Livros que Recomendo – O Rapaz que Prendeu O Vento

prendeu o vento

Imaginem que nasceram numa pequena aldeia remota no Malawi e que um dos maiores prazeres que têm é ir à escola, aprender e ler tudo aquilo a que conseguem deitar a mão. Depois imaginem que uma seca assola o vosso país, dependente duma agricultura incipiente, tradicional, e que uma fome avassaladora se abate por todo o lado, e os vossos pais deixam de ter capacidade de pagar o vosso uniforme escolar, e consequentemente vocês deixam de poder ir à escola.

Este é o começo da história de William Kamkwamba, que tinha tudo para ser uma história trágica como tantas que vemos na comunicação social diariamente, mas que na realidade é um hino à superação, à aprendizagem e ao engenho humano. William aprende com os livros que lhe vão emprestando na biblioteca enquanto não pode ir à escola, e com os conhecimentos rudimentares de física e engenharia, acaba por desenvolver um moínho de vento que vai trazer electricidade primeiro a casa dos seus pais, e mais tarde à sua aldeia.

Isto fez com que ele fosse descoberto no seu país e internacionalmente, fosse convidado a dar uma TedTalk, e a partir daí conseguiu patrocínios para concluir a sua educação.

Este livro, que me foi oferecido por uma amiga, impressionou-me bastante e eu própria já o ofereci algumas vezes. É uma lição de vida sobre como não desistir em face da adversidade, em como olhar à nossa volta e pensar que tudo são recursos e oportunidades e não obstáculos, e como realmente o lixo de uns são os tesouros dos outros.

Recomendo muito este livro a todos os que gostem de saber mais sobre outros países, outras culturas e realidades, mas que queiram ao mesmo tempo aprender sobre si próprios e sobre as suas capacidades.

Boas Leituras!

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Livros que Recomendo – Pela Estrada Fora

on the road

Jack Kerouac é um escritor medianamente conhecido, pelo menos entre nós, mas a sua influência na literatura anglo-saxónica foi fundamental. A ele é atribuído o nascimento da “Beat Generation“, uma geração de escritores e poetas pós segunda guerra mundial, que tentaram quebrar barreiras, ver o mundo com outros olhos e pavimentaram a posterior revolução que foram os anos 60. A isso tudo Jack Kerouac junta o facto de ser o único escritor que conheço que partilha o meu aniversário, por isso foi com redobrada curiosidade que li este seu livro.

Se retirarmos todo o contexto à obra, ela pode parecer-nos seca e desprovida de elegância. Parecem-nos as viagens sem rumo duns tipos falhados na vida, divorciados, alcoólicos, a experimentar com tudo o que deitam a mão.

Mas se pensarmos que isto é um relato de viagens feitas no final dos anos 40, com o pano de fundo duma América a recuperar da guerra, das casas de jazz, a pobreza das zonas mais interiores, o desespero e falta de visão de futuro duma nova geração, vemos que à altura isto foi tudo muito inovador. Estes amigos iam visitar locais onde a classe média não se atrevia a entrar, e voltavam para contar a história, que era escabrosa.

Também o modo como a história foi contada foi inovador. Jack Kerouac tirou anotações em blocos de notas aquando das suas viagens, e só alguns anos mais tarde, em 1951, se sentou durante 3 semanas e escreveu tudo de seguida, sem parar, num manuscrito de folhas todas iguais que colou umas às outras para formar um enorme rolo contínuo, que ainda hoje se encontra em exposição em algumas bibliotecas.

Hoje em dia, que já todos vivemos tudo, que tudo é permitido embora tudo seja criticado, pode ser difícil perceber qual foi a relevância desta obra na altura, mas ainda hoje é considerado um livro importante e influencia muitos escritores e músicos. Em 2012 foi feito um filme, que eu ainda não vi, mas que não me parece muito promissor.

Já o livro recomendo a todos os que gostam de literatura de viagem, de retratos duma geração, de coisas diferentes.

Boas Leituras!

Planisfério Pessoal de Gonçalo Cadilhe

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Comprei este livro em 2017, na Festa do Livro de Belém e comecei logo a lê-lo. No entanto não passei dos primeiros capítulos e apesar de ter gostado muito, não andava com cabeça para viagens.

Este ano, num dia em que me refugiei numa fresca praia do Oeste para fugir à onda de calor resolvi levá-lo comigo e li-o quase todo duma vez.

Planisfério Pessoal é a compilação de crónicas que Gonçalo Cadilhe escreveu para o Expresso em 2002/4 durante a sua volta ao mundo por terra e por mar. A premissa era dar uma volta ao globo sem utilizar avião, ou utilizá-lo apenas quando esgotadas todas as outras possibilidades.

Este não é um livro de dicas de viagem, nem de melhores lugares para se visitar em cada país, ou melhores transportes para apanhar. Se o fosse, 15 anos depois estaria bastante desactualizado. Neste livro seguimos a jornada pessoal do autor, as partes boas e as partes más. As emoções vibrantes, os encontros felizes e as muitas horas de solidão e aborrecimento. Vemos que estas coisas às vezes são mais giras no papel, outras vezes são perigosas, outras vezes são deliciosas.

Pelo facto de já terem algum tempo podemos também ver como muita coisa mudou no nosso mundo. Sítios que o Gonçalo visitou sozinho em relativa tranquilidade, são hoje um amontoado de turistas. Países como a Colômbia são hoje muito mais seguros e visitáveis, outros como a Venezuela regrediram no tempo. Este livro é também um testemunho de mudança e daquilo que já não volta.

Gosto da maneira como o Gonçalo escreve. Os ingleses diriam que ele não põe sugar coat nas coisas, diz como elas são, para o bem e para o mal, sempre com uma boa dose de humor. Semelhante ao Bill Bryson, mas sem o seu excesso de sarcasmo que muitas vezes percorre a linha ténue da troça. Gonçalo Cadilhe nunca faz pouco dos seus interlocutores, mesmo quando nos mostra situações risiveis, e eu agradeço-lhe por isso. Talvez nisso transpareça a sua Portugalidade, afinal somos melhores a fazer pouco de nós que dos outros.

É um livro duma jornada feita por um ser humano, que também é jornalista e por isso muitas vezes se questiona sobre o que vê e faz opções de acordo com a sua consciência social e ambiental. Aconselho a todos os que gostam de saber mais sobre o mundo em que vivemos, e a sua evolução.

Goodreads Review

Boas leituras!

Livros que Recomendo – Kitchen Confidential

Kitchen Confidential

Acho que os eventos recentes ditam que eu venha falar deste livro neste momento. Já o tinha posto na minha lista de livros a recomendar, mas um pouco mais lá para a frente, mas infelizmente repensei e vim falar dele agora. Kitchen Confidential, o livro que lançou a carreira de Anthony Bourdain, aquele que até então tinha sido um chef executivo dum restaurante de Manhatan, sem grande história, mas que decidiu, primeiro num artigo de jornal, depois nesta expansão para livro, contar tudo do que sabia das entranhas deste negócio da restauração, com uma clareza e sangue frio que me deixou deslumbrada.

Claro que a maioria das coisas que Anthony Bourdain desvenda neste livro nós intuitivamente sabíamos. Que se um restaurante está às moscas, o melhor é evitá-lo porque a probabilidade de nos servirem comida fresca é muito pequena. Que se a casa-de-banho, que é aquilo que os clientes vêem de certeza, está nojenta, qual a probabilidade de a cozinha, que nós nem vemos, estar limpa e imaculada? Mas mais que todos esses conselhos é o modo como são escritos, e o facto de terem como pano de fundo a sua biografia até então que nos fascina e cativa. O homem sabe escrever e descrever, como tão bem continuou a demonstrar ao longo das suas inúmeras séries televisivas.

É um livro que vale muito a pena, e se só o vão ler agora de certeza que o lerão com uma carga diferente. Quanto ao resto, já muito foi dito na comunicação social nestes últimos dias, e não vale a pena acrescentar muito mais. Na minha humilde opinião, que já tinha comentado cá por casa, ele era uma pessoa melancólica. Era isso que me cativava nele, eu sentia que partilhava com ele uma certa nostalgia por aquilo que já não existe, mesmo que nunca o tenhamos conhecido, o sentimento de perda dum mundo a mudar em muita coisa que não é para melhor. Muitos dos que admiram a sua postura rock n’roll são dos principais militantes da brigada do politicamente correcto que estamos inundados hoje, e nem sequer percebem a ironia. Mas sobretudo, a lição que espero que se tire disto tudo é que quem vê caras não vê corações, e uma vida que nós julgamos idílica (e julgar aqui em todo o sentido da palavra) pode esconder um inferno por trás.

“Conhecer” a figura pública é não conhecer nada, por vezes nem sabemos o que a pessoa ao nosso lado está a passar. Por isso, menos julgamentos e mais compreensão, a começar pelos que estão mesmo ao nosso lado, e a terminar nos que estão na ponta dos dedos do teclado é o que desejo a todos.

De resto, se nunca leram este livro, recomendo que não se arrependem certamente e aprenderão muito sobre restauração. Também aqui quem vê caras não vê corações.

O Som dum Caracol Selvagem a Comer

sound of a wild snal eating

Foi precisamente este título curioso (ou a sua versão inglesa, the sound of a wild snail eating) que me chamou a atenção quando estava a pesquisar na minha biblioteca de livros digitais e me levou a pegar neste livro. E fiquei alegremente surpreendida com a história que ele tinha para me contar.

Elisabeth Tova Bailey estava de férias na Suíça quando começou a sentir-se doente. Voltou a sua casa nos Estados Unidos e percebeu que tinha um vírus estranho, e esteve doente durante vários anos, passando longos períodos confinada à sua cama. Durante esse tempo o seu companheiro foi um caracol que uma amiga lhe trouxe dum passeio no bosque que rodeava a sua casa, e que começou por viver num vaso de violetas, mas para o qual construíram um terrário muito semelhante ao seu habitat natural.

Isso permitiu a Elisabeth observar o seu mais fiel companheiro quase 24 horas por dia, ajudando-a a passar o tempo que passava isolada ao mesmo tempo que desenvolvia um profundo apreço pelo animal e pela espécie, lendo tudo o que conseguia sobre gastrópodes.

Apesar de ser um livro sobre doença e uma pessoa que está a passar uma fase muito complicada, o tom é sempre muito divertido, esperançoso e informativo. Em altura nenhuma sentimos comiseração ou tristeza. A autora limita-se a contar as coisas como são, e dá-nos apenas os factos que são relevantes para fazer paralelismos entre si própria e o caracol, o seu imobilismo comparado com a capacidade que o animal tinha de percorrer todo o seu habitat, o tempo que não passa para ela excepto quando se perde a observar o seu companheiro de quarto.

Poderíamos à partida pensar que os caracóis não são animais assim tão interessantes, que certamente não dão matéria para encher um livro inteiro, mas este volume cheio de factos, pensamentos e delicadeza vem provar-nos exactamente o contrário. Mostra-nos duma maneira diferente como o homem é mais feliz se estiver de algum modo ligado à natureza, e como a recuperação dum doente é mais fácil se se associarem animais a esse processo. Há mesmo estudos a indicar os benefícios de terrários em pacientes que estão confinados a espaços fechados, restringidos nos movimentos, como modo de ajudar a passar o tempo.

Recomendo a todos os amantes da Natureza, todos os que gostam de livros diferentes, histórias de superação e livros diferentes no geral. Eu pessoalmente fiquei cheia de vontade de ter um caracol de estimação.

Boas Leituras!

Goodreads Review

INCHES FROM MY bed and from each other stood the terrarium and a clock. While life in the terrarium flourished, time ticked away its seconds. But the relationship between time and the snail confused me. The snail would make its way through the terrarium while the hands of the clock hardly moved—so I often thought the snail traveled faster than time. Then, absorbed in snail watching, I’d find that time had flown by, unnoticed. And what about the unfurling of a fern frond? Its pace was undetectable, yet day by day it, too, reached toward its goal.

 

Para Lá do Mapa

Beyond the map

Alastair Bonnet é um professor universitário inglês que vive em Newcastle, cidade de onde eu já não esperava nada de melhor que os Geordie Shore‘s desta vida, mas que me surpreendeu com este livro muito agradável sobre geografia, particularmente lugares que escapam à geografia dos mapas comuns.

Neste livro Alastair Bonnet conduz-nos numa visita a espaços tão díspares como a cidade do lixo no Cairo ou as Hidden Hills de Hollywood, ambos excluídos da ferramenta Street View do Google por razões opostas (os muito pobres vs. os muito ricos), ilhas no meio do Pacífico feitas exclusivamente de plásticos mas que há alguém a lutar para as reconhecer como país em nome próprio. O país mais pequeno do mundo (a Ordem Soberana e Militar de Malta) que tecnicamente ocupa um edifício em Roma, mas que na realidade tem lugar de observador nas Nações Unidas, emite passaporte, cunha moeda e tem muitas centenas de anos, e que fez o autor pensar no que realmente define um país, que fronteiras são essas que podemos defender.

Mas a parte que mais me tocou foi toda a reflexão sobre os espaços públicos, que à força de serem pertença de todos, dessa entidade abstracta que é o Estado, na realidade não pertencem a ninguém e muitas vezes nos sentimos inibidos de fazer as mais corriqueiras actividades nesses espaços. Temos o exemplo extremo da China, com a introdução de bancos de jardim com moedas, que se não forem pagos libertam espigões que obrigam os caminhantes cansados a voltar a andar ou gastar moedas de x em x minutos pelo privilégio de usufruir do mobiliário urbano. Mas temos exemplos mais próximos de mobiliário urbano aqui na Europa para nos impedir de caminhar em determinados espaços que à partida seriam públicos, em nome da “segurança”, ou as polémicas medidas anti sem-abrigo que tanto têm dado que falar.

Por tudo isto este autor nos conduz, sempre com uma visão muito sóbria, realista, mas nada iludida sobre a realidade que nos rodeia. Os últimos capítulos foram para mim particularmente penosos de ler, porque mais uma vez nos falam que enquanto andamos todos distraídos com as nossas vidinhas internas, os campeonatozinhos de futebol, os casamentos de revista, festivaizinhos, os fait-divers para distrair e essas coisinhas que a comunicação social nos vai dando à boca como papinha para bebés, a Rússia, o Reino Unido, Os EUA, a Dinamarca, desbravam a última fronteira possível, disputam as reservas do Ártico, e prevêem que tão cedo como 2020 já se consiga fazer uma rota exclusivamente marítima através do Pólo Norte graças ao contínuo degelo dos últimos anos, tornando cada vez mais acessíveis os recursos de gás natural e petróleo que se encontram lá por baixo, e dando mais uma machadada (a derradeira?) no já tão precário ambiente em que vivemos.

Como diz o autor: In future years, we may be known as the generation that gave away the Artic, even though it was not ours to give. Mas o que interessa isso, já não estaremos cá para ver, certo?

Boas Leituras!

Goodreads Review

There are many types of love, and many bonds between them. The love of nature and the love of place – biophilia and topophilia – have a particularly intimate relationship. Our lifelong affinity with animals and plants is a passionate commitment that tumbles over and into our bond with place. These love affairs merge in the garden, the age-old site and symbol of human well-being. This helps explain why we have such a problem with the modern city. Walking or, more likely, driving past barren and stony land – shards of unloved territory in between roads heavy with traffic, or endlessly ripped-up and rubbish-strewn ‘development sites’ – is an affront, a poke in the eye and, more than that, a source of guilt and loss. The land should be a garden. It should not just be beautiful; it should be alive. To see others treat it with contempt and, worse, to know that I treat it with contempt – for, of course, I just hurry past, eyes down – is unforgivable.

 

 

Caminho Imperfeito

Caminho Imperfeito

Há alguns anos atrás comprei um livro de José Luís Peixoto na feira do livro. Era Uma Casa na Escuridão, e aproveitei que ele estava lá numa sessão de autógrafos para me pôr na fila à espera de uma assinatura no meu exemplar. Assim aconteceu, uma assinatura, um beijinho, um sorriso e umas palavras do autor que me disse: sabes, este livro é um bocadinho negro, pesado, mas eu costumo dizer que não é mais pesado que o Telejornal. Eu agradeci, e disse que no ano seguinte logo diria o que tinha achado, coisa que nunca aconteceu. Mas vim-me embora a pensar no que o teria levado a dizer isso. Teria eu um ar frágil, ou inocente? Deveria ter respondido que já levava um livro de Sade no saco?  Quando li o livro percebi o que ele me quis dizer, mas não deixei de achar curioso.

Vem isto a propósito de José Luís Peixoto dizer neste livro que nós leitores fazemos assunções acerca dos autores que lemos, principalmente se escrevem não ficção, e ficarmos desiludidos quando não se comportam na vida real de acordo com as expectativas que criamos deles. É justo. Sei do José Luís que é fã de Moonspell, como eu, frequentou o Gingão na mesma altura que eu (descobri-o agora, ao ler este livro) e uma das vezes que esteve na Tailândia, eu também lá estava.

Mas, acima de tudo, tem uma escrita bonita, não imediata, que me obriga a pensar, e é por isso que sou fã dele. E foi isso que aconteceu mais uma vez, com um livro que tanto nos transporta à Tailândia, a Las Vegas ou às memórias do escritor. Que nos põe a reflectir sobre o impacto do turismo na representação cultural dum povo, sobre os refugiados birmaneses ou sobre a diversidade de experiências pessoais. Que me fez reflectir que necessariamente a minha Tailândia é diferente da dele, e diferente da de todos os outros viajantes que connosco se cruzam em cada momento, e isso é válido para qualquer país que se visite.

Gostei do livro, recomendo a fãs do escritor, de literatura de viagens e da Tailândia.

E meu caro José Luís, se algum dia nos cruzarmos, eu quebro a minha regra pessoal de nunca me meter com gente conhecida, porque aceito o desafio da tatuagem!

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Boas leituras!

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A Verdade Sobre os Animais

truth about animals

Ou pelo menos alguns.

Em 1822 o Conde Christian Ludwig von Bothmer estava a caçar no seu castelo em Klutz, na Alemanha, quando abateu uma cegonha que trazia consigo algo estranho. O seu longo pescoço trazia atravessado uma longa lança de madeira, cheia de pinturas e gravações que cedo se descobriu serem de origem africana. E só aí se descobriu um enigma milenar. O que acontece às cegonhas que desaparecem todos os Invernos? Até então pensava-se que se transmutavam noutros animais (inclusive humanos), que hibernavam, ou até mesmo que ficavam dormentes no fundo de lagos.

São este tipo de curiosidades que enchem este livro, sobre bichos fofinhos como a cegonha, mas essencialmente sobre os mal amados como os morcegos, os abutres e os sapos. O livro está muito bem escrito, cheio de sentido de humor e se as minhas aulas de História do Pensamento Biológico tivessem tido metade da piada deste livro, eu teria faltado muito menos vezes.

Livros como este, escritos por cientistas (a autora é uma zoóloga da National Geographic com um largo currículo no estudo de preguiças, fundadora da Sociedade para Apreciação das Preguiças), mas bem escritos, com bom humor e recheados de factos que os tornam ao mesmo tempo informativos e interessantes, fazem mais pelo interesse pela ciência do que muitas aulas a que somos obrigados a assistir.

Neste livro vamos encontrar, como já disse, muitas curiosidades sobre pandas e hienas, perceber que as preguiças são afinal um prodígio de adaptação ao meio em que vivem, mas temos também uma lição de História Natural, e como os métodos de investigação evoluíram (e ainda bem) ao longo dos tempos. Devemos muito aos primeiros naturalistas que, aventureiramente, se lançaram em busca de explicações para o mundo que nos rodeia, mas os métodos que eles usavam fazem-nos hoje tremer por dentro. O ilustre cientista Lazzaro Spallanzani, responsável por desmistificar a Teoria de Geração Espontânea e primeiro a estudar a ecolocalização dos morcegos, recorreu a métodos de investigação que tinham tanto de sistemáticos como de assustadores, e muitos morcegos sofreram nas suas mãos. No entanto, o modo como tudo está descrito não pode deixar de nos pôr pelo menos um sorriso nos lábios.

Mas não pensemos que hoje é tudo um mar de rosas, pois se lermos o capítulo sobre os fofíssimos pandas, e o modo como eles estão a ser reproduzidos em cativeiro, em tudo semelhantes às puppy farms que tanto queremos extinguir, em nome de serem usados como moeda de troca em negócios diplomáticos, se calhar vamos pensar duas vezes da próxima vez que quisermos partilhar um vídeo viral daqueles bebés de cativeiro.

Aconselho a todos os que são fãs de National Geographic, natureza, conhecimento, história e sobretudo livros bem escritos que nos façam pensar.

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There is nothing terminally wrong with these animals that we need to fix; the only thing we need to fix is to give them their home back.” Sarah Bexell agreed. “I really worry that it is wildlife conservation’s way of saying, ‘see, guys, we can do this, we are scientists and we’re fixing this huge biodiversity crisis problem and we can right the wrongs of our entire species by doing these little projects.’ it’s a feelgood story. The public feels good and sits back and eats their potato chips in their la-Z-boys and drives their SUVs, has a five-bedroom house and three kids, and says, ‘Great, those scientists are out there fixing this problem for me,’” she said. “but science is not going to save biodiversity; a shift in human behavior is the only thing that is going to save it. I think there needs to be more effort, first and foremost, in getting the human population under control globally, and for people to start contemplating not being such mass consumers.”

 

Livros que Recomendo – Into the Wild

into the wild

 

Mais uma vez venho aqui falar dum livro de não ficção, e um dos meus livros favoritos de sempre (quantas vezes já terei dito isto aqui? Mas é mesmo verdade). Não se passaram muitos anos desde que o li, mas deixou uma marca profunda em mim, e sempre que posso aconselho a sua leitura. E venho mais uma vez fazer o mesmo.

Este livro é o resultado de uma investigação feita por Jon Krakaeur sobre a vida e a morte de Christopher McCandless. Mas o que tem este jovem de especial para se dedicar um livro e um filme ao seu mito? Bom, tudo e nada.

Chris McCandless foi um jovem americano que após terminar a faculdade percebeu que estava insatisfeito com a sua vida e queria experimentar algo mais. Inspirado nos textos de Thoreau e Jack London, dois escritores/pensadores do século XIX, início do XX que se dedicaram a escrever sobre uma vida mais ligada à natureza no seu estado mais puro e selvagem (uma reação à industrialização que começava em força na altura), McCandless decidiu abandonar tudo o que possuía, e começar uma deambulação sem rumo pelos Estados Unidos, fazendo trabalhos manuais e conhecendo pessoas em diversos locais. Para isso assumiu a persona de Alexander Supertramp, mais uma vez baseado no poeta W. H. Davies.

Finalmente rumou ao Alaska, profundamente mal equipado, onde iria passar o Verão a sobreviver do que a terra lhe providenciasse numa experiência de grande ligação à Natureza, mas acabou por morrer de fome, ou possível envenenamento por alguma planta. As causas da sua morte foram alvo de muita polémica, bem como as suas escolhas de vida.

Muitos, e legitimamente, não conseguem ver nesta insatisfação mais do que uma birra dum pobre menino rico, que tinha tudo mas que resolveu abdicar duma vida segura para se pôr a si próprio em perigo e no caminho magoar a sua família sem consideração.

Mas para muitos outros, nos quais me incluo, Chris/Alexander era um visionário, um inquieto, que sabia que tinha de haver mais qualquer coisa para além deste quotidiano monótono onde todos somos iguais e conformados aos mesmos valores e estéticas e que a resposta para isso estará numa maior proximidade com as pessoas e com a natureza no seu estado mais inalterado. Para além de ter dado origem a um filme de Sean Penn, com música de Eddie Vedder, as citações dos escritos que Chris deixou nos seus cadernos e nas margens dos livros que lia encontram-se diariamente por toda a internet, mesmo já tendo passado 26 anos da sua morte.

No meu caso ainda me lembro bem de estar a chegar à minha paragem para o emprego quando o livro chegou ao fim, ter lágrimas grossas a correr cara a baixo e quase não ter presença de espírito para perceber que tinha de sair.

Um livro belíssimo, que aconselho a todos, nesta semana em que Chris teria feito 50 anos.

Boas leituras!

So many people live within unhappy circumstances and yet will not take the initiative to change their situation because they are conditioned to a life of security, conformity, and conservatism, all of which may appear to give one peace of mind, but in reality nothing is more damaging to the adventurous spirit within a man than a secure future. The very basic core of a man’s living spirit is his passion for adventure. The joy of life comes from our encounters with new experiences and hence there is no greater joy than to have an endlessly changing horizon, for each day to have a new and different sun

chris mccandless

 

 

 

Livros que Recomendo – Diário da Bicicleta

Diario da Bicicleta

Logo no início de ter Kindle tive acesso a imensos livros de viagens, ou sobre pessoas que faziam das viagens o seu modo de vida. Como viajar é um dos meus maiores prazeres, a seguir a ler obviamente, eu li avidamente variadíssimos desses livros, enquanto que outros foram ficando por lá esquecidos na pasta do computador (onde muitos permanecem até hoje).

Mas eventualmente num dia algures em 2014 resolvi finalmente pegar neste livro e ver o que o senhor David Byrne tinha para nos dizer sobre a arte de andar de bicicleta, ele que eu só conhecia das canções, como vocalista dos Talking Heads.

E devo dizer que fiquei fascinada. David Byrne vive em Nova Iorque, que deve ser uma das cidades do mundo menos amigas dos ciclistas, e mesmo assim ele dedicou-se desde os anos 90 a pegar na sua bicicleta e pedalar para todo o lado. Não só isso, ele viaja quase sempre com uma bicicleta desdobrável na mala de porão para poder conhecer as cidades para onde vai dum modo mais intimo e profundo.

E este livro é o resultado de todas as reflexões que ele faz depois das suas deambulações por aqui e ali. Mas não se limita a ficar por um tema só, e isso é só o pretexto para nos falar de coisas tão profundas como planeamento urbano, descaracterização das grandes cidades, desertificação dos centros em nome de interesses económicos, tornando-os inseguros e desabitados, até chegarmos a conceitos tão díspares como a arte e o que nos aproxima e afasta em todos os cantos do mundo, da Europa, a África à America.

Foi neste livro que vi pela primeira vez a palavra gentrificação, longe de imaginar que ela estava a chegar à minha cidade, e quando agora vejo as lojas centenárias da Baixa desaparecer para dar lugar a mais um hostel ou mais um café uniformizado enquanto nós moradores somos empurrados cada vez mais para a periferia, até fico com os cabelos em pé.

Aconselho vivamente este livro não só a fãs de Talking Heads, nem a ciclistas temerários (eu não pego numa bicicleta há anos, com grande pena e saudade), mas a todos os que gostam de pontos de vista diferentes, interessados e informados, e que gostam de pensar sobre a nossa sociedade, o rumo que tomamos e o que podemos fazer para evitar o que não gostamos.

Boas Leituras!