Livros Que Recomendo – Cloud Atlas

cloud atlas

Este deve ser um dos raros casos em que ver o filme me puxou a ler o livro. A ser honesta, o grande impulsionador das duas coisas até foi o outro peixe cá de casa, mas eu fiquei igualmente rendida.

Comecemos pelo início. Fomos ver o filme no velho e já desaparecido cinema do Fonte Nova, e quando as três horas chegaram ao fim nós nem queríamos acreditar. Parecia que o tempo não tinha passado, tal era o ritmo vertiginoso do filme. Não foi consensual na altura, houve muita gente que não gostou, mas nós ficámos apaixonados, dissecamos o argumento e acabámos por ficar com curiosidade em ler o livro.

Cloud Atlas conta-nos seis histórias que na realidade são só uma. A evolução de uma personagem com uma marca de nascença específica ao longo de várias vidas, simplisticamente falando. Mostra-nos como estamos todos ligados através do tempo e como todas as nossas acções têm consequências. No limite, mostra-nos que o modo como a posteridade nos recorda pode ser bastante diferente daquilo que fomos.

A estrutura do livro e do filme são radicalmente diferentes. Enquanto o filme é caos e ritmo, o livro está construído como um espelho. Temos metade de cada história por ordem cronológica, até à sexta história, e depois vemos as conclusões por ordem inversa. Como se tivessem fotocopiado o livro e fechado a meio. Assim: historia 1, 2, 3, 4, 5, 6, 5, 4, 3, 2, 1. Confuso? Nada mesmo quando se lê.

Cada secção é escrita num estilo diferente e está interligada aos personagens da secção anterior de algum modo, tornando este livro num exercício de escrita notável. Tal como o filme, o livro também não é consensual, e há muito quem não tenha gostado ou não tenha mesmo conseguido conseguir ler.

Este livro chegou aos finalista para o prémio Man Booker de 2004 e fez-me ficar fã do autor, de quem tenho vindo lentamente a ler toda a obra, que está também toda interligada com personagens que se repetem e que dão um sentido de unidade, como se David Mitchell estivesse não a escrever livros individuais mas uma grande história completa em capítulos. Aqui podem encontrar um guia para não se perderem em todas as ligações feitas pelo autor ao longo dos livros.

De qualquer modo é um livro que aconselho, de mente aberta e vontade de ser desafiados.

Boas Leituras!

Souls cross ages like clouds cross skies, an’ tho’ a cloud’s shape nor hue nor size don’t stay the same, it’s still a cloud an’ so is a soul. Who can say where the cloud’s blowed from or who the soul’ll be ‘morrow? Only Sonmi the east an’ the west an’ the compass an’ the atlas, yay, only the atlas o’ clouds.

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Livros que Recomendo – As Brumas de Avalon

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Começo por dizer que recomendo este livro (ou melhor dizendo, este conjunto de quatro livros na sua versão portuguesa) mas na realidade passaram-se muitos anos desde que os li. Talvez 20, talvez um pouco mais.

De qualquer modo, naquele final de adolescência foram livros importantes na minha formação pessoal, apesar da minha visão de hoje poder ser diferente se eu os relesse. As Brumas de Avalon contam uma história muito conhecida, até mesmo exaustivamente retratada em tantas outras obras, que é a lenda do Rei Artur e a busca do Santo Graal. No entanto, a grande diferença nesta visão de Marion Zimmer Bradley foi o ponto de vista que ela decidiu mostrar. A história é toda narrada dum ponto de vista feminino, mas também como uma batalha de culturas. As tradições antigas, celtas ou ainda mais remotas, a tentarem desesperadamente resistir à aniquilação do invasor romano, com o seu Deus único, centrado no homem e no pai, por oposição à deusa mãe mais tolerante e libertadora. Morgaine aqui não é a bruxa má e assustadora das outras histórias, mas apenas uma mulher a fazer o melhor que sabe para tentar sobreviver num mundo em declínio, com muitos erros à mistura.

Foram livros importantes para mim porque me mostraram como as coisas podem ter pesos e significados diferentes consoante o ponto de vista em que nos encontramos, e ainda hoje me esforço sempre por tentar entender reacções e culturas à luz do seu enquadramento histórico, geográfico, temporal.

Por outro lado esta foi a minha porta de entrada nos livros de fantasia, que até então não me tinham seduzido grandemente. Depois destes, segui lendo mais livros da autora, se bem que os outros eram todos mais fraquinhos e repetitivos. Mas a partir daí não mais parei de ler livros deste género, com um imenso prazer.

Anos mais tarde ainda apanhei numa feira do livro duas pechinchas da altura em que Zimmer Bradley escrevia ainda ficção científica, e achei-os ainda mais bem conseguidos. Mais uma vez foi a minha estreia nesse género, e nunca mais parei. Mas desses falarei noutra altura.

Recomendo a todos os que gostam de fantasia, magia, histórias bem contadas e querem ver a lenda do Rei Artur doutro ângulo.

Livros que Recomendo – Uma Conspiração de Estúpidos

confederacy of dunces

Ou no seu título original, a Confederacy of Dunces, título que se inspirou numa frase escrita por Jonathan Swift (o das viagens do Gulliver, sim senhor) que diz “When a true genius appears in the world, you may know him by this sign, that the dunces are all in confederacy against him.”

Li este livro há alguns anos, sugerido por uma amiga e ex-colega de trabalho que já me tem sugerido imensa coisa boa para ler e tem enriquecido imensamente o meu conhecimento literário (Margaret Atwood também foi sugerido por ela). Mas esta sátira é deliciosa, e tem um gostinho muito especial. Foi apenas o segundo livro que o John Kennedy Toole escreveu, e não viria a escrever mais nenhum uma vez que se suicidou a 26 de Março de 1969 em resultado duma depressão parcialmente provocadas pela recusa das editoras em publicar o seu trabalho. Aliás este livro só viria a ser publicado muito mais tarde, em 1980, graças aos esforços da sua mãe que insistiu em mostrar o manuscrito, bem como ao seu amigo o escritor Walker Percy.

A Conspiração de Estúpidos fala-nos de Ignatius J. Reilly, um personagem muito sui generis e contra corrente. No inicio dos anos 60, quando toda a juventude rumava na direcção da libertação sexual, dum código de valores menos rigido e mais libertador, quando todo o mundo vibrava em busca dum novo ideal, o jovem Ignatius regia-se por principios e códigos de conduta medievais, resistia violentamente a qualquer mudança, e viajar era a sua pequena definição de inferno. Aos 30 anos vivia ainda com a sua mãe, na sua cidade natal de New Orleans e esforçava-se ao máximo por retardar o mais possível o entrar na vida adulta e consequentes responsabilidades que daí advinham.

Todo o livro vai ser uma sucessão de hilariantes peripécias em que Ignatius tem de lidar com a mãe, sucessivos empregos, o novo namorado da mãe e a sua melhor amiga, tudo tendo como pano de fundo a cidade de Nova Orleães que é quase um personagem em nome próprio. Um livro que tem tanto de cómico como de trágico, mas que nos prende do inicio ao fim duma maneira deliciosa. Se virmos para lá da comédia, podemos ver que há um pouco de nós em cada um dos personagens e que por vezes a vida do Ignatius se assemelha assustadoramente com a nossa vida real.

Como já disse, foi editado postumamente e valeu ao seu autor um prémio Pulitzer, e é hoje uma obra de referência da lingua inglesa. Recomendo grandemente, é um livro que nos faz pensar e rir ao mesmo tempo.

Boas Leituras!

“I suspect that beneath your offensively and vulgarly effeminate façade there may be a soul of sorts. Have you read widely in Boethius?”
“Who? Oh, heavens no. I never even read newspapers.”
“Then you must begin a reading program immediately so that you may understand the crises of our age,” Ignatius said solemnly. “Begin with the late Romans, including Boethius, of course. Then you should dip rather extensively into early Medieval. You may skip the Renaissance and the Enlightenment. That is mostly dangerous propaganda. Now that I think of it, you had better skip the Romantics and the Victorians, too. For the contemporary period, you should study some selected comic books.”
“You’re fantastic.”
“I recommend Batman especially, for he tends to transcend the abysmal society in which he’s found himself. His morality is rather rigid, also. I rather respect Batman.”

Livros que Recomendo – Os Maias

Os Maias

Poucos livros terão sido tão injustiçados na literatura portuguesa como o que eu recomendo hoje. Nada faz pior a um livro do que tornar obrigatória a sua leitura durante a adolescência, aquele período de rebeldia em que só nos apetece fazer o contrário do que nos dizem.

Quando eu andava na escola, os Maias fazia parte da leitura obrigatória do 11º ano, tal como as Viagens na Minha Terra do Almeida Garrett. O meu professor de Português, do qual eu até gostava muito, começou o ano por dizer que na disciplina dele ninguém passava sem efectivamente ler os dois livros. Ora, se há coisa que o Peixinho gosta é de um bom desafio. Os Maias já não ia a tempo, porque tinha lido por prazer (imagine-se) durante o verão antes de começarem as aulas, mas decidi logo ali internamente que não iria ler o Almeida Garrett e que iria passar. Não me enganei, tive 16 como nota final a Português sem nunca ter pegado no chatíssimo livro, situação que se mantém até hoje.

Mas Os Maias era outra história, já que como disse tinha lido durante as férias de verão, em vertigem. Lembro-me de serem 5 da manhã e ter a minha mãe a ralhar comigo para apagar a luz que já eram horas e eu estar vorazmente a ler para descobrir o desfecho da história e o mistério associado.

O grande problema deste livro, para além de ter sido (ainda ser?) de leitura obrigatória é que começava com uma longuíssima descrição da casa do Ramalhete, dos pormenores todos de decoração, que se não me engano dura quase 30 páginas e faz lembrar a descrição bíblica da Arca da Aliança em que descreve ao pormenor quantos côvados media cada item.

Mas se nos abstrairmos de tudo isso, Os Maias é um belíssimo livro. Uma grande crónica de costumes que nos mostra uma Lisboa que evolui, o espírito provinciano de Portugal na altura do Eça, uma visão da classe politica que de muitas formas não é diferente da que temos hoje. Sendo uma obra de ficção não deixa de ser um documento histórico por toda a envolvência que narra. O meu professor de português, que na realidade era um visionário, deu-nos trabalhos de grupo e a mim calhou-me “A Lisboa nos Maias”, que tivemos depois de apresentar em forma de visita guiada, e ainda hoje muitos dos locais me estão gravados na memória como estando presentes na narrativa.

Aconselho a todos os que gostem duma história bem contada, um documento duma parte da nossa história, e que consigam passar a prova de fogo das primeiras páginas com a sua descrição do Ramalhete.

Boas Leituras!

O português nunca pode ser homem de ideias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixa-la incompleta, exagera-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita… Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.

Livros que Recomendo – Sonetos de Florbela Espanca

sonetos

Os visitantes do Peixinho sabem que sou uma entusiasta da Poesia, especialmente a poesia portuguesa, e que gosto de a ir divulgando aqui no blog. Por isso acho que já era mais que tempo de vir recomendar um livro de poesia, e resolvi começar por aquele que me iniciou neste mundo.

Comecei por escrever os meus poemas assim que aprendi a escrever. Depois, como todos os portugueses que foram à escola, li as coisas que me obrigaram a ler nas aulas de Português. Coisas chatíssimas, e para as quais ninguém está preparado. Qual o miúdo de 12/13 anos que quer saber das cantigas de D. Dinis? Parecem uma xaropada incompreensível e não é de admirar que a poesia tenha tão poucos seguidores. Mesmo a Leonor caminhando na verdura não é suficiente para angariar seguidores para a causa.

Devo dizer que acho isso grandemente em relação a quase todas as obras que eram obrigatórias no meu tempo, honrosa excepção para Eça de Queirós que foi o único que li com prazer. Ainda hoje não li as Viagens na Minha Terra, e espero que o currículo escolar tenha mudado entretanto, a bem do gosto pela literatura. Mas esta era outra discussão que não é matéria deste post, serve apenas para dizer que eu gosto de ler apesar das minhas aulas de Português e não por causa delas.

O mesmo se passa com a Poesia, e este foi o primeiro livro que eu li por vontade própria, algures na minha adolescência e cativou-me imediatamente. O seu pendor trágico, o amor profundo e muitas vezes não correspondido, caíram que nem uma luva aos meus devaneios adolescentes, e devorei este livro com paixão e fiquei viciada em poesia desde então. Tive a sorte de ter amigas que eram também fãs e com as quais fui trocando impressões e amadurecendo este gosto.

Não sei o que acharia deste livro se o relesse hoje, mas Florbela Espanca é uma poetisa com mérito reconhecido e foi uma mulher muito à frente do seu tempo, apesar de ter sucumbido à sua própria inquietação interior. A sua obra permeou a nossa cultura geral, desde a literatura doutros escritores até à música (quem não se lembra dos Trovante, só para dar um exemplo?)

Recomendo a todos os amantes de poesia, mas sobretudo a todos os amantes em geral.

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços …

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca … o eco dos teus passos .
O teu riso de fonte … os teus abraços .
Os teus beijos … a tua mão na minha .

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca ..
Quando os olhos se me cerram de desejo .
E os meus braços se estendem para ti. ..

Livros que Recomendo – Crónica dos Bons Malandros

Mario Zambujal

Há poucas semanas deu na televisão, não me lembro em que canal, a deplorável adaptação para cinema deste livro de Mário Zambujal feita em 1984. Apesar de recheada de actores bons e competentes, está demasiado psicadélica e pseudo artística para fazer jus ao ritmo frenético e bem humorado do livro.

Já não me lembro exactamente quem me falou deste livro pela primeira vez, há muitos, muitos anos. Creio que foram os meus padrinhos que me emprestaram, eles que foram fonte de tantos livros desde a minha infância. Mas tenho a certeza que o livro foi um empréstimo, e que só adquiri este exemplar quando quis partilhá-lo com o Peixinho Vermelho. O que eu recordo vivamente é ir numa carruagem do metro sentada a ler, e já não conseguir conter o riso e largar umas valentes gargalhadas, para espanto dos meus companheiros de viagem.

Mário Zambujal conta-nos, com muita graça, a história duns malandros à portuguesa, uns malandrecos, que se encontram todos por um acaso da vida e formam um gangue para fazer uns golpezitos. Um dia são contactados por um mafioso italiano para dar um passo maior que a perna, ou seja, para roubar a colecção de jóias Lalique que se encontra na Gulbenkian. E vão usar nada mais nada menos que abelhas.

A partir daí é uma sucessão de peripécias muito lusitanas, com um humor muito português e sempre tendo como pano de fundo uma Lisboa que já não existe. Que talvez já quase não existisse quando este livro foi escrito.

É um livro divertido, mas também nostálgico porque nos fala duma portugalidade de outros tempos, mas que ainda está profundamente enraizada em todos nós. Mas se calhar em vez de andar visível em bares duvidosos do Bairro Alto, ou tascas de bairro, anda exposta em comentários de Facebook um pouco por toda a parte, mas com menos graça e salero.

Recomendo a todos os que queiram uma leitura leve, descomprometida e nostálgica.

Boas Leituras

 

 

Livros que Recomendo – Into the Wild

into the wild

 

Mais uma vez venho aqui falar dum livro de não ficção, e um dos meus livros favoritos de sempre (quantas vezes já terei dito isto aqui? Mas é mesmo verdade). Não se passaram muitos anos desde que o li, mas deixou uma marca profunda em mim, e sempre que posso aconselho a sua leitura. E venho mais uma vez fazer o mesmo.

Este livro é o resultado de uma investigação feita por Jon Krakaeur sobre a vida e a morte de Christopher McCandless. Mas o que tem este jovem de especial para se dedicar um livro e um filme ao seu mito? Bom, tudo e nada.

Christ McCandless foi um jovem americano que após terminar a faculdade percebeu que estava insatisfeito com a sua vida e queria experimentar algo mais. Inspirado nos textos de Thoreau e Jack London, dois escritores/pensadores do século XIX, início do XX que se dedicaram a escrever sobre uma vida mais ligada à natureza no seu estado mais puro e selvagem (uma reação à industrialização que começava em força na altura), McCandless decidiu abandonar tudo o que possuía, e começar uma deambulação sem rumo pelos Estados Unidos, fazendo trabalhos manuais e conhecendo pessoas em diversos locais. Para isso assumiu a persona de Alexander Supertramp, mais uma vez baseado no poeta W. H. Davies.

Finalmente rumou ao Alaska, profundamente mal equipado, onde iria passar o Verão a sobreviver do que a terra lhe providenciasse numa experiência de grande ligação à Natureza, mas acabou por morrer de fome, ou possível envenenamento por alguma planta. As causas da sua morte foram alvo de muita polémica, bem como as suas escolhas de vida.

Muitos, e legitimamente, não conseguem ver nesta insatisfação mais do que uma birra dum pobre menino rico, que tinha tudo mas que resolveu abdicar duma vida segura para se pôr a si próprio em perigo e no caminho magoar a sua família sem consideração.

Mas para muitos outros, nos quais me incluo, Chris/Alexander era um visionário, um inquieto, que sabia que tinha de haver mais qualquer coisa para além deste quotidiano monótono onde todos somos iguais e conformados aos mesmos valores e estéticas e que a resposta para isso estará numa maior proximidade com as pessoas e com a natureza no seu estado mais inalterado. Para além de ter dado origem a um filme de Sean Penn, com música de Eddie Vedder, as citações dos escritos que Chris deixou nos seus cadernos e nas margens dos livros que lia encontram-se diariamente por toda a internet, mesmo já tendo passado 26 anos da sua morte.

No meu caso ainda me lembro bem de estar a chegar à minha paragem para o emprego quando o livro chegou ao fim, ter lágrimas grossas a correr cara a baixo e quase não ter presença de espírito para perceber que tinha de sair.

Um livro belíssimo, que aconselho a todos, nesta semana em que Chris teria feito 50 anos.

Boas leituras!

So many people live within unhappy circumstances and yet will not take the initiative to change their situation because they are conditioned to a life of security, conformity, and conservatism, all of which may appear to give one peace of mind, but in reality nothing is more damaging to the adventurous spirit within a man than a secure future. The very basic core of a man’s living spirit is his passion for adventure. The joy of life comes from our encounters with new experiences and hence there is no greater joy than to have an endlessly changing horizon, for each day to have a new and different sun

chris mccandless

 

 

 

Livros que Recomendo – Mundos Paralelos

philip pullman

Sabendo que saiu há pouco tempo mais um livro do Philip Pullman, O Livro do Pó em português, que já está no meu Kindle para ler a seguir, acho que está na altura de recomendar a série que o originou, Mundos Paralelos, His Dark Materials no original. A maioria das pessoas podem lembrar-se mais desta trilogia por causa do tristissimo filme a que deu origem, A Bússola Dourada, baseado no primeiro volume, mas terão de acreditar em mim quando vos digo que o filme não faz minimamente justiça ao original.

No original estes são livros para jovens adultos, o que os ingleses chamam “coming of age books”, com histórias com crianças ou adolescentes onde acompanhamos o seu crescimento, mas que nos apresentam temas difíceis para ajudar os leitores a reflectir sobre eles e assim ajudar no seu amadurecimento. E esta trilogia é perita em mostrar-nos temas difíceis, sem condescendências, com dois dos mais interessantes protagonistas que eu já vi em livros deste género.

Lyra Belacqua e Will Parry são duas crianças em dois universos paralelos que se vão encontrar e viver a sua aventura juntos. No primeiro volume seguimos Lyra, que se encontra num orfanato com o seu daemon Pantalaimon, génio na muito desinspirada tradução. A figura do génio é das mais interessantes apresentada neste livro. São criaturas externas, mas ao mesmo tempo parte de nós, revelam o nosso ser interior e têm a forma de um animal. Enquanto somos crianças vão mudando livremente de forma, até em determinado momento da adolescência se fixarem na sua forma definitiva que supostamente revelará algo do caracter do seu possuidor. Tocar no daemon de alguém sem consentimento é uma ofensa gravíssima, e separar alguém do seu daemon deixava-o incapacitado. Escusado será dizer que quando li o livro queria muito ter um daemon para mim e pensava muitas vezes qual seria a forma do meu. Lyra tem também uma “bússola” que lhe mostra sempre a verdade, e se isso não é o instrumento mais útil/assustador do mundo, então não sei qual será.

No segundo volume Lyra encontra Will, um rapaz do nosso mundo que a partir vai passar a acompanhá-la na sua busca pela origem do Pó com uma faca capaz de abrir portas entre mundos. Esta aventura vai ser difícil e complexa, mas muito interessante.

Outra das características destes livros é que os protagonistas não são necessariamente livres de mácula como é costume neste tipo de literatura. Na realidade Lyria é uma criança mentirosa e difícil e quando finalmente conhecemos Will sabemos imediatamente que ele matou alguém. E isso também é importante na história. Às vezes pessoas boas fazem coisas más em determinadas circunstâncias.

A história está muito bem construída e os três livros devoram-se num ápice, mesmo se por vezes nos deixam um sabor amargo na boca ou um aperto forte no coração. A descrição da figura da morte é das mais interessantes que já vi num livro deste género. Diz-se que a sua estrutura está grandemente inspirada no Paraíso Perdido de Milton, no entanto não posso garanti-lo porque ainda não o li, apesar de ser daqueles que está eternamente na minha lista de leituras futuras.

Philip Pullman foi alvo de muitas críticas por causa destes livros, muitas vezes considerados como um ataque à Igreja ou por promover o ateísmo e o autor muitas vezes se afirmou ateu convicto, no entanto confesso que não li os livros com essa leitura, talvez porque não a procurei activamente, mas fica o aviso.

Aconselho vivamente a quem goste de leituras juvenis, mas também a quem goste de livros adultos, porque esta é uma história com potencial para agradar a todos. Mais tarde virei cá falar d’O Livro do Pó.

Boas Leituras.

Livros que Recomendo – À Boleia Pela Galáxia

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Imaginem que estão uma bela manhã de pijama e roupão em vossa casa a arranjarem-se para ir trabalhar quando descobrem que tudo o que conhecem vai ser arrasado para dar origem a uma autoestrada. E não estou a falar do vosso prédio, nem mesmo do vosso bairro. Na realidade é todo o planeta Terra que está no caminho duma nova super autoestrada estelar e simplesmente tem de desaparecer. Felizmente o vosso melhor amigo, Ford Prefect, é na realidade um extraterrestre a estudar os nossos hábitos para uma enciclopédia de mochileiros e ajuda-vos a fugir, mas vocês apenas têm tempo de levar uma toalha. Felizmente este é o item mais importante em todas as viagens espaciais. Isso e o guia de mochileiros espaciais, para o qual o vosso melhor amigo trabalhava. Acima de tudo não entrem em pânico, tudo vai correr bem.

Esta é a premissa sobre a qual assenta o livro de Douglas Adams, À Boleia Pela Galáxia, uma trilogia de 5 livros, que nos leva por uma odisseia estelar de puro nonsense e boa disposição. Essa viagem inclui uma visita ao planeta onde se constroem planetas de luxo, a descoberta do sentido da vida, do Universo e de tudo, um jantar no restaurante no fim do mundo, descobrir que voar é apenas ter jeito para nos atirarmos para o chão e falharmos o alvo, tudo isto na companhia do nosso melhor amigo, o seu primo, a outra sobrevivente humana da Terra e o robot mais deprimido do Universo.

Sinceramente já não me lembro como cheguei até esta obra, quem ma indicou ou onde ouvi falar dela pela primeira vez. Creio que foi um daqueles casos que uma coisa puxa a outra, e era um autor associado a outros que eu já lia. Mas quando comecei já não consegui parar, e sinceramente tem tanta substância escondida para lá da comédia superficial que nos vemos muitas vezes a ir buscar referências a este livro na nossa vida quotidiana. Se bem se lembram, ainda quando fiz o meu aniversário do ano passado falei aqui do significado de 42.

Douglas Adams, o autor desta obra (cujo aniversário era um dia antes do meu) escreveu sketches para Monthy Python, episódios do Dr. Who mas foi esta série que lhe granjeou maior fama, sendo que começou por ser um programa de rádio antes de se transformar na série de livros com o mesmo nome. Adams nunca foi um autor muito prolífico, podia mesmo dizer-se que era um pouco preguiçoso e tinha tendência a deixar passar os prazos, para desespero dos seus editores que chegaram a trancá-lo num hotel para terminar o último livro desta série. Era um activista ambiental feroz, que se dedicou a imensas actividades para defesa de espécies em extinção, e defensor dos avanços da tecnologia.

Faleceu em 2001, aos 49 anos, a 11 de Maio, e desde esse ano a 25 de Maio celebra-se o Dia Internacional da Toalha, onde todos os viajantes intergalácticos levam uma toalha consigo para os seus locais de trabalho para celebrar o legado deste escritor, ou participam em eventos organizados um pouco por todo o globo. Podem ver com antecedência aqui.

Mas, acima de tudo, não entrem em pânico!

A towel, it says, is about the most massively useful thing an interstellar hitchhiker can have. Partly it has great practical value. You can wrap it around you for warmth as you bound across the cold moons of Jaglan Beta; you can lie on it on the brilliant marble-sanded beaches of Santraginus V, inhaling the heady sea vapours; you can sleep under it beneath the stars which shine so redly on the desert world of Kakrafoon; use it to sail a miniraft down the slow heavy River Moth; wet it for use in hand-to-hand-combat; wrap it round your head to ward off noxious fumes or avoid the gaze of the Ravenous Bugblatter Beast of Traal (such a mind-bogglingly stupid animal, it assumes that if you can’t see it, it can’t see you — daft as a brush, but very very ravenous); you can wave your towel in emergencies as a distress signal, and of course dry yourself off with it if it still seems to be clean enough.

More importantly, a towel has immense psychological value. For some reason, if a strag (strag: non-hitch hiker) discovers that a hitchhiker has his towel with him, he will automatically assume that he is also in possession of a toothbrush, face flannel, soap, tin of biscuits, flask, compass, map, ball of string, gnat spray, wet weather gear, space suit etc., etc. Furthermore, the strag will then happily lend the hitch hiker any of these or a dozen other items that the hitch hiker might accidentally have “lost.” What the strag will think is that any man who can hitch the length and breadth of the galaxy, rough it, slum it, struggle against terrible odds, win through, and still knows where his towel is, is clearly a man to be reckoned with.

Hence a phrase that has passed into hitchhiking slang, as in “Hey, you sass that hoopy Ford Prefect? There’s a frood who really knows where his towel is.” (Sass: know, be aware of, meet, have sex with; hoopy: really together guy; frood: really amazingly together guy.)

— Douglas Adams, The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy

Livros que Recomendo – Diário da Bicicleta

Diario da Bicicleta

Logo no início de ter Kindle tive acesso a imensos livros de viagens, ou sobre pessoas que faziam das viagens o seu modo de vida. Como viajar é um dos meus maiores prazeres, a seguir a ler obviamente, eu li avidamente variadíssimos desses livros, enquanto que outros foram ficando por lá esquecidos na pasta do computador (onde muitos permanecem até hoje).

Mas eventualmente num dia algures em 2014 resolvi finalmente pegar neste livro e ver o que o senhor David Byrne tinha para nos dizer sobre a arte de andar de bicicleta, ele que eu só conhecia das canções, como vocalista dos Talking Heads.

E devo dizer que fiquei fascinada. David Byrne vive em Nova Iorque, que deve ser uma das cidades do mundo menos amigas dos ciclistas, e mesmo assim ele dedicou-se desde os anos 90 a pegar na sua bicicleta e pedalar para todo o lado. Não só isso, ele viaja quase sempre com uma bicicleta desdobrável na mala de porão para poder conhecer as cidades para onde vai dum modo mais intimo e profundo.

E este livro é o resultado de todas as reflexões que ele faz depois das suas deambulações por aqui e ali. Mas não se limita a ficar por um tema só, e isso é só o pretexto para nos falar de coisas tão profundas como planeamento urbano, descaracterização das grandes cidades, desertificação dos centros em nome de interesses económicos, tornando-os inseguros e desabitados, até chegarmos a conceitos tão díspares como a arte e o que nos aproxima e afasta em todos os cantos do mundo, da Europa, a África à America.

Foi neste livro que vi pela primeira vez a palavra gentrificação, longe de imaginar que ela estava a chegar à minha cidade, e quando agora vejo as lojas centenárias da Baixa desaparecer para dar lugar a mais um hostel ou mais um café uniformizado enquanto nós moradores somos empurrados cada vez mais para a periferia, até fico com os cabelos em pé.

Aconselho vivamente este livro não só a fãs de Talking Heads, nem a ciclistas temerários (eu não pego numa bicicleta há anos, com grande pena e saudade), mas a todos os que gostam de pontos de vista diferentes, interessados e informados, e que gostam de pensar sobre a nossa sociedade, o rumo que tomamos e o que podemos fazer para evitar o que não gostamos.

Boas Leituras!