Livros que Recomendo – Segredos de Lisboa

segredos de lisboa

Hoje venho recomendar um livro muito diferente de todos os outros que já recomendei. Um livro de não-ficção, em parte, mas essencialmente utilitário e que nos dá a conhecer coisas novas.

Sempre vivi em Lisboa e sempre gostei de fazer de turista na minha própria cidade, muito antes disso se ter tornado a moda que é hoje. Lembro-me de fazer grandes passeios pela Baixa, Castelo, Alfama, de máquina fotográfica em punho para registar pequenos recantos, e deleitar-me com o facto de andar quase sozinha por aquelas ruas. Hoje em dia isso seria impossível, e cada vez que vou à Baixa fico deprimida, não pelo excesso de pessoas, mas sim pela perda de carácter único, pela massificação, pelas lojas históricas que se perderam, restando quase exclusivamente as cadeias que encontramos em qualquer parte do mundo e restaurantes de paella em pleno Rossio.

Mas este sentimento de desencanto não significa que a nossa cidade tenha deixado de ter recantos para descobrir. Apenas necessitamos de procurar mais e às vezes ter ajuda. Foi por isso que recorremos algumas vezes aos passeios históricos da Time Travellers, duas historiadoras que se dedicam a fazer passeios temáticos em Lisboa, mostrando-nos o passado através do que ainda existe no presente.

Há uns anos elas escreveram um livro, um misto de história e ficção, onde nos mostram algumas pérolas que podemos visitar em Lisboa, sozinhos ou em família. É muito fácil de ler, e cada monumento é precedido por uma pequena ficção história para nos dar um enquadramento e ao mesmo tempo tornar real cada um daqueles locais.

Recomendo a todos os amantes de leitura, de Lisboa, de história e de passeios em geral.

Boas Leituras!

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Acabei de Ler – Michael Palin’s Hemingway Adventure

Michael Palin

Ando numa fase em que, por variados motivos, não tenho tido muita cabeça/tempo para ler. No entanto, há sempre tempos mortos para preencher, nem que seja antes de adormecer e resolvi recorrer a um velho amigo (Michael Palin) e um tema que me é confortável, a literatura de viagens.

Assim, dos vários livros dele que tenho no Kindle, resolvi escolher um que toca o tema da literatura em geral. Por altura do centenário do nascimento de Hemingway, Michael Palin fez um documentário para a BBC, a partir do qual escreveu depois este livro. A intenção era viajar por todos os sítios onde o escritor viveu ou viajou, e que foram impactantes na sua vida e na sua escrita. Ao mesmo tempo pudémos avaliar também o impacto que a presença de Hemingway teve nos próprios locais, quer em quartos de hotel onde esteve que foram transformados em verdadeiros santuários (Espanha e Cuba, por exemplo), ou como na Florida onde se faz anualmente um concurso de sósias. Mas um pouco por todo o lado que o escritor pisou, a indústria do turismo capitalizou esse facto, e verdadeiros magotes de gente tentam recriar os passos de Hemingway.

Considerando que este livro foi escrito há exactamente 20 anos atrás, é também interessante ver como muitos desses sítios mudaram e se ajustaram nos dias de hoje, em que há mais turismo que nunca.

De Hemingway ainda só li o Velho e o Mar, há muitos anos, e apesar de ter gostado fiquei com a sensação que muito do significado me estava a escapar pelos dedos da juventude. Agora, depois de ler este livro e de ter ficado a conhecer um pouco melhor a vida do escritor, fiquei com mais vontade de pegar num livro dele e perceber porque é considerado por muitos um semi deus da escrita. Ficará para breve.

Até lá, recomendo este livro a todos os fãs de Hemingway, ou do Michael Palin, ou de literatura de viagem em geral.

Boas Leituras!

Goodreads Review

 

Livros que Recomendo – A Sangue Frio

in cold blood

Estava outro dia a passar a ferro e a fazer zapping para encontrar alguma coisa digna de se ver na TV, coisa nem sempre fácil nos dias de hoje, quando me cruzei com um filme que já tinha visto e que gostei bastante, Capote, com o fenomenal Philip Seymour Hoffman. Ora, isso levou-me a pensar no livro a que o filme se refere, que já li há alguns anos e que achei bastante bom.

A Sangue Frio (In Cold Blood), foi o livro que Truman Capote se propôs escrever na sequência duma investigação para o New Yorker acerca do homicídio duma familia inteira na sua própria casa, aparentemente sem nenhum motivo conhecido.

No filme seguimos toda a sequência de investigação de Capote, o modo como foi ficando cada vez mais envolvido com os assassinos na tentativa de entender o que se teria passado nas suas cabeças naquela noite em 1959.

No livro, uma espécie de romance real, seguimos todos os personagens desse dia, e Capote quase que faz uma análise psicológica de todos os intervenientes em vez de se limitar a contar factos friamente. Acho que é isso que torna este livro tão rico, muito mais que um relato desapaixonado dum evento macabro, e terá sido esse envolvimento do escritor que o levou a entrar numa espiral depressiva e de abuso de alcóol que eventualmente levou à sua morte.

É um livro interessantíssimo que nos mostra sem pudores a natureza humana, ou pelo menos a sua faceta mais negra. Recomendo a todos os que não se impressionam facilmente e que são fascinados por livros envolventes e bem escritos.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Underground

underground

Não sou muito fã de Haruki Murakami. Na realidade, não sou nada fã, apesar de já ter lido 3 livros dele. Aceito que grande parte disso se deva ao meu mau feitio de não me interessar muito por coisas que geram consensos e aclamações generalizadas, e preferir coisas mais fora do mainstream, mas a escrita de Murakami sempre me pareceu um pouco cheia de clichés.

Mesmo assim, apesar de ter começado a minha recomendação desta maneira, não posso deixar de vir aqui recomendar um livro dele. Já se devem ter apercebido que também sou grande fã de bons livros de não ficção. Daqueles que nos mostram aspectos da realidade que não veríamos por nós mesmos, viagens inesquecíveis, culturas diferentes, eventos que todos conhecemos mostrados noutro ângulo.

É mesmo nesta ultima categoria que se encaixa este Underground de Murakami. O título completo é Underground: The Tokyo Gas Attack and the Japanese Psyche, e só aqui já encontramos um bom resumo do livro. Aqueles de nós que cá estão há mais anos, podem lembrar-se de, em 1995, o metro de Tokyo ter sofrido um ataque com gás sarin, feito por um culto apocalíptico, Aum Shinrikyo. Deste ataque resultaram 12 mortos, 50 feridos graves e muitos problemas neurológicos noutras vítimas. Sendo do outro lado do mundo, lembramo-nos vagamente do acontecimento e da cara do líder do culto, e pouco mais (pelo menos eu).

Mas aqui Murakami vai fazer um verdadeiro trabalho jornalístico de investigação, e vai-nos relatando como o ataque foi desenhado ao mesmo tempo que no mostra várias entrevistas que teve com sobreviventes. Como não seria isento se não mostrasse os dois lados, entrevista também alguns membros do culto. Isso permite-nos não só ter um relato do ataque, mas também perceber a reacção das pessoas a ele. Aprendemos muita coisa com este livro. Primeiro que somos todos muito parecidos, e a maneira como encaramos uma tragédia tem muitas semelhanças.

Mas ao mesmo tempo a cultura japonesa é muito diferente da nossa, talvez das mais diferentes que eu conheço. A calma, a serenidade mesmo enfrentando adversidades é impressionante. Ao mesmo tempo um sentido de colectivo que por vezes chega a prejudicar estas vítimas. Lembro-me de ler sobre uma delas que acabou por ser despedida porque ficou com sequelas neurológicas que a impediam de fazer as funções normais no emprego, e sentia-se culpada por ter sido vítima do atentado. Aliás, esse sentimento de culpa era comum a muitos dos sobreviventes, como se não tivesse sido por mero acaso que estavam no sitio errado à hora errada.

Mais que um relato duma tragédia, este livro é uma espreitadela à mentalidade dum povo, à sua maneira de ser e reagir. Em 2018, após muitos anos de batalhas legais, as 7 pessoas consideradas autoras do atentado foram executadas.

Aconselho a todos os fãs de livros de não-ficção, a todos os que gostam de ler sobre outras culturas, história contemporânea, e a todos os fãs de Murakami.

 

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – O Rapaz que Prendeu O Vento

prendeu o vento

Imaginem que nasceram numa pequena aldeia remota no Malawi e que um dos maiores prazeres que têm é ir à escola, aprender e ler tudo aquilo a que conseguem deitar a mão. Depois imaginem que uma seca assola o vosso país, dependente duma agricultura incipiente, tradicional, e que uma fome avassaladora se abate por todo o lado, e os vossos pais deixam de ter capacidade de pagar o vosso uniforme escolar, e consequentemente vocês deixam de poder ir à escola.

Este é o começo da história de William Kamkwamba, que tinha tudo para ser uma história trágica como tantas que vemos na comunicação social diariamente, mas que na realidade é um hino à superação, à aprendizagem e ao engenho humano. William aprende com os livros que lhe vão emprestando na biblioteca enquanto não pode ir à escola, e com os conhecimentos rudimentares de física e engenharia, acaba por desenvolver um moínho de vento que vai trazer electricidade primeiro a casa dos seus pais, e mais tarde à sua aldeia.

Isto fez com que ele fosse descoberto no seu país e internacionalmente, fosse convidado a dar uma TedTalk, e a partir daí conseguiu patrocínios para concluir a sua educação.

Este livro, que me foi oferecido por uma amiga, impressionou-me bastante e eu própria já o ofereci algumas vezes. É uma lição de vida sobre como não desistir em face da adversidade, em como olhar à nossa volta e pensar que tudo são recursos e oportunidades e não obstáculos, e como realmente o lixo de uns são os tesouros dos outros.

Recomendo muito este livro a todos os que gostem de saber mais sobre outros países, outras culturas e realidades, mas que queiram ao mesmo tempo aprender sobre si próprios e sobre as suas capacidades.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Pela Estrada Fora

on the road

Jack Kerouac é um escritor medianamente conhecido, pelo menos entre nós, mas a sua influência na literatura anglo-saxónica foi fundamental. A ele é atribuído o nascimento da “Beat Generation“, uma geração de escritores e poetas pós segunda guerra mundial, que tentaram quebrar barreiras, ver o mundo com outros olhos e pavimentaram a posterior revolução que foram os anos 60. A isso tudo Jack Kerouac junta o facto de ser o único escritor que conheço que partilha o meu aniversário, por isso foi com redobrada curiosidade que li este seu livro.

Se retirarmos todo o contexto à obra, ela pode parecer-nos seca e desprovida de elegância. Parecem-nos as viagens sem rumo duns tipos falhados na vida, divorciados, alcoólicos, a experimentar com tudo o que deitam a mão.

Mas se pensarmos que isto é um relato de viagens feitas no final dos anos 40, com o pano de fundo duma América a recuperar da guerra, das casas de jazz, a pobreza das zonas mais interiores, o desespero e falta de visão de futuro duma nova geração, vemos que à altura isto foi tudo muito inovador. Estes amigos iam visitar locais onde a classe média não se atrevia a entrar, e voltavam para contar a história, que era escabrosa.

Também o modo como a história foi contada foi inovador. Jack Kerouac tirou anotações em blocos de notas aquando das suas viagens, e só alguns anos mais tarde, em 1951, se sentou durante 3 semanas e escreveu tudo de seguida, sem parar, num manuscrito de folhas todas iguais que colou umas às outras para formar um enorme rolo contínuo, que ainda hoje se encontra em exposição em algumas bibliotecas.

Hoje em dia, que já todos vivemos tudo, que tudo é permitido embora tudo seja criticado, pode ser difícil perceber qual foi a relevância desta obra na altura, mas ainda hoje é considerado um livro importante e influencia muitos escritores e músicos. Em 2012 foi feito um filme, que eu ainda não vi, mas que não me parece muito promissor.

Já o livro recomendo a todos os que gostam de literatura de viagem, de retratos duma geração, de coisas diferentes.

Boas Leituras!

Planisfério Pessoal de Gonçalo Cadilhe

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Comprei este livro em 2017, na Festa do Livro de Belém e comecei logo a lê-lo. No entanto não passei dos primeiros capítulos e apesar de ter gostado muito, não andava com cabeça para viagens.

Este ano, num dia em que me refugiei numa fresca praia do Oeste para fugir à onda de calor resolvi levá-lo comigo e li-o quase todo duma vez.

Planisfério Pessoal é a compilação de crónicas que Gonçalo Cadilhe escreveu para o Expresso em 2002/4 durante a sua volta ao mundo por terra e por mar. A premissa era dar uma volta ao globo sem utilizar avião, ou utilizá-lo apenas quando esgotadas todas as outras possibilidades.

Este não é um livro de dicas de viagem, nem de melhores lugares para se visitar em cada país, ou melhores transportes para apanhar. Se o fosse, 15 anos depois estaria bastante desactualizado. Neste livro seguimos a jornada pessoal do autor, as partes boas e as partes más. As emoções vibrantes, os encontros felizes e as muitas horas de solidão e aborrecimento. Vemos que estas coisas às vezes são mais giras no papel, outras vezes são perigosas, outras vezes são deliciosas.

Pelo facto de já terem algum tempo podemos também ver como muita coisa mudou no nosso mundo. Sítios que o Gonçalo visitou sozinho em relativa tranquilidade, são hoje um amontoado de turistas. Países como a Colômbia são hoje muito mais seguros e visitáveis, outros como a Venezuela regrediram no tempo. Este livro é também um testemunho de mudança e daquilo que já não volta.

Gosto da maneira como o Gonçalo escreve. Os ingleses diriam que ele não põe sugar coat nas coisas, diz como elas são, para o bem e para o mal, sempre com uma boa dose de humor. Semelhante ao Bill Bryson, mas sem o seu excesso de sarcasmo que muitas vezes percorre a linha ténue da troça. Gonçalo Cadilhe nunca faz pouco dos seus interlocutores, mesmo quando nos mostra situações risiveis, e eu agradeço-lhe por isso. Talvez nisso transpareça a sua Portugalidade, afinal somos melhores a fazer pouco de nós que dos outros.

É um livro duma jornada feita por um ser humano, que também é jornalista e por isso muitas vezes se questiona sobre o que vê e faz opções de acordo com a sua consciência social e ambiental. Aconselho a todos os que gostam de saber mais sobre o mundo em que vivemos, e a sua evolução.

Goodreads Review

Boas leituras!

Livros que Recomendo – Kitchen Confidential

Kitchen Confidential

Acho que os eventos recentes ditam que eu venha falar deste livro neste momento. Já o tinha posto na minha lista de livros a recomendar, mas um pouco mais lá para a frente, mas infelizmente repensei e vim falar dele agora. Kitchen Confidential, o livro que lançou a carreira de Anthony Bourdain, aquele que até então tinha sido um chef executivo dum restaurante de Manhatan, sem grande história, mas que decidiu, primeiro num artigo de jornal, depois nesta expansão para livro, contar tudo do que sabia das entranhas deste negócio da restauração, com uma clareza e sangue frio que me deixou deslumbrada.

Claro que a maioria das coisas que Anthony Bourdain desvenda neste livro nós intuitivamente sabíamos. Que se um restaurante está às moscas, o melhor é evitá-lo porque a probabilidade de nos servirem comida fresca é muito pequena. Que se a casa-de-banho, que é aquilo que os clientes vêem de certeza, está nojenta, qual a probabilidade de a cozinha, que nós nem vemos, estar limpa e imaculada? Mas mais que todos esses conselhos é o modo como são escritos, e o facto de terem como pano de fundo a sua biografia até então que nos fascina e cativa. O homem sabe escrever e descrever, como tão bem continuou a demonstrar ao longo das suas inúmeras séries televisivas.

É um livro que vale muito a pena, e se só o vão ler agora de certeza que o lerão com uma carga diferente. Quanto ao resto, já muito foi dito na comunicação social nestes últimos dias, e não vale a pena acrescentar muito mais. Na minha humilde opinião, que já tinha comentado cá por casa, ele era uma pessoa melancólica. Era isso que me cativava nele, eu sentia que partilhava com ele uma certa nostalgia por aquilo que já não existe, mesmo que nunca o tenhamos conhecido, o sentimento de perda dum mundo a mudar em muita coisa que não é para melhor. Muitos dos que admiram a sua postura rock n’roll são dos principais militantes da brigada do politicamente correcto que estamos inundados hoje, e nem sequer percebem a ironia. Mas sobretudo, a lição que espero que se tire disto tudo é que quem vê caras não vê corações, e uma vida que nós julgamos idílica (e julgar aqui em todo o sentido da palavra) pode esconder um inferno por trás.

“Conhecer” a figura pública é não conhecer nada, por vezes nem sabemos o que a pessoa ao nosso lado está a passar. Por isso, menos julgamentos e mais compreensão, a começar pelos que estão mesmo ao nosso lado, e a terminar nos que estão na ponta dos dedos do teclado é o que desejo a todos.

De resto, se nunca leram este livro, recomendo que não se arrependem certamente e aprenderão muito sobre restauração. Também aqui quem vê caras não vê corações.

O Som dum Caracol Selvagem a Comer

sound of a wild snal eating

Foi precisamente este título curioso (ou a sua versão inglesa, the sound of a wild snail eating) que me chamou a atenção quando estava a pesquisar na minha biblioteca de livros digitais e me levou a pegar neste livro. E fiquei alegremente surpreendida com a história que ele tinha para me contar.

Elisabeth Tova Bailey estava de férias na Suíça quando começou a sentir-se doente. Voltou a sua casa nos Estados Unidos e percebeu que tinha um vírus estranho, e esteve doente durante vários anos, passando longos períodos confinada à sua cama. Durante esse tempo o seu companheiro foi um caracol que uma amiga lhe trouxe dum passeio no bosque que rodeava a sua casa, e que começou por viver num vaso de violetas, mas para o qual construíram um terrário muito semelhante ao seu habitat natural.

Isso permitiu a Elisabeth observar o seu mais fiel companheiro quase 24 horas por dia, ajudando-a a passar o tempo que passava isolada ao mesmo tempo que desenvolvia um profundo apreço pelo animal e pela espécie, lendo tudo o que conseguia sobre gastrópodes.

Apesar de ser um livro sobre doença e uma pessoa que está a passar uma fase muito complicada, o tom é sempre muito divertido, esperançoso e informativo. Em altura nenhuma sentimos comiseração ou tristeza. A autora limita-se a contar as coisas como são, e dá-nos apenas os factos que são relevantes para fazer paralelismos entre si própria e o caracol, o seu imobilismo comparado com a capacidade que o animal tinha de percorrer todo o seu habitat, o tempo que não passa para ela excepto quando se perde a observar o seu companheiro de quarto.

Poderíamos à partida pensar que os caracóis não são animais assim tão interessantes, que certamente não dão matéria para encher um livro inteiro, mas este volume cheio de factos, pensamentos e delicadeza vem provar-nos exactamente o contrário. Mostra-nos duma maneira diferente como o homem é mais feliz se estiver de algum modo ligado à natureza, e como a recuperação dum doente é mais fácil se se associarem animais a esse processo. Há mesmo estudos a indicar os benefícios de terrários em pacientes que estão confinados a espaços fechados, restringidos nos movimentos, como modo de ajudar a passar o tempo.

Recomendo a todos os amantes da Natureza, todos os que gostam de livros diferentes, histórias de superação e livros diferentes no geral. Eu pessoalmente fiquei cheia de vontade de ter um caracol de estimação.

Boas Leituras!

Goodreads Review

INCHES FROM MY bed and from each other stood the terrarium and a clock. While life in the terrarium flourished, time ticked away its seconds. But the relationship between time and the snail confused me. The snail would make its way through the terrarium while the hands of the clock hardly moved—so I often thought the snail traveled faster than time. Then, absorbed in snail watching, I’d find that time had flown by, unnoticed. And what about the unfurling of a fern frond? Its pace was undetectable, yet day by day it, too, reached toward its goal.

 

Para Lá do Mapa

Beyond the map

Alastair Bonnet é um professor universitário inglês que vive em Newcastle, cidade de onde eu já não esperava nada de melhor que os Geordie Shore‘s desta vida, mas que me surpreendeu com este livro muito agradável sobre geografia, particularmente lugares que escapam à geografia dos mapas comuns.

Neste livro Alastair Bonnet conduz-nos numa visita a espaços tão díspares como a cidade do lixo no Cairo ou as Hidden Hills de Hollywood, ambos excluídos da ferramenta Street View do Google por razões opostas (os muito pobres vs. os muito ricos), ilhas no meio do Pacífico feitas exclusivamente de plásticos mas que há alguém a lutar para as reconhecer como país em nome próprio. O país mais pequeno do mundo (a Ordem Soberana e Militar de Malta) que tecnicamente ocupa um edifício em Roma, mas que na realidade tem lugar de observador nas Nações Unidas, emite passaporte, cunha moeda e tem muitas centenas de anos, e que fez o autor pensar no que realmente define um país, que fronteiras são essas que podemos defender.

Mas a parte que mais me tocou foi toda a reflexão sobre os espaços públicos, que à força de serem pertença de todos, dessa entidade abstracta que é o Estado, na realidade não pertencem a ninguém e muitas vezes nos sentimos inibidos de fazer as mais corriqueiras actividades nesses espaços. Temos o exemplo extremo da China, com a introdução de bancos de jardim com moedas, que se não forem pagos libertam espigões que obrigam os caminhantes cansados a voltar a andar ou gastar moedas de x em x minutos pelo privilégio de usufruir do mobiliário urbano. Mas temos exemplos mais próximos de mobiliário urbano aqui na Europa para nos impedir de caminhar em determinados espaços que à partida seriam públicos, em nome da “segurança”, ou as polémicas medidas anti sem-abrigo que tanto têm dado que falar.

Por tudo isto este autor nos conduz, sempre com uma visão muito sóbria, realista, mas nada iludida sobre a realidade que nos rodeia. Os últimos capítulos foram para mim particularmente penosos de ler, porque mais uma vez nos falam que enquanto andamos todos distraídos com as nossas vidinhas internas, os campeonatozinhos de futebol, os casamentos de revista, festivaizinhos, os fait-divers para distrair e essas coisinhas que a comunicação social nos vai dando à boca como papinha para bebés, a Rússia, o Reino Unido, Os EUA, a Dinamarca, desbravam a última fronteira possível, disputam as reservas do Ártico, e prevêem que tão cedo como 2020 já se consiga fazer uma rota exclusivamente marítima através do Pólo Norte graças ao contínuo degelo dos últimos anos, tornando cada vez mais acessíveis os recursos de gás natural e petróleo que se encontram lá por baixo, e dando mais uma machadada (a derradeira?) no já tão precário ambiente em que vivemos.

Como diz o autor: In future years, we may be known as the generation that gave away the Artic, even though it was not ours to give. Mas o que interessa isso, já não estaremos cá para ver, certo?

Boas Leituras!

Goodreads Review

There are many types of love, and many bonds between them. The love of nature and the love of place – biophilia and topophilia – have a particularly intimate relationship. Our lifelong affinity with animals and plants is a passionate commitment that tumbles over and into our bond with place. These love affairs merge in the garden, the age-old site and symbol of human well-being. This helps explain why we have such a problem with the modern city. Walking or, more likely, driving past barren and stony land – shards of unloved territory in between roads heavy with traffic, or endlessly ripped-up and rubbish-strewn ‘development sites’ – is an affront, a poke in the eye and, more than that, a source of guilt and loss. The land should be a garden. It should not just be beautiful; it should be alive. To see others treat it with contempt and, worse, to know that I treat it with contempt – for, of course, I just hurry past, eyes down – is unforgivable.