Livros que Recomendo – Ghostwritten

david mitchell

Já não é a primeira vez que falo aqui de David Mitchell, já que li alguns livros dele desde que comecei o Peixinho, e até já recomendei o Cloud Atlas. Foi com Cloud Atlas que conheci este autor. Primeiro vi o filme, depois li o livro que achei muito original e entusiasmante, e depois disso resolvemos ler toda a obra do autor por ordem de publicação, o que nos leva a Ghostwritten, o seu primeiro livro.

David Mitchell viveu alguns anos no Japão o que deu um toque muito especial e exótico à sua escrita, que tem muitos temas asiáticos. Este seu primeiro livro é uma colecção de histórias, aparentemente sem relação umas com as outras, mas que facilmente nos apercebemos que um aspecto da anterior passa sempre para a história seguinte. Como diz um jornalista da TVI, isto anda tudo ligado. Mas neste caso não se percebe imediatamente o que liga cada história, e se há algum fio condutor que una todo o livro. Isso vai sendo desvendado ao longo do livro, e tudo está conectado, tal como dum modo mais abrangente toda a obra de David Mitchell se comporta como se fosse uma história gigante.

Foi ao ler recentemente o Bone Clocks que me lembrei deste livro, já que uma entidade presente no primeiro livro está consideravelmente mais desenvolvida no mais recente. Também vários personagens de Ghostwritten vão aparecer mais tarde noutros livros do autor, sempre com outro prisma e com algo mais adicionado à sua história.

Recomendo a todos aqueles que gostam de boas histórias, bem contadas, que nos mantêm agarrados ao livro ansiosos por saber o fim. Também a quem gosta de histórias exóticas e que nos deixam ansiosos por mais.

Boas leituras!

Acabei de Ler – Bone Clocks

bone clocks

Mais uma vez estava na altura de fazer uma pausa na saga Wheel of Time, e desta vez resolvi voltar a um dos meus autores favoritos, David Mitchell. Foi ele quem escreveu um livro que já aqui recomendei, Cloud Atlas, e a sua obra está toda interligada como se fosse um romance gigantesco. Um metalivro para usar a terminologia do momento. Por esse motivo, depois de ter lido o Cloud Atlas eu resolvi pegar nos livros do autor por obra de publicação.

Desde que tenho o Peixinho apenas li Os Mil Outonos de Jacob de Zoet, porque, tal como uma tablete de chocolate de São Tomé e Príncipe, comemos pouco de cada vez para durar mais.

Agora resolvi que estava na altura de retomar e ler o livro seguinte, Bone Clocks. Aqui seguimos Holy Sykes desde os seus 15 anos até à velhice. Holy é uma personagem muito interessante e bem construída, rodeada de personagens igualmente bem conseguidas. Algumas já conhecidas de outros livros, alguns conceitos revistos e aumentados, e sempre um elemento fantasioso sem ser um livro de fantasia.

Uma das coisas que eu gosto em David Mitchell, para além da qualidade da escrita e dos temas relevantes que aborda, é o modo como nos faz gostar de personagens amorais. Aqui temos Hugo Lamb, que é detestável mas que não conseguimos detestar, e o escritor Crispin Hershey, que tem pontos em comum com o próprio autor e que eu gostei bastante apesar das suas fraquezas.

Não é talvez o melhor livro de David Mitchell, mas é mesmo assim muito bom. Faz-nos pensar nas consequências dos nossos actos, nas ligações que nos rodeiam e, sobretudo agora com os incêndios na Amazónia, no que o futuro próximo nos reserva.

Aconselho a todos os que gostam de boas histórias, diferentes e originais. Se quiserem ler uma review muito completa, com as ligações aos outros livros incluídas, vejam aqui.

Goodreads review

Os Mil Outonos de Jacob de Zoet

thousand autums

Depois de ler alguns bons livros do Netgalley senti o desejo de voltar a território conhecido, a um autor que gosto e de quem ando a ler a obra toda por ordem de publicação. Já aqui recomendei o primeiro livro que li dele, Cloud Atlas, e desta vez fui ler este Thousand Autumns of Jacob de Zoet, ainda por traduzir para português.

Apesar de não ter sido o meu livro favorito deste autor, mesmo assim gostei bastante. É um livro bonito, intrincado, com uma história bem contada e bem cimentada na história mundial, num local bem familiar a David Mitchell, o Japão, desta vez algures no final do século XVIII, inicio do XIX. É extraordinária a habilidade que este autor tem em viajar no tempo e sentir-se tão confortável a imaginar sobre a história passada ou extrapolar sobre séculos futuros, mas ele é sobretudo um estudioso das relações humanas e as suas nuances e suponho que aquilo que se denomina “natureza humana” seja transversal a culturas, locais e eras.

Esta história é forte, mas melancólica e mostra-nos que a vida é como é, e não como gostaríamos que fosse. Mas que se segue determinado curso é porque no final havia um desígnio maior a funcionar.

Jacob de Zoet é um escriturário holandês ao serviço da Companhia Holandesa das Índias Orientais que vai trabalhar por uns anos no seu posto de Dejima, perto de Nagasaki no Japão. É suposto ir apenas pelo tempo suficiente para acumular um pé de meia e casar com a sua noiva que deixou à espera na Holanda Natal. Mal sabia todo o mundo diferente que o esperava, o fascínio pela cultura tão diferente da sua, os jogos subtis de poder que o iam enredar, e sobretudo o amor estranho e profundo que o iria arrebatar.

Ao início foi-me dificil criar empatia com esta personagem do Jacob, parecia-me demasiado rígido nos seus ideais, demasiado linear. Por outro lado, e por mais estranho que isto possa parecer, os nomes dos personagens estarem em holandês ou japonês fez com que demorasse algum tempo a distinguir quem era quem, e com isso demorei a entrar na narrativa.

Mas assim que finalmente me deixei enredar pela narrativa tudo começou a fazer sentido e a beleza do livro cativou-me. O fascínio que Mitchell tem pelo Japão, onde viveu alguns anos, está bem presente nas descrições da sua complexa cultura de regras sociais relacionadas com a honra e a posição hierárquica, e o livro tem personagens que amamos, outros que odiamos, e outros que amamos odiar. David Mitchell escreve mesmo muito bem, e é sempre um prazer desenrolar os novelos que foram cuidadosamente tecidos para nós.

Recomendo a todos os que gostam de ficção histórica, os que gostam do Oriente, os que gostam de histórias bem contadas e aqueles que, como eu, são fãs de David Mitchell.

Goodreads Review

Boas Leituras!

“I shan’t claim, men, that faith always saves a man from drowning—enough devout Christians have died at sea to make a liar of me. But this I do swear: faith shall save your soul from death. Without faith, death is a drowning, the end of ends, and what sane man wouldn’t fear that? But with faith, death is nothing worse than the end of this voyage we call life, and the beginning of an eternal voyage in a company of our loved ones, with griefs and woes smoothed out, and under the captaincy of our Creator …”

Livros Que Recomendo – Cloud Atlas

cloud atlas

Este deve ser um dos raros casos em que ver o filme me puxou a ler o livro. A ser honesta, o grande impulsionador das duas coisas até foi o outro peixe cá de casa, mas eu fiquei igualmente rendida.

Comecemos pelo início. Fomos ver o filme no velho e já desaparecido cinema do Fonte Nova, e quando as três horas chegaram ao fim nós nem queríamos acreditar. Parecia que o tempo não tinha passado, tal era o ritmo vertiginoso do filme. Não foi consensual na altura, houve muita gente que não gostou, mas nós ficámos apaixonados, dissecamos o argumento e acabámos por ficar com curiosidade em ler o livro.

Cloud Atlas conta-nos seis histórias que na realidade são só uma. A evolução de uma personagem com uma marca de nascença específica ao longo de várias vidas, simplisticamente falando. Mostra-nos como estamos todos ligados através do tempo e como todas as nossas acções têm consequências. No limite, mostra-nos que o modo como a posteridade nos recorda pode ser bastante diferente daquilo que fomos.

A estrutura do livro e do filme são radicalmente diferentes. Enquanto o filme é caos e ritmo, o livro está construído como um espelho. Temos metade de cada história por ordem cronológica, até à sexta história, e depois vemos as conclusões por ordem inversa. Como se tivessem fotocopiado o livro e fechado a meio. Assim: historia 1, 2, 3, 4, 5, 6, 5, 4, 3, 2, 1. Confuso? Nada mesmo quando se lê.

Cada secção é escrita num estilo diferente e está interligada aos personagens da secção anterior de algum modo, tornando este livro num exercício de escrita notável. Tal como o filme, o livro também não é consensual, e há muito quem não tenha gostado ou não tenha mesmo conseguido conseguir ler.

Este livro chegou aos finalista para o prémio Man Booker de 2004 e fez-me ficar fã do autor, de quem tenho vindo lentamente a ler toda a obra, que está também toda interligada com personagens que se repetem e que dão um sentido de unidade, como se David Mitchell estivesse não a escrever livros individuais mas uma grande história completa em capítulos. Aqui podem encontrar um guia para não se perderem em todas as ligações feitas pelo autor ao longo dos livros.

De qualquer modo é um livro que aconselho, de mente aberta e vontade de ser desafiados.

Boas Leituras!

Souls cross ages like clouds cross skies, an’ tho’ a cloud’s shape nor hue nor size don’t stay the same, it’s still a cloud an’ so is a soul. Who can say where the cloud’s blowed from or who the soul’ll be ‘morrow? Only Sonmi the east an’ the west an’ the compass an’ the atlas, yay, only the atlas o’ clouds.