Não tenho pressa. Pressa de quê?

 

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Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.

Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,

Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.

Não; não sei ter pressa.

Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega —

Nem um centímetro mais longe.

Toco só onde toco, não aonde penso.

Só me posso sentar aonde estou.

E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,

Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,

E vivemos vadios da nossa realidade.

E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

Acabei de Ler – Poesia de Alberto Caeiro

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Para quem tem um e-reader há um recurso em português que é incontornável, que é o projecto Adamastor. Nele encontramos vários livros gratuitos para download que já estão em domínio público.

Uma das coisas que tirei de lá foram vários livros de poemas de Fernando Pessoa e seus heterónimos. Desta vez escolhi ler Alberto Caeiro.

Não me vou alongar em considerações sobre quem era este heterónimo, a sua biografia ou filosofia. Há muitos recursos disponíveis na Internet que o explicarão melhor que eu. Saliento apenas que era um poeta profundamente ligado à natureza e ao visível, que sentia a realidade com os seus sentidos em vez de com o pensamento. “Pensar é estar doente dos olhos” diria ele num dos seus poemas do Guardador de Rebanhos.

Eu gosto da sua visão realista sobre a natureza e o que nos rodeia. A forma simples como ele encara o mundo fá-lo viver no aqui e agora, sem ansiedades sobre o futuro, ou expectativas irrealizáveis. Por isso não teme a morte nem o dia de amanhã, uma porque é natural, o outro porque não existe.

Acho que é uma visão libertadora do mundo, e que nos pode beneficiar a todos.

Aconselho a todos os amantes de poesia, e de pensar.

Boas leituras!

Goodreads Review

A Espantosa Realidade das Cousas

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A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”