Acabei de Ler – Slade House

slade house

Keep scrolling if you prefer to read in English.

David Mitchell é o que mais se aproxima do que se pode chamar o meu autor favorito. É pelo menos um autor do qual eu leio tudo o que é publicado, e, obviamente sendo eu, eu, por ordem de publicação. Slade House é de 2015 e o penúltimo a ser publicado. Andei a guardá-lo religiosamente porque não quero acabar os livros dele sem ter outro no horizonte.

Se não conhecem David Mitchell começo por vos dizer que todos os seus livros estão ligados, mais subtilmente ou à bruta, como este com o anterior (The Bone Clocks). O autor considera que toda a sua obra é um grande romance que se passa num universo próprio, muito semelhante ao nosso mas com algumas regras próprias e algumas peculiaridades. É comum existirem personagens que vão fazendo aparições especiais em vários livros, e encontrar referências a obras anteriores é quase um passatempo adicional à normal leitura dos livros. No entanto todos podem ser lidos separadamente e sem conhecimento prévio dos anteriores. Há aí pela internet fora várias páginas que falam sobre as ligações entre os vários livros e são muito interessantes. Por outro lado, David Mitchell tem também uma história de vida muito rica, viveu em muitos lugares diferentes e a sua escrita tem essa matriz embebida e isso é outro dos factores que a torna deliciosa. É um dos autores que conheço que melhor consegue escrever vozes diferentes e todas soam realistas, o que é uma coisa bastante difícil. Mas vamos ao livro.

Este Slade House vem imediatamente a seguir a The Bone Clocks e está muito ligado a ele. A história não está relacionada, mas as personagens sim, e muito do vocabulário utilizado também. Não será obrigatório ler um antes do outro, mas certamente desejável. Eu já não me lembrava de algumas especificidades, mas elas foram sendo explicadas ao longo do livro, por isso nunca me senti perdida, tirando no primeiro capítulo em que não se sabia bem o que estava a passar, mas isso fez parte da jornada.

Este não é o melhor livro de David Mitchell. Mas, sendo ele quem é, foi mesmo assim um livro muito bom. A cada 9 anos, numa pequena viela duma cidade inglesa, aparece um pequeno portão de ferro. É a entrada para a Slade House, e quando cada convidado entra  nunca mais vai querer sair. Ou poder… Esta é a história em traços largos, sem estragar nenhuma surpresa. Está muito bem escrita, cada capítulo é contado na perspectiva dum convidado diferente, e tem momentos de bastante suspense. Conhecer os livros anteriores faz-nos sorrir de cada vez que aparece um nome familiar, e saber mais ou menos o que esperar em determinadas situações, o que amplifica a experiência.

Como disse, é um livro bom, umas sólidas 4 estrelas (em 5), um prazer de ler, mas não o melhor para quem se quer estrear neste autor. Para isso, continuo a achar que Cloud Atlas é o melhor. Agora só me falta o último, Utopia Avenue, mas vou esperar até estar quase a ser publicado o seguinte.

Até lá, Boas Leituras!

Goodreads Review

David Mitchell is the closest I have to a favourite author. I am reading everything he writes in publication order, as per usual with me. Slade House was published in 2015 and there is only one more after it, so I have been saving it for a long time.

If you are not familiar with Mitchell’s books, let me start by saying that they are all connected, either on a subtle way, or more bluntly, as is the case with this one and the previous, The Bone Clocks. The author considers that all his works form one big novel, all taking place in a big metaverse, similar to our own reality but with some different rules and peculiarities. In each book we can find characters that have appeared previously and will appear again, relatives of previous characters, and references to previous situations. However, they can all be read and enjoyed separately, and this previous knowledge is not necessary to understand the stories. We can find many pages online that refer to these connections, try to explain them, or at least cross reference the books, and they are all interesting. David Mitchell’s life story was also interesting, he lived in many different countries, like Japan, and all that he has learned and experienced now permeates his books and make them so rich. He is also one of the best author’s I know to write stories with different POV’s and making them all sound real, which is quite an accomplishment.

As I said, Slade House comes immediately after Bone Clocks and the two are very connected. The story is not related, but some of the characters are, and so is a lot of the vocabulary used. It is not mandatory to read one before the other, but in this case, I think it will make the experience better. As I read Bone Clocks a while back, I did not remember some of the details, but luckily those were explained throughout the book, so I never felt lost. The first chapter seems a bit confusing, but that is part of the experience, do not let it deter you.

This is not Mitchell’s best work, but it is still a very good book, with a delightful story. Every 9 years, on a narrow alley on an English town an iron gate appears. This is the entry to the Slade House, and when a guest goes in, they will not want to come out. Or might not be able to. This is the brief summary of the story, with no spoilers. Each chapter is written in the guest’s point of view, and we can really feel their personality. Knowing the previous books makes us smile in some situations, or when someone appears, and we can envision what might come next, which is always exciting.

This was a delightful book, 4 out of 5 stars, and a joy to read. If you have never read David Mitchell I recommend you start with something else, being Cloud Atlas the best choice. Now I only have the last one left, Utopia Avenue, but I will hold on to it for a while longer, as I do not want to run out of Mitchell’s books.

Until then, Happy Reading!

Livros que Quero Ler – Utopia Avenue

utopia avenue

Ainda há pouco tempo falei aqui do Slade House, o livro de David Mitchell que me faltava ler, e não só ainda não o li, como já saiu o novo dele, Utopia Avenue. Com David Mitchell é especialmente importante ler os livros por ordem de publicação, já que cada livro faz parte dum multiverso em que tudo está interligado, e os livros antigos ganham cores novas ao lermos os mais recentes.

Este Utopia Avenue saiu a 14 de Julho e conta a história duma banda inglesa de rock psicadélico nos anos 60 que editou dois albuns e tem como baixista Jasper de Zoet. Leitores habituais de Mitchell reconhecerão este nome, mas acredito que muitas outras ligações estejam lá escondidas.

As criticas no Goodreads variam entre 5 e 1 estrela, com poucos no consensual meio, o que ainda me dá mais vontade de ler. E depois, uma banda de rock psicadélico dos anos 60 só pode dar um bom livro, certo?

Está na minha lista de livros a ler rapidamente, mas não me parece que seja ainda em 2020.

Até lá, Boas Leituras!

 

Livros que Quero Ler – Slade House

slade house

Quem segue o Peixinho sabe que sou grande fã de David Mitchell desde que vi Cloud Atlas no cinema e consequentemente li o livro, e que me encontro agora a ler todos os seus livros por ordem de publicação (coisa que faço com muitas outras séries de livros, é o meu lado obsessivo-compulsivo a vir ao de cima). O seguinte, e último por agora é Slade House, e tem um tom ligeiramente diferente de todos os anteriores.

Slade House é um livro mais negro e com um tom mais próximo do terror do que qualquer trabalho anterior de Mitchell. Começou por ser uma pequena história que o autor ia libertando no twitter, mas que acabou por se tornar mais bem sucedida que o previsto, e que foi expandida para este livro.

Slade House é uma casa assombrada que a cada 9 anos aparece e recebe convidados, que acabam por nunca mais sair. Vamos ver se eu entro e saio sem consequências de maior.

Entretanto já foi anunciado que no verão deste ano sairá um novo livro de Mitchell, Utopia Avenue, que com certeza irá parar à minha lista de livros que quero ler.

Até lá, Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Ghostwritten

david mitchell

Já não é a primeira vez que falo aqui de David Mitchell, já que li alguns livros dele desde que comecei o Peixinho, e até já recomendei o Cloud Atlas. Foi com Cloud Atlas que conheci este autor. Primeiro vi o filme, depois li o livro que achei muito original e entusiasmante, e depois disso resolvemos ler toda a obra do autor por ordem de publicação, o que nos leva a Ghostwritten, o seu primeiro livro.

David Mitchell viveu alguns anos no Japão o que deu um toque muito especial e exótico à sua escrita, que tem muitos temas asiáticos. Este seu primeiro livro é uma colecção de histórias, aparentemente sem relação umas com as outras, mas que facilmente nos apercebemos que um aspecto da anterior passa sempre para a história seguinte. Como diz um jornalista da TVI, isto anda tudo ligado. Mas neste caso não se percebe imediatamente o que liga cada história, e se há algum fio condutor que una todo o livro. Isso vai sendo desvendado ao longo do livro, e tudo está conectado, tal como dum modo mais abrangente toda a obra de David Mitchell se comporta como se fosse uma história gigante.

Foi ao ler recentemente o Bone Clocks que me lembrei deste livro, já que uma entidade presente no primeiro livro está consideravelmente mais desenvolvida no mais recente. Também vários personagens de Ghostwritten vão aparecer mais tarde noutros livros do autor, sempre com outro prisma e com algo mais adicionado à sua história.

Recomendo a todos aqueles que gostam de boas histórias, bem contadas, que nos mantêm agarrados ao livro ansiosos por saber o fim. Também a quem gosta de histórias exóticas e que nos deixam ansiosos por mais.

Boas leituras!

Acabei de Ler – Bone Clocks

bone clocks

Mais uma vez estava na altura de fazer uma pausa na saga Wheel of Time, e desta vez resolvi voltar a um dos meus autores favoritos, David Mitchell. Foi ele quem escreveu um livro que já aqui recomendei, Cloud Atlas, e a sua obra está toda interligada como se fosse um romance gigantesco. Um metalivro para usar a terminologia do momento. Por esse motivo, depois de ter lido o Cloud Atlas eu resolvi pegar nos livros do autor por obra de publicação.

Desde que tenho o Peixinho apenas li Os Mil Outonos de Jacob de Zoet, porque, tal como uma tablete de chocolate de São Tomé e Príncipe, comemos pouco de cada vez para durar mais.

Agora resolvi que estava na altura de retomar e ler o livro seguinte, Bone Clocks. Aqui seguimos Holy Sykes desde os seus 15 anos até à velhice. Holy é uma personagem muito interessante e bem construída, rodeada de personagens igualmente bem conseguidas. Algumas já conhecidas de outros livros, alguns conceitos revistos e aumentados, e sempre um elemento fantasioso sem ser um livro de fantasia.

Uma das coisas que eu gosto em David Mitchell, para além da qualidade da escrita e dos temas relevantes que aborda, é o modo como nos faz gostar de personagens amorais. Aqui temos Hugo Lamb, que é detestável mas que não conseguimos detestar, e o escritor Crispin Hershey, que tem pontos em comum com o próprio autor e que eu gostei bastante apesar das suas fraquezas.

Não é talvez o melhor livro de David Mitchell, mas é mesmo assim muito bom. Faz-nos pensar nas consequências dos nossos actos, nas ligações que nos rodeiam e, sobretudo agora com os incêndios na Amazónia, no que o futuro próximo nos reserva.

Aconselho a todos os que gostam de boas histórias, diferentes e originais. Se quiserem ler uma review muito completa, com as ligações aos outros livros incluídas, vejam aqui.

Goodreads review

Os Mil Outonos de Jacob de Zoet

thousand autums

Depois de ler alguns bons livros do Netgalley senti o desejo de voltar a território conhecido, a um autor que gosto e de quem ando a ler a obra toda por ordem de publicação. Já aqui recomendei o primeiro livro que li dele, Cloud Atlas, e desta vez fui ler este Thousand Autumns of Jacob de Zoet, ainda por traduzir para português.

Apesar de não ter sido o meu livro favorito deste autor, mesmo assim gostei bastante. É um livro bonito, intrincado, com uma história bem contada e bem cimentada na história mundial, num local bem familiar a David Mitchell, o Japão, desta vez algures no final do século XVIII, inicio do XIX. É extraordinária a habilidade que este autor tem em viajar no tempo e sentir-se tão confortável a imaginar sobre a história passada ou extrapolar sobre séculos futuros, mas ele é sobretudo um estudioso das relações humanas e as suas nuances e suponho que aquilo que se denomina “natureza humana” seja transversal a culturas, locais e eras.

Esta história é forte, mas melancólica e mostra-nos que a vida é como é, e não como gostaríamos que fosse. Mas que se segue determinado curso é porque no final havia um desígnio maior a funcionar.

Jacob de Zoet é um escriturário holandês ao serviço da Companhia Holandesa das Índias Orientais que vai trabalhar por uns anos no seu posto de Dejima, perto de Nagasaki no Japão. É suposto ir apenas pelo tempo suficiente para acumular um pé de meia e casar com a sua noiva que deixou à espera na Holanda Natal. Mal sabia todo o mundo diferente que o esperava, o fascínio pela cultura tão diferente da sua, os jogos subtis de poder que o iam enredar, e sobretudo o amor estranho e profundo que o iria arrebatar.

Ao início foi-me dificil criar empatia com esta personagem do Jacob, parecia-me demasiado rígido nos seus ideais, demasiado linear. Por outro lado, e por mais estranho que isto possa parecer, os nomes dos personagens estarem em holandês ou japonês fez com que demorasse algum tempo a distinguir quem era quem, e com isso demorei a entrar na narrativa.

Mas assim que finalmente me deixei enredar pela narrativa tudo começou a fazer sentido e a beleza do livro cativou-me. O fascínio que Mitchell tem pelo Japão, onde viveu alguns anos, está bem presente nas descrições da sua complexa cultura de regras sociais relacionadas com a honra e a posição hierárquica, e o livro tem personagens que amamos, outros que odiamos, e outros que amamos odiar. David Mitchell escreve mesmo muito bem, e é sempre um prazer desenrolar os novelos que foram cuidadosamente tecidos para nós.

Recomendo a todos os que gostam de ficção histórica, os que gostam do Oriente, os que gostam de histórias bem contadas e aqueles que, como eu, são fãs de David Mitchell.

Goodreads Review

Boas Leituras!

“I shan’t claim, men, that faith always saves a man from drowning—enough devout Christians have died at sea to make a liar of me. But this I do swear: faith shall save your soul from death. Without faith, death is a drowning, the end of ends, and what sane man wouldn’t fear that? But with faith, death is nothing worse than the end of this voyage we call life, and the beginning of an eternal voyage in a company of our loved ones, with griefs and woes smoothed out, and under the captaincy of our Creator …”

Livros Que Recomendo – Cloud Atlas

cloud atlas

Este deve ser um dos raros casos em que ver o filme me puxou a ler o livro. A ser honesta, o grande impulsionador das duas coisas até foi o outro peixe cá de casa, mas eu fiquei igualmente rendida.

Comecemos pelo início. Fomos ver o filme no velho e já desaparecido cinema do Fonte Nova, e quando as três horas chegaram ao fim nós nem queríamos acreditar. Parecia que o tempo não tinha passado, tal era o ritmo vertiginoso do filme. Não foi consensual na altura, houve muita gente que não gostou, mas nós ficámos apaixonados, dissecamos o argumento e acabámos por ficar com curiosidade em ler o livro.

Cloud Atlas conta-nos seis histórias que na realidade são só uma. A evolução de uma personagem com uma marca de nascença específica ao longo de várias vidas, simplisticamente falando. Mostra-nos como estamos todos ligados através do tempo e como todas as nossas acções têm consequências. No limite, mostra-nos que o modo como a posteridade nos recorda pode ser bastante diferente daquilo que fomos.

A estrutura do livro e do filme são radicalmente diferentes. Enquanto o filme é caos e ritmo, o livro está construído como um espelho. Temos metade de cada história por ordem cronológica, até à sexta história, e depois vemos as conclusões por ordem inversa. Como se tivessem fotocopiado o livro e fechado a meio. Assim: historia 1, 2, 3, 4, 5, 6, 5, 4, 3, 2, 1. Confuso? Nada mesmo quando se lê.

Cada secção é escrita num estilo diferente e está interligada aos personagens da secção anterior de algum modo, tornando este livro num exercício de escrita notável. Tal como o filme, o livro também não é consensual, e há muito quem não tenha gostado ou não tenha mesmo conseguido conseguir ler.

Este livro chegou aos finalista para o prémio Man Booker de 2004 e fez-me ficar fã do autor, de quem tenho vindo lentamente a ler toda a obra, que está também toda interligada com personagens que se repetem e que dão um sentido de unidade, como se David Mitchell estivesse não a escrever livros individuais mas uma grande história completa em capítulos. Aqui podem encontrar um guia para não se perderem em todas as ligações feitas pelo autor ao longo dos livros.

De qualquer modo é um livro que aconselho, de mente aberta e vontade de ser desafiados.

Boas Leituras!

Souls cross ages like clouds cross skies, an’ tho’ a cloud’s shape nor hue nor size don’t stay the same, it’s still a cloud an’ so is a soul. Who can say where the cloud’s blowed from or who the soul’ll be ‘morrow? Only Sonmi the east an’ the west an’ the compass an’ the atlas, yay, only the atlas o’ clouds.