Escrito nas Estrelas

Peixes

Bom, se até os astros o dizem, quem sou eu para os contrariar? Este final de tarde já tenho tarefa programada, ler poesia, escrever poesia, partilhar poesia.

Já tinha começado esta manhã no Instagram do Peixinho de Prata (@peixinhodeprata),  com um poema da Adília Lopes, vão até lá dar uma olhada.

Fim de Semana

18 Praia Inhame

 

Estirado na areia, a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou, de azul e areia
para onde, aos milhares, nos abalançamos,
como quem, às pressas, o corpo semeia.

Alexandre O’Neill

Ode à Noite (Inteira)

manuel-de-freitas

Gosto do momento, exacto ou nem por isso,
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
– ou das pessoas que desconheço
e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
– como eu – insónia, pesadelo, golpe baixo).
Existem, claro, raparigas louras um tanto
heterodoxas que não te apetece beijar
(a forca do bâton, perfeita – o cigarro aceso
pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo, evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
com a cerveja a premiar a farda
demasiado verde e os bigodes de serviço.
Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço e sem palavras. Entre shots, piercings,
t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
– ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.
O resto, a vida, fica para outra vez.

Manuel de Freitas in Sunny Bar

No Dia Mundial da Poesia tinha de haver poesia no Peixinho!

 

Não é tarde

jose-miguel-silva

 

O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.

Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.

Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida

não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.

José Miguel Silva in Ulisses Já Não Mora Aqui

Em Dia de São Valentim, Poesia!

Eufeme

eufeme-2

Ora o que mais podemos pedir depois dum dia absolutamente para esquecer, que chegar a casa e encontrar a revista de poesia que encomendámos há apenas 3 dias?

A revista Eufeme é um projecto do poeta Sérgio Ninguém e pretende promover a leitura de poesia em português. A poesia pode vir até nós em vários formatos. Como a revista acima, impressa num formato artístico, onde temos acesso em primeira mão a mais conteúdo. No entanto posteriormente todas as revistas são disponibilizadas em formato digital gratuitamente.

Este é já o terceiro volume e o primeiro que eu adquiri em formato impresso, os outros dois acompanham-me no Kindle.

Já tenho programa para este serão, mais tarde partilharei as minhas impressões aqui.

Sem Título

golgona

Abro a porta.
Tenho cuidado com os vidros partidos.
Olho constantemente para o mapa
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa
antes de dormir.Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.

Golgona Anghel in Vim Porque Me Pagavam

Sem Título

maria-sousa
O processo de contar histórias é sempre lento
começa-se pelo início
e há quem diga que chegar ao fim é simples
uma frase é a melhor medida
para juntar os fragmentos
e se a noite a subir pela voz
é um método de fazer silêncios
e o coração é um órgão que
espreita pelos buracos da gramática
no fundo é porque têm um corpo como fronteira
Maria Sousa in  Exercícios para endurecimento de lágrimas
Blog da autora com poesia variada aqui

Tisanas

ana-hatherly

Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.

Ana Hatherly – 351 Tisanas

Sem Título

ana-teceideiro

Saída do café encontro no chão
uma garrafinha verde.

Era uma bela garrafinha,
pensei,
para colocar uma flor.

Enquanto lavava para tirar
o cheiro e o rótulo
lembrei-me de um homem
que pousava ali para os lados
das Avenidas Novas

comia às vezes só molho e pão
e tinha sempre à sua frente
uma flor
dentro de uma garrafa suja.

Um dia estendi-lhe
uma peça de fruta à sobremesa
e ele sorridente
convidou-me a comer também
daquele prato
de aspecto catástrofe

Lembro-me de ter pensado que
há coisas que só se engolem
com muita fome e uma flor à frente.

Mas ele era um sem-abrigo ainda jovem
qualquer dia
já nem vai precisar da flor.

Ana Tecedeiro in Deitar a Trazer

Projectos para 2017

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Depois de ter feito o balanço do ano de 2016, está agora na altura de fazer planos para 2017. Não sou mulher de resoluções de fim de ano, porque acho que há um limite de desilusões que podemos infligir a nós próprios, mas gosto de ter algumas linhas orientadoras. E foi nisso que pensei para o próximo ano:

– Depois de ter ido a dois continentes em 2016, este ano precisamos de descanso. Mais o Peixinho Vermelho que eu, verdade, mas definitivamente a nossa carteira precisa de algum tempo de recuperação. Felizmente os passeios pequenos também me entusiasmam muito e já comecei a planear o nosso “vá para fora cá dentro”.

– Livros, livros e mais livros. No início do ano o Goodreads pede-nos um objectivo, e eu sou sempre conservadora. O ano passado comecei por dizer 30, mas acabei a ler 60. Como sou ligeiramente obsessiva compulsiva, não quero obrigar-me a escolher livros só porque são pequenos e me vão permitir atingir um objectivo parvo, que não interessa a ninguém para além de mim. Cada um com as suas dificuldades mentais. Este ano aposto nos 40.

– Continuar a  ler Agatha Christie e Terry Pratchett por ordem de publicação (ver ponto acima sobre obsessão compulsão). São dois autores que gosto e que um dia gostaria de ter lido os livros todos. Vou voltando a eles lentamente, sem pressas, como quem toma um café com um velho amigo.

– Acabar a saga do Sandman do Neil Gaiman, que comecei em 2016. Faltam-me 4 livros que tenciono acabar este ano. Tenho mais uns quantos livros de BD na calha, 3 para ser exacta, que é um género que eu gosto muito.

– Continuar a encher o blog (e a minha vida) de poesia. Desde que aprendi a escrever que encho cadernos com poemas. Quadras em miúda, depressão existencial em adolescente, e, depois dum intervalo em que o trabalho de escritório me matou os neurónios da criatividade, voltei a encher qualquer papel que encontro livre, ou as notas do telemóvel com os meus apontamentos. Como ainda é muito cedo para os partilhar, vou mostrando poemas que me tocam de quem escreve melhor que eu, essencialmente escritores portugueses dos séculos XX e XXI.

E como não sou ambiciosa são estes os meus planos. Há mais um ou dois mas ficam só para mim. Um feliz 2017 para todos.