Livros que Recomendo – Fernão Capelo Gaivota

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Quando eu era adolescente Richard Bach estava muito na moda, e este era o seu livro bandeira. Era um daqueles escritores como agora há muitos, de se escrever as frases favoritas em caderninhos e depois escrever nos postais de aniversário dos amigos, no tempo em que não era só uma frase com efeitos no Facebook.

Sendo aviador, os seus livros estão cheios de referências a aviões e ao acto de voar, uma espécie de Saint-Exupery dos pobres. No entanto, e apesar deste começo tão desolador, há méritos neste livros de 1970.

O nosso protagonista é uma gaivota que se cansa da vida diária, das lutas por comida, do quotidiano sem significado, e acredita que voar há-de ser mais que apenas um modo de deslocação. Porque não retirar prazer dessa actividade, aperfeiçoá-la? Ele começa então a fazer acrobacias, a tentar todos os dias voar melhor, e isso faz com que seja incompreendido pelo seu bando e posto de parte. Esta é a primeira parte desta fábula, que fala sobre nós e o nosso desejo de aperfeiçoamento constante, a nossa relação com Deus e com os outros, usando as gaivotas como pano de fundo.

Poderá ter saído de moda, e já não andar nas bocas do mundo, mas não deixa de ser uma boa reflexão, que nos faz pensar, trazida dum modo leve e despretensioso. Não será com certeza pior que os Chagas Freitas desta vida.

Recomendo a todos os que gostam de livros que nos ajudam a pensar, levezinhos e que nos prendem a uma história.

Boas Leituras!

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Livros que Recomendo -O Deus das Moscas

o senhor das moscas

O Peixinho continua a sua senda de recomendar livros, principalmente neste tempo de férias que temos mais disponibilidade temporal e mental para pôr alguma leitura em dia.

O Deus das Moscas não é um livro fácil, e às vezes é mesmo muito gráfico, mas é uma excelente alegoria sobre o ser humano e a sua capacidade de gerar caos quando se encontra numa sociedade sem regras e sem punição. Foi o primeiro romance de William Golding, que acabaria por ganhar o Nobel em 1983, e talvez o seu título mais conhecido.

Neste livro seguimos um grupo de jovens rapazes que fica preso numa ilha após um desastre de avião. Lá vão tentar sobreviver e criar a sua própria sociedade, aproveitando os recursos que a ilha lhes dá. Mas o que começa como uma empreitada já de si difícil, depressa descamba num caos agressivo, em que as disputas pela liderança, pelo que deve ser prioritário e a total liberdade levam a situações cada vez mais desastrosas.

Uma alegoria sobre a condição humana faz-nos também reflectir na “inocência” infantil, e as ideias preconcebidas que temos a seu respeito.

Aconselho a todos os que gostam de ler clássicos, livros para reflectir, e boa literatura em geral.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Cemitério de Pianos

cemiterio de pianos

 

Hoje venho recomendar um livro de José Luís Peixoto, autor que gosto particularmente, apesar de não ser fã militante e de frequentemente precisar de intervalos para digerir a sua prosa.

Este livro foi particularmente interessante para mim. É uma história familiar, estendida no tempo, com vários pontos de vista e vários personagens a relatar as suas memórias de forma intercalada. É necessário muita concentração para não perder o fio à meada, mas vale certamente a pena. Está recheado de personagens fortes e interessantes, que relatam a maravilha que é a vida quotidiana ao longo de gerações, com as suas alegrias, mas sobretudo com os seus sofrimentos.

Tem o bónus adicional de uma das personagens ser baseada na história verídica do maratonista português que morreu na maratona de Estocolmo em 1912. A morte está muito presente neste livro, e a forma como lidamos com ela e a encaramos. A morte como parte da vida.

Recomendo a todos os fãs do José Luís, e de boa literatura que nos faz pensar.

Boas Leituras.

 

 

Livros que Recomendo – Nem Aqui, Nem Ali

bryson

Já não é a primeira vez que recomendo um livro do Bill Bryson no meu estaminé, e o mesmo se aplica a livros de viagens, no entanto é o primeiro livro de viagens deste autor que recomendo. O que é estranho, porque este é o seu principal género, e ele é muito bom a escrever estes livros. Mas Uma Breve História de Quase Tudo é tão genial que tive que o recomendar primeiro.

Este livro relata a viagem que o autor faz pela Europa, recreando os passos que deu na sua juventude com um amigo da escola. 20 anos depois parte em busca do que mudou e do que se manteve igual. Dotado dum sentido de humor bastante sarcástico, que por vezes roça o ofensivo, o livro é delicioso de se ler, tendo em conta que Bill Bryson é um turista americano no sue melhor.

Por cada país que passa faz observações mordazes e certeiras e podemos ter a certeza que nos divertiremos. Tendo sido escrito algures nos anos 90, o nosso país era ainda um alegre desconhecido, por isso estamos ausentes desta narrativa. Fica a questão, se nos dias de hoje os estudantes americanos que planeiam viagens de mochila às costas pela Europa já incluirão ou não o nosso país. Pelo estado em que eu encontro a nossa Baixa de Lisboa sempre que lá vou eu diria que sim, apesar de não ser das melhores coisas para a paisagem tradicional.

Recomendo a todos os que gostam de livros de viagens, de se divertir enquanto lêem e de meditar nas diferenças culturais.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Os Filhos da Meia Noite

rushdie

Hoje venho recomendar um livro que me foi oferecido há alguns anos, e que demorei algum tempo a conseguir. É complexo, por vezes confuso, mas quando finalmente entramos na história e bastante recompensador.

Salman Rushdie é um grande contador de histórias, com um modo refinado de nos mostrar também a história do seu próprio país. Aqui fala-se de Saleem Sinai, um rapaz que nasceu exactamente à meia noite do dia em que a Índia se tornou independente. Isso conferiu-lhe poderes especiais, no seu caso relacionados com a audição e o olfacto, e também a capacidade de estar espiritualmente ligado às outras mil crianças que nasceram à mesma hora e que possuem outros poderes.

Através da história da sua família e do que o rodeia vamos descobrindo uma Índia em evolução, as suas convulsões sociais e religiosas, tudo muitíssimo bem escrito e contado. Este livro ganhou o Man Booker de 1981, se precisasse de mais recomendações.

Recomendo a todos os que gostam de boa literatura, não têm medo de mergulhar de cabeça numa história complexa, e gostam de paragens mais exóticas.

Se quiserem uma review mais completa, vejam aqui.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Ensaio Sobre a Cegueira

saramago

O livro que venho recomendar hoje é bastante diferente do que já fiz até agora. Mais concretamente porque vos venho recomendar um livro que eu própria não li. Quando estava no 9º ano, era sócia do Círculo de Leitores e comprei o Memorial do Convento, e confesso que isso me vacinou de vez contra os livros de Saramago. Nunca consegui ultrapassar o facto daquilo não ter pontuação, e a história era qualquer coisa de surreal e surrealmente aborrecida para a minha mente de 14 anos.

Claro que já uma vida se passou, e acho que deve estar na altura de fazer as pazes com o nosso único Nobel. Ou pelo menos tentar reatar a relação. Resolvi escolher este livro porque me parece kamikaze retomar o Memorial do Convento. Por outro lado gostei bastante do filme de Fernando Meirelles retirado deste livro e parece-me uma aposta mais segura.

Já todos conhecemos a história, uma epidemia de cegueira atinge a maioria da população duma cidade e as consequências na estrutura social que daí advêm. Uma premissa simples, mas poderosa.

Recomendo a todos os amantes de Saramago, ou aqueles que, como eu, estão a tentar começar uma relação com ele. Se tiverem alguma sugestão a fazer, sejam livres! Se quiserem ler uma excelente crítica, vão aqui.

Boas Leituras!

Livros Que Recomendo – A Arte de Viajar

a arte de viajar

Viajar é uma das actividades favoritas do Peixinho, no entanto está neste momento em banho maria devido à recente adição familiar. No entanto isso não significa que não se continue a fazer planos futuros e a ler sobre o assunto.

E é sobre este assunto o livro que hoje vos recomendo. Alain de Botton é um filósofo suíço que se dedica a reflectir sobre diversos temas dum modo que seja apelativo aos comuns mortais. Já falou sobre o amor, relações, religião, mas neste livro reflecte sobre viagens. Porque temos o desejo de viajar? Porque escolhemos determinados sítios em detrimento de outros? O que é realmente viajar?

Este é um livro muito fácil de ler e ao mesmo tempo muito enriquecedor. Está recheado de pequenos episódios e histórias de outros viajantes famosos, ou famosos que viajam. Mas famosos a sério, como Van Gogh, Baudelaire, Flaubert. Gente que viajou dum modo muito diferente do nosso, mas com motivações semelhantes.

Podemos ler sobre a antecipação da viagem, as motivações associadas. Viajar para descobrir a beleza, para entrar em contacto com a natureza ou a arte, para procurar o exotismo. Mas o mais importante é que qualquer que seja o destino, não podemos fugir a nós próprios.

Termina com Xavier de Maistre, que fez viagens no seu quarto, para nos mostrar que muitas vezes basta olhar para o que nos rodeia com olhos de viajante para termos uma percepção muito diferente.

Recomendo a todos os que gostam de viajar, de pensar e reflectir sobre o quotidiano e nós próprios.

Boas leituras!

Livros Que Recomendo – Graças e Desgraças na Corte de El-Rei Tadinho

alice vieira

Agora que tenho um jaquinzinho cá em casa tenho andado a remexer na minha memória de infância em busca de livros que gostaria de partilhar com ele. Alice Vieira é uma escolha óbvia, mas dentro da panóplia de títulos desta escritora, este é um dos menos óbvios mas muito divertido.

Algures no final dos anos 80, no mesmo ano da eleição Soares-Freitas do Amaral, a minha professora de português do ciclo resolveu convidar escritores conhecidos para nos visitar e fazer-nos encenar partes dos seus livros. À nossa turma calhou este, a história dum rei desajeitado que se casa com uma fada desempregada e as peripécias em que ele envolve a família.

Dentro do livro resolvemos encenar o último capítulo, em que a princesa, filha dos dois, passa por dificuldades na escola porque acredita que todas as palavras ficam mais bonitas com muitos hhhh no meio, no príncipio e no fim. Eu fiz o papel de professora desesperada que tenta por todos os meios corrigir a princesa, e ainda hoje me lembro muito bem desse teatro que fizemos.

É um livro muito divertido, cheio de ironia e uma caricatura ao típico desenrascanço português. Excelente leitura para toda a família.

Recomendo a todos os que gostam de livros infantis, ou que querem partilhar boa literatura com os seus pequenotes.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Post Office

bukowski

Charles Bukowski é um dos meus poetas favoritos e já aqui partilhei um poema dele. Só não o faço mais frequentemente porque tento privilegiar poesia escrita em português, que é vasta e com muita qualidade. Mas dos estrangeiros Bukowski tem certamente um toque especial.

Mas ele não se limitou a escrever poesia, escreveu também outros livros de “ficção”, grandemente baseados na sua própria vida e onde também deixou o seu cunho único. Bukowski tem o condão de pegar nas situações mais corriqueiras e cruas da nossa vida e pintá-las com cores de genialidade. Este foi o seu primeiro romance, escrito em 1971, quando ele já tinha 50 anos de idade. Aparentemente nunca é tarde para se ser descoberto e começar a publicar, e isso é uma esperança a que me agarro.

Mas voltando a este livro, nele seguimos Henry Chinaski, a versão autobiográfica do próprio Bukowski nos dois períodos em que ele trabalhou para os correios americanos nos anos 50, como carteiro primeiro e mais tarde como distribuidor de correspondência (sorter). A crueza com que ele descreve a sua própria realidade, a falta de condescendência para consigo próprio e o humor cínico com que vê a sua realidade são as grandes mais valias da escrita deste autor. Bukowski não é um modelo a seguir. Alcoólico, viciado em jogo e em mulheres, Bukowski não é sem dúvida um escritor dos nossos tempos politicamente correctos e asséticos. Ele diz as coisas como elas são, sem paninhos quentes, e na sua vida, como tantas vezes na nossa, as coisas não são flores e passarinhos. São erros, excessos, vertigem, culpa e situações complicadas, mas que mesmo assim conseguem ser poesia e mestria.

Recomendo o livro a todas as pessoas que não se impressionam ou escandalizam facilmente, que conseguem ver para lá das aparências, que gostam de escrita crua e apaixonada, que abraçam a diferença e se deixam surpreender.

Boas Leituras!

Can you remember who you were, before the world told you who you should be?

Livros Que Recomendo – Budapeste

budapeste

Na sequência do recente prémio Camões atribuído a Chico Buarque, hoje venho recomendar o único livro dele que li até hoje. Na realidade, gostei tanto deste livro que não percebo porque ainda não li outros, mas a minha lista de livros para ler é vasta como o universo.

Budapeste junta duas coisas que eu gosto muito, livros e a cidade que lhe dá o nome. Budapeste é sem dúvida uma das cidades que mais gostei de visitar.

Mas voltando ao livro, aqui conta-se a história de José Costa, um escritor fantasma, que escreve livros, artigos e o que mais lhe encomendarem, mas sempre em nome de outra pessoa. Apesar de ter uma vasta bibliografia, na realidade é como se não existisse, já que o seu nome nunca aparece.

José Costa vai passar um tempo em Budapeste, quase acidentalmente, e aí enamora-se pela língua e por uma mulher húngara que vai ser a sua professora. Vai andar dividido entre o Brasil e a Hungria, entre a esposa e a professora, e a sua vida e visão do mundo vão mudar radicalmente.

Este é um livro sobre identidade, linguagem e relações humanas, aquilo que nos define e as nossas aspirações. Apesar de o ter lido há muitos anos, a sua essência ainda permanece comigo.

Recomendo a todos os fãs de Chico Buarque, de boas histórias, os que já visitaram ou desejam visitar Budapeste, e os que, como eu, acham o húngaro uma língua fascinante.

Boas leituras!