O Esterco do Mundo

jose tolentino mendonça

Tenho amigos que rezam a Simone Weil;
Há muitos anos reparo em Flannery O’Connor

Rezar deve ser como essas coisas
que dizemos a alguém que dorme
temos e não temos esperança alguma
só a beleza pode descer para salvar-nos
quando as barreiras levantadas
permitirem
às imagens, aos ruídos, aos espúrios sedimentos
integrar o magnífico
cortejo sobre os escombros

Os orantes são mendigos da última hora
remexem profundamente através do vazio
até que neles
o vazio deflagre

São Paulo explica-o na Primeira Carta aos Coríntios,
«até agora somos o esterco do mundo»
citação que Flannery trazia à cabeceira

José Tolentino Mendonça in “A noite abre meus olhos – Poesia reunida”

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Colheita de 98

jose-miguel-silva

Comprei ontem no supermercado
uma garrafa de maduro tinto do Ribatejo.
Se o rótulo não mente, estou perante
um vinho de cor granada, um corpo excelente,
sabor e aroma muito acentuados,
com alguma evolução e persistência.

Talvez não seja o Bem, a Beleza, a Verdade,
mas é melhor do que a minha vida incorpórea,
caprichosa, sem evolução,
de cor avinagrada e aroma nenhum.

Além disso é garantido por testes laboratoriais,
enquanto eu – quem me garante o quê?

José Miguel Silva

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goncalo m tavares

A história da dança não é, não pode ser, o Percurso dos Movimentos traçado no chão.

É, tem de ser, o Percurso dos Movimentos Traçado no ar.

Acreditar que os Pássaros são resto de COREOGRAFIAS. Imagens do corpo que ficaram atrás, suspensas.

(As nuvens ainda, tudo o que é alto, o céu.)

Os pássaros são restos de COREOGRAFIAS.

Gonçalo M Tavares in o Livro da Dança

De Profundis Amamus

cesariny

Ontem às onze fumaste um cigarro encontrei-te sentado ficámos para perder todos os teus eléctricos os meus estavam perdidospor natureza própria
Andámosdez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não
faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

 

Mário Cesariny

Blues da Morte de Amor

vasco-graca-moura

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

Vasco Graça Moura

Genocídio Poético

claudia r sampaio

Pudesse eu arrebatar-vos
com o que escrevo
ver-vos em fila a tombar que nem
tordos
queda em dominó à escala mundial

pudesse eu espetar-vos os dedos nos olhos
cegar-vos, mutilar-vos
arrancar-vos uma unha em cada sílaba
dilacerar-vos em cada letra
comer-vos um dia de vida à dentada por cada

pensamento meu
que vos explodissem as almas, as casas
e os carros
os empregos e as contas, o sexo
e o nexo
que vos acabasse o rumo, a certeza
a gentileza e a boa vontade

que se transformassem todos
num limão ainda mais amargo que eu
e que depois me espremessem
vocês, este mundo e os outros,
até ao meu infinito.

Cláudia R. Sampaio

Eu Não Tinha Nada de Felino

hmp

Eu não tinha nada de felino, tu sabias
que eu não tinha nada de felino.
Nenhum de nós se admirou quando
medi mal a distância e falhei o salto.
Enquanto ia no ar parecia que era
um salto bom, porém houve qualquer
coisa que correu mal e caí com estrondo
no chão. Ninguém riu. Não era caso
para rir. Grande ilusão ir pelo ar a pensar
que o salto podia ser bom, sem eu ter
nada de felino, sem nunca ter treinado,
sem fazer sequer aquecimento, sem
olho para medir distâncias. Saber medir
distâncias é uma coisa muito importante,
pode falhar-se a vida por milímetros.

Helder Moura Pereira