Livros que Recomendo – Esteiros

esteiros

Já estava na altura de voltar a recomendar um livro de um autor português e desta vez uma obra do neo-realismo dos anos 40. Segundo alguns, das primeiras obras dessa corrente literária em Portugal.

Nos Esteiros seguimos a história de algumas crianças da zona de Alhandra durante um ano inteiro, acompanhando as quatro estações. Estas são crianças de famílias muito pobres, que não vão à escola, e que dependem da irregularidade do trabalho sazonal da zona. São crianças que passam fome, que por vezes têm de ser criativas para encontrar comida, mas às quais não faltam sonhos e desejo de liberdade. O suceder das estações mimetiza a regularidade das mudanças no modo de vida destas crianças, como um ciclo que se perpetua mas do qual não podemos fugir.

Cheio de desesperança, este livro impressionou-me, tal como o Meu Pé de Laranja Lima, pela realidade de infância que retratava, tão diferente da minha, tão longe de tudo aquilo que eu via à minha volta. Livros como este abrem-nos os olhos para determinado tipo de realidades, que aconteceram no Portugal de 1940, como acontecem ainda um pouco por todo o mundo, de modo mais ou menos escondido.

É um livro fácil de ler, cheio de acção e diálogos simples, como seria a própria vida destas crianças. Lê-se num sopro e ficamos mais ricos por isso.

Recomendo a todos os que gostam de autores portugueses, de ler sobre a nossa realidade, de histórias fortes bem contadas.

Boas Leituras!

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Livros que Recomendo – Peito Grande Ancas Largas

mo yan

Mais uma vez escolho para vos recomendar um livro que li há algumas décadas. Ainda me lembro que nas minhas incursões na Feira do Livro havia sempre um livro que eu escolhia apenas porque a capa/título me chamavam a atenção, e este foi um deles. A beleza da capa e a estranheza do título, associadas a uma boa sinopse, fizeram-me levar este livro para casa e começar a lê-lo imediatamente. Anos mais tarde, em 2012, Mo Yan recebeu o Nobel da literatura e eu relembrei este livro, embora ainda não o tenha relido.

A beleza desta história não está na complexidade dos personagens, ou nos intrincados diálogos, mas sim no retrato da história e comoções sociais dum país, contados por dentro. Neste caso particular, Mo Yan conta a saga das mulheres da família Shangguan através da história da China no século XX. Muitas das descrições são duras e cruas, e muitas partes estão recheadas daquele realismo mágico que é tão característico de determinada literatura asiática, mas a visão abrangente que recebemos da evolução dum país vale muito a pena. Ainda passados todos estes anos me lembro da descrição acerca dos pés ligados da matriarca da família, da obrigação que foi passar por isso, e da desonra que isso passou a ser nos tempos da revolução cultural.

A invasão japonesa, a revolução cultural, os anos pós Mao, tudo vem retratado através da vida desta família e da sua adaptabilidade a um mundo em mudança. Muito bem recebido no mundo ocidental, não teve a mesma aclamação na sua China natal, e o autor foi mesmo obrigado a escrever uma auto-censura e o livro foi retirado de circulação. O modo cru como a realidade comunista foi retratada, bem como algum conteúdo de caracter sexual (o personagem principal tem um fetiche por seios) foram os principais motores desta reacção.

Recomendo a todos os que gostam de um livro de história imersa em História, os que gostam de realismo mágico, de literatura asiática, de bons livros em geral, ou têm a obsessão de ler todos os prémios Nobel.

Boas Leituras!

Livros para 2019

livros

Como também já é hábito, depois de todos os balanços e projectos, venho também partilhar os livros que tenciono começar a ler em 2019. Às vezes não passa de boas intenções, mas na maioria das vezes eu consigo mesmo despachar alguns dos pendentes/desejos a que me proponho. Assim vou partilhar aqui como tenciono começar o ano.

– Terminar (ou pelo menos tentar) a saga de Wheel of Time. Neste momento estou a ler o quarto volume, mas é uma leitura lenta e cada livro tem demorado quase um mês a terminar. Como já disse aqui esta série tem 14 livros, por isso ainda me falta penar muito. Mas devagar se vai ao longe e já que comecei quero mesmo saber como acaba esta história. Sem fim, já basta o Game of Thrones.

– Terminar os 4 livros que tenho na lista de espera do Netgalley antes de pedir novos. Tenho neste momento quatro livros que são bastante interessantes mas que têm sido deixados para trás por causa do ponto anterior. Tenho de continuar a intercalar os vários tipos de leitura não me enjoar, nem ficar de horizontes fechados.

– Continuar pacatamente a ler os livros do Poirot. Neste momento já vou para o 11º, e vou lendo vagarosamente alguns por ano. Na maioria dos casos reler é o termo adequado, porque na minha adolescência varri quase toda a colecção Vampiro da Livros do Brasil que eram com este personagem, mas isso já lá vai há muitos anos, e agora lê-se com outros olhos.

– Poesia, toda aquela a que conseguir deitar as mãos! Quer em livros, quer em revistas como a Nervo ou a Eufeme, o importante é ir preenchendo a vida com poesia.

E para já chega, porque 2019 vai ser menos ambicioso em termos de leituras. Mas o que importa é o que retiramos delas!

Boas Leituras!

 

Projectos para 2019

New Year

Imagem daqui

 

Tal como nos anos anteriores, depois de ver como correu 2018 vem a altura de projectar 2019. Mas este ano, ao contrário dos anteriores, não fiz grandes planos. Poderia dizer que quero viajar mais, ou ver a minha poesia editada, mas na realidade 2019 vai ser um ano de grande mudança, e absolutamente imprevisível.

Por isso por agora a única coisa que sei é que vou fazer novamente um desafio do Goodreads, mas este ano apenas para ler 30 livros, e logo se vê como corre. Vou continuar a usar o Netgalley como fonte de livros recentes e interessantes, e vou continuar a tentar arranjar nova casa para livros que tenho aqui e que não devo voltar a ler.

Das mudanças, das imprevisibilidades irei dando conta por aqui.

Um Bom 2019 a todos, cheio de felicidade, livros e coisas boas.

Boas Leituras!

Balanço de 2018

balanco

Como sempre nesta altura do ano, gosto de reflectir sobre o que se passou no ano que termina, e os objectivos que foram ou não conseguidos. Um balanço, na verdadeira acepção da palavra.

2018 foi um ano de desafios na minha vida. Não teve um começo nada brilhante e houve eventos que tiveram um impacto profundo na minha vida. Mas foi mais um ano de muitas e diversificadas leituras, e é essencialmente sobre isso que vou fazer o meu balanço.

Terminei 2017 fazendo alguns planos, vamos ver como correram.

Regressar às viagens. Acabei 2017 cheia de vontade de viajar, no entanto os acontecimentos andaram sempre à minha frente e não foi possível voltar ao estrangeiro. No entanto fiz umas belas passeatas cá dentro a sítios que já são como segunda casa, como Aljezur e as aldeias de xisto, e outros que fui conhecer, como Miranda do Corvo e Constância. Valeram a pena.

50 livros como objectivo do Goodreads. Como já falei aqui, este foi um objectivo atingido, mesmo a finalizar o mês. Dever literário cumprido.

Continuar a minha utilização frequente do Netgalley e manter a percentagem  de feedback acima dos 80%. Dos 50 livros lidos em 2018, 18 foram do Netgalley, o que significa que foram títulos novos, por vezes autores novos que acabei por conhecer. O balanço é claramente positivo, venha mais um ano.

Mais poesia, no blog como na vida! O blog continua alegremente a mostrar poesia todas as segundas-feiras, essencialmente portuguesa mas não só. A minha poesia também já apareceu aqui no blog, mas a escrita foi mais irregular. A minha casa está cheia de revistas belas como a Nervo e a Eufeme para trazer versos à vida.

– O Peixinho está cheio de histórias cá dentro que querem ver a luz do dia. Mas ainda não foi em 2018 que elas sairam cá para fora.

2018 foi um ano diferente e estranho para mim, e 2019 promete trazer muitas surpresas. Vamos ver o que lá vem.

Boas Leituras e Boas Festas!

Os Livros e as Gripes

ch_stayhome

O Peixinho teve de ficar de molho por causa duma bela carraspana. À primeira vista seria a oportunidade ideal para dar andamento aquela série de livros que estou a ler, já que a maior parte do tempo é passado na cama. Ou pegar em coisas novas, e seguir por novos caminhos.

Mas na realidade, tal como nas salas de espera, quando estamos doentes nem sempre temos a capacidade que esperamos para decifrar histórias complexas, ou seguir enredos intricados. Quando tento ler, dou por mim no meio duma névoa estranha, em que tenho dificuldade de seguir os nomes dos personagens, e as paragens para tossir/espirrar a cada 5 minutos também não ajudam a manter o ritmo.

O meu kindle tem uma função que nos diz quanto tempo falta para terminar o livro, adaptado ao nosso ritmo do leitura. Faltam-me os últimos 20% do livro e cerca de duas horas e meia… desde o início da semana, apesar de me parecer que já li imenso.

Por isso vou fazendo como o Calvin ali em cima e passo a maior parte do tempo enfiada debaixo dos cobertores a ver episódios antigos da Anatomia de Grey, só para me lembrar como realmente não gosto da série. Ou pior, episódios do Dr. Phil, por algum motivo doentio. Acho que nunca vi um programa destes sem ser estando em casa doente.

De qualquer modo já me alonguei muito fora das mantas e sofá, e acho que já começou um episódio repetido das Mentes Criminosas, algures do início deste século.

Boas Leituras!

 

Ler Séries de Livros

serie

Quem segue o Peixinho já se apercebeu que eu comecei recentemente a ler uma série de fantasia, Wheel of Time de Robert Jordan. Ora, esta série é um portento com 14 volumes, se ignorarmos os spin offs, todos eles com um tamanho bastante respeitável.

Vários motivos me levaram a começar uma série tão ambiciosa nesta altura. Primeiro, estou muito próxima de terminar o meu desafio de leitura do Goodreads, só me faltam 3 livros, por isso não tenho pressa, nem motivos para ler livros mais pequenos. Depois, neste momento sei que tenho tempo, cabeça e paciência para me dedicar a uma empreitada destas, no futuro não sei se será assim, por isso mais vale despachar já.

Mas ler uma série tem implicações práticas, especialmente para um Peixinho esquisito como eu. Primeiro, é preciso muita paciência. Quando li o Game of Thrones, ou O Senhor dos Anéis, sabia que não eram muitos volumes, por isso o facto de algum poder ter mil páginas, não era nada de especial porque num instante tudo estaria lido. Por outro lado, quando li o Harry Potter, que teve mais “prestações”, os livros eram mais pequenos, muito fluidos e a história absolutamente viciante. Nesse caso eu estava a ler ao mesmo tempo que eram editados (em Inglês), por isso não tinha outro remédio que não esperar pelo próximo e entreter-me com outras coisas no intervalo.

Agora não é o caso. Tenho todos os volumes no meu Kindle, por isso quando termino um a caminho do trabalho posso pegar imediatamente no outro, e normalmente é isso que faço porque acabam sempre com qualquer coisa mal resolvida da qual queremos saber o desfecho (e invariavelmente o livro seguinte começa noutro ponto qualquer da história, completamente disconexo, só para prolongar a agonia).

Já vou no terceiro volume, mas começo a sentir falta de ler outras coisas, ver outros mundos, entrar dentro de outros imaginários. Mas isto é como uma dependência, e enquanto não se vir o fundo ao tacho, dificilmente conseguirei desprender. A consequência para este espaço é que faço muito menos posts, tenho menos do que falar, sou um peixe menos interessante em geral.

Enfim, vou continuar a dar conta do que vou lendo por aqui, mas não pensem que me fui embora ou que isto ficou em auto-gestão. Simplesmente estou presa na história do Dragão Renascido até nova ordem.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Sem Penas

woody allen

Hoje venho aqui recomendar um dos livros mais cómicos que já li. Pense-se/diga-se o que se quiser de Woody Allen, ele será sempre uma pessoa com muita piada, muita capacidade de se rir de si próprio, e com uma visão acutilante do mundo que nos rodeia.

Sem Penas (em inglês Without Feathers, uma alusão ao poema de Emily Dickinson “Hope is the thing with feathers”) é uma colecção de textos do autor, uma espécie de caderno de notas, em que mais tarde alguns foram mais desenvolvidos em peças ou filmes. Todos partilham um humor muito non sense, às vezes intelectual, às vezes simplesmente parvo.

Eu já o li há muitos anos, e a sua escrita influenciou claramente a minha, principalmente quando eu tive o meu primeiro blog há mais de 10 anos atrás, e o enchia com textos de ficção e banalidades do quotidiano.

Aconselho a todos os que gostam duma boa gargalhada, de ler humor de qualidade, de ter um momento de descompressão do dia a dia. Eu própria acho que está na altura de o reler.

Boas Leituras!

Should I marry W.? Not if she won’t tell me the rest of the letters in her name.

What if everything is an illusion and nothing exists? In that case, I definitely overpaid for my carpet. If only God would give me some clear sign! Like making a large deposit in my name at a Swiss bank.

Hoje não recomendo livros

book-stack

Faz sensivelmente um ano que comecei este espaço às sexta feiras de recomendar livros que de algum modo foram importantes para mim, e nesse tempo referi 48 títulos de vários géneros, autores portugueses e estrangeiros.

Ainda tenho alguns na manga, fruto de muitos anos como leitora, por isso espero continuar a partilhar convosco os livros que preenchem o meu imaginário.

Mas hoje, no aniversário desta rúbrica, gostava que fosse ao contrário. Quais são os livros que me recomendam a mim? Quais as histórias que enchem a vossa imaginação, coração, mente, e que gostavam de partilhar?

Há sempre espaço para novas ideias de leitura, por isso vou ficar à espera de ser surpreendida.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Middlesex

middlesex

Já não é a primeira vez que aqui falo deste livro, já o tinha mencionado aquando da review a outro título deste autor, Fresh Complaint. Já aí fiz um pequeno resumo deste que é um grande livro, em tamanho e qualidade.

Middlesex conta-nos uma história longa, duma família grega que emigra para os EUA para fugir à invasão turca do seu território e aí se estabelecem e se adaptam. Seguimos a história da família Stephanides e ao mesmo tempo a história dos Estados Unidos no início do século XX. Desde a era da Proibição, ao advento da cidade de Detroit à boleia da expansão da indústria automóvel. Os conflitos raciais da década de 60, o movimento hippie e por aí fora. É uma história de mudança, transformação pessoal e histórica. Isso é imediatamente visível no início do livro, que nos relata que a família cultivava bichos-da-seda como actividade económica. Isso marca a tónica do que se vai passar daí para a frente. O narrador, Calíope, tranforma-se em Cal, já que por vários motivos nasceu com os dois sexos.

Há muitos temas fortes ao longo de todo o livro, como intersexualidade, incesto, prostituição. Mas todos são tratados com uma delicadeza e uma naturalidade que acabam por não só não parecer estranhos, mas aceites como uma parte normal da vida.

Já li este livro há alguns anos, recomendado por um familiar, e agora recomendo a todos aqueles que gostam duma história belíssima, bem contada e diferente. Aos que não têm medo de ler sobre o diferente imerso no banal, como é a vida de todos os dias.

Para uma review muito completa, mas que pode desvendar alguns aspectos da história, vejam aqui.

Boas Leituras!