Deus é a Nossa Mulher a Dias

adilia_lopes

 

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa

Adília Lopes, in ‘Florbela Espanca Espanca’

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Esta Gente/Essa Gente

ana-hatherly

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

Ana Hatherly, in “Um Calculador de Improbabilidades”

Sai de Casa

Manuel Resende

Rasga este poema depois de o leres.

E depois espalha os bocados

Pelo vasto mundo

Ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,

Atira-o ao mar, deita-o ao lixo,

Para que venha o vento, o sol, a chuva, os homens do lixo,

Acabar com ele de vez.

Passado um dia,

Sai de casa e procura

Encontrá-lo de novo.

Manuel Resende in “O Mundo Clamoroso, Ainda”

Homens Que São Como Lugares Mal Situados

Daniel Faria

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar

Daniel Faria in poesia quasi

Naturalidade

rui knopfli

Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável… Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.

Rui Knopfli, O país dos outros, 1959

Viver Sempre Também Cansa

jose-gomes-ferreira

Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens não se transformam
Não cai neve vermelha
Não há flores que voem,
A lua não tem olhos
Niguém vai pintar olhos à lua

Tudo é igual, mecanico e exacto

Ainda por cima os homens são os homens
Soluçam, bebem riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe
automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à morte!

Pois não era mais humano
Morrer por um bocadinho
De vez em quando
E recomeçar depois
Achando tudo mais novo?

Ah! Se eu podesse suicidar-me por seis meses
Morre em cima dum divã
Com a cabeça sobre uma almofada
Confiante e sereno por saber
Que tu velavas, meu amor do norte.

Quando viessem perguntar por mim
Havias de dizer com teu sorriso
Onde arde um coração em melodia
Matou-se esta manhã
Agora não o vou ressuscitar
Por uma bagatela

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..

José Gomes Ferreira

How To Be Perfect

ron padgett

Get some sleep.
Don’t give advice.
Take care of your teeth and gums.
Don’t be afraid of anything beyond your control. Don’t be afraid, for
instance, that the building will collapse as you sleep, or that someone
you love will suddenly drop dead.
Eat an orange every morning.
Be friendly. It will help make you happy.
Raise your pulse rate to 120 beats per minute for 20 straight minutes
four or five times a week doing anything you enjoy.
Hope for everything. Expect nothing.
Take care of things close to home first. Straighten up your room
before you save the world. Then save the world.
Know that the desire to be perfect is probably the veiled expression
of another desire—to be loved, perhaps, or not to die.
Make eye contact with a tree.
Be skeptical about all opinions, but try to see some value in each of
them.
Dress in a way that pleases both you and those around you.
Do not speak quickly.
Learn something every day. (Dzien dobre!)
Be nice to people before they have a chance to behave badly.
Don’t stay angry about anything for more than a week, but don’t
forget what made you angry. Hold your anger out at arm’s length
and look at it, as if it were a glass ball. Then add it to your glass ball
collection.
Be loyal.
Wear comfortable shoes.
Design your activities so that they show a pleasing balance
and variety.
Be kind to old people, even when they are obnoxious. When you
become old, be kind to young people. Do not throw your cane at
them when they call you Grandpa. They are your grandchildren!
Live with an animal.
Do not spend too much time with large groups of people.
If you need help, ask for it.
Cultivate good posture until it becomes natural.
If someone murders your child, get a shotgun and blow his head off.
Plan your day so you never have to rush.
Show your appreciation to people who do things for you, even if you
have paid them, even if they do favors you don’t want.
Do not waste money you could be giving to those who need it.
Expect society to be defective. Then weep when you find that it is far
more defective than you imagined.
When you borrow something, return it in an even better condition.
As much as possible, use wooden objects instead of plastic or metal
ones.
Look at that bird over there.
After dinner, wash the dishes.
Calm down.
Visit foreign countries, except those whose inhabitants have
expressed a desire to kill you.
Don’t expect your children to love you, so they can, if they want to.
Meditate on the spiritual. Then go a little further, if you feel like it.
What is out (in) there?
Sing, every once in a while.
Be on time, but if you are late do not give a detailed and lengthy
excuse.
Don’t be too self-critical or too self-congratulatory.
Don’t think that progress exists. It doesn’t.
Walk upstairs.
Do not practice cannibalism.
Imagine what you would like to see happen, and then don’t do
anything to make it impossible.
Take your phone off the hook at least twice a week.
Keep your windows clean.
Extirpate all traces of personal ambitiousness.
Don’t use the word extirpate too often.
Forgive your country every once in a while. If that is not possible, go
to another one.
If you feel tired, rest.
Grow something.
Do not wander through train stations muttering, “We’re all going to
die!”
Count among your true friends people of various stations of life.
Appreciate simple pleasures, such as the pleasure of chewing, the
pleasure of warm water running down your back, the pleasure of a
cool breeze, the pleasure of falling asleep.
Do not exclaim, “Isn’t technology wonderful!”
Learn how to stretch your muscles. Stretch them every day.
Don’t be depressed about growing older. It will make you feel even
older. Which is depressing.
Do one thing at a time.
If you burn your finger, put it in cold water immediately. If you bang
your finger with a hammer, hold your hand in the air for twenty
minutes. You will be surprised by the curative powers of coldness and
gravity.
Learn how to whistle at earsplitting volume.
Be calm in a crisis. The more critical the situation, the calmer you
should be.
Enjoy sex, but don’t become obsessed with it. Except for brief periods
in your adolescence, youth, middle age, and old age.
Contemplate everything’s opposite.
If you’re struck with the fear that you’ve swum out too far in the
ocean, turn around and go back to the lifeboat.
Keep your childish self alive.
Answer letters promptly. Use attractive stamps, like the one with a
tornado on it.
Cry every once in a while, but only when alone. Then appreciate
how much better you feel. Don’t be embarrassed about feeling better.
Do not inhale smoke.
Take a deep breath.
Do not smart off to a policeman.
Do not step off the curb until you can walk all the way across the
street. From the curb you can study the pedestrians who are trapped
in the middle of the crazed and roaring traffic.
Be good.
Walk down different streets.
Backwards.
Remember beauty, which exists, and truth, which does not. Notice
that the idea of truth is just as powerful as the idea of beauty.
Stay out of jail.
In later life, become a mystic.
Use Colgate toothpaste in the new Tartar Control formula.
Visit friends and acquaintances in the hospital. When you feel it is
time to leave, do so.
Be honest with yourself, diplomatic with others.
Do not go crazy a lot. It’s a waste of time.
Read and reread great books.
Dig a hole with a shovel.
In winter, before you go to bed, humidify your bedroom.
Know that the only perfect things are a 300 game in bowling and a
27-batter, 27-out game in baseball.
Drink plenty of water. When asked what you would like to drink,
say, “Water, please.”
Ask “Where is the loo?” but not “Where can I urinate?”
Be kind to physical objects.
Beginning at age forty, get a complete “physical” every few years
from a doctor you trust and feel comfortable with.
Don’t read the newspaper more than once a year.
Learn how to say “hello,” “thank you,” and “chopsticks”
in Mandarin.
Belch and fart, but quietly.
Be especially cordial to foreigners.
See shadow puppet plays and imagine that you are one of the
characters. Or all of them.
Take out the trash.
Love life.
Use exact change.
When there’s shooting in the street, don’t go near the window.
Ron Padgett, “How to Be Perfect” from Collected Poems. Desejos para 2019.

Chove. É Dia de Natal.

Almada Negreiros - Portrait of Fernando Pessoa, 1954

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa, in ‘Cancioneiro’

Pastelaria

cesariny

Afinal o que importa não é a literatura nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que
importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que
importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que
importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

e cair verticalmente no vício
Não
é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal
o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal
o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal
o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora!
– rir de tudo
No riso admirável
de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mario Cesariny