Meteorológica

adilia_lopes

Para ouvir maravilhosamente este poema, vão aqui.

para o José Bernardino

Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico

Adília Lopes

As Raparigas

poesia as segundas 5 anos

Quando eu era miúda 

a minha mãe chamava rapariga 

a mulheres da idade dela, 

e eu ria-me 

porque achava que eram muito velhas 

para serem raparigas.

Agora, quando eu falo em ser miúda

refiro-me a um tempo indefinido

algures entre os cinco e os trinta e cinco anos

e percebo que estou mais velha

que a minha mãe quando se achava rapariga.

Peixinho de Prata, 2018

Opacidade

daniel jonas

Estúpido outono
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.

E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.

Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.

Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!

Daniel Jonas

Portugal

jorge s braga

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar poker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

Jorge Sousa Braga in De Manhã Vamos Todos Acordar com uma Pérola no Cu

Um Dia Virá

rosa lobato faria

Um dia virá

em que a minha porta

permanecerá fechada

em que não atenderei o telefone

em que não perguntarei

se querem comer alguma coisa

em que não recomendarei

que levem os casacos

porque a noite se adivinha fresca.

Só nos meus versos poderão encontrar

a minha promessa de amor eterno.

Não chorem; eu não morri

apenas me embriaguei

de luz e de silêncio.

Rosa Lobato de Faria

Z

Antonio Maria Lisboa

As formas, as sombras, a luz que descobre a noite

e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista

meus braços são dois espaços enormes

os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada

minhas pernas são duas árvores floridas

os meus dedos uma plantação de sargaços

a tua figura era ao que me lembro da cor do jardim.

António Maria Lisboa

A Divisibilidade: A Invisibilidade a Dois

luiza-neto-jorge

A mulher divide-se em gestos particulares
o homem divide-se também. Se o átomo é
divisível só poeta o diz.

a mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados.

dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.

A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos. Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação

Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.

Luiza Neto Jorge