Sobre a Poesia

poesia

Está quase a fazer um ano que começou a rubrica de poesia às segundas no Peixinho. Dá para perceber que gosto mesmo muito de poesia. Gosto desde miúda. Assim que aprendi a escrever enchi resmas de cadernos pautado com quadras sobre o meu quotidiano infantil.

A adolescência foi passada a escrever longas litanias angustiadas sobre solidão e desespero, e os rapazes que não gostavam de mim, enquanto na realidade eu era completamente cega àqueles que efectivamente estavam presentes. E hoje em dia sempre que a vontade surge dentro de mim escrevo umas linhas num ecrã.

Com o passar do tempo a escrita de poemas foi acompanhada pela leitura, primeiro dos óbvios, depois a descoberta de territórios mais inóspitos.
Tenho com a poesia a mesma relação que com a pintura: se gosto, é boa. Não analiso um poema desde o descalça vai para a fonte Leonor pela verdura, que convenhamos, é bastante convencional.
Tudo o que estudei sobre métrica, metáforas e coisas afins, está soterrado por baixo de anos de conhecimento inútil.

No outro dia pesquisei na net um curso de poesia. Há imensos de teatro, fotografia, dança, pintura, e nem todos vão ser actores, fotógrafos, bailarinos, pintores. Mas todos serão espectadores e consumidores mais informados e participativos.
Gostava que a poesia também se abrisse assim aos comuns mortais, e não ficasse encerrada no Olimpo de onde só se vislumbram umas Adilias, uns José Luíses e outras divindades maiores,  mas que pudéssemos apreciar todo o  panteão.

Ou então a poesia é mais para sentir, como quem vai a uma casa de fados e eu tenho é de encontrar uma tertúlia onde se bebam uns copos e recitem uns poemas.

Até lá vai sendo por aqui, nos postais dos amigos, em casa, onde posso. Poesia ajuda-me a pôr a vida em perspectiva.

Boas Leituras!

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Livros que Recomendo – Oryx and Crake

oryx and crake

Margaret Atwood é uma escritora que se dedica principalmente a Ficção Especulativa (diferente de Ficção Cientifica, mas varia o significado consoante quem está a discutir sobre o assunto), e defende que a maioria das coisas sobre as quais escreve já aconteceram no passado ou estão a acontecer correntemente. A sua obra mais falada, até por causa da série televisiva, é The Handmaid’s Tale, mas não é sobre ela que venho falar hoje.

Hoje venho falar-vos no livro que realmente me entusiasmou e apelou ao meu coração de bióloga, Oryx and Crake. Este é o início duma trilogia, a MaddAdam Trilogy, que se passa num futuro distópico mas não muito distante, onde a humanidade desapareceu como resultado de um evento desconhecido e a única pessoa que sobre é Snowman, Jimmy de seu nome, que sobrevive neste novo mundo com a ajuda duns humanoides intitulados Children of Crake, que são uns seres de pele azul, dóceis e não violentos, que acreditam em Crake como se de um Deus se tratasse. Estes seres são perfeitos geneticamente, não têm doenças, são desprovidos de maldade e violência, mas também de qualquer sentimento artístico, aparte a habilidade de cantar.

Jimmy, aka Snowman, vai relembrando a sua infância e juventude e é assim que nós ficamos a saber o que se passou para chegarmos àquela situação.

Este livro confronta-nos com coisas muito reais que já se passam hoje em dia, como a manipulação genética e as suas consequências, os limites da ciência (ou falta deles), mas também as desigualdades sociais, as empresas que são donas das alterações genéticas e controlam o que os comuns mortais podem usar, desde a agricultura a medicina, etc. Para qualquer pessoa minimamente atenta às notícias diárias (talvez as estrangeiras, que os nossos telejornais pouco mais falam do que de futebol, do calor do verão e do frio do inverno, e outras insignificâncias destinadas a manter o cidadão comum adormecido e galvanizado atrás de causas que não interessam), não é nenhuma surpresa as linhas que escrevi acima. Sabe-se da hegemonia da Monsanto e da sua tentativa de controlar as sementes usadas na agricultura mundial, gigante esse que foi recentemente adquirido pela Bayer, outro colosso da agroquimica. Sabem-se de experiências de ética duvidosa, por isso nada que se passa no livro surpreende, mas assusta.

O começo é lento e demoramos algum tempo a adaptar-nos ao ambiente e às personagens. Mas quando a história começa a desenvolver nunca mais pára, e é difícil interromper a leitura, de tal modo queremos sempre saber o que vem a seguir. O livro termina num cliffhanger (ainda não temos um termo em português que descreva tão bem um final inacabado como este), e temos imensa vontade de pegar no próximo volume, The Year of the Flood, e foi exactamente isso que fiz.

Recomendo a todos os amantes de livros diferentes, futuros distópicos mas não inverossímeis, histórias coesas e bem contadas.

Boas Leituras!

Goodreads Review

They understood about dreaming, he knew that: they dreamed themselves. Crake hadn’t been able to eliminate dreams. We’re hard-wired for dreams, he’d said. He couldn’t get rid of the singing either. We’re hard-wired for singing. Singing and dreams are entwined.

Acabei de Ler: As Aventuras de Alice no País das Maravilhas

Alice

O Peixinho não lê clássicos com frequência. Estou sempre imersa nas novidades que vão saindo, ou a ler livros que vêm dos 80’s até hoje. Há sempre livros a aparecer que me despertam a atenção. No entanto, ler clássicos é importante para percebermos de onde vieram as influências dos escritores de hoje, por isso volta e meia lá pego num.

No outro dia estávamos tranquilamente em casa a ver filmes de Domingo à tarde, e acabámos a ver o Alice in Wonderland do Tim Burton e gostámos bastante. Isso fez-me lembrar que tenho o livro no meu Kindle há meses e ainda não lhe tinha pegado, por isso foi natural lê-lo agora.

Fiquei alegremente surpreendida, e gostei bastante. Apesar de ser um livro juvenil está cheio de boas ideias que farão qualquer adulto pensar. Alice é uma criança mesmo à entrada da adolescência, curiosa e que quer perceber tudo à sua volta. Só que à sua volta o mundo é um lugar estranho, no qual ela não percebe bem o seu lugar e o seu corpo cresce e diminui de modos estranhos e surpreendentes, fazendo-a sentir-se ora pequena demais ora demasiado grande e conspícua. Parece-me uma excelente alegoria à adolescência.

Lá pelo meio temos também uma reflexão sobre autoridade, (ab)uso de poder, estratos sociais e outras coisas bastante adultas.

Mas acima de tudo é um livro bastante divertido e fácil de ler, que promete encantar pessoas de todas as idades. Agora o próximo passo é ler a segunda parte, Alice do Outro Lado do Espelho.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Acabei de Ler: Sandman Slim #10 – Hollywood Dead

Hollywood Dead

Como o tempo passa a correr já fez um ano que li o nono volume desta série que recomendei aqui há uns tempos. Este livro foi editado há pouquíssimo tempo e traz-nos mais uma aventura de James Stark, aka Sandman Slim, o monstro que mata monstros.

Tal como nas edições anteriores este livro tem um ritmo tão vertiginoso como a vida em LA geralmente é. Mortes, traições, facções antagónicas que lutam entre si, o Céu encontra-se em guerra e está fechado a novas entradas.

Passado um ano depois do final do anterior, que tinha acabado abruptamente naquilo que em inglês se chama um cliffhanger e que não encontro correspondência em português com o mesmo impacto. Foi assim que nos sentimos quando terminou The Kill Society, à beira dum precipício, segundos antes duma queda vertiginosa.

Este volume agarra-nos antes de chegarmos ao chão, mas a aterragem não é muito suave. Como sempre, James Stark salva LA e o mundo, mas não muito. Continuamos a ter a dose certa de vilões no activo para garantir que temos um volume seguinte. Infelizmente prevê-se mais uma espera de um ano.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Curiosidades Estéticas

antonio botto

 

O mais
importante na vida
É ser-se criador – criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir uma voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.

António Botto

Livros que Recomendo – Como Água para Chocolate

agua para chocolate

Já não sei há quantos anos terei lido este livro, mas foram com certeza 20 ou mais. Apesar de ser um livro que adoro e que já ofereci muitas vezes, não tenho nenhuma cópia minha, porque sempre que li foi por empréstimo (a maravilha da partilha de livros).

Já falei aqui dele, quando fiz uma lista dos 5 melhores livros de amor, porque realmente é uma belíssima história de amor, daquelas como só os sul-americanos sabem escrever, cheia de realismo mágico.

O livro conta-nos a história de Tita, a filha mais nova duma mãe à antiga, que segue as tradições à risca, no início do século XX. Tita e Pedro apaixonam-se, mas Tita nunca poderá casar porque o dever das filhas mais novas é ficarem solteiras e cuidarem das mães até estas morrerem. Assim Pedro casa com a irmã mais velha para poder pelo menos ficar perto do seu amor.

Este é o resumo da história, mas muita da beleza deste livro passa pelo modo como ela está contada. Está dividido em 12 capítulos, um para casa mês do ano, apesar da história se passar ao longo duma geração. Começamos sempre com uma receita tradicional mexicana, que Tita prepara como ninguém, e é na explicação de como executar cada receita que a trama nos é apresentada. A comida e a culinária como transmissores de emoções e de estados de espírito é algo que permeia toda a narrativa.

Existe também um filme, mexicano, que faz realmente juz à obra e que eu recomendo tanto como o livro.

Recomendo a todos os que gostam de livros de amor, de realismo mágico, de histórias bonitas e contadas com algum humor.

Boas Leituras!

Each of us is born with a box of matches inside us but we can’t strike them all by ourselves; we need oxygen and a candle to help. In this case, the oxygen for example, would come from the breath of the person you love; the candle would be any kind of food, music, caress, word, or sound that engenders the explosion that lights one of the matches. For a moment we are dazzled by an intense emotion.

A pleasant warmth grows within us, fading slowly as time goes by, until a new explosion comes along to revive it. Each person has to discover what will set off those explosions in order to live, since the combustion that occurs when one of them is ignited is what nourishes the soul. That fire, in short, is its food. If one doesn’t find out in time what will set off these explosions, the box of matches dampens, and not a single match will ever be lighted.

 

 

 

Vencedor Man Booker 2018

Manbooker 2018

Há algumas semanas vim aqui partilhar quem eram os finalistas do Man Booker 2018 e as minhas impressões sobre cada um apreciando apenas a sinopse.

Ontem foi finalmente anunciada a vencedora deste ano, que era a primeira finalista, Anna Burns com Milkman. Tal como disse no artigo anterior, parece-me uma aposta interessante e que tenho vontade de ler, contrariamente ao vencedor do ano passado, que me parece apenas chato.

Pelo que leio nos comentários é daqueles livros que se ama ou odeia, por isso considero um desafio lê-lo. Hei-de fazê-lo em breve.

Boas Leituras!

Acabei de Ler: The Woman Who Kept Everything

woman who kept

Keep scrolling if you prefer to read in English

Desta vez escolhi no Netgalley um livro que me pareceu divertido e descontraído e não estava enganada. The Woman Who Kept Everything conta-nos a história de Gloria, uma idosa de 79 anos, uma acumuladora de tralhas, revistas, recordações avulsas e lixo, de tal modo que a sua casa se torna inabitável e ela tem de ser temporariamente realojada, primeiro num lar e depois em casa do seu filho único.

Isso será o factor despoletador de mudanças profundas na sua vida, ajudada pelo seu amigo de infância Tilsbury e uma grande aventura de auto-descoberta vai mudar completamente o seu final de vida e a sua visão do mundo.

Se estiverem à espera dum livro extremamente preciso em relação aos problemas de acumulação, desenganem-se. Não é esse o objectivo desta história. No entanto conseguem abordar-se temas sérios, como doença mental e a falta de independência dos idosos. A certa altura da vida parece que se assume que uma pessoa já não é capaz de tomar conta de si própria e perde-se o direito a tomar decisões, escolher o que queremos, viver aventuras ou experimentar o amor.

Duma forma leve e descontraída este livro vem lembrar-nos que nunca é tarde demais para agarrar a vida com as próprias mãos e fazer as mudanças e decisões difíceis que nos levarão a tomar o rumo que queremos e achamos melhor para nós.

Recomendo a todos os que gostam duma história leve, bem contada e divertida. É apenas um livro descomprometido, mas nem sempre isso é mau, pois não?

Boas Leituras!

Goodreads Review

This time the book I chose on Netgalley was one that seemed fun, relaxed and I wasn’t wrong about it. The Woman Who Kept Everything tells us Gloria’s story, a 79 year old hoarder that accumulates magazines, memories and all kinds of junk on her house. This eventually leads to trouble and she needs to be rehomed, first in an old people’s home, later in her son’s house.

This will be the trigger that will provoke profound changes in Gloria’s life, first not pleasant ones but after a push from her long-time friend Tilsbury, she will experience a journey of self-discovery that will radically change her outlook on life.

If you are expecting an accurate depiction of hoarding problems, this book is not the place to look. That is not the purpose of the story. Nonetheless the author can still include some serious issues, like mental illness, depression, and the fact that we expect old people to give up on their lives as we deem them unable to make decisions, know what is best for them, live adventures or even find love.

In a light-hearted way this book reminds us that is never too late to grab our lives in our own hands and make all the necessary changes and adjustments to do what is best for us.

I recommend it to everyone who likes a light story, fun and well told. It is a light read, but that’s not always a bad thing, is it?

Happy Readings!