Roy Lichtenstein no Colombo

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À semelhança do ano passado em que o Colombo nos mostrou uma série de obras da Paula Rego e que o Peixinho deu conta aqui no blog, este ano a iniciativa “A Arte Chegou ao Colombo” traz-nos um dos pais da Pop Art, Roy Lichtenstein.

São 41 peças divididas em 4 categorias, por ordem cronológica e que são uma amostra representativa da obra do autor. A exposição pode ser visitada gratuitamente até dia 23 de Setembro, e é uma maneira de rentabilizar uma ida ao Colombo, para ser mais que uma tarefa que adormece o cérebro a ver montras sem fim.

Eu gostei bastante do espaço, o modo como cria um ambiente totalmente diferente da envolvente, e como se adequa perfeitamente às obras expostas. Aconselho a visita!

Roy Lichtenstein_03
Hopeless
Roy Lichtenstein_02
As I Opened Fire

 

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Diário

AnaSalome

 

A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.

Ana Salomé

Livros que Recomendo – A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao

oscar wao

O livro que recomendo hoje vem competir com o de Mário de Carvalho em tamanho de título aqui no blog. E acho que as semelhanças não terminam por aqui. Mário de Carvalho, e também Mário Zambujal são profundos conhecedores dum certo tipo de portugalidade e são exímios a descrever os nossos tiques sociais, se assim os quisermos chamar. E quando li este livro de Junot Díaz reconheci nele o mesmo conhecimento profundo das suas gentes, neste caso os dominicanos imigrados nos Estados Unidos.

Este livro fala-nos de Oscar, um jovem dominicano a viver nos Estados Unidos com a sua mãe, muito tradicional, e a sua irmã, rebelde e moderna. Oscar sonha em ser o Tolkien dominicano, e é um jovem nerd em todos os sentidos, vive isolado num mundo de fantasia, é extremamente sensível e sonha desesperadamente com encontrar o amor e dar o seu primeiro beijo. Acresce a isto o facto de ele acreditar que se encontra debaixo de fuku, a maldição caribenha que tem dominado toda a sua família, condenando-os a toda a espécie de infortúnios.

Toda esta história é envolvida no contexto sócio-cultural duma República Dominicana que se encontra debaixo da ditadura de Trujillo, as dificuldades da imigração e da adaptação às regras e à cultura dum novo país sem nunca abandonar os costumes do país natal.

Através das dificuldades amorosas de Oscar de Leon (verdadeiro nome de Oscar Wao), o autor aproveita também para fazer uma crítica subtil ao ideal machista e hiper masculinizado dos homens caribenhos, que precisam de muitas mulheres para se afirmarem, de trair, de muitas vezes ser violentos e agredir. Oscar, por seu lado, tem um ideal romântico e inatingível, e vai fazer por ele verdadeiros sacrifícios.

É um livro muito bem escrito, muito divertido, apesar da história não ser sempre fácil nem directa. Li a versão original, por isso não posso comentar a tradução, mas uma das riquezas deste livro é o uso de spanglish, uma mistura de inglês com espanhol, análogo ao nosso portunhol, bem como o uso de calão e de termos de cultura pop e de ficção científica, que não sei como ficarão traduzidos. Li-o vorazmente e quando terminei fiquei uns tempos a digerir o que tinha acabado de ler, a tentar processar todas as camadas de histórias dentro da história, e a sentir saudades dos personagens que me tinha acompanhado.

Vencedor do Pulitzer de 2008, recomendo este livro a todos aqueles que não têm medo de arriscar numa boa história, num livro diferente, que é muito fácil e muito difícil de ler, se é que isso faz sentido. Não se vão arrepender!

Goodreads Review.

Boas Leituras!

Like they say: Los que menos corren, vuelan.

Man Booker 2018

Man Booker 2018

Podemos dizer que desta vez é que é a sério. Depois de terem decidido qual o melhor entre os vencedores dos últimos 50 anos, que foi o nosso bem conhecido Paciente Inglês, O Man Booker volta à carga para escolher o premiado de 2018, e anunciou a sua lista de escolhidos.

Curiosamente Michael Ondaatje aparece selecionado novamente, mas será demais ganhar duas vezes no mesmo ano, ou não?

Ainda não li nem um dos selecionados, por isso não posso dar a minha opinião informada, mas, como sempre venho dizendo, entre eles estarão com certeza boas recomendações. A mim parece-me bem o Sabrina, por exemplo. Podem ver aqui o artigo original, e em baixo os nomeados.

Já leram algum, recomendam?

Belinda Bauer (UK), Snap (Bantam Press)
Anna Burns (UK), Milkman (Faber & Faber)
Nick Drnaso (USA), Sabrina (Granta Books)
Esi Edugyan (Canada), Washington Black (Serpent’s Tail)
Guy Gunaratne (UK), In Our Mad And Furious City (Tinder Press)
Daisy Johnson (UK), Everything Under (Jonathan Cape)
Rachel Kushner (USA), The Mars Room (Jonathan Cape)
Sophie Mackintosh (Wales, UK), The Water Cure (Hamish Hamilton)
Michael Ondaatje (Canada), Warlight (Jonathan Cape)
Richard Powers (USA), The Overstory (Willian Heinemann)
Robin Robertson (Scotland, UK), The Long Take (Picador)
Sally Rooney (Ireland), Normal People (Faber & Faber)
Donal Ryan (Ireland), From A Low And Quiet Sea (Doubleday Ireland)

Boas Leituras!

Os Mil Outonos de Jacob de Zoet

thousand autums

Depois de ler alguns bons livros do Netgalley senti o desejo de voltar a território conhecido, a um autor que gosto e de quem ando a ler a obra toda por ordem de publicação. Já aqui recomendei o primeiro livro que li dele, Cloud Atlas, e desta vez fui ler este Thousand Autumns of Jacob de Zoet, ainda por traduzir para português.

Apesar de não ter sido o meu livro favorito deste autor, mesmo assim gostei bastante. É um livro bonito, intrincado, com uma história bem contada e bem cimentada na história mundial, num local bem familiar a David Mitchell, o Japão, desta vez algures no final do século XVIII, inicio do XIX. É extraordinária a habilidade que este autor tem em viajar no tempo e sentir-se tão confortável a imaginar sobre a história passada ou extrapolar sobre séculos futuros, mas ele é sobretudo um estudioso das relações humanas e as suas nuances e suponho que aquilo que se denomina “natureza humana” seja transversal a culturas, locais e eras.

Esta história é forte, mas melancólica e mostra-nos que a vida é como é, e não como gostaríamos que fosse. Mas que se segue determinado curso é porque no final havia um desígnio maior a funcionar.

Jacob de Zoet é um escriturário holandês ao serviço da Companhia Holandesa das Índias Orientais que vai trabalhar por uns anos no seu posto de Dejima, perto de Nagasaki no Japão. É suposto ir apenas pelo tempo suficiente para acumular um pé de meia e casar com a sua noiva que deixou à espera na Holanda Natal. Mal sabia todo o mundo diferente que o esperava, o fascínio pela cultura tão diferente da sua, os jogos subtis de poder que o iam enredar, e sobretudo o amor estranho e profundo que o iria arrebatar.

Ao início foi-me dificil criar empatia com esta personagem do Jacob, parecia-me demasiado rígido nos seus ideais, demasiado linear. Por outro lado, e por mais estranho que isto possa parecer, os nomes dos personagens estarem em holandês ou japonês fez com que demorasse algum tempo a distinguir quem era quem, e com isso demorei a entrar na narrativa.

Mas assim que finalmente me deixei enredar pela narrativa tudo começou a fazer sentido e a beleza do livro cativou-me. O fascínio que Mitchell tem pelo Japão, onde viveu alguns anos, está bem presente nas descrições da sua complexa cultura de regras sociais relacionadas com a honra e a posição hierárquica, e o livro tem personagens que amamos, outros que odiamos, e outros que amamos odiar. David Mitchell escreve mesmo muito bem, e é sempre um prazer desenrolar os novelos que foram cuidadosamente tecidos para nós.

Recomendo a todos os que gostam de ficção histórica, os que gostam do Oriente, os que gostam de histórias bem contadas e aqueles que, como eu, são fãs de David Mitchell.

Goodreads Review

Boas Leituras!

“I shan’t claim, men, that faith always saves a man from drowning—enough devout Christians have died at sea to make a liar of me. But this I do swear: faith shall save your soul from death. Without faith, death is a drowning, the end of ends, and what sane man wouldn’t fear that? But with faith, death is nothing worse than the end of this voyage we call life, and the beginning of an eternal voyage in a company of our loved ones, with griefs and woes smoothed out, and under the captaincy of our Creator …”

Livros que Recomendo – The Complete Maus

Maus

À semelhança de Persepolis que eu recomendei a leitura há uns tempos atrás, este foi mais um brilhante volume de banda desenhada para adultos que li através da biblioteca da minha empresa, e que trata de temas delicados e fortes dum modo absolutamente diferente.

The Complete Maus foi escrito/desenhado por Art Spiegelman e conta-nos a história dos seus pais e de como eles sobreviveram ao holocausto. Eu já li bastantes livros sobre este tema, sobre variadissimos ângulos mas este foi sem dúvida dos meus favoritos. Pode parecer estranho à partido lermos um livro de banda desenhada sobre uma temática tão delicada, mas na realidade o autor usou de artifícios apenas disponíveis neste meio para ilustrar o absurdo desta guerra, e do sofrimento dum povo. Aqui os judeus são retratados como ratos, os alemães como gatos, os polacos porcos e os americanos cães, ilustrando assim como é estranho diferenciar as pessoas pelas suas crenças/nacionalidades quase como se as transformássemos numa espécie diferente.

Ao fazer o acompanhamento dos personagens ao longo do tempo, desde a guerra até à altura em que o próprio autor é adulto e interage com o pai que lhe conta a sua história, podemos também ver os efeitos duradouros que o horror vivido teve na vida de todos aqueles que sobreviveram, e como isso perdurou para as gerações seguintes, que mesmo não entendendo, ficaram também profundamente afectadas.

Este era um livro que facilmente poderia ter corrido mal, estava construído numa corda bamba delicada, no entanto é belíssimo, muito bem construído, e mesmo a crueza dos desenhos, na minha opinião, acrescenta à história.

Recomendo a todos os que gostam de banda desenhada, histórias fortes sobre a nossa história mundial e bons livros em geral.

Goodreads Review

Boas Leituras!

 

Book Sharing Portugal

book Sharing

É meu dever de Peixinho de encontrar e divulgar ideias bibliófilas novas que acho interessantes, por isso aqui vai mais uma que acabei de descobrir. Um bocadinho à semelhança do projecto internacional apadrinhado pela Emma Watson, I Believe in Book Fairies, temos agora por cá o Book Sharing Portugal.

A ideia é simples. Pegar em livros que gostamos e partilhar com outros anonimamente. Para isso temos uns autocolantes como o que vemos acima, que colamos na capa do livro, e deixamo-lo num sítio público para alguém o desfrutar. Idealmente fotografamos e documentamos nas redes sociais com #booksharingportugal para que o percurso do livro possa ser seguido.

Eu já pedi autocolantes para mim porque já tenho algumas ideias de livros para partilhar e sítios onde os deixar, depois deixarei notícia disso.

Boas Leituras!

 

Um Dia no Nos Alive, ou Está Tudo Bem

pearl Jam
Foto de Rita Carmo, no Blitz

A primeira vez que eu fui a um festival de Verão ainda eles não tinham esse nome, e foi ao Super Bock Super Rock de 1996. Na realidade a edição estava a ter tão pouco sucesso que eu ouvi na rádio que iam abrir as portas ao público e isso fez-me rumar a Alcântara fardada a rigor de preto e botas da tropa para ver algumas das minhas bandas favoritas da altura, Moonspell , Nefilim e Paradise Lost. Foi um dia memorável, mesmo sendo eu na altura uma papa concertos.

Em 2000 fui experimentar o Sudoeste, depois de já ter falhado edições com Portishead e Massive Attack, mas foi festival que não me encheu as medidas. Os desconfortos não suplantaram os concertos e a única coisa que ganhei nessa edição foi ter conhecido Placebo.

Em 2004 voltei ao Super Bock, naquele mítico dia com Pixies e Massive Attack, que estava a rebentar pelas costuras, tudo esgotou, não se conseguia andar e jurei pela minha saúde mental que não me voltava a meter nessas coisas. Fiz um ano de paragem e voltei em 2006 para ver Tool, Placebo e Alice in Chains. Naquele tempo chegava-se ao recinto pouco antes dos concertos e comprava-se o bilhete lá à porta, não tinha de ser com meses de antecedência com medo de esgotar.

Em 2007 despedi-me dos grandes festivais, novamente no Super Bock, a ver Underworld, Scissor Sisters e conheci aí Interpol, que foi um amor que não mais me deixou. Depois continuei obviamente a ir a concertos, é um hábito que não me larga, mas prefiro largamente os em nome próprio, sítios mais sossegados em vez destes fast foods de bandas.

No entanto este ano decidimos ir ao Alive porque nenhum de nós tinha visto ainda Pearl Jam ao vivo e não queríamos que eles acabassem sem passar por essa experiência. Acho que dos grandes da minha juventude só me faltava mesmo ouvir Pearl Jam (bom, e Type O Negative, mas esses infelizmente nunca terei oportunidade).

Fomos preparadíssimos. Felizmente estava mau tempo, o que significou que não apanhamos nenhuma estopada de calor, levámos uma sandes de casa para não ter de estar nas filas para comer mais do que o necessário, roupa e calçado confortável, e espírito aventureiro. Chegámos cedo para evitar a confusão, e fomos de Uber porque já não temos paciência para ir de transporte e não fizemos mal a ninguém para passar horas a tentar estacionar e depois deixar o carro quase ao pé de casa.

O espaço está bem organizado, cheio de ideias de sustentabilidade giras. Os copos de cerveja são de material vegetal biodegradavel, igual ao plástico, as palhinhas de papel, há imensos ecopontos. Há muita coisa para ver e para fazer, mas 55 mil pessoas são 55 mil pessoas e o concerto de Pearl Jam foi… aconchegante. Para quem tem pouco mais que 1.50m foi mesmo claustrofóbico. Nas primeiras músicas não vi mais do que as costas do gigante que estava postado à minha frente, até conseguir uma aberta para lhe passar à frente e ver finalmente o ecrã. Afinal até circulava um ventinho agradável.

Para mim os melhores concertos da noite foram sem dúvida os Pearl Jam, que foram brilhantes, mas também os Franz Ferdinand que me fizeram saltar do principio ao fim. The Last Internationale, a banda que abriu o palco principal também foi uma agradável surpresa. Jack White era promissor, mas em algum momento nós teríamos que abraçar a árdua tarefa de enfrentar a fila para o wc e comer qualquer coisa, e foi essa a altura escolhida. Foi complicado, e fez com que bebesse muito menos água e cerveja do que me apetecia só para não ter de lá voltar. Mas ainda consegui voltar a tempo de ver a última música.

Pearl Jam tocaram não só as músicas esperadas e ansiadas, como algumas versões bonitas, do Imagine por exemplo. Eddie Vedder tem o dom da comunicação, fala imenso com o público e dá-se ao trabalho de ter uns textos em português para se sentir mais próximo dos seus fãs. Aquele está tudo bem do título vem do refrão duma das músicas, entoado por todos em bom português, um dos momentos bonitos do concerto. No fim ainda chamaram Jack White para cantarem a música do Neil Young Rockin’ in the Free World em conjunto, numa apoteose final.

Eu estava oficialmente morta, mas como ainda ninguém me tinha dito, decidimos esperar por MGMT. Gosto da Pop electrónica desta banda, as quatro primeiras músicas foram logo muito boas, começando pela minha panca recente My Little Dark Age, sem esquecer Time to Pretend.

Mas estava na hora de rumar ao Uber antes que os últimos convivas começassem a sair e fosse demasiado tarde. Não sei se voltaremos a estas aventuras, porque acho que prefiro concertos em nome individual e bandas mais do momento do que festivais de revivalismo, mas certamente não me arrependo da experiência. Em baixo para quem não quis ler tudo, um resumo dos concertos, com os principais momentos.

Resumo dos concertos:

The Last Internationale: a tipa tem uma grande voz e ele sabe dizer Força, caralho!

Alice in Chains: relembrem-me lá porque é que gostei tanto disto? As letras já desapareceram da minha cabeça, e as músicas pareceram-me todas iguais.

Franz Ferdinand: Ainda se dança tão bem ao som destes tipos, a idade não passou por eles. Por mim mais ou menos, mas ainda andei aos saltos a cantar This fire is out of control, I’m gonna burn this city, burn this city. Grande concerto!

Jack White: Pão com chouriço não é o que eu escolheria, mas era o que tinha menos fila e a paciência para filas esgotou com a da casa-de-banho. Seven Nations Army é uma grande malha.

Pearl Jam: Uns senhores, um grande concerto, mas como diria a minha mãe, não vai mais vinho para essa mesa. A falta de sobriedade de Eddie Vedder só trouxe mais animação ao concerto, e pessoas com mais de 1,80m deviam ser obrigadas a ficar nas filas de trás.

MGMT: Essas 4 músicas foram óptimas, mas se não for embora agora nunca mais apanho um Uber para casa. Obrigada por terem começado logo com o Little Dark Age, assim vou sem peso na consciência.

franz ferdinand
Foto de Rita Carmo aqui