No autocarro

Leio Por Aqui_Autocarro

O autocarro circula devagar por causa do trânsito e eu pergunto-me se se passa algo de errado com ele. Do lado de fora as pessoas olham com cara de espanto para o flanco que está virado para a estrada e eu fico preocupada se haverá alguma avaria, mas na realidade deve ser apenas algum anúncio mais ousado na lateral.

Na minha mão acompanha-me o Kindle aberto numa página indefinida dum livro que até agora falhou em captar-me a atenção. Às vezes a vida que corre lá fora supera a que se passa aqui dentro, mas olhar para pessoas na rua e imaginar as vidas que possam ter é um grande cliché que já toda a gente usou.

As conversas que me acompanham no autocarro teimam em invadir-me o cérebro e ocupar todo o espaço que devia estar a ser preenchido pelas frases que estão à minha frente. É uma cacofonia de realidades que não me interessam, mas que teimam em entrar-me à força pelos ouvidos, e eu resolvo proteger-me com a música que carrego sempre no meu MP3.

Mas a minha cabeça hoje está cheia de histórias, palavras, cores, danças, histórias minhas que querem ter uma vida e sair cá para fora, e a música apenas as faz voar, dançar, colidir umas com as outras e gerar novas criações num loop constante e vertiginoso.

São 8h da manhã, uma rua tornou-se outra, um largo passou a avenida, semáforos abriram e fecharam e eu cheguei ao meu destino, na mesma página em que comecei a jornada. Estou novamente com bloqueio de leitor.

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O Rock dos Invisíveis

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Mais uma vez o Netgalley proporcionou-me uma leitura fora do comum, um livro brutal em todas as acepções da palavra, neste que foi o meu primeiro contacto com a autora, a francesa Virginie Despentes.

Vernon Subutex é um livro profundamente francês nas suas referências, europeu, contemporâneo, mas ao mesmo tempo duma imensa universalidade. Vernon é um homem de meia idade que foi proprietário duma loja de discos em vinil, essa coisa obsoleta engolida pela tecnologia. Perdeu a loja, e os amigos que costumavam por lá parar, desde ex membros de bandas que nunca foram hits, a fãs obcecados, pessoas que vivem nas franjas, todos vivem centrados nas suas próprias espirais enquanto Vernon vai lentamente descendo a sua.

A única pessoa que o mantém à tona é também o único que teve algum sucesso, Alex Bleach, a derradeira estrela do rock, odiado por todos porque teve sucesso onde os outros falharam. Mas quando até ele é levado por uma morte prematura, Vernon vai percorrendo todos os amigos que ainda lhe restam até chegar às ruas de Paris.

A escrita de Virginie é absolutamente vertiginosa, como a vida, e mantêm-nos sempre em sentido para acompanhar as mudanças bruscas de tempos e de personagem. Cada pessoa nova que é introduzida é mais um pedaço de nós que é exposto, das nossas cidades, da nossa rua, da vida de todos os dias. E pouco a pouco, quanto mais caminha para a indigência, mais Vernon se vai tornando invisível para todos aqueles que o rodeiam. É duma clareza brutal a maneira como a autora nos mostra a facilidade como hoje estamos aqui, com casa, trabalho, vida corriqueira, e basta um deslize, uma desatenção, um deixar andar na tristeza, para a corrida voraz e impiedosa dos dias nos devorar completamente e passarmos a ser completamente invisíveis àqueles que nos rodeiam, que ficam também reduzidos ao mais básico, uma mão que pode trazer umas moedas ou uma ameaça.

Sinceramente este livro fez-me reflectir muito na minha postura na sociedade actual. Os estereótipos estavam todos muito bem conseguidos. O livro começa com uma descrição absolutamente maravilhosa da cena musical, de todas as referências que me dizem alguma coisa, do mundo que eu própria gravitei nos meus 20 anos, para fazer lentamente a transição para a obsessão que temos hoje em dia com as redes sociais, os jogos de telemóvel, sem esquecer as drogas, a moda, as tendências. Por tudo isso Vernon passa sempre com o seu ar calmo e impassível de quem não quer incomodar.

Na cena mais impressionante, uma das mulheres que lhe está a dar guarida num dos dias, sem saber da situação precária em que ele se encontra, mostra-lhe a foto dum sem abrigo com o seu cão, no Facebook. Está preocupadissíma porque o cão tem de ser submetido ao abuso de dormir ao frio, e alguém devia fazer alguma coisa em relação a isso. E Vernon percebe que está na hora de mais uma vez procurar outro sítio onde ficar.

Entretanto, no meio de tudo isto, ele é possuidor de umas gravações inéditas de Alex Bleach, e na realidade toda a gente o procura porque elas são valiosas. Ironia.

Recomendo a quem se quiser questionar, quem gostar de desafios, quem gostar de livros intensos, actuais e diferentes. Eu fico à espera que traduzam as partes 2 e 3 do francês para saber o que se passa a seguir.

Goodreads Review

Escrito nas Estrelas

Peixes

Bom, se até os astros o dizem, quem sou eu para os contrariar? Este final de tarde já tenho tarefa programada, ler poesia, escrever poesia, partilhar poesia.

Já tinha começado esta manhã no Instagram do Peixinho de Prata (@peixinhodeprata),  com um poema da Adília Lopes, vão até lá dar uma olhada.

Tempo de Voltar

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Uma loja típica

Enquanto escrevo estas linhas estou já embalada pelos movimentos pendulares de volta para casa. Hoje foi o nosso último dia no Porto, embora só vá passar isto para o blog daqui a algum tempo, não quis deixar de escrever já as últimas impressões.

Depois dos dois dias intensos de visitas e caminhadas e passeios, sobre os quais ainda nem tive tempo de reflectir, hoje foi um dia mais calmo, finalmente. Deixar o nosso apartamento que se tinha tornado uma casa (sítio acolhedor, antigo quartel de bombeiros redecorado, aconselho muito), mochila às costas e dar as últimas voltinhas na cidade que já deixa saudades. A pergunta que se faz sempre que se sai de casa (seria capaz de viver aqui? não sei). Como sempre nos últimos dias, tínhamos um planos gastronómico em mente. Faltava comer a francesinha obrigatória em cada visita. Desta vez, de GPS na mão, íamos em busca do Café Santiago. Dá última vez que estivémos no Porto, há 3 anos, assim que chegámos largámos num sprint Rua de Santa Catarina acima para ir experimentar o Bufete Fase, porque a parva que viu o caminho só viu que era ao cimo da rua, e esqueceu-se do pequeno pormenor de ver a escala. Deixem que vos diga que eram 1.6 km do sítio onde estavamos hospedados, e onde já chegámos à hora de almoço. Largámos em passo rápido, e só depois percebemos que não estávamos assim tão perto. E quando lá chegámos, bofes de fora… o Bufete Fase estava fechado para férias. E naquela zona já não havia nada aberto. Não há palavras que descrevam o nosso desalento.

Este ano não fizémos sprint, era cedo, e estavamos a 550 metros do Café Santiago, que era o escolhido, nosso e da Time Out. Quando o GPS nos indica que chegámos, e nos deparámos com um café fechado para obras, íamos tendo uma apoplexia nervosa. Já era quase meio dia e um quarto, e o que vale é que tínhamos tempo até ao comboio. Plano b, Capa Negra, largámos a caminho, mas eis senão quando, falso alarme e lá está outro Café Santiago, com UMA mesa acabadinha de vagar mesmo para nós (a que horas é que alguém começou a comer uma francesinha para estar terminado às 12:15?).

E pronto, foi um pedacinho de céu. 5 minutos depois estivémos tentados a pôr um papel na janela a dizer: trespassa-se mesa à janela por 50€, tal era o número de pessoas lá fora à espera, mas aguentámos estoicamente a pressão e deliciamo-nos com duas belas francesinhas. Agora podemos esperar mais dois ou três anos, que aquilo é demasiado forte para se comer muitas vezes.

O resto da tarde foi passado em calmaria, que tanta carne não nos deixa andar assim tão rápido. Fomos até aos Poveiros beber café, andámos até ao Bolhão, em eternas obras de melhoramentos, passeámos nos Aliados, Igreja da Trindade. Entretanto eram horas para o Alfa de regresso, e agora enquanto o Peixinho Vermelho dorme tranquilamente eu vou pondo a leitura em dia.

Adeus Porto, até breve.

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Porquê açúcar na água com gás?
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A francesinha!
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A dona do Bolhão
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Igreja da Trindade

O Comboio a Vapor

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A locomotiva a vapor

A nossa ida ao Porto teve como principal motivação andarmos no Comboio Histórico do Douro, que percorre o troço entre a Régua e o Tua num comboio com uma locomotiva a vapor de 1925 e várias carruagens todas recuperadas que vão desde 1908 a 1932, com a paisagem daquela zona que não preciso de relembrar que é património da Unesco.

Foi mais um dia que começou cedo, com uma ida até à Campanhã para apanhar o Interregional do Porto para a Régua, e confesso que me senti numa viagem no tempo ainda antes de entrar no Comboio Histórico. As carruagens em que estávamos não deveriam ser muito mais recentes que aquelas em que iríamos entrar (vá, passe o exagero, pelo menos já não eram de madeira), mas não estavam sequer recuperadas. E senti-me em pleno autocarro da Carris, tal era o número de pessoas em pé. Com a diferença que o percurso ainda eram duas horas, e o comboio consegue dar mais solavancos que o condutor do 758, coisa que eu achava impossível até à data.

Mas lá chegámos inteiros à Régua, e com tempo de dar mais uma caminhada à beira-rio, apesar do calor não convidar muito a grandes aventuras. Fomos almoçar ao Maleiro, e mais uma vez chegámos pouco depois do meio-dia a um restaurante já cheio. Esta obsessão de almoçar à hora do pequeno-almoço recorda-me o meu Tio Adelino, cuja epítome de ir almoçar fora era estar a sair do restaurante à 1 da tarde, para regressar a correr para casa e ainda ter tempo de dormir a sua sesta e apanhar a novela da tarde. True story. Por isso já estamos avisados destes horários a norte do Mondego, e raramente somos apanhados desprevenidos.

Mas valeu a pena, porque assim tivémos tempo de ver a locomotiva a abastecer de água, e fazer várias manobras sempre a apitar, para gáudio de todos os presentes. Foi engraçado ver vários adultos, incluindo uns senhores espanhois, funcionários da Renfe, comportarem-se novamente como garotos de 8 anos a brincar aos comboios. É dificil não nos contagiarmos com a alegria que impera naquela estação antes da partida do comboio.

Apesar de termos comprado os bilhetes na net, sem conhecimento prévio das carruagens, tivémos sorte e a nossa era das mais bonitas e mais espaçosa, de 1912. Todos os pormenores estavam muito bem recuperados até ao apito da locomotiva que soou o dia todo por aquele vale.

Por cada sítio que passávamos as pessoas ficavam encantadas. Devia ser um postal bonito a paisagem do Douro com um comboio a vapor, uma verdadeira viagem no tempo. Da minha parte, eu gostei verdadeiramente, incluindo de todos os pormenores adicionados para dar mais valia à viagem. Os moços vestidos a rigor, o grupo de música tradicional, o cálice de Porto, as paragens no Pinhão e no Tua. Apenas perto do Tua temos de ter o cuidado de desviar o olhar para não parar o nosso coração com aquele crime ambiental que está lá, bem patente, qual orgulho nacional da nossa obsessão betoneira, a barragem que destruiu o Tua e o seu vale, que poderiam ser ainda mais belos do que aqueles que estávamos naquele momento a percorrer.

Acabámos a viagem cansados, principalmente pelo calor, mas com um sorriso no rosto. Claro que depois ainda nos esperavam mais duas horas para o Porto numa carruagem sem ar condicionado e sem janelas, e chegar à Campanhã às 10h da noite ao mesmo tempo que tinha acabado o jogo no Dragão. Nessa altura já nem falávamos e acho que estavamos em meditação interna para tentar chegar vivos a casa.

Mais um dia se tinha passado, cansados mas contentes.

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Caminhar à beira-rio na Régua
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As carruagens mais recentes
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O seu interior, impecavelmente restaurado
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A nossa carruagem
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Os nossos bancos eram, obviamente, os de madeira.
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O aviso em todas as janelas.
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O cuidado em todos os pormenores.

E o Porto aqui tão perto

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Dia de passear na Foz

Este ano era para ter passado no Porto em Abril e ver a exposição do Miró. Como fiquei de cama com uma crise de coluna, que me anulou os planos todos de Abril (e Maio, e ainda estou em recuperação), tivemos de repensar as nossas passeatas. Felizmente o Miró vem à capital e o Porto ficou só adiado até agora.

O Porto é como um daqueles velhos amigos que só vemos esporadicamente, com anos de intervalo, mas que quando nos encontramos novamente parece que não se passou tempo nenhum, tantas são as coisas que temos em comum. Desta vez resolvemos ir de comboio, e fizemos uma mui tranquila viagem de alfa, nos dois sentidos. Um luxo. Escolhemos para ficar um Airbnb muito catita, bem situado, e que nos proporcionou um anfitrião 5 estrelas, cheio de boas dicas e boa conversa sobre o Porto. A home away from home.

Como já não era a nossa primeira visita, resolvemos passear numa zona que nenhum dos dois conhecia, a Foz. Mas antes de lá chegar, paragem na Casa Guedes para abastecer com uma sandes de pernil e queijo da serra, que havia muitos quilómetros de caminhada pela frente. No norte come-se mais cedo, e apesar de termos chegado poucos minutos depois do meio-dia, quase não arranjávamos lugar sentado. Mas, como esperado, foi de comer e chorar por mais. Daí, a pé até aos Guindais, funicular para a Ribeira, e de lá o 500 até à Foz, mais concretamente o Forte São João. Paragem para admirar a vista e preparar para a subida até ao Castelo do Queijo.

Estava um dia lindo de sol, mas imenso vento. Só muita militância permitia a meia dúzia de pessoas estarem na praia, apesar de em muitas estar bandeira verde. A paisagem é muito bonita, e calmamente se faz um belo passeio a admirar as praias dum lado, e o bairro estival por outro. Apesar de ser Agosto, estava pouca gente e foi um passeio descontraído.

Como ainda tínhamos pernas, resolvemos continuar a caminhar até Matosinhos para apanhar o Metro de volta para o Porto. Ainda parámos para um belo gelado na praia, de frutos vermelhos e banana, enquanto fugíamos do sol e nos preparávamos para o resto do caminho. Descobrimos que Matosinhos também tem o seu encanto, e finalmente estávamos de regresso a casa.

As vantagens de estar num apartamento é que num dia como este, em que nos tínhamos levantado incrivelmente cedo (eu antes das 6h), bastava comprar qualquer coisa num supermercado, comer por casa sem complicações, e estar na caminha à hora que apetecesse. Missão cumprida, o podómetro marcava 13km de caminhada, os pés diziam que foram pelo menos mil, e no dia seguinte havia comboio histórico.

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A sandes da Casa Guedes
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A vista do autocarro 500
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Tecnicamente, esta é mesmo A Foz. 
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Restos perdidos de outro tempo.
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O Castelo do Queijo
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A vista da nossa casa. Charme antigo. 
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Não se pode ir ao Porto sem comer um destes croissants… nham nham… 

Lisboa ao Fundo

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A vista do Ponto Final

Dizer que não gosto de tirar férias em Agosto é pecar gravemente por defeito. Os sítios estão cheios de gente que não tem outra solução de férias, e são mais caros. No entanto, por razões várias que não interessam inumerar, há muitos anos que nos calha a fava dos primeiros 15 dias, e férias são férias e há que tirar o melhor partido delas.

Já experimentámos todas as combinações possíveis, e na realidade vamos sempre encontrando umas coisas engraçadas e que desafiam exactamente a lógica que estava a dizer acima. Hoje vou falar-vos dum passeio bem jeitoso que nos ocupou o dia todo e onde estávamos tão tranquilos que nem parecia Agosto.

Não foi preciso acordar muito cedo, porque às vezes sabe bem não madrugar. Foi preciso, isso sim, pegar no passe e apanhar transportes públicos, que estão bastante mais aliviados nesta altura. O metro não desilude (Carris… eu tinha de estar muito desesperada para me meter nessa aventura em tempo de férias… já me basta o resto do ano). E depois uma pequenina viagem num cacilheiro até, exactamente, Cacilhas.

Do lado de lá encontramos um pontão mal amanhado, ladeado por edificios em ruínas, mas que nos leva sempre ao lado do Tejo que nos embala e que nos mostra a Lisboa que nunca vemos, a do lado de lá. Uma paisagem deslumbrante que nos permite ver a luz branca que emana da nossa cidade quando o sol lhe bate, e perceber porque tantos turistas andam agora encantados. Uma caminhada curta mas intensa leva-nos até dois restaurantes com esplanadas onde apetece ficar. Escolhemos o Ponto Final. Não foi preciso reservar mesa, porque era cedo, e dia de semana, mas aconselho a fazê-lo porque é um sítio bastante concorrido. Os senhores foram incansaveis a descobrir-nos a sombra perfeita onde pudémos desfrutar os nossos carapaus com arroz de tomate, que estavam bastante bons. Sem pressas, ficámos por ali a saborear um almoço a ver o rio passar.

Continuando o nosso passeio, vamos dar a um pequeno jardim que foi todo arranjado onde se vêem pessoas a aproveitar o rio. É sempre bom ver que os habitantes fizeram as pazes com o Tejo, que nos esteve tantos anos vedado. Ali pudemos escolher se queriamos ir em frente até ao Museu Naval, ou subir o elevador até Almada. Escolhemos o elevador, estávamos em dia de ar livre. Lá em cima, a vista só melhora, e pode passear-se por Almada velha. Para os mais afoitos ir até ao Cristo Rei, para os menos aventureiros, a Casa da Cerca está já ali e vale bem a pena a visita. Foi o que fizémos. Quase só para nós, não fazemos ideia onde páram as multidões de Agosto, mas ali não era de certeza. Jardim, exposição de arte moderna, esplanada, vista, tudo à nossa disposição com paz e sossego.

Quando nos cansámos foi só fazer o percurso inverso, relaxados e descansados, turistas na própria cidade.

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Uma dose foi generosa o suficiente para os dois. 
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A ponte é uma passagem… 
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Cadê um livro quando precisamos dele?
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A vista cá de cima do elevador
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A caminho da Casa da Cerca
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Exposição nos jardins da Casa da Cerca

 

 

Traço de Giz

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Por nenhuma razão em especial, o Verão é para mim tempo por excelência para ir pondo a minha leitura de novelas gráficas em dia. Talvez porque apetece menos ficar em frente à televisão embrulhada em cobertores, e mais a ler na varanda, ou porque apetecem coisas coloridas, o certo é que nesta altura dou um despacho às minhas BD’s que foram acumulando na estante.

Há umas semanas (meses?) atrás o Público lançou este pequeno livro de Miguelanxo Prado na sua colecção de novelas gráficas, e como sou grande fã deste autor não perdi a oportunidade de aumentar a minha colecção de títulos que possuo. E ainda bem. Bastante diferente do seu registo satírico e de crítica social a que nos habituou, Miguelanxo quis aqui fazer uma homenagem a Hugo Pratt escrevendo uma história em que o mar é personagem principal.

Este traço de giz que se fala é uma pequena ilha perdida no Atlântico, com um farol desactivado e uma população de 2 pessoas, mãe e filho. São as outras personagens que vão e vêm nos barcos que ancoram num pontão demasiado grande, cíclica e hipnoticamente que vão imprimir o ritmo estranho e por vezes claustrofóbico à narrativa.

Vale pela história, simples mas eficaz, mas sobretudo pela mestria das ilustrações, duma beleza e suavidade absolutamente únicas. Aconselho a todos os que gostam de BD, de histórias de amor, de histórias com algum mistério associado.

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De Volta ao Sandman

Neil Gaiman - Brief Lives

Demorou um pouco mais de um ano para, por razões várias, eu conseguir retomar a leitura dos livros do Sandman. Mas creio que valeu bem a espera, porque me parece que tive em mãos o meu volume favorito de toda a saga. O senhor dos Sonhos depois dum desgosto amoroso vai partir numa demanda com a sua irmã Delírio, em busca dum irmão há muito desaparecido na Terra, Destruição.

E, ao longo de belíssimas páginas, vamos conhecendo melhor a familia de Morfeu com as suas dificuldades, bem como a disposição mais depressiva do senhor dos Sonhos. O que é mais interessante nestes livros do Neil Gaiman, em que podemos achar que o visual até já está um pouco datado, são os textos muito bem construídos e que nos convidam sempre a uma profunda reflexão. Neste volume vamos sendo conduzidos por pinceladas sobre a inevitabilidade do Destino, a brevidade da vida, por mais longa que nos possa parecer em anos. No limite, nem 15 mil anos pareceria uma longa vida quando somos confrontados com a iminência da morte. É fabuloso como um “simples” livro de comics pode conter em si tantos mundos.

Para quem gosta de fantasia a sério, mundos paralelos, mitos, lendas e deuses antigos, este autor será sempre uma fonte de inspiração e conhecimento. Mal posso esperar para ler os próximos.

Fiquem com um amuse bouche.

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