Aquela Senhora Tem Um Piano

fernando-pessoa

Aquela senhora tem um piano

Que é agradável mas não é o correr dos rios

Nem o murmúrio que as árvores fazem…

 

Para que é preciso ter um piano?

O melhor é ter ouvidos

E amar a Natureza.

Alberto Caeiro em O Guardador de Rebanhos, Poema XI

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Viajar

Almada Negreiros - Portrait of Fernando Pessoa, 1954

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.

Fernando Pessoa in Antologia Poética

Todas as Cartas de Amor São Ridículas

Fernando-Pessoa

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, in “Poemas”

Dia Mundial da Poesia

Assim que aprendi a escrever que comecei a brincar com as palavras e a fazer pequenos versos. Creio que a maioria deles perdidos para sempre em cadernos que ficaram na casa dos meus pais. Quando entrei na adolescência a minha madrinha ofereceu-me O Livro em Branco para eu poder registar os fervores da vida que me assolavam. Esse ainda o tenho lá por casa, guardado numa estante.

Quando comecei a crescer e a realmente apreciar poesia, percebi que faria melhor em ler quem percebe do assunto e deixar-me de fantasias. E mergulhei de cabeça, primeiro nos clássicos de Florbela Espanca, e depois por ali fora, devagarinho, saboreando, partilhando com que desfruta do mesmo prazer.

Isto tudo para dizer que na próxima segunda feira dia 21 é o Dia Mundial da Poesia. E que o CCB vai fazer amanhã uma série de actividades ligadas a esse tema, incluindo uma feira do livro de poesia. Programação aqui.

E para celebrar a poesia, nada melhor que Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis, in “Odes”