Blade Runner 2049

Jared Leto

Hoje foi dia de ir ao cinema ver o Blade Runner 2049. Curiosamente só em Janeiro deste ano tinha colmatado a minha falha cultural e tinha visto o Blade Runner original graças ao Cinepop, mas fiquei rendida, mesmo sendo um filme de 1982 e sem a espectacularidade dos efeitos especiais de hoje em dia. Ou se calhar, por isso mesmo.

Quem segue o Peixinho sabe que tenho gostos muito ecléticos, mas ficção cientifica está no topo das minhas preferências. Da boa, daquela que nos faz pensar na posição do ser humano no mundo, no universo se quiserem, na nossa postura, na maneira como interagimos uns com os outros, com o espaço que nos rodeia, com as instituições politicas e religiosas. Quem acha que ficção cientifica são apenas naves aos tiros é porque está confinado à visão que Hollywood nos quis dar, porque também é essa que vende.

Mas felizmente há muito mais para além disso, e boa ficção cientifica em todas as suas vertentes, é um dos ramos da literatura que se aproxima da filosofia. E o primeiro Blade Runner certamente é um exemplo disso. Baseado no livro de Philip K. Dick “Do Androids Dream of Electric Sheep” que já está alegremente no meu Kindle à espera de vez para ser lido. Se tiverem paciência para ler uma boa opinião sobre este fenómeno podem ler esta crónica do Observador, cujo autor conseguiu ser bem mais eloquente do que eu.

Mas de volta ao Blade Runner 2049, em que substituimos um muito convincente Rutger Hauer por uns valores seguros de Hollywood, o Ryan Gosling e o Jared Leto. E confesso que isso já me fazia ir com a pulga atrás da orelha. E na realidade encontrei exactamente aquilo que estava à espera. O filme é bom, visualmente continua a ser uma beleza, a música (já não de Vangelis, mas de Hans Zimmer) é espectacular e super adequada, e não se pode dizer que esteja sobrecarregado de efeitos especiais ou lutas infinitas, como os normais blockbusters do género (no entanto não vale a pena ser visto em 3D na minha humilde opinião).

Mas onde o primeiro era subtileza e suavidade, onde eramos conduzidos subtilmente a tirar as nossas próprias conclusões (ficou sempre no ar a pergunta se Deckard é ou não um replicant), neste somos levados pela mão quase como crianças e tudo nos é mostrado e explicado, nada nos é deixado à imaginação. Se calhar deve-se ao facto de eu já ter visto o director’s cut, sem a narração em off que tinha esse mesmo propósito, de explicar ao pobre público aquilo que estavam a ver.

E o monólogo final do Rutger Hauer “Tears in the Rain imprime um toque final de humanidade ao filme, que não esteve presente nesta sequela. Portanto, gostei mas não achei que tivesse o toque de genialidade da versão de 1982. Ainda assim, bastante melhor do que qualquer dos filmes que nos mostraram nas apresentações.

 

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Fátima e a festa do cinema

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Esta semana que passou viu passar mais uma Festa do Cinema, em que durante 3 dias e por apenas 2.5€ podemos ter acesso a qualquer filme que queiramos ver, apenas pagando mais as taxas de 3D ou VIP, se for aplicável. Nós aproveitámos o último dia, quarta-feira, para celebrar o cinema português e fomos ver o Fátima de João Canijo.

Não podia ser mais apropriado ao mês em que estamos, com as comemorações do centenário das aparições, já que o filme segue o percurso de 11 mulheres que durante 9 dias fazem o percurso mais longo de peregrinação no nosso país, desde Vinhais até Fátima.

No entanto, a religião aqui é um mero pano de fundo do filme, já que a verdadeira história se centra nas relações entre aquelas 11 mulheres numa situação limite, e nas dinâmicas entre elas.

Eu pessoalmente gostei bastante do filme. Houve pormenores bastante bem conseguidos, as actrizes eram genuinamente transmontanas, e os diálogos muito verossímeis. É fácil acreditar que na realidade não houvesse um guião estruturado, e simplesmente indicações e depois lhes dessem rédea livre para improvisar conversas, de tal modo tudo soa natural. E claro, a Rita Blanco é uma belíssima actriz, como já nos tem habituado, mas devo dizer que a achei muito bem acompanhada, e aquelas jovens  não lhe ficaram atrás.

Depois achei a fotografia bastante interessante. Conseguimos apreciar as mudanças geográficas à medida que vamos descendo o país, a paisagem deixa de ser tão bela e dramática, como era em Trás-os-Montes e passa a ser um aglomerado de pinheiro e eucalipto quando entramos nas Beiras, e mesmo pormenores como a quase ausência de trânsito para a opressão constante dos camiões quanto mais nos aproximamos de Fátima, também está muito bem conseguida.

Depois, tendo eu passado por vezes verões inteiros na aldeia da minha avó, consigo ver claramente aquelas interações entre aquelas mulheres como tão possíveis. Aquela intrusão na vida alheia, o “não tenho nada a ver com isso, tu é que sabes, mas se fosse eu” constante.

E mesmo a organizadora da peregrinação está muito bem conseguida. Num dos verões que passei na aldeia, a minha avó quis levar-me a Vigo numa excursão. E eu pensei que seria engraçado passar esse tempo com ela, gostava desses programas que fazíamos só as duas, acabávamos sempre a divertirmo-nos. Bom, a organização era indescritível. O autocarro teria os normais 55 lugares, por aí, e ainda antes do último sítio de recolha de passageiros já ia gente sentada nas escadas de entrada. As últimas pessoas já foram deixadas “em terra”. E depois foi sempre a piorar. Passámos a noite em Vigo, mas o único sítio para dormir era o autocarro, o tempo de visitar a cidade foi entre as 7:30 da manhã e as 8:00, e só havia um motorista que à volta para casa já vinha a dormir a fazer as curvas do Luso. Um pesadelo, mas que faz perceber que há muita verdade na D. Isaura do filme.

Tendo dito tudo isto, aconselho vivamente, mas também aviso que devem ir preparados para um filme que dura cerca de 2:30, porque uma peregrinação nunca é curta.

Trainspotting 2

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Depois de uma semana cinzenta em muitos, muitos aspectos, nada como ir passear num Sábado de sol para recuperar energias e bom humor. Como falei no último post, está a decorrer a Restaurant Week e resolvemos mais uma vez aproveitar. Desta vez fomos até ao último piso do Hotel Altis Avenida, desfrutar não só da vista como duma magnífica refeição e dum excelente serviço. Aconselho vivamente, vale a pena.

farofias
A sobremesa, bonita e leve. 

Depois passear a pé, subir o elevador do Chão do Loureiro e tomar um café com vista (mais uma vez). O nosso segredo já não é segredo, que era a esplanada da Pollux, e encontra-se neste momento fechada pra obras de remodelação. Depois de aparecerem na Timeout as coisas estragam-se, é uma realidade a que já nos habituámos.

O plano do dia seguia com cinema. Já não íamos há algum tempo, mas o Trainspotting 2 era um filme que era impossível perder. Em 1996, tinha eu 21 anos, e o Trainspotting foi um filme absolutamente marcante. Ainda me lembro da vertigem das primeiras imagens e daquele discurso quase demasiado rápido para o conseguir absorver, enquanto Renton nos dizia a todos quais as razões pelas quais (não) devíamos escolher a vida. Ou pelo menos aquela vida.

E agora, exactamente 21 anos depois, o que nos diz de novo Mark Renton? Sinceramente ainda não sei. Estou a tentar perceber se gostei ou não do filme. Enquanto Renton, Spud e Sick Boy (agora Simon) reflectem sobre a sua juventude perdida, vivem das memórias do que podia ter sido, é inevitável deixarmo-nos inundar pela nossa própria nostalgia e pensarmos no nosso “Choose Life“. Para onde foram os sonhos que tínhamos quando estávamos sentados na sala de cinema há 21 anos atrás? Onde estão os amigos com quem vimos o filme em 1996? Ainda me lembro sequer de quem eram? Que foi feito de nós?”

Se não tiver mais nenhum mérito, este filme põe pelo menos uma geração a perguntar-se qual foi o seu percurso nos últimos 21 anos.

De resto, ainda estou a absorver. A banda sonora, embora não tão inovadora como a do primeiro filme, continua a ser irrepreensível e cumpre perfeitamente o seu objectivo. Vale com certeza a pena ir ver, e o tempo que se passa na sala do cinema.

Podem ver aqui uma crítica mais séria do The Guardian.

Mistérios de Lisboa

Misterios de Lisboa

Graças a um passatempo da Leopardo Filmes ontem tivemos a oportunidade de passar a tarde e parte da noite numa maratona cinematográfica a assistir aos 6 episódios da mini-série muito premiada Mistérios de Lisboa. Nos intervalos tivemos ainda o privilégio de assistir a uma conversa com parte do elenco e o produtor Paulo Branco, que essencialmente nos falaram do génio do realizador Raúl Ruiz, ilustrando tudo com episódios das filmagens. Foi mágico.

Confesso que ia um pouco apreensiva, porque sempre eram 6 horas de visionamento e eu não sou particularmente Camiliana. O género novelesco e romântico do autor não me apelam muito, e como nunca foi obrigatório ler para a escola acabei por nunca lhe pegar.

No entanto, tudo foi uma agradável surpresa. Sim, a história era tudo o que se esperava. Todos são uns desgraçados, uns sofredores, os amores nunca são correspondidos, ou quando são, são impossíveis de concretizar. Tudo é muito, tudo é barroco e exagerado. Mas a realização é absolutamente deslumbrante, e as 6 horas passam num fôlego. A beleza dos diálogos, das cenas, do décor, faz-nos estar absolutamente imersos no mundo romântico da Lisboa de então, e seguir com aqueles personagens numa vertigem constante sem nunca esmorecer.

O filme foi reposto agora, está de novo nas salas de cinema, e eu não poderia aconselhar mais. Creio que são cerca de 4h, mas da minha experiência vale todos os minutos. O livro já está no meu kindle, algures na minha lista de livros a ler em breve.

Misterios de Lisboa 2

A conversa podia ter continuado noite dentro, e as perguntas sucediam-se como as cerejas. A última sessão começaria às 21h, e às 20h20 uma senhora pergunta pragmaticamente: “A próxima sessão é às 9h?” Nada como confirmar com o próprio produtor do filmes estes pormenores técnicos, se alguém sabe é ele. Depois do Paulo Branco confirmar, peremptória: “Então se calhar agora é melhor irmos comer alguma coisa, não?” E fomos, pois claro!