De Profundis Amamus

cesariny

Ontem às onze fumaste um cigarro encontrei-te sentado ficámos para perder todos os teus eléctricos os meus estavam perdidospor natureza própria
Andámosdez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não
faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

 

Mário Cesariny

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Acabei de Ler – La Belle Sauvage, Book of Dust 1

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Quem segue o Peixinho sabe que eu sou grande apreciadora de Philip Pullman, mais concretamente a sua trilogia “Mundos Paralelos (His Dark Materials)”, que já recomendei aqui. Este seu novo livro andou bastante tempo no meu Kindle sem que eu tivesse grande vontade de lhe pegar. Em parte porque é novamente o primeiro volume duma trilogia e eu já estou um bocado escaldada com o Game of Thrones. No entanto, Philip Pullman não é o George R R Martin, e o segundo volume vai ser editado já em Outubro, por isso resolvi que estava na altura de lhe pegar.

A primeira coisa que reparei foi na qualidade da escrita. O que vem provar mais uma vez que o Wheel of Time que ando a ler não prima pelas frases bem construídas. Depois, nada é desperdiçado nestes livros. As descrições são as suficientes para entrarmos neste mundo, o que é dito serve tanto para nos informar como para aguçar a curiosidade sobre o que vem a seguir. Depois o mundo em si é maravilhoso, mesmo sendo distópico. Cada pessoa ter o seu daemon (que prefiro á versão portuguesa génio) que é parte dela, uma espécie de consciência, e ter a forma de um animal que ajuda a definir a pessoa é uma ideia simples mas muito eficaz. Quem de nós não gostaria de olhar para outra pessoa e apenas pelo seu daemon poder ter uma noção da sua natureza?

Voltamos a encontrar Lyra Belacqua, aqui apenas um bebé, e os nossos protagonistas são Malcolm e Alice, duas crianças muito especiais. O modo como o autor retrata crianças é muito realista. As crianças nestes livros (como na vida) fazem o que é preciso para sobreviverem, mesmo que isso seja mentir, atacar inimigos, ou mesmo matar. Tal como os adultos fazem escolhas que os definem, e não são retratados como seres angélicos, ou inocentes. São heróis realistas.

Estou ansiosa pelo segundo volume da trilogia porque gostei muito da personagem principal, Malcom. Recomendo a todos os que leram a trilogia Mundos Paralelos, e se não leram não sei do que estão à espera.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Blues da Morte de Amor

vasco-graca-moura

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

Vasco Graça Moura

Livros que Recomendo -O Deus das Moscas

o senhor das moscas

O Peixinho continua a sua senda de recomendar livros, principalmente neste tempo de férias que temos mais disponibilidade temporal e mental para pôr alguma leitura em dia.

O Deus das Moscas não é um livro fácil, e às vezes é mesmo muito gráfico, mas é uma excelente alegoria sobre o ser humano e a sua capacidade de gerar caos quando se encontra numa sociedade sem regras e sem punição. Foi o primeiro romance de William Golding, que acabaria por ganhar o Nobel em 1983, e talvez o seu título mais conhecido.

Neste livro seguimos um grupo de jovens rapazes que fica preso numa ilha após um desastre de avião. Lá vão tentar sobreviver e criar a sua própria sociedade, aproveitando os recursos que a ilha lhes dá. Mas o que começa como uma empreitada já de si difícil, depressa descamba num caos agressivo, em que as disputas pela liderança, pelo que deve ser prioritário e a total liberdade levam a situações cada vez mais desastrosas.

Uma alegoria sobre a condição humana faz-nos também reflectir na “inocência” infantil, e as ideias preconcebidas que temos a seu respeito.

Aconselho a todos os que gostam de ler clássicos, livros para reflectir, e boa literatura em geral.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Poesia de Alberto Caeiro

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Para quem tem um e-reader há um recurso em português que é incontornável, que é o projecto Adamastor. Nele encontramos vários livros gratuitos para download que já estão em domínio público.

Uma das coisas que tirei de lá foram vários livros de poemas de Fernando Pessoa e seus heterónimos. Desta vez escolhi ler Alberto Caeiro.

Não me vou alongar em considerações sobre quem era este heterónimo, a sua biografia ou filosofia. Há muitos recursos disponíveis na Internet que o explicarão melhor que eu. Saliento apenas que era um poeta profundamente ligado à natureza e ao visível, que sentia a realidade com os seus sentidos em vez de com o pensamento. “Pensar é estar doente dos olhos” diria ele num dos seus poemas do Guardador de Rebanhos.

Eu gosto da sua visão realista sobre a natureza e o que nos rodeia. A forma simples como ele encara o mundo fá-lo viver no aqui e agora, sem ansiedades sobre o futuro, ou expectativas irrealizáveis. Por isso não teme a morte nem o dia de amanhã, uma porque é natural, o outro porque não existe.

Acho que é uma visão libertadora do mundo, e que nos pode beneficiar a todos.

Aconselho a todos os amantes de poesia, e de pensar.

Boas leituras!

Goodreads Review

Acabei de Ler -Lord of Chaos, Wheel of Time #6

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Desta vez fui mais rápida e já terminei o sexto volume da saga Wheel of Time. Ainda não peguei no sétimo porque estou a fazer um esforço para diversificar a leitura, mas fiquei com vontade de mergulhar já na continuação da história.

Quem tem lido as minhas opiniões sobre estes livros sabe que eles são bons e com uma boa história, mas que têm algumas falhas que me enervam um bocadinho. Por um lado as personagens femininas que são em geral irritantes. Por outro há imagens que o autor repete até à exaustão. Já não posso ler um dos 3 personagens principais masculinos dizer que não percebem nada de mulheres e os amigos é que são especialistas nesse assunto. Isto é dito 4 a 5 vezes por livro. Ou a Nynaeve a dar puxões à sua trança porque está enervada, o que acontece dezenas de vezes por capítulo no qual ela aparece.

Mas neste sexto volume a história finalmente ganhou um bom ritmo, coisas surpreendentes aconteceram que me fizeram ficar agarrada ao livro. Eu sou uma leitora chata, que está sempre a tentar perceber o que vai acontecer a seguir, e infelizmente já é difícil ser surpreendida por algum volte-face, por isso sempre que isso acontece fico contente e não dou o meu tempo por perdido.

Alguns dos meus personagens favoritos também reapareceram e deram um bom contributo à história, por isso estou optimista para o volume seguinte que marca exactamente metade do total desta saga.

Recomendo a quem leu os outros 5 e quer seguir uma história de fantasia bem contada.

Boas leituras!

Goodreads Review

Livros que Recomendo – Cemitério de Pianos

cemiterio de pianos

 

Hoje venho recomendar um livro de José Luís Peixoto, autor que gosto particularmente, apesar de não ser fã militante e de frequentemente precisar de intervalos para digerir a sua prosa.

Este livro foi particularmente interessante para mim. É uma história familiar, estendida no tempo, com vários pontos de vista e vários personagens a relatar as suas memórias de forma intercalada. É necessário muita concentração para não perder o fio à meada, mas vale certamente a pena. Está recheado de personagens fortes e interessantes, que relatam a maravilha que é a vida quotidiana ao longo de gerações, com as suas alegrias, mas sobretudo com os seus sofrimentos.

Tem o bónus adicional de uma das personagens ser baseada na história verídica do maratonista português que morreu na maratona de Estocolmo em 1912. A morte está muito presente neste livro, e a forma como lidamos com ela e a encaramos. A morte como parte da vida.

Recomendo a todos os fãs do José Luís, e de boa literatura que nos faz pensar.

Boas Leituras.

 

 

Vieira da Silva no Colombo

Vieira da Silva

Com um cachopo de 4 meses a nossa possibilidade de aproveitar a oferta cultural de Lisboa fica um pouco reduzida, mas mesmo assim nunca é cedo demais para expor uma criança a boa arte. Foi nesse espírito que fomos conhecer mais uma iniciativa do Colombo, desta vez com Vieira da Silva.

No passado já tínhamos ido lá ver Paula Rego e Roy Lichtenstein, e gostámos muito, por isso desta vez íamos com grandes expectativas.

A exposição é na realidade uma instalação artística imersiva, com cor, luz e som, que nos faz literalmente entrar na obra da pintura, recorrendo a muitos quadros que estão expostos no seu Museu do Príncipe Real. A experiência é muito intensa, e por vezes vertiginosa, mas muito interessante. Temos 3 salas, com temáticas e ambientes diferentes, e quando fomos tivémos a sorte de estar sempre sózinhos a apreciar cada uma delas.

No final fomos brindados com a explicação que quem apresentar o programa da exposição no Museu Arpad Szenes – Vieira da Silva tem um bilhete grátis na compra doutro. Ou seja, mais uma oportunidade de levar o Jaquinzinho a ver pintura.

A exposição está no Colombo até dia 26 de Agosto, aproveitem que é muito interessante, gratuita e uma boa sugestão para uma manhã de férias.

Boas Leituras e Boas Férias!