Acabei de Ler – Pole to Pole

pole to pole

Não mantenho estatísticas elaboradas de leitura, mas este é bem capaz de ser o ano em que mais li livros de viagens. Certamente uma medida correctiva ao facto de não poder viajar.

Quando lemos livros de viagens que foram escritos há várias décadas temos que considerar que estão obviamente desactualizados. Mas quando o livro não é um guia, mas o relato duma jornada empreendida, o resultado final assemelha-se a um documento histórico, uma espécie de retrato duma época passada. Isto é especialmente verdade neste Pole to Pole de Michael Palin, a road-trip gigante que levou este Monty Python desde o Polo Norte ao Polo Sul ao longo do meridiano 30, por cerca de 5 meses em 1991. Chernobyl tinha acontecido em 1986, o muro de Berlim tinha caído em 1989 e em 1991 dá-se o colapso da União Soviética, sensivelmente 3 dias depois de Michael Palin ter passado por lá (suponho que sem relação causa-efeito). Na realidade, a Ucrânia, onde os seus entrevistados viam como uma miragem a independência, libertou-se da URSS 10 dias após a sua visita.

Mas ler este livro é como ter acesso a velhas polaroids que descobrimos numa gaveta há muito fechada. Palin comenta com admiração como todos os habitantes duma região do Ártico tinham telemóvel devido ao isolamento em que viviam, o que era uma coisa ainda pouco comum.  Também atravessar de ferry de Helsinquia para Tallin era entrar na URSS. E foi assim um pouco por todo o lado. Andou no Sudão que estava na altura devastado por uma guerra civil, entrou na Etiópia 3 meses depois duma revolução que levou à deposição do líder da altura, Mengistu Haile Mariam, e esteve na África do Sul meses depois do fim do apartheid.

Uma verdadeira aventura, e apesar de nos descrever as condições de muitos dos sítios onde ficou, que eram muitas vezes pior que más, nunca cede à tentação de deixar que seja esse o factor mais importante da jornada, nem as saudades de casa se sobrepõem à brilhante narrativa. Um livro muito mais interessante de ler que o último que tinha lido, do Ewan McGregor (nota-se que fiquei mesmo mal impressionada com esse livro?).

Recomendo a todos os que gostam de aventura, viagens, humor, mas também história e cultura. Não sairão defraudados.

Boas Leituras!

Goodreads Review

At the station, all the destination boards are in Arabic, and I have to ask a porter the platform for Luxor. ‘Nine,’ he assures me with confidence. ‘No, no!’ another man shakes his head with equal confidence, ‘eight.’ I appeal to a sensible-looking man with glasses, ‘Is it eight or nine for Luxor?’ ‘Luxor?… Eleven.’ By now it’s beginning to sound like a bingo session, as passers-by helpfully shout numbers in my general direction. Fortunately a passageway is marked ‘8, 9, 10, 11’, so I take that and am met at the other end by an extremely helpful and courteous railway official: ‘Yes … it is Number Eight, sir’. The train for Luxor leaves at half-past seven, from Platform Ten.

Acabei de Ler – Travelling to Work, Diário Michael Palin #3

michael palin diary 3

Tal como quando li os contos de Hyperion, pegar neste terceiro volume dos diários do Michael Palin foi como voltar a algo conhecido e familiar como a nossa casa. Eu tinha ficado com a pulga atrás da orelha para ler este terceiro volume, não só porque foi quando se deu a morte do único Python até à data, Graham Chapman, que foi co-autor com John Cleese de alguns dos melhores sketches deles, como o dead parrot sketch, mas também porque foi neste altura que a carreira de Palin como apresentador e escritor de viagens se lançou com força.

Assim aqui podemos ver o lado mais pessoal de projectos como A Volta ao Mundo em 80 Dias, ou de Polo a Polo, toda a preparação que é necessária, a pós-produção, a luta para arranjar financiamentos para começar enquanto ao mesmo tempo se tenta garantir alguma independência, e depois a agonia de seguir as audiências televisivas ou as vendas de livros para saber se o esforço valeu a pena. Foi também interessante ler sobre todo o trabalho preparatório dum livro que eu li este ano, Hemingway’s Adventure. Não é só viajar e registar, há muito trabalho envolvido antes e depois.

Mesmo no fim dos 40 início dos 50’s, Michael Palin mantêm-se um jovem de espírito, sempre com vontade de fazer mais, descobrir mais e fazer algo de bom pela sociedade onde se insere, já que é muito consciente do seu papel social. Ao mesmo tempo continua com as mesmas inseguranças sobre o seu trabalho, o que nos mostra que é realmente uma pessoa de pés bem assentes na terra. É também refrescante ver que depois de todos estes anos os Python mantêm a amizade, se encontram regularmente e ainda gostam de colaborar juntos, mesmo que em moldes diferentes.

Recomendo a todos os fãs de Monty Python e de Michael Palin em geral.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Acabei de Ler – Michael Palin’s Hemingway Adventure

Michael Palin

Ando numa fase em que, por variados motivos, não tenho tido muita cabeça/tempo para ler. No entanto, há sempre tempos mortos para preencher, nem que seja antes de adormecer e resolvi recorrer a um velho amigo (Michael Palin) e um tema que me é confortável, a literatura de viagens.

Assim, dos vários livros dele que tenho no Kindle, resolvi escolher um que toca o tema da literatura em geral. Por altura do centenário do nascimento de Hemingway, Michael Palin fez um documentário para a BBC, a partir do qual escreveu depois este livro. A intenção era viajar por todos os sítios onde o escritor viveu ou viajou, e que foram impactantes na sua vida e na sua escrita. Ao mesmo tempo pudémos avaliar também o impacto que a presença de Hemingway teve nos próprios locais, quer em quartos de hotel onde esteve que foram transformados em verdadeiros santuários (Espanha e Cuba, por exemplo), ou como na Florida onde se faz anualmente um concurso de sósias. Mas um pouco por todo o lado que o escritor pisou, a indústria do turismo capitalizou esse facto, e verdadeiros magotes de gente tentam recriar os passos de Hemingway.

Considerando que este livro foi escrito há exactamente 20 anos atrás, é também interessante ver como muitos desses sítios mudaram e se ajustaram nos dias de hoje, em que há mais turismo que nunca.

De Hemingway ainda só li o Velho e o Mar, há muitos anos, e apesar de ter gostado fiquei com a sensação que muito do significado me estava a escapar pelos dedos da juventude. Agora, depois de ler este livro e de ter ficado a conhecer um pouco melhor a vida do escritor, fiquei com mais vontade de pegar num livro dele e perceber porque é considerado por muitos um semi deus da escrita. Ficará para breve.

Até lá, recomendo este livro a todos os fãs de Hemingway, ou do Michael Palin, ou de literatura de viagem em geral.

Boas Leituras!

Goodreads Review

 

Festival Tinto no Branco

Michael Palin

Nem de propósito, agora que acabei de ler os primeiros dois diários de Michael Palin, e eis que o senhor vem a Portugal para a tertúlia que vai inaugurar o festival literário Tinto no Branco, que junta dois prazeres, o da leitura com o do belo vinho do Dão. Infelizmente (para mim, numa perspectiva muito egoísta), a reunião de MP frente a frente com Ricardo Araújo Pereira vai dar-se em Viseu, no Solar do Vinho do Dão, no dia 1 de Dezembro às 18 horas e tem entrada gratuita sujeita apenas à lotação da sala.

Amigos de Viseu, peço-vos o favor de esgotarem a sala, que benesses destas não se dão todos os dias, e por favor partilhem comigo o que lá se passar. Eu nesse dia estarei alegremente a trabalhar, e mesmo que não estivesse duvido que conseguisse convencer a minha espinha metade a deslocar-se até Viseu para uma conversa literária, mas sonhar é fácil.

Por isso, se puderem não percam, que a conversa entre estes dois senhores tem potencial para ser muito interessante, bem como o resto do evento.

O Segundo Diário de Michael Palin

Michael Palin Diaries 2

Depois de acabar de ler o primeiro diário do Michael Palin, inexplicavelmente, fiquei com o bichinho tive de passar imediatamente para o segundo. Ajudou o facto de ter descoberto que já o tinha no Kindle. Sim, o meu Kindle é como uma biblioteca gigante duma acumuladora desordenada. Vou pondo para lá os livros que acho que me apetece ler, categorizados em pastas temáticas, e muitas vezes esqueço-me alegremente deles. O que me faz ter surpresas agradáveis muitos meses (ou anos) depois, como foi agora o caso.

Apesar de ter um ritmo menos frenético que o anterior, mais uma vez o senhor Palin é uma fonte de conhecimento interessante, porque através dele vamos observando o desenrolar dos anos 80 em Inglaterra. Ele dá-nos relatos primeiro sobre a guerra das Falklands, e como isso ajudou a consolidar a posição de Margaret Tatcher no poder, depois as greves dos mineiros que vieram abalar toda a nação, mas também vemos pelos seus olhos o inicio do hooliganismo no futebol inglês (quando começa a ser cada vez mais inseguro ir aos jogos do Sheffield Wednesday com os seus dois filhos pré-adolescentes até à tragédia de Heisel Park em 85).

Por outro lado, os seus filhos estão a tornar-se adolescentes, que bebem e fumam e levam amigos para casa que o vão espreitar na cozinha, e vemos como a sua vida familiar seria na realidade tão parecida com a nossa. Apesar de ganhar confortavelmente com os filmes que vai fazendo, continua a conduzir pacatamente o mesmo Mini da década anterior até pelo menos meio da década de oitenta, e quando o troca é sempre por utilitários, longe da ostentação dos Bentleys de John Cleese. Ao mesmo tempo, perto do final dos 80’s, a tragédia abate-se sobre a sua família e a sua reacção é duma certa compostura britânica, tão diferente do nosso sangue latino.

Mas o que eu acho mais interessante é que ele fez muitos filmes e programas televisivos que foram bastante aclamados na altura, alguns ganharam mesmo prémios, e que hoje em dia eu nunca ouvi falar. Eu pensava que para além dos Monty Python, Um Peixe Chamado Vanda e depois os seus livros e programas de viagem ele não tinha feito mais nada de relevo, e isso não é nada assim. Das duas uma, ou eu sou muito desatenta (na realidade era uma criança nesta altura, mas o certo é que Monty Python é anterior e conheço lindamente), ou os projectos que ele protagonizou/escreveu, não aguentaram o teste do tempo.

Entretanto já colmatei algumas dessas falhas e vi alguns episódios de Ripping Yarns no Youtube, incluindo um do qual ele se orgulha particularmente, Roger of the Raj. Gostei, tem um toque de humor inglês bastante refinado, mas falta alguma da loucura Pythoniana.

Mais uma vez recomendo o livro a fãs de biografias e dos Monty Python.

Goodreads Review.

O Diário de Michael Palin

Michael Palin

À partida podia parecer que ler um diário pessoal que dura mais de 600 páginas e cobre uma década (de 1969 a 1979) seria tarefa monótona e titânica. Mas quando essa pessoa é o Michael Palin, responsável por alguma da melhor comédia do século XX, na realidade tornou-se um genuíno prazer.

Michael Palin começou a escrever um diário em 1969 como forma de documentar o que se passava na sua vida e de certa forma praticar os seus dotes de escrita, e não parou até hoje. Agora, em vez de escrever uma biografia, editou os seus diários (tem centenas de cadernos escritos à mão) em três volumes, que vão desde 1969 até 1998. Este volume fala da primeira década. Palin é um homem simples, que está nesta altura a tentar construir uma carreira a fazer aquilo que mais gosta, parvoíces, ao mesmo tempo que constrói um casamento, uma família com 3 filhos pequenos, e assiste ao progressivo degradar do seu pai, vítima de Parkinson.

A isto tudo junta-se a ascensão meteórica do fenómeno Python, com a respectiva luta de egos, o posterior desmembramento, o tentar começar uma carreira a solo, e todo o enquadramento sócio-cultural dos anos 70. No fundo, um documento histórico por quem viveu esses anos por dentro, e bastante bem escrito. Michael é não só um comediante, mas também uma pessoa bastante atenta ao que o rodeia, interessado em história e politica, por isso vai também deixando notas no seu diário sobre o que está a acontecer no mundo, em Inglaterra, bem como sobre os livros que está a ler. É desta maneira que podemos acompanhar o caso Watergate, um dos primeiros referendos sobre a permanência do UK na União Europeia, e as sucessivas greves que assolaram a Inglaterra nos anos 70. Na realidade, lemos pérolas como o facto de em 1969 ele estar preocupado que o novo governo venha restaurar a pena de morte no UK, que apenas recentemente tinha sido abolida (1965). Parece incrível que tenha sido abolida apenas 10 anos antes de eu própria ter nascido, mas o mundo é bem menos civilizado do que aquilo que gostamos de acreditar.

Por outro lado podemos também assistir em primeira mão à nem sempre fácil relação de trabalho entre todos os Python, para a qual terão contribuído as diferentes personalidades e modos de lidar com a fama, mas também o problema de alcoolismo de Graham Chapman. No entanto, Palin é sempre um verdadeiro cavalheiro inglês e a maioria das situações podemos apenas inferir já que ele jamais é descortês a referir-se aos seus colegas. Percebemos no entanto a grande amizade que o une a Terry Jones, Terry Gilliam, e mesmo com John Cleese consegue comunicar cordial e  frequentemente, fazendo muitas vezes o papel de mediador entre todos.

Foi também muito interessante poder ler a descrição das filmagens de mitos como o Holy Grail e o Life of Brian, e mesmo o processo criativo que levou até á sua existência. Ficamos com  a sensação que apesar de algumas dificuldades pessoais, como a morte do pai, foram bons tempos, de descoberta do seu lugar no mundo, formação de amizades que ficaram para a vida com nomes que reconhecemos hoje instantaneamente como sendo nomes grandes do entretenimento.

Fiquei com imensa vontade de ler os restantes diários  e rever tudo o que tenho cá em casa dos Monty Python. Entretanto já tenho visto alguns sketches no youtube para matar saudades, deixo-vos aqui um clássico, que é também dos meus favoritos.

Silly Olympics

Boas Leituras!

Goodreads Review