Livros que Recomendo – As Horas

as horas

A capa deste livro é mais uma daquelas estratégias de marketing que acham que as pessoas vão ler mais facilmente um livro sobre o qual se fez um filme, no entanto, a maioria dos leitores ávidos já tinham lido o livro antes do filme chegar às salas de cinema. Por isso não se deixem enganar por capas pobrezinhas como esta, o livro vale muito a pena.

As Horas” conta-nos 3 histórias, mais ou menos interligadas. A primeira é uma ficção sobre os dias de Virginia Woolf nos anos 20 do século passado, enquanto luta para escrever o seu próximo livro e ser uma boa esposa ao mesmo tempo. Depois nos anos 40 vemos a história duma mãe e dona de casa que tenta ser perfeita quando na realidade apenas deseja escapar à sua realidade e esconder-se a ler “Mrs Dalloway“. E por fim chegamos aos anos 90 onde Clarissa Vaughan está a orgaizar uma festa para o seu melhor amigo.

Estas histórias estão interligadas, principalmente as duas últimas, e fazem-nos pensar sobre as expectativas que temos sobre nós próprios e a nossa conduta, o esforço que fazemos para nos conformarmos à ideia que as pessoas têm de nós, ou aquela que queremos projectar, e como no final isso apenas nos mina por dentro.

Um livro muito bem escrito, uma história (ou histórias) que nos mantém agarrados do início ao fim, mesmo não sendo um conto de fadas ou um lindo romance com final feliz. Recomendo a todos os que gostam de boa literatura e de histórias complexas mas interessantes.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – My Sister, the Serial Killer

my sister the serial killer

Por vezes penso que no Peixinho há um certo défice de novidades, livros que são muito recentes e andam nas bocas do mundo, que é como quem diz nos grupos de leitura em que ando inserida, ou noutros blogues que leio. Pessoalmente isso não me faz muita confusão porque há mais livros para ler que anos de vida para o fazer, e nuita coisa publicada no passado que me desperta verdadeiro interesse. Mas de vez em quando há livros recentes que à custa de os ver mencionados tantas vezes eu acabo mesmo por sucumbir à curiosidade.

Foi o caso deste My Sister the Serial Killer, da nigeriana Oyinkan Braithwaite, que causou furor um pouco por todo o lado. Passado na Nigéria, país natal da autora, é um livro diferente e refrescante. Nele conhecemos Korede e a sua irmã mais nova, Ayoola, que ficamos imediatamente a saber tem uma queda para matar os seus namorados. Aquilo que vamos descobrindo ao longo do livro é o que nos leva a ter um sentido de lealdade quase cega (educação, constrangimentos culturais) e onde é que fica o limite daquilo que somos capazes de fazer por aqueles que amamos.

Um dilema interessante, muito bem escrito e que é impossível de pousar até terminarmos o livro. O facto de ser passado em Lagos, na Nigéria, e não numa qualquer cidade europeia ou americana, é também uma mudança refrescante de cenário. Foi uma leitura perfeita para o final do ano.

Recomendo a todos os que gostam duma leitura simples, rápida, interessante e sem preconceitos. Mente aberta e desperta é o que se espera.

Boas leituras!

Goodreads Review

Acabei de Ler – O Corpo, um Guia Para Ocupantes

BB

Bill Bryson é um daqueles autores que se tem sabido reinventar para não cair num cliché de si próprio, e para continuar a atrair novos leitores. O seu estilo de escrita é muito distinto e peculiar, com um humor sarcástico que eu muito aprecio, mas nos últimos anos saiu da literatura de viagens para embarcar em empreitadas enormes de explicação de história e ciência aos comuns dos mortais. Já falei aqui do primeiro desses seus livros, Uma Breve História de Quase Tudo, que recomendo imenso e que tenho oferecido a quem aprecie ler, e agora também este livro, onde nos vem falar do nosso bem mais precioso, e de quão pouco sabemos sobre ele.

A coisa que mais salta à vista à medida que vamos lendo cada capítulo é a quantidade massiva de investigação que está por trás de cada um deles. Bill Bryson não se limitou a mergulhar em livros e artigos científicos, ele fez questão de entrevistar os cientistas que estão na vanguarda das mais novas descobertas médicas, ou que estão absortos a estudar aquilo que parece inexplicável. Ele visita-os, aprende com eles, e chega mesmo a visitar uma morgue e ver dissecar um corpo. Admiro quem mete a mão na massa e tenta ver as coisas com os seus próprios olhos, apreender a realidade mais que ouvir descrevê-la. Já se vai tornando caso raro hoje em dia, em que somos mais especialistas em dar opiniões com base no título duma notícia do que em lê-la de várias fontes e pensar antes de falar. Depois, tendo formação em Biologia, é sempre um prazer ler sobre estas coisas, aprofundar conhecimento, evoluir naquilo que sei. Com a vantagem deste livro estar escrito numa linguagem perfeitamente acessível, e desmontar conceitos para qualquer um de nós os conseguir perceber.

Este era o livro de ciência que eu precisava para retomar leituras mais complexas, depois do fiasco de há umas semanas atrás. Sinto que o meu cérebro cansado de mãe de um bebé com 44 anos está lentamente a funcionar outra vez e a conseguir abarcar conceitos mais desafiantes do que aqueles que encontro nas séries da Fox Life. Lentamente estou a voltar ao meu eu normal. Qualquer dia até volto a escrever poesia!

Recomendo este livro a todos os que gostam de boas leituras, de saber mais sobre nós e o nosso mundo de maneira simples e atractiva. Para todos os fãs de Bill Bryson, como eu. E como o Natal está à porta, quem sabe não é um bom presente para algum familiar? Agora cautela. Se forem, mesmo que ligeiramente, hipocondríacos o melhor é manterem-se bem afastados deste livro, porque vai dar convosco em doidos.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Livros que Recomendo – 1984

1984

Acho que a primeira questão que se põe quando recomendo este livro é: porquê só agora? Considerando que é um livro importantíssimo, um dos marcos do século XX, porque demorou tanto tempo a aparecer no Peixinho como uma recomendação?

A resposta é simples, este livro angustia-me um bocadinho. Eu gosto de ler boa ficção e bons livros de não-ficção, mas a questão é, em qual destas categorias se enquadra este livro? Escrito em 1949 é uma distopia sobre o estado do mundo depois de várias guerras e catástrofes, em que estamos divididos por zonas de influência, mais que países, e em que tudo o que fazemos é controlado pela polícia do pensamento. Começa a soar familiar? Na minha opinião, cada vez mais.

As televisões são aparelhos de duas vias, recebem informações nossas ao mesmo tempo que transmitem as notícias manipuladas (redes sociais?) e a história é constantemente reescrita para servir os interesses da classe governativa vigente.

Muito disto não anda longe do que se passa actualmente, mesmo que com contornos ligeiramente diferentes. E em certa medida somos todos culpados. Basta fazer uma ronda diária pelo Facebook, para vermos os julgamentos que se fazem a céu aberto baseados em pedaços de informação que nem sabemos bem de onde vem, nem se foi confirmada. Pessoas que perdem empregos por rumores nas redes sociais, carreiras que são destruídas, pedidos públicos de desculpa por coisas ridículas. Enquanto isso, as coisas verdadeiramente importantes vão passando pelos buracos da chuva, despercebidas, camufladas por aquilo para onde nos fazem olhar a cada momento.

1984 é um grande livro, e deveria ser lido por todos como um cautionary tale (não encontro melhor expressão em português). Esta realidade está mesmo aí ao virar da esquina, e só estando de olhos bem abertos conseguiremos não ser engolidos por ela. Temos de fazer escolhas diárias, queremos estar (bem) informados, ou fazer parte da polícia do pensamento (politicamente correcto)?

Recomendo este livro a toda a gente, principalmente os mais jovens, e que nos ajude a andar conscientes. Vejam aqui uma opinião mais fundamentada que a minha.

Bolas Leituras!

Livros que Recomendo – As Luminárias

luminaries

Estou sempre aqui a falar dos prémios do Man Booker, e isso tem uma razão de ser. Já li muitos livros que foram nomeados ou vencedores e que me encheram as medidas. Este é um deles, o vencedor de 2013, As Luminárias de Eleanor Catton, uma escritora neo-zelandesa.

É um livro grande e complexo, mas um prazer de ler. Passado na corrida ao ouro neo-zelandesa no final do século XIX, segue Walter Moody acabado de chegar a Hokitika e que se depara com um crime e um mistério para resolver. Entra numa sala onde estão 12 homens, cada um deles de algum modo relacionado com a história. Cada um destes homens está também relacionado com um signo astrológico e a personagem foi construída de acordo com as características gerais do seu signo. Há também outros personagens associados a outros eventos astrológicos, como planetas e afins. O próprio Walter Moody é Mercúrio, associado entre outras coisas a comunicação e viagens.

Um livro muito interessante e bem construído, mesmo que não atribuamos nenhuma importância à parte astrológica. Mostra-nos a dureza da vida e dos valores numa zona remota do globo no final do século XIX, os conflitos entre os povos nativos e os colonizadores, tudo embrulhado numa história complexa e muito bem contada. É para ser lido com o cérebro bem alerta, para não deixar escapar nenhum pormenor.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história, de romance histórico, que não têm medo dum livro grande e exigente. Para uma crítica detalhada, podem ver aqui.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Cathy

cathy

Algures no início dos anos 90 começou a ser traduzida para português a BD Cathy, editada pela Gradiva. Nesse Natal eu e a minha melhor amiga oferecemo-nos mutuamente o livro, sem uma saber da outra. Cathy é uma BD que foi publicada nos Estados Unidos diariamente de 1976 a 2010 e reflectia a “mulher real”. Pelo menos uma mulher real com a qual nos podíamos relacionar. Sempre a lutar com o peso, namorados errados, e uma mãe que o que mais queria é que ela estivesse no lugar da Princesa Diana e casasse com realeza.

Muito divertido e escrito com muito auto-conhecimento, estas BD’s proporcionaram-me muitas horas de diversão, até a minha vida ter mudado de direcção e a personagem deixar de se adequar tanto à minha própria realidade.

Ainda devo ter muitos volumes em casa dos meus pais, que um dia gostarei de reler. Creio que na maior parte as piadas já estarão datadas, e mesmo o tipo de desenho já parece muito rústico, mas creio que o espírito divertido de auto-censura ainda se manterá. Para quem não se importa com o inglês, todas as tiras podem ser encontradas aqui, e uma descrição da autora aqui.

Recomendo a todos os amantes de BD e de mulheres reais.

Boas Leituras.

Acabei de Ler – Hyperion Tales

shrike

Como falei anteriormente, a minha escolha de leitura tem andado bastante reduzida e muito centrada em Agatha Christie. Mas como tudo o que é demais enjoa, resolvi pesquisar as coisas que tinha perdidas no Kindle e procurar algo que me satisfizesse.

Quem segue o blog sabe que Hyperion, de Dan Simmons, e subsequentes títulos da série, são dos melhores livros de ficção científica que li desde sempre. Por isso nada como “voltar a casa”, que neste caso significa ao Universo de Hyperion, e ler uma compilação de 3 contos passados no mesmo universo.

Estes contos foram uma forma do autor voltar a mostrar-nos o que se passava naquele universo, quer antes dos acontecimentos de Hyperion, quer algum tempo depois do final de Endymion, sem no entanto fazer uma sequela propriamente dita. O primeiro conto, Orphans of the Hellix foi o meu favorito, o que se passa muitos anos depois dos eventos de Rise of Endymion, e foi bonito e triste como deveria ser a despedida deste Universo. Porque é esse o sentimento que fica, de que nos estamos a despedir de um amigo que tanto nos agradou mas que não voltaremos a ver.

Remembering Siri, o segundo conto, esteve quase integralmente incluido em Hyperion, por isso não foi novidade. O terceiro conto, The Death of the Centaur, é talvez o mais biográfico dos 3, já que é uma alegoria contada por um professor de literatura à sua turma numa comunidade rural. Vemos um cheirinho da presença do Shrike, só para nos aguçar o apetite (tal como no primeiro conto, aliás).

Gostei muito, recomendo imensamente a todos os que leram os quatro Cantos de Hyperion. Aos que não leram, sinceramente não sei o que esperam. Ficção científica é tão mais do que naves espaciais aos tiros. Aqui reflecte-se sobre degradação ambiental, religião, filosofia, liberdades individuais versus obediência ao colectivo, política, e muito, muito mais, tudo com um monstro assassino de 4 braços à mistura. Recomendo!

Boas Leituras!

Goodreads Review

 

Hoje Também Não Recomendo Livros

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Já há cerca de dois anos que recomendo livros à sexta feira para nos alegrar os fins de semana. Segundo os meus registos já aqui falei de 86 livros, que de uma maneira ou outra me encheram as medidas, me deixaram recordações e que achei pertinente partilhar com os outros.

O ano passado pedi recomendações e recebi excelentes ideias de leitura, por isso este ano pergunto o mesmo. Que livros vos chamaram a atenção nos últimos tempos e que desejam recomendar?

Boas Leituras!

Os Poirots e a Acuidade Cerebral

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Imagem daqui

Pois como os leitores deste espaço já sabem, temos um jaquinzinho de 7 meses cá em casa. E quem já conviveu com essa realidade sabe o impacto que tem no cérebro duma pessoa. Não é só a falta de dormir, se bem que esse é o factor principal, mas também as mudanças hormonais que perduram no tempo, e o facto de termos sempre tarefas para fazer. Para além das prazeirosas, como brincar com o piolho, cantar para ele, temos também fraldas para mudar, sopas para fazer, biberões a meio da noite, e isso faz com que a capacidade cerebral disponível para outras actividades seja muito diminuta.

Já a contar com isso tinha baixado o meu objectivo anual no Goodreads de 50 para 30. O que não contava é que tivesse tanta dificuldade em seguir livros mais elaborados.

Na tentativa de pôr o cérebro a mexer já pus de lado 5 livros:

Glamorama de Brett Easton Ellis: OK, neste a culpa não é só do meu cérebro. Gostei imenso do American Psycho e outros livros do autor, por isso resolvi pegar neste achando que era um valor seguro. Enganei-me. É uma sátira à star culture dos anos 90, mas o constante desfilar de nomes de celebridades aborreceu-me imenso. Ao fim de 39% de livro desisti e não sei se lá irei voltar.

Death by Black Hole de Neil deGrasse Tyson: talvez um livro de astrofísica seja exagerar um bocadinho nesta altura do campeonato. Ainda aguentei alguns capítulos, mas quando adormeci no autocarro a voltar do trabalho percebi que tenho que o deixar para outra altura. Mas irei ler com certeza, porque está interessante e bem escrito.

The Evolutionary Mechanism of Human Dysfunctional Behavior de Ivan Fuchs: tendo o curso de biologia e interesse em ler sobre o assunto achei que este não poderia falhar. Uma abordagem genética à psiquiatria tinha tudo para correr bem. Só que não. Na realidade isto pareceu-me uma tese de doutoramento transformada em livro, e não dum modo muito apelativo. Fica para mais tarde, mais um para acrescentar à lista.

Dentro da Noute, Contos Góticos, compilado por Ricardo Lourenço: este foi aquele em que cheguei mais longe. Uma antologia de contos de escritores clássicos, portugueses e brasileiros, sempre na vertente gótica e macabra. Li todos os portugueses (desde Eça a Florbela Espanca, para nomear os meus favoritos), mas já não continuei para os brasileiros. Culpa inteiramente minha, que me cansei da linguagem antiga e rebuscada. A vantagem de serem contos é que em qualquer altura leio mais um.

Physics of the Impossible de Michio Kaku: mais um de física, que só um não chegava. Um livro onde um conceituado físico analisa vários exemplos de ficção científica para perceber se são impossibilidades científicas ou se com o avanço da ciência virão um dia a ser possíveis. Passamos por Klingons e Harry Potter, e é muito engraçado. Voltarei a ele com certeza.

E pronto, enquanto não melhoro a minha capacidade cerebral tenho sempre os mistérios do Poirot e do Inspector Maigret para me animar. Mas espero voltar a alguns destes livros num futuro próximo. Se tiverem lido algum, digam se vale a pena.

Boas leituras!

Livros que Recomendo – Ghostwritten

david mitchell

Já não é a primeira vez que falo aqui de David Mitchell, já que li alguns livros dele desde que comecei o Peixinho, e até já recomendei o Cloud Atlas. Foi com Cloud Atlas que conheci este autor. Primeiro vi o filme, depois li o livro que achei muito original e entusiasmante, e depois disso resolvemos ler toda a obra do autor por ordem de publicação, o que nos leva a Ghostwritten, o seu primeiro livro.

David Mitchell viveu alguns anos no Japão o que deu um toque muito especial e exótico à sua escrita, que tem muitos temas asiáticos. Este seu primeiro livro é uma colecção de histórias, aparentemente sem relação umas com as outras, mas que facilmente nos apercebemos que um aspecto da anterior passa sempre para a história seguinte. Como diz um jornalista da TVI, isto anda tudo ligado. Mas neste caso não se percebe imediatamente o que liga cada história, e se há algum fio condutor que una todo o livro. Isso vai sendo desvendado ao longo do livro, e tudo está conectado, tal como dum modo mais abrangente toda a obra de David Mitchell se comporta como se fosse uma história gigante.

Foi ao ler recentemente o Bone Clocks que me lembrei deste livro, já que uma entidade presente no primeiro livro está consideravelmente mais desenvolvida no mais recente. Também vários personagens de Ghostwritten vão aparecer mais tarde noutros livros do autor, sempre com outro prisma e com algo mais adicionado à sua história.

Recomendo a todos aqueles que gostam de boas histórias, bem contadas, que nos mantêm agarrados ao livro ansiosos por saber o fim. Também a quem gosta de histórias exóticas e que nos deixam ansiosos por mais.

Boas leituras!