Livros que Recomendo – The Lunatic Express

lunatic express

Viajar é uma experiência maravilhosa que a maioria de nós aprecia e muitos vivem intensamente. Planear uma boa viagem, a um lugar remoto é um dos maiores prazeres da vida. Convém ter em atenção o sítio para onde vamos, estudar as opções mais confortáveis e mais seguras. Ou então fazer exactamente o oposto.

Carl Hoffman, experiente escritor de viagens que contribui para publicações como a National Geographic ou a Outside, resolveu pesquisar quais os meios de transporte mais perigosos do mundo e ir conhecê-los em primeira mão. Nada estava fora do seu alcance, desde perigosas companhias aéreas (Cuban Airways) a ferries que causam mil mortos por ano em países como Indonésia ou Bangladesh, autocarros que são assaltados frequentemente em África, ou que simplesmente caem precipício abaixo na Bolívia. Carl Hoffman experimentou tudo e viveu para contar.

Este livro está cheio de histórias deliciosas, quase anedóticas por vezes, mas duas coisas me impressionaram. Primeiro, como mesmo nos locais mais perigosos houve sempre alguém que se dispôs a ajudar e proteger este ocidental meio louco e garantir que ele tinha a melhor experiência possível. Segundo, o que para Hoffman era quase uma experiência sociológica, algo que ele nos conta como curiosidade, para milhões de pessoas é o seu dia a dia, o modo como se deslocam para o trabalho, como têm que viver a vida. Há acidentes enormes, com várias centenas de mortos de modo algo regular nessas partes do mundo, e é aparentemente tão “normal” que nem os ecos nos chegam aos noticiários.

Mas o autor não nos deixa esquecer isso, e mostra-nos a realidade daquelas pessoas, sem condescendência e com muito interesse. Um livro interessante e que nos mostra uma perspectiva diferente, que não virá nos guias de viagem (a não ser no final, naquilo que devemos evitar), mas que hoje em dia talvez já encontremos nalguns blogues mais especificos.

Recomendo a todos os que gostam de viagens, principalmente as loucas e diferentes, e todos os que gostam de saber como vivem os seres humanos em diferentes partes do mundo.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Ganhe Tempo Adiando as Reuniões Com Imbecis

dilbert

O Dilbert é sobejamente conhecido de todos. Criado Por Scott Adams em 1989, depois deste ter sido despedido da empresa em que trabalhava, Dilbert é um engenheiro que trabalha numa empresa e tem um cão, Dogbert. É sobre a vida empresarial e o seu muito incompetente chefe que toda a accção se desenrola. Teve um sucesso enorme e hoje em dia aparece diariamente em cerca de 2000 publicações.

Scott Adams com este personagem criou o princípio de Dilbert, que diz, em traços largos, que as pessoas mais incompetentes são colocadas em cargos de chefia, porque fazem menos danos que se fizessem trabalho real, e foi inspirado na sua experiência em empresas tecnológicas americanas.

Este livro, Ganhe Tempo Adiando as Reuniões com Imbecis, foi-me oferecido por uma ex colega de trabalho e é o único que tenho, mas vou seguindo as tiras online, que continuam bastante actuais, mesmo em tempos de pandemia.

Ao longo destes anos Dilbert foi evoluindo, as suas roupas foram actualizadas, mas o espírito mantêm-se o mesmo, e a sua mordacidade também. Recomendo a todos os que gostam de comics e de ler coisas divertidas.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Zoo Story

zoo story

O meu avô trabalhou quase 50 anos no Zoo de Lisboa, e durante grande parte da minha vida eu morei lá perto. Quando era pequena ir ao Zoo era uma actividade diária, e quando não ia conseguia ouvir os animais da minha janela. Ainda hoje sinto alguma nostalgia de não conseguir ouvir macacos ou leões de cada vez que abro uma janela. Acho que isso foi uma das razões que me levaram a estudar Biologia.

Como tudo na vida, os Zoos têm vantagens e desvantagens, que podem ser aumentadas pelo modo como são geridos. Este livro fala-nos do Lowry Park Zoo, em Tampa, um zoo sem fins lucrativos que tem um papel conservacionista muito preponderante, e que desde cedo aderiu a novas práticas de manuseamento de animais que reduzem grandemente o risco de acidentes e perigo para animais e humanos.

Este livro não é contra nem a favor dos Zoos, limita-se a relatar a experiência do jornalista, bem como uma série de histórias fabulosas que se passam neste ambiente, deixando o leitor tirar as suas próprias conclusões. Uma coisa que é inegável é que temos milhares de espécies em vias de extinção por perda de habitat, e que corremos sérios riscos dos nossos filhos não poderem ver muitos dos animais que povoavam a nossa infância. E não é preciso ir tão longe como pensar em elefantes em África. Os pirilampos que iluminaram as minhas noites de infância andam à muito desaparecidos das nossas vidas sem que ninguém disse se dê conta, ou sequer aprecie o facto.

Recomendo este livro e as suas histórias maravilhosas a todos os que gostam de animais, sob pena de puderem ficar engasgados com algumas, e a todos os que gostam de pensar em conservação e modos possíveis de a fazer.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Livros Que Recomendo – O Homem Sem Nome

o homem sem nome

O Homem Sem Nome é o livro que me fez entrar na obra de João Aguiar, um dos meus escritores portugueses favoritos, apesar de eu estar sempre a dizer que não tenho escritores favoritos. Mas tenho, e este é certamente um deles.

Os livros posteriores que li eram mais dedicados à ficção histórica, em épocas bem remotas e das quais sabemos pouco, e este é radicalmente diferente. Neste temos a história dum trovador, poeta, homem que se recusa a ter um nome, e que viaja por várias terras para chegar do Grande Deserto à Terra dos Nómadas.  Dele sabemos muito pouco, mas ele tem uma profunda influência em todos os sitios onde passa e nas pessoas com quem contacta.

Neste mundo de fantasia, que pode ser passado, presente ou futuro, vemos espelhados muitos dos problemas da sociedade, do convívio humano, e podemos reflectir sobre eles.

É uma história que nos envolve e seduz, uma alegoria muito bonita, e um livro que nos passa rapidamente pelas mãos deixando um travo a pouco quando acaba.

Infelizmente li uma cópia emprestada, por isso não posso reler como tanto me apetecia, mas ando em busca dele em segunda mão.

Recomendo a todos os que gostam de histórias ricas, bem escritas e que nos fazem pensar.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Crónica do Rei Pasmado

Cronica-do-Rei-Pasmado

Já lá vão muitos anos desde que li este livro, mas ainda me lembro da boa disposição com que me deixou. Esta Crónica do Rei Pasmado, de Gonzalo Torrente Ballester, autor galego, é uma sátira com várias criticas sociais bem disfarçadas no meio dum episódio caricato.

Filipe IV de Espanha passa a noite com uma prostituta e de manhã contempla o seu corpo nú, o que o deixa pasmado. Depois de ficar a remoer nesse acontecimento decide que quer ver a rainha nua. Seria de pensar que palavra de rei é lei, mas é exactamente aqui que a trama começa, pois todos têm uma opinião sobre o assunto, principalmente a Igreja. Na altura era crime ver uma mulher nua.

A esta distância não me lembro se por alturas do fim do livro o rei conseguiu ou não o seu intento, mas lembro-me bem do sentimento de diversão e boa disposição que ficaram depois de terminada a leitura. Talvez esteja na altura de reler e reflectir mais uma vez no poder das instituições na sociedade.

Recomendo a todos os que gostam dum livro divertido, duma boa alegoria e de uma história bem contada.

Boas Leituras!

Se o Rei consegue ver a Rainha nua, todos teremos pretexto para despir as nossas fêmeas, sejam esposas ou queridas, e despir-se-ão todas as destes reinos, e as mulheres das Índias, e acabarão nuas as mulheres do mundo inteiro, se pega a moda, o que vai sendo hora de que aconteça, porque de camisas de noite compridas e de disputas para que as levantem um pouco mais, estamos nós tão cansados como elas. O único perigo, e este meramente imaginário, reside em que se disponham a sair nuas para a rua, ou com trajos tão transparentes que deixem ver tudo, pois são bem conhecidos os desejos que têm as mulheres de publicarem os seus segredos.

Livros Que Recomendo – Turn Right at Machu Picchu

turn right at Machu Picchu

Agora que não sei quando voltarei a viajar, por mais razões que não só o Covid-19, sinto-me sempre com vontade de ler livros sobre viagens, ou recordo recorrentemente livros que li e que gostei. Foi exactamente o caso deste Turn Right at Machu Picchu, que tal como se pode prever pelo nome, é um livro sobre esta cidade perdida nas montanhas do Perú.

Mark Adams é um jornalista, mas não necessariamente um escritor de viagens. Esta foi a sua primeira incursão no género, e não se pode dizer que se tenha saido mal. Em 1911 Hiram Bingham III escalou os Andes e deparou-se com a cidade de Machu Picchu. Figura controversa, anteriormente aclamada como o descobridor da cidade perdida, mas que hoje se vê com outra luz, e do qual se diz que não só ficou com os louros da descoberta, como trouxe consigo imensos artefactos. Mas como todos deveríamos saber, isso era comum na altura, os americanos, ingleses e outros que tais rechearam os seus museus com artefactos que traziam das suas investigações arqueológicas. Não o torna correcto, mas na altura não era condenado, já que o zeitgeist do momento era bem diferente.

Mark Adams resolve refazer o percurso de Bingham pelo Perú até chegar a Machu Picchu e esta é a grande mais valia deste livro. Não tendo grande experiência de caminhada, principalmente em alta montanha, Mark Adams passa por alguns apuros e descreve-os com muito sentido de humor. Os seus encontros com uma cultura que lhe é totalmente desconhecida, causa também alguns momentos muito cómicos. Como li alguém a dizer numa review, se Mark Adams conseguiu fazer este trekking sem qualquer preparação e com um desconhecimento grande sobre a cultura local, então todos nós o conseguimos fazer. Claro que não é assim tão simples, caminhada em altitude não é para todos, e depende sempre das pessoas que partilham a experiência connosco.

No entanto vale muito a pena ler este livro e fazer um bocadinho do caminho Inca nem que seja em livros. Recomendo a todos os amantes de viagens, de conhecer novos locais e culturas, e de livros divertidos.

Até lá, boas leituras e boas viagens.

 

Livros que Recomendo – Lituma nos Andes

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Eu gosto muito de autores sul-americanos, e passei grande parte dos anos 90 a ler obras suas. Um dos meus favoritos é Mario Vargas Llosa, a quem entretanto foi atribuído um prémio Nobel. Llosa é autor duma vasta obra, passada quer no seu Perú Natal, quer na Europa, relatando a experiência de imigrantes latinos.

Este Lituma nos Andes é passado no Perú profundo, em meados dos anos 80 e traça-nos um retrato social a político daquele país, principalmente da violência a que as pequenas comunidades estavam sujeitas, quer pelo Sendero Luminoso, quer por forças governamentais. Uma história duma investigação policial (o desaparecimento de várias pessoas numa comunidade andina) vai-nos mostrar o dia a dia daquela população, as suas dificuldades e o que era viver no Perú dos anos 80. O cabo Lituma e o seu ajudante Tomás serão os responsaveis pela investigação, mas a sua história pessoal terá também um papel relevante na história.

Mario Vargas Llosa é um exímio contador de histórias, e este livro é quase impossível de pousar antes de chegar ao final. Na realidade, fiquei com saudades e com vontade de reler.

Recomendo a todos os que gostam duma boa história, impossível de pousar, de cenários sul-americanos, e de aprender enquanto lêm ficção.

Boas Leituras!

 

Livros que Recomendo – Freakonomics

freakonomics

Tendo formação na área das ciências sempre olhei para a economia como aquela coisa um bocado estranha e aborrecida, própria para contabilistas e gente que vive fechada em escritórios a lidar com números. É claro que isto revela apenas puro desconhecimento sobre a área, e como eu gosto de saber um bocadinho sobre tudo dediquei-me a este Freakonomics, de Steven D. Levitt, que explora um lado diferente da Economia.

Basicamente o que é feito neste livro é aplicar análises estatísticas a conjuntos de números altamente improváveis, e ver o que conseguimos descobrir. Por isso se vêm estudos sobre tráfico de droga, prostituição, mas também educação parental, entre outras coisas relativamente estranhas. Basicamente para mostrar que podemos aplicar análises económicas a variadíssimos aspectos da sociedade, ou pelo menos análises estatísticas robustas.

Tudo isto escrito com muito humor e desenvoltura, para nos permitir entrar em cada assunto de forma eficaz. Não é um livro para ser olhado como um tratado sobre a ciência da economia, mas mais uma espécie de introdução a esse mundo, ou uma maneira de nos fazer pensar sobre diversos aspectos da sociedade e as várias relações de causalidade que podem ser estabelecidas.

Recomendo a todos os amantes de ciências, economia, e mais ainda aos leigos como eu que querem um olhar diferente sobre as coisas.

Até lá, Boas Leituras!

 

Livros que Recomendo – Madame Bovary

madame bovary

Gustave Flaubert foi um grande romancista francês do século XIX e Madame Bovary foi talvez o seu livro mais conhecido. Emma Bovary é uma jovem provinciana que passou a adolescência a ler romances de amor nos quais baseia a sua visão romanceada da vida. Após algumas peripécias, acaba por casar com Charles, um jovem médico de aldeia, mas acaba por não corresponder às suas expectativas irrealistas, e aborrece-se com a sua vida pequena e monótona.

Quando se mudam para outra cidade, Emma embarca numa série de romances extraconjugais, sempre na expectativa de trazer alguma cor à sua vida, e torná-la mais similar àquilo que tinha lido nos livros, com os resultados que podem imaginar.

Um livro muito bem escrito, por vezes nada fácil, uma vez que é impossível sentir qualquer empatia pela protagonista, ou mesmo pelos outros personagens. No entanto, está muito bem escrito e ficamos agarrados à história, mesmo que por vezes algo escandalizados. Principalmente com o modo como a vida da filha do casal evolui.

O livro deu muita polémica na altura em que foi publicado, como podem imaginar Emma não se coadunava muito com a moral vigente no século XIX, mas ao mesmo tempo várias mulheres diziam ter sido a inspiração para a personagem. Flaubert negou sempre dizendo “Madame Bovary, c’est moi”.

Recomendo a todos os amantes dos clássicos, de livros que têm muito cuidado com a palavra, que são representativos duma época histórica. Não se vão arrepender.

Até lá, Boas Leituras!

Livros que Recomendo – The Housekeeper and the Professor

yoko ogawa

Hoje, e para contrariar um bocadinho a tendência das semanas anteriores, vim aqui recomendar um livro muito bem escrito que nos fala de coisas boas da vida, como família (a possível), amizade (mesmo a mais improvável) e desfrutar de momentos de beleza e prazer mesmo no meio da adversidade. Yoko Ogawa é uma escritora japonesa com mais de 20 livros editados, e cujo romance mais recentemente traduzido para inglês, The Memory Police, está nomeado para o Booker International 2020.

Temos neste livro três personagens centrais. A empregada doméstica enviada por uma agência a um professor de matemática que, por causa dum acidente, apenas tem memória recente do últimos 80 minutos, apesar das memórias passadas se manterem inalteradas. A empregada doméstica é mãe solteira dum rapazinho de 10 anos, que a passa a acompanhar e cria uma relação especial com o professor, apesar de todos os dias ter de lhe relembrar quem é.

Este livro coloca muitas questões também, acerca da nossa relação com os outros, se vale a pena ter actos de bondade para quem não se vai lembrar deles, ou até onde devemos permitir que estranhos entrem na nossa intimidade. É um livro belíssimo, cheio de números, matemática e afectos.

Recomendo a todos os que gostam de histórias diferentes, cenários diversos dos nossos e de pensar em coisas bonitas.

Boas Leituras!