Acabei de Ler – The Doll Maker

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O terceiro livro que li este ano foi o primeiro que verdadeiramente me entusiasmou. Mais uma oferta do Netgalley, escolhi-o essencialmente pelo titulo e pela pequena sinopse, porque me pareceu uma história diferente do habitual, e não estava enganada.

The Doll Maker apresenta-nos a história de Andrew e Bramber, duas pessoas diferentes e especiais mas que têm em comum o amor por bonecas de colecção, daquelas de porcelana feitas à mão. Na realidade, Andrew é o Doll Maker do título do livro, um mestre na sua arte. A história é-nos revelada lentamente, nada é dado antes de ser necessário, arte que se encontra perdida em tantos livros de agora, em que tudo é exposto preto no branco logo de inicio, como se os leitores não fossem capazes de relacionar conceitos, ler nas entrelinhas ou tolerar um pouco de ignorância inicial para ir descobrindo tudo a seu tempo, como quem desembrulha um presente.

Dentro deste livro temos ainda outro. Um livro de contos de Ewa Chaplin, uma fazedora de bonecas também, que escreveu estes contos que são tão fantásticos e grotescos como as bonecas que a tornaram famosa. Este livro é um dos favoritos de Bramber, e Andrew lê-o na esperança de a conhecer melhor. Acho que ambos se identificam com toda aquela estranheza e as histórias dão um pano de fundo às personagens principais, fazendo-nos vê-las com outros olhos, e percebendo as suas motivações.

Mas esta dualidade faz com que tenhamos que estar sempre a prestar muita atanção à trama, porque a menor distracção faz-nos perder o rasto aos personagens, ficar sem saber muito bem onde estamos, quer na história, quer geograficamente (Andrew está a fazer uma viagem por Inglaterra), quer cronologicamente, já que a vida das histórias principais vai-nos sendo revelada aos poucos sem nenhum marcador temporal para sabermos às quantas andamos.

Esta é uma história de amor, diferente e esquisita, mas é essencialmente um livro que nos fala sobre a diferença, sobre como sobreviver num mundo cheio de preconceito e julgamento sendo especial, e os mecanismos de sobrevivência que as pessoas desenvolvem. Foi um belissimo livro, uma mistura do fantástico com o real (há quem o considere ficção especulativa) que esteve comigo bastante tempo, como um tesouro.

Recomendo a todos os que gostam de histórias novas, diferentes, sobre o bizarro e o inexplicável, no fundo sobre todos nós.

Boas Leituras!

Goodreads Review

The third book I read this year was the first one that really excited me. It was another one requested on Netgalley, and I chose it essentially because of its title and description. It seemed to be an unusual story, and indeed it was.

The Doll Maker shows us the story of Andrew and Bramber, two very different and special people that share the love for collectible handmade dolls. In all fact, Andrew is the Doll Maker from the book’s title, or at least one of them, and he is a master in what he does. The story comes to us slowly, nothing is given before it is really necessary, and this was also an art. In most books nowadays we are told everything from the start, as if we could not think for ourselves or cope with the suspense of not knowing all the details immediately.

 Then there’s the book inside the book. Andrew is making a trip around the UK, and while he does so he reads the short story book from Ewa Chaplin, also a doll maker, and who is Bramber’s favourite author. He does so in the hopes to get some insight about Bramber, but while he is at it, he finds out the stories really relate to him on a very personal level. These stories help us understand some of the background for the main plot, historically, emotionally and help us understand the characters motivations.

 Due to this, we can never stop paying full attention while reading this book, as we might lose the plot, or stop understanding where and when we are in the main story. It is a challenge, as we are unaware of the exact timescales in which we navigate, but it is this challenge that makes this a great book.

This is a love story, but a different, special one. Essentially this book celebrates difference, how to embrace it and survive in a world full of prejudice and judgement, and the coping mechanisms we end up developing. This book was a treasure that stayed with me a long time.  

 I recommend it to all of those who like beautiful , weird stories, about the bizarre and the unexplained, which means about each and every one of us.

Happy Readings!

A Ulmeiro Renascida

ulmeiro

 

O Peixinho já se fartou de aqui falar da livraria Ulmeiro (nome correcto Livrarte, embora ninguém a conheça por esse nome), um alfarrabista/editor de Benfica que se encontrou em risco de fechar e que tem vindo lentamente a recuperar visitantes e a ser dinamizado. Podem ver artigos aqui e aqui.

Esta semana saiu mais uma notícia acerca deste renascimento, já que o dono e editor da Ulmeiro vai voltar à carga com novas edições de literatura portuguesa e brasileira. Para serem vendidos na livraria própria e não só.

Vai fazer também uma exposição sobre os 50 anos de história da sua editora na Fábrica do Braço de Prata sem data marcada ainda.

Eu fico muito contente por ver quando passo por lá diariamente no meu regresso a casa que a livraria tem sempre gente a desbravar aquelas largas centenas de títulos à procura dum tesouro especial. Eu própria já passei por lá muitas vezes, essencialmente em busca de poesia, mas ainda não encontrei o livro que me espera.

Se estiverem em Lisboa/Benfica passem por lá, vale a pena. Até lá, boas leituras!

Notícia e foto aqui.

Sai de Casa

Manuel Resende

Rasga este poema depois de o leres.

E depois espalha os bocados

Pelo vasto mundo

Ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,

Atira-o ao mar, deita-o ao lixo,

Para que venha o vento, o sol, a chuva, os homens do lixo,

Acabar com ele de vez.

Passado um dia,

Sai de casa e procura

Encontrá-lo de novo.

Manuel Resende in “O Mundo Clamoroso, Ainda”

Livros que Recomendo – A Laranja Mecânica

laranja mecanica

Aqui está um livro que antes de o ser era um filme. Na realidade, esta afirmação está incorrecta, porque o livro foi publicado em 1962, 9 anos antes da adaptação cinematográfica de Stanley Kubrick que o celebrizou. Mas passei a minha infância/juventude a ouvir os meus pais contar os filmes inovadores que tinham ido ao cinema ver depois do 25 de Abril, e este era um dos que eles falavam mais. Principalmente a minha mãe, que tinha ficado um bocadinho impressionada.

Por isso, e apesar de nunca ter visto o filme (imperdoável, eu sei), quase que vos conseguiria relatar algumas cenas de tantas vezes as ouvir descritas pela minha mãe. Não é de estranhar que assim que um exemplar de “A Laranja Mecânica” em livro chegou lá a casa eu não tenha perdido tempo em lê-lo. E não me arrependi.

Escrito por Anthony Burgess e publicado em 1962, o livro passa-se num futuro próximo e altamente distópico, onde todas as noites as ruas são tomadas por bandos juvenis de delinquentes, profundamente ligados às drogas, à moda e à música. Alex é o líder dum desses bandos e começamos a história seguindo as suas actividades, muitas delas duras e brutais. A escrita do livro é também original, já que está escrito num calão Nadsat, inventado por Burgess e baseado no russo e no inglês. É supostamente o calão usado pelos adolescentes que integram estes bandos. Se eu sou grande adepta de ler os livros anglo-saxónicos na sua língua original, neste caso teria sido tarefa hercúlea, já que mesmo em português era por vezes difícil seguir esta linguagem estranha.

Depois de ser capturado pela polícia, e continuar o seu caminho de violência na prisão, Alex é finalmente submetido a um tratamento de reversão inovador, e finalmente largado de novo na sociedade.

Burgess foi beber inspiração a muitos lados, desde acontecimentos violentos que a sua família experienciou, a outras obras de ficção como 1984 e Admirável Mundo Novo, e usando tudo isso criou esta obra que ainda hoje é referência para muitos. O filme de Kubrick, violento e alucinante, muito contribuiu para a divulgação desta obra, e eu definitivamente tenho de o ver um dia.

Recomendo a todos os pacientes com a diferença, tolerantes a violência escrita, porque no final de tudo serão presenteados com um livro que nos faz pensar sobre a nossa sociedade, totalitarismos, e outras coisas que continuam a ser relevantes hoje como em 1962.

Boas Leituras!

3 Anos de Peixinho

egon schiele
Egon Schiele – Still Life With Books

Sinto que ainda ontem comecei este projecto de vir aqui deixar as minhas ideias sobre livros que leio, e assim, num ápice já passaram 3 anos. Nestes anos falaram-se de muitos livros (não os contei, mas tenho a certeza que foram muitos). Livros que acabei de ler, livros que li na infância/juventude, livros que não devia ter lido.

Partilhei passeios a sitios exóticos e a sitios locais, todos pitorescos (pelo menos para mim) e com algo de especial. Partilhei espectáculos que vi, filmes que assisti. Mas mesmo assim o meu artigo mais lido no blog continua a ser este.

A minha vida mudou muito nestes 3 anos, e a previsão é que mude ainda mais durante 2019, mas cá estarei para dar conta disso.

E acima de tudo, desejo-vos Boas Leituras!

 

Páginas em Branco, cérebro parado

livro em branco

Estive a reler entradas antigas aqui do Peixinho para ver se existia um padrão nestes bloqueios de leitor que tenho recorrentemente. Aparentemente não, tanto se dão de Inverno como de Verão, quando estou mais triste ou mais contente.

Mas na realidade é como se pelo menos uma vez por ano o meu cérebro deixasse de cooperar e disse que tem de fazer um restart, como se faz aos computadores que começam a dar problemas.

Assim, em vez de ir confortavelmente a ler no autocarro, foi a olhar para janela perdida em pensamentos indolentes. Em vez de ler para adormecer vejo séries que nem gosto muito e das quais já não me lembro no dia a seguir.

Normalmente é temporário, e como obrigações já temos muitas, eu não me enervo muito com isto. O resto da série do Wheel of Time ainda estará no meu Kindle, bem como os livros do Netgalley que não consigo para de requisitar, e os eternos livros físicos na minha estante à espera de vez.

Até lá, vou espreitando o que os outros andam a ler.

Boas Leituras!

Homens Que São Como Lugares Mal Situados

Daniel Faria

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar

Daniel Faria in poesia quasi

Livros que Recomendo – Esteiros

esteiros

Já estava na altura de voltar a recomendar um livro de um autor português e desta vez uma obra do neo-realismo dos anos 40. Segundo alguns, das primeiras obras dessa corrente literária em Portugal.

Nos Esteiros seguimos a história de algumas crianças da zona de Alhandra durante um ano inteiro, acompanhando as quatro estações. Estas são crianças de famílias muito pobres, que não vão à escola, e que dependem da irregularidade do trabalho sazonal da zona. São crianças que passam fome, que por vezes têm de ser criativas para encontrar comida, mas às quais não faltam sonhos e desejo de liberdade. O suceder das estações mimetiza a regularidade das mudanças no modo de vida destas crianças, como um ciclo que se perpetua mas do qual não podemos fugir.

Cheio de desesperança, este livro impressionou-me, tal como o Meu Pé de Laranja Lima, pela realidade de infância que retratava, tão diferente da minha, tão longe de tudo aquilo que eu via à minha volta. Livros como este abrem-nos os olhos para determinado tipo de realidades, que aconteceram no Portugal de 1940, como acontecem ainda um pouco por todo o mundo, de modo mais ou menos escondido.

É um livro fácil de ler, cheio de acção e diálogos simples, como seria a própria vida destas crianças. Lê-se num sopro e ficamos mais ricos por isso.

Recomendo a todos os que gostam de autores portugueses, de ler sobre a nossa realidade, de histórias fortes bem contadas.

Boas Leituras!

Naturalidade

rui knopfli

Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável… Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.

Rui Knopfli, O país dos outros, 1959

Livros que Recomendo – Peito Grande Ancas Largas

mo yan

Mais uma vez escolho para vos recomendar um livro que li há algumas décadas. Ainda me lembro que nas minhas incursões na Feira do Livro havia sempre um livro que eu escolhia apenas porque a capa/título me chamavam a atenção, e este foi um deles. A beleza da capa e a estranheza do título, associadas a uma boa sinopse, fizeram-me levar este livro para casa e começar a lê-lo imediatamente. Anos mais tarde, em 2012, Mo Yan recebeu o Nobel da literatura e eu relembrei este livro, embora ainda não o tenha relido.

A beleza desta história não está na complexidade dos personagens, ou nos intrincados diálogos, mas sim no retrato da história e comoções sociais dum país, contados por dentro. Neste caso particular, Mo Yan conta a saga das mulheres da família Shangguan através da história da China no século XX. Muitas das descrições são duras e cruas, e muitas partes estão recheadas daquele realismo mágico que é tão característico de determinada literatura asiática, mas a visão abrangente que recebemos da evolução dum país vale muito a pena. Ainda passados todos estes anos me lembro da descrição acerca dos pés ligados da matriarca da família, da obrigação que foi passar por isso, e da desonra que isso passou a ser nos tempos da revolução cultural.

A invasão japonesa, a revolução cultural, os anos pós Mao, tudo vem retratado através da vida desta família e da sua adaptabilidade a um mundo em mudança. Muito bem recebido no mundo ocidental, não teve a mesma aclamação na sua China natal, e o autor foi mesmo obrigado a escrever uma auto-censura e o livro foi retirado de circulação. O modo cru como a realidade comunista foi retratada, bem como algum conteúdo de caracter sexual (o personagem principal tem um fetiche por seios) foram os principais motores desta reacção.

Recomendo a todos os que gostam de um livro de história imersa em História, os que gostam de realismo mágico, de literatura asiática, de bons livros em geral, ou têm a obsessão de ler todos os prémios Nobel.

Boas Leituras!