Livros que Recomendo – Nem Aqui, Nem Ali

bryson

Já não é a primeira vez que recomendo um livro do Bill Bryson no meu estaminé, e o mesmo se aplica a livros de viagens, no entanto é o primeiro livro de viagens deste autor que recomendo. O que é estranho, porque este é o seu principal género, e ele é muito bom a escrever estes livros. Mas Uma Breve História de Quase Tudo é tão genial que tive que o recomendar primeiro.

Este livro relata a viagem que o autor faz pela Europa, recreando os passos que deu na sua juventude com um amigo da escola. 20 anos depois parte em busca do que mudou e do que se manteve igual. Dotado dum sentido de humor bastante sarcástico, que por vezes roça o ofensivo, o livro é delicioso de se ler, tendo em conta que Bill Bryson é um turista americano no sue melhor.

Por cada país que passa faz observações mordazes e certeiras e podemos ter a certeza que nos divertiremos. Tendo sido escrito algures nos anos 90, o nosso país era ainda um alegre desconhecido, por isso estamos ausentes desta narrativa. Fica a questão, se nos dias de hoje os estudantes americanos que planeiam viagens de mochila às costas pela Europa já incluirão ou não o nosso país. Pelo estado em que eu encontro a nossa Baixa de Lisboa sempre que lá vou eu diria que sim, apesar de não ser das melhores coisas para a paisagem tradicional.

Recomendo a todos os que gostam de livros de viagens, de se divertir enquanto lêem e de meditar nas diferenças culturais.

Boas Leituras!

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Livros que Recomendo – Os Filhos da Meia Noite

rushdie

Hoje venho recomendar um livro que me foi oferecido há alguns anos, e que demorei algum tempo a conseguir. É complexo, por vezes confuso, mas quando finalmente entramos na história e bastante recompensador.

Salman Rushdie é um grande contador de histórias, com um modo refinado de nos mostrar também a história do seu próprio país. Aqui fala-se de Saleem Sinai, um rapaz que nasceu exactamente à meia noite do dia em que a Índia se tornou independente. Isso conferiu-lhe poderes especiais, no seu caso relacionados com a audição e o olfacto, e também a capacidade de estar espiritualmente ligado às outras mil crianças que nasceram à mesma hora e que possuem outros poderes.

Através da história da sua família e do que o rodeia vamos descobrindo uma Índia em evolução, as suas convulsões sociais e religiosas, tudo muitíssimo bem escrito e contado. Este livro ganhou o Man Booker de 1981, se precisasse de mais recomendações.

Recomendo a todos os que gostam de boa literatura, não têm medo de mergulhar de cabeça numa história complexa, e gostam de paragens mais exóticas.

Se quiserem uma review mais completa, vejam aqui.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Ensaio Sobre a Cegueira

saramago

O livro que venho recomendar hoje é bastante diferente do que já fiz até agora. Mais concretamente porque vos venho recomendar um livro que eu própria não li. Quando estava no 9º ano, era sócia do Círculo de Leitores e comprei o Memorial do Convento, e confesso que isso me vacinou de vez contra os livros de Saramago. Nunca consegui ultrapassar o facto daquilo não ter pontuação, e a história era qualquer coisa de surreal e surrealmente aborrecida para a minha mente de 14 anos.

Claro que já uma vida se passou, e acho que deve estar na altura de fazer as pazes com o nosso único Nobel. Ou pelo menos tentar reatar a relação. Resolvi escolher este livro porque me parece kamikaze retomar o Memorial do Convento. Por outro lado gostei bastante do filme de Fernando Meirelles retirado deste livro e parece-me uma aposta mais segura.

Já todos conhecemos a história, uma epidemia de cegueira atinge a maioria da população duma cidade e as consequências na estrutura social que daí advêm. Uma premissa simples, mas poderosa.

Recomendo a todos os amantes de Saramago, ou aqueles que, como eu, estão a tentar começar uma relação com ele. Se tiverem alguma sugestão a fazer, sejam livres! Se quiserem ler uma excelente crítica, vão aqui.

Boas Leituras!

Livros Que Recomendo – A Arte de Viajar

a arte de viajar

Viajar é uma das actividades favoritas do Peixinho, no entanto está neste momento em banho maria devido à recente adição familiar. No entanto isso não significa que não se continue a fazer planos futuros e a ler sobre o assunto.

E é sobre este assunto o livro que hoje vos recomendo. Alain de Botton é um filósofo suíço que se dedica a reflectir sobre diversos temas dum modo que seja apelativo aos comuns mortais. Já falou sobre o amor, relações, religião, mas neste livro reflecte sobre viagens. Porque temos o desejo de viajar? Porque escolhemos determinados sítios em detrimento de outros? O que é realmente viajar?

Este é um livro muito fácil de ler e ao mesmo tempo muito enriquecedor. Está recheado de pequenos episódios e histórias de outros viajantes famosos, ou famosos que viajam. Mas famosos a sério, como Van Gogh, Baudelaire, Flaubert. Gente que viajou dum modo muito diferente do nosso, mas com motivações semelhantes.

Podemos ler sobre a antecipação da viagem, as motivações associadas. Viajar para descobrir a beleza, para entrar em contacto com a natureza ou a arte, para procurar o exotismo. Mas o mais importante é que qualquer que seja o destino, não podemos fugir a nós próprios.

Termina com Xavier de Maistre, que fez viagens no seu quarto, para nos mostrar que muitas vezes basta olhar para o que nos rodeia com olhos de viajante para termos uma percepção muito diferente.

Recomendo a todos os que gostam de viajar, de pensar e reflectir sobre o quotidiano e nós próprios.

Boas leituras!

Livros Que Recomendo – Graças e Desgraças na Corte de El-Rei Tadinho

alice vieira

Agora que tenho um jaquinzinho cá em casa tenho andado a remexer na minha memória de infância em busca de livros que gostaria de partilhar com ele. Alice Vieira é uma escolha óbvia, mas dentro da panóplia de títulos desta escritora, este é um dos menos óbvios mas muito divertido.

Algures no final dos anos 80, no mesmo ano da eleição Soares-Freitas do Amaral, a minha professora de português do ciclo resolveu convidar escritores conhecidos para nos visitar e fazer-nos encenar partes dos seus livros. À nossa turma calhou este, a história dum rei desajeitado que se casa com uma fada desempregada e as peripécias em que ele envolve a família.

Dentro do livro resolvemos encenar o último capítulo, em que a princesa, filha dos dois, passa por dificuldades na escola porque acredita que todas as palavras ficam mais bonitas com muitos hhhh no meio, no príncipio e no fim. Eu fiz o papel de professora desesperada que tenta por todos os meios corrigir a princesa, e ainda hoje me lembro muito bem desse teatro que fizemos.

É um livro muito divertido, cheio de ironia e uma caricatura ao típico desenrascanço português. Excelente leitura para toda a família.

Recomendo a todos os que gostam de livros infantis, ou que querem partilhar boa literatura com os seus pequenotes.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Post Office

bukowski

Charles Bukowski é um dos meus poetas favoritos e já aqui partilhei um poema dele. Só não o faço mais frequentemente porque tento privilegiar poesia escrita em português, que é vasta e com muita qualidade. Mas dos estrangeiros Bukowski tem certamente um toque especial.

Mas ele não se limitou a escrever poesia, escreveu também outros livros de “ficção”, grandemente baseados na sua própria vida e onde também deixou o seu cunho único. Bukowski tem o condão de pegar nas situações mais corriqueiras e cruas da nossa vida e pintá-las com cores de genialidade. Este foi o seu primeiro romance, escrito em 1971, quando ele já tinha 50 anos de idade. Aparentemente nunca é tarde para se ser descoberto e começar a publicar, e isso é uma esperança a que me agarro.

Mas voltando a este livro, nele seguimos Henry Chinaski, a versão autobiográfica do próprio Bukowski nos dois períodos em que ele trabalhou para os correios americanos nos anos 50, como carteiro primeiro e mais tarde como distribuidor de correspondência (sorter). A crueza com que ele descreve a sua própria realidade, a falta de condescendência para consigo próprio e o humor cínico com que vê a sua realidade são as grandes mais valias da escrita deste autor. Bukowski não é um modelo a seguir. Alcoólico, viciado em jogo e em mulheres, Bukowski não é sem dúvida um escritor dos nossos tempos politicamente correctos e asséticos. Ele diz as coisas como elas são, sem paninhos quentes, e na sua vida, como tantas vezes na nossa, as coisas não são flores e passarinhos. São erros, excessos, vertigem, culpa e situações complicadas, mas que mesmo assim conseguem ser poesia e mestria.

Recomendo o livro a todas as pessoas que não se impressionam ou escandalizam facilmente, que conseguem ver para lá das aparências, que gostam de escrita crua e apaixonada, que abraçam a diferença e se deixam surpreender.

Boas Leituras!

Can you remember who you were, before the world told you who you should be?

Livros Que Recomendo – Budapeste

budapeste

Na sequência do recente prémio Camões atribuído a Chico Buarque, hoje venho recomendar o único livro dele que li até hoje. Na realidade, gostei tanto deste livro que não percebo porque ainda não li outros, mas a minha lista de livros para ler é vasta como o universo.

Budapeste junta duas coisas que eu gosto muito, livros e a cidade que lhe dá o nome. Budapeste é sem dúvida uma das cidades que mais gostei de visitar.

Mas voltando ao livro, aqui conta-se a história de José Costa, um escritor fantasma, que escreve livros, artigos e o que mais lhe encomendarem, mas sempre em nome de outra pessoa. Apesar de ter uma vasta bibliografia, na realidade é como se não existisse, já que o seu nome nunca aparece.

José Costa vai passar um tempo em Budapeste, quase acidentalmente, e aí enamora-se pela língua e por uma mulher húngara que vai ser a sua professora. Vai andar dividido entre o Brasil e a Hungria, entre a esposa e a professora, e a sua vida e visão do mundo vão mudar radicalmente.

Este é um livro sobre identidade, linguagem e relações humanas, aquilo que nos define e as nossas aspirações. Apesar de o ter lido há muitos anos, a sua essência ainda permanece comigo.

Recomendo a todos os fãs de Chico Buarque, de boas histórias, os que já visitaram ou desejam visitar Budapeste, e os que, como eu, acham o húngaro uma língua fascinante.

Boas leituras!

Livros que Recomendo – Segredos de Lisboa

segredos de lisboa

Hoje venho recomendar um livro muito diferente de todos os outros que já recomendei. Um livro de não-ficção, em parte, mas essencialmente utilitário e que nos dá a conhecer coisas novas.

Sempre vivi em Lisboa e sempre gostei de fazer de turista na minha própria cidade, muito antes disso se ter tornado a moda que é hoje. Lembro-me de fazer grandes passeios pela Baixa, Castelo, Alfama, de máquina fotográfica em punho para registar pequenos recantos, e deleitar-me com o facto de andar quase sozinha por aquelas ruas. Hoje em dia isso seria impossível, e cada vez que vou à Baixa fico deprimida, não pelo excesso de pessoas, mas sim pela perda de carácter único, pela massificação, pelas lojas históricas que se perderam, restando quase exclusivamente as cadeias que encontramos em qualquer parte do mundo e restaurantes de paella em pleno Rossio.

Mas este sentimento de desencanto não significa que a nossa cidade tenha deixado de ter recantos para descobrir. Apenas necessitamos de procurar mais e às vezes ter ajuda. Foi por isso que recorremos algumas vezes aos passeios históricos da Time Travellers, duas historiadoras que se dedicam a fazer passeios temáticos em Lisboa, mostrando-nos o passado através do que ainda existe no presente.

Há uns anos elas escreveram um livro, um misto de história e ficção, onde nos mostram algumas pérolas que podemos visitar em Lisboa, sozinhos ou em família. É muito fácil de ler, e cada monumento é precedido por uma pequena ficção história para nos dar um enquadramento e ao mesmo tempo tornar real cada um daqueles locais.

Recomendo a todos os amantes de leitura, de Lisboa, de história e de passeios em geral.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Terras do Sem Fim

Terras-do-Sem-Fim

No início da minha idade adulta nutri um grande amor pelos livros do Jorge Amado e li bastantes coisas dele. Fugi das coisas óbvias e que já tinham sido convertidas em novelas da Globo, como a Gabriela e a Tieta, talvez por preconceito e achar que pouco mais seriam que histórias de amor elaboradas, e dediquei-me mais à fase em que Jorge Amado fazia relatos sociais da sua Baía, muito influenciado pela sua ideologia política da altura.

De todos os que li Terras do Sem Fim foi dos que mais me marcou. Neste livro faz-se um relato muito cru e verosímil das guerras pelas terras ferteis do sul da Baía. Vê-se os jogos politícos, a violência, a lei do mais forte, do mais rico e do mais armado. É um retrato dum Brasil que esperaríamos que já não existisse, mas que pelos relatos que vamos tendo de mortes de activistas contra o desmatamento da selva Amazónica, ou defensores das comunidades indígenas, percebemos que não está assim tão distante, talvez apenas mais subtil.

Na realidade é a luta mais antiga do mundo, aquela que diz os meus interesses são mais importantes que os teus, e que existe no Brasil como no resto do mundo (barragens desnecessárias e que são verdadeiros atentados ecológicos e às populações locais, será que nos diz alguma coisa?), mas que aqui foi magistralmente descrita por Jorge Amado.

Aconselho a todos os que gostam duma história forte, bem contada, sobre coisas que se poderiam ter passado na realidade. Todos os que gostam de literatura brasileira, e livros bem escritos no geral.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – O Homem que Era Quinta-Feira

chesterton

Quem vê na Fox Crime a série Os Mistérios do Padre Brown já conhece este autor. Eu não vejo, e acabei de descobrir enquanto investigava para este post, que G. K. Chesterton foi o escritor de ambas as obras. Fiquei com curiosidade de ver/ler este Padre brown, já que se for da mesma qualidade d’O Homem Que Era Quinta-Feira será garantidamente boa leitura.

G. K. Chesterton foi um prolífico escritor inglês do início do século XX, com muitas obras publicadas, de ficção, poesia, ensaios, peças de teatro. Até agora apenas li este livro, mas foi uma experiência bastante positiva. Gabriel Syme é um detective da Scotland Yard contratado para a policia ante-anarquista. Conhece Lucian Gregory, um poeta anarquista, e com ele debate o sentido da poesia. Os dois homens vão então embarcar numa viagem alucinante (ou de pesadelo, como o nome do livro indica) pelos meandros das células anarquistas londrinas do início do século XX, em cada membro do conselho tem o nome dum dia da semana.

Este livro deixa-nos antever um pouco do ambiente da época, ao mesmo tempo que nos introduz um estilo de escrita diferente e meio surreal. A obra está também recheada de significados ocultos e referências a coisas importantes para o autor, como o cristianismo, e é por isso uma leitura muito rica.

Ao longo dos anos Chesterton tem sido influência em muitos outros escritores, apesar de nos dias de hoje ser uma figura menos conhecida. No seu tempo, esteve a par com George Bernard Shaw e Oscar Wilde, embora em latitudes diferentes no que se refere a opiniões e visões de vida, muitas das quais debatidas publicamente. Mais recentemente temos por exemplo a personagem da série Sandman de Neil Gaiman, Gilbert, que foi largamente inspirada neste escritor.

Aconselho a leitura a todos os que gostam de clássicos, de boa literatura, de histórias estranhas mas com ambiente histórico. Se tiverem meios digitais de leitura, podem encontrar algumas obras de Chesterton, incluindo esta, no Project Gutenberg gratuitamente. Basta ir aqui.

Boas leituras!