Ainda o Mário de Sá-Carneiro

mario-de-sa-carneiro_g
Retrato de Mário de Sá-Carneiro, Júlio Pomar 2014-2015

Falei aqui no dia 26 de Abril, neste post, do centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro. Foi também nesse dia que começou uma exposição na Bibioteca Nacional que está integrada nas diversas comemorações da obra deste autor.

É uma excelente oportunidade para vermos de perto alguns documentos fotográficos, ilustrações, livros, coisas que contextualizam e dão corpo à vida do autor. É também uma maneira para vermos o interior da Biblioteca Nacional para todos aqueles que nunca lá entraram. Apesar de muito perto da minha faculdade, só lá entrei uma vez para acompanhar uma amiga.

A não perder até 31 de Agosto, com entrada livre.

Anúncios

Mário de Sá-Carneiro

mario_sa_carneiro_retrato-1.jpg

Faz hoje 100 anos que Mário de Sá-Carneiro se suicidou num quarto de hotel em Paris, aos 25 anos de idade. Em tão pouco tempo conseguiu deixar uma marca fortíssima na cultura nacional e, juntamente com o seu grande amigo Fernando Pessoa, lançar Portugal no Modernismo. Coisa que, muito tipicamente no nosso burgo, só foi reconhecida depois da sua morte. O Observador fez hoje um artigo muito completo sobre o escritor, quem o quiser ler pode encontrá-lo aqui.

Li há poucos meses de seguida dois livros deste autor que se encontram disponiveis para download através do Projecto Adamastor, Loucura e A Confissão de Lúcio, e em qualquer um deles se consegue vislumbrar o toque de génio por trás de cada palavra. Deixo aqui um excerto d’A Confissão de Lúcio que achei particularmente bonito para marcar este dia.

E a minha vida, livre de estranhezas, é no entanto uma vida bizarra – mas de uma bizarria às avessas. Com efeito a sua singularidade encerra-se, não em conter elementos que se não encontram nas vidas normais – mas sim em não conter nenhum dos elementos comuns a todas as vidas. Eis pelo que nunca me sucedeu coisa alguma. Nem mesmo o que sucede a toda a gente. Compreende-me?

Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!…
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado…
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira…
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar…
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!…

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho– que amor!…
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor –
Plo menos era o sossego completo… História! Era a melhor das vidas…

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito…

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?…
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo –
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza…

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co’a breca! levem-me prá enfermaria! –
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda…
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo…

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras…
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Mário de Sá-Carneiro
Poemas Completos