Livros que Recomendo – Salamão e Mortadela

salamao

Ora quem segue o Peixinho sabe da minha predilecção por BD, especialmente aquela que é mesmo uma arte, como Neil Gaiman ou Miguelanxo Prado. Mas às vezes também sabe bem ler daquela BD que não tem mais intuito nenhum a não ser fazer-nos dar umas gargalhadas, e muitas vezes por coisas bastante parvas.

É o caso destes livros do Salamão e Mortadela que li algures no final da minha adolescência e muito me divertiram. O humor não é fino e refinado, e o traço não é absolutamente belo, como tantas coisas que tenho partilhado aqui, mas é entretenimento para toda a família, e sobretudo ideal para alturas, como aquela em que me encontro, que o cérebro não consegue absorver informação muito complexa.

Salamão e Mortadela são agentes da TIA, mas não são uns agentes quaisquer. Salamão é profundamente azarado, e Mortadela tenta sempre resolver tudo com um disfarce inútil, que só ajuda à confusão. São também ajudados por uma fiel secretária, um inventor duvidoso, e claro, têm um chefe irascível e pouco eficaz. Clara paródia aos mistérios do James Bond e às agências secretas como a CIA. O seu autor é um espanhol Francisco Ibañez e a primeira publicação em Espanha já data de 1958.

Sei que se fez um filme recentemente, mas sinceramente não vi e não creio que seja uma obra prima. Os livros também já devem andar esgotados nas livrarias, mas ainda anda muita coisa nos OLX da vida, caso estejam mesmo interessados.

Recomendo a todos os que gostam de divertimento sem compromissos, humor com um toque ibérico e BD em geral.

Boas Leituras!

Anúncios

Livros que Recomendo – A Sangue Frio

in cold blood

Estava outro dia a passar a ferro e a fazer zapping para encontrar alguma coisa digna de se ver na TV, coisa nem sempre fácil nos dias de hoje, quando me cruzei com um filme que já tinha visto e que gostei bastante, Capote, com o fenomenal Philip Seymour Hoffman. Ora, isso levou-me a pensar no livro a que o filme se refere, que já li há alguns anos e que achei bastante bom.

A Sangue Frio (In Cold Blood), foi o livro que Truman Capote se propôs escrever na sequência duma investigação para o New Yorker acerca do homicídio duma familia inteira na sua própria casa, aparentemente sem nenhum motivo conhecido.

No filme seguimos toda a sequência de investigação de Capote, o modo como foi ficando cada vez mais envolvido com os assassinos na tentativa de entender o que se teria passado nas suas cabeças naquela noite em 1959.

No livro, uma espécie de romance real, seguimos todos os personagens desse dia, e Capote quase que faz uma análise psicológica de todos os intervenientes em vez de se limitar a contar factos friamente. Acho que é isso que torna este livro tão rico, muito mais que um relato desapaixonado dum evento macabro, e terá sido esse envolvimento do escritor que o levou a entrar numa espiral depressiva e de abuso de alcóol que eventualmente levou à sua morte.

É um livro interessantíssimo que nos mostra sem pudores a natureza humana, ou pelo menos a sua faceta mais negra. Recomendo a todos os que não se impressionam facilmente e que são fascinados por livros envolventes e bem escritos.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – A Varanda do Frangipani

Mia Couto

A semana passada recomendei aqui um livro de realismo mágico sul-americano, e esta semana, para não fugir muito ao tema, venho recomendar um outro livro de realismo mágico, mas desta vez africano. A literatura africana tem alguns autores com uma voz muito peculiar, e Mia Couto é um desses casos. Este foi o primeiro livro que li deste escritor, já lá vão mais de 20 anos, e fiquei rendida.

É quase poética a maneira como Mia Couto nos conta a história de Ermelindo Mucamga, um fantasma preso nas raízes dum frangipani numa fortaleza do tempo colonial. Através dos seus olhos vamos poder observar Moçambique e as suas adaptações à realidade da independência, vamos poder estar imersos na cultura e nas dificuldades dum povo que luta para se afirmar, e vamos poder também assistir a uma resolução utópica para esta nova fase histórica.

Este é talvez o melhor livro do autor, que é também biólogo de formação, e talvez por isso entrem pangolins e frangipanis na sua escrita, símbolos da riqueza ecológica de Moçambique. Este é um livro muito poético, muito pertinente, e que é um prazer de ler.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história, salpicada de elementos fantásticos, mas que nos retratam realidades muito concretas.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Intimate Ties

intimate ties

Keep scrolling if you prefer to read in English

Robert Musil é um autor que eu desconhecia, mas que resolvi ler tendo em conta a descrição do livro no Netgalley. Entretanto investiguei um bocadinho e percebi que Musil era um escritor austríaco do início do século XX, um dos principais do movimento modernista, e que o seu livro mais importante foi o inacabado “Homem sem Qualidades”.

Estas duas novelas que compõem este livro, Intimate Ties, são uma espécie de treino do autor para aprimorar a sua escrita, uma primeira incursão neste estilo, e o próprio Musil as considerava uma experiência falhada.

Qual então o interesse em ler um livro que é um fracasso à partida? Boa pergunta. Eu só posso falar da minha experiência, que considerei muito enriquecedora. Este livro tem um estilo de escrita muito diferente. Quase faz lembrar o “On The Road” de jack Kerouac, escrito muitos anos depois, no sentido em que parece um desfilar de pensamentos do autor sem edição, quase em escrita automático. Isso teve tanto de desafiante e confuso, como de interessante. Depois, as duas novelas são escritas no ponto de vista feminino, e é como se estivéssemos dentro da cabeça daquelas duas mulheres, a assistir em directo às suas dúvidas, hesitações, convoluções intelectuais. No primeiro conto temos uma mulher casada e feliz, que ao fazer uma viagem sozinha para visitar a filha do primeiro casamento no colégio se vê de algum modo transportada à vida mais livre que viveu antes do casamento, e acaba por cair nos braços dum pedante provinciano mais para provar um ponto a si mesma, do que por verdadeiro interesse. Achei este conto muito interessante, e a corrente dos pensamentos da personagem muito bem escrito.

No segundo conto temos uma mulher indecisa entre dois pretendentes, totalmente diferentes. Este conto foi para mim mais enigmático e difícil de seguir, e não tão interessante como o primeiro.

Mas no geral, foi uma experiência literária interessante, e mais um autor que surgiu na minha lista de leituras futuras.

Boas Leituras!

Goodreads Review

I didn’t know any of Robert Musil’s writings, however I read the book description on Netgalley and decided it was a good book to request. In the meantime I researched the author a bit ans found out that is was a modernist Austrian writer from the early XX century and his most important book was “A Man Without Qualities”.

The two novellas that make this book were a practice before he dove in the modernist style in more depth, and Musil himself considered them a failure.

So, what’s the point in reading a book that the author himself deems a failure? That’s a good point. I can only speak from my experience, and I can assure you I found it very interesting, as the book as an unique writing style. It somehow resembles Jack Kerouac’s “On The Road”, in the sense that it seems written in a spur of a moment, with little to no editing. Just a train of thoughts written in auto pilot. That was  as challenging and confusing, as it was rewarding.

The two novellas are written in the female view point, as if we were inside those women’s minds, inside a live broadcast of their thoughts and emotions. The first one was a happily marries woman, that embarks on a train ride to the country to visit her daughter from a previous marriage. There, she finds herself snow trapped, and starts to recall how was life before marriage, how she was free and experimented everything, and she ends up allowing herself to fall for the sweet talk of a pedantic man of the small village. There are many interesting scenes in this novella, and it makes you think.

The second novella we have a woman that cannot decide between two suitors, and this one was more difficult to follow and a bit less interesting than the first one.

But it was a great experience, that added another author to my list of future readings, and I recommend it to all the curious people out there.

Happy Readings!

Livros que Recomendo – Cem Anos de Solidão

GGM

aqui recomendei um livro de Gabriel García Márquez, um dos mais importantes escritores sul-americanos do século XX, mas depois da compra dos direitos desta obra pela Netflix para uma série, achei que estava na altura de vir aqui recomendar que o leiam antes que saia o produto televisivo.

Cem Anos de Solidão não é um livro fácil, e estou curiosa em saber como resultará em série. Eu própria penso que terei de o reler antes, para me poder indignar com justiça, ou espantar com a qualidade da adaptação. Mas, como o título indica, ao longo de 100 anos, mais coisa menos coisa, vamos seguindo a odisseia da família Buendía Iguaran, fundadores da aldeia fictícia de Macondo, situada num local remoto da América do Sul. Começamos com o casal José Arcádio Buendia e Ursula Iguaran, os patriarcas e pilares desta família, e seguimos a história até aos seus trinetos. O facto da maioria dos filhos homens se chamarem alternadamente José Arcádio ou Aureliano é muito significativo para a história e revela muito sobre os personagens, mas torna a leitura desafiante e, para os menos resistentes, até aborrecida.

Mas este livro é tudo menos aborrecido. Quando eu o li, faz mais de 20 anos, ainda tinha boa memória, e consegui seguir a história sem problemas. Lembro-me de passar noites acordada para acabar o livro, e que chorei imenso quando este terminou, não só pelo final impactante, mas pela angústia da separação daquela família que quase se tornara a minha. Hoje em dia seria impensável o meu cérebro tipo queijo suíço conseguir manter a cadência de todos aqueles filhos, netos, etc, etc, mas há várias estratégias. Há quem tenha feito anotações numa folha metida dentro do livro, para facilidade de consulta, ou, na era das novas tecnologias, há imensas árvores genealógicas disponíveis que nos ajudam nessa tarefa.

Escrito nos anos 60 e publicado em 1967, com uma primeira edição de apenas 10000 exemplares, este livro é hoje em dia um ícone da literatura sul-americana, ficando apenas atrás de D. Quixote de La Mancha em termos de importância para a língua espanhola.

Outra vantagem, é que este livro á tão antigo que certamente encontrarão bons preços nas livrarias, alguém terá para emprestar, ou andará perdido em alfarrabistas. Isto antes de se aproximar muito a febre do Netflix, que com certeza fará inflacionar tudo.

Recomendo a todos os que são fãs de boa literatura, não se deixam assustar com o tamanho e complexidade de um livro, e que gostam de um toque de realismo mágico sul-americano.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – A Cor da Magia

terry pratchett

Já não era sem tempo vir aqui recomendar um livro de Terry Pratchett, um dos autores mais amados no seu género, algo indistinto entre fantasia e ficção cientifica. Ele é o criador do Discworld, um mundo em formato de disco voador suportado por 4 elefantes, que anda à deriva no universo às costas duma tartaruga de sexo desconhecido. Se vos parece uma ideia louca, é porque o é.

Mas mais que louco, estes livros são insanamente divertidos. A Cor da Magia foi onde começou toda a história, que se expande ao longo de cerca de 41 livros, com toda a trama a ser passada neste mundo, se bem que não necessariamente ligada. Temos vários ciclos de histórias, que seguem diferentes personagens chave, e neste livro temos o até agora meu favorito Rincewind, um feiticeiro falhado e com pouca sorte, a quem tudo acontece ao contrario do esperado, e que tem um certo desespero sarcástico com o qual muito me identifico.

Há outras séries de histórias muito interessantes, que seguem personagens engraçados, como a morte, as bruxas, etc, mas destaco este livro, porque embora não sendo o melhor foi a estreia de Terry Pratchett com este mundo.

Há várias teorias de qual a melhor maneira de ler ou abordar esta série gigante de livros que demorou 32 anos a escrever e que creio que só terminou pela doença e consequente morte do seu autor. Eu sou um bocadinho obsessiva, e gosto de ler por ordem de publicação, mas aqui não há regras e podemos escolher um dos arcos da história e seguir por aí. Neste artigo ficam com uma ideia das possibilidades.

Mas peguem no que pegarem, aconselho a darem uma oportunidade a estes livros, porque têm diversão garantida e mesmo algumas reflexões sobre a nossa sociedade e o nosso mundo escondidos pelo meio.

Recomendo a todos os fãs do género, a todos os que gostam de se divertir com um bom livro, e os que gostam de conhecer coisas novas e diferentes.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – The Summer Tree

summer tree

Já há algum tempo que não vinha aqui recomendar um verdadeiro livro de fantasia, que me agradam tanto. Às vezes torna-se dificil descolar das opções óbvias e encontrar algo verdadeiramente novo nestes mundos, mas outras vezes encontramos umas pérolas, que apesar das óbvias referências a Tolkien, que foi o maior influenciador do género, continuam a cativar-nos e a fazer ler um verdadeiro prazer.

Foi o caso com este livro de Guy Gavriel Kay, um escritor canadiano que foi assistente do filho de Tolkien a compilar as notas dos trabalhos por publicar de JRR Tolkien, e ajudou a editar o Silmarillion. Está assim perdoada a óbvia referência existente neste The Summer Tree, o primeiro volume da trilogia The Fionavar Tapestry, que foi também o primeiro livro deste autor, publicado em 1984.

The Summer Tree começa no nosso mundo nos dias de hoje (ou nos de 1984 para ser mais exacta) seguindo um grupo de 5 amigos universitários, que estudam na Universidade de Toronto. Após assistirem a uma palestra, descobrem que o professor que a deu é na realidade um mago dum outro mundo que veio à Terra buscar 5 convidados para participar na festa do quinquagésimo aniversário do reinado do rei Ailell of Brennin. Cauções atiradas ao vento, os 5 amigos lá seguem para Fionavar, embarcando numa aventura delirante onde descobrem muitas coisas sobre si próprios e o seu lugar no(s) mundo(s).

Nota-se aqui também uma influência de C. S. Lewis e as suas Crónicas de Nárnia, no facto dos amigos pertencerem ao nosso mundo e integrarem simultaneamente outro, mas não deixem que tudo isto vos impeça de apreciar um livro (ou 3) que são verdadeiramente alucinantes, carregados de ritmo e boa história, e que todos os minutos são poucos para irmos desvendando a trama. A história é coerente e bem desenhada, e no fim temos uma experiência muito gratificante que só temos pena que não se repita com todos os livros.

Recomendo a todos os amantes de fantasia, de livros que entretêm com uma boa história.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Into Thin Air

into thin air

Faz sensivelmente um ano, mais coisa menos coisa, que eu vim aqui recomendar o livro mais conhecido deste escritor. Into the Wild é um dos livros que ainda hoje tem um lugar especial no meu coração, e que eu gosto de partilhar com quem gosta de bons livros.

Mas Jon Krakaeur é um jornalista de actividades ao ar livre, desportos radicais, e por isso embarcou numa expedição ao Everest em 1996 para escrever sobre o assunto para a sua revista da altura, a Outside. Tendo sido uma das mais letais épocas de escalada que há memória, Krakaeur viu a sua vida em risco e vem neste livro contar os factos no seu ponto de vista.

Em 1996 várias expedições e montanhistas a solo estavam a preparar-se para ascender ao cume da montanha mais alta do mundo. Duas dessas expedições, a de Rob Hall (Adventure Consultants) e Scott Fisher (Mountain Madness) estavam entre as maiores e os seus guias eram uma espécie de super estrelas do montanhismo. Muita coisa correu mal nesta expedição. Em resumo, a subida foi começada a 6 de Maio, numa tentativa de evitarem a tempestade que se sabia estava a caminho e chegaria a 10 de Maio, no entanto muitos erros foram cometidos por todos os envolvidos, e a descida acabou por atrasar imenso, tendo sido apanhados em pleno pela enorme tempestade. Houve mortos do lado Norte e Sul (as duas vias de aproximação ao cume), no entanto foi o Sul o lado mais afectado, também porque estava mais sobrelotado. No total, nestes dois dias morreram 8 pessoas, e na época toda 12.

Mas estes são apenas os factos, relatados a frio, e o livro é muito mais que isso. Krakaeur é um exímio escritor, perito em dar vida aos seus personagens, que neste caso eram pessoas bem reais, com história, família, ambições e responsabilidades. Apesar de não ser um olhar isento, já que a sua ascensão ao cume foi feita integrado na equipa de Rob Hall, um neo-zelandês que estava a poucos meses de ser pai, tem uma visão a partir do interior, que muito nos ajuda a viver também esses dias trágicos.

O montanhismo, a escalada destes gigantes terrenos exerce um fascínio em muitos que me ultrapassa. Mas gosto de ler sobre isso sentada no conforto do meu sofá, com os pés quase ao nível da água do mar. Não percebo esta coisa de desejar estar sempre com a adrenalina em alta, sempre no fio da navalha, no entanto respeito quem gosta de se desafiar dessa maneira, e este livro está magistralmente escrito. Tal como em Into the Wild, chorei copiosamente com o final deste livro, já que o autor tem o condão de tornar os personagens em nossos amigos pessoais.

Tal como o anterior, também este livro foi polémico, com muitas respostas de outros dos presentes que contaram as suas versões. Mas este é um dos testemunhos e muito bem escrito. Alguns dos sobreviventes deste desastre já morreram entretanto noutras escaladas, o que nos deixa a pensar.

Foi feito um filme em 2015 (e um telefilme anteriormente do qual nem vale a pena falar), que sem ser espectacular é bastante interessante.

Recomendo a todos os amantes de não ficção, de livros bem escritos, de adrenalina e desportos radicais e da vida em geral.

Boas Leituras!

Notas de Romantismo – Márcio Vieira

notas_de_romantismo_14x20_ebook

O Peixinho adora poesia, como já todos sabem. Acredito que boa poesia tem um impacto na vida das pessoas, que seja abrindo horizontes, fazendo pensar, sendo manifesto político, ou como neste caso, espelhando emoções.

Mas neste caso, este livro de poesia tem um impacto real e directo na vida do seu escritor. O Márcio ficou tetraplégico há alguns anos devido a um acidente, e usa a pouca mobilidade que tem na sua mão direita para escrever poesia romântica, a sua favorita.

Agora editou finalmente um livro, cujas receitas reverterão a favor da compra duma viatura adaptada para lhe permitir sair de casa, quiçá em busca de mais inspiração.

Não li o livro (ainda), mas vem com certeza para a biblioteca cá de casa.

Podem ler mais sobre isto aqui, e comprar o livro aqui.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Underground

underground

Não sou muito fã de Haruki Murakami. Na realidade, não sou nada fã, apesar de já ter lido 3 livros dele. Aceito que grande parte disso se deva ao meu mau feitio de não me interessar muito por coisas que geram consensos e aclamações generalizadas, e preferir coisas mais fora do mainstream, mas a escrita de Murakami sempre me pareceu um pouco cheia de clichés.

Mesmo assim, apesar de ter começado a minha recomendação desta maneira, não posso deixar de vir aqui recomendar um livro dele. Já se devem ter apercebido que também sou grande fã de bons livros de não ficção. Daqueles que nos mostram aspectos da realidade que não veríamos por nós mesmos, viagens inesquecíveis, culturas diferentes, eventos que todos conhecemos mostrados noutro ângulo.

É mesmo nesta ultima categoria que se encaixa este Underground de Murakami. O título completo é Underground: The Tokyo Gas Attack and the Japanese Psyche, e só aqui já encontramos um bom resumo do livro. Aqueles de nós que cá estão há mais anos, podem lembrar-se de, em 1995, o metro de Tokyo ter sofrido um ataque com gás sarin, feito por um culto apocalíptico, Aum Shinrikyo. Deste ataque resultaram 12 mortos, 50 feridos graves e muitos problemas neurológicos noutras vítimas. Sendo do outro lado do mundo, lembramo-nos vagamente do acontecimento e da cara do líder do culto, e pouco mais (pelo menos eu).

Mas aqui Murakami vai fazer um verdadeiro trabalho jornalístico de investigação, e vai-nos relatando como o ataque foi desenhado ao mesmo tempo que no mostra várias entrevistas que teve com sobreviventes. Como não seria isento se não mostrasse os dois lados, entrevista também alguns membros do culto. Isso permite-nos não só ter um relato do ataque, mas também perceber a reacção das pessoas a ele. Aprendemos muita coisa com este livro. Primeiro que somos todos muito parecidos, e a maneira como encaramos uma tragédia tem muitas semelhanças.

Mas ao mesmo tempo a cultura japonesa é muito diferente da nossa, talvez das mais diferentes que eu conheço. A calma, a serenidade mesmo enfrentando adversidades é impressionante. Ao mesmo tempo um sentido de colectivo que por vezes chega a prejudicar estas vítimas. Lembro-me de ler sobre uma delas que acabou por ser despedida porque ficou com sequelas neurológicas que a impediam de fazer as funções normais no emprego, e sentia-se culpada por ter sido vítima do atentado. Aliás, esse sentimento de culpa era comum a muitos dos sobreviventes, como se não tivesse sido por mero acaso que estavam no sitio errado à hora errada.

Mais que um relato duma tragédia, este livro é uma espreitadela à mentalidade dum povo, à sua maneira de ser e reagir. Em 2018, após muitos anos de batalhas legais, as 7 pessoas consideradas autoras do atentado foram executadas.

Aconselho a todos os fãs de livros de não-ficção, a todos os que gostam de ler sobre outras culturas, história contemporânea, e a todos os fãs de Murakami.

 

Boas Leituras!