Estivemos de livros fechados

livro fechado

Li, desde o início de 2021, 5 livros e, como o Goodreads me relembra cruelmente, estou atrasada 4 livros se pretendo atingir o meu objectivo. Felizmente isso não me deixa nada stressada, e a realidade é que terminei o último livro que li em 9 de Fevereiro, há quase 2 meses. O livro nem foi nada de extraordinário, mas o seu final coincidiu com o início deste segundo confinamento e este ano simplesmente não consegui conjugar a leitura com isso.

Acho que o cansaço desta situação toda finalmente me atingiu, e foi muito difícil conjugar o trabalho dos dois com um bebé que nem dois anos tem ainda, e foi impossível pôr leituras à mistura. Felizmente as escolas reabriram, e lentamente o humor foi melhorando por estes lados. Principalmente do príncipe pequeno, que tem influência nos restantes.

Por isso os livros estiveram fechados quase dois meses por aqui. Não todos, porque os livros infantis foram lidos todos os dias, e mais recentemente começámos também com os livros de colorir, mas as coisas mais adultas estavam em banho maria.

A emissão retomará dentro de momentos, assim como novas e (espera-se) boas leituras.

Até lá, Boas Leituras!

Retrato de Uma Princesa Desconhecida

sophia melo breyner

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vê Se Há Mensagens

manuel antonio de pina

no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas,as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo,agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu,pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor,permite que algo permanença,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte,nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agoa o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.”

Manuel António de Pina

Roteiro de Lisboa

Maria Teresa Horta

Vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

É uma cidade
cercada colhida
é uma cidade
uma rapariga

Casas de ocultar
os homens lá dentro
mulheres que se mostram
envoltas no vento

Vejam meus senhores
é uma cidade
com seus monumentos
histórias de braçado

Histórias de braçado
que ensinam na escola
um castelo um rei
mais uma glória
vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

Lá em baixo o Tejo
que é nome do rio
a lamber as armas
com suas colunas

Com seus prédios velhos
um rio lá em baixo
a lamber as pedras
as pernas-guindastes

De onde o seus bateis
partiam diurnos
vejam meus senhores
é uma cidade
de mãos empurradas
no fundo sem idade
com suas crianças
homens dos olhos

De bruços o céu
com seus girassóis
Lisboa é cidade
com heróis de luto

Maria Teresa Horta

Estou cansado da inteligência

fernando-pessoa

Estou cansado da inteligência.

Pensar faz mal às emoções.

Uma grande reacção aparece.

Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo

Na casa antiga da quinta velha.

Pára. meu coração!

Sossega, minha esperança factícia!

Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui…

Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!

Meu horizonte de quintal e praia!

Meu fim antes do princípio!

Estou cansado da inteligência.

Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!

Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas

Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.

Álvaro de Campos

Poente

alves redol

Final de dia, sereno, tropical.
Laivos rubros no azul do firmamento…
E o Sol lança um beijo maternal
Sobre a Terra – um beijo a seu contento – .

Passam negras levando o seu bornal,
Como se fossem levadas pelo vento,
E pirogas, temendo o vendaval,
Atravessam a baía num momento.

A ilha de palhotas e palmeiras,
Junto à ponte, a água em cachoeiras,
Tudo isto, para mim era fatal…

Olhava o mar cheio de ansiedade…
Ia com êle a mais triste saudade:
– A saudade de meus Pais, de Portugal.

Alves Redol in Vida Ribatejana