Não Posso Adiar o Amor

antonio_ramos_rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa, in “Viagem Através de uma Nebulosa”

 

Pequeno Poema

sebastiao-da-gama

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais…
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém…

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe…

Sebastião da Gama, in ‘Antologia Poética’

À Luz da Lua

antonio-nobre-1

Iamos sós pela floresta amiga,
Onde em perfumes o luar se evola,
Olhando os céus, modesta rapariga!
Como as crianças ao sair da escola.

Em teus olhos dormentes de fadiga,
Meio cerrados como o olhar da rola,
Eu ia lendo essa ballada antiga
D’uns noivos mortos ao cingir da estola…

A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
Cobria com os seus os teus cabellos
E dava-te um aspeto de velhinha!

Que linda eras, o luar que o diga!
E eu compondo estes versos, tu a lel-os,
E ambos scismando na floresta amiga…

António Nobre, in Só

o início

ondjaki

segui a lesma. a baba dela parecia um rio de infância perdido no tempo. escorreguei no tempo.

nesse rio havia um jacaré. a fileira enorme de dentes lembrou-me uma pequena aldeia cheia de cubatas [talvez a aldeia de ynari];

adormeci na aldeia.

ouvi um barulho – era a lesma a sorrir.

o sorriso fez-me lembrar um velho muito velho que escrevia poemas. os poemas eram restos de lixo que ele coleccionava no quarto ou no coração das mãos.

abracei o velho. quase que eu esborrachava a lesma.

Ondjaki in materiais para confecção dum espanador de tristezas

Os Amigos

jose tolentino mendonça

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino Mendonça in “A noite abre meus olhos – Poesia reunida”

Prelúdio

patricia Baltazar

Espero vir a conhecer o circuito das nuvens para calçar os passos da chuva e tocar as casas, os Homens. As árvores.

Sempre tive pressa de amar em tudo. De amar tudo. Tratar as feridas, lembrar-me de cicatrizes. Não olhar para trás quando o deserto está na frente. Amá-lo também.

Hei-de estar numa nave altíssima a ver tudo. Espero.

Espero também conhecer o Sol de perto para aquecer o sangue dos que estão tristes.

Hei-de soprar as folhas dos Plátanos, ternamente, muito devagar, para que as crianças lhes peguem e sejam felizes nesse instante. E sempre. Enviar boas sinas para as mãos delas.

Ver a vida da galáxia imensa que existe depois. Chamar a paz.

Espero. Espero a luz chegar.
E espero não voltar.

Patricia Baltazar in A rh — (sanguis languens), 2016

Canção de Primavera

jose-regio

Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
Pois que Maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar, flor, já não dou.

Eu, cantar, já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul, calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.

Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arrepio…
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio.

Eu, Maio, já não tenho. Mas tu, Maio,
Vem com tua paixão,
Prostrar a terra em cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já não.

Que eu, dar flor, já não dou; cantar, não canto;
Ter sol, não tenho; e amar…
Mas, se não amo,
Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

José Régio

Poema

 

Antonio Maria Lisboa

Para o Mário Cesariny

Moveu-se o automóvel – mas não devia mover-se

não devia!

 

Ontem à meia-noite três relógios distintos bateram:

primeiro um, depois outro e outro:

o eco do primeiro, o eco do segundo, eu sou o eco do terceiro

Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começam

Pregões de varina sem peixe

– o peixe morreu ao sair da água

e assim já não é peixe

Assim como eu que vivo uma VIDA EXTREMA.

António Maria Lisboa