Houvesse Um Sinal a Conduzir-nos

Daniel Faria

 

Houvesse um sinal a conduzir-nos
E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores
A incomparável paciência de procurar o alto
A verde bondade de permanecer
E orientar os pássaros

Daniel Faria em Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)

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Urbanização

Fiama Hasse Pais Brandao

Tudo o que vivêramos
um dia fundiu-se
com o que estava
a ser vivido.
Não na memória
mas no puro espaço
dos cinco sentidos.
Havíamos estado no mundo, raso,
um campo vazio de tojo seco.

Depois, alguém
urbanizou o vazio,
e havia casas e habitantes
sobre o tojo. E eu,
que estivera sempre presente,
vi a dupla configuração de um campo,
ou a sós em silêncio
ou narrando esse meu ver.

Fiama Hasse Pais Brandão

Viajar

Almada Negreiros - Portrait of Fernando Pessoa, 1954

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.

Fernando Pessoa in Antologia Poética

Deus

nuno judice

À noite, há um ponto do corredor
em que um brilho ocasional faz lembrar
um pirilampo. Inclino-me para o apanhar
– e a sombra apaga-o. Então,
levanto-me: já sem a preocupação
de saber o que é esse brilho, ou
do que é reflexo.
Ali, no entanto, ficou
uma inquietação; e muito tempo depois,
sem me dar conta do motivo autêntico,
ainda me volto no corredor, procurando a luz
que já não existe.

Nuno Júdice, in “Meditação sobre Ruínas”

Travesti

Paulo Costa Domingos

Tivemos um quarto belo como nas casas de passe
Comigo a mirar-te nua no espelho do guarda-vestidos
À socapa
Tivemos um recinto belo como o pavilhão dos furiosos
de uma clínica psiquiátrica
Os teus olhos encovados dialogavam com a morte
24 sobre 24 horas
& afinal os teus cabelos oxigenados iam deixando ver
agora a cor real
& a tua bolsa estava vazia e eu tive de voltar a pé para
casa
Mas nunca deixaste de me sorrir, mesmo do lado de lá
Dos barbitúricos

Paulo da Costa Domingos in Travesti & etc, 1979

Revista Nervo

Nervo

Eis que chegou às mãos do Peixinho mais uma revista de Poesia. Felizmente nos últimos tempos parece que finalmente a Poesia deixou de ser um género obscuro e destinado apenas a algumas elites para, graças ao esforço de muitas pessoas que se dedicam a procurar e editar poetas, estar mais acessível ao comum dos mortais.

Já aqui vos tinha falado da Eufeme, a primeira revista que adquiri para o estaminé, que lançou recentemente o seu sétimo número, e acima temos a Nervo, que já vai no seu segundo número, com autores nacionais e estrangeiros.

É uma revista lindíssima, com imenso cuidado visual, que dá gosto folhear e recheada de belos poemas. Recomendo a todos os amantes de poesia e boa literatura em geral. Vão espreitar a página deles aqui.

Boas Leituras!