You Are Here

rui manuel amaral

Meia-noite no porto a um domingo de tarde.

O sol avança sem vontade, como um gato ensonado,

pelas amenas ruas de Fevereiro.

Os cafés rangem cheios de gente

acendendo e apagando eternos cigarros

impregnados de Inverno.

Os velhos cruzam a cidade,

aos pares nos autocarros,

de lá para cá e de cá para lá,

dormindo profundamente.

E os pássaros quase se deixam apanhar,

Flutuando como borboletas pesadas

Sobre os canteiros indolentes das praças.

Tudo isto se pode ver em plena penumbra.

E tudo isto Fevereiro arruma,

lenta e meticulosamente,

ao longo de uma interminável tarde de domingo.

E pronto. Mais nada.

Rui Manuel Amaral

A Única Resposta

Fernando Pinto do Amaral

Jantáramos os dois pela primeira vez:

amizade ou amor, pouco interessava

desde que ali estivesses. O meu mundo

ia mudando à medida do teu,

a cada gesto vão da vã conversa

antes que fôssemos p’lo Bairro Alto

e enfim o Lumiar, a tua casa.

Eu podia contar uma história, dizer

como aquele rosto atravessava o meu -mas não,

«nada de narrativas, nunca mais».

Apenas a certeza de estar morto

há tanto tempo, que já não me lembro

de cor nenhuma dos teus olhos. Não,

já não existe o dia nem a noite

e este silêncio deve ser talvez

a única resposta. É bem melhor

ficar à espera de que não regresses.

Fernando Pinto do Amaral in  A Escada de Jacob

O Regresso

manuel antonio de pina

Como quem, vindo de países distantes fora de

si,chega finalmente aonde sempre esteve

e encontra tudo no seu lugar,

o passado no passado, o presente no presente,

assim chega o viajante à tardia idade

em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa

e deita-se pela primeira vez na sua cama.

Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,

cidades, estações do ano.

E come agora por fim um pão primeiro

sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

Manuel António de Pina

O Poema Ensina a Cair

luiza-neto-jorge

O poema ensina a cair

sobre vários solos

desde perder o chão repentino sob os pés

como se perde os sentidos numa

queda de amor, ao encontro

do cabo onde a terra abate e

a fecunda ausência excede

até à queda vinda

da lenta volúpia de cair,

quando a face atinge o solo

numa curva delgada subtil

uma vénia a ninguém de especial

ou especialmente a nós uma homenagem

póstuma.

Luiza Neto Jorge in O Seu Tempo a Seu Tempo

Não tenho pressa. Pressa de quê?

 

fernando-pessoa

Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.

Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,

Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.

Não; não sei ter pressa.

Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega —

Nem um centímetro mais longe.

Toco só onde toco, não aonde penso.

Só me posso sentar aonde estou.

E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,

Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,

E vivemos vadios da nossa realidade.

E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

Uma Vida Esquecida

Antonio Maria Lisboa

Para o Fernando Alves dos Santos

Eu conheço o vidro franja por franja

meticulosamente

à porta parado um homem oco

franja por franja no espaço

meticulosamente oco uma porta parada.

Um relógio dá dez badaladas ininterruptamente

dez badaladas por brincadeira dança

um homem com pernas de mulher

e um olhar devasso no Marte

passo por passo uma criança chora

uma águia e um vampiro recuados no tempo.

António Maria Lisboa

A Casa Onde Às Vezes Regresso

jose tolentino mendonça

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem que se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem que se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça in A noite abre meus olhos.