Acabei de Ler – Berezina

berezina

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Depois de vários livros do Poirot, resolvi investigar que livros do Netgalley ainda tinha para ler para ver se me apetecia algum deles. Deparei-me com este Berezina, do francês Sylvain Tesson e pensei que era mesmo isto que me estava a apetecer, um misto de livro de viagens e história.

Ainda hoje em França Berezina refere-se a estar em sarilhos, numa situação complicada de que é difícil sair. Berezina é também o nome do local onde se deu uma das mais brutais batalhas entre o exército russo e o que restava do grande exército napoleónico que se encontrava em fuga depois duma campanha sem sucesso na Rússia.

Em 2012, 200 anos depois de Napoleão ter tentado unificar toda a Europa através da conquista da Rússia, Sylvain Tesson resolveu reconstituir o caminho seguido pelos franceses na sua fuga desde Moscovo até Paris, em pleno inverno, onde os inimigos se multiplicavam, desde o exército russo, a grupos de cossacos, camponeses e pior que todos o frio extremo. Para isso juntou-se a mais 2 franceses e dois russos, em motas russas com side-car da marca Ural e deu-nos a conhecer a história daqueles homens.

De uma força de quase 500 mil homens que entraram pela Rússia directamente até Moscovo, e sem nunca serem derrotados no campo de batalha, os franceses foram de vitória em vitória até à aniquilação final, pelo frio, fome e doenças. Nada correu como Napoleão planeara nesta empreitada, e as consequências foram sérias, não só para os homens que o seguiram, mas também politicamente. Pode dizer-se que foi o princípio do fim do império. 200 anos depois a viagem destes 3 franceses e 2 russos é muito interessante e informativa, e dá-nos vontade de ir conhecer aquelas cidades, ver como são nos dias de hoje. Fiquei principalmente fascinada com as descrições da Bielorússia e da Lituânia, e deu-me vontade de fazer a minha própria road trip.

Recomendo a todos os que gostam de literatura de viagem, com um toque de história, e todos os que gostam de ler livros fora do universo anglófono.

Boas Leituras!

Goodreads Review

After Reading several Poirot books I decided to check which Netgalley books I still had outstanding and see if I felt like reading any of them. I came across this Berezina, from French author Sylvain Tesson, and it was exactly what I was looking for, a mix of travel and history book.

To this day in France, Berezina refers to impending disaster, something that will go really wrong. But it is also the place of one of the most important battles between The Grande Armée and the Russian army, when the first one was trying to escape from Russia after a disastrous campaign.

In 2012, 200 years after Napoleon tried unifying Europe by conquering Russia, Sylvain Tesson decided to gather some friends, some Ural bikes, and recreated the escape path followed by Napoleon’s army on their desperate attempt to return to Paris. This was in the peak of winter, and their enemies multiplied, as they were chased by the Russian army, the Cossacks, extreme cold and famine, and at last disease.

From nearly half a million soldiers that started the russian campaign, the French went from victory to victory until total annihilation. Nothing went as planned, and the consequences were dire, not only in casualties, but also in the turn the French empire had afterwards. It was like Napoleon’s luck ran out. 200 years later, 3 french and 2 russian friends embark on this trip and tell us about it in an interesting and informative way, and make us want to go and see these cities, and check how they are today. I was delighted with the depictions of Belarus and Lithuania.

Recomendo a todos os que gostam de literatura de viagem, com um toque de história, e todos os que gostam de ler livros fora do universo anglófono.

Recommend it to all those that enjoy travel literature, with a touch of history and to all those that like to read books that fall out from the anglo-saxon scope.

Happy Reading!

Livros que Recomendo – Nem Aqui, Nem Ali

bryson

Já não é a primeira vez que recomendo um livro do Bill Bryson no meu estaminé, e o mesmo se aplica a livros de viagens, no entanto é o primeiro livro de viagens deste autor que recomendo. O que é estranho, porque este é o seu principal género, e ele é muito bom a escrever estes livros. Mas Uma Breve História de Quase Tudo é tão genial que tive que o recomendar primeiro.

Este livro relata a viagem que o autor faz pela Europa, recreando os passos que deu na sua juventude com um amigo da escola. 20 anos depois parte em busca do que mudou e do que se manteve igual. Dotado dum sentido de humor bastante sarcástico, que por vezes roça o ofensivo, o livro é delicioso de se ler, tendo em conta que Bill Bryson é um turista americano no sue melhor.

Por cada país que passa faz observações mordazes e certeiras e podemos ter a certeza que nos divertiremos. Tendo sido escrito algures nos anos 90, o nosso país era ainda um alegre desconhecido, por isso estamos ausentes desta narrativa. Fica a questão, se nos dias de hoje os estudantes americanos que planeiam viagens de mochila às costas pela Europa já incluirão ou não o nosso país. Pelo estado em que eu encontro a nossa Baixa de Lisboa sempre que lá vou eu diria que sim, apesar de não ser das melhores coisas para a paisagem tradicional.

Recomendo a todos os que gostam de livros de viagens, de se divertir enquanto lêem e de meditar nas diferenças culturais.

Boas Leituras!

Livros Que Recomendo – A Arte de Viajar

a arte de viajar

Viajar é uma das actividades favoritas do Peixinho, no entanto está neste momento em banho maria devido à recente adição familiar. No entanto isso não significa que não se continue a fazer planos futuros e a ler sobre o assunto.

E é sobre este assunto o livro que hoje vos recomendo. Alain de Botton é um filósofo suíço que se dedica a reflectir sobre diversos temas dum modo que seja apelativo aos comuns mortais. Já falou sobre o amor, relações, religião, mas neste livro reflecte sobre viagens. Porque temos o desejo de viajar? Porque escolhemos determinados sítios em detrimento de outros? O que é realmente viajar?

Este é um livro muito fácil de ler e ao mesmo tempo muito enriquecedor. Está recheado de pequenos episódios e histórias de outros viajantes famosos, ou famosos que viajam. Mas famosos a sério, como Van Gogh, Baudelaire, Flaubert. Gente que viajou dum modo muito diferente do nosso, mas com motivações semelhantes.

Podemos ler sobre a antecipação da viagem, as motivações associadas. Viajar para descobrir a beleza, para entrar em contacto com a natureza ou a arte, para procurar o exotismo. Mas o mais importante é que qualquer que seja o destino, não podemos fugir a nós próprios.

Termina com Xavier de Maistre, que fez viagens no seu quarto, para nos mostrar que muitas vezes basta olhar para o que nos rodeia com olhos de viajante para termos uma percepção muito diferente.

Recomendo a todos os que gostam de viajar, de pensar e reflectir sobre o quotidiano e nós próprios.

Boas leituras!

Livros que Recomendo – Segredos de Lisboa

segredos de lisboa

Hoje venho recomendar um livro muito diferente de todos os outros que já recomendei. Um livro de não-ficção, em parte, mas essencialmente utilitário e que nos dá a conhecer coisas novas.

Sempre vivi em Lisboa e sempre gostei de fazer de turista na minha própria cidade, muito antes disso se ter tornado a moda que é hoje. Lembro-me de fazer grandes passeios pela Baixa, Castelo, Alfama, de máquina fotográfica em punho para registar pequenos recantos, e deleitar-me com o facto de andar quase sozinha por aquelas ruas. Hoje em dia isso seria impossível, e cada vez que vou à Baixa fico deprimida, não pelo excesso de pessoas, mas sim pela perda de carácter único, pela massificação, pelas lojas históricas que se perderam, restando quase exclusivamente as cadeias que encontramos em qualquer parte do mundo e restaurantes de paella em pleno Rossio.

Mas este sentimento de desencanto não significa que a nossa cidade tenha deixado de ter recantos para descobrir. Apenas necessitamos de procurar mais e às vezes ter ajuda. Foi por isso que recorremos algumas vezes aos passeios históricos da Time Travellers, duas historiadoras que se dedicam a fazer passeios temáticos em Lisboa, mostrando-nos o passado através do que ainda existe no presente.

Há uns anos elas escreveram um livro, um misto de história e ficção, onde nos mostram algumas pérolas que podemos visitar em Lisboa, sozinhos ou em família. É muito fácil de ler, e cada monumento é precedido por uma pequena ficção história para nos dar um enquadramento e ao mesmo tempo tornar real cada um daqueles locais.

Recomendo a todos os amantes de leitura, de Lisboa, de história e de passeios em geral.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Michael Palin’s Hemingway Adventure

Michael Palin

Ando numa fase em que, por variados motivos, não tenho tido muita cabeça/tempo para ler. No entanto, há sempre tempos mortos para preencher, nem que seja antes de adormecer e resolvi recorrer a um velho amigo (Michael Palin) e um tema que me é confortável, a literatura de viagens.

Assim, dos vários livros dele que tenho no Kindle, resolvi escolher um que toca o tema da literatura em geral. Por altura do centenário do nascimento de Hemingway, Michael Palin fez um documentário para a BBC, a partir do qual escreveu depois este livro. A intenção era viajar por todos os sítios onde o escritor viveu ou viajou, e que foram impactantes na sua vida e na sua escrita. Ao mesmo tempo pudémos avaliar também o impacto que a presença de Hemingway teve nos próprios locais, quer em quartos de hotel onde esteve que foram transformados em verdadeiros santuários (Espanha e Cuba, por exemplo), ou como na Florida onde se faz anualmente um concurso de sósias. Mas um pouco por todo o lado que o escritor pisou, a indústria do turismo capitalizou esse facto, e verdadeiros magotes de gente tentam recriar os passos de Hemingway.

Considerando que este livro foi escrito há exactamente 20 anos atrás, é também interessante ver como muitos desses sítios mudaram e se ajustaram nos dias de hoje, em que há mais turismo que nunca.

De Hemingway ainda só li o Velho e o Mar, há muitos anos, e apesar de ter gostado fiquei com a sensação que muito do significado me estava a escapar pelos dedos da juventude. Agora, depois de ler este livro e de ter ficado a conhecer um pouco melhor a vida do escritor, fiquei com mais vontade de pegar num livro dele e perceber porque é considerado por muitos um semi deus da escrita. Ficará para breve.

Até lá, recomendo este livro a todos os fãs de Hemingway, ou do Michael Palin, ou de literatura de viagem em geral.

Boas Leituras!

Goodreads Review

 

Livros que Recomendo – A Sangue Frio

in cold blood

Estava outro dia a passar a ferro e a fazer zapping para encontrar alguma coisa digna de se ver na TV, coisa nem sempre fácil nos dias de hoje, quando me cruzei com um filme que já tinha visto e que gostei bastante, Capote, com o fenomenal Philip Seymour Hoffman. Ora, isso levou-me a pensar no livro a que o filme se refere, que já li há alguns anos e que achei bastante bom.

A Sangue Frio (In Cold Blood), foi o livro que Truman Capote se propôs escrever na sequência duma investigação para o New Yorker acerca do homicídio duma familia inteira na sua própria casa, aparentemente sem nenhum motivo conhecido.

No filme seguimos toda a sequência de investigação de Capote, o modo como foi ficando cada vez mais envolvido com os assassinos na tentativa de entender o que se teria passado nas suas cabeças naquela noite em 1959.

No livro, uma espécie de romance real, seguimos todos os personagens desse dia, e Capote quase que faz uma análise psicológica de todos os intervenientes em vez de se limitar a contar factos friamente. Acho que é isso que torna este livro tão rico, muito mais que um relato desapaixonado dum evento macabro, e terá sido esse envolvimento do escritor que o levou a entrar numa espiral depressiva e de abuso de alcóol que eventualmente levou à sua morte.

É um livro interessantíssimo que nos mostra sem pudores a natureza humana, ou pelo menos a sua faceta mais negra. Recomendo a todos os que não se impressionam facilmente e que são fascinados por livros envolventes e bem escritos.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Underground

underground

Não sou muito fã de Haruki Murakami. Na realidade, não sou nada fã, apesar de já ter lido 3 livros dele. Aceito que grande parte disso se deva ao meu mau feitio de não me interessar muito por coisas que geram consensos e aclamações generalizadas, e preferir coisas mais fora do mainstream, mas a escrita de Murakami sempre me pareceu um pouco cheia de clichés.

Mesmo assim, apesar de ter começado a minha recomendação desta maneira, não posso deixar de vir aqui recomendar um livro dele. Já se devem ter apercebido que também sou grande fã de bons livros de não ficção. Daqueles que nos mostram aspectos da realidade que não veríamos por nós mesmos, viagens inesquecíveis, culturas diferentes, eventos que todos conhecemos mostrados noutro ângulo.

É mesmo nesta ultima categoria que se encaixa este Underground de Murakami. O título completo é Underground: The Tokyo Gas Attack and the Japanese Psyche, e só aqui já encontramos um bom resumo do livro. Aqueles de nós que cá estão há mais anos, podem lembrar-se de, em 1995, o metro de Tokyo ter sofrido um ataque com gás sarin, feito por um culto apocalíptico, Aum Shinrikyo. Deste ataque resultaram 12 mortos, 50 feridos graves e muitos problemas neurológicos noutras vítimas. Sendo do outro lado do mundo, lembramo-nos vagamente do acontecimento e da cara do líder do culto, e pouco mais (pelo menos eu).

Mas aqui Murakami vai fazer um verdadeiro trabalho jornalístico de investigação, e vai-nos relatando como o ataque foi desenhado ao mesmo tempo que no mostra várias entrevistas que teve com sobreviventes. Como não seria isento se não mostrasse os dois lados, entrevista também alguns membros do culto. Isso permite-nos não só ter um relato do ataque, mas também perceber a reacção das pessoas a ele. Aprendemos muita coisa com este livro. Primeiro que somos todos muito parecidos, e a maneira como encaramos uma tragédia tem muitas semelhanças.

Mas ao mesmo tempo a cultura japonesa é muito diferente da nossa, talvez das mais diferentes que eu conheço. A calma, a serenidade mesmo enfrentando adversidades é impressionante. Ao mesmo tempo um sentido de colectivo que por vezes chega a prejudicar estas vítimas. Lembro-me de ler sobre uma delas que acabou por ser despedida porque ficou com sequelas neurológicas que a impediam de fazer as funções normais no emprego, e sentia-se culpada por ter sido vítima do atentado. Aliás, esse sentimento de culpa era comum a muitos dos sobreviventes, como se não tivesse sido por mero acaso que estavam no sitio errado à hora errada.

Mais que um relato duma tragédia, este livro é uma espreitadela à mentalidade dum povo, à sua maneira de ser e reagir. Em 2018, após muitos anos de batalhas legais, as 7 pessoas consideradas autoras do atentado foram executadas.

Aconselho a todos os fãs de livros de não-ficção, a todos os que gostam de ler sobre outras culturas, história contemporânea, e a todos os fãs de Murakami.

 

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – O Rapaz que Prendeu O Vento

prendeu o vento

Imaginem que nasceram numa pequena aldeia remota no Malawi e que um dos maiores prazeres que têm é ir à escola, aprender e ler tudo aquilo a que conseguem deitar a mão. Depois imaginem que uma seca assola o vosso país, dependente duma agricultura incipiente, tradicional, e que uma fome avassaladora se abate por todo o lado, e os vossos pais deixam de ter capacidade de pagar o vosso uniforme escolar, e consequentemente vocês deixam de poder ir à escola.

Este é o começo da história de William Kamkwamba, que tinha tudo para ser uma história trágica como tantas que vemos na comunicação social diariamente, mas que na realidade é um hino à superação, à aprendizagem e ao engenho humano. William aprende com os livros que lhe vão emprestando na biblioteca enquanto não pode ir à escola, e com os conhecimentos rudimentares de física e engenharia, acaba por desenvolver um moínho de vento que vai trazer electricidade primeiro a casa dos seus pais, e mais tarde à sua aldeia.

Isto fez com que ele fosse descoberto no seu país e internacionalmente, fosse convidado a dar uma TedTalk, e a partir daí conseguiu patrocínios para concluir a sua educação.

Este livro, que me foi oferecido por uma amiga, impressionou-me bastante e eu própria já o ofereci algumas vezes. É uma lição de vida sobre como não desistir em face da adversidade, em como olhar à nossa volta e pensar que tudo são recursos e oportunidades e não obstáculos, e como realmente o lixo de uns são os tesouros dos outros.

Recomendo muito este livro a todos os que gostem de saber mais sobre outros países, outras culturas e realidades, mas que queiram ao mesmo tempo aprender sobre si próprios e sobre as suas capacidades.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Pela Estrada Fora

on the road

Jack Kerouac é um escritor medianamente conhecido, pelo menos entre nós, mas a sua influência na literatura anglo-saxónica foi fundamental. A ele é atribuído o nascimento da “Beat Generation“, uma geração de escritores e poetas pós segunda guerra mundial, que tentaram quebrar barreiras, ver o mundo com outros olhos e pavimentaram a posterior revolução que foram os anos 60. A isso tudo Jack Kerouac junta o facto de ser o único escritor que conheço que partilha o meu aniversário, por isso foi com redobrada curiosidade que li este seu livro.

Se retirarmos todo o contexto à obra, ela pode parecer-nos seca e desprovida de elegância. Parecem-nos as viagens sem rumo duns tipos falhados na vida, divorciados, alcoólicos, a experimentar com tudo o que deitam a mão.

Mas se pensarmos que isto é um relato de viagens feitas no final dos anos 40, com o pano de fundo duma América a recuperar da guerra, das casas de jazz, a pobreza das zonas mais interiores, o desespero e falta de visão de futuro duma nova geração, vemos que à altura isto foi tudo muito inovador. Estes amigos iam visitar locais onde a classe média não se atrevia a entrar, e voltavam para contar a história, que era escabrosa.

Também o modo como a história foi contada foi inovador. Jack Kerouac tirou anotações em blocos de notas aquando das suas viagens, e só alguns anos mais tarde, em 1951, se sentou durante 3 semanas e escreveu tudo de seguida, sem parar, num manuscrito de folhas todas iguais que colou umas às outras para formar um enorme rolo contínuo, que ainda hoje se encontra em exposição em algumas bibliotecas.

Hoje em dia, que já todos vivemos tudo, que tudo é permitido embora tudo seja criticado, pode ser difícil perceber qual foi a relevância desta obra na altura, mas ainda hoje é considerado um livro importante e influencia muitos escritores e músicos. Em 2012 foi feito um filme, que eu ainda não vi, mas que não me parece muito promissor.

Já o livro recomendo a todos os que gostam de literatura de viagem, de retratos duma geração, de coisas diferentes.

Boas Leituras!

Planisfério Pessoal de Gonçalo Cadilhe

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Comprei este livro em 2017, na Festa do Livro de Belém e comecei logo a lê-lo. No entanto não passei dos primeiros capítulos e apesar de ter gostado muito, não andava com cabeça para viagens.

Este ano, num dia em que me refugiei numa fresca praia do Oeste para fugir à onda de calor resolvi levá-lo comigo e li-o quase todo duma vez.

Planisfério Pessoal é a compilação de crónicas que Gonçalo Cadilhe escreveu para o Expresso em 2002/4 durante a sua volta ao mundo por terra e por mar. A premissa era dar uma volta ao globo sem utilizar avião, ou utilizá-lo apenas quando esgotadas todas as outras possibilidades.

Este não é um livro de dicas de viagem, nem de melhores lugares para se visitar em cada país, ou melhores transportes para apanhar. Se o fosse, 15 anos depois estaria bastante desactualizado. Neste livro seguimos a jornada pessoal do autor, as partes boas e as partes más. As emoções vibrantes, os encontros felizes e as muitas horas de solidão e aborrecimento. Vemos que estas coisas às vezes são mais giras no papel, outras vezes são perigosas, outras vezes são deliciosas.

Pelo facto de já terem algum tempo podemos também ver como muita coisa mudou no nosso mundo. Sítios que o Gonçalo visitou sozinho em relativa tranquilidade, são hoje um amontoado de turistas. Países como a Colômbia são hoje muito mais seguros e visitáveis, outros como a Venezuela regrediram no tempo. Este livro é também um testemunho de mudança e daquilo que já não volta.

Gosto da maneira como o Gonçalo escreve. Os ingleses diriam que ele não põe sugar coat nas coisas, diz como elas são, para o bem e para o mal, sempre com uma boa dose de humor. Semelhante ao Bill Bryson, mas sem o seu excesso de sarcasmo que muitas vezes percorre a linha ténue da troça. Gonçalo Cadilhe nunca faz pouco dos seus interlocutores, mesmo quando nos mostra situações risiveis, e eu agradeço-lhe por isso. Talvez nisso transpareça a sua Portugalidade, afinal somos melhores a fazer pouco de nós que dos outros.

É um livro duma jornada feita por um ser humano, que também é jornalista e por isso muitas vezes se questiona sobre o que vê e faz opções de acordo com a sua consciência social e ambiental. Aconselho a todos os que gostam de saber mais sobre o mundo em que vivemos, e a sua evolução.

Goodreads Review

Boas leituras!