Nos Teus Olhos Alguém Anda no Mar

Manuel-Alegre

Nos teus olhos alguém anda no mar
alguém se afoga e grita por socorro
e és tu que vais ao fundo devagar
enquanto sobre ti eu quase morro.

E de repente voltas do abismo
e nos teus olhos há um choro riso
teu corpo agora é lava e fogo e sismo
de certo modo já não sou preciso.

Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua.

Manuel Alegre, in SETE SONETOS E UM QUARTO

Anúncios

Posteridade

rui knopfli

Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.

Rui Knopfli

Bastille Day

ron padgett

The first time I saw Paris
I went to see where the Bastille
had been, and though
I saw the column there
I was too aware that
the Bastille was not there:
I did not know how
to see the emptiness.
People go to see
the missing Twin Towers
and seem to like feeling
the lack of something.
I do not like knowing
that my mother no longer
exists, or the feeling
of knowing. Excuse me
for comparing my mother
to large buildings. Also
for talking about absence.
The red and gray sky
above the rooftops
is darkening and the inhabitants
are hastening home for dinner.
I hope to see you later.

Ron Padgett

Carta a Meus Filhos Sobre os Fuzilamentos de Goya

jorge_sena

 

Poema dito por Mário Viegas AQUI!

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena

Portugal Futuro

ruy-belo-l

 

Poema dito por Mário Viegas AQUI!

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo

Cantiga dos Ais

mario viegas

 

Podem ouvir o poema dito por Mário Viegas AQUI!

Os ais de todos os dias,
os ais de todas as noites.
Ais do fado e do folclore,
o ai do ó ai ó linda.

Os ais que vêm do peito,
ai pobre dele, coitado
que tão cedo se finou!

Os ais que vêm da alma.
Ais d’ amor e de comédia,
ai pobre da rapariga
que se deixou enganar…
ai a dor daquela mãe.

Os ais que vêm do sexo,
os ais do prazer na cama.
Os ais da pobre senhora
agarrada ao travesseiro
ai que saudades, saudades,
os ais tão cheios de luto
da viúva inconsolável.
Ai pobre daquele velhinho:
_ai que saudades menina,
ai a velhice é tão triste.

Os ais do rico e do pobre
ai o espinho da rosa
os ais do António Nobre.
Ais do peito e da poesia
e os ais de outras coisas mais.
Ai a dor que tenho aqui,
ai o gajo também é,
ai a vida que tu levas,
ai tu não faças asneiras,
ai mulher és o demónio,
ai que terrível tragédia,
ai a culpa é do António!

Ai os ais de tanta gente…
ai que já é dia oito
ai o que vai ser de nós.

E os ais dos liriquistas
a chorar compreensão?
ai que vontade de rir.

E os ais de D. Dinis
Ai Deus e u é…

Triste de quem der um ai
sem achar eco em ninguém.
Os ais da vida e da morte
Ai os ais deste país…

Mendes de Carvalho

Projecto de Sucessão

Antonio Maria Lisboa

 

Para o Mário Henrique

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
por-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se índias.

António Maria Lisboa, in “Ossóptico e Outros Poemas”

Gin Sem Tónica

Mário Henrique Leiria

Uma garrafa de gin

estava a preocupar

o pescador

a garoupa e o rodovalho

não tinham aparecido

pró jantar

que fazer?

telefonou ao ministro

da Pesca e do trabalho

mas o ministro

estava a trabalhar

na cama

com a mulher

foi então

que a garrafa de gin

sugeriu discretamente

porque não

telefonar ao presidente?

telefonaram

o presidente da nação

estava em acção

na cama

com a mulher

nessa altura

até que enfim

encontraram a solução

o pescador

foi para a cama

com a garrafa de gin

 

Mário-Henrique Leiria, in “Contos do Gin-Tonic”, 1973

Bluebird

bluebird

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.
then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?

Charles Bukowski, Love is a Dog From Hell

Um Filme que é um Poema

Paterson

Aqui há umas semanas, num daqueles domingos à tarde frios e cinzentos, pesquisámos os filmes que tínhamos aqui por casa para ver e decidimo-nos pelo Paterson. Eu ia completamente sem expectativas porque não sabia bem sobre o que era, só sabia que era de Jim Jarmush e que era com o herdeiro do Darth Vader. Por isso fui completamente surpreendida quando me deparei com um belíssimo filme sobre poesia, cheio dela, com tantas referências a autores que eu ainda não conhecia que estou há semanas a digeri-lo.

Paterson é o nome do personagem principal, um condutor de autocarros na cidade com que partilha o nome, e todo o ritmo do filme é como se fosse um poema. Vemos o acordar diário de Paterson, a sua ida para o emprego, o almoço a contemplar a paisagem enquanto trabalha nos seus poemas num caderno de anotações, até terminarmos com o passeio nocturno com o seu cão e uma cerveja no bar do costume. Toda esta rotina lhe permite observar pessoas e rituais e isso lhe serve de inspiração para a sua poesia, seguindo uma corrente americana que dizia no ideas but in things (expressão que podemos encontrar num poema de Williams Carlos Williams, poeta que serviu de inspiração a este filme) como quem diz que temos que olhar em volta para ter inspiração. Esse é um tema que ecoa muito em mim, que nas minhas fantasias de escrita procuro sempre inspirar-me no meu quotidiano e naquilo que me rodeia, só ainda não tinha descoberto que havia uma corrente literária que o explorava. Também não tenho a disciplina deste condutor de autocarros que escrevia religiosamente todos os dias, como quem se exercita. E vemos toda esta rotina e quotidiano através de imagens muito bonitas, um poema visual também. Um tesouro!

Os poemas do filme, que podemos ouvir serem escritos ao mesmo tempo que vemos as palavras desfilarem no ecrã para melhor nos envolvermos neles foram escritos por um poeta americano chamado Ron Padgett, amigo do realizador, que foi desafiado a trabalhar como consultor poético numa primeira abordagem e mais tarde a contribuir com os poemas que vemos o protagonista trabalhar. Gostei bastante e isso fez-me pesquisar mais sobre o autor, bem como outros autores relacionados.

Portando depois disto tudo posso dizer que se ainda não viram este filme, vejam. Não esperem grande acção, ou mesmo qualquer acção, porque não é essa a intenção do autor. Na realidade este filme é um poema de amor à própria poesia e por isso não poderia deixar de falar nele aqui. Se quiserem ler os poemas do filme vejam aqui. Se quiserem ler uma apreciação interessante vejam aqui, e se quiserem ler o poeta que escreveu os poemas de Paterson espreitem aqui.

Recomendo a todos os amantes de poesia, os que andam todos os dias de autocarro a ver pedaços de vida e a tomar notas mentais, a todos os que têm um emprego repetitivo e monótono mas que o vêem como uma estrofe do seu próprio poema. A todos os que sonham acordados e a dormir, a todos os que não se conformam na sua vida de conformidade, a todos os amantes da beleza.

Water falls from the bright air
It falls like hair
Falling across a young girl’s shoulders
Water falls
Making pools in the asfalt
Dirty mirrors with clouds and buildings inside
It falls on the roof of my house
Falls on my mother and on my hair
Most people call it rain