O Último Sandman

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Um dos livros que tinha para ler neste início de 2018 era este “The Wake“, para terminar a minha maratona de ler todos os livros do Sandman, escritos por Neil Gaiman. No penúltimo volume o rei do mundo dos sonhos tinha morrido na sua forma de Morfeu, e tinha deixado a sua essência numa jóia que entregou ao seu sucessor. Que continua a ser o senhor dos sonhos, mas já não é Morfeu. É um Endless, mas reinventado. Confuso? Percebe-se melhor lendo.

A primeira parte do livro, e na minha opinião a melhor, mostra-nos o velório e o funeral, os seus preparativos, convidados, discursos. Mais do que mostrar transporta-nos até lá, porque toda a humanidade está presente em sonhos. E do modo como está escrito, sentimo-nos mesmo presentes em todos os momentos, até deixarmos de estar convidados.

Continuamos depois por mais duas histórias com o novo Sandman, mas que não impressionam, principalmente a do ancião chinês que por causa da fonte utilizada me custou imenso ler.

E terminamos o livro voltando a Shakespeare, o grande amor quer de Sandman, quer de Neil Gaiman, a fechar o círculo com mais uma das suas peças, neste caso a última, como não podia deixar de ser. Recordo aqui que já “Sonho de uma noite de Verão” era presença assídua nestes contos, com as suas referências ao mundo das fadas e as suas personagens, e diz-se aqui que a peça foi uma encomenda de Morfeu para os seus amigos deste reino.

Ler estes livros foi como recordar o início da minha própria história, quando ouvia Bauhaus, ia à Juke Box e a minha estética de alguma forma se cruzava com a do senhor dos sonhos que na altura era a novidade que todos falavam e eu lia nas estantes da Fnac sonhando um dia comprar.
Entretanto crescemos os dois, mas o nosso caminho vai-se cruzando periodicamente nas fantasias que Neil Gaiman continua a escrever. Recomendo a todos aqueles que gostam de uma boa história pejada de mitos e sonhos, aos que acreditam que é impossível matar os sonhos e as boas ideias.

Goodreads Review

Boas leituras!

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Livros que Recomendo – Persepolis

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Nas passadas semanas tenho vindo aqui recomendar livros que me marcaram ou que acho importantes de algum modo. Até agora (e já passaram 5 títulos) ainda não tinha entrado no território das novelas gráficas, ou banda desenhada como são mais conhecidas, mas já não era sem tempo. Muita gente pode pensar que apenas se falam de heróis da Marvel, histórias fantásticas e sobrenaturais, ou coisas da Disney e afins. No entanto as novelas gráficas são um meio como outro qualquer para se falar de coisas muito sérias, e por vezes produzem-se livros com uma qualidade fenomenal, como este que vos apresento hoje.

Persepolis veio até mim primeiro na versão filme (animado também, pois claro), mas assim que tive a oportunidade (graças à biblioteca que gentilmente a minha empresa disponibiliza) agarrei a versão livro e fiquei deslumbrada. Esta é uma auto biografia da autora que cresceu no Irão na altura em que este se transformava politica e religiosamente, e que mais tarde veio para a Europa terminar os seus estudos. Mostra-nos a dificuldade de crescer num sítio onde a realidade dentro de portas contrasta largamente com a que se tem na rua, como é ter-se uma opinião num sítio onde isso é potencialmente perigoso, mas que nunca deixa de lado o bom humor.

Todo o livro (e o filme) é a preto e branco, com um traço forte, mediterrânico, e foi daqueles livros que eu li, partilhei e tenho vindo a aconselhar a plenos pulmões desde que me cruzei com ele. Recomendo a todas as pessoas, de todas as idades, pois é uma maneira muito oportuna de descobrirmos um pouco da história duma zona do mundo que por vezes nos é tão desconhecida. Deixo-vos algumas vinhetas, muito exemplificativas.

Persepolis 1

Persepolis 2

O Penúltimo Sandman

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Estamos quase no fim do ano, e eu que pensava que teria despachado todo o Sandman em 2017 vejo essa profecia a não se concretizar. E uma das razões para isso não acontecer, é que depois de ter lido o volume anterior, fabuloso, de ter visto o cortejo fúnebre final, e sabendo que o próximo volume se chama “The Wake“, já não seria surpresa o que iria ocorrer neste livro. E Neil Gaiman sabe disso, e trata-o com a mestria de excelente contador de histórias que é, levando-nos pela mão num crescendo de ansiedade, semelhante ao que eu senti quando li “Crónica de Uma Morte Anunciada” de Gabriel García Márquez. E por isso eu li devagar. Muito devagar, prolongando o mais que podia a vida do senhor dos Sonhos, como se disso dependesse a minha própria vida nocturna.

Todo o tom ominoso do livro está muito bem conseguido, e o ar arrogante com que o Senhor dos Sonhos vai sucessivamente ignorando todos os avisos com que se cruza tornam-no exasperante. Mas na realidade, como sempre, há mais coisas a ocorrer do que aquelas que nos são mostradas na superfície, e o desespero gótico com que Morpheus encara a vida tem um papel tão importante na trama como os acontecimentos que se desenrolam.

É, como sempre, um excelente livro, se bem que por vezes sinto que se tivesse um conhecimento mais profundo de mitologia (grega, nórdica, etc), conseguiria desfrutar melhor das referências que vão sendo apresentadas ao longo da história. A minha fraca memória também não ajuda porque muitas vezes já não sabia exactamente em que contexto tinham aparecido aqueles personagens nos volumes anteriores, mas mesmo assim estive envolvida do principio ao fim.

Aconselho a todos os fãs de Neil Gaiman, de banda desenhada, bonitas histórias e todos aqueles que não têm medo de sonhar.

E com este livro, estou mais perto do objectivo no Goodreads.

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The Kindly Ones
Daqui

Eu e os Clubes de Leitura

Garfield

No que toca a livros que vou ler a seguir eu sou o que se pode chamar um espírito livre. Tenho uma lista de livros que gostaria de ler, uma série de livros em espera, mas na realidade tudo vai depender do que me apetece (ou não) em determinado momento. O meu lema hoje em dia é que a vida é demasiado curta para se fazer fretes numa actividade de lazer.

Por isso também não me apela juntar-me a nenhum Book Club. Já tentei no passado, mas a obrigatoriedade de ter o livro X lido até determinada data para depois o discutir com outras pessoas, simplesmente não é para mim.

É claro que estou potencialmente a perder sugestões de livros bons, e sobretudo discussões interessantes, pontos de vista diferentes, e olhares sobre os livros que iriam revelar coisas que eu não consegui ver, mas encontrarei isso noutras fontes.

Como por exemplo os blogs que vou seguindo por aqui. São sempre uma fonte de inspiração.

Boas Leituras.

Sandman, A Tempestade dos Sonhos

Sandman_Worlds End

Parece-me apropriado depois de ler os livros do Sandman Slim, voltar ao Sandman original, o senhor dos sonhos, neste que é o oitavo volume da sua colecção de histórias.

Desta vez seguimos Brant Tucker que se perde numa tempestade e vai ter a uma estalagem em World’s End, onde fica preso, junto com muitos outros comensais, e todos se entretêm a partilhar histórias para passar o tempo até que passe a tempestade e possam retomar a sua viagem. Sendo isto contado por Neil Gaiman, conseguimos facilmente imaginar que cada personagem habita uma linha temporal diferente, e mesmo uma realidade muito diversa. Para intensificar essa percepção, cada conto foi ilustrado por um conjunto de artistas diferente, por isso difere também no estilo em que nos é apresentado.

Eu sou uma fã incondicional de Sandman, como já devem ter reparado, mas acho sinceramente que à medida que caminhamos para o final destes volumes as histórias vão ganhando mais consistência e maturidade, as referências a outros imaginários literários e mitológicos multiplicam-se e enriquecem a história, e com certeza que eu nem as consegui abarcar todas. O facto de ter utilizado ilustradores diferentes deu imenso caracter a esta compilação, e veio dar-lhe uma coerência quase paradoxal.

O final deste livro é também dos mais poderosos que já li até agora em toda a saga do deus dos sonhos. Depois de todos terem contado as suas histórias (as minhas favoritas foram as duas primeiras), todos os que estão presos na estalagem assistem à passagem dum cortejo fúnebre no céu, imponente, com figuras gigantes no meio das estrelas. A encabeçá-lo vemos o Destino (como se nos mostrasse que no final de tudo é ele que nos rege) e a fechá-lo vêm as irmãs Desejo e Morte. Todos os Endless estão presentes menos o nosso protagonista, por isso não nos é difícil adivinhar qual a causa do cortejo, e, consequentemente, o que causou a tempestade. A solenidade imprimida à cena, e a maneira como tudo nos é mostrado e não contado, deixou-me com um aperto no estômago, como se de um amigo se tratasse.

Gostava também de deixar aqui uma nota para a introdução que foi feita por Stephen King. Nestes livros as introduções são quase sempre muito longas, e pecam muitas vezes por serem demasiado explicativas e quase anteverem toda a trama que se vai seguir. Por várias vezes que as abandonei para ler apenas no final, ou nem isso porque não tive paciência. Mas esta introdução revela que Stephen King é um grande escritor, mesmo numa tarefa tão simples como fazer uma abertura para um outro livro. Sem revelar nada que não deva ser revelado, ele aguça-nos a curiosidade e espicaça-nos a vontade de ler o mais rapidamente possível aquilo que temos nas mãos, chamando subtilmente a atenção para pormenores que poderiam passar despercebidos. Gostei muito.

Como sempre, recomendo a todos os que gostam de banda desenhada, mitologia, boas histórias e boa literatura em geral. Deixo-vos com um cheirinho.

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Traço de Giz

traço de giz

Por nenhuma razão em especial, o Verão é para mim tempo por excelência para ir pondo a minha leitura de novelas gráficas em dia. Talvez porque apetece menos ficar em frente à televisão embrulhada em cobertores, e mais a ler na varanda, ou porque apetecem coisas coloridas, o certo é que nesta altura dou um despacho às minhas BD’s que foram acumulando na estante.

Há umas semanas (meses?) atrás o Público lançou este pequeno livro de Miguelanxo Prado na sua colecção de novelas gráficas, e como sou grande fã deste autor não perdi a oportunidade de aumentar a minha colecção de títulos que possuo. E ainda bem. Bastante diferente do seu registo satírico e de crítica social a que nos habituou, Miguelanxo quis aqui fazer uma homenagem a Hugo Pratt escrevendo uma história em que o mar é personagem principal.

Este traço de giz que se fala é uma pequena ilha perdida no Atlântico, com um farol desactivado e uma população de 2 pessoas, mãe e filho. São as outras personagens que vão e vêm nos barcos que ancoram num pontão demasiado grande, cíclica e hipnoticamente que vão imprimir o ritmo estranho e por vezes claustrofóbico à narrativa.

Vale pela história, simples mas eficaz, mas sobretudo pela mestria das ilustrações, duma beleza e suavidade absolutamente únicas. Aconselho a todos os que gostam de BD, de histórias de amor, de histórias com algum mistério associado.

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De Volta ao Sandman

Neil Gaiman - Brief Lives

Demorou um pouco mais de um ano para, por razões várias, eu conseguir retomar a leitura dos livros do Sandman. Mas creio que valeu bem a espera, porque me parece que tive em mãos o meu volume favorito de toda a saga. O senhor dos Sonhos depois dum desgosto amoroso vai partir numa demanda com a sua irmã Delírio, em busca dum irmão há muito desaparecido na Terra, Destruição.

E, ao longo de belíssimas páginas, vamos conhecendo melhor a familia de Morfeu com as suas dificuldades, bem como a disposição mais depressiva do senhor dos Sonhos. O que é mais interessante nestes livros do Neil Gaiman, em que podemos achar que o visual até já está um pouco datado, são os textos muito bem construídos e que nos convidam sempre a uma profunda reflexão. Neste volume vamos sendo conduzidos por pinceladas sobre a inevitabilidade do Destino, a brevidade da vida, por mais longa que nos possa parecer em anos. No limite, nem 15 mil anos pareceria uma longa vida quando somos confrontados com a iminência da morte. É fabuloso como um “simples” livro de comics pode conter em si tantos mundos.

Para quem gosta de fantasia a sério, mundos paralelos, mitos, lendas e deuses antigos, este autor será sempre uma fonte de inspiração e conhecimento. Mal posso esperar para ler os próximos.

Fiquem com um amuse bouche.

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Eu, Assassino

Eu, Assassino

 

O Peixinho resolveu começar uma maratona de BD para finalmente ler alguns livros que já estão cá em casa há algum tempo à espera de atenção, e resolvi começar pelo mais negro de todos, Eu, Assassino, de Antonio Altarriba com desenhos de Keko.

Este livro segue um assassino em série que é simultaneamente um professor catedrático de história da arte numa universidade basca, em crise de meia idade.

O livro é muito violento e cru, as ilustrações em negro com pinceladas vermelhas ajudam a criar o ambiente opressivo que vai em crescendo até ao final. A história deste assassino nada mais é que um pano de fundo para nos fazer reflectir sobre alguns temas mais profundos, como a arte e tudo o que gira à sua volta, o mundo universitário com as suas bolsas e políticas associadas, as feridas que ficam num país que foi assolado por uma ditadura, uma guerra civil e atentados terroristas. Tudo isto faz com que a leitura deste livro se faça num ápice.

Fiquei com vontade de conhecer mais deste artista e recomendo a todos que gostem de novelas gráficas e não se impressionem facilmente.

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Na era da informação, existir implica gerar dados… A notoriedade cria-nos… Dir-se-ia que a privacidade, longe de reforçar a identidade, a bloqueia. Já não importa que nos conheçamos a nós próprios, mas sim que os outros nos conheçam… Quantos mais melhor, e não quanto mais melhor. Ser, depende do outro e só somos o que o outro quer que sejamos.

Oportunidades

Oportunidades

O Peixinho já estava com dificuldades em navegar no seu aquário, o que em linguagem literária significa que já não temos espaço nas prateleiras. Na realidade, já temos filas duplas, livros por cima, no topo da estante e espalhados pela casa (e na casa dos pais). Ora, está na altura de pôr ordem nisto e ficar apenas com os livros que queremos mesmo, ou que eventualmente um dia gostariamos de reler.

Ao mesmo tempo que já libertámos alguns dos nossos livros em mini-bibliotecas por aí, outros estamos a vender. Podem vê-los aqui, e por enquanto é uma lista pequena (sim, tenho alguns problemas em separar-me de livros), mas de certeza que vai continuar a crescer. Mas vamos por partes:

Eu Assassino. de António Altarriba: uma BD maravilhosa, com uma qualidade visual muito bem conseguida. Temos dois exemplares, por isso estamos a vender um deles, novo.

2666, Roberto Bolano: um livro delicioso, mas que felizmente já temos em Kindle, por isso podemos libertar para outras casas. Em inglês.

V, Thomas Pynchon: a mesma coisa que o anterior. Já o temos na versão kindle, por isso podemos passá-lo a alguém. Também em inglês.

All the Countries We’ve Ever Invaded, Stuart Laycock

Raspberry Pi, a Practical Guide: acho que não preciso dizer que este era do outro peixe cá de casa.

Colecção Adam, BD: Comprei alguns volumes destes comics até perceber que realmente não posso comprar todas as BDs que gosto sob pena de não conseguir entrar em casa um dia. Espero que possa fazer alguém sorrir.