Livros Que Recomendo – Graças e Desgraças na Corte de El-Rei Tadinho

alice vieira

Agora que tenho um jaquinzinho cá em casa tenho andado a remexer na minha memória de infância em busca de livros que gostaria de partilhar com ele. Alice Vieira é uma escolha óbvia, mas dentro da panóplia de títulos desta escritora, este é um dos menos óbvios mas muito divertido.

Algures no final dos anos 80, no mesmo ano da eleição Soares-Freitas do Amaral, a minha professora de português do ciclo resolveu convidar escritores conhecidos para nos visitar e fazer-nos encenar partes dos seus livros. À nossa turma calhou este, a história dum rei desajeitado que se casa com uma fada desempregada e as peripécias em que ele envolve a família.

Dentro do livro resolvemos encenar o último capítulo, em que a princesa, filha dos dois, passa por dificuldades na escola porque acredita que todas as palavras ficam mais bonitas com muitos hhhh no meio, no príncipio e no fim. Eu fiz o papel de professora desesperada que tenta por todos os meios corrigir a princesa, e ainda hoje me lembro muito bem desse teatro que fizemos.

É um livro muito divertido, cheio de ironia e uma caricatura ao típico desenrascanço português. Excelente leitura para toda a família.

Recomendo a todos os que gostam de livros infantis, ou que querem partilhar boa literatura com os seus pequenotes.

Boas Leituras!

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Acabei de Ler – Love is a Dog From Hell

bukowski

Na sequência de estar a preparar um “Livros que Recomendo” aqui para o estaminé tive que ir pesquisar Bukowski e deu-me uma vontade avassaladora de ler um livro de poemas dele. Como tenho o Kindle sempre bem apetrechado, foi isso mesmo que fiz, e escolhi este Love is a Dog from Hell, de 1977, um dos seus primeiros livros de poemas.

Nem sei bem o que dizer deste livro, coisa rara em mim. Acho que a poesia de Bukowski tem que ser experimentada, mais que descrita, mas admirada sem os condicionalismos politicamente correctos deste nosso inicio de século XXI. Muitas coisas que estão escritas neste livro não sei se seriam aceites hoje em dia, mas é lembrar-nos que a moral dominante nos anos 70 era muito diferente, e que há beleza em todas as vidas, apenas depende de como olhamos para elas e do significado que retiramos.

E por baixo dos versos aparentemente simples e quotidianos de Bukowski esconde-se um universo de significados, uma descida ao que significa ser humano, e as escolhas ou falta delas que a vida nos traz.

Ir às corridas de cavalos, ter sexo com desconhecidas que lhe telefonam por gostar dos seus versos, beber cerveja na rua, observar jovens adolescentes nas paragens do autocarro, tudo é motivo para fazer poesia, e para analisar a vida.

Aconselho a todos os amantes de poesia, pessoas de cabeças arejadas em geral, e quem queira descobrir o sentido da vida no fundo duma garrafa de cerveja!

Boas Leituras!

Goodreads Review

Livros que Recomendo – Post Office

bukowski

Charles Bukowski é um dos meus poetas favoritos e já aqui partilhei um poema dele. Só não o faço mais frequentemente porque tento privilegiar poesia escrita em português, que é vasta e com muita qualidade. Mas dos estrangeiros Bukowski tem certamente um toque especial.

Mas ele não se limitou a escrever poesia, escreveu também outros livros de “ficção”, grandemente baseados na sua própria vida e onde também deixou o seu cunho único. Bukowski tem o condão de pegar nas situações mais corriqueiras e cruas da nossa vida e pintá-las com cores de genialidade. Este foi o seu primeiro romance, escrito em 1971, quando ele já tinha 50 anos de idade. Aparentemente nunca é tarde para se ser descoberto e começar a publicar, e isso é uma esperança a que me agarro.

Mas voltando a este livro, nele seguimos Henry Chinaski, a versão autobiográfica do próprio Bukowski nos dois períodos em que ele trabalhou para os correios americanos nos anos 50, como carteiro primeiro e mais tarde como distribuidor de correspondência (sorter). A crueza com que ele descreve a sua própria realidade, a falta de condescendência para consigo próprio e o humor cínico com que vê a sua realidade são as grandes mais valias da escrita deste autor. Bukowski não é um modelo a seguir. Alcoólico, viciado em jogo e em mulheres, Bukowski não é sem dúvida um escritor dos nossos tempos politicamente correctos e asséticos. Ele diz as coisas como elas são, sem paninhos quentes, e na sua vida, como tantas vezes na nossa, as coisas não são flores e passarinhos. São erros, excessos, vertigem, culpa e situações complicadas, mas que mesmo assim conseguem ser poesia e mestria.

Recomendo o livro a todas as pessoas que não se impressionam ou escandalizam facilmente, que conseguem ver para lá das aparências, que gostam de escrita crua e apaixonada, que abraçam a diferença e se deixam surpreender.

Boas Leituras!

Can you remember who you were, before the world told you who you should be?

Livros Que Recomendo – Budapeste

budapeste

Na sequência do recente prémio Camões atribuído a Chico Buarque, hoje venho recomendar o único livro dele que li até hoje. Na realidade, gostei tanto deste livro que não percebo porque ainda não li outros, mas a minha lista de livros para ler é vasta como o universo.

Budapeste junta duas coisas que eu gosto muito, livros e a cidade que lhe dá o nome. Budapeste é sem dúvida uma das cidades que mais gostei de visitar.

Mas voltando ao livro, aqui conta-se a história de José Costa, um escritor fantasma, que escreve livros, artigos e o que mais lhe encomendarem, mas sempre em nome de outra pessoa. Apesar de ter uma vasta bibliografia, na realidade é como se não existisse, já que o seu nome nunca aparece.

José Costa vai passar um tempo em Budapeste, quase acidentalmente, e aí enamora-se pela língua e por uma mulher húngara que vai ser a sua professora. Vai andar dividido entre o Brasil e a Hungria, entre a esposa e a professora, e a sua vida e visão do mundo vão mudar radicalmente.

Este é um livro sobre identidade, linguagem e relações humanas, aquilo que nos define e as nossas aspirações. Apesar de o ter lido há muitos anos, a sua essência ainda permanece comigo.

Recomendo a todos os fãs de Chico Buarque, de boas histórias, os que já visitaram ou desejam visitar Budapeste, e os que, como eu, acham o húngaro uma língua fascinante.

Boas leituras!

Livros que Recomendo – Segredos de Lisboa

segredos de lisboa

Hoje venho recomendar um livro muito diferente de todos os outros que já recomendei. Um livro de não-ficção, em parte, mas essencialmente utilitário e que nos dá a conhecer coisas novas.

Sempre vivi em Lisboa e sempre gostei de fazer de turista na minha própria cidade, muito antes disso se ter tornado a moda que é hoje. Lembro-me de fazer grandes passeios pela Baixa, Castelo, Alfama, de máquina fotográfica em punho para registar pequenos recantos, e deleitar-me com o facto de andar quase sozinha por aquelas ruas. Hoje em dia isso seria impossível, e cada vez que vou à Baixa fico deprimida, não pelo excesso de pessoas, mas sim pela perda de carácter único, pela massificação, pelas lojas históricas que se perderam, restando quase exclusivamente as cadeias que encontramos em qualquer parte do mundo e restaurantes de paella em pleno Rossio.

Mas este sentimento de desencanto não significa que a nossa cidade tenha deixado de ter recantos para descobrir. Apenas necessitamos de procurar mais e às vezes ter ajuda. Foi por isso que recorremos algumas vezes aos passeios históricos da Time Travellers, duas historiadoras que se dedicam a fazer passeios temáticos em Lisboa, mostrando-nos o passado através do que ainda existe no presente.

Há uns anos elas escreveram um livro, um misto de história e ficção, onde nos mostram algumas pérolas que podemos visitar em Lisboa, sozinhos ou em família. É muito fácil de ler, e cada monumento é precedido por uma pequena ficção história para nos dar um enquadramento e ao mesmo tempo tornar real cada um daqueles locais.

Recomendo a todos os amantes de leitura, de Lisboa, de história e de passeios em geral.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Terras do Sem Fim

Terras-do-Sem-Fim

No início da minha idade adulta nutri um grande amor pelos livros do Jorge Amado e li bastantes coisas dele. Fugi das coisas óbvias e que já tinham sido convertidas em novelas da Globo, como a Gabriela e a Tieta, talvez por preconceito e achar que pouco mais seriam que histórias de amor elaboradas, e dediquei-me mais à fase em que Jorge Amado fazia relatos sociais da sua Baía, muito influenciado pela sua ideologia política da altura.

De todos os que li Terras do Sem Fim foi dos que mais me marcou. Neste livro faz-se um relato muito cru e verosímil das guerras pelas terras ferteis do sul da Baía. Vê-se os jogos politícos, a violência, a lei do mais forte, do mais rico e do mais armado. É um retrato dum Brasil que esperaríamos que já não existisse, mas que pelos relatos que vamos tendo de mortes de activistas contra o desmatamento da selva Amazónica, ou defensores das comunidades indígenas, percebemos que não está assim tão distante, talvez apenas mais subtil.

Na realidade é a luta mais antiga do mundo, aquela que diz os meus interesses são mais importantes que os teus, e que existe no Brasil como no resto do mundo (barragens desnecessárias e que são verdadeiros atentados ecológicos e às populações locais, será que nos diz alguma coisa?), mas que aqui foi magistralmente descrita por Jorge Amado.

Aconselho a todos os que gostam duma história forte, bem contada, sobre coisas que se poderiam ter passado na realidade. Todos os que gostam de literatura brasileira, e livros bem escritos no geral.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – O Homem que Era Quinta-Feira

chesterton

Quem vê na Fox Crime a série Os Mistérios do Padre Brown já conhece este autor. Eu não vejo, e acabei de descobrir enquanto investigava para este post, que G. K. Chesterton foi o escritor de ambas as obras. Fiquei com curiosidade de ver/ler este Padre brown, já que se for da mesma qualidade d’O Homem Que Era Quinta-Feira será garantidamente boa leitura.

G. K. Chesterton foi um prolífico escritor inglês do início do século XX, com muitas obras publicadas, de ficção, poesia, ensaios, peças de teatro. Até agora apenas li este livro, mas foi uma experiência bastante positiva. Gabriel Syme é um detective da Scotland Yard contratado para a policia ante-anarquista. Conhece Lucian Gregory, um poeta anarquista, e com ele debate o sentido da poesia. Os dois homens vão então embarcar numa viagem alucinante (ou de pesadelo, como o nome do livro indica) pelos meandros das células anarquistas londrinas do início do século XX, em cada membro do conselho tem o nome dum dia da semana.

Este livro deixa-nos antever um pouco do ambiente da época, ao mesmo tempo que nos introduz um estilo de escrita diferente e meio surreal. A obra está também recheada de significados ocultos e referências a coisas importantes para o autor, como o cristianismo, e é por isso uma leitura muito rica.

Ao longo dos anos Chesterton tem sido influência em muitos outros escritores, apesar de nos dias de hoje ser uma figura menos conhecida. No seu tempo, esteve a par com George Bernard Shaw e Oscar Wilde, embora em latitudes diferentes no que se refere a opiniões e visões de vida, muitas das quais debatidas publicamente. Mais recentemente temos por exemplo a personagem da série Sandman de Neil Gaiman, Gilbert, que foi largamente inspirada neste escritor.

Aconselho a leitura a todos os que gostam de clássicos, de boa literatura, de histórias estranhas mas com ambiente histórico. Se tiverem meios digitais de leitura, podem encontrar algumas obras de Chesterton, incluindo esta, no Project Gutenberg gratuitamente. Basta ir aqui.

Boas leituras!

Livros que Recomendo – Charlie e a Fábrica de Chocolate

charlie

Depois das mais recentes novidades ictiológicas, nada melhor do que recomendar um livro para crianças. E este é sem dúvida um livro universal, que se tornou ainda mais conhecido depois do fabuloso filme do Tim Burton.

O livro está tão alucinante e bem disposto como o filme, e tem como bónus adicional termos acesso às letras das canções dos Oompa Loompas, que são um tratado de sarcasmo.

Li este livro bem depois de ter visto o filme, em duas viagens de autocarro para o trabalho, já que é uma pérola que se lê rápido e com entusiasmo. Não me vou alongar aqui a contar a história, porque acredito que já toda a gente a conhece.

Recomendo a todos os que gostam de bons livros, mesmo sendo de crianças, e que gostam de se sentir maravilhados.

Boas Leituras!

“IT ROTS THE SENSES IN THE HEAD!
IT KILLS IMAGINATION DEAD!
IT CLOGS AND CLUTTERS UP THE MIND!
IT MAKES A CHILD SO DULL AND BLIND
HE CAN NO LONGER UNDERSTAND
A FANTASY, A FAIRYLAND!
HIS BRAIN BECOMES AS SOFT AS CHEESE!
HIS POWERS OF THINKING RUST AND FREEZE!
HE CANNOT THINK–HE ONLY SEES!
‘All right!’ you’ll cry. ‘All right!’ you’ll say,
‘But if we take the set away,
What shall we do to entertain
Our darling children? Please explain!’
We’ll answer this by asking you,
‘What used the darling ones to do?
‘How used they keep themselves contented
Before this monster was invented?’
Have you forgotten? Don’t you know?
We’ll say it very loud and slow:
THEY…USED…TO…READ! They’d READ and READ,
AND READ and READ, and then proceed
To READ some more. Great Scott! Gadzooks!
One half their lives was reading books!
The nursery shelves held books galore!
Books cluttered up the nursery floor!”

Acabei de Ler – Michael Palin’s Hemingway Adventure

Michael Palin

Ando numa fase em que, por variados motivos, não tenho tido muita cabeça/tempo para ler. No entanto, há sempre tempos mortos para preencher, nem que seja antes de adormecer e resolvi recorrer a um velho amigo (Michael Palin) e um tema que me é confortável, a literatura de viagens.

Assim, dos vários livros dele que tenho no Kindle, resolvi escolher um que toca o tema da literatura em geral. Por altura do centenário do nascimento de Hemingway, Michael Palin fez um documentário para a BBC, a partir do qual escreveu depois este livro. A intenção era viajar por todos os sítios onde o escritor viveu ou viajou, e que foram impactantes na sua vida e na sua escrita. Ao mesmo tempo pudémos avaliar também o impacto que a presença de Hemingway teve nos próprios locais, quer em quartos de hotel onde esteve que foram transformados em verdadeiros santuários (Espanha e Cuba, por exemplo), ou como na Florida onde se faz anualmente um concurso de sósias. Mas um pouco por todo o lado que o escritor pisou, a indústria do turismo capitalizou esse facto, e verdadeiros magotes de gente tentam recriar os passos de Hemingway.

Considerando que este livro foi escrito há exactamente 20 anos atrás, é também interessante ver como muitos desses sítios mudaram e se ajustaram nos dias de hoje, em que há mais turismo que nunca.

De Hemingway ainda só li o Velho e o Mar, há muitos anos, e apesar de ter gostado fiquei com a sensação que muito do significado me estava a escapar pelos dedos da juventude. Agora, depois de ler este livro e de ter ficado a conhecer um pouco melhor a vida do escritor, fiquei com mais vontade de pegar num livro dele e perceber porque é considerado por muitos um semi deus da escrita. Ficará para breve.

Até lá, recomendo este livro a todos os fãs de Hemingway, ou do Michael Palin, ou de literatura de viagem em geral.

Boas Leituras!

Goodreads Review

 

Livros que Recomendo – Salamão e Mortadela

salamao

Ora quem segue o Peixinho sabe da minha predilecção por BD, especialmente aquela que é mesmo uma arte, como Neil Gaiman ou Miguelanxo Prado. Mas às vezes também sabe bem ler daquela BD que não tem mais intuito nenhum a não ser fazer-nos dar umas gargalhadas, e muitas vezes por coisas bastante parvas.

É o caso destes livros do Salamão e Mortadela que li algures no final da minha adolescência e muito me divertiram. O humor não é fino e refinado, e o traço não é absolutamente belo, como tantas coisas que tenho partilhado aqui, mas é entretenimento para toda a família, e sobretudo ideal para alturas, como aquela em que me encontro, que o cérebro não consegue absorver informação muito complexa.

Salamão e Mortadela são agentes da TIA, mas não são uns agentes quaisquer. Salamão é profundamente azarado, e Mortadela tenta sempre resolver tudo com um disfarce inútil, que só ajuda à confusão. São também ajudados por uma fiel secretária, um inventor duvidoso, e claro, têm um chefe irascível e pouco eficaz. Clara paródia aos mistérios do James Bond e às agências secretas como a CIA. O seu autor é um espanhol Francisco Ibañez e a primeira publicação em Espanha já data de 1958.

Sei que se fez um filme recentemente, mas sinceramente não vi e não creio que seja uma obra prima. Os livros também já devem andar esgotados nas livrarias, mas ainda anda muita coisa nos OLX da vida, caso estejam mesmo interessados.

Recomendo a todos os que gostam de divertimento sem compromissos, humor com um toque ibérico e BD em geral.

Boas Leituras!