Traço de Giz

traço de giz

Por nenhuma razão em especial, o Verão é para mim tempo por excelência para ir pondo a minha leitura de novelas gráficas em dia. Talvez porque apetece menos ficar em frente à televisão embrulhada em cobertores, e mais a ler na varanda, ou porque apetecem coisas coloridas, o certo é que nesta altura dou um despacho às minhas BD’s que foram acumulando na estante.

Há umas semanas (meses?) atrás o Público lançou este pequeno livro de Miguelanxo Prado na sua colecção de novelas gráficas, e como sou grande fã deste autor não perdi a oportunidade de aumentar a minha colecção de títulos que possuo. E ainda bem. Bastante diferente do seu registo satírico e de crítica social a que nos habituou, Miguelanxo quis aqui fazer uma homenagem a Hugo Pratt escrevendo uma história em que o mar é personagem principal.

Este traço de giz que se fala é uma pequena ilha perdida no Atlântico, com um farol desactivado e uma população de 2 pessoas, mãe e filho. São as outras personagens que vão e vêm nos barcos que ancoram num pontão demasiado grande, cíclica e hipnoticamente que vão imprimir o ritmo estranho e por vezes claustrofóbico à narrativa.

Vale pela história, simples mas eficaz, mas sobretudo pela mestria das ilustrações, duma beleza e suavidade absolutamente únicas. Aconselho a todos os que gostam de BD, de histórias de amor, de histórias com algum mistério associado.

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De Volta ao Sandman

Neil Gaiman - Brief Lives

Demorou um pouco mais de um ano para, por razões várias, eu conseguir retomar a leitura dos livros do Sandman. Mas creio que valeu bem a espera, porque me parece que tive em mãos o meu volume favorito de toda a saga. O senhor dos Sonhos depois dum desgosto amoroso vai partir numa demanda com a sua irmã Delírio, em busca dum irmão há muito desaparecido na Terra, Destruição.

E, ao longo de belíssimas páginas, vamos conhecendo melhor a familia de Morfeu com as suas dificuldades, bem como a disposição mais depressiva do senhor dos Sonhos. O que é mais interessante nestes livros do Neil Gaiman, em que podemos achar que o visual até já está um pouco datado, são os textos muito bem construídos e que nos convidam sempre a uma profunda reflexão. Neste volume vamos sendo conduzidos por pinceladas sobre a inevitabilidade do Destino, a brevidade da vida, por mais longa que nos possa parecer em anos. No limite, nem 15 mil anos pareceria uma longa vida quando somos confrontados com a iminência da morte. É fabuloso como um “simples” livro de comics pode conter em si tantos mundos.

Para quem gosta de fantasia a sério, mundos paralelos, mitos, lendas e deuses antigos, este autor será sempre uma fonte de inspiração e conhecimento. Mal posso esperar para ler os próximos.

Fiquem com um amuse bouche.

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A História de Raif Efendi

Madonna in a fur coat

Mais uma vez o Netgalley deu-me a oportunidade de ler um livro que de outra maneira não teria tido acesso. Madonna in a Fur Coat foi publicado em 1943 na Turquia e tem sido um grande sucesso desde então, mas só agora foi traduzido para inglês. Confesso que a razão que me levou a escolhê-lo foi simplesmente o título, que me pareceu tão próximo doutro título da literatura clássica que também envolve furs que eu simplesmente não podia deixar de o ler. E se bem que a temática não seja de todo a mesma, lá bem no fundo não deixa de ter algumas semelhanças, quanto mais não seja pela profunda impressão que uma mulher de temperamento forte consegue produzir num homem que não sabe muito bem que rumo dar à sua vida.

Quando começamos a nossa história, seguimos um jovem que arranja emprego numa firma onde trabalha como tradutor de alemão Raif Efendi. E todo o resto do livro vai seguir a história de vida desta misteriosa e incompreensível personagem, começando pelo seu final, e levando-nos depois pelas páginas do seu caderno preto até aos tempos do pós grande guerra, onde Raif conheceu aquela que viria a ser o seu grande amor, e que, para além de o fazer desabrochar, mudaria radicalmente o curso da sua vida e personalidade.

Este livro está profundamente marcado pela época em que foi escrito (1941), e a época em que se desenrola, os anos 20. Anos em que havia esperança pelo fim da Grande Guerra, mas em que se caminhava a passos decididos para um novo conflito. Todo o livro está marcado pelos chamados “what if’s?”, como teria sido a minha vida se em vez de um zig tivesse dado um zag, mas tendo a certeza da inevitabilidade do caminho que se percorreu. Respiram-se e vivem-se as oportunidades perdidas.

É um livro belíssimo, um história dum amor intenso e profundo, mas ao mesmo tempo triste e carregado dum fado quase português. Raif Efendi é um personagem com o qual me identifiquei imenso, ao mesmo tempo que só me apetecia abaná-lo para o obrigar a sair do estupor em que se tinha deixado mergulhar, tão próximo e reconhecível. Por outro lado, a universalidade deste texto é imensa. Foi escrito na Turquia em 1941, como poderia ter sido escrito em Portugal em 2017, de tal maneira é próximo à condição humana.

Não faço ideia se está, ou alguma vez será, traduzido em português. Mas duvido, como tantas outras pérolas obscuras que passam ao lado do nosso pequenino e míope mercado editorial, mas se forem proficientes a ler em inglês, não deixem escapar esta oportunidade.

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He was, in the end, the sort of man who causes us to ask ourselves: ‘What do they live for? What do they find in life? What logic compels them to keep breathing? What philosophy drives them, as they wander the earth?’ But we ask in vain, if we fail to look beyond the surface – if we forget that beneath each surface lurks another realm, in which a caged mind whirls alone.

She searched my face. ‘You are alone in Berlin, right?’ ‘What do you mean?’ ‘I mean . . . alone . . . with no one else . . . spiritually alone . . . How can I put it . . . you have such an air about you that . . .’ ‘I understand . . . I am completely alone . . . But not just in Berlin . . . alone in all of the world . . . since I was a child . . .’ ‘Me too,’ she said.

 

Man Booker 2017

Manbooker 2017

Foi anunciada ontem a lista de nomeados para o prémio Man Booker 2017, um dos mais conceituados das letras da anglofonia. E, tal como tenho dito algumas vezes por aqui, um prémio que costuma distinguir autores com qualidade e onde descubro verdadeiras pérolas para ler.

Este ano a lista tem 13 autores de onde serão escolhidos os finalistas, e alguns já foram traduzidos para português. Temos também um mix interessante de autores consagrados com novatos nestas andanças. O Peixinho já leu um dos nomeados, Outono da Ali Smith, que já tinha sido finalista do mesmo galardão em 2014, e gostei bastante. Curiosa para ler alguns dos outros.

  • “4 3 2 1”, de Paul Auster
  • “Days Without End”, de Sebastian Barry
  • “History of Wolves”, de Emily Fridlund
  • “Exit West”, de Mohsin Hamid
  • “Solar Bones”, de Mike McCormack
  • “Reservoir 13”, de Jon McGregor
  • “Elmet”, de Fiona Mozley
  • “O Ministério da Felicidade Suprema”, de Arundhati Roy
  • “Lincoln no Bardo”, de George Saunders
  • “Home Fire”, de Kamila Shamsie
  • “Outono”, de Ali Smith
  • “Swing Time”, de Zadie Smith
  • “The Underground Railroad“, por Colson Whitehead.

A 13 de Setembro ficamos a conhecer os finalistas e a 17 de Outubro o vencedor.

Eu, Assassino

Eu, Assassino

 

O Peixinho resolveu começar uma maratona de BD para finalmente ler alguns livros que já estão cá em casa há algum tempo à espera de atenção, e resolvi começar pelo mais negro de todos, Eu, Assassino, de Antonio Altarriba com desenhos de Keko.

Este livro segue um assassino em série que é simultaneamente um professor catedrático de história da arte numa universidade basca, em crise de meia idade.

O livro é muito violento e cru, as ilustrações em negro com pinceladas vermelhas ajudam a criar o ambiente opressivo que vai em crescendo até ao final. A história deste assassino nada mais é que um pano de fundo para nos fazer reflectir sobre alguns temas mais profundos, como a arte e tudo o que gira à sua volta, o mundo universitário com as suas bolsas e políticas associadas, as feridas que ficam num país que foi assolado por uma ditadura, uma guerra civil e atentados terroristas. Tudo isto faz com que a leitura deste livro se faça num ápice.

Fiquei com vontade de conhecer mais deste artista e recomendo a todos que gostem de novelas gráficas e não se impressionem facilmente.

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Na era da informação, existir implica gerar dados… A notoriedade cria-nos… Dir-se-ia que a privacidade, longe de reforçar a identidade, a bloqueia. Já não importa que nos conheçamos a nós próprios, mas sim que os outros nos conheçam… Quantos mais melhor, e não quanto mais melhor. Ser, depende do outro e só somos o que o outro quer que sejamos.

Relações Inacabadas

Quando era miúda lia vorazmente tudo aquilo a que deitava a mão. Quando ia um mês de férias para a terra, metade da bagagem eram livros que esgotava na primeira quinzena, e depois ficava reduzida a reler Selecções do Readers Digest dos anos 70 (que o meu pai assinava), livros do Harlequim da minha tia-avó (Bianca, Sabrina, que é feito de vocês?), ou a TV Guia que chegava às quintas feiras. Tempos duros.

Nesse tempo todos os livros eram para ser lidos até ao fim, e os melhores relidos incessantemente, até se decorar as partes favoritas. Na nossa visão de crianças somos imortais, com todo o tempo do mundo pela frente para ler todos os livros que existem.

Conforme fui crescendo e apareceu a faculdade, não só o horizonte de livros para ler aumentou exponencialmente com a exposição a pessoas novas de contextos diferentes, como o tempo diminuiu, porque pela primeira vez na vida tive que começar a estudar. Isso obrigou-me a fazer escolhas, decidir estilos que me agradavam mais, autores que se tornavam favoritos. Mas ainda assim não se deixa nunca um livro a meio, é quase um tabu que raramente é quebrado (excepção para o Memorial do Convento, que até hoje não consegui acabar).

Com o Kindle, nos dias de hoje em que já estou nos quarenta (inhos, mas mesmo assim) já percebi que há mais livros interessantes do que terei anos de vida para os ler, e todos os anos novos livros bons saem no mercado. A paciência também já não é a mesma e já não faço fretes. E sinceramente, se não me está a prender o interesse, se  recorrentemente quando tenho um momento livre prefiro ir ver o Facebook do que ir ler aquele livro, se calhar está na altura de seguir para o próximo, sem ressentimentos, amigos como dantes.

Por isso, meu caro Mário de Carvalho, és um dos meus autores portugueses favoritos,  adorei o Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre O Assunto (ainda hoje um dos meus livros portugueses favoritos), mas a minha relação com O Livro Grande de Tebas Navio e Mariana ao fim de 45 páginas vai ter de ficar por aqui.

Mario de Carvalho

A Amante Holandesa

A Amante Holandesa

Acabei de ler A Amante Holandesa do Rentes de Carvalho e ainda tenho um sabor amargo na boca. Este é um autor transmontano, relativamente desconhecido em Portugal, em parte porque abandonou cedo o nosso país, desencantado, em busca da liberdade que não encontrava cá. Acabou por se fixar na Holanda, tem desenvolvido a sua carreira literária a partir de lá, e não tem penetrado muito o nosso minúsculo mercado, saturado que está dos suspeitos do costume. No entanto, tem uma escrita forte, honesta, e ao mesmo tempo quase poética.

Chegou cá a casa pelo livro “O Meças” que ganhamos num passatempo da Time Out e ficamos apaixonados. De tal maneira que o Peixinho Vermelho não perdeu a oportunidade de comprar este.

Tal como O Meças, também este se passa na zona de Bragança, no interior profundo, e o autor não nos trata com paninhos quentes, não romantiza o que é viver num meio rural isolado, pobre e atrasado. Para mim, que estou profundamente cansada da cidade e sonho um dia estabelecer-me no campo, penso os seus livros como um alerta para uma possível realidade.

Tendo passado grandes temporadas numa aldeia minúscula desde miúda sei em primeira mão o poder do mexerico, da pressão social, das verdades instituídas. Mas este livro vai muito mais além e a aldeia é apenas o pano de fundo para a busca que um homem faz sobre o sentido da sua vida. O desespero de quem sente que viveu para as aparências, para as convenções sociais, nunca teve ambição porque nem teve espaço para isso. E chegando à meia idade sente também que chegou a um beco sem saída, preso numa vida sem sentido, onde as fantasias são o seu único escape, e as teias em que se vê enredado formam já um labirinto donde é difícil escapar.

Este livro questiona também quem somos na realidade, e se o modo como vivemos a nossa vida é honesto, ou se pudéssemos viver escondidos de todos seríamos mais fieis a nós próprios e aos nossos instintos. Na realidade, apesar de ter uma escrita muito poética como já disse acima, Rentes de Carvalho consegue ser por vezes brutal, e fez-me voltar atrás muitas vezes para reler várias passagens e ver se estava a entender todos os significados escondidos.

Eu costumo dizer de alguns livros que não são para todos (not for the faint of heart, como dizem os ingleses), mas a crueza serrana deste autor não será certamente do agrado de todos os públicos. Depois de ler o livro fica um sabor amargo, mas fica também um sentimento de reconhecimento, como se aquele narrador pudéssemos ser nós, as suas questões existenciais fossem semelhantes às nossas, os pensamentos em loop que só abrandam quando ele afadiga o corpo em longos passeios na serra não difere assim tanto de algumas pessoas que vemos no ginásio.

Os temas, como disse, não são para todos, mas as angústias são universais. Da minha parte, depois de digerir este, estarei já a pensar onde estará o próximo.

A Amante Holandesa_quote

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O Primeiro Maigret

Pietr the Latvian

Aqui há bem pouco tempo o Netgalley deu-me a oportunidade de conhecer o Inspetor Maigret e o seu autor, Georges Simenon. Como gostei tanto, aproveitei as férias para ler aquela que foi a sua primeira história, porque nada como começar pelo início para perceber bem a evolução duma personagem.

Maigret é radicalmente diferente do meu outro inspetor de estimação, o Poirot. Para começar, interessa-se muito mais pelo método científico, as provas, é um homem de acção, de fazer, mais do que ficar parado a pensar. No entanto, tal como o nosso amigo belga, é um profundo conhecedor da natureza humana e do que motiva as pessoas.

O facto de toda a acção se passar em Paris torna o livro muito refrescante, pois é uma quebra com a realidade anglo-saxonica que nos é constantemente apresentada.

O facto de ter sido escrito em 1929 torna este livro muito livre, sem a ditadura do politicamente correto que nos escraviza hoje em dia, por isso podemos encontrar coisas escritas que seriam impensáveis nos dias de hoje.

Aconselho a todos os amantes de policiais, e boas histórias, bem escritas.

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Para Isabel

Isabel

Acabei há pouco tempo de ler o livro de António Tabucchi, For Isabel, a mandala. Apesar de ser um autor bastante conhecido em Portugal, principalmente por causa de Afirma, Pereira, eu nunca tinha lido nada dele e não sabia o que esperar, para além dum livro dum autor estrangeiro passado no nosso país, que foi publicado após a sua morte.

Nesse sentido não sei sequer se o título que o Netgalley me proporcionou (mais uma vez esta fonte na origem de tantas alegrias) é ou não um típico livro deste autor, mas isso apenas me deixa com o”problema” acrescido de ter de ler outras obras para criar uma base comparativa. Parece-me um bom problema para se ter.

Este livro é tal e qual o que o nome indica, uma mandala. Isabel é uma mulher misteriosa que desapareceu antes do 25 de Abril e que o narrador procura incessantemente em círculos concêntricos, dentro e fora do seu pensamento. Não sabemos bem quem é Isabel, muito menos quem a procura, mas de algum modo isso não é relevante para a história, tanto quanto os círculos que vão sendo feitos na descoberta e que vão revelando um pouco dum país poético à beira da revolução, e a busca de alguém que perdemos e que está escondido no seu nada, que um dia se cruzará com o nosso.

Para quem for fã de histórias lineares em que tudo faça extremo sentido, este não é o livro certo. Mas para quem goste de ser conduzido por um certo realismo místico, lírico, esta pequena obra será uma companhia deliciosa.

Para mim, o único ponto fraco foi a sua tradução para inglês. Se encontrasse versão em português, leria de novo, porque é dos raros casos em que acho que a tradução era tosca. E nem me refiro ao triste bacallá, que demorei uns minutos a perceber que era o nosso fiel amigo.

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Compras na Feira

Compras Feira 2017

 

Já fez mais de uma semana que o Peixinho foi passear na Feira do Livro, mas já que ontem foi o seu último dia é finalmente tempo de fazer o balanço das compras. No final das contas consegui comprar apenas mais 4 livros.

Para além do livro de poesia que tinha falado no post anterior, e do qual já li um pedaço bastante saudável, não consegui também resistir ao humor do Vilhena, como já se tinha percebido. Esse ainda pertence à lista interminável dos livros para ler.

Os outros dois, pequeninos, vieram para enriquecer a minha colecção de eróticos, fazer companhia a outros títulos dos mesmos autores que já lá tenho. Não foram comigo para férias, porque são demasiado pequenos para justificar o esforço de os carregar. Falarei deles quando os ler, para já vão também engrossar a lista dos que estão na calha.

Férias passadas, de volta à escrita!