Mértola é já ali em baixo

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Uma das primeiras vistas com que o Guadiana nos brindou

No sexto dia voltámos ao passeio. Tínhamos visto na previsão do tempo que seria o dia menos quente, ideal para as subidas e descidas de Mértola. Sim, que isto de ter começado o Outono não se aplica ao país todo, e o interior alentejano ainda não tinha baixado dos 30.

Mas rumo a Mértola cedinho, que havia muito para ver. Mal entramos na parte velha de Mértola somos brindados com magníficas vistas sobre o Guadiana. A vila é deslumbrante, e as vistas bonitas não nos largam, quer seja sobre o rio, quer seja sobre o Alentejo a perder de vista. É um sítio encantador e muito fotogénico. Dentro das muralhas, começamos por visitar a igreja matriz, que já foi uma mesquita e isso está bem patente na sua arquitectura. Desde os motivos que adornam a porta, à sua forma quadrangular, tudo espelha o seu passado. Seguimos para a alcáçova, mesmo nas traseiras da igreja, por indicação da simpática funcionária da igreja. Tudo estava bem explicado e o caminho a seguir bem traçado para desfrutarmos e aprendermos o mais possível. Calçado confortável recomenda-se, muita água e um chapéu na cabeça que o sol, mesmo de fim de Setembro, não perdoa.

Depois, rumo ao castelo. Hajam pernas para o sobe e desce, mas somos recompensados com uma vista ainda melhor sobre o Guadiana. O castelo em si não é grande, mas está bem conservado, e tem um museu dentro da torre de menagem. Por 2€ pode subir-se e ver-se o museu. Afiança o Peixinho Vermelho que vale a pena, eu alturas dispenso e fiquei a descansar à sombra, juntamente com uma excursão de brasileiros que estavam deslumbrados com os bolinhos de bacalhau e não conseguiam falar de outra coisa.

Depois do Castelo, foi caminhar sem destino pelas ruas estreitas da zona muralhada enquanto o calor deixou. Fomos ter à Câmara Municipal que alberga dentro dela uma casa romana que se pode visitar gratuitamente. À semelhança do que podemos encontrar no núcleo arqueológico da Rua dos Correeiros em Lisboa, onde escavações para ampliação do edifício do Millenium BCP deixaram à vista belíssimos vestígios romanos que hoje podemos visitar de borla, sucedeu exactamente o mesmo com as obras na câmara de Mértola e por isso tivemos acesso a mais este pedaço de história. Eu gostei particularmente dos unguentários de vidro, muito delicados. No site da Camara Municipal podemos encontrar mais informação sobre os vários núcleos expositivos.

Estava na hora de almoçar e tínhamos escolhido um restaurante de inspiração mediterrânica com vista para o Guadiana, chamado Terra Utópica. Dificilmente poderia ser melhor. À entrada somos recebidos pela música de Lhasa, sem dúvida das minhas cantoras favoritas. Depois toda a casa estava lindamente recuperada e decorada com antiguidades como se fosse um museu dentro da vila museu. Primeiro que conseguíssemos decidir qual a sala mais bonita onde almoçar, e finalmente parar de fotografar demorou. O que vale é que a moça era paciente. A comida era bonita e interessante. Recomendo vivamente.

Mas o dia estava longe de ter acabado. Mesmo à saída de Mértola temos as Azenhas do Guadiana, que não é bem praia fluvial porque dizem que as correntes são perigosas e o leito escorregadio, mas que se tivéssemos levado fato-de-banho acho que não íamos resistir. A paisagem é deslumbrante, um antigo açude com umas velhas construções que serviam para moer cereais, e hoje em dia são habitação duma panóplia de aves, insectos e peixes de meter inveja ao Nelson Évora. Foram momentos muito bem passados e voltaremos mais bem equipados uma próxima vez.

Assim sendo o banho teve de ficar na nossa praia já conhecida, onde acabámos o dia a refrescar e a ver o por do sol. A aventura estava a chegar ao fim, mas este foi sem dúvida um dos meus dias favoritos.

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A Igreja Matriz
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O interior da Igreja Matriz
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A alcáçova, núcleo islâmico por trás da Igreja Matriz
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O Castelo de Mértola
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O Guadiana sempre a nosso lado. 
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O terraço do restaurante, ideal para fins de tarde. 
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Pormenor da decoração do Terra Utópica
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O nosso almoço
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As Azenhas do Guadiana
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Ainda as Azenhas
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Nunca andar sem fato de banho… 
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Ler à Sombra das Palhinhas

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Outra vista da tapada que vimos numa das caminhadas

Os dois dias seguintes foram de descanso apenas. Manhã de caminhada pela aldeia a tentar conhecer o mais possível, ou ver pássaros típicos do interior alentejano, e depois na sesta praia fluvial.

A calma retornou ao local e conseguimos desfrutar de tranquilidade e despachar alguns livros à beira de água. Na realidade nestas férias vimos imensas aves diferentes e bonitas, como gaios, poupas e até umas abetardas passaram à frente do nosso carro, mas todas se esconderam diligentemente de cada vez que saí de casa de câmera em punho. Terão de acreditar na minha palavra.

O dia seguinte seria novamente de passeio, que ainda havia muitos tesouros escondidos por descobrir, venham até cá para saber tudo.

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Há vestígios de estruturas da mina escondidos por toda a parte
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Apesar do calor, as cores do Outono já se insinuavam.
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O sol a pôr-se nas traseiras da aldeia.

Finalmente, a Mina

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As Oficinas, mesmo à entrada das ruínas da Mina.

E ao terceiro dia seria tempo de descansar? Ainda não.

Ora um dos motivos de interesse de estarmos na Mina de São Domingos é exactamente o que lhe deu o nome. Por isso toca a levantar cedo (mais coisa menos coisa) e ir conhecer as ruínas da Mina, que além de tudo são um local interessantíssimo para fotografar. A mina esteve em laboração muito tempo, mas as edificações que se podem ver pertencem ao período em que foi explorada pela empresa inglesa Mason & Barry, de 1858 a 1966. É também um bom local para observação de aves, principalmente a zona da Achada do Gamo (ficará para outras núpcias)

Se pensarem visitar a mina aconselho alguma investigação prévia. Por exemplo aqui encontram um mapa do local e aqui encontram mais informação. Isso evita que andem como nós, baratas tontas debaixo dum sol escaldante, já que a informação no local é escassa, está dispersa e por vezes em locais pouco intuitivos. Regressámos sem nunca ter visitado a parte que está na Achada do Gamo, mas isso é apenas mais uma razão para voltarmos. Aconselho também calçado confortável. Eu tinha umas sandálias de caminhada e chegou, mas se tivesse ido de havaianas não me tinha dado bem, que o terreno é acidentado e cheio de coisas perigosas. E como sempre, muita água, que o sol alentejano, mesmo em meados de Setembro, não é para brincadeiras.

De resto têm diversos percursos que podem seguir, imensas ruínas interessantes. Fico sempre fascinada a pensar como seria tudo aquilo quando a mina estava em plena laboração e havia um caminho de ferro, uma indústria, importavam-se trabalhadores. Aconselho vivamente uma visita.

À tarde fomos finalmente espreitar a praia fluvial e a aposta foi ganha. Passada a euforia do fim de semana associado a fim de quinzena, ao que se juntou o fim da época balnear, o Peixinho estava no seu elemento, um sítio calmo e com pouca gente. A praia é muito arranjadinha, com chapéus de palha gratuitos à disposição, a água muito limpa e a envolvente bonita. Pessoalmente tinha dispensado a RFM toda a tarde aos berros na esplanada, mas nos dias seguintes fui para uma palhinha mais longe e isso deixou de ser problema. A Tapada Grande, nome dado à albufeira, foi também legado deixado pela empresa mineira, que precisava de muita água para o seu processo de extração de minério.

Mas assim ficámos o resto da tarde pacatamente a retemperar forças. Os próximos dias não iriam ser muito diferentes disto, passadas debaixo das palhinhas a ler preguiçosamente os livros que trouxemos na mala. Venham até cá que conto-vos tudo.

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Um pormenor da zona das oficinas
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A corta, zona que era explorada a céu aberto em diversos patamares e que está hoje cheia de águas ácidas e contaminadas
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Um pormenor da água que enche a corta
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O malacate, engenho hidráulico que servia para retirar água da zona de corte.
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Malacate
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As oficinas
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O cais da mina
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A central eléctrica
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Fim de tarde, recuperar forças na praia fluvial.

Serpa é já ali em cima

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A típica paisagem alentejana que nos acompanhou em todos os passeios.

Como disse no dia anterior, mais uma vez comecei as férias doente. Desta vez, num almoço fora ainda no trabalho apanhei uma virose qualquer que me fez ficar com um piquinho de febre e uma relação muito próxima com todas as casas de banho dos sítios onde íamos parando na viagem. Neste segundo dia acordei mais arrebitada, já sem febre, e pronta a ir rumo a Serpa, para juntar um dia de passeio com as necessárias compras. Mas primeiro faríamos um desvio até ao Pulo do Lobo.

Desde os tempos de faculdade que tinha curiosidade em conhecer este acidente geológico, onde o poderoso Guadiana é estrangulado numa cascata de pouco mais de um metro de largura, tão estreita que um lobo poderia atravessar de um salto, e daí o seu nome. Indo pelo lado de Serpa, como nós fomos, encontramos uma paisagem imponente, mas para chegar à cascata propriamente dita ainda é uma caminhada íngreme por mau caminho. Noutras circunstâncias teríamos ido lá abaixo, mas estava muito calor, estávamos sem água, e ficámos a meio caminho. Mas dava para ver que indo por Mértola se fica mais perto de água. Fica para a próxima. No entanto, valeu muito a pena pelo cenário que encontrámos, dramático, e como estávamos do lado “errado”, tivemos a vantagem de estarmos praticamente sozinhos a desfrutar daquele pedaço de paraíso. Um luxo nos dias que correm.

Paragem seguinte, Serpa. Já era perto da hora de almoço e eu já estava furiosamente a pesquisar restaurantes, acabámos por ir parar ao Alentejano, depois de termos sido rejeitados sem cerimónia pelo Molhó bico, e de eu ter andado a fazer um circuito de WC de cafés pelo centro da vila (todos limpinhos, fiquei impressionada). O Alentejano foi uma categoria, com umas belas bochechas de porco estufadas, que obviamente não devia ter comido, mas fui incapaz de resistir. Ao menos caíram bem. O pão de rala da sobremesa não impressionou, mas se calhar foi pelo meu sentimento de culpa a comê-lo.

Depois foi passear pelo centro de Serpa, o seu Castelo, o aqueduto, caminhar nas muralhas. Vale muito a pena, é muito bonito. O museu no castelo está muito bem conseguido, com um filme explicativo de muita qualidade e que vale a pena perder 5 minutos a ver. É incrível como cada vez mais por este Portugal interior se encontram equipamentos muito bem conseguidos (obrigada fundos comunitários bem aplicados por gente com vontade) que nos ajudam a perceber a nossa história, geologia, biologia. Pena não haver mais gente a desfrutar deles, que na maioria das vezes são gratuitos ou a preços irrisórios.

Depois duma tarde a desmoer bochechas e pão de rala debaixo do sol inclemente do Alentejo, hora de voltar para o ponto de partida. Deixo aqui nota alta para a qualidade das casas de banho, nas quais fui parando frequentemente. Dia seguinte, mais passeata.

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O Pulo do Lobo, aquela garganta estreita ali ao fundo
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As bochechas, deliciosas.
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Hilarião, hilariante. Cada terra com seu santo.
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E com o seu motivo de orgulho.
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Estive tão tentada a usar o elevador. Mas acabei por ter vergonha.
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Uma vista dos telhados circundantes, uns mais criativos que outros.
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Alentejo até perder de vista.
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O interior do Castelo, depois de termos passeado pelas muralhas.
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Cá fora, rodeando Serpa, o Aqueduto. Impressionante.
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Ainda o Aqueduto.

Rumo a Sul

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A igreja da aldeia

Depois de ter começado a ilustrar estas férias exactamente pelo fim, está na altura de voltar ao principio, e esse foi há já algum tempo, mais concretamente um sábado a meio de Setembro.

Finalmente era tempo da última prestação das férias deste ano, e mais uma vez íamos para fora cá dentro. Este ano tínhamos pensado em conhecer zonas novas, e Mértola já há muito que andava na nossa mira. Acabámos por nos decidir por Mina de São Domingos por causa da praia fluvial, já que peixinho que se preze tem de estar ao pé de água.

Como sempre, investigamos a zona previamente, porque faz parte do prazer da viagem, e tracei um plano para as férias, completamente flexível e adaptável ao que fôssemos encontrar e ao que nos apetecesse fazer na altura. Sábado saímos directamente do tai chi para 3 horas de viagem para o remoto interior do baixo Alentejo. A viagem foi muito agradável, o calor de Setembro é mais reconfortante que abrasador e tudo decorreu com tranquilidade, apesar das cegonhas já terem partido.

Mas quando chegámos ao destino esperava-nos uma surpresa. O sitio que antecipavamos que fosse calma e pacatez, estava cheio que nem um ovo. Imaginem conduzir 3h por estradas semi desertas e no fim chegarem à Fonte da Telha num domingo de Agosto. Foi o que nós sentimos. Ainda fomos à esplanada da praia fluvial beber uma água, mas não havia 1 cm de areia disponível, nem vontade de entrar na confusão. A própria água tinha mais pranchas de padel e gaivotas que pessoas.

Teríamos de mudar os planos. O domingo não ia ser passado tranquilamente na praia, até porque supermercado só a 40 km, por isso o dia seguinte seria de passeata.

Por agora, foi voltar para o que seria a nossa casa nos próximos dias e recuperar a forma, até porque pela milionésima vez este ano, estava a começar as férias doente.

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A vista da nossa casa.

Tempo de Voltar

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Uma loja típica

Enquanto escrevo estas linhas estou já embalada pelos movimentos pendulares de volta para casa. Hoje foi o nosso último dia no Porto, embora só vá passar isto para o blog daqui a algum tempo, não quis deixar de escrever já as últimas impressões.

Depois dos dois dias intensos de visitas e caminhadas e passeios, sobre os quais ainda nem tive tempo de reflectir, hoje foi um dia mais calmo, finalmente. Deixar o nosso apartamento que se tinha tornado uma casa (sítio acolhedor, antigo quartel de bombeiros redecorado, aconselho muito), mochila às costas e dar as últimas voltinhas na cidade que já deixa saudades. A pergunta que se faz sempre que se sai de casa (seria capaz de viver aqui? não sei). Como sempre nos últimos dias, tínhamos um planos gastronómico em mente. Faltava comer a francesinha obrigatória em cada visita. Desta vez, de GPS na mão, íamos em busca do Café Santiago. Dá última vez que estivémos no Porto, há 3 anos, assim que chegámos largámos num sprint Rua de Santa Catarina acima para ir experimentar o Bufete Fase, porque a parva que viu o caminho só viu que era ao cimo da rua, e esqueceu-se do pequeno pormenor de ver a escala. Deixem que vos diga que eram 1.6 km do sítio onde estavamos hospedados, e onde já chegámos à hora de almoço. Largámos em passo rápido, e só depois percebemos que não estávamos assim tão perto. E quando lá chegámos, bofes de fora… o Bufete Fase estava fechado para férias. E naquela zona já não havia nada aberto. Não há palavras que descrevam o nosso desalento.

Este ano não fizémos sprint, era cedo, e estavamos a 550 metros do Café Santiago, que era o escolhido, nosso e da Time Out. Quando o GPS nos indica que chegámos, e nos deparámos com um café fechado para obras, íamos tendo uma apoplexia nervosa. Já era quase meio dia e um quarto, e o que vale é que tínhamos tempo até ao comboio. Plano b, Capa Negra, largámos a caminho, mas eis senão quando, falso alarme e lá está outro Café Santiago, com UMA mesa acabadinha de vagar mesmo para nós (a que horas é que alguém começou a comer uma francesinha para estar terminado às 12:15?).

E pronto, foi um pedacinho de céu. 5 minutos depois estivémos tentados a pôr um papel na janela a dizer: trespassa-se mesa à janela por 50€, tal era o número de pessoas lá fora à espera, mas aguentámos estoicamente a pressão e deliciamo-nos com duas belas francesinhas. Agora podemos esperar mais dois ou três anos, que aquilo é demasiado forte para se comer muitas vezes.

O resto da tarde foi passado em calmaria, que tanta carne não nos deixa andar assim tão rápido. Fomos até aos Poveiros beber café, andámos até ao Bolhão, em eternas obras de melhoramentos, passeámos nos Aliados, Igreja da Trindade. Entretanto eram horas para o Alfa de regresso, e agora enquanto o Peixinho Vermelho dorme tranquilamente eu vou pondo a leitura em dia.

Adeus Porto, até breve.

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Porquê açúcar na água com gás?
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A francesinha!
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A dona do Bolhão
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Igreja da Trindade

O Comboio a Vapor

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A locomotiva a vapor

A nossa ida ao Porto teve como principal motivação andarmos no Comboio Histórico do Douro, que percorre o troço entre a Régua e o Tua num comboio com uma locomotiva a vapor de 1925 e várias carruagens todas recuperadas que vão desde 1908 a 1932, com a paisagem daquela zona que não preciso de relembrar que é património da Unesco.

Foi mais um dia que começou cedo, com uma ida até à Campanhã para apanhar o Interregional do Porto para a Régua, e confesso que me senti numa viagem no tempo ainda antes de entrar no Comboio Histórico. As carruagens em que estávamos não deveriam ser muito mais recentes que aquelas em que iríamos entrar (vá, passe o exagero, pelo menos já não eram de madeira), mas não estavam sequer recuperadas. E senti-me em pleno autocarro da Carris, tal era o número de pessoas em pé. Com a diferença que o percurso ainda eram duas horas, e o comboio consegue dar mais solavancos que o condutor do 758, coisa que eu achava impossível até à data.

Mas lá chegámos inteiros à Régua, e com tempo de dar mais uma caminhada à beira-rio, apesar do calor não convidar muito a grandes aventuras. Fomos almoçar ao Maleiro, e mais uma vez chegámos pouco depois do meio-dia a um restaurante já cheio. Esta obsessão de almoçar à hora do pequeno-almoço recorda-me o meu Tio Adelino, cuja epítome de ir almoçar fora era estar a sair do restaurante à 1 da tarde, para regressar a correr para casa e ainda ter tempo de dormir a sua sesta e apanhar a novela da tarde. True story. Por isso já estamos avisados destes horários a norte do Mondego, e raramente somos apanhados desprevenidos.

Mas valeu a pena, porque assim tivémos tempo de ver a locomotiva a abastecer de água, e fazer várias manobras sempre a apitar, para gáudio de todos os presentes. Foi engraçado ver vários adultos, incluindo uns senhores espanhois, funcionários da Renfe, comportarem-se novamente como garotos de 8 anos a brincar aos comboios. É dificil não nos contagiarmos com a alegria que impera naquela estação antes da partida do comboio.

Apesar de termos comprado os bilhetes na net, sem conhecimento prévio das carruagens, tivémos sorte e a nossa era das mais bonitas e mais espaçosa, de 1912. Todos os pormenores estavam muito bem recuperados até ao apito da locomotiva que soou o dia todo por aquele vale.

Por cada sítio que passávamos as pessoas ficavam encantadas. Devia ser um postal bonito a paisagem do Douro com um comboio a vapor, uma verdadeira viagem no tempo. Da minha parte, eu gostei verdadeiramente, incluindo de todos os pormenores adicionados para dar mais valia à viagem. Os moços vestidos a rigor, o grupo de música tradicional, o cálice de Porto, as paragens no Pinhão e no Tua. Apenas perto do Tua temos de ter o cuidado de desviar o olhar para não parar o nosso coração com aquele crime ambiental que está lá, bem patente, qual orgulho nacional da nossa obsessão betoneira, a barragem que destruiu o Tua e o seu vale, que poderiam ser ainda mais belos do que aqueles que estávamos naquele momento a percorrer.

Acabámos a viagem cansados, principalmente pelo calor, mas com um sorriso no rosto. Claro que depois ainda nos esperavam mais duas horas para o Porto numa carruagem sem ar condicionado e sem janelas, e chegar à Campanhã às 10h da noite ao mesmo tempo que tinha acabado o jogo no Dragão. Nessa altura já nem falávamos e acho que estavamos em meditação interna para tentar chegar vivos a casa.

Mais um dia se tinha passado, cansados mas contentes.

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Caminhar à beira-rio na Régua
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As carruagens mais recentes
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O seu interior, impecavelmente restaurado
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A nossa carruagem
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Os nossos bancos eram, obviamente, os de madeira.
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O aviso em todas as janelas.
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O cuidado em todos os pormenores.

E o Porto aqui tão perto

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Dia de passear na Foz

Este ano era para ter passado no Porto em Abril e ver a exposição do Miró. Como fiquei de cama com uma crise de coluna, que me anulou os planos todos de Abril (e Maio, e ainda estou em recuperação), tivemos de repensar as nossas passeatas. Felizmente o Miró vem à capital e o Porto ficou só adiado até agora.

O Porto é como um daqueles velhos amigos que só vemos esporadicamente, com anos de intervalo, mas que quando nos encontramos novamente parece que não se passou tempo nenhum, tantas são as coisas que temos em comum. Desta vez resolvemos ir de comboio, e fizemos uma mui tranquila viagem de alfa, nos dois sentidos. Um luxo. Escolhemos para ficar um Airbnb muito catita, bem situado, e que nos proporcionou um anfitrião 5 estrelas, cheio de boas dicas e boa conversa sobre o Porto. A home away from home.

Como já não era a nossa primeira visita, resolvemos passear numa zona que nenhum dos dois conhecia, a Foz. Mas antes de lá chegar, paragem na Casa Guedes para abastecer com uma sandes de pernil e queijo da serra, que havia muitos quilómetros de caminhada pela frente. No norte come-se mais cedo, e apesar de termos chegado poucos minutos depois do meio-dia, quase não arranjávamos lugar sentado. Mas, como esperado, foi de comer e chorar por mais. Daí, a pé até aos Guindais, funicular para a Ribeira, e de lá o 500 até à Foz, mais concretamente o Forte São João. Paragem para admirar a vista e preparar para a subida até ao Castelo do Queijo.

Estava um dia lindo de sol, mas imenso vento. Só muita militância permitia a meia dúzia de pessoas estarem na praia, apesar de em muitas estar bandeira verde. A paisagem é muito bonita, e calmamente se faz um belo passeio a admirar as praias dum lado, e o bairro estival por outro. Apesar de ser Agosto, estava pouca gente e foi um passeio descontraído.

Como ainda tínhamos pernas, resolvemos continuar a caminhar até Matosinhos para apanhar o Metro de volta para o Porto. Ainda parámos para um belo gelado na praia, de frutos vermelhos e banana, enquanto fugíamos do sol e nos preparávamos para o resto do caminho. Descobrimos que Matosinhos também tem o seu encanto, e finalmente estávamos de regresso a casa.

As vantagens de estar num apartamento é que num dia como este, em que nos tínhamos levantado incrivelmente cedo (eu antes das 6h), bastava comprar qualquer coisa num supermercado, comer por casa sem complicações, e estar na caminha à hora que apetecesse. Missão cumprida, o podómetro marcava 13km de caminhada, os pés diziam que foram pelo menos mil, e no dia seguinte havia comboio histórico.

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A sandes da Casa Guedes
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A vista do autocarro 500
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Tecnicamente, esta é mesmo A Foz. 
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Restos perdidos de outro tempo.
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O Castelo do Queijo
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A vista da nossa casa. Charme antigo. 
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Não se pode ir ao Porto sem comer um destes croissants… nham nham… 

Lisboa ao Fundo

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A vista do Ponto Final

Dizer que não gosto de tirar férias em Agosto é pecar gravemente por defeito. Os sítios estão cheios de gente que não tem outra solução de férias, e são mais caros. No entanto, por razões várias que não interessam inumerar, há muitos anos que nos calha a fava dos primeiros 15 dias, e férias são férias e há que tirar o melhor partido delas.

Já experimentámos todas as combinações possíveis, e na realidade vamos sempre encontrando umas coisas engraçadas e que desafiam exactamente a lógica que estava a dizer acima. Hoje vou falar-vos dum passeio bem jeitoso que nos ocupou o dia todo e onde estávamos tão tranquilos que nem parecia Agosto.

Não foi preciso acordar muito cedo, porque às vezes sabe bem não madrugar. Foi preciso, isso sim, pegar no passe e apanhar transportes públicos, que estão bastante mais aliviados nesta altura. O metro não desilude (Carris… eu tinha de estar muito desesperada para me meter nessa aventura em tempo de férias… já me basta o resto do ano). E depois uma pequenina viagem num cacilheiro até, exactamente, Cacilhas.

Do lado de lá encontramos um pontão mal amanhado, ladeado por edificios em ruínas, mas que nos leva sempre ao lado do Tejo que nos embala e que nos mostra a Lisboa que nunca vemos, a do lado de lá. Uma paisagem deslumbrante que nos permite ver a luz branca que emana da nossa cidade quando o sol lhe bate, e perceber porque tantos turistas andam agora encantados. Uma caminhada curta mas intensa leva-nos até dois restaurantes com esplanadas onde apetece ficar. Escolhemos o Ponto Final. Não foi preciso reservar mesa, porque era cedo, e dia de semana, mas aconselho a fazê-lo porque é um sítio bastante concorrido. Os senhores foram incansaveis a descobrir-nos a sombra perfeita onde pudémos desfrutar os nossos carapaus com arroz de tomate, que estavam bastante bons. Sem pressas, ficámos por ali a saborear um almoço a ver o rio passar.

Continuando o nosso passeio, vamos dar a um pequeno jardim que foi todo arranjado onde se vêem pessoas a aproveitar o rio. É sempre bom ver que os habitantes fizeram as pazes com o Tejo, que nos esteve tantos anos vedado. Ali pudemos escolher se queriamos ir em frente até ao Museu Naval, ou subir o elevador até Almada. Escolhemos o elevador, estávamos em dia de ar livre. Lá em cima, a vista só melhora, e pode passear-se por Almada velha. Para os mais afoitos ir até ao Cristo Rei, para os menos aventureiros, a Casa da Cerca está já ali e vale bem a pena a visita. Foi o que fizémos. Quase só para nós, não fazemos ideia onde páram as multidões de Agosto, mas ali não era de certeza. Jardim, exposição de arte moderna, esplanada, vista, tudo à nossa disposição com paz e sossego.

Quando nos cansámos foi só fazer o percurso inverso, relaxados e descansados, turistas na própria cidade.

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Uma dose foi generosa o suficiente para os dois. 
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A ponte é uma passagem… 
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Cadê um livro quando precisamos dele?
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A vista cá de cima do elevador
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A caminho da Casa da Cerca
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Exposição nos jardins da Casa da Cerca

 

 

Férias no Sapal

Preparo este post nas notas do telemóvel à beira da piscina no meio do sapal de Castro Marim. Apesar de ter a aplicação do blog, ainda não me entendo a fazer os posts por lá, nem tive paciência para me dedicar a estudar como é que se faz.  Enquanto escrevo, temo pela saúde do telemóvel por causa de dois miúdos com verdadeiras metralhadoras de água que encetam uma guerra sem quartel à volta da piscina, com um intrincado conjunto de regras que faria inveja a um verdadeiro estratega militar. É refrescante ver miúdos que ainda sabem brincar sem ecrãs, mesmo enquanto eu temo pelo meu.

Vim passar uma semana a Castro Marim, no espírito vá para fora cá dentro que pauta este ano. Trouxe tudo o que preciso. Muitos livros novos no Kindle, dos quais vou ler apenas uma fração, revistas para a praia, que sou demasiado picuinhas para sujeitar o meu Kindle a tão altas temperaturas e perigo de roubos, muito protetor solar e, acima de tudo, muito stress acumulado para deixar na água do mar.

O sítio que descobrimos, o Sobral de Baixo, é uma quinta perdida no meio do sapal, com pequenos apartamentos acolhedores e uma piscina onde apetece estar. Está suficientemente isolado para só se ouvirem os passarinhos, mas perto para só demorarmos 5 minutoss para a praia ou restaurante mais próximos. Ideal para o tipo de férias que gostamos.

Os dias são passados entre caminhadas na praia, a tentar retomar alguma da forma física que o problema de costas me tem retirado. 7 a 8 kms por dia, devagarinho na areia rija. Depois muitos banhos de mar, que lavam a alma e levam consigo más energias e maus pensamentos. As tardes, como esta em que vos escrevo, à beira da piscina, a ver as andorinhas beber água e a ouvir pouco mais que os pássaros. Pelo meio tudo o que apeteça, entre gelados e peixe grelhado e muitos livros.

Quando finalmente puser este texto no blog, já estarei a trabalhar, e este vento que toca nas árvores não é mais que uma recordação, ou talvez nem isso, engolido pelo peso dos dias.

Mas enquanto isso não acontece, vou até ali dar umas braçadas, para aproveitar as tréguas na guerra sem quartel que se desenrola à minha volta.

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Caminhadas na praia
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Tardes de piscina
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Muita leitura
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Passeios no pomar, no meio do sapal
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Praia ao amanhecer
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Praia ao anoitecer
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Próxima paragem: Alentejo!