Viagens pela América

Bill Bryson - The Lost Continent

Há dois momentos que marcam a minha vida literária. Aos 14 anos quando eu li Os Meus Problemas do Miguel Esteves Cardoso, e que marcou o ínicio da minha leitura de livros de adultos, e quando comecei a trabalhar na empresa onde estou agora, com gente de muitas proveniências e nacionalidades, e começámos a trocar ideias de leitura. Isso foi o abrir dum novo mundo até então desconhecido e que se veio consolidar com a compra do Kindle.

Bill Bryson apareceu nesse segundo momento, emprestado por uma amiga, e foi a minha entrada na literatura de viagens. Não me lembro exactamente o primeiro livro dele que li, porque já li muitos, mas é capaz de ter sido Neither here or there, que relata viagens pela Europa com um amigo seu em interrail, e achei delicioso, com o seu sentido de humor mordaz e percepção aguda da realidade. Depois disso vieram muitos mais, mas acho que o meu favorito é A Short History of Nearly Everythingum livro cujo título não deixa margem para dúvidas, mas que é uma espécie de história das ciências. Inclusivamente já o ofereci algumas vezes.

Agora estava numa daquelas fases que não sabia no que havia de pegar e decidi-me por este livro que tinha aqui para ler há bastante tempo, Travels in Small Town America. Ora, este foi o primeiro livro deste autor, escrito nos finais dos anos oitenta, acerca dumas viagens que fez pelo interior da America na tentativa de recrear as férias de verão que passava em família na sua infância.

Como retrato histórico e sociológico tem algum interesse, pois estamos em plena era Reagan e podemos ver as mudanças que se operaram (ou não) desde essa altura na America. Há comportamentos que pressentimos que seriam hoje em dia impensáveis, ou pelo menos mais disfarçados, o mundo já passou por alguns momentos de crise económica e isso terá afectado severamente algumas das áreas por onde o autor passou (Detroit, por exemplo, onde num momento de clarividência o autor se pergunta o que acontecerá à cidade se no futuro a indústria automóvel deixar de estar tão florescente).

Mas no geral é um livro que não tem a mesma chama dos outros que li, e nalguns momentos quase que me invadia um desespero por o tormento nunca mais acabar. Numa visão puramente objectiva, eu podia simplesmente fechar o livro e partir para outra, já o tenho feito outras vezes, mas alguma coisa me impossibilitou de tomar essa decisão e continuei estoicamente até ao fim. Parecia que havia sempre a esperança que houvesse alguma pérola de sabedoria escondida nas páginas finais. Não havia.

Se não conhecem este autor, aconselho vivamente, tem um humor sarcástico delicioso, uma visão da vida que nos deixa mais do que um sorriso, com uma sonora gargalhada, mas não aconselho este livro. Aconselho os outros dois que falei acima, para começar. Deixo-vos um momento do passado que era no entanto estranhamente relevante para o nosso presente.

On Fifth Avenue I went into the Trump Tower, a new skyscraper. A guy named Donald Trump, a developer, is slowly taking over New York, building skyscrapers all over town with his name on them, so I went in and had a look around. The building had the most tasteless lobby I had ever seen-all brass and chrome and blotchy red and white marble that looked like the sort of thing that if you saw it on the sidewalk you would walk around it. Here it was everywhere-on the floors, up the walls, on the ceiling. It was like being inside somebody’s stomach after he’d eaten pizza.

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A arte de mudar e viajar

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Aqui há uns dias (bastantes) terminei de ler mais um livro proporcionado pelo Netgalley. Este será publicado algures no início de 2017 e relata-nos a história verídica de Kim Dinan e o seu marido que largaram casa, emprego estável, família e largaram pelo mundo a viajar. Para puderem de algum modo ser parte deste projecto, uns amigos próximos ofereceram-lhes um envelope amarelo com dinheiro para distribuírem como achassem relevante, sem grandes preocupações a não ser sentirem-se bem a fazê-lo.

Este é o ponto de partida daquele que à primeira vista é um livro de viagens, mas que na realidade é uma história sobre a procura do auto-conhecimento, uma jornada de crescimento, e o que é que cada um de nós precisa realmente para nos sentirmos felizes.

Kim precisou de 2 anos a viajar e um envelope amarelo para fazer uma busca interior e perceber o que é que a fazia sentir feliz e realizada. Outros precisarão de mais ou de menos, mas acho que a mensagem mais importante deste livro é que nunca é tarde para fazermos alguma coisa por nós e realmente olharmos para dentro e percebermos o que nos faz felizes. Se nesse processo conseguirmos trazer felicidade a mais alguém, melhor ainda.

A vida de Kim é muito diferente hoje, e podemos segui-la no seu blog, onde ela ainda tenta espalhar alegria.

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Os Macacos que não Aprendem

Tom Lutz

Mais uma vez o Netgalley deu-me a conhecer um livro de viagens. Claro que como sou eu que escolho os livros que quero ler, não é inocente estar sempre a ler livros deste tema. A principio estava um bocadinho apreensiva porque este livro é uma imensa colecção de pequenos episódios vividos pelo autor nas suas muitas viagens pelos vários cantos do mundo (acho que só faltou a zona da Austrália). Tendencialmente não gosto muito de narrativas assim desconexas e sem um fio condutor, prefiro que tenha uma história, neste caso uma rota definida como se fosse uma viagem que eu também estivesse a fazer.

No entanto, este livro acabou por ser uma agradável surpresa. Apesar de não terem relação entre si, e mesmo temporalmente não se conseguir perceber uma cronologia, todos os pequenos momentos eram muito interessantes e de algum modo revelavam um pouco do ambiente do país, ou da cultura das pessoas.

Não ajuda a escolher o próximo destino de férias, mas ajuda certamente a ver algumas coisas por um prisma diferente, e pelo menos a mim, ensinou-me algumas coisas novas. Continuo a achar que a Ásia Central é um dos destinos que terei de explorar algures na minha vida.

Recomendado a todos os viajantes empedernidos, ou os que gostam de viajar nas palavras.

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Emoções Animais

Not so different

Mais uma vez a plataforma Netgalley proporcionou-me o acesso a um livro interessantissimo, em troca duma opinião honesta. Falarei desta plataforma num dos próximos posts, até porque o balanço da minha utilização até agora está a ser claramente positivo.

Entretanto cada vez mais me sinto atraída por livros que não são ficção, mas que falam de vários temas que me interessam, normalmente viagens ou ciência. Muitas vezes a combinação das duas. Este livro era sobre comportamento animal, e creio que a data de publicação será algures em Maio, versão em inglês.

É um livro que fala de coisas testadas, experimentadas e observadas, ciência na sua verdadeira acepção, no entanto estava escrito dum modo extremamente acessível e interessante. É um livro que questiona. Podemos pensar muitas vezes no que é que define humanidade, de que forma somos diferentes dos animais, mas essa linha de separação é por vezes muito ténue, e aquilo que se chama pensamento consciente pode ser encontrado em varíadissimas espécies, assim estejamos à procura.

O autor leva-nos numa viagem por várias emoções humanas, desde o amor, ciúme, medo, dor da perda dum ente querido, e mostra-nos como num espelho onde podemos encontrar coisas muito semelhantes nos nossos companheiros de planeta. E desengana-nos logo se pensamos que estas coisas estão limitadas às inteligências que consideramos mais próximas das nossas, comos os primatas, pois até de peixes e aves se fala aqui.

Recomendo vivamente a quem gosta de ler sobre ciência, expandir os horizontes e a quem gosta de olhar o mundo com outros olhos.

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Culinária

culinaria

Para além de ler e viajar, também adoro cozinhar. Desde pequena que me habituei a ver na cozinha da minha mãe o livro do Cozinheiro Prático, donde ela retirava inúmeros dos petiscos que fazia. Por isso assim que o descortinei numa banca da Feira do Livro não perdi a oportunidade de comprar uma cópia para mim.

Devo confessar que vale mais pelo valor sentimental, porque as receitas são descritas mais para quem já sabe todos os truques de cozinha, o que não é bem o meu caso, e hoje em dia já há imensos recursos online para quem quer pesquisar coisas mais modernas do que aquelas que a Mariazinha nos quer ensinar. E eu sou mais do género de ler várias receitas na net, e depois compilar a minha própria versão, que pode ou não correr bem.

Já o Manual de Cozinha é uma preciosidade de conselhos inúteis, que variam desde a maturação da carne, a como cortar um porco inteiro, coisas que a cozinheira dos nossos dias (felizmente) está dispensada. Também não inclui, como seria de esperar, nada sobre as modernices de seitans, tofus e woks, mas vale pelo entretenimento que nos proporciona.

Perto do Céu

after the wind

Thanks to Netgalley and Good Hart Publishing for an ARC of this book in exchange for an honest review.

Que melhor maneira de comemorar o aniversário do que terminar um bom livro? Não estou a ver.

Eu, que sou uma pessoa que tem vertigens a subir um banco de cozinha, por alguma razão sinto-me muito atraida para livros sobre montanhismo, e quanto mais alta a montanha melhor. Já tinha lido um livro sobre esta tragédia do Evereste, do Jon Krakauer, um livro muito bem escrito que me marcou imenso. Este é mais um relato na primeira pessoa sobre o que se passou, escrito 16 anos depois por um dos sobreviventes, um dos que voltou para trás e por isso sobreviveu.

A tragédia de 1996 foi a maior de sempre até às avalanches de 2014 e 2015, onde morreram 8 pessoas e várias feridas com gravidade. Muita coisa já se escreveu e debateu sobre os eventos que culminaram nesta tragédia, culpas foram discutidas e atribuidas, mas nunca se conseguirá saber com toda a certeza exactamente o que aconteceu.

Quando leio estes livros fico sempre a pensar o que levará uma pessoa a ultrapassar os seus limites dessa maneira, a colocar-se em risco de vida tendo em troca breves momentos no cimo duma montanha sabendo que poderá estar em condições fisicas demasiado fracas para poder apreciar o feito.

Creio que é acima dos 8000m que se chama “death zone” porque literalmente o nosso corpo está a morrer, e não se pode permanecer muito tempo por lá. As descrições que leio são sempre de intenso sofrimento fisico e emocional. No entanto, todos os anos, muitas pessoas continuam a procurar essa “satisfação” pessoal.

É atribuida uma frase a George Mallory, um dos primeiros a tentar este feito, que creio define isto dum modo definitivo: “Porque é que queres escalar o Everest? Porque está lá!”

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A Terra do Fim do Mundo

Last Tango in Buenos Aires

Thanks to Netgalley and Matador for an ARC of this book in exchange for an honest review.

 
Aqui temos mais uma vez a prova que é preciso mais do que um destino interessante para fazer um bom livro. E este parecia uma receita para o sucesso. Uma viagem pela Argentina, essa terra de promessa e dramatismo, das paisagens inóspitas do fim do mundo que é a Patagónia. 
É um destino que já está vendido à partida para mim, e no entanto soube a tão pouco. Existiram muitos episódios interessantes ao longo do livro, aflorou-se muito sobre a história e as histórias, no entanto os capítulos eram disconexos, não haviam uma sensação de jornada, de caminho percorrido, de intencionalidade. 
Mesmo o próprio trajecto Norte-Sul seguido pelo autor foi dificil de descortinar no meio de tanta inconsequência e a maior parte do tempo eu senti-me perdida geografica e cronologicamente. E o fim foi chocho, sem força. Teve a mais valia de citar um poema de Guerra Junqueiro algures lá pelo meio a propósito de qualquer coisa que não me lembro bem, e aquecem sempre o coração estas referências pátrias.
Portanto, não é um mau livro, mas também não é bom, e de livros mornos estão as prateleiras cheias.

O Mundo da Janela do Autocarro

Há poucas coisas que eu goste mais de fazer do que viajar. Nem é preciso ir ao outro lado do mundo, pequenos passeios pela minha cidade animam-me da mesma maneira. Como diz uma amiga minha: “Eu sou do verbo ir”.

Ora, a realidade do dia a dia implica que na maior parte das vezes eu estou a “ir” de autocarro de e para o trabalho, e as verdadeiras viagens são escassas. Isso não significa que eu não passe a maior parte do ano a viajar, e os livros são a minha ferramenta para o fazer.

Fui apresentada à literatura de viagens ainda antes de ter kindle, quando uma colega de trabalho me emprestou uns livros de Bill Bryson e a partir daí nunca mais parei. Ajuda ler em inglês, porque a escolha é maior, e é util também ter o Kindle, mas já se encontram coisas muito boas em português. Desde que os comecei a registar, já li cerca de 44 livros, e já fui a sitios tão interessantes como o Butão, Tibete, Macchu Picchu, Evereste, mas mais que o sitio é a personalidade do autor e a sua capacidade de contar uma história que tornam cada um destes livros uma peça única. Incluo algumas sugestões.

The Art of Travel – Alain de Botton

Um livro que nos explica porque gostamos de viajar, sempre ancorado em várias figuras históricas, artisticas que o fizeram. Gostei muito. Principalmente o homem que viajou toda a vida sem sair do quarto.

Into the Wild – Jon Krakauer

Acompanhamos a descoberta dum jovem pela América, e a sua busca pela paz interior, pela rebeldia, por um significado. Libertador e muito bem escrito.

Beyond the Sky and the Earth – Jamie Zeppa

Porque o mais provável é nunca ir ao Butão, este livro consegue descrever com muita beleza o dia a dia de quem lá vive e trabalha. Encantador.

Dentro do Segredo – José Luis Peixoto

Porque também se viaja em português, e muito bem. A sítios que a maioria de nós só conhecerá lendo, neste caso a Coreia do Norte. Um relato muito interessante e envolvente, dum autor que eu gosto muito.

Próximo destino, nem eu sei.

Caminhar com Sentido

Ken Ilgunas_Trespassing Across America

Thanks to Netgalley and Blue Rider Press for an ARC of this book in exchange for an honest review.

Desde que tenho o Kindle que desenvolvi uma preferência por não ficção, especialmente livros de viagens ou ciência. Este livro encerra em si um misto das duas coisas. Por um lado descreve uma jornada dum norte-americano pelo caminho destinado a um novo oleoduto, megalómano como tudo naquele continente. Por outro lado vai-nos levando pelas polémicas do aquecimento global naquele que deve ser o país ocidental que mais nega a sua existência.

É uma jornada ao mais profundo da América da actualidade, ao conflicto de mentalidades naquele país tão bipolar. E é ao mesmo tempo enternecedor. Porque as pessoas são genuinas e multidimensionais e o autor soube retratar bem isso. Ao mesmo tempo, está bem documentado de factos, estudos, correntes de pensamento que nos vai apresentando sem nunca ser entediante.

Escusado será dizer que a minha visão está muito próxima da do autor. É necessário tomar consciência, acção, perceber que gastamos demasiada energia, antes que estejamos no ponto de não retorno (se é que já não estamos). Por vezes é dificil não entrar em desespero, principalmente quando vemos noticias como as da Amazónia, que nunca chegam cá porque estamos demasiado entretidos nas nossas quintas. Mas podem ler-se aquiaqui ou aqui.

Por fim é sempre curioso ver como as coisas são tão culturalmente diferentes noutros sitios. A mim parece-me tão estranho não poder caminhar livremente pelo meu próprio país, observar as belezas naturais. Poucos são os sitios onde não nos é permitido caminhar, onde a figura do “trespassing” está presente. E creio que se passa o mesmo a nivel europeu (o autor aliás menciona isso mesmo). No entanto, na América passa-se o contrário. Tudo está vedado, tudo é propriedade privada onde não se pode caminhar livremente, a ameaça de se ser atingido a tiro é bem real.

Aconselho a todos os que gostam de ler sobre viagens, ciência, o mundo de hoje, questões ambientais. Mas com cuidado, porque dá uma vontade irresistivel de largar a pé até ao fim do mundo.

“When I think about our culture’s addition to fossil fuel, its indifference to the natural world, and the sheer impossibility of any major change happening soon, I can’t help but despair. Almost as depressing as an inevitable collapse is how powerless I feel as an individual.”

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Matthew Small – Pensar na Pobreza

Down and Out Today

Thank you to NetGalley.com and to Legend Times Group for the ARC of this novel in exchange for my honest review.

Mais uma vez tive a oportunidade de ler um livro disponibilizado pela NetGalley em troca da minha review, e mais uma vez escolhi um livro que não é ficção. Neste livro o autor propõem-se a fazer uma reflexão sobre a pobreza. o que significa e o que representa nos dias de hoje, e para isso visitou Bath no Uk, e algumas cidades na India e no Nepal.

Esta é uma visão profundamente pessoal e não um estudo cientifico ou mesmo jornalistico. Apesar de ter alguns dados devidamente documentados, isso não é o mais importante que se encontra neste livro. O que nos toca são as histórias na primeira pessoa, os encontros casuais, o olhar que o autor repousa naquilo que o rodeia, na maior parte dos casos sem julgamentos e preconceitos.

Foi um livro que veio muito ao encontro das minhas próprias reflexões e questões de vida. O que significa realmente ser pobre? O que é a pobreza extrema? É a pobreza por si só definidora de felicidade ou falta dela?

Na realidade o paradigma da sociedade actual necessita duma profunda mudança, e aquilo que consideramos importante e que valorizamos pode ser aquilo mesmo que nos levará ao ponto do não retorno civilizacional.

Gostei muito, aconselho a todos os que gostam de ler também para pensar.

I wonder what most people, if brought together around a table, would give thanks for. Would they be thankful for the iPhone in their pocket, the television, the car on the drive, the roof over their head, the wage slip at the end of the month, the salary at the end of the year, the job, the security, the warmth of another to sit beside and carve out roast turkey with, sharing stories and being together? Would they be thankful for life? If they are healthy, would they be thankful for this? To have sight, to process movement, physical freedom?

Goodreads Review