Acabei de Ler – Morte no Nilo, Poirot #17

poirot 17

Eu pensava que o Poirot anterior seria a última leitura do ano, mas ainda consegui ler este antes do início de 2020. Era um livro que já tinha lido em português na minha adolescência, e que já vi o episódio da TV inúmeras vezes, por isso a resolução do assassínio(s) não foi surpresa. Mas é sempre muito diferente ler na língua em que foi escrito, com as subtilezas culturais e geracionais próprias, e mais uma vez não foi decepção.

Neste livro conhecemos Linnet Ridgeway, uma jovem linda e rica, que aparentemente tem tudo na vida e por isso é invejada, perseguida e adulada por muita gente. Recém-casada resolvem passar a lua-de-mel no Egipto, onde vem a ser assassinada num cruzeiro do Nilo onde também se encontra Poirot. Para resolver o caso é chamado o Coronel Race que nós já conhecíamos como um dos suspeitos do livro Cartas na Mesa.

A acção é interessante, a história muito bem construída e o final muito bem pensado. O cenário é exótico e diferente e foi após Agatha Christie ter ela própria viajado com o marido pelo Médio Oriente e ficado fascinada com o que viu que escreveu uma série de mistérios de Poirot passados nesta zona do mundo.

Como sempre, aconselho a todos os fãs de policiais, do Poirot, ou simplesmente a quem goste duma boa história, bem contada.

Boas Leituras e Bom 2020

Goodreads Review

Livros que Recomendo – Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal

meia noite no jardim do bem e do mal

Este livro de 1994 é mais um dos muitos que encheram os meus anos 90, quando eu lia vorazmente e tinhas boas (e más) surpresas. John Berendt não é um escritor muito prolífico e eu não voltei a ler nada dele, mas este foi bastante interessante.

Passado na cidade americana de Savannah, na Geórgia, este livro faz um retrato (ou uma caricatura) das cidades profundamente sulistas em que cada personagem é quase um arquétipo. Aparentemente baseado numa história verídica (está classificado como non-fiction), nada o faria prever, pois é fluido e cativante como um romance. Há um crime e na senda de o deslindar vamos descobrindo como é viver numa cidade pequena, profundamente tradicional e com valores muito enraizados, como é Savannah. Cada personagem acrescenta algo novo à história e vamos descobrindo tanto o fio à meada como a própria cidade. Lembro-me de terminar de ler e ficar com imensa vontade de conhecer Savannah.

Não é uma leitura muito elaborada e profunda, mas é entretenimento garantido e um livro que se lê num fôlego. Apesar de já o ter lido há muito tempo, ainda hoje é lido por muitos e é considerado um dos clássicos modernos.

Recomendo a todos os que gostam de histórias simples mas cativantes, com personagens bem desenvolvidos e interessantes.

Boas Leituras!

Projectos para 2020

new years resolution

À semelhança do ano passado, este ano também não vou fazer grandes planos. Depois da surpresa que a natureza me fez de me dar um jaquinzinho aos 44 anos acho que fazer planos é capaz de ser redundante. Por isso em 2020 planeio aproveitar o que a vida me trouxer e o cachopo me deixar.

Acho que viagens ainda estarão fora de questão e espero conseguir ir para fora cá dentro sem grandes complicações. Seria bom se conseguisse juntar a isso umas idas ao teatro, cinema ou algum concerto. Se alguém se sentir com vontade de fazer babysitting é só avisar.

Em termos de leituras vou manter as minhas expectativas realistas. Se conseguir ler novamente 30 livros já me vou sentir contente, e tenho muitas horas de transportes públicos pela frente para me permitir fazer isso.

Vamos ver o que 2020 nos traz. É um número bonito, redondo e trará com certeza muitas surpresas. Coração aberto e paciência ao máximo para tudo o que aí vem.

Bom Ano e Boas Leituras!

 

 

É Tempo de Natal

couto

É tempo de Natal. Exibe-se um pinheiro,
Com lâmpadas de cor, sobre o balcão.
Tem, também, pendurados, a isca do dinheiro
E flocos finos de algodão.

Nas férias, foge a freguesia
Do final das manhãs,
Com os seus kispos disformes, de inflada fantasia,
E o conforto das lãs.

Bebem-se mais bebidas quentes.
O chão, mais húmido, incomoda.
E há apelos insistentes
Do cauteleiro que anda à roda.

Os embrulhos, nas mesas, nos regaços,
Com vistosos papéis,
Florescem de acetinados laços,
Lembram o oiro, o incenso, a mirra, em mãos de reis.

Muitos adultos. Pouca criançada.
Muito cansaço. Pouca animação.
A vida (a cruz!) tão cara, tão pesada!
E dão-se as boas-festas sem se sentir que o são.

Consigo mesa junto à vidraça.
E é em mim que procuro, ou é lá fora,
A estrela que não luz, o pastor que não passa,
O anjo que não vem anunciar a hora?

António Manuel Couto Viana, in ‘Café de Subúrbio’

Livros que Recomendo – O Cozinheiro Prático

cozinheiro pratico

Já que estamos a chegar ao Natal, nada como recomendar um dos livros mais emblemáticos da nossa tradição culinária. Eu tive conhecimento dele porque sempre existiu em casa da minha mãe e ela consultava imensas vezes, nomeadamente para fazer os seus maravilhosos bolinhos de areia. Assim, quando eu me mudei para a minha própria casa e o encontrei à venda numa Feira do Livro, achei que não podia deixar escapar.

No entanto, caras dona(o)s de casa do século XXI, desenganem-se se pensam que vão encontrar aqui um precioso auxiliar de cozinha. Na realidade este é um livro com imensas receitas que serão seguramente úteis a quem já se saiba orientar com os tachos, já que as instruções dadas para além das quantidades são surpreendentemente vagas e pouco precisas. Fiquei um bocadinho desiludida e ainda não consegui fazer receita nenhuma por lá. Tenho confiado mais nas inúmeras páginas de receitas que abundam na internet, mas se fosse hoje voltaria a comprá-lo porque é como ter uma memória visual da minha mãe permanentemente na estante. E cada vez que o folheio lembro-me dos bolinhos de areia e como os meus nunca conseguiram ficar iguais.

Escrito por Mariazinha (!) em 1952 este livro foi um grande sucesso durante décadas, e está dividido em capítulos de acordo com o tipo de pratos, começando nas sopas e terminando nas sobremesas. No final ainda tem dois capítulos muito interessantes, sobre como servir vinhos e um regime de 18 dias para emagrecer. Vale a pena consultar este livro e descobrir as pérolas que encerra.

Boas Leituras!

Bolos de Areia: Misturam-se 100g de açúcar com 200g de manteiga e depois de bem ligado amassa-se à mão com 500g de farinha. Depois de tudo misturado faça pequenos bolos que vão ao forno em tabuleiro não untado.

Balanço de 2019

equilibrista

2019 foi um ano muito diferente para mim, um ano em que me tenho dedicado mais a fraldas e biberons do que a grandes literaturas. Como já disse aqui a minha capacidade intelectual também se encontra diminuída, por isso as leituras foram as possíveis. Foi também um ano em que não fiz muitos projectos, porque já estava grávida no início de 2019 e previa grandes mudanças de vida.

Mesmo considerando tudo isto, consegui atingir o objectivo que me tinha proposto no início do ano de ler pelo menos 30 livros. Três da série Wheel of Time, que ando a ler. Depois tive que fazer uma pausa e voltar ao Poirot, onde dei um grande avanço.

Voltei também a alguns territórios familiares e conhecidos, como voltar ao conforto da nossa casa. Nomeadamente com Philip Pullman, Dan Simmons e os diários de Michael Palin, que me deixaram ao mesmo tempo satisfeita e triste por não ter mais nada desses ambientes para ler.

E como sempre o Netgalley não desilude e proporciona leituras interessantes às quais não teria acesso de outra maneira.

Mas acima de tudo foi um ano de muitas noites sem dormir, muitas fraldas, muitas gargalhadas e colheres de sopa. Uma mudança drástica de vida depois dos 40 e nunca mais nada vai ser como dantes.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Poirot Perde uma Cliente, Poirot #16

poirot 16

Depois de um ano cheio de leituras boas achei que era adequado terminar com mais um Poirot. Dei um grande avanço nesta minha maratona este ano, mas mesmo assim ainda não há fim à vista, já que são cerca de 39 títulos que estão disponíveis. É para se ir fazendo.

Este é um daqueles livros que creio que nunca tinha lido, apesar da história me ser algo familiar. Excesso de Poirot’s seguidos talvez. Foi uma história interessante, pudemos rever o Capitão Hastings, que apesar de aparecer em quase todos os episódios de TV apenas esteve presente em 8 novelas e muitos contos. É um personagem que eu gosto muito, foi um prazer rever  só voltará a aparecer no livro final, Cai o Pano, o Último Caso de Poirot.

Esta história foi simples mas bem conseguida e interessante, e estive quase até ao final sem perceber quem era o assassino. A pérola foi um diálogo entre Poirot e Hastings em que estes se comparavam ao Sherlock Holmes e Watson, numa clara referência a uma das grandes inspirações de Agatha Christie.

No geral foi um livro bem escrito e prazeiroso de ler, que recomendo como sempre a fãs do género e de Poirot em particular. A maratona continua.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Quimera

rosa lobato faria

Eu quis um violino no telhado

e uma arara exótica no banho.

Eu quis uma toalha de brocado

e um pavão real do meu tamanho.

Eu quis todos os cheiros do pecado

e toda a santidade que não tenho.

Eu quis uma pintura aos pés da cama

infinita de azul e perspectiva.

Eu quis ouvir ouvir a história de Mira Burana

na hora da orgia prometida.

Eu quis uma opulência de sultana

e a miséria amarga da mendiga.

Eu quis um vinho feito de medronho

de veneno, de beijos, de suspiros.

Eu quis a morte de viver dum sonho

eu quis a sorte de morrer dum tiro.

Eu quis chorar por ti durante o sono

eu quis ao acordar fugir contigo.

Mas tudo o que é excessivo é muito pouco.

Por isso fiquei só, com o meu corpo.

Rosa Lobato de Faria

Livros que Recomendo – As Horas

as horas

A capa deste livro é mais uma daquelas estratégias de marketing que acham que as pessoas vão ler mais facilmente um livro sobre o qual se fez um filme, no entanto, a maioria dos leitores ávidos já tinham lido o livro antes do filme chegar às salas de cinema. Por isso não se deixem enganar por capas pobrezinhas como esta, o livro vale muito a pena.

As Horas” conta-nos 3 histórias, mais ou menos interligadas. A primeira é uma ficção sobre os dias de Virginia Woolf nos anos 20 do século passado, enquanto luta para escrever o seu próximo livro e ser uma boa esposa ao mesmo tempo. Depois nos anos 40 vemos a história duma mãe e dona de casa que tenta ser perfeita quando na realidade apenas deseja escapar à sua realidade e esconder-se a ler “Mrs Dalloway“. E por fim chegamos aos anos 90 onde Clarissa Vaughan está a orgaizar uma festa para o seu melhor amigo.

Estas histórias estão interligadas, principalmente as duas últimas, e fazem-nos pensar sobre as expectativas que temos sobre nós próprios e a nossa conduta, o esforço que fazemos para nos conformarmos à ideia que as pessoas têm de nós, ou aquela que queremos projectar, e como no final isso apenas nos mina por dentro.

Um livro muito bem escrito, uma história (ou histórias) que nos mantém agarrados do início ao fim, mesmo não sendo um conto de fadas ou um lindo romance com final feliz. Recomendo a todos os que gostam de boa literatura e de histórias complexas mas interessantes.

Boas Leituras!