Livros que Recomendo – Histórias Naturais

Clara Pinto Correia

Hoje, num dia que muita gente está a aproveitar para descansar ou ultimar compras natalícias, eu, que estou alegremente a trabalhar, aproveito para vir mais uma vez recomendar um livro que li há muito tempo e me acompanha o pensamento desde então.

Este livro é um caso um pouco diferente dos anteriores, porque na realidade não morro de amores por esta autora. Já tentei ler outros textos dela mas não me convenceram. No entanto acho este livro uma pequena pérola do bom humor científico.

Tal como o nome indica, o livro agrega uma série de pequenas histórias de todo o “mundo natural”, contadas dum modo muito simples mas muito cativante, recheadas de bom humor, que ao mesmo tempo entretém e ensinam. O objectivo do livro não é tanto dar uma aula de ciências da natureza, mas mais despertar o nosso interesse por pequenas curiosidades do mundo que nos rodeia, para nos podermos aperceber que é mais complexo e interessante do que aquilo que à primeira vista poderíamos pensar.

É claro que o facto de ser bióloga pode ter ajudado para achar este livro engraçado, mas creio que agradará a todo o tipo de pessoas. Apesar de o ter lido há imensos anos, ainda hoje olho para os jacarandás em Lisboa dum modo diferente por saber de onde vieram e que entram em floração todos ao mesmo tempo. Há pequenos contos dentro deste livro que ficaram sempre na minha memória e que ainda hoje partilho em conversas.

Depois, tentei ler romances da mesma autora e já não consegui sentir a mesma empatia, e mesmo O Ovário de Eva achei uma chatice. Este livro foi um grande amor, mas um amor único. Mesmo assim recomendo muito a quem goste de histórias bem contadas sobre o mundo que nos rodeia, com muito bom humor.

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O Diário de Michael Palin

Michael Palin

À partida podia parecer que ler um diário pessoal que dura mais de 600 páginas e cobre uma década (de 1969 a 1979) seria tarefa monótona e titânica. Mas quando essa pessoa é o Michael Palin, responsável por alguma da melhor comédia do século XX, na realidade tornou-se um genuíno prazer.

Michael Palin começou a escrever um diário em 1969 como forma de documentar o que se passava na sua vida e de certa forma praticar os seus dotes de escrita, e não parou até hoje. Agora, em vez de escrever uma biografia, editou os seus diários (tem centenas de cadernos escritos à mão) em três volumes, que vão desde 1969 até 1998. Este volume fala da primeira década. Palin é um homem simples, que está nesta altura a tentar construir uma carreira a fazer aquilo que mais gosta, parvoíces, ao mesmo tempo que constrói um casamento, uma família com 3 filhos pequenos, e assiste ao progressivo degradar do seu pai, vítima de Parkinson.

A isto tudo junta-se a ascensão meteórica do fenómeno Python, com a respectiva luta de egos, o posterior desmembramento, o tentar começar uma carreira a solo, e todo o enquadramento sócio-cultural dos anos 70. No fundo, um documento histórico por quem viveu esses anos por dentro, e bastante bem escrito. Michael é não só um comediante, mas também uma pessoa bastante atenta ao que o rodeia, interessado em história e politica, por isso vai também deixando notas no seu diário sobre o que está a acontecer no mundo, em Inglaterra, bem como sobre os livros que está a ler. É desta maneira que podemos acompanhar o caso Watergate, um dos primeiros referendos sobre a permanência do UK na União Europeia, e as sucessivas greves que assolaram a Inglaterra nos anos 70. Na realidade, lemos pérolas como o facto de em 1969 ele estar preocupado que o novo governo venha restaurar a pena de morte no UK, que apenas recentemente tinha sido abolida (1965). Parece incrível que tenha sido abolida apenas 10 anos antes de eu própria ter nascido, mas o mundo é bem menos civilizado do que aquilo que gostamos de acreditar.

Por outro lado podemos também assistir em primeira mão à nem sempre fácil relação de trabalho entre todos os Python, para a qual terão contribuído as diferentes personalidades e modos de lidar com a fama, mas também o problema de alcoolismo de Graham Chapman. No entanto, Palin é sempre um verdadeiro cavalheiro inglês e a maioria das situações podemos apenas inferir já que ele jamais é descortês a referir-se aos seus colegas. Percebemos no entanto a grande amizade que o une a Terry Jones, Terry Gilliam, e mesmo com John Cleese consegue comunicar cordial e  frequentemente, fazendo muitas vezes o papel de mediador entre todos.

Foi também muito interessante poder ler a descrição das filmagens de mitos como o Holy Grail e o Life of Brian, e mesmo o processo criativo que levou até á sua existência. Ficamos com  a sensação que apesar de algumas dificuldades pessoais, como a morte do pai, foram bons tempos, de descoberta do seu lugar no mundo, formação de amizades que ficaram para a vida com nomes que reconhecemos hoje instantaneamente como sendo nomes grandes do entretenimento.

Fiquei com imensa vontade de ler os restantes diários  e rever tudo o que tenho cá em casa dos Monty Python. Entretanto já tenho visto alguns sketches no youtube para matar saudades, deixo-vos aqui um clássico, que é também dos meus favoritos.

Silly Olympics

Boas Leituras!

Goodreads Review

Eu, Peixinho, me confesso

eu_sara_me_confesso

Gostava muito de dizer que só leio livros de alta literatura, complexos e intrincados e que sempre foi assim, mas esse não é o caso. Na realidade leio o que me apetece na altura, e se já não houver nada mais de interessante, leio o que estiver à mão. Foi assim que quando era adolescente e passava meses inteiros de férias na terra da minha avó eu lia Selecções do Readers Digest dos anos 70 que ainda andavam por lá perdidas, BD’s do Vilhena e livros sem fim da colecção Harlequin.

E foi assim também que neste meu último retiro alentejano eu dei por mim com o livro da Sara Norte nas mãos e a despachá-lo numa tarde à beira de água. E foi um bocadinho como os livros da Bianca, lê-se num sopro, mas no final não nos fica assim nada de importante na cabeça.

Está longe de ser o pior livro que li este ano (esses não aparecem aqui, nem no Goodreads, e acreditem que já li muitos livros muito maus este ano. Só em livros maus já daria para ultrapassar o objectivo de 50 livros que me propus no inicio do ano), na realidade foi como ler uma reportagem gigante da Sábado ou do Correio da Manhã. Ficamos a saber a história da vida dela, como foi parar a uma prisão espanhola numa idade muito jovem, tudo contado sem grandes rodeios nem branqueamentos.

E pronto, não aconselho, mas podia ser pior.

Boas leituras!

Viagens pela América

Bill Bryson - The Lost Continent

Há dois momentos que marcam a minha vida literária. Aos 14 anos quando eu li Os Meus Problemas do Miguel Esteves Cardoso, e que marcou o ínicio da minha leitura de livros de adultos, e quando comecei a trabalhar na empresa onde estou agora, com gente de muitas proveniências e nacionalidades, e começámos a trocar ideias de leitura. Isso foi o abrir dum novo mundo até então desconhecido e que se veio consolidar com a compra do Kindle.

Bill Bryson apareceu nesse segundo momento, emprestado por uma amiga, e foi a minha entrada na literatura de viagens. Não me lembro exactamente o primeiro livro dele que li, porque já li muitos, mas é capaz de ter sido Neither here or there, que relata viagens pela Europa com um amigo seu em interrail, e achei delicioso, com o seu sentido de humor mordaz e percepção aguda da realidade. Depois disso vieram muitos mais, mas acho que o meu favorito é A Short History of Nearly Everythingum livro cujo título não deixa margem para dúvidas, mas que é uma espécie de história das ciências. Inclusivamente já o ofereci algumas vezes.

Agora estava numa daquelas fases que não sabia no que havia de pegar e decidi-me por este livro que tinha aqui para ler há bastante tempo, Travels in Small Town America. Ora, este foi o primeiro livro deste autor, escrito nos finais dos anos oitenta, acerca dumas viagens que fez pelo interior da America na tentativa de recrear as férias de verão que passava em família na sua infância.

Como retrato histórico e sociológico tem algum interesse, pois estamos em plena era Reagan e podemos ver as mudanças que se operaram (ou não) desde essa altura na America. Há comportamentos que pressentimos que seriam hoje em dia impensáveis, ou pelo menos mais disfarçados, o mundo já passou por alguns momentos de crise económica e isso terá afectado severamente algumas das áreas por onde o autor passou (Detroit, por exemplo, onde num momento de clarividência o autor se pergunta o que acontecerá à cidade se no futuro a indústria automóvel deixar de estar tão florescente).

Mas no geral é um livro que não tem a mesma chama dos outros que li, e nalguns momentos quase que me invadia um desespero por o tormento nunca mais acabar. Numa visão puramente objectiva, eu podia simplesmente fechar o livro e partir para outra, já o tenho feito outras vezes, mas alguma coisa me impossibilitou de tomar essa decisão e continuei estoicamente até ao fim. Parecia que havia sempre a esperança que houvesse alguma pérola de sabedoria escondida nas páginas finais. Não havia.

Se não conhecem este autor, aconselho vivamente, tem um humor sarcástico delicioso, uma visão da vida que nos deixa mais do que um sorriso, com uma sonora gargalhada, mas não aconselho este livro. Aconselho os outros dois que falei acima, para começar. Deixo-vos um momento do passado que era no entanto estranhamente relevante para o nosso presente.

On Fifth Avenue I went into the Trump Tower, a new skyscraper. A guy named Donald Trump, a developer, is slowly taking over New York, building skyscrapers all over town with his name on them, so I went in and had a look around. The building had the most tasteless lobby I had ever seen-all brass and chrome and blotchy red and white marble that looked like the sort of thing that if you saw it on the sidewalk you would walk around it. Here it was everywhere-on the floors, up the walls, on the ceiling. It was like being inside somebody’s stomach after he’d eaten pizza.

Goodreads Review

A arte de mudar e viajar

yellow-envelope

Aqui há uns dias (bastantes) terminei de ler mais um livro proporcionado pelo Netgalley. Este será publicado algures no início de 2017 e relata-nos a história verídica de Kim Dinan e o seu marido que largaram casa, emprego estável, família e largaram pelo mundo a viajar. Para puderem de algum modo ser parte deste projecto, uns amigos próximos ofereceram-lhes um envelope amarelo com dinheiro para distribuírem como achassem relevante, sem grandes preocupações a não ser sentirem-se bem a fazê-lo.

Este é o ponto de partida daquele que à primeira vista é um livro de viagens, mas que na realidade é uma história sobre a procura do auto-conhecimento, uma jornada de crescimento, e o que é que cada um de nós precisa realmente para nos sentirmos felizes.

Kim precisou de 2 anos a viajar e um envelope amarelo para fazer uma busca interior e perceber o que é que a fazia sentir feliz e realizada. Outros precisarão de mais ou de menos, mas acho que a mensagem mais importante deste livro é que nunca é tarde para fazermos alguma coisa por nós e realmente olharmos para dentro e percebermos o que nos faz felizes. Se nesse processo conseguirmos trazer felicidade a mais alguém, melhor ainda.

A vida de Kim é muito diferente hoje, e podemos segui-la no seu blog, onde ela ainda tenta espalhar alegria.

Goodreads Review

Os Macacos que não Aprendem

Tom Lutz

Mais uma vez o Netgalley deu-me a conhecer um livro de viagens. Claro que como sou eu que escolho os livros que quero ler, não é inocente estar sempre a ler livros deste tema. A principio estava um bocadinho apreensiva porque este livro é uma imensa colecção de pequenos episódios vividos pelo autor nas suas muitas viagens pelos vários cantos do mundo (acho que só faltou a zona da Austrália). Tendencialmente não gosto muito de narrativas assim desconexas e sem um fio condutor, prefiro que tenha uma história, neste caso uma rota definida como se fosse uma viagem que eu também estivesse a fazer.

No entanto, este livro acabou por ser uma agradável surpresa. Apesar de não terem relação entre si, e mesmo temporalmente não se conseguir perceber uma cronologia, todos os pequenos momentos eram muito interessantes e de algum modo revelavam um pouco do ambiente do país, ou da cultura das pessoas.

Não ajuda a escolher o próximo destino de férias, mas ajuda certamente a ver algumas coisas por um prisma diferente, e pelo menos a mim, ensinou-me algumas coisas novas. Continuo a achar que a Ásia Central é um dos destinos que terei de explorar algures na minha vida.

Recomendado a todos os viajantes empedernidos, ou os que gostam de viajar nas palavras.

Goodreads Review

Emoções Animais

Not so different

Mais uma vez a plataforma Netgalley proporcionou-me o acesso a um livro interessantissimo, em troca duma opinião honesta. Falarei desta plataforma num dos próximos posts, até porque o balanço da minha utilização até agora está a ser claramente positivo.

Entretanto cada vez mais me sinto atraída por livros que não são ficção, mas que falam de vários temas que me interessam, normalmente viagens ou ciência. Muitas vezes a combinação das duas. Este livro era sobre comportamento animal, e creio que a data de publicação será algures em Maio, versão em inglês.

É um livro que fala de coisas testadas, experimentadas e observadas, ciência na sua verdadeira acepção, no entanto estava escrito dum modo extremamente acessível e interessante. É um livro que questiona. Podemos pensar muitas vezes no que é que define humanidade, de que forma somos diferentes dos animais, mas essa linha de separação é por vezes muito ténue, e aquilo que se chama pensamento consciente pode ser encontrado em varíadissimas espécies, assim estejamos à procura.

O autor leva-nos numa viagem por várias emoções humanas, desde o amor, ciúme, medo, dor da perda dum ente querido, e mostra-nos como num espelho onde podemos encontrar coisas muito semelhantes nos nossos companheiros de planeta. E desengana-nos logo se pensamos que estas coisas estão limitadas às inteligências que consideramos mais próximas das nossas, comos os primatas, pois até de peixes e aves se fala aqui.

Recomendo vivamente a quem gosta de ler sobre ciência, expandir os horizontes e a quem gosta de olhar o mundo com outros olhos.

Goodreads Review

Culinária

culinaria

Para além de ler e viajar, também adoro cozinhar. Desde pequena que me habituei a ver na cozinha da minha mãe o livro do Cozinheiro Prático, donde ela retirava inúmeros dos petiscos que fazia. Por isso assim que o descortinei numa banca da Feira do Livro não perdi a oportunidade de comprar uma cópia para mim.

Devo confessar que vale mais pelo valor sentimental, porque as receitas são descritas mais para quem já sabe todos os truques de cozinha, o que não é bem o meu caso, e hoje em dia já há imensos recursos online para quem quer pesquisar coisas mais modernas do que aquelas que a Mariazinha nos quer ensinar. E eu sou mais do género de ler várias receitas na net, e depois compilar a minha própria versão, que pode ou não correr bem.

Já o Manual de Cozinha é uma preciosidade de conselhos inúteis, que variam desde a maturação da carne, a como cortar um porco inteiro, coisas que a cozinheira dos nossos dias (felizmente) está dispensada. Também não inclui, como seria de esperar, nada sobre as modernices de seitans, tofus e woks, mas vale pelo entretenimento que nos proporciona.

Perto do Céu

after the wind

Thanks to Netgalley and Good Hart Publishing for an ARC of this book in exchange for an honest review.

Que melhor maneira de comemorar o aniversário do que terminar um bom livro? Não estou a ver.

Eu, que sou uma pessoa que tem vertigens a subir um banco de cozinha, por alguma razão sinto-me muito atraida para livros sobre montanhismo, e quanto mais alta a montanha melhor. Já tinha lido um livro sobre esta tragédia do Evereste, do Jon Krakauer, um livro muito bem escrito que me marcou imenso. Este é mais um relato na primeira pessoa sobre o que se passou, escrito 16 anos depois por um dos sobreviventes, um dos que voltou para trás e por isso sobreviveu.

A tragédia de 1996 foi a maior de sempre até às avalanches de 2014 e 2015, onde morreram 8 pessoas e várias feridas com gravidade. Muita coisa já se escreveu e debateu sobre os eventos que culminaram nesta tragédia, culpas foram discutidas e atribuidas, mas nunca se conseguirá saber com toda a certeza exactamente o que aconteceu.

Quando leio estes livros fico sempre a pensar o que levará uma pessoa a ultrapassar os seus limites dessa maneira, a colocar-se em risco de vida tendo em troca breves momentos no cimo duma montanha sabendo que poderá estar em condições fisicas demasiado fracas para poder apreciar o feito.

Creio que é acima dos 8000m que se chama “death zone” porque literalmente o nosso corpo está a morrer, e não se pode permanecer muito tempo por lá. As descrições que leio são sempre de intenso sofrimento fisico e emocional. No entanto, todos os anos, muitas pessoas continuam a procurar essa “satisfação” pessoal.

É atribuida uma frase a George Mallory, um dos primeiros a tentar este feito, que creio define isto dum modo definitivo: “Porque é que queres escalar o Everest? Porque está lá!”

Goodreads Review

A Terra do Fim do Mundo

Last Tango in Buenos Aires

Thanks to Netgalley and Matador for an ARC of this book in exchange for an honest review.

 
Aqui temos mais uma vez a prova que é preciso mais do que um destino interessante para fazer um bom livro. E este parecia uma receita para o sucesso. Uma viagem pela Argentina, essa terra de promessa e dramatismo, das paisagens inóspitas do fim do mundo que é a Patagónia. 
É um destino que já está vendido à partida para mim, e no entanto soube a tão pouco. Existiram muitos episódios interessantes ao longo do livro, aflorou-se muito sobre a história e as histórias, no entanto os capítulos eram disconexos, não haviam uma sensação de jornada, de caminho percorrido, de intencionalidade. 
Mesmo o próprio trajecto Norte-Sul seguido pelo autor foi dificil de descortinar no meio de tanta inconsequência e a maior parte do tempo eu senti-me perdida geografica e cronologicamente. E o fim foi chocho, sem força. Teve a mais valia de citar um poema de Guerra Junqueiro algures lá pelo meio a propósito de qualquer coisa que não me lembro bem, e aquecem sempre o coração estas referências pátrias.
Portanto, não é um mau livro, mas também não é bom, e de livros mornos estão as prateleiras cheias.