Fátima e a festa do cinema

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Esta semana que passou viu passar mais uma Festa do Cinema, em que durante 3 dias e por apenas 2.5€ podemos ter acesso a qualquer filme que queiramos ver, apenas pagando mais as taxas de 3D ou VIP, se for aplicável. Nós aproveitámos o último dia, quarta-feira, para celebrar o cinema português e fomos ver o Fátima de João Canijo.

Não podia ser mais apropriado ao mês em que estamos, com as comemorações do centenário das aparições, já que o filme segue o percurso de 11 mulheres que durante 9 dias fazem o percurso mais longo de peregrinação no nosso país, desde Vinhais até Fátima.

No entanto, a religião aqui é um mero pano de fundo do filme, já que a verdadeira história se centra nas relações entre aquelas 11 mulheres numa situação limite, e nas dinâmicas entre elas.

Eu pessoalmente gostei bastante do filme. Houve pormenores bastante bem conseguidos, as actrizes eram genuinamente transmontanas, e os diálogos muito verossímeis. É fácil acreditar que na realidade não houvesse um guião estruturado, e simplesmente indicações e depois lhes dessem rédea livre para improvisar conversas, de tal modo tudo soa natural. E claro, a Rita Blanco é uma belíssima actriz, como já nos tem habituado, mas devo dizer que a achei muito bem acompanhada, e aquelas jovens  não lhe ficaram atrás.

Depois achei a fotografia bastante interessante. Conseguimos apreciar as mudanças geográficas à medida que vamos descendo o país, a paisagem deixa de ser tão bela e dramática, como era em Trás-os-Montes e passa a ser um aglomerado de pinheiro e eucalipto quando entramos nas Beiras, e mesmo pormenores como a quase ausência de trânsito para a opressão constante dos camiões quanto mais nos aproximamos de Fátima, também está muito bem conseguida.

Depois, tendo eu passado por vezes verões inteiros na aldeia da minha avó, consigo ver claramente aquelas interações entre aquelas mulheres como tão possíveis. Aquela intrusão na vida alheia, o “não tenho nada a ver com isso, tu é que sabes, mas se fosse eu” constante.

E mesmo a organizadora da peregrinação está muito bem conseguida. Num dos verões que passei na aldeia, a minha avó quis levar-me a Vigo numa excursão. E eu pensei que seria engraçado passar esse tempo com ela, gostava desses programas que fazíamos só as duas, acabávamos sempre a divertirmo-nos. Bom, a organização era indescritível. O autocarro teria os normais 55 lugares, por aí, e ainda antes do último sítio de recolha de passageiros já ia gente sentada nas escadas de entrada. As últimas pessoas já foram deixadas “em terra”. E depois foi sempre a piorar. Passámos a noite em Vigo, mas o único sítio para dormir era o autocarro, o tempo de visitar a cidade foi entre as 7:30 da manhã e as 8:00, e só havia um motorista que à volta para casa já vinha a dormir a fazer as curvas do Luso. Um pesadelo, mas que faz perceber que há muita verdade na D. Isaura do filme.

Tendo dito tudo isto, aconselho vivamente, mas também aviso que devem ir preparados para um filme que dura cerca de 2:30, porque uma peregrinação nunca é curta.

Trainspotting 2

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Depois de uma semana cinzenta em muitos, muitos aspectos, nada como ir passear num Sábado de sol para recuperar energias e bom humor. Como falei no último post, está a decorrer a Restaurant Week e resolvemos mais uma vez aproveitar. Desta vez fomos até ao último piso do Hotel Altis Avenida, desfrutar não só da vista como duma magnífica refeição e dum excelente serviço. Aconselho vivamente, vale a pena.

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A sobremesa, bonita e leve. 

Depois passear a pé, subir o elevador do Chão do Loureiro e tomar um café com vista (mais uma vez). O nosso segredo já não é segredo, que era a esplanada da Pollux, e encontra-se neste momento fechada pra obras de remodelação. Depois de aparecerem na Timeout as coisas estragam-se, é uma realidade a que já nos habituámos.

O plano do dia seguia com cinema. Já não íamos há algum tempo, mas o Trainspotting 2 era um filme que era impossível perder. Em 1996, tinha eu 21 anos, e o Trainspotting foi um filme absolutamente marcante. Ainda me lembro da vertigem das primeiras imagens e daquele discurso quase demasiado rápido para o conseguir absorver, enquanto Renton nos dizia a todos quais as razões pelas quais (não) devíamos escolher a vida. Ou pelo menos aquela vida.

E agora, exactamente 21 anos depois, o que nos diz de novo Mark Renton? Sinceramente ainda não sei. Estou a tentar perceber se gostei ou não do filme. Enquanto Renton, Spud e Sick Boy (agora Simon) reflectem sobre a sua juventude perdida, vivem das memórias do que podia ter sido, é inevitável deixarmo-nos inundar pela nossa própria nostalgia e pensarmos no nosso “Choose Life“. Para onde foram os sonhos que tínhamos quando estávamos sentados na sala de cinema há 21 anos atrás? Onde estão os amigos com quem vimos o filme em 1996? Ainda me lembro sequer de quem eram? Que foi feito de nós?”

Se não tiver mais nenhum mérito, este filme põe pelo menos uma geração a perguntar-se qual foi o seu percurso nos últimos 21 anos.

De resto, ainda estou a absorver. A banda sonora, embora não tão inovadora como a do primeiro filme, continua a ser irrepreensível e cumpre perfeitamente o seu objectivo. Vale com certeza a pena ir ver, e o tempo que se passa na sala do cinema.

Podem ver aqui uma crítica mais séria do The Guardian.

Mistérios de Lisboa

Misterios de Lisboa

Graças a um passatempo da Leopardo Filmes ontem tivemos a oportunidade de passar a tarde e parte da noite numa maratona cinematográfica a assistir aos 6 episódios da mini-série muito premiada Mistérios de Lisboa. Nos intervalos tivemos ainda o privilégio de assistir a uma conversa com parte do elenco e o produtor Paulo Branco, que essencialmente nos falaram do génio do realizador Raúl Ruiz, ilustrando tudo com episódios das filmagens. Foi mágico.

Confesso que ia um pouco apreensiva, porque sempre eram 6 horas de visionamento e eu não sou particularmente Camiliana. O género novelesco e romântico do autor não me apelam muito, e como nunca foi obrigatório ler para a escola acabei por nunca lhe pegar.

No entanto, tudo foi uma agradável surpresa. Sim, a história era tudo o que se esperava. Todos são uns desgraçados, uns sofredores, os amores nunca são correspondidos, ou quando são, são impossíveis de concretizar. Tudo é muito, tudo é barroco e exagerado. Mas a realização é absolutamente deslumbrante, e as 6 horas passam num fôlego. A beleza dos diálogos, das cenas, do décor, faz-nos estar absolutamente imersos no mundo romântico da Lisboa de então, e seguir com aqueles personagens numa vertigem constante sem nunca esmorecer.

O filme foi reposto agora, está de novo nas salas de cinema, e eu não poderia aconselhar mais. Creio que são cerca de 4h, mas da minha experiência vale todos os minutos. O livro já está no meu kindle, algures na minha lista de livros a ler em breve.

Misterios de Lisboa 2

A conversa podia ter continuado noite dentro, e as perguntas sucediam-se como as cerejas. A última sessão começaria às 21h, e às 20h20 uma senhora pergunta pragmaticamente: “A próxima sessão é às 9h?” Nada como confirmar com o próprio produtor do filmes estes pormenores técnicos, se alguém sabe é ele. Depois do Paulo Branco confirmar, peremptória: “Então se calhar agora é melhor irmos comer alguma coisa, não?” E fomos, pois claro!