Planisfério Pessoal de Gonçalo Cadilhe

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Comprei este livro em 2017, na Festa do Livro de Belém e comecei logo a lê-lo. No entanto não passei dos primeiros capítulos e apesar de ter gostado muito, não andava com cabeça para viagens.

Este ano, num dia em que me refugiei numa fresca praia do Oeste para fugir à onda de calor resolvi levá-lo comigo e li-o quase todo duma vez.

Planisfério Pessoal é a compilação de crónicas que Gonçalo Cadilhe escreveu para o Expresso em 2002/4 durante a sua volta ao mundo por terra e por mar. A premissa era dar uma volta ao globo sem utilizar avião, ou utilizá-lo apenas quando esgotadas todas as outras possibilidades.

Este não é um livro de dicas de viagem, nem de melhores lugares para se visitar em cada país, ou melhores transportes para apanhar. Se o fosse, 15 anos depois estaria bastante desactualizado. Neste livro seguimos a jornada pessoal do autor, as partes boas e as partes más. As emoções vibrantes, os encontros felizes e as muitas horas de solidão e aborrecimento. Vemos que estas coisas às vezes são mais giras no papel, outras vezes são perigosas, outras vezes são deliciosas.

Pelo facto de já terem algum tempo podemos também ver como muita coisa mudou no nosso mundo. Sítios que o Gonçalo visitou sozinho em relativa tranquilidade, são hoje um amontoado de turistas. Países como a Colômbia são hoje muito mais seguros e visitáveis, outros como a Venezuela regrediram no tempo. Este livro é também um testemunho de mudança e daquilo que já não volta.

Gosto da maneira como o Gonçalo escreve. Os ingleses diriam que ele não põe sugar coat nas coisas, diz como elas são, para o bem e para o mal, sempre com uma boa dose de humor. Semelhante ao Bill Bryson, mas sem o seu excesso de sarcasmo que muitas vezes percorre a linha ténue da troça. Gonçalo Cadilhe nunca faz pouco dos seus interlocutores, mesmo quando nos mostra situações risiveis, e eu agradeço-lhe por isso. Talvez nisso transpareça a sua Portugalidade, afinal somos melhores a fazer pouco de nós que dos outros.

É um livro duma jornada feita por um ser humano, que também é jornalista e por isso muitas vezes se questiona sobre o que vê e faz opções de acordo com a sua consciência social e ambiental. Aconselho a todos os que gostam de saber mais sobre o mundo em que vivemos, e a sua evolução.

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Boas leituras!

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Caminho Imperfeito

Caminho Imperfeito

Há alguns anos atrás comprei um livro de José Luís Peixoto na feira do livro. Era Uma Casa na Escuridão, e aproveitei que ele estava lá numa sessão de autógrafos para me pôr na fila à espera de uma assinatura no meu exemplar. Assim aconteceu, uma assinatura, um beijinho, um sorriso e umas palavras do autor que me disse: sabes, este livro é um bocadinho negro, pesado, mas eu costumo dizer que não é mais pesado que o Telejornal. Eu agradeci, e disse que no ano seguinte logo diria o que tinha achado, coisa que nunca aconteceu. Mas vim-me embora a pensar no que o teria levado a dizer isso. Teria eu um ar frágil, ou inocente? Deveria ter respondido que já levava um livro de Sade no saco?  Quando li o livro percebi o que ele me quis dizer, mas não deixei de achar curioso.

Vem isto a propósito de José Luís Peixoto dizer neste livro que nós leitores fazemos assunções acerca dos autores que lemos, principalmente se escrevem não ficção, e ficarmos desiludidos quando não se comportam na vida real de acordo com as expectativas que criamos deles. É justo. Sei do José Luís que é fã de Moonspell, como eu, frequentou o Gingão na mesma altura que eu (descobri-o agora, ao ler este livro) e uma das vezes que esteve na Tailândia, eu também lá estava.

Mas, acima de tudo, tem uma escrita bonita, não imediata, que me obriga a pensar, e é por isso que sou fã dele. E foi isso que aconteceu mais uma vez, com um livro que tanto nos transporta à Tailândia, a Las Vegas ou às memórias do escritor. Que nos põe a reflectir sobre o impacto do turismo na representação cultural dum povo, sobre os refugiados birmaneses ou sobre a diversidade de experiências pessoais. Que me fez reflectir que necessariamente a minha Tailândia é diferente da dele, e diferente da de todos os outros viajantes que connosco se cruzam em cada momento, e isso é válido para qualquer país que se visite.

Gostei do livro, recomendo a fãs do escritor, de literatura de viagens e da Tailândia.

E meu caro José Luís, se algum dia nos cruzarmos, eu quebro a minha regra pessoal de nunca me meter com gente conhecida, porque aceito o desafio da tatuagem!

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Boas leituras!

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Viagens pela América

Bill Bryson - The Lost Continent

Há dois momentos que marcam a minha vida literária. Aos 14 anos quando eu li Os Meus Problemas do Miguel Esteves Cardoso, e que marcou o ínicio da minha leitura de livros de adultos, e quando comecei a trabalhar na empresa onde estou agora, com gente de muitas proveniências e nacionalidades, e começámos a trocar ideias de leitura. Isso foi o abrir dum novo mundo até então desconhecido e que se veio consolidar com a compra do Kindle.

Bill Bryson apareceu nesse segundo momento, emprestado por uma amiga, e foi a minha entrada na literatura de viagens. Não me lembro exactamente o primeiro livro dele que li, porque já li muitos, mas é capaz de ter sido Neither here or there, que relata viagens pela Europa com um amigo seu em interrail, e achei delicioso, com o seu sentido de humor mordaz e percepção aguda da realidade. Depois disso vieram muitos mais, mas acho que o meu favorito é A Short History of Nearly Everythingum livro cujo título não deixa margem para dúvidas, mas que é uma espécie de história das ciências. Inclusivamente já o ofereci algumas vezes.

Agora estava numa daquelas fases que não sabia no que havia de pegar e decidi-me por este livro que tinha aqui para ler há bastante tempo, Travels in Small Town America. Ora, este foi o primeiro livro deste autor, escrito nos finais dos anos oitenta, acerca dumas viagens que fez pelo interior da America na tentativa de recrear as férias de verão que passava em família na sua infância.

Como retrato histórico e sociológico tem algum interesse, pois estamos em plena era Reagan e podemos ver as mudanças que se operaram (ou não) desde essa altura na America. Há comportamentos que pressentimos que seriam hoje em dia impensáveis, ou pelo menos mais disfarçados, o mundo já passou por alguns momentos de crise económica e isso terá afectado severamente algumas das áreas por onde o autor passou (Detroit, por exemplo, onde num momento de clarividência o autor se pergunta o que acontecerá à cidade se no futuro a indústria automóvel deixar de estar tão florescente).

Mas no geral é um livro que não tem a mesma chama dos outros que li, e nalguns momentos quase que me invadia um desespero por o tormento nunca mais acabar. Numa visão puramente objectiva, eu podia simplesmente fechar o livro e partir para outra, já o tenho feito outras vezes, mas alguma coisa me impossibilitou de tomar essa decisão e continuei estoicamente até ao fim. Parecia que havia sempre a esperança que houvesse alguma pérola de sabedoria escondida nas páginas finais. Não havia.

Se não conhecem este autor, aconselho vivamente, tem um humor sarcástico delicioso, uma visão da vida que nos deixa mais do que um sorriso, com uma sonora gargalhada, mas não aconselho este livro. Aconselho os outros dois que falei acima, para começar. Deixo-vos um momento do passado que era no entanto estranhamente relevante para o nosso presente.

On Fifth Avenue I went into the Trump Tower, a new skyscraper. A guy named Donald Trump, a developer, is slowly taking over New York, building skyscrapers all over town with his name on them, so I went in and had a look around. The building had the most tasteless lobby I had ever seen-all brass and chrome and blotchy red and white marble that looked like the sort of thing that if you saw it on the sidewalk you would walk around it. Here it was everywhere-on the floors, up the walls, on the ceiling. It was like being inside somebody’s stomach after he’d eaten pizza.

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