Ainda a Livraria Ulmeiro

Ulmeiro
Foto do Público

Já se tinha falado da  Livraria Ulmeiro neste blog, a livraria/alfarrabista que se encontrava em risco de fechar em Benfica (posts aqui e aqui). Soube esta semana pelo Público que esse problema está sanado, e o gato vai continuar à porta da livraria do costume.

Para a resolução do problema contribuiu a divulgação que foi feita, a maior afluência de visitantes, os leilões online e vontade do senhorio.

Há agora que continuar a dinamizar, talvez apostar em alguma organização do espaço e da colecção, e eu com certeza continuarei a ser assidua visitante.

Noticia aqui.

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Auto-Retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Natália Correia in Poesia Completa

Histórias de Poligamia

The First WifeNiketche

Parece-me difícil acreditar que de toda a literatura africana lusófona eu conheça os óbvios Mia Couto, Pepetela, Ondjake e pouco mais. É uma lacuna no meu conhecimento, que eu espero que seja apenas isso e não reflexo duma falta de aposta das nossas editoras em nomes menos conhecidos, mas nem por isso menos interessantes.

Portanto, assim que o Netgalley me apresentou uma escritora moçambicana, mesmo que traduzida para inglês, eu corri a agarrar a oportunidade. E ainda bem que o fiz, não fiquei desiludida. First Wife conta-nos a história duma mulher que luta para manter a familia unida, mesmo quando descobre que tem de partilhar o marido com quatro outras mulheres. Mas há muitas camadas entrelaçadas na história de Rami e suas rivais. Temos as diferenças culturais entre o norte e o sul de Moçambique, temos o legado colonial que ficou, temos a luta dum país para se afastar de tradições que considera antigas mas que estão enraízadas no dia a dia da população, temos a procura da modernidade.

oMas acima de tudo temos aquilo que nós mulheres europeias sabemos mas esquecemos tantas vezes, o relato ficcionado mas decerto não longe da realidade que é a luta desigual que muitas mulheres ainda passam no resto do mundo, a luta que é serem reconhecidas como dignas, como iguais, como seres de direito. Grande parte deste livro eu passei-o zangada, e muitas vezes tive de o fechar para recuperar o fôlego e recomeçar. Porque é também realidade que nós somos as nossas maiores rivais, porque ainda se educam os meninos de maneira diferente das meninas, porque ainda nos criticamos umas às outras de maneira aguerrida e mesquinha, porque o que vestimos é motivo de crítica, e se somos assertivas não estamos a ser femininas.

E para além de tudo, o livro estava lindamente escrito, envolvente, com algum humor à mistura. Recomendo vivamente, principalmente se o conseguirem encontrar em português. O título é “Niketche, uma história de poligamia“, e eu aconselho vivamente.

Women should be better friends with each other, show more solidarity. We are the majority, we’ve got strength on our side. If we join hands, we can transform the world. 

Goodreads Review

Mário de Sá-Carneiro

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Faz hoje 100 anos que Mário de Sá-Carneiro se suicidou num quarto de hotel em Paris, aos 25 anos de idade. Em tão pouco tempo conseguiu deixar uma marca fortíssima na cultura nacional e, juntamente com o seu grande amigo Fernando Pessoa, lançar Portugal no Modernismo. Coisa que, muito tipicamente no nosso burgo, só foi reconhecida depois da sua morte. O Observador fez hoje um artigo muito completo sobre o escritor, quem o quiser ler pode encontrá-lo aqui.

Li há poucos meses de seguida dois livros deste autor que se encontram disponiveis para download através do Projecto Adamastor, Loucura e A Confissão de Lúcio, e em qualquer um deles se consegue vislumbrar o toque de génio por trás de cada palavra. Deixo aqui um excerto d’A Confissão de Lúcio que achei particularmente bonito para marcar este dia.

E a minha vida, livre de estranhezas, é no entanto uma vida bizarra – mas de uma bizarria às avessas. Com efeito a sua singularidade encerra-se, não em conter elementos que se não encontram nas vidas normais – mas sim em não conter nenhum dos elementos comuns a todas as vidas. Eis pelo que nunca me sucedeu coisa alguma. Nem mesmo o que sucede a toda a gente. Compreende-me?

O Peixinho foi a banhos

Praia Carvalhal

Como todo o português que se preze, se a comunicação social anuncia bom tempo para o fim de semana, o Peixinho também ruma à praia. Desta vez fomos até à Praia do Pego, na zona da Comporta, já que a época balnear ainda não começou e essa zona ainda não se tornou insuportável. São praias bonitas e naturais, mas longe e caras de lá chegar, e normalmente muito cheias mal começa o bom tempo a sério. No entanto nesta altura são ainda muito pacatinhas.

Aproveitámos para dar um salto a Alcácer do Sal primeiro e almoçar no magnífico restaurante Porto Santana. A sério, se não conhecem, vale a pena o desvio só para conhecer. A açorda de tomate é maravilhosa, e isto vem duma pessoa que não gosta de açorda.

Entretanto a minha terceira actividade favorita para fazer na praia a é ler. A primeira é obviamente tomar um belo banho de mar (estava demasiado frio/demasiada açorda hoje) e a segunda uma grande caminhada. Mas logo a seguir vem estar tranquilamente a ler ao som do mar. E como sou um bocadinho… picuinhas… obsessiva… com determinadas coisas, não consigo levar o Kindle para a praia por medo de o estragar com areia em orifícios estranhos. Assim aproveito para finalmente ler os livros em papel que ando a negligenciar, como este que comprei numa promoção da Ler Devagar já no ano passado e ainda não lhe tinha pegado. Li umas páginas (sim, confesso, foi o título que me atraiu), e a estranheza do que li fez-me comprá-lo imediatamente. Finalmente comecei a ler e não estou desiludida. Em breve a review.

Dias da Música

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Como tinha dito neste post este fim de semana está a decorrer no CCB os Dias da Música. Este ano o tema é Volta ao Mundo em 80 concertos, e nós iamos muito entusiasmados com a perspectiva de ouvir sons diferentes. Não ficámos desiludidos porque no primeiro concerto tivemos a experiência de ouvir a Orquestra Yogistrangong a tocar gamelão de Java. Se não sabem o que é, como eu não sabia, são uma série de instrumentos de percursão maioritariamente gongos em bronze.

O segundo concerto que escolhemos chamava-se “Uma Tarde Num Jardim Persa”, e era mais baseado em música iraniana, com 3 intérpretes que também declamaram alguns poemas.

Amanhã é o último dia, e eu aconselho a experiência. Não só os concertos são interessantes, como o ambiente que se vive no CCB nesta altura é muito eclético e variado. A experimentar.

A Biblioteca da Quinta das Conchas

conchas biblioteca

Quando falei em mini-bibliotecas há uns dias atrás neste artigo, já tinha passado várias vezes pela da Quinta das Conchas, sem no entanto saber da sua história. Nem de propósito ontem na comunicação social apareceu uma entrevista a Joaquim Sequeira, o médico curador e responsável por esta iniciativa.

Esta iniciativa baseia-se num modelo norte-americano chamado Little Free Library e pretende promover a literacia nas populações.

No nosso país existem mais duas deste modelo, ambas nos Açores. Os livros que enchem esta biblioteca vieram em grande parte da colecção pessoal de Joaquim Sequeira, que podemos encontrar muitas vezes no local a falar do projecto às pessoas.

Os Lavores

bordados

A minha mãe e a minha avó paterna fizeram inúmeros esforços durante os meus anos formativos para me tornarem numa dona de casa exemplar, se por exemplo se tomarem os anos 50. Ensinaram-me crochet, tricot, costura, ponto de cruz e outras tarefas domésticas similares. Algumas coisas ficaram, mas sempre dum modo básico. Crochet sei fazer abertos e fechados, tricot (ou malha como a minha mãe chamava) faço qualquer coisa à qual nem sei dar nome e que fica com um ar muito torcido no fim, e da costura sei marginalmente como se coze um botão.

Na realidade aquilo em que me saio melhor foi àquilo a que a minha mãe faltou a paciência de ensinar, a minha avó estava demasiado longe e eu tenho sido auto didata que é a culinária.

No entanto, a minha avó tinha estes livros duma coisa que nunca tinha ouvido falar que era o ponto Jugoslavo. E a primeira vez que vi coisas em casa dela com este ponto fiquei rendida. E passámos horas as duas de volta de tela branca e com linhas de bordar a aprender a fazer. Não se bordam passarinhos nem florzinhas, apenas linhas geométricas, simétricas, definidas e absolutamente regulares dignas de deixar um Hercule Poirot orgulhoso. A minha avó ficou tão feliz pelo tempo que passámos juntas e por finalmente termos partilhado um interesse manual, que me deu os livros para trazer para Lisboa juntamente com uma toalha de mesa para o enxoval, que ainda tenho e guardo com carinho.

Para quem quiser é só procurar na net por ponto jugoslavo ou swedish weaving, e todo um mundo novo se abrirá.

Leio por Aqui – Praça de Londres

Praca de Londres

Para aproveitar todos os raios de sol possíveis e desintoxicar duma semana de ar condicionado gosto de, sempre que possível, ler um bocadinho numa esplanada.

Fomos passear para a zona do Areeiro, e depois da dica que me deram no artigo sobre as pequenas bibliotecas resolvi investigar a Cabine de Leitura que sugeriram nos comentários. Como era meio da tarde dum sábado, estava fechada, mas deu para dar uma espreitadela aos títulos e variedade disponível, e gostei do que vi. Muitos títulos interessantes e mesmo livros de criança.

Entretanto aproveitámos para nos sentarmos no quiosque do Bananacafe a desfrutar do solinho bom. É um sitio muito sossegado, com música ambiente mas nada de exagerado e bastante dog friendly. Eu que o diga que estive a ler com uma cadela gigante sentada aos meus pés e a pedir-me uma festa ocasional. Aconselho, principalmente agora que dizem que o bom tempo finalmente começa para a semana.