de casamento entre o antigo e a modernidade. Eu gostei muito, mas também seria difícil não gostar já que sou uma grande fã de Miró desde que via reproduções de quadros dele nas paredes da casa dos meus padrinhos. Por isso, para mim, está sempre associado a boas recordações. Achei também que era adequado no meio de tantas convulsões independentistas catalãs ver um pintor que era conhecido pelo seu orgulho catalão.

Depois da exposição vista, aproveitámos estar na zona para irmos até à Festa do Livro em Belém, mais para aproveitar e conhecer os jardins do Palácio de Belém, onde nunca tínhamos ido, do que propriamente comprar livros. Pelo menos, esse era o propósito inicial, juro que tinha a firme ideia de não comprar nada, mas foi claramente prova não superada. Eu e as pechinchas, ainda para mais quando aliam livros e viagens. Não resisti. Mas gostei muito da iniciativa, os jardins são lindíssimos, o facto de só estarem à venda autores portugueses foi um apontamento muito curioso e pertinente, o ambiente esta óptimo, ainda para mais com o Grupo Dixie da Banda da Armada que nos acompanhou durante todo o tempo que lá estivemos foi um bocado muito bem passado. Se forem ao Instagram do Peixinho vêm um bocadinho da atuação.

Cereja no topo do bolo foi que pudemos sair pelo Jardim Botânico e Tropical e ainda dar um pequenino passeio por lá, desfrutando das sombras e dos recantos escondidos.

A Festa do Livro está só até hoje, mas o Palácio de Belém e o Jardim são visitáveis noutras alturas e eu aconselho vivamente.

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A Festa do Livro, com a banda lá ao fundo.
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Depois vos digo se valeu a pena 😉

7 dicas para navegar no Netgalley

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Como percebem pelas reviews que faço aqui no Peixinho, muitos dos livros que leio vêm do Netgalley. Como vos disse nesse artigo, o site tem imenso potencial para nos fornecer livros interessantes de autores que gostamos, novos autores de géneros que nos interessam e entretenimento em geral.

No entanto, para quem está a começar pode ser muita informação, e receber muitas respostas negativas dos editores pode desmoralizar até os mais persistentes. Eu bem sei que houve alturas em que me apeteceu mandar emails de volta com algumas respostas menos simpáticas (Bill Bryson e Neil Gaiman ainda me doem no coração). Mas há pequenas coisas que podemos fazer para melhorar as nossas possibilidades de nos aprovarem para os livros que queremos mesmo. Este artigo recente da Curly fez-me compilar aqui um pequeno guia de dicas para navegar no Netgalley:

1.  Investir na Bio. Tal como um CV , os editores vão olhar para a informação que está na nossa Bio para saber se vale a pena dar-nos a ler o seu livro ou não. A minha primeira versão era muito simplista e pouco mais elaborada do que “eu gosto muito de ler”, por isso as rejeições eram frequentes. Especialmente porque eu ainda não tinha nenhum historial no site. Neste momento tenho um texto simples e resumido com 130 palavras, mas que diz claramente onde publico as minhas criticas (com links) e quais os meus interesses em geral, e os efeitos nas aprovações foram muito positivos.

2. Ter uma boa percentagem de feedback (review de livro pedido). O site aconselha 80%, eu neste momento tenho 87%. Quando comecei todos os livros me pareciam interessantes e oportunidades a não perder, por isso acabei por pedir imensos sem terminar nenhum. Isso fez com que a minha percentagem de feedback fosse zero por muito tempo, e todos os livros que pedia eram-me recusados. Tive de ler e fazer criticas sem intervalos durante mais de 2 meses até um livro me ser novamente aprovado. Neste momento sou mais racional e tento não pedir livros às editoras se ainda não revi os que me foram atribuídos o mês passado.

3. Não é preciso ter um blog para ter acesso ao Netgalley. Podemos apenas ser os chamados Consumer Reviewer (I review on sites like Goodreads and Amazon) e tendo em conta que o meu blog é em português eu ainda hoje me mantenho nessa categoria.

4. Não se prendam muito com erros gramaticais e de formatação do livro. São ARC’s (advanced reading copy) o que significa que esses pormenores ainda não foram finalizados para publicação. Foquem-se essencialmente no conteúdo. Se bem que sinceramente apenas apanhei 2 ou 3 exemplos em cada livro, nada de chocante.

5. Ser honestos no feedback. Eu nunca digo que gostei dum livro se não gostei. No entanto esforço-me por ser cortês e delicada, mesmo quando estou a dar apenas 1 ou duas estrelas. Por vezes é o próprio autor que fornece as cópias, e estão com certeza muitas horas de trabalho e dedicação investidas por trás daquele livro, convêm levar isso em conta. Da mesma forma é de bom tom colocar na review que o livro foi fornecido gratuitamente pela Netgalley (nalguns países é mesmo um requisito legal).

6. Fazer o download do livro para o kindle assim que o pedido for aprovado. Os livros têm uma archiving date e depois dessa data já não podem ser descarregados, no entanto ainda se podem ler se já estiverem no dispositivo e pode à mesma fazer-se a critica para o editor.

7. Por último aproveitem ao máximo as potencialidades e as leituras que o site vos pode proporcionar. E tenham algum cuidado em ler a descrição do livro antes. Eu tenho tido excelentes surpresas e coisas boas, é só saber evitar o que pressentimos que não nos vai agradar. Mas confesso que tenho uns quatro livros que nunca me consegui obrigar a ler porque eram demasiado chatos. E sinceramente, a vida é demasiado curta para fazermos fretes em coisas que não são obrigações, por isso passei aos seguintes.

Boas leituras!

Feira da Luz

Até 24 de Setembro vai estar no Largo da Luz em Carnide mais uma edição da Feira da Luz, que é como dizer que a aldeia desce á cidade. Temos vendedores de especiarias, loiças e tuperwares, lado a lado com artesanato e alguma (pouca) contrafacção. Tudo isto apimentado por música popular portuguesa nos altifalantes, e concertos ao fim de semana.

Podem ver toda a programação aqui, para ter a certeza que não perdem nada de importante. Eu sugiro uma fartura,  uns pães com chouriço (há restaurantes com grelhados para quem procurar algo mais substancial), e umas voltinhas a ver as vistas. Se precisarem de colheres de pau também estão no sítio certo.

Para mim a Feira da Luz é um ritual que eu fazia anualmente com a minha mãe, e que ela fazia com a minha avó muito antes de eu existir. É um regresso à infância e por isso agridoce, porque relembra o que já perdi. Por isso a importância de criar novos rituais e rumar até lá com amigos, beber uma ginjinha e fazer uma saúde.

Vão até lá dar uma espreitadela e entrem num mundo paralelo mesmo dentro da cidade.

Feira da Luz 01
A banca dos chás e especiarias
Feira da Luz 02
Testemunhos doutros tempos
Feira da Luz 03
A reinvenção do sabão macaco

Tempo de Voltar

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Uma loja típica

Enquanto escrevo estas linhas estou já embalada pelos movimentos pendulares de volta para casa. Hoje foi o nosso último dia no Porto, embora só vá passar isto para o blog daqui a algum tempo, não quis deixar de escrever já as últimas impressões.

Depois dos dois dias intensos de visitas e caminhadas e passeios, sobre os quais ainda nem tive tempo de reflectir, hoje foi um dia mais calmo, finalmente. Deixar o nosso apartamento que se tinha tornado uma casa (sítio acolhedor, antigo quartel de bombeiros redecorado, aconselho muito), mochila às costas e dar as últimas voltinhas na cidade que já deixa saudades. A pergunta que se faz sempre que se sai de casa (seria capaz de viver aqui? não sei). Como sempre nos últimos dias, tínhamos um planos gastronómico em mente. Faltava comer a francesinha obrigatória em cada visita. Desta vez, de GPS na mão, íamos em busca do Café Santiago. Dá última vez que estivémos no Porto, há 3 anos, assim que chegámos largámos num sprint Rua de Santa Catarina acima para ir experimentar o Bufete Fase, porque a parva que viu o caminho só viu que era ao cimo da rua, e esqueceu-se do pequeno pormenor de ver a escala. Deixem que vos diga que eram 1.6 km do sítio onde estavamos hospedados, e onde já chegámos à hora de almoço. Largámos em passo rápido, e só depois percebemos que não estávamos assim tão perto. E quando lá chegámos, bofes de fora… o Bufete Fase estava fechado para férias. E naquela zona já não havia nada aberto. Não há palavras que descrevam o nosso desalento.

Este ano não fizémos sprint, era cedo, e estavamos a 550 metros do Café Santiago, que era o escolhido, nosso e da Time Out. Quando o GPS nos indica que chegámos, e nos deparámos com um café fechado para obras, íamos tendo uma apoplexia nervosa. Já era quase meio dia e um quarto, e o que vale é que tínhamos tempo até ao comboio. Plano b, Capa Negra, largámos a caminho, mas eis senão quando, falso alarme e lá está outro Café Santiago, com UMA mesa acabadinha de vagar mesmo para nós (a que horas é que alguém começou a comer uma francesinha para estar terminado às 12:15?).

E pronto, foi um pedacinho de céu. 5 minutos depois estivémos tentados a pôr um papel na janela a dizer: trespassa-se mesa à janela por 50€, tal era o número de pessoas lá fora à espera, mas aguentámos estoicamente a pressão e deliciamo-nos com duas belas francesinhas. Agora podemos esperar mais dois ou três anos, que aquilo é demasiado forte para se comer muitas vezes.

O resto da tarde foi passado em calmaria, que tanta carne não nos deixa andar assim tão rápido. Fomos até aos Poveiros beber café, andámos até ao Bolhão, em eternas obras de melhoramentos, passeámos nos Aliados, Igreja da Trindade. Entretanto eram horas para o Alfa de regresso, e agora enquanto o Peixinho Vermelho dorme tranquilamente eu vou pondo a leitura em dia.

Adeus Porto, até breve.

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Porquê açúcar na água com gás?
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A francesinha!
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A dona do Bolhão
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Igreja da Trindade

O Comboio a Vapor

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A locomotiva a vapor

A nossa ida ao Porto teve como principal motivação andarmos no Comboio Histórico do Douro, que percorre o troço entre a Régua e o Tua num comboio com uma locomotiva a vapor de 1925 e várias carruagens todas recuperadas que vão desde 1908 a 1932, com a paisagem daquela zona que não preciso de relembrar que é património da Unesco.

Foi mais um dia que começou cedo, com uma ida até à Campanhã para apanhar o Interregional do Porto para a Régua, e confesso que me senti numa viagem no tempo ainda antes de entrar no Comboio Histórico. As carruagens em que estávamos não deveriam ser muito mais recentes que aquelas em que iríamos entrar (vá, passe o exagero, pelo menos já não eram de madeira), mas não estavam sequer recuperadas. E senti-me em pleno autocarro da Carris, tal era o número de pessoas em pé. Com a diferença que o percurso ainda eram duas horas, e o comboio consegue dar mais solavancos que o condutor do 758, coisa que eu achava impossível até à data.

Mas lá chegámos inteiros à Régua, e com tempo de dar mais uma caminhada à beira-rio, apesar do calor não convidar muito a grandes aventuras. Fomos almoçar ao Maleiro, e mais uma vez chegámos pouco depois do meio-dia a um restaurante já cheio. Esta obsessão de almoçar à hora do pequeno-almoço recorda-me o meu Tio Adelino, cuja epítome de ir almoçar fora era estar a sair do restaurante à 1 da tarde, para regressar a correr para casa e ainda ter tempo de dormir a sua sesta e apanhar a novela da tarde. True story. Por isso já estamos avisados destes horários a norte do Mondego, e raramente somos apanhados desprevenidos.

Mas valeu a pena, porque assim tivémos tempo de ver a locomotiva a abastecer de água, e fazer várias manobras sempre a apitar, para gáudio de todos os presentes. Foi engraçado ver vários adultos, incluindo uns senhores espanhois, funcionários da Renfe, comportarem-se novamente como garotos de 8 anos a brincar aos comboios. É dificil não nos contagiarmos com a alegria que impera naquela estação antes da partida do comboio.

Apesar de termos comprado os bilhetes na net, sem conhecimento prévio das carruagens, tivémos sorte e a nossa era das mais bonitas e mais espaçosa, de 1912. Todos os pormenores estavam muito bem recuperados até ao apito da locomotiva que soou o dia todo por aquele vale.

Por cada sítio que passávamos as pessoas ficavam encantadas. Devia ser um postal bonito a paisagem do Douro com um comboio a vapor, uma verdadeira viagem no tempo. Da minha parte, eu gostei verdadeiramente, incluindo de todos os pormenores adicionados para dar mais valia à viagem. Os moços vestidos a rigor, o grupo de música tradicional, o cálice de Porto, as paragens no Pinhão e no Tua. Apenas perto do Tua temos de ter o cuidado de desviar o olhar para não parar o nosso coração com aquele crime ambiental que está lá, bem patente, qual orgulho nacional da nossa obsessão betoneira, a barragem que destruiu o Tua e o seu vale, que poderiam ser ainda mais belos do que aqueles que estávamos naquele momento a percorrer.

Acabámos a viagem cansados, principalmente pelo calor, mas com um sorriso no rosto. Claro que depois ainda nos esperavam mais duas horas para o Porto numa carruagem sem ar condicionado e sem janelas, e chegar à Campanhã às 10h da noite ao mesmo tempo que tinha acabado o jogo no Dragão. Nessa altura já nem falávamos e acho que estavamos em meditação interna para tentar chegar vivos a casa.

Mais um dia se tinha passado, cansados mas contentes.

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Caminhar à beira-rio na Régua
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As carruagens mais recentes
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O seu interior, impecavelmente restaurado
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A nossa carruagem
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Os nossos bancos eram, obviamente, os de madeira.
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O aviso em todas as janelas.
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O cuidado em todos os pormenores.