Avelina, Criada para Todo o Çerviço

Avelina

Comprei a Avelina na Feira do Livro de 2017, e já isso me faz ter pena de ter decidido não comprar mais livros este ano, porque fiquei cheia de vontade de ter mais livros do Vilhena. A sua mordacidade e sentido de humor, tão brejeiramente portugueses, mas pejados de crítica social e visão global do que se passava no tempo do outro senhor, fazem ler os seus livros um verdadeiro prazer.

Mas quem é a Avelina? Avelina é uma moça pré-adolescente das Bouças, lugar fictício do interior rural português, mas que podia ser qualquer aldeia no final dos anos quarenta, onde se passa fome de rabo e por isso ela é mandada servir numa casa da vila mais próxima a troco de cama e comida. Aí começa a escrever o seu diário, muito livre, que nos vai dando conta das diferenças sociais vincadas, mas também do chico espertismo tão português e tão comum a toda a gente, independentemente do lugar social que ocupam. Vilhena tem um olhar muito aguçado sobre os males da sociedade, mas ao mesmo tempo descreve-os sem pena, sem “coitadismos” e com imenso sentido de humor.

Confesso que este livro me impressionou por dois motivos, não só por estar escrito dum modo muito cru e com graça, mas porque a minha avó materna também cresceu numas Bouças deste Portugal e quando tinha oito anos, consideravelmente mais nova que a nossa personagem, foi servir para casa da professora primária da terra, a troco de educação, comida, cama, etc. Confesso que sempre tive uma visão romântica sobre esse assunto, e este livro fez-me ver as coisas um bocadinho mais próximas da realidade.

O livro é a compilação de três volumes originais que seguem o crescimento da Avelina desde as Bouças até finalmente se instalar em Lisboa, com passagem pelo Porto, mas confesso que o último volume foi para mim o mais fraquinho, talvez pela perda da inocência da nossa protagonista.

Aconselho vivamente, não só porque a edição fac similada da E-Primatur está lindíssima, como já nos vêm habituando, mas porque é um documento dum tempo que já passou mas que não nos podemos esquecer, porque sem nos apercebermos a censura está sempre à espreita, e hoje está tão activa como no tempo da outra senhora, apenas se reveste de outros contornos. Mantenhamos a todo o custo a liberdade de ler o que queremos e pensar livremente.

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Boas Leituras!

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Livros que Recomendo – Mundos Paralelos

philip pullman

Sabendo que saiu há pouco tempo mais um livro do Philip Pullman, O Livro do Pó em português, que já está no meu Kindle para ler a seguir, acho que está na altura de recomendar a série que o originou, Mundos Paralelos, His Dark Materials no original. A maioria das pessoas podem lembrar-se mais desta trilogia por causa do tristissimo filme a que deu origem, A Bússola Dourada, baseado no primeiro volume, mas terão de acreditar em mim quando vos digo que o filme não faz minimamente justiça ao original.

No original estes são livros para jovens adultos, o que os ingleses chamam “coming of age books”, com histórias com crianças ou adolescentes onde acompanhamos o seu crescimento, mas que nos apresentam temas difíceis para ajudar os leitores a reflectir sobre eles e assim ajudar no seu amadurecimento. E esta trilogia é perita em mostrar-nos temas difíceis, sem condescendências, com dois dos mais interessantes protagonistas que eu já vi em livros deste género.

Lyra Belacqua e Will Parry são duas crianças em dois universos paralelos que se vão encontrar e viver a sua aventura juntos. No primeiro volume seguimos Lyra, que se encontra num orfanato com o seu daemon Pantalaimon, génio na muito desinspirada tradução. A figura do génio é das mais interessantes apresentada neste livro. São criaturas externas, mas ao mesmo tempo parte de nós, revelam o nosso ser interior e têm a forma de um animal. Enquanto somos crianças vão mudando livremente de forma, até em determinado momento da adolescência se fixarem na sua forma definitiva que supostamente revelará algo do caracter do seu possuidor. Tocar no daemon de alguém sem consentimento é uma ofensa gravíssima, e separar alguém do seu daemon deixava-o incapacitado. Escusado será dizer que quando li o livro queria muito ter um daemon para mim e pensava muitas vezes qual seria a forma do meu. Lyra tem também uma “bússola” que lhe mostra sempre a verdade, e se isso não é o instrumento mais útil/assustador do mundo, então não sei qual será.

No segundo volume Lyra encontra Will, um rapaz do nosso mundo que a partir vai passar a acompanhá-la na sua busca pela origem do Pó com uma faca capaz de abrir portas entre mundos. Esta aventura vai ser difícil e complexa, mas muito interessante.

Outra das características destes livros é que os protagonistas não são necessariamente livres de mácula como é costume neste tipo de literatura. Na realidade Lyria é uma criança mentirosa e difícil e quando finalmente conhecemos Will sabemos imediatamente que ele matou alguém. E isso também é importante na história. Às vezes pessoas boas fazem coisas más em determinadas circunstâncias.

A história está muito bem construída e os três livros devoram-se num ápice, mesmo se por vezes nos deixam um sabor amargo na boca ou um aperto forte no coração. A descrição da figura da morte é das mais interessantes que já vi num livro deste género. Diz-se que a sua estrutura está grandemente inspirada no Paraíso Perdido de Milton, no entanto não posso garanti-lo porque ainda não o li, apesar de ser daqueles que está eternamente na minha lista de leituras futuras.

Philip Pullman foi alvo de muitas críticas por causa destes livros, muitas vezes considerados como um ataque à Igreja ou por promover o ateísmo e o autor muitas vezes se afirmou ateu convicto, no entanto confesso que não li os livros com essa leitura, talvez porque não a procurei activamente, mas fica o aviso.

Aconselho vivamente a quem goste de leituras juvenis, mas também a quem goste de livros adultos, porque esta é uma história com potencial para agradar a todos. Mais tarde virei cá falar d’O Livro do Pó.

Boas Leituras.

Poirot – O Mistério do Comboio Azul

Poirot

O Peixinho que é só ligeiramente obsessivo compulsivo, começou há algum tempo a ler/reler os livros do Poirot por ordem de publicação. Li bastantes na minha adolescência, da colecção dos Livros do Brasil, mas agora estou a fazê-lo por ordem e na língua original.

No entanto o quinto volume foi tão fraquinho que me levou a fazer uma pausa de quase um ano até ter coragem de retomar. Mas ainda bem que o fiz porque este The Mistery of The Blue Train foi uma revelação.

Tal como o anterior foi escrito num estilo diferente ao que estamos habituados, dá a sensação que a autora andava em fase de experimentação, mas aqui resultou bastante bem. Temos uma longa descrição de vários personagens, cenários e situações e já o livro vai bem adiantado quando Poirot aparece pela primeira vez. Na realidade ele parece um personagem secundário, pouco importante na história, apenas bem visível para nós que o conhecemos tão bem, e isso empresta mais colorido à narrativa.

Seguimos as personagens e as suas motivações em primeira mão, ao invés de acompanharmos a investigação pelos olhos do detective e isso torna mais difícil fazer o que eu sempre faço que é mandar palpites sobre quem é o assassino. Na realidade mandei na mesma, porque isso faz parte do prazer de ler estes livros, mas desta vez estava sempre a mudar de ideias e foi mais difícil prever o raciocínio da Agatha Christie, que ao fim de alguns livros percebe-se que segue sempre mais ou menos o mesmo arco.

No entanto neste caso fomos sempre sendo surpreendidos e quase mesmo até ao final eu ainda não fazia ideia de quem era o assassino ou de como a história iria encontrar o seu desfecho.

Recomendo para fãs do género e pessoas que gostem duma história bem contada. E agora rumo ao próximo volume.

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Boas leituras!

Trains are relentless things, aren’t they, Monsieur Poirot? People are murdered and die, but they go on just the same. I am talking nonsense, but you know what I mean.”
“Yes, yes, I know. Life is like a train, Mademoiselle. It goes on. And it is a good thing that that is so.”
“Why?”
“Because the train gets to its journey’s end at last, and there is a proverb about that in your language, Mademoiselle.”
“‘Journey’s end in lovers meeting.'” Lenox laughed. “That is not going to be true for me.”
“Yes–yes, it is true. You are young, younger than you yourself know. Trust the train, Mademoiselle, for it is le bon Dieu who drives it.”
The whistle of the engine came again.
“Trust the train, Mademoiselle,” murmured Poirot again. “And trust Hercule Poirot. He knows.

Verdade ou Ficção?

TSG

Depois de ter começado o ano a ler livros que tinha cá para casa, ou que tinha há muito tempo para ler, e que eram livros densos, de autores reconhecidos, resolvi que estava na altura duma coisa mais leve. O Netgalley tinha-me dado há algum tempo este The Traveling Sex Game, já para o Kindle novo, e resolvi que estava na hora de o ler.

Este livro, de ficção, apresenta-se como sendo o resultado duma investigação jornalística feita pelo autor para o jornal onde trabalhava sobre um jogo de caracter sexual jogado por pessoas em viagem. Cada pessoa põe na sua bagagem duas fitas, uma azul para indicar que joga, e outra de outra cor, sendo que cada cor corresponde a uma preferência de “jogo” chamemos-lhe assim. É como se fosse um Tinder offline, por assim dizer. O jogo assenta em regras muito rígidas para proteger a identidade dos jogadores, a sua privacidade e também garantir alguma segurança, mas há sempre um factor de risco inerente.

O autor vai viajando pelo país (América, onde mais poderia ser?) e conhecendo diferentes jogadores, contando as suas histórias de modo bastante pormenorizado, sem fazer julgamentos de valor e sem nunca nos dizer se chega a participar do jogo ou não.

O livro é engraçado e diferente desta nova vaga de livros eróticos escritos por donas de casa com demasiado tempo livre, e deixa sempre no ar a dúvida se os acontecimentos narrados são verdade ou ficção, se o jogo existe ou não. O autor deu-se ao trabalho de criar um website para “os jogadores” partilharem as suas histórias. Um conceito engraçado, um livro descomprometido que se lê rapidamente para descontrair, e que nos vai fazer andar a olhar para as malas nos aeroportos da próxima vez que viajarmos.

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Boas Leituras!

Livros que Recomendo – À Boleia Pela Galáxia

marvin

Imaginem que estão uma bela manhã de pijama e roupão em vossa casa a arranjarem-se para ir trabalhar quando descobrem que tudo o que conhecem vai ser arrasado para dar origem a uma autoestrada. E não estou a falar do vosso prédio, nem mesmo do vosso bairro. Na realidade é todo o planeta Terra que está no caminho duma nova super autoestrada estelar e simplesmente tem de desaparecer. Felizmente o vosso melhor amigo, Ford Prefect, é na realidade um extraterrestre a estudar os nossos hábitos para uma enciclopédia de mochileiros e ajuda-vos a fugir, mas vocês apenas têm tempo de levar uma toalha. Felizmente este é o item mais importante em todas as viagens espaciais. Isso e o guia de mochileiros espaciais, para o qual o vosso melhor amigo trabalhava. Acima de tudo não entrem em pânico, tudo vai correr bem.

Esta é a premissa sobre a qual assenta o livro de Douglas Adams, À Boleia Pela Galáxia, uma trilogia de 5 livros, que nos leva por uma odisseia estelar de puro nonsense e boa disposição. Essa viagem inclui uma visita ao planeta onde se constroem planetas de luxo, a descoberta do sentido da vida, do Universo e de tudo, um jantar no restaurante no fim do mundo, descobrir que voar é apenas ter jeito para nos atirarmos para o chão e falharmos o alvo, tudo isto na companhia do nosso melhor amigo, o seu primo, a outra sobrevivente humana da Terra e o robot mais deprimido do Universo.

Sinceramente já não me lembro como cheguei até esta obra, quem ma indicou ou onde ouvi falar dela pela primeira vez. Creio que foi um daqueles casos que uma coisa puxa a outra, e era um autor associado a outros que eu já lia. Mas quando comecei já não consegui parar, e sinceramente tem tanta substância escondida para lá da comédia superficial que nos vemos muitas vezes a ir buscar referências a este livro na nossa vida quotidiana. Se bem se lembram, ainda quando fiz o meu aniversário do ano passado falei aqui do significado de 42.

Douglas Adams, o autor desta obra (cujo aniversário era um dia antes do meu) escreveu sketches para Monthy Python, episódios do Dr. Who mas foi esta série que lhe granjeou maior fama, sendo que começou por ser um programa de rádio antes de se transformar na série de livros com o mesmo nome. Adams nunca foi um autor muito prolífico, podia mesmo dizer-se que era um pouco preguiçoso e tinha tendência a deixar passar os prazos, para desespero dos seus editores que chegaram a trancá-lo num hotel para terminar o último livro desta série. Era um activista ambiental feroz, que se dedicou a imensas actividades para defesa de espécies em extinção, e defensor dos avanços da tecnologia.

Faleceu em 2001, aos 49 anos, a 11 de Maio, e desde esse ano a 25 de Maio celebra-se o Dia Internacional da Toalha, onde todos os viajantes intergalácticos levam uma toalha consigo para os seus locais de trabalho para celebrar o legado deste escritor, ou participam em eventos organizados um pouco por todo o globo. Podem ver com antecedência aqui.

Mas, acima de tudo, não entrem em pânico!

A towel, it says, is about the most massively useful thing an interstellar hitchhiker can have. Partly it has great practical value. You can wrap it around you for warmth as you bound across the cold moons of Jaglan Beta; you can lie on it on the brilliant marble-sanded beaches of Santraginus V, inhaling the heady sea vapours; you can sleep under it beneath the stars which shine so redly on the desert world of Kakrafoon; use it to sail a miniraft down the slow heavy River Moth; wet it for use in hand-to-hand-combat; wrap it round your head to ward off noxious fumes or avoid the gaze of the Ravenous Bugblatter Beast of Traal (such a mind-bogglingly stupid animal, it assumes that if you can’t see it, it can’t see you — daft as a brush, but very very ravenous); you can wave your towel in emergencies as a distress signal, and of course dry yourself off with it if it still seems to be clean enough.

More importantly, a towel has immense psychological value. For some reason, if a strag (strag: non-hitch hiker) discovers that a hitchhiker has his towel with him, he will automatically assume that he is also in possession of a toothbrush, face flannel, soap, tin of biscuits, flask, compass, map, ball of string, gnat spray, wet weather gear, space suit etc., etc. Furthermore, the strag will then happily lend the hitch hiker any of these or a dozen other items that the hitch hiker might accidentally have “lost.” What the strag will think is that any man who can hitch the length and breadth of the galaxy, rough it, slum it, struggle against terrible odds, win through, and still knows where his towel is, is clearly a man to be reckoned with.

Hence a phrase that has passed into hitchhiking slang, as in “Hey, you sass that hoopy Ford Prefect? There’s a frood who really knows where his towel is.” (Sass: know, be aware of, meet, have sex with; hoopy: really together guy; frood: really amazingly together guy.)

— Douglas Adams, The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy

The Golden House – Salman Rushdie

golden house

O terceiro livro do ano foi um que estava ainda no Kindle velho e que tinha que fazer a crítica para o Netgalley. Além disso, apesar de só ter lido um livro dele, Salman Rushdie é um excelente escritor, daqueles que pegam numa história aparentemente normal e a revestem de camada após camada de transcendência, contemporaneidade, urbanidade. É um habitante do tempo presente, com as suas nuances sociopolíticas, e isso permeia a sua escrita.

Este livro é mais um reflexo disso mesmo. Passado em Nova Iorque, na América de Obama, conta-nos a história de um pai e os seus 3 filhos que se vieram refugiar dum passado misterioso na sua Índia natal. A história é contada por um narrador que era um jovem vizinho estudante de cinema, e que vai usar os acontecimentos conturbados deste exílio num guião dum filme.

E assim desde o início sabemos que a história vai correr mal, mas não como nem com quem. E também nem sempre é linear a distinção entre a “realidade” dos nossos personagens e a ficção criada pelo narrador e isso mantém-nos sempre alerta e em tensão.

Tudo isto envolvido numa escrita belíssima, às vezes quase poética. O livro vai todo ele num crescendo que acompanha também a evolução da história recente americana. O final do mandato de Obama, a campanha eleitoral surreal que culmina com a eleição de Trump (aqui brilhantemente equiparado ao Joker), fazendo de Nova Iorque à vez uma Gotham City ou uma Metropolis. O livro está ricamente recheado de referências literárias e cinematográficas, que muitas vezes senti que a minha mente era demasiado pequena para abarcar, mas estava maravilhosamente escrito, envolvente, e eu recomendo seriamente a todos aqueles que, como eu, gostem de usar livros de ficção como veículos para pensar sobre a nossa realidade e actualidade. Deixo-vos com alguns extractos para terem um vislumbre daquilo que lá podem encontrar.

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Boas leituras!

 

“When I’m done with a book,” she said, “it is also done with me and
moves on. I leave it on a bench in Columbus Park. Maybe the Chinese
people playing cards or Go won’t want my book, the nostalgic
Chinese bowing mournfully at the statue of Sun Yat-sen, but there
are the couples coming out of City Hall with their wedding licenses
and stars in their eyes, wandering for a minute among the cyclists
and the kids, smiling with the knowledge of their newly licensed
love, and I imagine they might like to discover the book, as a gift
from the city to mark their special day, or the book may like to
discover them. In the beginning I was just giving books away. I got
a new book, I gave away an old one. I always keep just seven. But
then I began to find that others were leaving books where I had
left mine and I thought, these are for me. So now I replenish my
library with the random gifts of unknown strangers and I never know
what I will read next, I wait for the homeless books to call out:
you, reader, you are for me. I do not choose what I read anymore. I
am wandering through the discarded stories of the city.”

 

It was a year of two bubbles. In one of those bubbles, the Joker
shrieked and the laugh-track crowds laughed right on cue. In that
bubble the climate was not changing and the end of the Arctic
icecap was just a new real estate opportunity. In that bubble, gun
murderers were exercising their constitutional rights but the
parents of murdered children were un-American. In that bubble, if
its inhabitants were victorious, the president of the neighboring
country to the south which was sending rapists and killers to
America would be forced to pay for a wall dividing the two nations
to keep the killers and rapists south of the border where they
belonged; and crime would end; and the country’s enemies would be
defeated instantly and overwhelmingly; and mass deportations would
be a good thing; and women reporters would be seen to be unreliable
because they had blood coming out of their whatevers; and the
parents of dead war heroes would be revealed to be working for
radical Islam; and international treaties would not have to be
honored; and Russia would be a friend and that would have nothing
whatsoever to do with the Russian oligarchs propping up the Joker’s
shady enterprises; and the meanings of things would change;
multiple bankruptcies would be understood to prove great business
expertise; and three and a half thousand lawsuits against you would
be understood to prove business acumen; and stiffing your
contractors would prove your tough-guy business attitude; and a
crooked university would prove your commitment to education; and
while the Second Amendment would be sacred the First would not be;
so those who criticized the leader would suffer consequences; and
African Americans would go along with it all because what the hell
did they have to lose. In that bubble knowledge was ignorance, up
was down, and the right person to hold the nuclear codes in his
hand was the green-haired white-skinned red-slash-mouthed giggler
who asked a military briefing team four times why using nuclear
weapons was so bad. In that bubble, razor-tipped playing cards were
funny, and lapel flowers that sprayed acid into people’s faces were
funny, and wishing you could have sex with your daughter was funny,
and sarcasm was funny even when what was called sarcasm was not
sarcastic, and lying was funny, and hatred was funny, and bigotry
was funny, and bullying was funny, and the date was, or almost was,
or might soon be, if the jokes worked out as they should, nineteen
eighty-four.

 

O Último Sandman

Sandman 2

Um dos livros que tinha para ler neste início de 2018 era este “The Wake“, para terminar a minha maratona de ler todos os livros do Sandman, escritos por Neil Gaiman. No penúltimo volume o rei do mundo dos sonhos tinha morrido na sua forma de Morfeu, e tinha deixado a sua essência numa jóia que entregou ao seu sucessor. Que continua a ser o senhor dos sonhos, mas já não é Morfeu. É um Endless, mas reinventado. Confuso? Percebe-se melhor lendo.

A primeira parte do livro, e na minha opinião a melhor, mostra-nos o velório e o funeral, os seus preparativos, convidados, discursos. Mais do que mostrar transporta-nos até lá, porque toda a humanidade está presente em sonhos. E do modo como está escrito, sentimo-nos mesmo presentes em todos os momentos, até deixarmos de estar convidados.

Continuamos depois por mais duas histórias com o novo Sandman, mas que não impressionam, principalmente a do ancião chinês que por causa da fonte utilizada me custou imenso ler.

E terminamos o livro voltando a Shakespeare, o grande amor quer de Sandman, quer de Neil Gaiman, a fechar o círculo com mais uma das suas peças, neste caso a última, como não podia deixar de ser. Recordo aqui que já “Sonho de uma noite de Verão” era presença assídua nestes contos, com as suas referências ao mundo das fadas e as suas personagens, e diz-se aqui que a peça foi uma encomenda de Morfeu para os seus amigos deste reino.

Ler estes livros foi como recordar o início da minha própria história, quando ouvia Bauhaus, ia à Juke Box e a minha estética de alguma forma se cruzava com a do senhor dos sonhos que na altura era a novidade que todos falavam e eu lia nas estantes da Fnac sonhando um dia comprar.
Entretanto crescemos os dois, mas o nosso caminho vai-se cruzando periodicamente nas fantasias que Neil Gaiman continua a escrever. Recomendo a todos aqueles que gostam de uma boa história pejada de mitos e sonhos, aos que acreditam que é impossível matar os sonhos e as boas ideias.

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Boas leituras!

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Os Jardins de Luz

Jardins de Luz

Nada como começar o novo ano a ler um livro perdido na estante, que estava sem atenção há pelo menos uma dezena de anos. Este tinha-o trazido quando me mudei de casa dos meus pais, em 2008, e já andava na lista TBR muito antes disso. O autor parecia interessante, o tema também, mas por alguma razão nunca lhe pegava. Este ano decidi olhar seriamente para as minhas estantes e dar atenção aos filhos perdidos, para eventualmente lhes dar um rumo e criar espaço, e este foi o segundo escolhido. Isto vem também no seguimento do desafio que coloquei a mim própria de não comprar livro nenhum este ano, por isso faz todo o sentido.

Amin Maalouf é um escritor de origem libanesa a viver em França desde 1976 e esta mistura transparece na sua escrita. Este livro conta-nos a história de Mani, um jovem parto, criado no seio duma seita ascetica dois séculos depois de Cristo, numa cidade que hoje já não existe mas seria próxima da actual Bagdad. Mani foi um profeta no seu tempo e criou uma nova religião que foi grande e poderosa, mas que abalou tanto os poderes instituidos na altura, que foi severamente atacada até hoje dela não restar mais que uma leve memória e uma palavra com má conotação, maniqueísmo.

Mas na realidade a religião que Mani originou apenas pregava a unidade entre todas as outras, e que cada homem tinha dentro de si simultaneamente luz e sombras. E talvez por não condenar abertamente ninguém, tornou-se inimigo de todos.

O livro é interessante, de leitura fácil e rica, as imagens com que o autor nos presenteia são de grande beleza. O mais interessante é imaginarmos a zona do Médio Oriente como rica e próspera não só em fortuna e riquezas, mas também culturalmente. O império romano e o persa rivalizavam em poder, riqueza e desenvolvimento, sendo que este último era consideravelmente mais estável porque não estava constantemente assolado por disputas de poder como o império romano em declínio.

No entanto sinto que faltou algo a esta descrição de Mani. Talvez alguma força nas suas convicções, algum ardor na sua defesa, ou alguma profundidade na exploração da sua filosofia de base. (…. )

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história contada por um autor diferente, não anglo-saxónico e que têm interesse em história e filosofia.

Por fim, outra coisa que me custou seriamente foi ler um livro de capa dura. Seriamente habituada ao meu Kindle, andar nos transportes públicos e precisar das duas mãos para ler já é uma coisa que não dá jeito nenhum. Almoçar sozinha no emprego e precisar das duas mãos para ler era uma coisa que não me acontecia também há muito tempo, por isso senti muita falta da praticalidade do meu fiel amigo. De tal modo que vou ter de fazer uma pausa nos livros físicos por uns dias.

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Boas Leituras!

Desafio Man Booker 50

Man booker

Este ano é atribuido o quinquagésimo prémio Man Booker de ficção e a organização resolveu celebrar em grande oferecendo a um felizardo a oportunidade de participar no seu evento de Julho. Para isso só temos de ler o maior número de vencedores que conseguirmos e documentarmos no Instagram com o hashtag #Manbooker50 no post oficial. Parece fácil, e sobretudo uma oportunidade de lermos bons títulos de qualidade certificada.

Já sabem que o Peixinho não é muito dado a estes desafios, é demasiado rebelde para se conformar a ler por uma lista, mas ainda assim é uma lista de referência que vou aqui partilhar para a ela voltar sempre que me faltar inspiração para um bom livro. Em português, sempre que exista.

Até à data já li os anos de 1981, 1992, 1999, 2002 e 2013 e vejo alguns que não me apanhavam a ler nem que mos oferecessem (como o vencedor do ano passado), mas há aqui muita margem de escolha e se tiver tempo no meio dos que tenho na calha, ainda pego no da Margaret Atwood.

Boas Leituras!

2017Lincoln no Bardo de George Saunders

2016O Vendido de Paul Beatty

2015Breve História de Sete Assassinatos de Marlon James

2014A Senda Estreita para o Norte Profundo de Richard Flanagan

2013Os Luminares de Eleanor Catton

2012O Livro Negro de Hillary Mantel

2011O Sentido do Fim de Julian Barnes

2010A Questão Finkler de Howard Jacobson

2009Wolf Hall de Hillary Mantel

2008O Tigre Branco de Aravind Adiga

2007Corpo Presente de Anne Enright

2006A Herança do Vazio de Kiran Desai

2005O Mar de John Banville

2004A Linha da Beleza de Alan Hollinghurst

2003Vernon Little: O Bode Expiatório de D. B. C. Pierre

2002A Vida de Pi de Yann Martel

2001A Verdadeira História do Bando de Ned Kelly de Peter Carey

2000O Assassino Cego de Margaret Atwood

1999Desgraça de J. M. Coetzee

1998Amesterdão de Ian McEwan

1997O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy

1996Últimas Vontades de Graham Swift

1995The Ghost Road de Pat Barker

1994How Late it Was, How Late de James Kelman

1993Paddy Clarke Ha Ha Ha de Roddy Doyle

1992O Paciente Inglês de Michael Ondaatje

1991The Famished Road de Ben Okri

1990Possessão de A. S. Byatt

1989Os Despojos do Dia de Kazuo Ishiguro

1988Oscar e Lucinda de Peter Carey

1987Anel de Areia de Penelope Lively

1986Os Velhos Diabos de Kingsley Amis

1985The Bone People de Keri Hulme

1984Hotel du Lac de Anita Brookner

1983A Vida e o Tempo de Michael K de J. M. Coetzee

1982A Lista de Schindler de Thomas Keneally

1981Os Filhos da Meia Noite de Salman Rushdie

1980Ritos de Passagem de William Golding

1979Correntezas de Penelope Fitzgerald

1978O Mar, o Mar de Iris Murdoch

1977Staying On de Paul Scott

1976Saville de David Storey

1975Heat and Dust de Ruth Prawer Jhabvala

1974O Conservador de Nadine Gordimer

1973O Cerco de Krishnapur de J. G. Farrel

1972G. de John Berger

1971Num País Livre de V. S. Naipaul

1970The Elected Member de Bernice Reubens

1969Something to Answer For de P.H.Newby

 

Livros que Recomendo – Um Bom Homem É Difícil de Encontrar

Um-Bom-Homem-e-Dificil-de-Encontrar

Aqui há muitos anos atrás, logo no início de estarmos juntos, a cara-metade ofereceu-me este livro pela piada óbvia do título. No entanto, ele não dá ponto sem nó e tinha-se informado previamente que era um livro de qualidade, que valia a pena. E na realidade o livro é maravilhoso. Brutalmente maravilhoso.

Flannery O’Connor era uma escritora norte-americana, sulista, católica, que viveu de 1925 a 1964 e que apesar de ter vivido apenas 39 anos deixou-nos um espólio bastante rico em contos e 2 romances. Era uma astuta observadora da natureza humana e era isso que expunha nos seus contos, sem paninhos quentes, com sarcasmo e alguma crueldade.

Ler os contos de Flannery O’Connor é como levar um murro no estômago, por vezes temos de parar para respirar e digerir aquilo que acabámos de ler, mas não conseguimos não prosseguir para o conto seguinte.

Muitas vezes se diz que esta autora escreveu no estilo Southern Gothic, no entanto isso não significa que os seus contos sejam histórias de terror ou sobrenaturais, que não o são, são sim dum realismo cru que nos mostra sem condescendência as diferenças raciais, de classes, sociais, tão comuns no sul da América nos anos 40/50, e que se perpetuam ainda hoje, embora de maneira mais dissimulada.

Uma leitura muito forte, muito visceral, mas que recomendo a todos que gostam de boa escrita, realista, que nos leva a uma comtemplação do interior da sociedade, e por consequência de nós próprios e da nossa posição no mundo.

Boas Leituras!