Não tenho pressa. Pressa de quê?

 

fernando-pessoa

Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.

Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,

Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.

Não; não sei ter pressa.

Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega —

Nem um centímetro mais longe.

Toco só onde toco, não aonde penso.

Só me posso sentar aonde estou.

E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,

Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,

E vivemos vadios da nossa realidade.

E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

Acabei de Ler – O Banqueiro Anarquista

banqueiro anarquista

Ando numa fase estranha em que ando cheia de vontade de ler, mas depois parece que nenhum livro me enche as medidas. Cada livro que começo, só me apetece acabar rápido para passar para o próximo. Acho que o facto de ter algumas centenas de livros no Kindle me faz ficar um bocadinho assoberbada. Por isso, e depois de um dia a “folhear” os títulos que tinha, acabei por escolher um livro unicamente pelo facto de ser tão pequeno que iria ler depressa.

E assim foi, as 66 páginas do Banqueiro Anarquista passaram num instante, se bem que não demasiado depressa, porque é um livro que obriga a pensar. Na realidade é um exercício de argumentação, em que um rico banqueiro consegue provar (por a mais b, como se costuma dizer) que ele é na realidade o único verdadeiro anarquista praticante.

Não temos aqui um panfleto anarquista, nem uma reflexão sobre a teoria do anarquismo. Temos simplesmente um exercício de lógica e argumentação que nos mostram que qualquer causa pode ser defendida, ou qualquer argumento pode ser provado, se tivermos a capacidade de articulação para tal. Fez-me lembrar muitas coisas que andam por aí a circular, em que se defende muitas inverdades com argumentos tão aparentemente sólidos que conseguem convencer muita gente.

Um livro relevante e actual, que foi um prazer ler.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Estou cansado da inteligência

fernando-pessoa

Estou cansado da inteligência.

Pensar faz mal às emoções.

Uma grande reacção aparece.

Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo

Na casa antiga da quinta velha.

Pára. meu coração!

Sossega, minha esperança factícia!

Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui…

Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!

Meu horizonte de quintal e praia!

Meu fim antes do princípio!

Estou cansado da inteligência.

Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!

Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas

Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.

Álvaro de Campos

Meu Pobre Portugal

fernando-pessoa

Meu pobre Portugal,
Dóis-me no coração.
Teu mal é o meu mal
Por imaginação.
Tão fraco, tão doente,
E com a boa cor
Que a tísica põe quente
Na cara, o exterior.
Meu pobre e magro povo
A quem deram, às peças,
Um fato em estado novo
Para que o não pareças!
Tens a cara lavada,
Um fato de se ver
Mas não te deram nada,
Coitado, que comer.
E aí, nessa cadeira,
Jazes, apresentável.
(…)
O transeunte amável.

Fernando Pessoa

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!

fernando-pessoa

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!

Faltar é positivamente estar no campo!

Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!

Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.

Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,

Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.

Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.

Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.

É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,

Deliberadamente à mesma hora…

Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.

É tão engraçada esta parte assistente da vida!

Até não consigo acender o cigarro seguinte… Se é um gesto,

Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

Álvaro de Campos

A Espantosa Realidade das Cousas

fernando-pessoa

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”