Livros que Recomendo – Um Bom Homem É Difícil de Encontrar

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Aqui há muitos anos atrás, logo no início de estarmos juntos, a cara-metade ofereceu-me este livro pela piada óbvia do título. No entanto, ele não dá ponto sem nó e tinha-se informado previamente que era um livro de qualidade, que valia a pena. E na realidade o livro é maravilhoso. Brutalmente maravilhoso.

Flannery O’Connor era uma escritora norte-americana, sulista, católica, que viveu de 1925 a 1964 e que apesar de ter vivido apenas 39 anos deixou-nos um espólio bastante rico em contos e 2 romances. Era uma astuta observadora da natureza humana e era isso que expunha nos seus contos, sem paninhos quentes, com sarcasmo e alguma crueldade.

Ler os contos de Flannery O’Connor é como levar um murro no estômago, por vezes temos de parar para respirar e digerir aquilo que acabámos de ler, mas não conseguimos não prosseguir para o conto seguinte.

Muitas vezes se diz que esta autora escreveu no estilo Southern Gothic, no entanto isso não significa que os seus contos sejam histórias de terror ou sobrenaturais, que não o são, são sim dum realismo cru que nos mostra sem condescendência as diferenças raciais, de classes, sociais, tão comuns no sul da América nos anos 40/50, e que se perpetuam ainda hoje, embora de maneira mais dissimulada.

Uma leitura muito forte, muito visceral, mas que recomendo a todos que gostam de boa escrita, realista, que nos leva a uma comtemplação do interior da sociedade, e por consequência de nós próprios e da nossa posição no mundo.

Boas Leituras!

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Livros que Recomendo – Breve História de Quase Tudo

bill bryson

Nada como começar o novo ano a retomar as tradições, e a usar as sextas-feiras para recomendar livros que gosto dos meus autores favoritos. E como estamos no inicio do ano, aqui vai uma grande empreitada.

Bill Bryson, como já falei aqui recorrentemente, começou por ser essencialmente um escritor de viagens, e é um dos meus autores fetiche. Volta e meia lá volto a ele, na certeza que passarei certamente um bom bocado, e nunca fico desiludida. Possuidor dum sentido de humor muito apurado, de um refinado sarcasmo, e de um olho clínico para observar o mundo que o rodeia, é exímio a transmitir tudo isso de volta aos seus leitores.

E aqui há uns anos dedicou-se a escrever sucintamente a história de quase tudo. Isso mesmo, quase tudo o que possamos imaginar, desde o início do mundo até aos nossos dias. Tudo aquilo que torna a Humanidade naquilo que a conhecemos, as descobertas, os avanços científicos, por vezes os recuos, mas sobretudo os homens e mulheres que estiveram por trás dessas descobertas e as suas idiossincrasias, tudo contado com muito conhecimento, mas temperado com o bom humor que lhe é característico. Ainda hoje recordo com um sorriso as histórias de Isaac Newton, ou como o senhor era aparentemente completamente louco, como afinal muitos génios são. Uma das coisas que ele fez foi espetar uma agulha por trás dum olho para ver o que aconteceria. Pelos vistos nada, porque o senhor também tinha muita sorte.

É uma obra grande, mas que se lê num sopro, quase sem dar por isso, sempre com um sorriso no rosto, e que quase todos os Natais vai parar ao sapatinho de algum dos meus amigos ou familiares.

Recomendo a todos aqueles que têm curiosidade pelo mundo e pela vida, pelo modo como as coisas funcionam e pelas pessoas que estão por trás dos avanços do mundo. Mas sobretudo a todos aqueles que primam pelo bom humor.

Boas leituras.

 

Livros que Recomendo – Jonathan Strange & Mr. Norrel

norrel

Quem segue o Peixinho sabe do meu amor por fantasia, ficção cientifica, ficção especulativa e tudo o que nos leve para fora da nossa realidade por vezes limitada e aborrecida. Por isso teria de inevitavelmente vir recomendar um livro que obedecesse a essa temática, mais cedo ou mais tarde, e resolvi acabar as recomendações de 2017 com um toque de magia.

Este não foi um livro da minha infância ou adolescência, como alguns dos que já recomendei aqui, na realidade já o li no Kindle. Foi publicado em 2006 e durante muitos anos vi a sua capa nas prateleiras das livrarias e olhei para ele com algum desdém. Acho que a capa das edições portuguesas me remetia para o que eu designo na minha cabeça como “literatura de gaja” e eu sou um bocadinho (pouco…) preconceituosa em relação a esse “género literário”.

No entanto, depois de aderir ao Goodreads, ele foi-me sistematicamente sendo recomendado e eu finalmente dei-me ao trabalho de ler a sinopse e percebi que se calhar até ia gostar. Não estava enganada e passei a dar mais atenção às recomendações feitas pelo Goodreads.

Jonathan Strange e Mr. Norrel é uma história passada em Inglaterra na era vitoriana e que tem como pano de fundo a magia numa altura em que ela já está em declínio no mundo. Na realidade, longe dos esplendores de outrora, os mágicos limitam-se apenas a escrever longos tratados e a fazer maçadoras reuniões entre si onde discutem regras e limitações. Mr. Norrel vive bem nesse ambiente e é um seu grande defensor. Entretanto surge sangue novo, Jonathan Strange, um mágico com sangue na guelra, que quer deixar marca no mundo e voltar à antiga influência que os mágicos tinham nos destinos da nação. E de certo modo consegue fazê-lo, mesmo que por tempo limitado.

Durante 800 páginas Susanna Clarke leva-nos pela história do século XIX mas com uma pitada extra de excitação e de deslumbramento. Para mim, este livro teve o bónus extra de parte dele ser passado a acompanhar o exército de Wellington aquando das suas incursões pelas Linhas de Torres, em defesa dos portugueses contra as invasões napoleónicas, com um twist diferente.

É uma história muito elaborada, mas fácil de seguir. A autora recheou o livro de pormenores deliciosos, como notas de rodapé para dar credibilidade história a factos puramente inventados, e eu recomendo vivamente a todos os que gostam de se deixar encantar por um mundo maravilhoso de magia.

Livros que Recomendo – Persepolis

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Nas passadas semanas tenho vindo aqui recomendar livros que me marcaram ou que acho importantes de algum modo. Até agora (e já passaram 5 títulos) ainda não tinha entrado no território das novelas gráficas, ou banda desenhada como são mais conhecidas, mas já não era sem tempo. Muita gente pode pensar que apenas se falam de heróis da Marvel, histórias fantásticas e sobrenaturais, ou coisas da Disney e afins. No entanto as novelas gráficas são um meio como outro qualquer para se falar de coisas muito sérias, e por vezes produzem-se livros com uma qualidade fenomenal, como este que vos apresento hoje.

Persepolis veio até mim primeiro na versão filme (animado também, pois claro), mas assim que tive a oportunidade (graças à biblioteca que gentilmente a minha empresa disponibiliza) agarrei a versão livro e fiquei deslumbrada. Esta é uma auto biografia da autora que cresceu no Irão na altura em que este se transformava politica e religiosamente, e que mais tarde veio para a Europa terminar os seus estudos. Mostra-nos a dificuldade de crescer num sítio onde a realidade dentro de portas contrasta largamente com a que se tem na rua, como é ter-se uma opinião num sítio onde isso é potencialmente perigoso, mas que nunca deixa de lado o bom humor.

Todo o livro (e o filme) é a preto e branco, com um traço forte, mediterrânico, e foi daqueles livros que eu li, partilhei e tenho vindo a aconselhar a plenos pulmões desde que me cruzei com ele. Recomendo a todas as pessoas, de todas as idades, pois é uma maneira muito oportuna de descobrirmos um pouco da história duma zona do mundo que por vezes nos é tão desconhecida. Deixo-vos algumas vinhetas, muito exemplificativas.

Persepolis 1

Persepolis 2

Livros que Recomendo – Os Sotãos Furados

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Hoje venho aqui recomendar um livro que me acompanhou na fase final da minha infância e me fez sonhar. Durante algum tempo tive este livro lá perdido em casa, mas por algum motivo não me puxou a lê-lo. A capa não me dizia nada, e o título também não. Mas um dia lá se devem ter esgotado as novidades e resolvi dar-lhe uma oportunidade, e foi como se um mundo de fantasia se abrisse.

A história é muito simples, mas para a mente duma criança cheia de transgressão e aventura. Centra-se em duas crianças (não me lembro se eram irmãos) que brincam no sótão da sua casa quando um dia são surpreendidos por um barulho nas paredes, e entra-lhes pelo sotão dentro um menino do sotão da casa vizinha.

E isso dá inicio ao abrir dos sótãos, sempre na expectativa de não se saber o que se vai encontrar do outro lado, se mais meninos para brincar, se adultos para terminar a brincadeira, até unirem todos os sotãos da rua inteira e forjarem uma sociedade dominada pelas crianças com regras e reuniões onde o único adulto que entra era o proprietário do sótão cheio de aves.

O objectivo final seria unir toda a cidade através das crianças, e fazer tudo às escondidas dos pais, e lembro-me que sempre que lia esse livro ficava desapontada por não haver sótãos na minha rua.

Infelizmente creio que o livro já não está em circulação, fazia parte duma antiga colecção infanto-juvenil da Verbo, e mesmo em alfarrabista será difícil encontrar. Tenho esperança que o meu exemplar ainda esteja perdido em casa dos meus pais e que o possa passar a uma criança sonhadora que goste de ler. Darei notícia se assim for.

Mas recomendo muito, se conseguirem deitar as mãos a algum exemplar, porque é um pedacinho de sonho em forma de livro.

Livros que Recomendo – Histórias Naturais

Clara Pinto Correia

Hoje, num dia que muita gente está a aproveitar para descansar ou ultimar compras natalícias, eu, que estou alegremente a trabalhar, aproveito para vir mais uma vez recomendar um livro que li há muito tempo e me acompanha o pensamento desde então.

Este livro é um caso um pouco diferente dos anteriores, porque na realidade não morro de amores por esta autora. Já tentei ler outros textos dela mas não me convenceram. No entanto acho este livro uma pequena pérola do bom humor científico.

Tal como o nome indica, o livro agrega uma série de pequenas histórias de todo o “mundo natural”, contadas dum modo muito simples mas muito cativante, recheadas de bom humor, que ao mesmo tempo entretém e ensinam. O objectivo do livro não é tanto dar uma aula de ciências da natureza, mas mais despertar o nosso interesse por pequenas curiosidades do mundo que nos rodeia, para nos podermos aperceber que é mais complexo e interessante do que aquilo que à primeira vista poderíamos pensar.

É claro que o facto de ser bióloga pode ter ajudado para achar este livro engraçado, mas creio que agradará a todo o tipo de pessoas. Apesar de o ter lido há imensos anos, ainda hoje olho para os jacarandás em Lisboa dum modo diferente por saber de onde vieram e que entram em floração todos ao mesmo tempo. Há pequenos contos dentro deste livro que ficaram sempre na minha memória e que ainda hoje partilho em conversas.

Depois, tentei ler romances da mesma autora e já não consegui sentir a mesma empatia, e mesmo O Ovário de Eva achei uma chatice. Este livro foi um grande amor, mas um amor único. Mesmo assim recomendo muito a quem goste de histórias bem contadas sobre o mundo que nos rodeia, com muito bom humor.

Livros que Recomendo – Meu Pé de Laranja Lima

Laranja Lima

Este era um dos muitos livros que estava em casa dos meus padrinhos e que durante a minha infância eu lia uma vez por ano. O meu grau de compreensão da história ia mudando com o meu grau de maturidade, mas uma coisa se mantinha constante, chorava sempre horrores com o final.

O livro conta-nos a história do Zezé, um miúdo pobre levado da breca, que passa a vida a fazer disparates, e que apanha proporcionalmente. O seu melhor amigo é um pé de laranja lima que está no quintal, o Minguinho, com quem ele desabafa e partilha aventuras. De certo modo crescem juntos, sozinhos no meio daquela família numerosa.

Aos meus olhos de criança era difícil não ficar irritada pelas vezes que o Zezé apanhava injustamente, ou era maltratado pela família. Com o meu próprio crescimento, as diferentes camadas da história foram-se revelando aos poucos, e dá para perceber que esta é uma obra muito rica e extremamente bela, que nos fala do poder da amizade e como ela pode atravessar barreiras sociais e culturais.

Olhando para a página do Goodreads hoje, vemos que é uma obra absolutamente transversal, com críticas em diversas línguas de pessoas das mais diversas nacionalidades, e isso faz-nos perceber que a história é simples mas apela a todas as sensibilidades.

Aconselho a corações de todas as idades.

Livros que Recomendo – As Cinzas de Angela

Angelas Ashes

Este foi mais um daqueles casos dum excelente livro que me veio parar às mãos por empréstimo duma amiga. E como acredito firmemente no princípio de paying it forward, tenho de o recomendar sempre que possível.

Uma das lacunas no meu percurso estudantil é história contemporânea, e a melhor maneira hoje em dia de preencher essa falha é aprender com os livros que leio. Este livro é um retrato autobiográfico duma época muito complicada da história da Irlanda, a altura da Grande Depressão. Frank McCourt era criança nessa altura, filho de pais católicos e pobres, com um pai alcoólico. Tinha nascido na América, mas voltado cedo para os suburbios de Limerick, onde o pai passava mais tempo desempregado e a beber, do que a ajudar a família. Apesar de ser uma vida complicada e cheia de dificuldades, passamos mais tempo com um sorriso nos lábios do que com lágrimas nos olhos, de tal forma é a escrita deste autor.

Este volume concentra-se essencialmente na infância do autor, a sua relação com a família, a escola, as duras dificuldades com a luta diária contra a fome, e o modo como teve de crescer rapidamente para ajudar a sua família a sobreviver. É um retrato duro e muitas vezes difícil de gerir, mas um livro que vale a pena.

Já foi feita uma versão em filme, que ainda não vi, e o autor ainda escreveu mais 2 livros que relatam a sua chegada à América, e a sua carreira como professor, que são também interessantes, mas que lhes falta um pouco da genialidade deste.

Pelo menos mais um dos seus irmãos também seguiu a carreira literária, e ambos lutaram com o alcoolismo durante a sua vida.

Aconselho como testemunho de vida e relato duma época, não tão distante assim.

Livros que Recomendo – A Voz dos Deuses

Voz dos Deuses

João Aguiar, na minha modesta opinião, é um escritor português que não tem o destaque que merece. Autor da série infanto-juvenil “O Bando dos Quatro“, que já foi adaptada à televisão pela TVI, este autor foi-me apresentado há muitos anos por uma amiga através do livro “O Homem sem Nome“, que teve um profundo impacto em mim, e que está na lista dos que procuro em alfarrabista para um dia reler.

Mas é outro livro que recomendo hoje, e que acho um dos melhores romances históricos que já li até hoje. A Voz dos Deuses começa por ser um livro passado numa época pouco retratada, quer na literatura, quer mesmo nos currículos escolares e esse é o período pré-romano e da colonização romana. Claro que é difícil falar da história pré-cristã da península ibérica já que se trata duma época largamente não documentada pela escrita, mas não deixa de ser, para mim, das épocas mais fascinantes da nossa história.

E foi essencialmente a este período que João Aguiar se dedicou, começando neste livro que relata a vida de Tongio e através dele podemos seguir Viriato e toda a rebelião das hostes bárbaras contra o invasor romano. Sofremos com eles, torcemos por eles, mesmo sabendo de antemão qual o desfecho, que é bem conhecido de qualquer português. Um livro bastante apaixonante, e com uma escrita muito envolvente, que não me canso de recomendar a quem me queira ouvir. João Aguiar, apesar de escrever ficção, preocupa-se com o rigor histórico e deixa-nos no fim explicações e enquadramentos geográficos para melhor percebermos o livro. Uma verdadeira pérola que significou para mim a entrada no reino deste autor, do qual ainda hoje continuo a comprar livros sempre que os encontro em alfarrabistas.

Recomendo largamente a todos os que gostem de ficção histórica, história de Portugal, ou simplesmente uma história bem contada com bons personagens.