Zé Pedro

Ze Pedro

O Peixinho tinha livros para recomendar hoje, como na semana passada, mas depois da notícia de ontem, do falecimento do Zé Pedro dos Xutos, não podia deixar de vir aqui deixar a minha homenagem a um homem que teve um contributo tão grande na música portuguesa, e nas adolescências de toda uma geração.

No meu caso particular, ele era o dono do Johnny Guitar, o melhor bar da noite lisboeta dos 90’s, que me proporcionou das melhores noites de borga da minha vida, bem como alguns dos melhores concertos que vi, nomeadamente os primeiros concertos de Moonspell, onde eu estava tão perto do “palco” que o manto vermelho que o Fernando Ribeiro usava durante o Vampiria me envolvia como num abraço.

Partilho aqui uma entrevista que ele deu a José Luis Peixoto para a Visão, de onde tirei a foto acima e que de algum modo resume aquilo que eu gostaria de dizer. Até sempre.

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A Metáfora

peixoto

No ano passado
escrevi um poema
que começava assim:
“sinto a lâmina do teu ciúme no meu peito”
– era uma metáfora, claro.
E não suspeitei.

Agora,
que me espetaste a faca de descascar batatas entre as costelas,
único desfecho lógico para o nosso amor;
agora, que sinto a lâmina
e o sangue morno a alastrar-me na camisa,
sei, finalmente e tarde demais,
a fraca expressividade das metáforas.

Por isso,
se ainda gostares um bocado de mim,
pede para, na segunda edição,
alterarem o verso para:
“sinto o teu ciúme como uma lâmina no meu peito”.

José Luis Peixoto

quando a ternura for a única regra da manhã

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.

José Luis Peixoto in “A Criança em Ruinas”.