Para Isabel

Isabel

Acabei há pouco tempo de ler o livro de António Tabucchi, For Isabel, a mandala. Apesar de ser um autor bastante conhecido em Portugal, principalmente por causa de Afirma, Pereira, eu nunca tinha lido nada dele e não sabia o que esperar, para além dum livro dum autor estrangeiro passado no nosso país, que foi publicado após a sua morte.

Nesse sentido não sei sequer se o título que o Netgalley me proporcionou (mais uma vez esta fonte na origem de tantas alegrias) é ou não um típico livro deste autor, mas isso apenas me deixa com o”problema” acrescido de ter de ler outras obras para criar uma base comparativa. Parece-me um bom problema para se ter.

Este livro é tal e qual o que o nome indica, uma mandala. Isabel é uma mulher misteriosa que desapareceu antes do 25 de Abril e que o narrador procura incessantemente em círculos concêntricos, dentro e fora do seu pensamento. Não sabemos bem quem é Isabel, muito menos quem a procura, mas de algum modo isso não é relevante para a história, tanto quanto os círculos que vão sendo feitos na descoberta e que vão revelando um pouco dum país poético à beira da revolução, e a busca de alguém que perdemos e que está escondido no seu nada, que um dia se cruzará com o nosso.

Para quem for fã de histórias lineares em que tudo faça extremo sentido, este não é o livro certo. Mas para quem goste de ser conduzido por um certo realismo místico, lírico, esta pequena obra será uma companhia deliciosa.

Para mim, o único ponto fraco foi a sua tradução para inglês. Se encontrasse versão em português, leria de novo, porque é dos raros casos em que acho que a tradução era tosca. E nem me refiro ao triste bacallá, que demorei uns minutos a perceber que era o nosso fiel amigo.

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Inspector Maigret

Maigret

Eu sou uma pessoa que até gosta de livros policiais, e bastante fã de Agatha Christie, especialmente dos livros do Poirot. No entanto, até o Netgalley me ter apresentado este livro do Inspector Maigret eu nunca tinha lido nada desta série, nem sequer tinha visto nada em cinema ou televisão. Suponho que seja por associar o autor (Georges Simenon) a uma coisa francesa e chata que só passava no canal 2 depois da meia noite, ou livros que eram vendidos em alfarrabistas, e por isso nunca dei o beneficio da dúvida.

Entretanto a minha opinião sobre as coisas que passam no canal 2 depois da meia noite, e sobre os livros que são vendidos em alfarrabistas mudou radicalmente e talvez tenha sido isso que me levou a pedir este livro. E, mais uma vez, ainda bem que o fiz.

O Inspector Maigret é na realidade o equivalente francês do Poirot. As histórias são passadas maioritariamente em Paris, e Simenon foi um escritor incrivelmente prolífico, tal como a Agatha Christie. Maigret foi um personagem largamente inspirado num inspector que existia na vida real, amigo do autor, e, a julgar por esta história, com um feitio especial.

O livro que li, Maigret and the Tall Woman (Maigret et la Grande Perche no original), foi publicado em 1951, sensivelmente a meio da carreira literária dos livros de Maigret, que vão desde 1931 a 1972. Menos cerebral que Poirot, o inspector gosta de pôr as mãos na massa e liderar a investigação, com um séquito de fieis adjuntos. No geral, gostei bastante, principalmente porque saímos das paisagens típicas do mundo anglo-saxonico e estamos num ambiente mais europeu, o que torna o livro mais cativante. Quase que me conseguia imaginar numa esplanada parisiense a beber um Pernod com o Kindle na mão e  a ler o desenrolar do caso.

Tenho mais 74 livros para o poder fazer, mas fica definitivamente na minha bucket list. O livro, aconselho a todos os fãs de histórias policiais que queiram passar um bom bocado. Da minha parte vou investigar mais títulos.

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Mitos do Norte

Norse Mythology

American Gods é uma série que está mesmo quase a estrear (dizem que dia 30 de Abril num canal de cabo americano), e só isso já seria razão suficiente para pegar num livro do Neil Gaiman (outro, para além do Sandman que tenho andado a ler por aqui). Claro que a escolha óbvia seria o homónimo, mas não consegui resistir a este Norse Mythology, acabadinho de sair, que ainda por cima vem complementar lindamente a outra série que ando a acompanhar, Vikings.

Foi por essa razão que os nomes dos deuses e deusas estavam frescos na minha memória, e isso ajudou muito a relacionar as histórias e os mitos. A mitologia nórdica, apesar de grandemente perdida no tempo, é muito rica em personagens e histórias, e talvez seja essa a razão que me levou a achar este um dos livros mais fracos do autor. Normalmente, ele costuma deslumbrar-nos com a riqueza das suas personagens, o envolvimento das suas narrativas, ao ponto de nos sentirmos parte do mundo fantástico que ele criou para nós em cada livro. Neste o começo foi um pouco confuso, como se o autor tivesse de condensar muita informação logo de início para conseguirmos abarcar o mundo todo, mas à medida que íamos progredindo nos contos, o génio contador de histórias de Neil Gaiman ia vindo progressivamente ao de cima. No entanto, nunca me consegui sentir verdadeiramente envolvida no mundo e nas descrições, sempre me senti como se fossem apenas contos avulsos, mal ataviados uns aos outros, sem continuidade, sem aquela sensação de saga que eu estava à espera.

No final de tudo, o meu conto preferido foi o Ragnarok, ou a descrição do final dos tempos e o seu renascimento, que é suposto encher-nos de temos e esperança ao mesmo tempo, e que deixa no ar a questão se já terá ou não sucedido com o final da era desses personagens distantes.

Ler este livro despertou-me a vontade de voltar a ouvir os velhinhos Amorphis, uma banda finlandesa cujos primeiros álbuns eram inspirados na Kalevala, um poema épico finlandês fundamental no desenvolvimento da identidade deste povo, pleno de histórias, mitologia e sagas. Um cheirinho aqui.

E pronto, a caminho do próximo livro, que espero me entusiasme mais.

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A Fortaleza Impossível

Impossible Fortress

Esta Páscoa, altura que costumo gostar tanto, está a ser um bocadinho diferente das anteriores. Basicamente dei um grande jeito às costas e encontro-me quase imobilizada. Até as tarefas mais básicas são uma dificuldade neste momento (como por exemplo estar no computador a dar os retoques finais neste post que escrevi maioritariamente no telefone), e neste momento só espero que o fim de semana prolongado seja suficiente para recuperar. Aceitam-se dicas de bons acunpuntores na zona de Lisboa.

Mas, por outro lado, e como há limites para a má televisão que se vê, os meus livros vão de vento em popa. E terminei mais um oferecido pelo Netgalley. Este, na realidade, já o tinha pedido há tantos meses como “desejo” que até me tinha esquecido dele, mas veio em boa altura. Um livro ligeiro passado em 1987 e totalmente imerso na cultura dos anos 80. Apesar de eu não ser uma saudosista e preferir até coisas viradas para o futuro, este livro trouxe-me alguns sorrisos e algumas recordações engraçadas, e creio que fará o mesmo a todos os que cresceram neste década.

A história centra-se num rapazinho que é um ás da programação no seu Commodore 64, e tem como sonho fazer jogos de computador, ter a sua própria empresa e ser famoso. Creio que isso será comum a muitos milhares de rapazinhos que viveram aqueles anos, a diferença é que o Billy conheceu uma rapariga à altura, e juntos embarcam numa aventura que os leva a criar a Fortaleza Impossível, o melhor jogo criado até à data.

Tudo isto no meio do que é crescer naquela década, com toda a pressão dos amigos para fazeres parte dos fixes, coisa que se perpetua até hoje.

Uma leitura fácil, simples, mas que entretém e nos deixa com um sorriso, mesmo o que eu estava a precisar nesta altura. Se forem à página do autor aqui, podem jogar o jogo num emulador do Commodore 64.  Eu já o fiz e disse-me que eu era “Just OK”.

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A Vida no Castelo

shirley jackson

Este foi mais um dos livros que estavam na calha e que resolvi pegar agora. Era relativamente curto e foi sugerido por uma amiga que já não via há algum tempo, mas com quem tinha o hábito de partilhar sugestões de leitura, sem nunca ficar desiludida.

Shirley Jackson foi também uma estreia para mim e, até este livro, era uma ilustre desconhecida mas acabou por ser uma agradável surpresa.
A história gira à volta de duas irmãs e um tio que vivem uma rotina rígida numa casa de família desde que o resto da família morreu envenenada 6 anos antes. A história está muito bem contada e é bastante gótica e cinematográfica. Passei todo o livro a lembrar-me da série American Horror Story. Na realidade não fiquei surpreendida quando mais tarde descobri que já há um filme baseado neste livro prestes a sair.

Mas por baixo duma história por vezes claustrofóbica há um subtexto muito interessante, que é o poder e a força das massas. Seja numa pequena cidade norte-americana, numa grande capital europeia, num estádio ou nas redes sociais, a mob mentality é perigosa e poderosa e põe pessoas que noutras circunstâncias seriam consideradas normais a fazer coisas indescritíveis, E isso foi o que eu achei mais bem explorado neste livro.

De resto, a história está muito bem contada, e se mais ou menos a meio eu já previa o desfecho, a mestria das palavras não retirou em nada o prazer de ler a história.

Aconselho a todos os que gostam de histórias diferentes, passadas em cidades pequenas, mas que podiam ser no nosso prédio.

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Páscoa Feliz

Pascoa Feliz

Nada mais apropriado a este tempo de Quaresma que um livro com este título. No entanto devo começar por dizer que a felicidade estava mesmo só no título já que todo o desenrolar desta história é difícil e pesado. Mas vamos por partes e comecemos do inicio.

Este era um dos livros que estava na calha, e foi um presente de aniversário duma amiga, a mesma que me apresentou a vários poetas e ao João Sem Medo, portanto as expectativas eram altas. E posso dizer que não ficaram defraudadas.

O livro está muito bem escrito e esta edição (d’A Bela e o Monstro Edições Lda) é deliciosa. Desde a fonte até à grafia, tudo emula a primeira edição de 1932 e sentimo-nos a viajar no tempo. Por outro lado este é outro daqueles autores que, não sendo hermético e quase místico na sua escrita, tem sido bastante esquecido pelos nossos fazedores de listas de melhores livros, que tendem a premiar escritores mais complexos e no geral mais difíceis de ler.

No entanto, através da simplicidade se consegue transmitir muita beleza, e este livro foi uma vertiginosa viagem dentro da mente dum homem condenado que nos vai contar a sua história. Acho sempre impressionante como um autor consegue transmitir no papel o que é viver dentro duma realidade de loucura duma maneira que pareça verossímil, e já o tinha sentido quando li “A Loucura” de Mário de Sá Carneiro algures em 2015. Este livro pareceu-me mais consistente, e fiquei muitas vezes agarrada à história na antecipação do seu desfecho, que nos é entregue de modo velado e temos nós o ónus de o desvendar de modo satisfatório.

Gostei muito, fiquei com vontade de ler mais coisas deste autor, de o investigar (como faço sempre para ter algum contexto sobre as coisas que leio, nesse aspecto a internet veio enriquecer bastante a experiência de leitura), e tenho pena que seja um semi desconhecido no nosso panteão.

Recomendo a todos os que queiram ler mais autores portugueses.

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Eu já sofri. Já fui um revoltado, um criminoso, se quiserem. Hoje, vivo serenamente. A serenidade é a maior virtude da inteligência.

Mas porque penso eu no mundo? É um hábito que fica. Detesto a vida activa. Os gestos que faço, os passos que dou, perturbam-me a vida interior, que é o meu prazer. Esquecimento, quietação! Doutor, não me pregunte mais nada!… Tenho amor a esta casa onde adquiri a certeza de que existo, porque penso.

Oportunidades

Oportunidades

O Peixinho já estava com dificuldades em navegar no seu aquário, o que em linguagem literária significa que já não temos espaço nas prateleiras. Na realidade, já temos filas duplas, livros por cima, no topo da estante e espalhados pela casa (e na casa dos pais). Ora, está na altura de pôr ordem nisto e ficar apenas com os livros que queremos mesmo, ou que eventualmente um dia gostariamos de reler.

Ao mesmo tempo que já libertámos alguns dos nossos livros em mini-bibliotecas por aí, outros estamos a vender. Podem vê-los aqui, e por enquanto é uma lista pequena (sim, tenho alguns problemas em separar-me de livros), mas de certeza que vai continuar a crescer. Mas vamos por partes:

Eu Assassino. de António Altarriba: uma BD maravilhosa, com uma qualidade visual muito bem conseguida. Temos dois exemplares, por isso estamos a vender um deles, novo.

2666, Roberto Bolano: um livro delicioso, mas que felizmente já temos em Kindle, por isso podemos libertar para outras casas. Em inglês.

V, Thomas Pynchon: a mesma coisa que o anterior. Já o temos na versão kindle, por isso podemos passá-lo a alguém. Também em inglês.

All the Countries We’ve Ever Invaded, Stuart Laycock

Raspberry Pi, a Practical Guide: acho que não preciso dizer que este era do outro peixe cá de casa.

Colecção Adam, BD: Comprei alguns volumes destes comics até perceber que realmente não posso comprar todas as BDs que gosto sob pena de não conseguir entrar em casa um dia. Espero que possa fazer alguém sorrir.

Fall of Hyperion

Fall of Hyperion

Acabei ontem de ler The Fall of Hyperion, a continuação do último livro que li,  que tinha sido incrível e que acabou num momento de intenso suspense. Por isso, acto contínuo, agarrei logo na sequela.

O primeiro e expectável choque, é que a acção começa num ponto diferente, com personagens diferentes, embora conhecidas do volume anterior.
No entanto, depressa nos apercebemos que a qualidade narrativa é a mesma, o crescendo de interesse é o mesmo, e continuamos profundamente envolvidos e cativados por esta história. Já é difícil os livros conseguirem surpreender-me duma forma tão absoluta como este, e dei por mim muitas vezes de boca aberta no autocarro. O final também está muito bem conseguido e as reviravoltas, que muitas vezes parecem um bocadinho forçadas, aqui foram sempre a propósito e inesperadas, o meu pensamento era sempre “I did not see this coming.

Pensei muitas vezes ao longo deste livro que parece incrível ter sido escrito em 1991, já que continua tão actual. Os problemas ecológicos causados pela nossa espécie, a arrogância com que nos achamos donos do planeta e de tudo à sua volta como se estivéssemos sozinhos no Universo levanta um dilema ético e moral sobre o qual raramente reflectimos.
Até onde a nossa relação com as máquinas pode e deve ir, é algo que merece ser pensado também. Estamos (quase) todos (quase) sempre ligados, caminhando a passos largos para tornar ficções científicas em realidades. Eu própria escrevo este post num smartphone a caminho de casa depois de ter lido o livro no Kindle. Infelizmente ainda num autocarro da Carris e não num farcaster, mas baby steps.

É certo que este é um livro de ficção cientifica pura e dura, mas é muito mais que isso. É uma reflexão filosófica sobre o nosso lugar no Mundo e no Universo, sobre o papel da tecnologia nas nossas vidas, a religião como salvadora da humanidade ou como indutora de alienação. Se deixarmos, é um livro que nos faz pensar ao mesmo tempo que nos mantém pregados a uma história interessante e vertiginosa e que não me cansarei de recomendar.

E no final de tudo, o último guardião da empatia humana é um poeta. Não há como não gostar deste livro.

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“My God,” whispered Meina Gladstone, looking down at the body of Admiral Singh. “I’m doing all of this on the strength of a dream.” “Sometimes,” said General Morpurgo, taking her hand, “dreams are all that separate us from the machines”.

Na Calha

Para Ler

A minha pilha de livros para ler deu mais um salto esta semana. Para começar há sempre quem goste de me presentear com livros no meu aniversário, e que bom que assim é. Depois tive umas mini férias onde aproveitei para rever velhas amizades, bibliófilas como eu, e com quem troquei ideias e nomes de livros. Por fim, o Peixinho Vermelho teve um ataque de consumismo e resolveu comprar um livro também. Quatro livros novos, três são portugueses, parece-me muito bem! Mas vamos por partes, e ver o que está na calha.

José Rodrigues Miguéis, Páscoa Feliz: Não conheço este escritor, mas a amiga que me ofereceu este livro é a mesma responsável pelo João Sem Medo e Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto, por isso a expectativa é alta. Gosto de literatura assim, cheia de portugalidade mas não daquele lirismo bacoco do antigamente. Com o nosso ADN, as nossas idiossincrasias, a nossa identidade. Depois falarei dele aqui.

Mário de Carvalho, O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana: Um escritor que gostei muito quando li o livro que falei acima, Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto. Escrita aparentemente simples, mas um vocabulário muito rico. Precisei mais vezes dum dicionário do que quando leio livros em inglês. Uma história irónica e fluida, um retrato social de costumes que gostei muito. Entusiasmada por começar a ler este.

José Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa: Li nas férias passadas, cortesia dum passatempo da TimeOut o último livro deste obscuro autor radicado há anos na Holanda. Gostei bastante, tal como o Peixinho Vermelho, que resolveu que estava na altura de comprar mais um para juntar à nossa biblioteca. Já vem a caminho.

Shirley Jackson, We Have Always Lived in the Castle: Por último, uma amiga que me aconselhou muitas das coisas boas que já li na vida, e com tenho gostos muito parecidos, incluindo Margaret Atwood, aconselhou-me este livro. Pela sinopse parece-me que sai um bocadinho da minha zona de conforto, o que é só mais uma razão para o ler. Estou ansiosa, e depois direi aqui de minha justiça… suspense gótico… se conseguir dizer alguma coisa.

E pronto, por hoje é tudo que ainda tenho 25% do Fall of Hyperion para acabar de ler, o livro que não sei se quero que acabe ou se não me quero separar daquelas personagens nunca.

Hyperion

hyperion

Acabei esta manhã de ler Hyperion de Dan Simmons e ainda estou a digerir esta obra massiva. Dan Simmons não trata os seus leitores como coitadinhos a quem tem de se fazer a papinha toda. Trata-nos como pessoas inteligentes e imaginativas, capazes de perceber o que é a Hegemonia, o que foi a Hegira, o que são farcasters  ou pelo menos inventar para nós próprios explicações suficientemente convincentes. E como não tem de perder tempo com explicações aborrecidas e inúteis, pode concentrar-se a escrever uma história magnifica, que é na realidade a história de sete personagens que embarcam numa peregrinação a um mundo distante, a uma divindade que é uma máquina orgânica, o Shrike.
E com esta base conseguimos pensar em história, poesia, humanidade, religião, ecologia, fragilidades.

Este livro é um grande épico, contado como as histórias clássicas da Antiguidade. Em cada capítulo, que é também a história pessoal de cada um dos personagens, vamos descobrindo mais um pouco deste mundo e das suas convoluções, vamos decifrando mais uma peça do puzzle, e vamos percebendo cada vez mais do funcionamento do Universo após a destruição da Terra e o grande êxodo humano.Escrito em 1989 este livro é estranhamente actual, porque o papel do Homem no mundo, a nossa arrogância de povo para povo, e para com as outras espécies não tem melhorado, quanto muito tem-se acentuado com o passar do tempo, como se prova pelos mais recentes acontecimentos da crise dos migrantes, do culto to medo e da intolerância, do discurso do nós contra eles. Incrível como um livro de ficção cientifica, esse género que é tantas vezes e tão injustamente catalogado como menor, ou livros para nerds, consegue tocar dum modo belíssimo e muito contundente em todos estes aspectos, com uma profundidade que é tocante.

E consegue fazer isso tudo sendo ao mesmo tempo uma história que é impossível deixar a meio. Eu que leio essencialmente no autocarro, como estou sempre a dizer, várias vezes ficava genuinamente desiludida por ter chegado a minha paragem, e ficava parada à porta do elevador só à espera de acabar aquela cena.

A maior parte da acção é passada na cidade dos poetas, o que já por si ganha pontos também. Depois, este livro e o seguinte, “The Fall of Hyperion” eram um só, e foram separados apenas por exigência da editora. Os ingleses têm um termo para o modo como este livro acaba, irrepetível em português: cliffhanger. E foi assim que me senti no final, à beira dum precipício, agarrada pelas pontinhas dos dedos, com alguém a soltá-los um a um. Escusado será dizer que já comecei a ler a sequela.

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The limb of Hyperion had been glowing white and green and lapis above them for hours when suddenly the old dropship. had cut into the upper layers of atmosphere, flame had briefly filled the window, and then they were flying silently some sixty kilometers above dark cloud masses and starlit seas with the hurtling terminator of Hyperion’s sunrise rushing toward them like a spectral tidal wave of light. “Marvelous,” Paul Duré had whispered, more to himself than to his young companion. “Marvelous. It is at times like this that I have the sense … the slightest sense … of what a sacrifice it must have been for the Son of God to condescend to become the Son of Man.”

From my earliest sense of self, I knew that I would be—should be—a poet. It was not as if I had a choice; more like the dying beauty all about breathed its last breath in me and commanded that I be doomed to play with words the rest of my days, as if in expiation for our race’s thoughtless slaughter of its crib world. So what the hell; I became a poet.