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Antonio Maria Lisboa

As formas, as sombras, a luz que descobre a noite

e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista

meus braços são dois espaços enormes

os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada

minhas pernas são duas árvores floridas

os meus dedos uma plantação de sargaços

a tua figura era ao que me lembro da cor do jardim.

António Maria Lisboa

A Divisibilidade: A Invisibilidade a Dois

luiza-neto-jorge

A mulher divide-se em gestos particulares
o homem divide-se também. Se o átomo é
divisível só poeta o diz.

a mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados.

dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.

A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos. Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação

Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.

Luiza Neto Jorge

Poema Inacabável

manuel-de-freitas

Many loved before us, I know
that we’re not new…
– podia começar assim,
com uma dessas canções
profanas e furibundas
a que se regressa sempre
nos partidos tempos da vida.

Mas não creio que o alento possa voltar
a ser o daquelas manhãs de Junho
em que uma despedida precoce ditou leis
que eu cumpri demasiado bem.
Que tem isso a ver contigo, dirás,
e a resposta cala-se no meu peito,

asfixia lentamente nas sílabas
do teu nome em forma de punhal,
enquanto eu, o próprio, ando por aí
a ver passar os navios que já não passam
e a preparar tabernas disponíveis
para a velhice que virá.
Já não sou, acredita, esse príncipe

de um reino que quis imundo e breve.
E sei agora que as algemas do amor
doem mais quando os pulsos mal abertos
calafetaram a memória numa travessa
sem espera. De pouco serve importunar-te:

és apenas o álibi dilacerante
de um poema que eventualmente terá
alguma coisa a ver comigo, nada
que mereça a pena que aliás nada merece.

E hás-de ter uma vida, uma família, um cão,
como toda a gente tem mesmo que não tenha,
inventando paliativos cheios de calor,
do sossego, que nunca curaram ninguém
da peste real do amor: esta vontade
de beber por mãos alheias o sangue derramado,
suspenso num sorriso em chamas
sobre o qual já tudo foi dito e ainda nada.

Que te protejam, na noite serrada,
as mais frias certezas e a boca da catástrofe
que não beijou nem quis o poema inacabável.

Manuel de Freitas

A Nuvem Prateada das Pessoas Graves

Rui Costa

Nem sempre se deve desconfiar das pessoas

graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,

os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão

depois.

Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo

dos pés e por isso do outro lado do mundo.

O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés

e mais longe ainda das mãos

que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos

se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.

Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias

quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas

pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo

que foram ou das pessoas que amaram.

Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no

chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas

pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.

Rui Costa in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves

Poema Verde

raquel

Não me peças para amadurecer
que não sou peça fruta,
sou peça de outra engrenagem,
e a vida não é árvore nem fruteira.
Depois ninguém sabe o que é a vida,
a vida vai-se fazendo,
ou vai-se sem mais,
sem chegar a ser inteira.
E eu quero continuar verde
como o mar, verde
como um poema de Lorca, verde
como o verde dos meus olhos, verde
apesar do comprimento dos dias, verde
às vezes de raiva, que com duas patas
também se pode ser cão, verde
por saber o que é a tristeza
e a inutilidade da alegria ao ponto de cortar os pulsos,
mesmo quando temos vários corações a bater fora do corpo.

Raquel Serejo Martins

É Por Ti Que Escrevo

antonio_ramos_rosa

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

António Ramos Rosa, in ‘O Teu Rosto’

Acto de Contrição

joao luis barreto guimaraes

Pela luz rara da garagem dois vultos
vão pôr o lixo. São velhos desconhecidos. Um
ao outro dão passagem (a
máscara de um cumprimento) esquivos na
escatológica arqueologia das misérias.
Homens de lixo na mão: exímios
a ocultar
versos da vida doméstica (quando
o gesto liso cabe ao avental abundante que os
devolve a casa). Há
em todo esse agravo uma redenção ferida
(um juízo resolvido) como que um
indulto lento.

João Luís Barreto Guimarães, in ‘Luz Última’

Dreamlessly

bukowski

Imagem daqui

old grey-haired waitresses
in cafes at night
have given it up,
and as I walk down sidewalks of
light and look into windows
of nursing homes
I can see that it is no longer
with them.
I see people sitting on park benches
and I can see by the way they
sit and look
that it is gone.

I see people driving cars
and I see by the way
they drive their cars
that they neither love nor are
loved –
nor do they consider
sex. it is all forgotten
like an old movie.

I see people in department stores and
supermarkets
walking down aisles
buying things
and I can see by the way their clothing
fits them and by the way they walk
and by their faces and their eyes
that they care for nothing
and that nothing cares
for them.

I see a hundred people a day
who have given up
entirely.

if I go to the racetrack
or a sporting event
I can see thousands
that feel for nothing or
no one
and get no feeling
back.

everywhere I see those who
crave nothing but
food, shelter, and
clothing; they concentrate
on that,
dreamlessly

I do not understand why these people do not
vanish
I do not understand why these people do not
expire
why the clouds
do not murder them
or why the dogs
do not murder them
or why the flowers and the children
do not murder them,
I do not understand.

I suppose they are murdered
yet I can’t adjust to the
fact of them
because they are so many.

each day,
each night,
there are more of them
in the subways and
in the buildings and
in the parks

they feel no terror
at not loving
or at not
being loved

so many many many
of my fellow

creatures

Charles Bukowski in Burning in Water, Drowning in Flame

O Pássaro da Cabeça (Versos Para Crianças)

manuel antonio de pina

Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.

Manuel António de Pina