Não Me Peçam Razões

saramago

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago, in “Os Poemas Possíveis”

Os Autores que Não Consigo Ler

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Há alguns autores portugueses que não consigo ler, não por demérito das obras mas por culpa minha. E não é como aqueles namorados manhosos que terminam tudo a dizer “não és tu, sou eu” mas vê-se na cara deles que nós é que somos chatas e temos rabo grande.
Não, aqui é a sério. Isto é do melhor que a literatura portuguesa tem para oferecer, mas por uma razão ou por outra, eu não consigo lá chegar. Ora vamos lá à lista, por ordem cronológica.

Camões: apresentaram-me o senhor ainda no ciclo (sei que sou mesmo velha quando uso está terminologia antiquada ao mesmo tempo que escrevo na grafia antiga. Uma Velha do Restelo) no entanto não fiquei fã. Consegui tirar 5 a Português por causa dum trabalho que fiz acerca do dito Velho do Restelo, e também estudámos muita poesia, mas todo aquele lirismo não é a minha praia. Impressionante, mas não fico cativada.

Camilo Castelo Branco: gostei imenso da série dos Mistérios de Lisboa que vi há uns anos numa maratona no cinema, mas assim que tentei ler o livro foi um caso perdido. Muito romantico e linguagem rebuscada fazem com que me perca logo nas primeiras páginas. Acabei por o deixar a marinar no meu Kindle até hoje.

Almeida Garrett: o meu professor de português do secundário dizia que ninguém passava de ano com ele se não lesse as “Viagens na Minha Terra” e “Os Maias“. Gostei muito do segundo e ainda hoje sou fã do Eça, mas as viagens foram extremamente aborrecidas, mesmo para quem gosta tanto de viajar como eu. Não li o livro, nem os resumos da Europa-América, mas honra seja feita ao meu professor cujas aulas eram tão boas que me valeram um 16 mesmo assim.

José Saramago: no 9° ano comprei o Memorial do Convento e perguntei à minha professora de português a opinião dela. Ela, muito querida, disse que se calhar seria complicado, mas podia experimentar. Na realidade devia ter dito: tem juízo miúda, tu lá tens idade para isso? O homem não usa pontuação e tu vais-te ver aflita e depois nunca mais queres ler nada escrito por ele. Pois, foi o que aconteceu. Tentei muitas vezes, uma amiga até leu para mim em voz alta, e eu percebo que é espectacular, mas não consigo. Estou vacinada, mas em mau.

António Lobo Antunes: este é mais um daqueles gigantes mas que eu não consigo ler. Tentei ler “Memória de Elefante”, mas estava a ficar tão angustiada que tive de parar. Quero muito ler um livro deste autor, e até tenho alguns exemplares cá em casa para um dia que me sinta preparada, ou com capacidade para passar um livro inteiro com um aperto no peito, mas ainda não consegui.

Aceitam-se argumentos convincentes para começar já qualquer um deles.

Até lá, Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Ensaio Sobre a Cegueira

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O livro que venho recomendar hoje é bastante diferente do que já fiz até agora. Mais concretamente porque vos venho recomendar um livro que eu própria não li. Quando estava no 9º ano, era sócia do Círculo de Leitores e comprei o Memorial do Convento, e confesso que isso me vacinou de vez contra os livros de Saramago. Nunca consegui ultrapassar o facto daquilo não ter pontuação, e a história era qualquer coisa de surreal e surrealmente aborrecida para a minha mente de 14 anos.

Claro que já uma vida se passou, e acho que deve estar na altura de fazer as pazes com o nosso único Nobel. Ou pelo menos tentar reatar a relação. Resolvi escolher este livro porque me parece kamikaze retomar o Memorial do Convento. Por outro lado gostei bastante do filme de Fernando Meirelles retirado deste livro e parece-me uma aposta mais segura.

Já todos conhecemos a história, uma epidemia de cegueira atinge a maioria da população duma cidade e as consequências na estrutura social que daí advêm. Uma premissa simples, mas poderosa.

Recomendo a todos os amantes de Saramago, ou aqueles que, como eu, estão a tentar começar uma relação com ele. Se tiverem alguma sugestão a fazer, sejam livres! Se quiserem ler uma excelente crítica, vão aqui.

Boas Leituras!