Projectos para 2021

New Year Resolutions

Depois dum dos anos mais estranhos dos últimos tempos é muito difícil fazer projectos para o próximo. A incerteza paira no ar, seremos ou não vacinados, quando, voltará a vida a ter algum tipo de normalidade?

No entanto é certo que leremos livros, porque sem isso é que não se passa ano nenhum, certo? Nesse aspecto tenho algumas ideias para o que quero fazer em 2021 que, à semelhança dos anos passados, serão religiosamente ignoradas enquanto leio rigorosamente só aquilo que me apetece.

– Terminar os Poirots. Faltam-me neste momento 9 títulos (sem contar os livros de contos) para terminar de ler todos os Poirots por ordem de publicação. Não sei se conseguirei o imediatamente a seguir (After the Funeral), porque acabei de ver o episódio na televisão, mas se conseguir passar o meu auto-bloqueio parece-me tarefa fácil para 2021.

– Ler livros de viagens. É certo que não será ainda em 2021 que vou regressar às viagens, graças ao covid, ao jaquinzinho ainda ser muito pequeno e impaciente, e à instabilidade geral, mas isso não me impede de ver o mundo pelos olhos dos outros. Assim sendo já tenho uma listinha de títulos interessantes debaixo de olho para colorir 2021.

– Experimentar autores novos. Na realidade isto é uma coisa que já faço todos os anos, mas que pretendo continuar a fazer já que há imensa coisa boa para ler ainda à minha espera.

E não tenho mais projectos, literários ou outros, para 2021. Melhor deixar as opções em aberto e perceber o que aí vem.

Um bom ano para todos, nos livros como na vida, e com mais tempo passado fora de casa. Com mais beijos e abraços, cafezinhos e jantaradas com amigos.

Boas Leituras e Bom 2021!

Poema de Ano Novo

mario quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
– Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
– Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
– O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Mario Quintana

Balanço 2020

balanco 2020

Final do ano é tradicionalmente tempo de fazer balanços aqui no Peixinho. Mas o que dizer depois de um ano como 2020? Nem ler regularmente distopias me preparou para que uma acontecesse na realidade, mesmo que suavezinha.

Para 2020 não tinha feito grandes projectos, mais por causa do jaquinzinho e do tempo que ele ocupa na nossa vida. Mas mesmo assim não contava passar tanto tempo em casa, ou ver a minha vida social tão drasticamente reduzida. Considerando que a maior parte do tempo que eu tinha para ler era nas deslocações de e para o trabalho, que desde Março deixaram de existir, mesmo assim consegui ler um número muito saudável de livros e alguns muito bons.

De acordo com o Goodreads este ano li 50 livros, mais de 13 mil páginas no total. Desses, 11 foram Poirots, e foi o ano em que me aproximei mais do fim da série. Li 26 autores que nunca tinha lido antes, incluindo Ursula K. Le Guin, um nome importante da fantasia e sci-fi. Foi um ano literariamente muito bom.

De resto foi um ano de ficar por casa. Apesar de ter saído à rua bastante menos do que gostaria, este tempo em casa permitiu-me seguir a evolução do jaquinzinho dum modo que não teria sido possível se não fossem estas circunstâncias especiais. Foi com certeza um ano de reinvenção.

Veremos o que o novo ano nos reserva, para já sabemos que nada sabemos ainda.

Boas Leituras e Boas Festas!

Natal

miguel torga

Um anjo imaginado,
Um anjo diabético, atual,
Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra, e de incenso e ouro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breve como o vento
Que entra por uma fresta, quizilento,
Redemoinha e sai:

A volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternalmente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?

Miguel Torga

Livros que Recomendo – O Misterioso Caso de Styles

poirot 1

Pois é, desde o início deste blog que vos tenho vindo a falar dos livros do Poirot que tenho andado a ler por ordem de publicação, e parece impossível que ainda não tenha recomendado nenhum. Pois isso muda hoje em que eu recomendo, exactamente como esperado, o primeiro caso de Poirot.

Publicado em 1920 (fez 100 anos em Outubro) este foi o primeiro livro de Agatha Christie a ver a luz do dia. É simultaneamente a primeira aparição de Hercule Poirot, o detective belga que está em Inglaterra como refugiado da grande guerra. É com este livro que se estabelecem as bases para todas as histórias seguintes, e também para muita da literatura policial que lemos hoje em dia.

Poirot não é um detective como os outros. Não anda de nariz no chão à procura de pistas escondidas, não anda a colher impressões digitais nem marcas de sapatos, esse é o trabalho da polícia. Poirot conversa. Conversa muito. E é através desses diálogos que vamos conhecendo a história, as personagens, as circunstâncias. As histórias são (quase) sempre muito bem construidas e levam-nos a tentar adivinhar quem é o culpado quase desde início. Não temos perseguições espectaculares, nem outro tipo de artifícios usados actualmente, em que cada livro parece um filme, mas temos escrita muito inteligente que se lê num ápice.

É também neste volume que conhecemos duas das personagens mais recorrentes para além do próprio Poirot. O Capitão Hastings, seu fiel amigo e parceiro ligeiramente menos inteligente, e o homem que realmente pesquisa e fornece as pistas físicas, o Inpector Japp da Scotland Yard.

É um livro que recomendo a todos os níveis. É interessante, descomplexado, fácil de ler e que nos deixa agarrados do princípio ao fim. É também um retrato interessante da época em que foi escrito.

Boas Leituras!

Séries que Recomendo – Crónica dos Bons Malandros

malandros

Eu sei que não é meu costume recomendar séries, mas às vezes tem mesmo que ser. O livro, por outro lado, já aqui recomendei. É um delírio cómico, com personagens surreais, mas muito típicas duma Lisboa de outros tempos.

E agora começou a série na RTP, com um lote de excelentes actores e com acesso ao Museu da Gulbenkian para fazer a coisa bem feita. O filme, rodado nos anos 80, não teve permissão para filmar dentro do Museu, o que levou a uma cena do roubo altamente psicadélica e, na minha opinião, demasiado longa.

Mas já vi os dois primeiros episódios e estou rendida. Visualmente bem feita, boas interpretações e o bom humor que era esperado. Recomendo vivamente.

Podem ver na RTP Play, se já não forem a tempo de ver na box.

Boas Leituras e boas séries.

1001 Livros para Ler Antes de Morrer

1001 livros

Sim, é verídico, existe um livro que é uma compilação de livros que temos que ler. Peter Boxall, professor de literatura numa universidade inglesa juntou-se a vários criticos e académicos para compilar uma lista de livros que deveríamos absolutamente ler. 

A primeira edição foi em 2006, e a lista foi depois revista 4 vezes, a última delas em 2018. Dos 1001 livros originais eu já li 71, desta última lista eu li 68. Como sempre estas coisas são subjectivas e sujeitas não só ao gosto pessoal, mas também à nacionalidade dos compiladores da lista em si. Não é por isso de estranhar que hajam por exemplo 6 livros da Jane Austen na lista original, ou 9 de Charles Dickens. Mesmo assim é uma lista variada, com autores europeus, americanos, asiáticos, sul-americanos. Portugueses estão lá Lobo Antunes, Saramago, Pessoa e Camões, mesmo assim nada mau. 

Pode ser uma lista interessante se gostarem de desafios de leitura, ou simplesmente para referência. Eu tento sempre não me prender a listas no sentido em que já não tenho anos de vida para ler tudo o que gosto, quanto mais perder tempo a ler coisas que não gosto por obrigação. Mas gosto sempre de consultar para ter ideias de autores que ainda não conheça.

Podem encontrar a lista em excel aqui, se não quiserem comprar o livro. 

Boas Leituras!

na casa do macedo

ondjaki

na casa do camarada macedo

as estrelas já não pedem licença

(ganharam à-vontade de entrar);

os gambuzinos expulsaram os sapos da noite,

tomaram uma minúscula colina.

de repente o céu entornou uma estrela

sobre a casa.

a poeira cósmica faz sombra

na casa dele.

hoje mesmo, agorinha, os gambuzinos recuaram

e se recolheram – perto da represa.

fizeram as pazes com os sapos.

um dia, atrás do tempo,

o camarada macedo chegou nesta colina

e cumprimentou um lagarto (dono de uma nocheira);

esse lagarto é que autorizou o camarada macedo

a habitar o local.

nesta casa circulam abelhas mansas,

quissondes inofensivas.

até estrelas.

o camarada macedo ainda agora me disse:

«esse lagarto faz parte da família.»

[o camarada macedo também deve fazer parte da família

do lagarto.]

louvada seja a huíla.

Ondjaki in Materiais para a confecção dum espanador de tristezas

Livros que Recomendo – Born to Run

born to run

Talvez não seja grande surpresa se eu vos disser que não sou muito dada a corridas. Desde pequena que nunca gostei muito de correr, não era coisa que me entusiasmasse. Eu sou mais virada para tudo o que tenha a ver com água. No entanto, uma coisa que sempre gostei foi de um bom livro, com uma boa história, e é o que temos aqui.

Christopher McDougall é um jornalista que gosta de correr. Após uma lesão num pé começa a investigar sobre a qualidade do calçado desportivo e isso leva-o ao conhecimento duma tribo mexicana que corre grandes distâncias maioritariamente descalços. Os Tarahumara não só correm muito, como correm bem e parecem bastante saudáveis enquanto população.

A investigação sobre esta tribo leva-o a conhecer imensos personagens fantásticos, mas também os seus problemas já que o seu território é também o território de alguns carteis de droga. Vamos também entrar no mundo das ultramaratonas e os seus desafios, e a meio do livro já só me apetecia levantar do sofá e ir correr pela natureza descalça.

Muita gente argumenta que a ciência por trás de algumas afirmações não está 100% correcta, mas isso não denigre em nada a qualidade do livro, e se possível até lhe dá mais força. Tendo em conta que uma das afirmações feita é que o calçado de corrida, principalmente o mais caro e mais desenvolvido, é também aquele que mais lesões provoca, é natural que se encontre alguma disputa em relação a isto.

Recomendo a todos os amantes de corrida, mas também de viagens e culturas diferentes, ou simplesmente quem gosta duma boa história, bem contada.

Boas Leituras!

Livros que Quero Ler – The Nine Horizons

nine horizons

Já sabem que gosto muito de ler livros de não ficção, principalmente livros de viagens e sobre sítios diferentes. Já tenho este livro de Mike Robbins na minha lista de espera há bastante tempo, e espero finalmente lê-lo em 2021.

Mike Robbins é um jornalista inglês que começou a viajar em 1987 quando fez voluntariado no Sudão. Depois disso nunca mais parou e este livro é não só um relato de viagens, mas um conjunto de observações sobre locais que Robbins conheceu quer em viagem, quer por lá ter vivido algum tempo. 

Um olhar diferente sobre um mundo que está em constante mudança, e um retrato duma época, à semelhança de livros que li recentemente como o de Michael Palin. Parece-me bastante interessante. 

Até lá, Boas Leituras!