Livros que Recomendo – The Complete Maus

Maus

À semelhança de Persepolis que eu recomendei a leitura há uns tempos atrás, este foi mais um brilhante volume de banda desenhada para adultos que li através da biblioteca da minha empresa, e que trata de temas delicados e fortes dum modo absolutamente diferente.

The Complete Maus foi escrito/desenhado por Art Spiegelman e conta-nos a história dos seus pais e de como eles sobreviveram ao holocausto. Eu já li bastantes livros sobre este tema, sobre variadissimos ângulos mas este foi sem dúvida dos meus favoritos. Pode parecer estranho à partido lermos um livro de banda desenhada sobre uma temática tão delicada, mas na realidade o autor usou de artifícios apenas disponíveis neste meio para ilustrar o absurdo desta guerra, e do sofrimento dum povo. Aqui os judeus são retratados como ratos, os alemães como gatos, os polacos porcos e os americanos cães, ilustrando assim como é estranho diferenciar as pessoas pelas suas crenças/nacionalidades quase como se as transformássemos numa espécie diferente.

Ao fazer o acompanhamento dos personagens ao longo do tempo, desde a guerra até à altura em que o próprio autor é adulto e interage com o pai que lhe conta a sua história, podemos também ver os efeitos duradouros que o horror vivido teve na vida de todos aqueles que sobreviveram, e como isso perdurou para as gerações seguintes, que mesmo não entendendo, ficaram também profundamente afectadas.

Este era um livro que facilmente poderia ter corrido mal, estava construído numa corda bamba delicada, no entanto é belíssimo, muito bem construído, e mesmo a crueza dos desenhos, na minha opinião, acrescenta à história.

Recomendo a todos os que gostam de banda desenhada, histórias fortes sobre a nossa história mundial e bons livros em geral.

Goodreads Review

Boas Leituras!

 

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Livros que Recomendo – O Principezinho

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Pensando em retrospectiva este talvez fosse um dos primeiros livros que eu devesse ter recomendado aqui neste meu espaço. Não tenho livros ou autores favoritos, vou tendo gente que me acompanha em determinadas alturas da vida e leituras que deixam marcas para sempre. No entanto, este livro será o que mais se aproxima dum livro favorito. Dizia uma amiga de infância que o mundo se divide entre pessoas que gostam do principezinho e pessoas que não gostam do principezinho, sendo que estas últimas são para termos cuidado com elas.
Eu não terei porventura uma visão tão radical, mas confesso que me faz arrepiar os cabelos da nuca se alguém confessa não gostar. No entanto, este é um dos livros mais vendidos de sempre, daí não ter tido ainda urgência em vir aqui recomendá-lo.

E o que torna este livro tão especial? Bom, por onde começar? Não nos deixemos iludir pela história simples do menino que anda pelo universo à procura de amigos, nem fiquemos demasiado presos às dezenas de citações que podemos encontrar em todo o lado. Apesar de à primeira vista ser um livro infantil, na realidade os significados ocultos, a dor da perda, o amor, tudo isso se dirige à um público adulto e capaz de entender nas entrelinhas.

E depois o próprio Saint-Exupéry com a sua morte misteriosa e o cunho biográfico imprimido na obra, tornaram este livro um dos mais importantes da literatura do século XX.

Uma ode à descoberta do que realmente é importante na nossa vida, de como podemos cativar e amar os outros à nossa volta, este é daqueles livros que deviam ser de leitura obrigatória para formação pessoal.

Recomendo a todos, sem excepção. E se  não gostarem, por favor não me digam.

Boas leituras!

Livros que Recomendo – Sandman Slim

sandman slim

Já aqui falei de Sandman Slim quando li as suas oitava e nona aventuras, e achei que estava na altura de finalmente falar destes livros nesta rubrica.

James Stark era um jovem meio desmiolado e interessado no oculto quando foi traído pelos seus amigos de então e mandado vivo para o Inferno para passar uma temporada como mercenário de alguns demónios poderosos, assassinando rivais em seu nome ou lutando nas arenas infernais para seu entretenimento.

Onze anos depois está de volta às ruas de Los Angeles, um Inferno em nome próprio, onde vai finalmente poder pôr todas as competências que adquiriu a uso para causas um pouco mais nobres. Aí descobre que é metade homem, metade Anjo e isso o torna muito forte, mas ao mesmo tempo uma Abominação aos olhos de muitos.  Aliamos a isto um terrível mau feitio, uma sala que o transporta magicamente para qualquer sítio à escolha, uma atitude punk dos tempos modernos e um planeta a precisar de ser salvo e temos aqui a receita para umas boas horas de entretenimento e bom humor.

Sandman Slim é uma série de fantasia urbana, cheia de motas e carros rápidos, uma cidade voraz e esmagadora e suficientes referências da cultura pop para nos deixar agarrados às páginas. Não é alta literatura, nem as histórias são incrivelmente densas, mas são coerentes, coesas, bem trabalhadas e sem pontas soltas, fazem sentido e, pelo menos a mim, divertem-me imenso. Até o Inferno parece um sítio divertido para se beber uns copos.

De cada vez que preciso de descontrair o cérebro, como quem faz alongamentos depois duma longa sessão de ginásio, vou ver se Richard Kadrey já acrescentou mais algum volume à série do Sandman Slim. Tendo em conta que é um autor muito prolífico, normalmente não me desiludo. Vem mesmo a propósito que o décimo volume destas aventuras está quase a ser lançado, Hollywood Dead, e espero dar conta da sua leitura em breve.

Se não conhecem, aconselho obviamente a começar de início, por este mesmo título e perceberem quem é na realidade O Sandman Slim, anti herói que voltou do Inferno e que está sempre a um passo de lá voltar.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – A Rapariga que Roubava Livros

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O livro que recomendo hoje é um dos muitos que nos fala sobre a Segunda Guerra Mundial. Se calhar não será o melhor ou o mais completo, e é certamente controverso, daqueles que se ama ou odeia. Eu enquadro-me na primeira categoria.

Creio que foi a cara-metade que sugeriu a leitura, mas seja como for lemos os dois, e gostámos igualmente. Apesar do pano de fundo pouco original (há largas dezenas de livros passados na Segunda Guerra Mundial), este livro consegue manter alguma frescura na história e na forma como é narrado. Começa por se enquadrar num género denominado em inglês de Young Adult, que na nossa língua teria mais ou menos a correspondência à literatura infanto-juvenil, mas que na realidade não é bem a mesma coisa. Young Adult pressupõe não crianças a entrar na adolescência, mas sim jovens adultos em formação, que estão precisamente a sair dos anos da adolescência e a entrar na idade adulta. Os vintes, diria eu. E nesta categoria incluem-se livros muito interessantes e de temáticas muito ricas, este é um deles.

Começa pelo facto da guerra nos ser mostrada com um olhar alemão, contrariamente ao que estamos habituados, e percebemos que há impactos negativos dos dois lados da barricada, e que as pessoas comuns vêem as suas vidas afectadas sempre. Depois o narrador é também pouco convencional, a morte, e o modo sarcástico como ela interage com os leitores e a história foi o que para mim ganhou pontos, mas que para muitos leitores os fez desgostar do livro.

Depois as demonstrações de sensibilidade e amor escondidas nos sítios e nas pessoas mais improváveis são também uma pérola desta história, que nos faz descobrir que toda a gente tem um coração, por mais que se esforce por o esconder. Depois, é um livro sobre livros, não há como não gostar.

A história é sobre Liesel, uma jovem alemã que vai viver com uma família de acolhimento numa pequena cidade alemã perto de Munique em plena Segunda Guerra Mundial, a sua adaptação ao local, às pessoas e à realidade da guerra. Pelo meio ajudam um rapaz judeu a esconder-se e os livros desempenham um papel crucial de união.

Tal como muitos dos livros que já recomendei aqui, também deste se fez um filme. Já vi, não é mau, mas falta-lhe algo da intimidade do livro, como seria de esperar.

Recomendo a todos os que gostam de histórias fortes, ver temas sérios por diferentes ângulos e que lidam bem com emoções.

Goodreads Review.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Andam Faunos Pelos Bosques

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Não sei quantas vezes referi aqui que tirei o curso de Biologia, nomeadamente Biologia Ambiental na sua variante de recursos terrestres. Isso fez-me ter cadeiras interessantíssimas, como por exemplo Fauna de Portugal. O professor dessa cadeira era em si mesmo um personagem, mas isso fez com que fosse das cadeiras onde mais informação me ficou retida na memória, e aprendi imenso com ele. Um dos  muitos ensinamentos que ele nos transmitiu é que Aquilino Ribeiro era um autor português onde era possível aprender imenso sobre a fauna do nosso país, e isso fez-me andar desde então em romaria à procura dos seus livros.

Longe estava eu de imaginar que seria tão difícil de encontrar livros dele à venda, pelo menos há uns anos atrás não se encontrava nada nas livrarias. Ora, eu não sou de me atrapalhar, e consegui uns quantos volumes a 2€ cada um num alfarrabista e comecei por ler este Andam Faunos Pelos Bosques, porque bosques e criaturas míticas apelam ao meu lado amante de fantasia.

Ler num Kindle tem a vantagem de se ter um dicionário na ponta dos dedos. Quando se pega novamente em papel percebe-se que essa facilidade deixa de estar lá. Normalmente não é problemático porque em papel leio essencialmente em português, mas Aquilino Ribeiro é uma leitura muito desafiante. Há imensas palavras que não sei o significado, e como são especificas das beiras (ou inventadas pelo escritor?), não consegui encontrar no dicionário. Talvez pelo seu intenso domínio do português e pela sua temática tão regional ande tão desaparecido dos escaparates.

Mas isso não diminuiu em nada o prazer de ler esta história fantástica, carregada de crónica de costumes dum Portugal que já não existe a não ser de forma residual. Algures nas serras das Beiras as donzelas andam a perder a sua pureza e atribuem esse facto a uma criatura peluda e viril, que não as força, mas que as deixa sem vontade de resistir. O fauno tem bom gosto e escolhe as mais jovens e mais belas, as feias e desinteressantes só Deus quer. Instala-se o pânico, os homens organizam-se e faz-se uma batida por essas serras fora para encontrar o culpado. Que obviamente nunca será encontrado, e são os padres da região, reunidos em Viseu, quem desvendará o mistério.

No meio desta história simples faz-se uma crítica social apurada, onde não escapa nem povo, nem clero, nem nenhum dos costumes estranhos que definem a nossa portugalidade rural. Os padres são, aliás, um dos principais alvos desta crónica, e não escapam a uma crítica mordaz, mas são também a chave de todo o livro. Uma pérola que recomendo muito a todos os que gostam de literatura portuguesa que nos ajuda a viajar no tempo e na história. Estão na calha pelo menos mais 3 títulos deste escritor, assim que tiver novamente cabeça para andar confundida com a minha língua mãe.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Kitchen Confidential

Kitchen Confidential

Acho que os eventos recentes ditam que eu venha falar deste livro neste momento. Já o tinha posto na minha lista de livros a recomendar, mas um pouco mais lá para a frente, mas infelizmente repensei e vim falar dele agora. Kitchen Confidential, o livro que lançou a carreira de Anthony Bourdain, aquele que até então tinha sido um chef executivo dum restaurante de Manhatan, sem grande história, mas que decidiu, primeiro num artigo de jornal, depois nesta expansão para livro, contar tudo do que sabia das entranhas deste negócio da restauração, com uma clareza e sangue frio que me deixou deslumbrada.

Claro que a maioria das coisas que Anthony Bourdain desvenda neste livro nós intuitivamente sabíamos. Que se um restaurante está às moscas, o melhor é evitá-lo porque a probabilidade de nos servirem comida fresca é muito pequena. Que se a casa-de-banho, que é aquilo que os clientes vêem de certeza, está nojenta, qual a probabilidade de a cozinha, que nós nem vemos, estar limpa e imaculada? Mas mais que todos esses conselhos é o modo como são escritos, e o facto de terem como pano de fundo a sua biografia até então que nos fascina e cativa. O homem sabe escrever e descrever, como tão bem continuou a demonstrar ao longo das suas inúmeras séries televisivas.

É um livro que vale muito a pena, e se só o vão ler agora de certeza que o lerão com uma carga diferente. Quanto ao resto, já muito foi dito na comunicação social nestes últimos dias, e não vale a pena acrescentar muito mais. Na minha humilde opinião, que já tinha comentado cá por casa, ele era uma pessoa melancólica. Era isso que me cativava nele, eu sentia que partilhava com ele uma certa nostalgia por aquilo que já não existe, mesmo que nunca o tenhamos conhecido, o sentimento de perda dum mundo a mudar em muita coisa que não é para melhor. Muitos dos que admiram a sua postura rock n’roll são dos principais militantes da brigada do politicamente correcto que estamos inundados hoje, e nem sequer percebem a ironia. Mas sobretudo, a lição que espero que se tire disto tudo é que quem vê caras não vê corações, e uma vida que nós julgamos idílica (e julgar aqui em todo o sentido da palavra) pode esconder um inferno por trás.

“Conhecer” a figura pública é não conhecer nada, por vezes nem sabemos o que a pessoa ao nosso lado está a passar. Por isso, menos julgamentos e mais compreensão, a começar pelos que estão mesmo ao nosso lado, e a terminar nos que estão na ponta dos dedos do teclado é o que desejo a todos.

De resto, se nunca leram este livro, recomendo que não se arrependem certamente e aprenderão muito sobre restauração. Também aqui quem vê caras não vê corações.

Livros que Recomendo – Justine ou os Infortúnios da Virtude

justine

Quando falei do último livro do José Luís Peixoto, contei um episódio de há alguns anos onde levava este livro num saco quando lhe pedi um autógrafo num exemplar d’Uma Casa na Escuridão. Não me lembro exactamente qual dos dois li primeiro, mas sei que foram semanas de negrume, pois foram dois portentos do lado negro da natureza humana.

Justine é uma moça jovem (seguimos a sua vida dos 12 aos 26 anos), que se esforça muitíssimo para se manter no caminho do bem e da virtude, mas a quem todo a espécie de vilanias e impropérios acontecem. Quanto mais ela se esforça para se manter no bom caminho, mais as pessoas que a rodeiam a enganam, trapaceiam, e abusam da sua ingenuidade e boa vontade para a meter em situações cada vez mais complicadas até ela se ver presa e condenada à morte por um crime que não cometeu.

O Marquês de Sade escreveu este livro em duas semanas enquanto estava preso na Bastilha, num dos seus muitos períodos de encarceramento, e é uma das suas primeiras obras, talvez por isso mais suave que outras (por exemplo 120 Dias de Sodoma, que ainda não consegui ler, nem ver o filme do Pasolini até ao final, apesar das várias tentativas). Há muita obra escrita sobre o Marquês e as suas motivações, sobre se era um génio revolucionário ou um louco sádico (pun intended), mas esse não é o caminho que vou seguir aqui. É muito difícil viver de acordo com normas espartilhadas que não são as nossas, e aderir a princípios que não nos dizem nada. Este livro respira rebeldia e inconformismo e foram mais as partes em que eu estava com um sorriso pelo absurdo da situação do que as que me incomodaram. Mas claro, cada pessoa tem uma sensibilidade diferente e este livro não será certamente para todos.

Para mim foi uma caricatura a um determinado conjunto de valores, a uma hipocrisia instituida e nesse aspecto está muito bem conseguido. O modo como Justine se reencontra com a irmã que teve um percurso exactamente oposto ao seu é muito engraçado e é corolário do que eu disse acima, como se os bons fossem castigados e os maus recompensados neste mundo ao contrário de Sade. Há quem descreva isto como literatura erótica, mas sinceramente não fiquei com essa impressão. A literatura erótica é suposto deixar-nos mais bem dispostos, na minha humilde definição, ou ter um impacto diferente, e não se classifica de erótico apenas por poder ter descrições mais sexuais.

Recomendo a pessoas de mente aberta, sem medos nem preconceitos, nem que se choquem facilmente. Prossigam com cuidado.

Boas Leituras!

 

 

Livros que Recomendo – O Mundo de Sofia

Sofia

Já que aflorei filosofia no livro que recomendei a semana passada, nada como abraçar o tema de braços abertos e recomendar este Mundo de Sofia. Sofia é uma adolescente que quando está perto de completar 15 anos começa a receber envelopes com mensagens estranhas (quem és tu, de onde vens, etc), escritos por um filósofo, Alberto, que toma a cargo a sua educação filosófica. Ao mesmo tempo começa a receber postais endereçados a uma rapariga, Hilde, escritos pelo seu pai, e isso vai desencadear uma investigação vertiginosa, já que cada postal leva a uma interrogação filosófica diferente e a um passo mais na história da Filosofia, desde os Pré-Socráticos até ao pós-modernismo.

 Eu, que como já disse aqui um punhado de vezes, venho de uma área de ciências (no secundário estive numa turma especial de Quimicotecnia), por vezes tenho algumas lacunas nestas áreas das humanidades que tento colmatar com os livros que leio. Filosofia é certamente uma dessas áreas, não por falta de esforço da louquinha da minha professora do secundário. Devia ser dificílimo tentar entusiasmar para o pensamento abstracto uma turma tão pseudo-científica como a nossa, em que as experiências e os números dominavam o nosso dia a dia, mas ela fez um esforço titânico, vejo eu agora a esta distância. Em vez de debitar matéria chata, dizia as maiores barbaridades (por exemplo, que tinha um carro místico, um dois cavalos que dava 200 km por hora nas descidas), tudo para solicitar uma resposta das nossas cabeças duras e encetar diálogos acesos nas aulas.

Claro que quando nós próprios temos 15 anos, não somos emocionalmente inteligentes como a Sofia do livro, não vamos com o nosso amigo Alberto em busca das respostas filosóficas para os enigmas da vida, ou os carros que atingem 200km por hora nas descidas, é mais fácil rotular a pessoa que está à nossa frente como louquinha, mas a esta distância o bichinho por gostar de pensar e questionar ficou lá e acompanha-me até hoje.

Este livro é uma pequena pérola, muitos alunos usam como auxiliar nas aulas de tal maneira as coisas aparecem de modo escorreito, simples de entender e , mais importante que tudo, interessante e envolvente. Os ingleses têm uma expressão que resume lindamente: este livro é um page turner.

Recomendo a todos os que gostam dum bom mistério, de filosofia, e de livros que só se conseguem pousar quando se chega ao fim.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – A Insustentável Leveza do Ser

Kundera

Já aqui falei levemente deste livro, quando sugeri os cinco melhores livros de amor. Este foi o primeiro que li de Milan Kundera, um autor que apreciei muito durante a minha década dos vintes, que me ajudou a entrar na idade adulta. Ao contrário de alguns que já falei aqui (as Brumas de Avalon, por exemplo) creio que este livro resiste ao passar do tempo e tenho mesmo vontade de o reler.

Por um lado o livro conta-nos a história de Tomas e Teresa, ele um médico, ela uma moça de província que coloca a sua vida e a sua felicidade nas mãos do companheiro. Mas Tomas é um homem livre, incapaz de se prender, e ao mesmo tempo de se libertar. Tem uma relação casual com Sabina, uma sua amiga de longa data, que é muito parecida com ele.

Ao mesmo tempo todo este triângulo amoroso desenrola-se na Checoslováquia no final dos anos 60, na altura da Primavera de Praga  e subsequente invasão russa e isso vem trazer alterações profundas a estas vidas e dinâmicas. Mais uma vez foi-me possível aprender algo da nossa história mundial enquanto lia um livro bem escrito. Está também recheado de filosofia e obriga-nos a reflectir sobre temáticas tão díspares como o peso e a leveza das nossas decisões, o que é que as torna mais difíceis ou mais certas, o impacto que as nossas escolhas têm nos outros, entre outros temas.

Um livro lindíssimo, com uma história de amor esculpida em história, filosofia e política, com pedaços de nós em cada personagem. Deu também origem a um filme delicado, com Juliete Binoche e Daniel Day-Lewis novos e poderosos, com cenas envolventes das quais me lembro até hoje. Enquanto pesquisava para escrever este artigo deparei-me com a versão áudio no Youtube, e eu, que nunca me entusiasmei muito com livros que não em papel/ecrã, fiquei rendida à narração deste senhor que me acompanhou por muitos dias. Definitivamente aconselho a todos os que forem fluentes em inglês, encontram-na aqui.

Recomendo a todos os que gostam de boas histórias, livros com várias camadas, aprender e ler ao mesmo tempo.

Boas Leituras!

Anyone whose goal is something higher, must expect someday to suffer vertigo.

Livros que Recomendo – Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto

Era-Bom-que-Trocaemos-umas-Ideias-Sobre-o-Aunto

Este deve provavelmente ser o título mais longo que eu alguma vez pus num post, mas efectivamente é assim que se chama este livro do Mário de Carvalho, escritor português que me foi dado a conhecer pela mesma amiga que me falou do João Sem Medo e do José Rodrigues Migueis.

Mário de Carvalho tem uma escrita ilusoriamente simples, em que a narrativa é fluida e eficaz, mas que por trás disso esconde-se um grande domínio da língua e do vocabulário. Por várias vezes tive de recorrer ao dicionário para perceber exactamente o que a palavra ali significava, e até então isso só me tinha acontecido com Aquilino Ribeiro (sendo que nesses casos raras vezes o dicionário é alguma ajuda).

Mas este livro é uma leitura muito interessante, duma Lisboa que cresce e está recheada de clichés que nós tão bem conhecemos. Acho que é impossível ler este livro sem nos revermos nele, e o entendermos como uma espécie de espelho onde vemos reflectida a nossa urbanidade muito própria. Desde os pseudo-intelectuais, à jornalista que não percebe nada do que faz, ao pai que tem o filho preso mas vai dizendo aos amigos que ele está a estudar na Suíça, ou no Canadá, tudo nos parece estranhamente familiar, próximo, mas sobretudo extremamente cómico.

Recomendo a todos os que gostam de boa literatura portuguesa, uma boa história que nos faça rir e pensar ao mesmo tempo.

 

ADVERTÊNCIA V.V.
Este livro contém particularidades irritantes para
os mais acostumados. Ainda mais para os menos.
Tem caricaturas. Humores. Derivações. E alguns
anacolutos.