The Winter’s Child, de Cassandra Parkin

winters child

 

Keep scrolling if you prefer to read in English!

Mal vi um novo livro da Cassandra Parkin disponível no Netgalley não consegui resistir e tive que o pedir. Felizmente deram-me a oportunidade de o ler e passei-o bem à frente de outros que tenho na lista para me proporcionar o prazer de um livro bem escrito.

Em Winter’s Child, Cassandra conta-nos a história de Susannah Parker, a quem o filho Joel desapareceu vai fazer 5 anos. Susannah é uma mulher forte, que nunca desistiu de procurar o filho, mesmo depois do seu casamento não ter resistido ao trauma, e mesmo quando mais ninguém parece ajudar. Esta história é forte, complexa e recheada de pormenores interessantes.

Esta autora escreve muito bem. Mesmo quando os personagens não são simpáticos nem causam propriamente empatia, nós queremos saber o que lhes acontece. E as coisas nunca são como parecem à primeira vista. É exímia em descrever doença mental, e em mostrar-nos o que se esconde por trás duma capa de aparente normalidade.

O único senão para mim, que sou chata, é que a meio do livro já tinha adivinhado o plot twist e isso retirou um bocadinho o impacto do final.

Mas é um bom livro, bem escrito, e recomendo a todos os que gostam de histórias bem contadas.

Goodreads Review

Boas leituras!

———————————————————————————————————————————–

As soon as I saw a Cassandra Parkin’s book available for request on Netgalley, I was unable to resist and had to try and get. Luckily I was given the chance to read it, so I moved it forward on my TBR list so I could enjoy the pleasure of a well written book.

In Winter’s Child, Cassandra tells us Susannah Parker’s story, whose 15 year old son went missing 5 years ago. Susannah is a strong woman who has never given up the search for her son, even after her marriage has failed, not resisting the trauma, and even if no one else seems to be helping her in that quest. This is a strong and complex story, rich in details.

Cassandra is an amazing writer. Even when her characters are not nice or relatable (like Susannah, after a while), we still want to know their fate. And things are never quite as they meet the eye. She describes mental illness brilliantly, and is able to show us what lies behind what seems to be normal.

The only thing that was not quite there for me was that by middle of the book I was already guessing the ending, but I’m annoying that way.

But it’s a very good, well written book, and I recommend it to everyone who likes a story well told.

Goodreads Review

Happy Readings!

Anúncios

The Third Swimmer

third swimmer

Keep scrolling if you prefer to read in English

Depois do último livro ter sido uma experiência de leitura brilhante mas aterradora, voltei a ler uma sugestão do Netgalley mais tranquila e intimista. Aliás, essa parece ser a temática de 2018, livros que contam histórias bonitas e delicadas, que se debruçam sobre as dificuldades de comunicação nas relações, sobre o manter a intimidade e o amor mesmo em face da adversidade.

Este livro acompanha a história de um casal, Olivia e Thomas, em dois momentos diferentes. Quando se conhecem em pleno despontar da Segunda Guerra Mundial, e mais tarde, em 1952, já casados e com 4 filhos, com um casamento longo mas algo distante, com dificuldade em manter intimidade, com muitas coisas que ficaram por resolver, por dizer e com as mazelas que a guerra deixou nos dois. Resolvem fazer uma viagem a dois ao Sul de França para ver o que restava do casamento, e perceber se ainda o podem salvar.

A história é relativamente simples, mas recheada de significados escondidos, camadas de interpretação, metáforas, interligações com momentos específicos da História real e da história pessoal da autora, que tornaram a experiência de ler este livro ainda mais prazerosa.

Mais uma vez uma experiência que não me deixou desiludida, e um livro que recomendo a todos os que gostem de histórias simples, mas bonitas e bem contadas.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Intimacy is just this, she thinks: talking to somebody in the night, talking and being heard. It’s harder than anything. And, there is no other way.

After the last book having been a brilliant yet terrifying reading experience, I went back to a more soothing suggestion from Netgalley. Actually, this seems to be this year’s trend, as in 2018 I’ve been reading books that tell beautiful and delicate stories, about relationship struggles, the difficulties in communicating, maintaining love and intimacy in the face of adversity.

This book leads us along the story of Olivia and Thomas in two separate moments. When they first met, at the dawn of WWII, and later, in 1952, when they are already a married couple with 4 children, with a long, difficult marriage, with many things left unsaid and struggling to remain intimate. It’s in this context that they decide to go on a trip to the south of France, trying to salvage what they can from their relationship.

This is a fairly simple story and yet filled with hidden meanings, layers of implications, metaphors, connections with real moments and people from History and from the author’s personal life, making the reading experience richer and more fulfilling.

Again, this was a very good experience, a book that I recommend to everyone that likes a simple story, beautiful and well told.

Happy Reading!

Os Ingleses

l'anglaise

Keep scrolling if you prefer to read in English

Depois de Underwater Breathing, o Netgalley voltou a presentear-me com uma história bonita, difícil, sobre relações complicadas entre pessoas que foram profundamente marcadas por pais com doenças mentais. Novamente uma autora inglesa, desta vez o segundo livro de Helen E. Mundler, autora que eu também não conhecia.

Neste livro seguimos Ella, uma inglesa que vive em Estrasburgo e aí trabalha no meio académico literário. No entanto, como não casou nem tem filhos, nada do que faça poderá satisfazer as ambições da sua mãe para a sua vida. Margaret, a mãe, não teve propriamente um casamento feliz, e ambos os pais de Ella nunca foram muito presentes na sua vida.

Após a morte do pai ela conhece Max, mas terá de resolver muitos dos seus diálogos internos até estar preparada para uma relação.

Esta é a premissa deste livro, que está bem escrito e nos faz pensar mais uma vez no impacto que os pais têm na vida dos seus filhos, mesmo sem querer, mas que nos mostra também o sentimento de abandono que se sente quando se muda de país e já não se pertence bem nem cá nem lá.

Comparando com Underwater Breathing, a sua escrita é um pouco mais confusa e senti que por vezes algumas ideias ficavam a meio. Mas partilhou com este personagens muito bem construídas e das quais tive pena de me separar no final, e obriga os seus leitores a pensar mais, a escavar nas palavras para perceber os significados que estão escondidos por baixo e não nos são dados como papa para bebés, e isso também é muito gratificante.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história, bem contada, forte, e que nutrem como eu um certo carinho por França.

Goodreads Review

In English:

After Underwater Breathing I was again presented with a beautiful yet difficult  story from Netgalley, about complicated relationships between people that were deeply scarred by parents that struggled with mental health issues. Again a British author, another one that I was unfamiliar with.

In this book we follow Ella’s story, an English woman living in Strasbourg where she works in the academic literary world. Unmarried and childless, nothing that she has accomplished will be enough to satisfy her mother’s ambitions for her life. Margaret, her mother, has struggled through an unhappy marriage, and both her and her husband Hugo were in different ways absent from Ella’s upbringing and uninvolved in her life.

When her father passes away she meets Max, however she will have to deal with a lot of her own internal issues before she is ready to commit to a relationship.

This is basically the background story of this very well written book, that makes us think about the impact that the parents have in their children’s lives, even when they don’t mean to, but it also shows us the feeling of not belonging that we have when we move countries, and we are neither here nor there there anymore.

If compared with Underwater Breathing, the writing was a bit more confused and I sometimes felt some ideas were unclear, nonetheless it shared with it some very well constructed characters that I was really sad to part ways in the end and it also forced the readers to think more, and dig deeper in the words to find the hidden meanings that are not just given to us like baby food, and that was very gratifying.

I recommend it to everyone who likes a good story, strong and well told and all those, like me, who cherish France.

 

Nevoeiros Nocturnos

night fogs

Num futuro próximo, pós-Brexit, o Reino Unido desmembrou-se e tanto a Escócia como o País de Gales são nações independentes. Gales é uma nação jovem, a ajustar-se à nova soberania conquistada e tem de lidar com um fenómeno climatérico anormal, uns nevoeiros nocturnos que aparecem todas as noites e afectam mentalmente a população, especialmente as pessoas mais vulneráveis. Uma força de intervenção especial constituída por psiquiatras, psicólogos e neurologistas está todas as noites de prevenção para ajudar com os casos mais difíceis e impedir o caos. Mas qual será a verdadeira origem destes nevoeiros?

Esta é a premissa deste livro de Frances Hay, autora virtualmente desconhecida e sobre a qual não consegui encontrar nada a não ser a entrevista que deu ao Algonkian, mas do qual gostei bastante. Nem o livro tinha sido criado ainda no Goodreads, tive de ser eu a fazê-lo, o que classifica este livro como o mais obscuro que tenho lido nos últimos tempos.

Uma mistura entre ficção cientifica e fantasia, com um cenário bastante credível e que foi bastante agradável de ler, um bom esforço considerando que é o livro de estreia da autora. Juntamos a toda a história um americano que é acometido por visões do seu alter ego celta do tempo do Rei Artur, bem como das poucas vezes em que vi a profissão de psiquiatra retratada duma maneira tão dinâmica e digna dum filme de acção e temos a receita para umas horas bem passadas a ler esta história. Mais um título que me chegou à mãos através do Netgalley e mais um duma série de boas apostas que não têm desiludido.

Recomendo a todos os fãs do género.

Goodreads Review

Underwater Breathing

Underwater Breathing

Underwater Breathing foi o mais recente livro do Netgalley que eu terminei de ler e foi impressionante. É por este tipo de oportunidades que gosto tanto de pertencer a esta comunidade e ter acesso a livros que de outro modo nem teria conhecimento.

Neste livro de Cassandra Parkin, uma autora inglesa que já não é nova nestas andanças,  conhecemos Jason, Ella e Mrs. Armitage que vivem numa cidade de Yorkshire perto do mar, mesmo perto da falésia que está lentamente a ser erodida pela força do Mar do Norte, que ameaça levar as suas casas. Também conhecemos outros personagens, com mais ou menos relevância na história, mas estes são os três amigos que fazemos, os três actores principais se quisermos. A história em si não é tremendamente original, apesar de ser forte, mas o modo como o livro está tecido, em duas linhas temporais diferentes, onde tudo nos é desvendado aos poucos e sem concessões, faz com que a história brilhe. O principal aqui são as relações entre as personagens, as suas imperfeições, as suas debilidades face à adversidade, e isso torna o livro mais humano, bonito e credível.

Como pano de fundo temos a doença mental, o alcoolismo e as suas repercussões em toda uma família. Um livro difícil mas bonito que mais uma vez nos faz reflectir na nossa vida e nas nossas escolhas.

Vou ficar com saudades destes três personagens, e desejo-lhes uma vida feliz.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história sobre um tema difícil e muitas vezes tabu.

Goodreads Review

Boas Leituras!

 

Para Lá do Mapa

Beyond the map

Alastair Bonnet é um professor universitário inglês que vive em Newcastle, cidade de onde eu já não esperava nada de melhor que os Geordie Shore‘s desta vida, mas que me surpreendeu com este livro muito agradável sobre geografia, particularmente lugares que escapam à geografia dos mapas comuns.

Neste livro Alastair Bonnet conduz-nos numa visita a espaços tão díspares como a cidade do lixo no Cairo ou as Hidden Hills de Hollywood, ambos excluídos da ferramenta Street View do Google por razões opostas (os muito pobres vs. os muito ricos), ilhas no meio do Pacífico feitas exclusivamente de plásticos mas que há alguém a lutar para as reconhecer como país em nome próprio. O país mais pequeno do mundo (a Ordem Soberana e Militar de Malta) que tecnicamente ocupa um edifício em Roma, mas que na realidade tem lugar de observador nas Nações Unidas, emite passaporte, cunha moeda e tem muitas centenas de anos, e que fez o autor pensar no que realmente define um país, que fronteiras são essas que podemos defender.

Mas a parte que mais me tocou foi toda a reflexão sobre os espaços públicos, que à força de serem pertença de todos, dessa entidade abstracta que é o Estado, na realidade não pertencem a ninguém e muitas vezes nos sentimos inibidos de fazer as mais corriqueiras actividades nesses espaços. Temos o exemplo extremo da China, com a introdução de bancos de jardim com moedas, que se não forem pagos libertam espigões que obrigam os caminhantes cansados a voltar a andar ou gastar moedas de x em x minutos pelo privilégio de usufruir do mobiliário urbano. Mas temos exemplos mais próximos de mobiliário urbano aqui na Europa para nos impedir de caminhar em determinados espaços que à partida seriam públicos, em nome da “segurança”, ou as polémicas medidas anti sem-abrigo que tanto têm dado que falar.

Por tudo isto este autor nos conduz, sempre com uma visão muito sóbria, realista, mas nada iludida sobre a realidade que nos rodeia. Os últimos capítulos foram para mim particularmente penosos de ler, porque mais uma vez nos falam que enquanto andamos todos distraídos com as nossas vidinhas internas, os campeonatozinhos de futebol, os casamentos de revista, festivaizinhos, os fait-divers para distrair e essas coisinhas que a comunicação social nos vai dando à boca como papinha para bebés, a Rússia, o Reino Unido, Os EUA, a Dinamarca, desbravam a última fronteira possível, disputam as reservas do Ártico, e prevêem que tão cedo como 2020 já se consiga fazer uma rota exclusivamente marítima através do Pólo Norte graças ao contínuo degelo dos últimos anos, tornando cada vez mais acessíveis os recursos de gás natural e petróleo que se encontram lá por baixo, e dando mais uma machadada (a derradeira?) no já tão precário ambiente em que vivemos.

Como diz o autor: In future years, we may be known as the generation that gave away the Artic, even though it was not ours to give. Mas o que interessa isso, já não estaremos cá para ver, certo?

Boas Leituras!

Goodreads Review

There are many types of love, and many bonds between them. The love of nature and the love of place – biophilia and topophilia – have a particularly intimate relationship. Our lifelong affinity with animals and plants is a passionate commitment that tumbles over and into our bond with place. These love affairs merge in the garden, the age-old site and symbol of human well-being. This helps explain why we have such a problem with the modern city. Walking or, more likely, driving past barren and stony land – shards of unloved territory in between roads heavy with traffic, or endlessly ripped-up and rubbish-strewn ‘development sites’ – is an affront, a poke in the eye and, more than that, a source of guilt and loss. The land should be a garden. It should not just be beautiful; it should be alive. To see others treat it with contempt and, worse, to know that I treat it with contempt – for, of course, I just hurry past, eyes down – is unforgivable.

 

 

A Verdade Sobre os Animais

truth about animals

Ou pelo menos alguns.

Em 1822 o Conde Christian Ludwig von Bothmer estava a caçar no seu castelo em Klutz, na Alemanha, quando abateu uma cegonha que trazia consigo algo estranho. O seu longo pescoço trazia atravessado uma longa lança de madeira, cheia de pinturas e gravações que cedo se descobriu serem de origem africana. E só aí se descobriu um enigma milenar. O que acontece às cegonhas que desaparecem todos os Invernos? Até então pensava-se que se transmutavam noutros animais (inclusive humanos), que hibernavam, ou até mesmo que ficavam dormentes no fundo de lagos.

São este tipo de curiosidades que enchem este livro, sobre bichos fofinhos como a cegonha, mas essencialmente sobre os mal amados como os morcegos, os abutres e os sapos. O livro está muito bem escrito, cheio de sentido de humor e se as minhas aulas de História do Pensamento Biológico tivessem tido metade da piada deste livro, eu teria faltado muito menos vezes.

Livros como este, escritos por cientistas (a autora é uma zoóloga da National Geographic com um largo currículo no estudo de preguiças, fundadora da Sociedade para Apreciação das Preguiças), mas bem escritos, com bom humor e recheados de factos que os tornam ao mesmo tempo informativos e interessantes, fazem mais pelo interesse pela ciência do que muitas aulas a que somos obrigados a assistir.

Neste livro vamos encontrar, como já disse, muitas curiosidades sobre pandas e hienas, perceber que as preguiças são afinal um prodígio de adaptação ao meio em que vivem, mas temos também uma lição de História Natural, e como os métodos de investigação evoluíram (e ainda bem) ao longo dos tempos. Devemos muito aos primeiros naturalistas que, aventureiramente, se lançaram em busca de explicações para o mundo que nos rodeia, mas os métodos que eles usavam fazem-nos hoje tremer por dentro. O ilustre cientista Lazzaro Spallanzani, responsável por desmistificar a Teoria de Geração Espontânea e primeiro a estudar a ecolocalização dos morcegos, recorreu a métodos de investigação que tinham tanto de sistemáticos como de assustadores, e muitos morcegos sofreram nas suas mãos. No entanto, o modo como tudo está descrito não pode deixar de nos pôr pelo menos um sorriso nos lábios.

Mas não pensemos que hoje é tudo um mar de rosas, pois se lermos o capítulo sobre os fofíssimos pandas, e o modo como eles estão a ser reproduzidos em cativeiro, em tudo semelhantes às puppy farms que tanto queremos extinguir, em nome de serem usados como moeda de troca em negócios diplomáticos, se calhar vamos pensar duas vezes da próxima vez que quisermos partilhar um vídeo viral daqueles bebés de cativeiro.

Aconselho a todos os que são fãs de National Geographic, natureza, conhecimento, história e sobretudo livros bem escritos que nos façam pensar.

Goodreads Review

Boas Leituras!

There is nothing terminally wrong with these animals that we need to fix; the only thing we need to fix is to give them their home back.” Sarah Bexell agreed. “I really worry that it is wildlife conservation’s way of saying, ‘see, guys, we can do this, we are scientists and we’re fixing this huge biodiversity crisis problem and we can right the wrongs of our entire species by doing these little projects.’ it’s a feelgood story. The public feels good and sits back and eats their potato chips in their la-Z-boys and drives their SUVs, has a five-bedroom house and three kids, and says, ‘Great, those scientists are out there fixing this problem for me,’” she said. “but science is not going to save biodiversity; a shift in human behavior is the only thing that is going to save it. I think there needs to be more effort, first and foremost, in getting the human population under control globally, and for people to start contemplating not being such mass consumers.”

 

Seventeen

seventeen

Mais uma vez recorri ao Netgalley para arranjar uma leitura diferente, e este autor, Hideoa Yokoyama apresentava-se como um mestre do thriller asiático. Foi com essa expectativa que comecei a ler este livro, uma investigação às causas dum grande desastre aéreo no Japão, com 520 mortos, o maior até então.

A realidade, no entanto, foi um bocadinho diferente, já que de investigação o livro teve muito pouco e centrava-se essencialmente em office politics, lutas de poder nos bastidores dum pequeno jornal local que ficou encarregue, um pouco por acidente, de cobrir a notícia da queda do avião. Através destas peripécias podemos ter um bocadinho de noção de como é rígida a hierarquia num local de trabalho japonês, como as coisas se vergam a outros interesses maiores para lá de simplesmente relatar as notícias.

Neste livro seguimos Kazumasa Yuuki, um homem de 40 anos, já velho para reporter de rua segundo os padrões da altura, e a sua luta para conseguir gerir o cargo de chefe de reportagem no caso da queda do avião, enquanto batalha com os seus próprios demónios internos que o tornam irascível e de pavio curto.

O livro foi interessante, se bem que por vezes difícil de seguir (não estou muito habituada a nomes japoneses e por vezes confundia algumas personagens), e uma das partes que descreviam no resumo e que me levou a pedir o livro, a escalada duma montanha dificil, quase não aparece.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Verdade ou Ficção?

TSG

Depois de ter começado o ano a ler livros que tinha cá para casa, ou que tinha há muito tempo para ler, e que eram livros densos, de autores reconhecidos, resolvi que estava na altura duma coisa mais leve. O Netgalley tinha-me dado há algum tempo este The Traveling Sex Game, já para o Kindle novo, e resolvi que estava na hora de o ler.

Este livro, de ficção, apresenta-se como sendo o resultado duma investigação jornalística feita pelo autor para o jornal onde trabalhava sobre um jogo de caracter sexual jogado por pessoas em viagem. Cada pessoa põe na sua bagagem duas fitas, uma azul para indicar que joga, e outra de outra cor, sendo que cada cor corresponde a uma preferência de “jogo” chamemos-lhe assim. É como se fosse um Tinder offline, por assim dizer. O jogo assenta em regras muito rígidas para proteger a identidade dos jogadores, a sua privacidade e também garantir alguma segurança, mas há sempre um factor de risco inerente.

O autor vai viajando pelo país (América, onde mais poderia ser?) e conhecendo diferentes jogadores, contando as suas histórias de modo bastante pormenorizado, sem fazer julgamentos de valor e sem nunca nos dizer se chega a participar do jogo ou não.

O livro é engraçado e diferente desta nova vaga de livros eróticos escritos por donas de casa com demasiado tempo livre, e deixa sempre no ar a dúvida se os acontecimentos narrados são verdade ou ficção, se o jogo existe ou não. O autor deu-se ao trabalho de criar um website para “os jogadores” partilharem as suas histórias. Um conceito engraçado, um livro descomprometido que se lê rapidamente para descontrair, e que nos vai fazer andar a olhar para as malas nos aeroportos da próxima vez que viajarmos.

Goodreads Review

Boas Leituras!

The Golden House – Salman Rushdie

golden house

O terceiro livro do ano foi um que estava ainda no Kindle velho e que tinha que fazer a crítica para o Netgalley. Além disso, apesar de só ter lido um livro dele, Salman Rushdie é um excelente escritor, daqueles que pegam numa história aparentemente normal e a revestem de camada após camada de transcendência, contemporaneidade, urbanidade. É um habitante do tempo presente, com as suas nuances sociopolíticas, e isso permeia a sua escrita.

Este livro é mais um reflexo disso mesmo. Passado em Nova Iorque, na América de Obama, conta-nos a história de um pai e os seus 3 filhos que se vieram refugiar dum passado misterioso na sua Índia natal. A história é contada por um narrador que era um jovem vizinho estudante de cinema, e que vai usar os acontecimentos conturbados deste exílio num guião dum filme.

E assim desde o início sabemos que a história vai correr mal, mas não como nem com quem. E também nem sempre é linear a distinção entre a “realidade” dos nossos personagens e a ficção criada pelo narrador e isso mantém-nos sempre alerta e em tensão.

Tudo isto envolvido numa escrita belíssima, às vezes quase poética. O livro vai todo ele num crescendo que acompanha também a evolução da história recente americana. O final do mandato de Obama, a campanha eleitoral surreal que culmina com a eleição de Trump (aqui brilhantemente equiparado ao Joker), fazendo de Nova Iorque à vez uma Gotham City ou uma Metropolis. O livro está ricamente recheado de referências literárias e cinematográficas, que muitas vezes senti que a minha mente era demasiado pequena para abarcar, mas estava maravilhosamente escrito, envolvente, e eu recomendo seriamente a todos aqueles que, como eu, gostem de usar livros de ficção como veículos para pensar sobre a nossa realidade e actualidade. Deixo-vos com alguns extractos para terem um vislumbre daquilo que lá podem encontrar.

Goodreads Review

Boas leituras!

 

“When I’m done with a book,” she said, “it is also done with me and
moves on. I leave it on a bench in Columbus Park. Maybe the Chinese
people playing cards or Go won’t want my book, the nostalgic
Chinese bowing mournfully at the statue of Sun Yat-sen, but there
are the couples coming out of City Hall with their wedding licenses
and stars in their eyes, wandering for a minute among the cyclists
and the kids, smiling with the knowledge of their newly licensed
love, and I imagine they might like to discover the book, as a gift
from the city to mark their special day, or the book may like to
discover them. In the beginning I was just giving books away. I got
a new book, I gave away an old one. I always keep just seven. But
then I began to find that others were leaving books where I had
left mine and I thought, these are for me. So now I replenish my
library with the random gifts of unknown strangers and I never know
what I will read next, I wait for the homeless books to call out:
you, reader, you are for me. I do not choose what I read anymore. I
am wandering through the discarded stories of the city.”

 

It was a year of two bubbles. In one of those bubbles, the Joker
shrieked and the laugh-track crowds laughed right on cue. In that
bubble the climate was not changing and the end of the Arctic
icecap was just a new real estate opportunity. In that bubble, gun
murderers were exercising their constitutional rights but the
parents of murdered children were un-American. In that bubble, if
its inhabitants were victorious, the president of the neighboring
country to the south which was sending rapists and killers to
America would be forced to pay for a wall dividing the two nations
to keep the killers and rapists south of the border where they
belonged; and crime would end; and the country’s enemies would be
defeated instantly and overwhelmingly; and mass deportations would
be a good thing; and women reporters would be seen to be unreliable
because they had blood coming out of their whatevers; and the
parents of dead war heroes would be revealed to be working for
radical Islam; and international treaties would not have to be
honored; and Russia would be a friend and that would have nothing
whatsoever to do with the Russian oligarchs propping up the Joker’s
shady enterprises; and the meanings of things would change;
multiple bankruptcies would be understood to prove great business
expertise; and three and a half thousand lawsuits against you would
be understood to prove business acumen; and stiffing your
contractors would prove your tough-guy business attitude; and a
crooked university would prove your commitment to education; and
while the Second Amendment would be sacred the First would not be;
so those who criticized the leader would suffer consequences; and
African Americans would go along with it all because what the hell
did they have to lose. In that bubble knowledge was ignorance, up
was down, and the right person to hold the nuclear codes in his
hand was the green-haired white-skinned red-slash-mouthed giggler
who asked a military briefing team four times why using nuclear
weapons was so bad. In that bubble, razor-tipped playing cards were
funny, and lapel flowers that sprayed acid into people’s faces were
funny, and wishing you could have sex with your daughter was funny,
and sarcasm was funny even when what was called sarcasm was not
sarcastic, and lying was funny, and hatred was funny, and bigotry
was funny, and bullying was funny, and the date was, or almost was,
or might soon be, if the jokes worked out as they should, nineteen
eighty-four.