Livros que Recomendo – Deaf Sentence

david lodge

Se há um autor do qual eu li quase todos os livros é David Lodge, e não me lembro de alguma vez me ter sentido desiludida. Possuidor dum sentido de humor muito britânico e apurado, os seus livros são sempre divertidos, mesmo quando abordam temas sérios, tal como este que recomendo hoje e que foi o último que escreveu até à data.

Em Deaf Sentence conhecemos a história de Desmond Bates, um professor universitário de Inglês (muitos dos seus personagens são, como ele, professores universitários do departamento de Inglês), que se reforma quando há uma restruturação do seu departamento. Isso faz com que ele comece a lidar com o facto de que está a envelhecer, e sobretudo que está a ficar surdo. Isso dá azo a muitas peripécias engraçadas, mas sobretudo ao desespero do próprio e da família.

Lutando eu com alguns problemas de audição, revi-me muito neste personagem. Não tem graça quando consecutivamente não percebemos o que nos dizem, não conseguimos seguir conversas com muita gente, e sobretudo desespera aqueles à nossa volta o facto de terem que se repetir até ao infinito, mesmo sabendo que não estamos a fazer de propósito. E eu nem sou efectivamente surda, por isso imagino a dificuldade de quem está consideravelmente pior que eu. David Lodge consegue falar de tudo isso com o seu costumeiro bom humor e divertir-nos com coisas sérias. Suponho que muito do que ele escreve neste livro ele saiba por experiência, o que ainda o torna mais interessante.

Recomendo a todos os que gostam de boas histórias, boa literatura e ver a vida real noutra perspectiva.

Boas Leituras!

Livros Que Recomendo – O Pequeno Livro dos Medos

sergio godinho

Mesmo sem a perspectiva de algum dia vir a ser mãe, desde sempre fui muito fã de livros infanto-juvenis, e continuei a lê-los muito depois de já ser adulta. Acho que se encontram verdadeiras pérolas de beleza neste mundo de livros, e é uma dessas pérolas que venho hoje recomendar.

Sérgio Godinho é não só um belíssimo escritor de canções, mas também se aventurou no mundo da literatura infantil. Este Pequeno Livros do Medos é a sua segunda incursão neste campo e data de 1991. É um livro pequeno, de 55 páginas, e que leva os seus leitores a reflectir no que é o medo, a racionalizar sobre ele com exemplos da vida do narrador, e no final a conseguir superá-los.

Muito bonito e bem escrito, sobre um tema que é tranversal a miúdos e graúdos e que nos ajuda a reflectir sobre as coisas que nos impedem de olhar em frente.

Recomendo a todos os que têm filhos e querem partilhar histórias com eles, ou todos aqueles que são sempre jovens no coração e apreciam boa escrita.

Boas Leituras!

Livros Que Recomendo – História Duma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar

sepulveda

Este livro foi publicado em 1996 pela primeira vez e creio que foi pouco depois disso que o li. Lembro-me que nunca tinha lido nada deste autor e que o título chamou-me a atenção numa Feira do Livro. Eu tinha por hábito comprar todos os anos um livro apenas pela sua capa, e nesse ano este foi o escolhido.

E fiquei agradavelmente surpreendida. É um livro curto, para miúdos e graúdos, uma alegoria ou prosa poética, sobre o valor que damos às promessas que fazemos. Já nesta altura passava também uma mensagem ambiental, concretamente acerca de derrames de óleo no oceano.

Foi num deste derrames que uma gaivota foi apanhada, e antes de morrer entrega o seu ovo ao gato Zorba, e ele promete que vai criar a gaivota e ensiná-la a voar. Todo o resto do livro é a história de Zorba a tentar cumprir a sua promessa com a ajuda de outros gatos seus amigos.

É um excelente livro para se ler com os mais pequenos, mas é uma pérola para ser lida em qualquer idade. Recomendo a todos os que gostam de leituras suaves e delicadas, histórias bonitas e bem contadas.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – A Tale For The Time Being

ruth ozeki

Nada como começar o ano a recomendar um livro complexo e desafiante. Este “A Tale For The Time Being”, de Ruth Ozeki, esteve na lista de nomeados ao Booker Prize 2013 e foi assim que cheguei até ele. O próprio título já determina o que vai ser o livro, um jogo sobre a passagem do tempo, que nos vai deixar perplexos.

É um livro que nos faz pensar na passagem do tempo, do que fazemos com ele, mas também nos permite aprender muito sobre uma cultura que nos é muito estranha, a japonesa. Através do diário que a narradora descobre na costa da ilha onde vive, conhecemos a vida de Nao, uma rapariga japonesa com uma avó monja budista, um pai que pensa constantemente em suícidio, e uma vida difícil na escola. É um livro que fala de temas difíceis e complicados, mas que é surpreendemente fácil de ler.

Eu achei-o extremamente envolvente e cativante, e fiquei deslumbrada, mesmo quando começamos a entrar em partes onde se discute física para explicar o progresso da história. Não se deixem intimidar por isso, já que a história é bonita e delicada e merece muito a pena.

Recomendado a todos os que querem uma boa leitura para começar 2020 e não se deixam intimidar por histórias complexas.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Livros que Recomendo – Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal

meia noite no jardim do bem e do mal

Este livro de 1994 é mais um dos muitos que encheram os meus anos 90, quando eu lia vorazmente e tinhas boas (e más) surpresas. John Berendt não é um escritor muito prolífico e eu não voltei a ler nada dele, mas este foi bastante interessante.

Passado na cidade americana de Savannah, na Geórgia, este livro faz um retrato (ou uma caricatura) das cidades profundamente sulistas em que cada personagem é quase um arquétipo. Aparentemente baseado numa história verídica (está classificado como non-fiction), nada o faria prever, pois é fluido e cativante como um romance. Há um crime e na senda de o deslindar vamos descobrindo como é viver numa cidade pequena, profundamente tradicional e com valores muito enraizados, como é Savannah. Cada personagem acrescenta algo novo à história e vamos descobrindo tanto o fio à meada como a própria cidade. Lembro-me de terminar de ler e ficar com imensa vontade de conhecer Savannah.

Não é uma leitura muito elaborada e profunda, mas é entretenimento garantido e um livro que se lê num fôlego. Apesar de já o ter lido há muito tempo, ainda hoje é lido por muitos e é considerado um dos clássicos modernos.

Recomendo a todos os que gostam de histórias simples mas cativantes, com personagens bem desenvolvidos e interessantes.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – O Cozinheiro Prático

cozinheiro pratico

Já que estamos a chegar ao Natal, nada como recomendar um dos livros mais emblemáticos da nossa tradição culinária. Eu tive conhecimento dele porque sempre existiu em casa da minha mãe e ela consultava imensas vezes, nomeadamente para fazer os seus maravilhosos bolinhos de areia. Assim, quando eu me mudei para a minha própria casa e o encontrei à venda numa Feira do Livro, achei que não podia deixar escapar.

No entanto, caras dona(o)s de casa do século XXI, desenganem-se se pensam que vão encontrar aqui um precioso auxiliar de cozinha. Na realidade este é um livro com imensas receitas que serão seguramente úteis a quem já se saiba orientar com os tachos, já que as instruções dadas para além das quantidades são surpreendentemente vagas e pouco precisas. Fiquei um bocadinho desiludida e ainda não consegui fazer receita nenhuma por lá. Tenho confiado mais nas inúmeras páginas de receitas que abundam na internet, mas se fosse hoje voltaria a comprá-lo porque é como ter uma memória visual da minha mãe permanentemente na estante. E cada vez que o folheio lembro-me dos bolinhos de areia e como os meus nunca conseguiram ficar iguais.

Escrito por Mariazinha (!) em 1952 este livro foi um grande sucesso durante décadas, e está dividido em capítulos de acordo com o tipo de pratos, começando nas sopas e terminando nas sobremesas. No final ainda tem dois capítulos muito interessantes, sobre como servir vinhos e um regime de 18 dias para emagrecer. Vale a pena consultar este livro e descobrir as pérolas que encerra.

Boas Leituras!

Bolos de Areia: Misturam-se 100g de açúcar com 200g de manteiga e depois de bem ligado amassa-se à mão com 500g de farinha. Depois de tudo misturado faça pequenos bolos que vão ao forno em tabuleiro não untado.

Livros que Recomendo – As Horas

as horas

A capa deste livro é mais uma daquelas estratégias de marketing que acham que as pessoas vão ler mais facilmente um livro sobre o qual se fez um filme, no entanto, a maioria dos leitores ávidos já tinham lido o livro antes do filme chegar às salas de cinema. Por isso não se deixem enganar por capas pobrezinhas como esta, o livro vale muito a pena.

As Horas” conta-nos 3 histórias, mais ou menos interligadas. A primeira é uma ficção sobre os dias de Virginia Woolf nos anos 20 do século passado, enquanto luta para escrever o seu próximo livro e ser uma boa esposa ao mesmo tempo. Depois nos anos 40 vemos a história duma mãe e dona de casa que tenta ser perfeita quando na realidade apenas deseja escapar à sua realidade e esconder-se a ler “Mrs Dalloway“. E por fim chegamos aos anos 90 onde Clarissa Vaughan está a orgaizar uma festa para o seu melhor amigo.

Estas histórias estão interligadas, principalmente as duas últimas, e fazem-nos pensar sobre as expectativas que temos sobre nós próprios e a nossa conduta, o esforço que fazemos para nos conformarmos à ideia que as pessoas têm de nós, ou aquela que queremos projectar, e como no final isso apenas nos mina por dentro.

Um livro muito bem escrito, uma história (ou histórias) que nos mantém agarrados do início ao fim, mesmo não sendo um conto de fadas ou um lindo romance com final feliz. Recomendo a todos os que gostam de boa literatura e de histórias complexas mas interessantes.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – 1984

1984

Acho que a primeira questão que se põe quando recomendo este livro é: porquê só agora? Considerando que é um livro importantíssimo, um dos marcos do século XX, porque demorou tanto tempo a aparecer no Peixinho como uma recomendação?

A resposta é simples, este livro angustia-me um bocadinho. Eu gosto de ler boa ficção e bons livros de não-ficção, mas a questão é, em qual destas categorias se enquadra este livro? Escrito em 1949 é uma distopia sobre o estado do mundo depois de várias guerras e catástrofes, em que estamos divididos por zonas de influência, mais que países, e em que tudo o que fazemos é controlado pela polícia do pensamento. Começa a soar familiar? Na minha opinião, cada vez mais.

As televisões são aparelhos de duas vias, recebem informações nossas ao mesmo tempo que transmitem as notícias manipuladas (redes sociais?) e a história é constantemente reescrita para servir os interesses da classe governativa vigente.

Muito disto não anda longe do que se passa actualmente, mesmo que com contornos ligeiramente diferentes. E em certa medida somos todos culpados. Basta fazer uma ronda diária pelo Facebook, para vermos os julgamentos que se fazem a céu aberto baseados em pedaços de informação que nem sabemos bem de onde vem, nem se foi confirmada. Pessoas que perdem empregos por rumores nas redes sociais, carreiras que são destruídas, pedidos públicos de desculpa por coisas ridículas. Enquanto isso, as coisas verdadeiramente importantes vão passando pelos buracos da chuva, despercebidas, camufladas por aquilo para onde nos fazem olhar a cada momento.

1984 é um grande livro, e deveria ser lido por todos como um cautionary tale (não encontro melhor expressão em português). Esta realidade está mesmo aí ao virar da esquina, e só estando de olhos bem abertos conseguiremos não ser engolidos por ela. Temos de fazer escolhas diárias, queremos estar (bem) informados, ou fazer parte da polícia do pensamento (politicamente correcto)?

Recomendo este livro a toda a gente, principalmente os mais jovens, e que nos ajude a andar conscientes. Vejam aqui uma opinião mais fundamentada que a minha.

Bolas Leituras!

Livros que Recomendo – As Luminárias

luminaries

Estou sempre aqui a falar dos prémios do Man Booker, e isso tem uma razão de ser. Já li muitos livros que foram nomeados ou vencedores e que me encheram as medidas. Este é um deles, o vencedor de 2013, As Luminárias de Eleanor Catton, uma escritora neo-zelandesa.

É um livro grande e complexo, mas um prazer de ler. Passado na corrida ao ouro neo-zelandesa no final do século XIX, segue Walter Moody acabado de chegar a Hokitika e que se depara com um crime e um mistério para resolver. Entra numa sala onde estão 12 homens, cada um deles de algum modo relacionado com a história. Cada um destes homens está também relacionado com um signo astrológico e a personagem foi construída de acordo com as características gerais do seu signo. Há também outros personagens associados a outros eventos astrológicos, como planetas e afins. O próprio Walter Moody é Mercúrio, associado entre outras coisas a comunicação e viagens.

Um livro muito interessante e bem construído, mesmo que não atribuamos nenhuma importância à parte astrológica. Mostra-nos a dureza da vida e dos valores numa zona remota do globo no final do século XIX, os conflitos entre os povos nativos e os colonizadores, tudo embrulhado numa história complexa e muito bem contada. É para ser lido com o cérebro bem alerta, para não deixar escapar nenhum pormenor.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história, de romance histórico, que não têm medo dum livro grande e exigente. Para uma crítica detalhada, podem ver aqui.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Cathy

cathy

Algures no início dos anos 90 começou a ser traduzida para português a BD Cathy, editada pela Gradiva. Nesse Natal eu e a minha melhor amiga oferecemo-nos mutuamente o livro, sem uma saber da outra. Cathy é uma BD que foi publicada nos Estados Unidos diariamente de 1976 a 2010 e reflectia a “mulher real”. Pelo menos uma mulher real com a qual nos podíamos relacionar. Sempre a lutar com o peso, namorados errados, e uma mãe que o que mais queria é que ela estivesse no lugar da Princesa Diana e casasse com realeza.

Muito divertido e escrito com muito auto-conhecimento, estas BD’s proporcionaram-me muitas horas de diversão, até a minha vida ter mudado de direcção e a personagem deixar de se adequar tanto à minha própria realidade.

Ainda devo ter muitos volumes em casa dos meus pais, que um dia gostarei de reler. Creio que na maior parte as piadas já estarão datadas, e mesmo o tipo de desenho já parece muito rústico, mas creio que o espírito divertido de auto-censura ainda se manterá. Para quem não se importa com o inglês, todas as tiras podem ser encontradas aqui, e uma descrição da autora aqui.

Recomendo a todos os amantes de BD e de mulheres reais.

Boas Leituras.