Livros que Recomendo: Os Homens que Odeiam as Mulheres

stieg Larsonn

Mais uma vez venho recomendar um livro que quase toda a gente já deve ter lido, mas mesmo assim chegou a sua altura. Há alguns anos atrás, o outro Peixe cá de casa andava a investigar as actualidades quando se deparou com a sinopse deste livro e comprou para nós lermos numas férias. Na realidade tratámos de arranjar logo as sequelas também, de tal modo ficámos entusiasmados com a história.

Para lá da história do livro, temos a história do seu autor, Stieg Larsson, que nem teve oportunidade de ver o sucesso estrondoso que os seus livros estavam a ter, já que morreu de ataque cardíaco ao fim dos três primeiros volumes. A história, que estava planeada para ser 10 volumes inicialmente, ficou assim sem continuação, no entanto, e ao contrário do Game of Thrones, por exemplo, as linhas de enredo que foram começadas terminaram e não nos sentimos abandonados de repente. Os livros seguintes estavam planeados para continuarmos a seguir as aventuras de Lisbeth Salander, mais do que para concluir este primeiro enredo.

Mas neste livro (e nos dois subsequentes) temos uma história policial, de investigação jornalística, aparentemente apenas mais um thriller do género. Um avô octagenário quer saber o que provocou o desaparecimento da sua neta algumas décadas atrás, e para isso contrata um jornalista de investigação Mikael Blomkvist (uma espécie de alter ego do autor) para investigar. No entanto o facto do autor ser sueco e o livro ser passado na Suécia traz logo um toque refrescante à acção. Saímos do território mais que explorado dos EUA ou UK, e entramos num mundo diferente, aprendemos muita coisa sobre a cultura do país, e percebemos que esta é uma história profundamente contemporânea e europeia.

Depois temos um dos melhores personagens que eu tenho memória, Lisbeth Salander, a rapariga com um passado conturbado, com uma inadequação social muito grande, de quem muita gente abusa, mas que também entra no coração de muitos outros. Lisbeth tem uma força e um impacto que não me lembro de ter visto noutros personagens femininos e só por isso estes livros merecem ser lidos.

Não me vou alongar muito sobre a história, apenas refiro que tem algumas passagens que podem chocar mentes mais sensíveis, mas que esse é também um dos encantos do livro.

Já se fizeram duas adaptações ao cinema, uma sueca e outra americana, mas esta última não passou do primeiro livro. Devo referir também que este é dos poucos casos em que a tradução portuguesa do título está mais fiel ao original sueco, do que a inglesa, que ficou uma versão higienizada: The Girl with the Dragon Tattoo.

Recomendo a todos os que gostam de policiais, com muito ritmo, fora do comum e personagens fortes.

Boas Leituras!

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Acabei de ler: Murmuration

murmuration

Keep scrolling if you prefer to read in English

O Netgalley desta vez deu-me a oportunidade de ler o livro de estreia de Robert Lock, um livro bonito e delicado, passado ao longo de cerca de 100 anos numa cidade costeira inglesa, com um cais vitoriano que permite aos veraneantes passearem ao longo da praia e em cima do mar, com um belo teatro no final.

Seguimos a história de cinco personagens, desde 1865 até aos dias de hoje, algumas estendidas no tempo, outras concentradas em poucos dias, mas todas interligadas de algum modo, desde os tempos áureos da estância balnear, ao seu declínio nos dias de hoje em que os ingleses preferem paragens mais quentes e com mar mais convidativo. Tudo isto pontuado com o voo crepuscular dos estorninhos, com os seus padrões e sons que formam a ponte entre todas as histórias.

Eu gostei do livro, está bem escrito, as histórias são coerentes, muitas vezes surpreendentes e com um subtil toque de misticismo. No final tudo se completa e forma uma narrativa sólida e alguns personagens, como Michael Braithwaite, são verdadeiramente deliciosos.

Recomendo a todos os que gostam de livros bonitos, diferentes, com uma história envolvente.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Netgalley gave me the opportunity to read Robert Lock’s debut novel, a beautiful and delicate book that takes place across 100 years on a small coastal town in the UK, with a Victorian pier that allows holiday makers to promenade along the beach and over the sea. It has a beautiful theater at the end that is central point of all stories.

We follow the stories of five characters, since 1865 till today, some stretched in time, others concentrated on a few days, but all of them intertwined. We start in the pier’s golden age and we follow through its declining years, where British holiday makers prefer warmer places with a gentler sea. All is marked by the starlings’ twilight flights, with its murmuration and beautiful patterns, forming a liaison between all the stories.

I liked the book very much, it is well written and the stories are cohesive and surprising at times, with just a hint of otherworldly details. It all comes together at the end, forming a solid narrative and some characters, like Michael Braithwaite, are delicious.

I recommend it to everyone who loves a good book, beautiful and different, with a catching plot.

Happy Reading!

Finalistas do Man Booker 2018

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Foram anunciados a semana passada os seis finalistas do prémio Man Booker 2018. Desta vez não conheço nenhum, apesar de reconhecer algumas capas do Netgalley. Na realidade 3 destes livros foram previamente disponibilizados por esta plataforma, o que me deixa a pensar que tenho que dar mais atenção aos livros que por lá andam e tentar escolher os certos.  Deixo-vos aqui embaixo a lista com as minhas impressões.

Anna Burns, Milkman (Faber & Faber): Livro de escrita original, frases e parágrafos longos e história densa. Parece interessante, já que se passa em Belfast no final dos 70’s, altura conturbada e cheia de instabilidade social. Fiquei com vontade de ler.

Esi Edugyan, Washington Black (Serpent’s Tail): A história dum rapaz de 11 anos, escravo, e de como consegue passar a homem livre, com ajudas improváveis. Não me pareceu o meu género de livro pelo que li na sinopse.

Daisy Johnson, Everything Under (Jonathan Cape): baseado em mitos e contos de fadas, é também um livro sobre linguagem, e uma viagem às memórias de infância. Tem excelentes criticas este primeiro trabalho da escritora, mas não sei se me entusiasmou.

Rachel Kushner, The Mars Room (Jonathan Cape): Uma história sobre uma mulher condenada a duas penas de prisão perpétua na Califórnia, este livro dividiu os seus leitores. As criticas são muito boas, ou muito más, mas a mim deixou-me curiosa o suficiente para lhe querer pegar.

Richard Powers, The Overstory (William Heinemann): um livro de ficção ambiental, sobre o poder das árvores e o modo como o homem se distancia dos outros habitantes do planeta. Mais um que divide opiniões, mas que me despertou bastante interesse.

Robin Robertson, The Long Take (Picador): a história dum soldado canadiano da Segunda Guerra Mundial que vai tentar fazer vida como jornalista em Los Angeles no pós-guerra. Os seus traumas e as suas dificuldades encontram espelho na decadência da cidade à sua volta, tudo isto permeado com poesia. Parece-me uma aposta segura.

Se leram algum, partilhem a vossa opinião.

Boas leituras!

Livros que Recomendo – Contos do Gin Tonic

gin tonic

Mário Henrique-Leiria já fez umas aparições aqui no Peixinho na Poesia de segunda-feira, mas achei que já estava na altura de recomendar o livro que me fez chegar até ele. Já não me lembro bem qual a história que me trouxe até este livro, no fundo da minha memória está associado a uma amiga muito louca com quem partilhei umas noitadas e o amor pelos livros, mas pode ter vindo de qualquer outra pessoa.

Sem dúvida que A nêspera foi o primeiro poema que me despertou a atenção e que me levou a querer conhecer mais deste autor surrealista.

Mário Henrique-Leiria era um escritor que fazia parte dum grupo  de surrealistas e isso está bem marcado na sua obra. Este livro é um conjunto de contos, mais em prosa que em poesia, mas todos com uma veia fantástica, humorística e satírica, a condizer com o espírito pré 25 de Abril que para se dizer umas verdades sociais e politicas elas tinham de vir mascaradas de algo diferente. Lido nesse contexto, a nêspera pode ser visto como um apelo à acção, a tomar o nosso destino nas próprias mãos, e muitos dos contos que estão contidos neste livros estão carregados de mensagens. Mas acima de tudo dão imenso prazer a ler.

Recomendo a todos os que gostam de literatura portuguesa, de coisas divertidas e diferentes e que se querem deixar encantar.

Se quiserem saber mais sobre o autor têm bons artigos aqui e aqui.

Boas Leituras!

Noivado
Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
– És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia.

Livros que Recomendo – O Rapaz que Prendeu O Vento

prendeu o vento

Imaginem que nasceram numa pequena aldeia remota no Malawi e que um dos maiores prazeres que têm é ir à escola, aprender e ler tudo aquilo a que conseguem deitar a mão. Depois imaginem que uma seca assola o vosso país, dependente duma agricultura incipiente, tradicional, e que uma fome avassaladora se abate por todo o lado, e os vossos pais deixam de ter capacidade de pagar o vosso uniforme escolar, e consequentemente vocês deixam de poder ir à escola.

Este é o começo da história de William Kamkwamba, que tinha tudo para ser uma história trágica como tantas que vemos na comunicação social diariamente, mas que na realidade é um hino à superação, à aprendizagem e ao engenho humano. William aprende com os livros que lhe vão emprestando na biblioteca enquanto não pode ir à escola, e com os conhecimentos rudimentares de física e engenharia, acaba por desenvolver um moínho de vento que vai trazer electricidade primeiro a casa dos seus pais, e mais tarde à sua aldeia.

Isto fez com que ele fosse descoberto no seu país e internacionalmente, fosse convidado a dar uma TedTalk, e a partir daí conseguiu patrocínios para concluir a sua educação.

Este livro, que me foi oferecido por uma amiga, impressionou-me bastante e eu própria já o ofereci algumas vezes. É uma lição de vida sobre como não desistir em face da adversidade, em como olhar à nossa volta e pensar que tudo são recursos e oportunidades e não obstáculos, e como realmente o lixo de uns são os tesouros dos outros.

Recomendo muito este livro a todos os que gostem de saber mais sobre outros países, outras culturas e realidades, mas que queiram ao mesmo tempo aprender sobre si próprios e sobre as suas capacidades.

Boas Leituras!

O Oitavo Poirot

End House

 

Sempre que estou numa fase em que não sei o que ler, ou sem vontade de ler no geral, como a que estou a atravessar, tendo a recorrer a zonas de conforto, autores que sei que não só dificilmente vão falhar, como também não irão escrever tratados densos de mil páginas.

Obviamente poderia simplesmente fazer uma pausa na leitura, como me disse alguém, mas nem vou comentar isso. Nem faço ideia como ocupar as duas horas diárias de tortura na Carris se não for a ler e a abstrair-me das pessoas. Ler é para mim uma questão de sobrevivência e sanidade mental.

Mas assim sendo voltei a refugiar-me numa segura história do Poirot, a oitava agora que os estou a ler por ordem de publicação, e não fiquei desiludida, antes pelo contrário. Apesar de me lembrar visualmente de já ter visto o episódio na televisão, continuei sem fazer ideia de quem era o verdadeiro culpado, e mesmo quase até às últimas páginas estive em verdadeira expectativa a disparar possibilidades para o ar. Para quem, como eu, tem a mania que é esperta e sabe mais que os autores, foi refrescante ser surpreendida desta vez.

Recomendo a todos os amantes do género, os que gostam de Poirot, e os que gostam de uma boa história para passar o tempo. Em português está editado como Perigo na Casa do Fundo.

Boas Leituras!

Goodreads Review

The Watchmen

watchmen

Depois de ter terminado toda a saga do Sandman, fiquei um bocadinho sem saber o que ler em termos de BD. Claro que tenho muita coisa cá em casa ainda à espera de ser lida, e que entretanto já se compraram mais alguns, mas a mesma amiga que me emprestou os do Neil Gaiman percebeu a minha sensação de perda e imediatamente a colmatou emprestando-me este volume e garantindo-me que eu iria gostar.

Tendo acabado de sair dum mundo tão fantástico e onírico, o choque que senti com as primeiras páginas deste livro não foi pequeno. Ambos são negros, mas Neil Gaiman é mais negro gótico, e este é mesmo negro desespero. Distopia, como seria o mundo se uma série de premissas não se tivessem verificado. Não me senti preparada para uma transição tão abrupta, e deixei-o a marinar um bocadinho na minha estante.

Até que finalmente nestas férias achei que estava na altura de o agarrar de frente, e enfrentar este mundo de super heróis decadentes, tão decadentes e proscritos que a própria BD que se vende aqui é toda sobre piratas, porque ninguém quer ler sobre super heróis. Aliás, de preferência, ninguém quer saber que eles ainda existem, tirando um que ainda pode ter alguma utilidade desde que bem controlado pelo governo, e isolado numa redoma da restante população.

Este livro é a simbiose perfeita entre desenho e argumento. Não consigo imaginar esta história contada de outro modo que não este, e só as múltiplas camadas atingidas com o texto e o desenho nos conseguem transmitir todos os significados que o autor nos queria fazer chegar. Desenganem-se aqueles que estão convencidos que BD é coisa de crianças, ou que o universo dos super heróis é tão linear e insípido como Hollywood nos quer fazer crer.

Estes super heróis são pessoas com algumas características que lhes permitem serem diferentes de nós e lutarem contra o crime de algum modo, no entanto as próprias máscaras que os ajudam a proteger a identidade a partir de certa altura denunciam-nos e cobrem-nos de ridículo. A certo ponto um deles, depois duma cena mais violenta, pergunta contra quem é que eles estão a proteger o público, se dos vilões se dos “bons”. Estes “bons” são pessoas carregadas de defeitos, neuroses, dificuldades sociais e de adaptação e que no momento em que história começa estão não só proibidos de exercer, como começam a ser atacados por uma força desconhecida e mortos um a um. É este o catalisador de toda a série de acontecimentos que se seguem, embebidos numa história mundial e de guerra fria muito complexa, e com imensos sub textos paralelos que eu tenho sérias dúvidas que tenha conseguido abarcar na totalidade.

Aconselho a todos os fãs de BD, mas principalmente aos que não se deixam intimidar por uma história longa, complexa, que é preciso ler com uma atenção que normalmente não associamos a este género de livro. Vão ver que não se vão arrepender, este é um verdadeiro clássico do género.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Também o Que É Eterno

Manuel Resende

Também o que é eterno morre um dia.
Eu tusso e sinto a dor que a tosse traz;
O doutor quer por força a ecografia,
Mas eu não estou pra tantas precisões.

Eu rio à morte com um riso largo:
Morrer é tão banal, tão tem que ser!
Disto ou daquilo, que me importa a mim?
Mas, ó horror, com fotos, não, nem documentos!

A tanta exactidão mata o mistério.
O pH, o índice quarenta…
Não quero as pulsações, os eritrócitos,
O temeroso alzaimer, ou o cancro,
Nem sequer o tão raro, do coração.

Ver o pulmão, o peito aberto, o coração,
A palpitar a cores no computador?
Eu morro, eu morro, não se preocupem,
Mas sem saber, de gripe, ou duma coisa,
Ou doutra coisa.

Manuel Resende, in ‘O Mundo Clamoroso, Ainda’

Foto e entrevista aqui