Livros que Recomendo – Segredos de Lisboa

segredos de lisboa

Hoje venho recomendar um livro muito diferente de todos os outros que já recomendei. Um livro de não-ficção, em parte, mas essencialmente utilitário e que nos dá a conhecer coisas novas.

Sempre vivi em Lisboa e sempre gostei de fazer de turista na minha própria cidade, muito antes disso se ter tornado a moda que é hoje. Lembro-me de fazer grandes passeios pela Baixa, Castelo, Alfama, de máquina fotográfica em punho para registar pequenos recantos, e deleitar-me com o facto de andar quase sozinha por aquelas ruas. Hoje em dia isso seria impossível, e cada vez que vou à Baixa fico deprimida, não pelo excesso de pessoas, mas sim pela perda de carácter único, pela massificação, pelas lojas históricas que se perderam, restando quase exclusivamente as cadeias que encontramos em qualquer parte do mundo e restaurantes de paella em pleno Rossio.

Mas este sentimento de desencanto não significa que a nossa cidade tenha deixado de ter recantos para descobrir. Apenas necessitamos de procurar mais e às vezes ter ajuda. Foi por isso que recorremos algumas vezes aos passeios históricos da Time Travellers, duas historiadoras que se dedicam a fazer passeios temáticos em Lisboa, mostrando-nos o passado através do que ainda existe no presente.

Há uns anos elas escreveram um livro, um misto de história e ficção, onde nos mostram algumas pérolas que podemos visitar em Lisboa, sozinhos ou em família. É muito fácil de ler, e cada monumento é precedido por uma pequena ficção história para nos dar um enquadramento e ao mesmo tempo tornar real cada um daqueles locais.

Recomendo a todos os amantes de leitura, de Lisboa, de história e de passeios em geral.

Boas Leituras!

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Livros que Recomendo – Terras do Sem Fim

Terras-do-Sem-Fim

No início da minha idade adulta nutri um grande amor pelos livros do Jorge Amado e li bastantes coisas dele. Fugi das coisas óbvias e que já tinham sido convertidas em novelas da Globo, como a Gabriela e a Tieta, talvez por preconceito e achar que pouco mais seriam que histórias de amor elaboradas, e dediquei-me mais à fase em que Jorge Amado fazia relatos sociais da sua Baía, muito influenciado pela sua ideologia política da altura.

De todos os que li Terras do Sem Fim foi dos que mais me marcou. Neste livro faz-se um relato muito cru e verosímil das guerras pelas terras ferteis do sul da Baía. Vê-se os jogos politícos, a violência, a lei do mais forte, do mais rico e do mais armado. É um retrato dum Brasil que esperaríamos que já não existisse, mas que pelos relatos que vamos tendo de mortes de activistas contra o desmatamento da selva Amazónica, ou defensores das comunidades indígenas, percebemos que não está assim tão distante, talvez apenas mais subtil.

Na realidade é a luta mais antiga do mundo, aquela que diz os meus interesses são mais importantes que os teus, e que existe no Brasil como no resto do mundo (barragens desnecessárias e que são verdadeiros atentados ecológicos e às populações locais, será que nos diz alguma coisa?), mas que aqui foi magistralmente descrita por Jorge Amado.

Aconselho a todos os que gostam duma história forte, bem contada, sobre coisas que se poderiam ter passado na realidade. Todos os que gostam de literatura brasileira, e livros bem escritos no geral.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – O Homem que Era Quinta-Feira

chesterton

Quem vê na Fox Crime a série Os Mistérios do Padre Brown já conhece este autor. Eu não vejo, e acabei de descobrir enquanto investigava para este post, que G. K. Chesterton foi o escritor de ambas as obras. Fiquei com curiosidade de ver/ler este Padre brown, já que se for da mesma qualidade d’O Homem Que Era Quinta-Feira será garantidamente boa leitura.

G. K. Chesterton foi um prolífico escritor inglês do início do século XX, com muitas obras publicadas, de ficção, poesia, ensaios, peças de teatro. Até agora apenas li este livro, mas foi uma experiência bastante positiva. Gabriel Syme é um detective da Scotland Yard contratado para a policia ante-anarquista. Conhece Lucian Gregory, um poeta anarquista, e com ele debate o sentido da poesia. Os dois homens vão então embarcar numa viagem alucinante (ou de pesadelo, como o nome do livro indica) pelos meandros das células anarquistas londrinas do início do século XX, em cada membro do conselho tem o nome dum dia da semana.

Este livro deixa-nos antever um pouco do ambiente da época, ao mesmo tempo que nos introduz um estilo de escrita diferente e meio surreal. A obra está também recheada de significados ocultos e referências a coisas importantes para o autor, como o cristianismo, e é por isso uma leitura muito rica.

Ao longo dos anos Chesterton tem sido influência em muitos outros escritores, apesar de nos dias de hoje ser uma figura menos conhecida. No seu tempo, esteve a par com George Bernard Shaw e Oscar Wilde, embora em latitudes diferentes no que se refere a opiniões e visões de vida, muitas das quais debatidas publicamente. Mais recentemente temos por exemplo a personagem da série Sandman de Neil Gaiman, Gilbert, que foi largamente inspirada neste escritor.

Aconselho a leitura a todos os que gostam de clássicos, de boa literatura, de histórias estranhas mas com ambiente histórico. Se tiverem meios digitais de leitura, podem encontrar algumas obras de Chesterton, incluindo esta, no Project Gutenberg gratuitamente. Basta ir aqui.

Boas leituras!

Livros que Recomendo – Charlie e a Fábrica de Chocolate

charlie

Depois das mais recentes novidades ictiológicas, nada melhor do que recomendar um livro para crianças. E este é sem dúvida um livro universal, que se tornou ainda mais conhecido depois do fabuloso filme do Tim Burton.

O livro está tão alucinante e bem disposto como o filme, e tem como bónus adicional termos acesso às letras das canções dos Oompa Loompas, que são um tratado de sarcasmo.

Li este livro bem depois de ter visto o filme, em duas viagens de autocarro para o trabalho, já que é uma pérola que se lê rápido e com entusiasmo. Não me vou alongar aqui a contar a história, porque acredito que já toda a gente a conhece.

Recomendo a todos os que gostam de bons livros, mesmo sendo de crianças, e que gostam de se sentir maravilhados.

Boas Leituras!

“IT ROTS THE SENSES IN THE HEAD!
IT KILLS IMAGINATION DEAD!
IT CLOGS AND CLUTTERS UP THE MIND!
IT MAKES A CHILD SO DULL AND BLIND
HE CAN NO LONGER UNDERSTAND
A FANTASY, A FAIRYLAND!
HIS BRAIN BECOMES AS SOFT AS CHEESE!
HIS POWERS OF THINKING RUST AND FREEZE!
HE CANNOT THINK–HE ONLY SEES!
‘All right!’ you’ll cry. ‘All right!’ you’ll say,
‘But if we take the set away,
What shall we do to entertain
Our darling children? Please explain!’
We’ll answer this by asking you,
‘What used the darling ones to do?
‘How used they keep themselves contented
Before this monster was invented?’
Have you forgotten? Don’t you know?
We’ll say it very loud and slow:
THEY…USED…TO…READ! They’d READ and READ,
AND READ and READ, and then proceed
To READ some more. Great Scott! Gadzooks!
One half their lives was reading books!
The nursery shelves held books galore!
Books cluttered up the nursery floor!”

Livros que Recomendo – Salamão e Mortadela

salamao

Ora quem segue o Peixinho sabe da minha predilecção por BD, especialmente aquela que é mesmo uma arte, como Neil Gaiman ou Miguelanxo Prado. Mas às vezes também sabe bem ler daquela BD que não tem mais intuito nenhum a não ser fazer-nos dar umas gargalhadas, e muitas vezes por coisas bastante parvas.

É o caso destes livros do Salamão e Mortadela que li algures no final da minha adolescência e muito me divertiram. O humor não é fino e refinado, e o traço não é absolutamente belo, como tantas coisas que tenho partilhado aqui, mas é entretenimento para toda a família, e sobretudo ideal para alturas, como aquela em que me encontro, que o cérebro não consegue absorver informação muito complexa.

Salamão e Mortadela são agentes da TIA, mas não são uns agentes quaisquer. Salamão é profundamente azarado, e Mortadela tenta sempre resolver tudo com um disfarce inútil, que só ajuda à confusão. São também ajudados por uma fiel secretária, um inventor duvidoso, e claro, têm um chefe irascível e pouco eficaz. Clara paródia aos mistérios do James Bond e às agências secretas como a CIA. O seu autor é um espanhol Francisco Ibañez e a primeira publicação em Espanha já data de 1958.

Sei que se fez um filme recentemente, mas sinceramente não vi e não creio que seja uma obra prima. Os livros também já devem andar esgotados nas livrarias, mas ainda anda muita coisa nos OLX da vida, caso estejam mesmo interessados.

Recomendo a todos os que gostam de divertimento sem compromissos, humor com um toque ibérico e BD em geral.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – A Sangue Frio

in cold blood

Estava outro dia a passar a ferro e a fazer zapping para encontrar alguma coisa digna de se ver na TV, coisa nem sempre fácil nos dias de hoje, quando me cruzei com um filme que já tinha visto e que gostei bastante, Capote, com o fenomenal Philip Seymour Hoffman. Ora, isso levou-me a pensar no livro a que o filme se refere, que já li há alguns anos e que achei bastante bom.

A Sangue Frio (In Cold Blood), foi o livro que Truman Capote se propôs escrever na sequência duma investigação para o New Yorker acerca do homicídio duma familia inteira na sua própria casa, aparentemente sem nenhum motivo conhecido.

No filme seguimos toda a sequência de investigação de Capote, o modo como foi ficando cada vez mais envolvido com os assassinos na tentativa de entender o que se teria passado nas suas cabeças naquela noite em 1959.

No livro, uma espécie de romance real, seguimos todos os personagens desse dia, e Capote quase que faz uma análise psicológica de todos os intervenientes em vez de se limitar a contar factos friamente. Acho que é isso que torna este livro tão rico, muito mais que um relato desapaixonado dum evento macabro, e terá sido esse envolvimento do escritor que o levou a entrar numa espiral depressiva e de abuso de alcóol que eventualmente levou à sua morte.

É um livro interessantíssimo que nos mostra sem pudores a natureza humana, ou pelo menos a sua faceta mais negra. Recomendo a todos os que não se impressionam facilmente e que são fascinados por livros envolventes e bem escritos.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – A Varanda do Frangipani

Mia Couto

A semana passada recomendei aqui um livro de realismo mágico sul-americano, e esta semana, para não fugir muito ao tema, venho recomendar um outro livro de realismo mágico, mas desta vez africano. A literatura africana tem alguns autores com uma voz muito peculiar, e Mia Couto é um desses casos. Este foi o primeiro livro que li deste escritor, já lá vão mais de 20 anos, e fiquei rendida.

É quase poética a maneira como Mia Couto nos conta a história de Ermelindo Mucamga, um fantasma preso nas raízes dum frangipani numa fortaleza do tempo colonial. Através dos seus olhos vamos poder observar Moçambique e as suas adaptações à realidade da independência, vamos poder estar imersos na cultura e nas dificuldades dum povo que luta para se afirmar, e vamos poder também assistir a uma resolução utópica para esta nova fase histórica.

Este é talvez o melhor livro do autor, que é também biólogo de formação, e talvez por isso entrem pangolins e frangipanis na sua escrita, símbolos da riqueza ecológica de Moçambique. Este é um livro muito poético, muito pertinente, e que é um prazer de ler.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história, salpicada de elementos fantásticos, mas que nos retratam realidades muito concretas.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Cem Anos de Solidão

GGM

aqui recomendei um livro de Gabriel García Márquez, um dos mais importantes escritores sul-americanos do século XX, mas depois da compra dos direitos desta obra pela Netflix para uma série, achei que estava na altura de vir aqui recomendar que o leiam antes que saia o produto televisivo.

Cem Anos de Solidão não é um livro fácil, e estou curiosa em saber como resultará em série. Eu própria penso que terei de o reler antes, para me poder indignar com justiça, ou espantar com a qualidade da adaptação. Mas, como o título indica, ao longo de 100 anos, mais coisa menos coisa, vamos seguindo a odisseia da família Buendía Iguaran, fundadores da aldeia fictícia de Macondo, situada num local remoto da América do Sul. Começamos com o casal José Arcádio Buendia e Ursula Iguaran, os patriarcas e pilares desta família, e seguimos a história até aos seus trinetos. O facto da maioria dos filhos homens se chamarem alternadamente José Arcádio ou Aureliano é muito significativo para a história e revela muito sobre os personagens, mas torna a leitura desafiante e, para os menos resistentes, até aborrecida.

Mas este livro é tudo menos aborrecido. Quando eu o li, faz mais de 20 anos, ainda tinha boa memória, e consegui seguir a história sem problemas. Lembro-me de passar noites acordada para acabar o livro, e que chorei imenso quando este terminou, não só pelo final impactante, mas pela angústia da separação daquela família que quase se tornara a minha. Hoje em dia seria impensável o meu cérebro tipo queijo suíço conseguir manter a cadência de todos aqueles filhos, netos, etc, etc, mas há várias estratégias. Há quem tenha feito anotações numa folha metida dentro do livro, para facilidade de consulta, ou, na era das novas tecnologias, há imensas árvores genealógicas disponíveis que nos ajudam nessa tarefa.

Escrito nos anos 60 e publicado em 1967, com uma primeira edição de apenas 10000 exemplares, este livro é hoje em dia um ícone da literatura sul-americana, ficando apenas atrás de D. Quixote de La Mancha em termos de importância para a língua espanhola.

Outra vantagem, é que este livro á tão antigo que certamente encontrarão bons preços nas livrarias, alguém terá para emprestar, ou andará perdido em alfarrabistas. Isto antes de se aproximar muito a febre do Netflix, que com certeza fará inflacionar tudo.

Recomendo a todos os que são fãs de boa literatura, não se deixam assustar com o tamanho e complexidade de um livro, e que gostam de um toque de realismo mágico sul-americano.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – A Cor da Magia

terry pratchett

Já não era sem tempo vir aqui recomendar um livro de Terry Pratchett, um dos autores mais amados no seu género, algo indistinto entre fantasia e ficção cientifica. Ele é o criador do Discworld, um mundo em formato de disco voador suportado por 4 elefantes, que anda à deriva no universo às costas duma tartaruga de sexo desconhecido. Se vos parece uma ideia louca, é porque o é.

Mas mais que louco, estes livros são insanamente divertidos. A Cor da Magia foi onde começou toda a história, que se expande ao longo de cerca de 41 livros, com toda a trama a ser passada neste mundo, se bem que não necessariamente ligada. Temos vários ciclos de histórias, que seguem diferentes personagens chave, e neste livro temos o até agora meu favorito Rincewind, um feiticeiro falhado e com pouca sorte, a quem tudo acontece ao contrario do esperado, e que tem um certo desespero sarcástico com o qual muito me identifico.

Há outras séries de histórias muito interessantes, que seguem personagens engraçados, como a morte, as bruxas, etc, mas destaco este livro, porque embora não sendo o melhor foi a estreia de Terry Pratchett com este mundo.

Há várias teorias de qual a melhor maneira de ler ou abordar esta série gigante de livros que demorou 32 anos a escrever e que creio que só terminou pela doença e consequente morte do seu autor. Eu sou um bocadinho obsessiva, e gosto de ler por ordem de publicação, mas aqui não há regras e podemos escolher um dos arcos da história e seguir por aí. Neste artigo ficam com uma ideia das possibilidades.

Mas peguem no que pegarem, aconselho a darem uma oportunidade a estes livros, porque têm diversão garantida e mesmo algumas reflexões sobre a nossa sociedade e o nosso mundo escondidos pelo meio.

Recomendo a todos os fãs do género, a todos os que gostam de se divertir com um bom livro, e os que gostam de conhecer coisas novas e diferentes.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – The Summer Tree

summer tree

Já há algum tempo que não vinha aqui recomendar um verdadeiro livro de fantasia, que me agradam tanto. Às vezes torna-se dificil descolar das opções óbvias e encontrar algo verdadeiramente novo nestes mundos, mas outras vezes encontramos umas pérolas, que apesar das óbvias referências a Tolkien, que foi o maior influenciador do género, continuam a cativar-nos e a fazer ler um verdadeiro prazer.

Foi o caso com este livro de Guy Gavriel Kay, um escritor canadiano que foi assistente do filho de Tolkien a compilar as notas dos trabalhos por publicar de JRR Tolkien, e ajudou a editar o Silmarillion. Está assim perdoada a óbvia referência existente neste The Summer Tree, o primeiro volume da trilogia The Fionavar Tapestry, que foi também o primeiro livro deste autor, publicado em 1984.

The Summer Tree começa no nosso mundo nos dias de hoje (ou nos de 1984 para ser mais exacta) seguindo um grupo de 5 amigos universitários, que estudam na Universidade de Toronto. Após assistirem a uma palestra, descobrem que o professor que a deu é na realidade um mago dum outro mundo que veio à Terra buscar 5 convidados para participar na festa do quinquagésimo aniversário do reinado do rei Ailell of Brennin. Cauções atiradas ao vento, os 5 amigos lá seguem para Fionavar, embarcando numa aventura delirante onde descobrem muitas coisas sobre si próprios e o seu lugar no(s) mundo(s).

Nota-se aqui também uma influência de C. S. Lewis e as suas Crónicas de Nárnia, no facto dos amigos pertencerem ao nosso mundo e integrarem simultaneamente outro, mas não deixem que tudo isto vos impeça de apreciar um livro (ou 3) que são verdadeiramente alucinantes, carregados de ritmo e boa história, e que todos os minutos são poucos para irmos desvendando a trama. A história é coerente e bem desenhada, e no fim temos uma experiência muito gratificante que só temos pena que não se repita com todos os livros.

Recomendo a todos os amantes de fantasia, de livros que entretêm com uma boa história.

Boas Leituras!