Deixa-me Dar-te o Verão

jose tolentino mendonça

O verão é feito de coisas
que não precisam de nome
um passeio de automóvel pela costa
o tempo incalculável de uma presença
o sofrimento que nos faz contar
um por um os peixes do tanque
e abandoná-los depressa
às suas voltas escuras.

José Tolentino Mendonça in De Igual para Igual

A Casa Onde Às Vezes Regresso

jose tolentino mendonça

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem que se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem que se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça in A noite abre meus olhos.

Murmúrios do Mar

jose tolentino mendonça

«Paga-me um café e conto-te

a minha vida»

o inverno avançava

nessa tarde em que te ouvi

assaltado por dores

o céu quebrava-se aos disparos

de uma criança muito assustada

que corria

o vento batia-lhe no rosto com violência

a infância inteira

disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa

com frio e medo

apagavas cigarros nas palmas das mãos

e os que te viam choravam

mas tu, não, nunca choraste

por amores que se perdem

os naufrágios são belos

sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?

E temos saudades desse mar

que derruba primeiro no nosso corpo

tudo o que seremos depois

«Pago-te um café se me contares

o teu amor»

 

José Tolentino Mendonça

Os Amigos

jose tolentino mendonça

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino Mendonça in “A noite abre meus olhos – Poesia reunida”

O Esterco do Mundo

jose tolentino mendonça

Tenho amigos que rezam a Simone Weil;
Há muitos anos reparo em Flannery O’Connor

Rezar deve ser como essas coisas
que dizemos a alguém que dorme
temos e não temos esperança alguma
só a beleza pode descer para salvar-nos
quando as barreiras levantadas
permitirem
às imagens, aos ruídos, aos espúrios sedimentos
integrar o magnífico
cortejo sobre os escombros

Os orantes são mendigos da última hora
remexem profundamente através do vazio
até que neles
o vazio deflagre

São Paulo explica-o na Primeira Carta aos Coríntios,
«até agora somos o esterco do mundo»
citação que Flannery trazia à cabeceira

José Tolentino Mendonça in “A noite abre meus olhos – Poesia reunida”

A Ciência do Amor

jose-tolentino-mendonca

O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria

Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam

Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam

José Tolentino De Mendonça