O Oitavo Poirot

End House

 

Sempre que estou numa fase em que não sei o que ler, ou sem vontade de ler no geral, como a que estou a atravessar, tendo a recorrer a zonas de conforto, autores que sei que não só dificilmente vão falhar, como também não irão escrever tratados densos de mil páginas.

Obviamente poderia simplesmente fazer uma pausa na leitura, como me disse alguém, mas nem vou comentar isso. Nem faço ideia como ocupar as duas horas diárias de tortura na Carris se não for a ler e a abstrair-me das pessoas. Ler é para mim uma questão de sobrevivência e sanidade mental.

Mas assim sendo voltei a refugiar-me numa segura história do Poirot, a oitava agora que os estou a ler por ordem de publicação, e não fiquei desiludida, antes pelo contrário. Apesar de me lembrar visualmente de já ter visto o episódio na televisão, continuei sem fazer ideia de quem era o verdadeiro culpado, e mesmo quase até às últimas páginas estive em verdadeira expectativa a disparar possibilidades para o ar. Para quem, como eu, tem a mania que é esperta e sabe mais que os autores, foi refrescante ser surpreendida desta vez.

Recomendo a todos os amantes do género, os que gostam de Poirot, e os que gostam de uma boa história para passar o tempo. Em português está editado como Perigo na Casa do Fundo.

Boas Leituras!

Goodreads Review

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The Watchmen

watchmen

Depois de ter terminado toda a saga do Sandman, fiquei um bocadinho sem saber o que ler em termos de BD. Claro que tenho muita coisa cá em casa ainda à espera de ser lida, e que entretanto já se compraram mais alguns, mas a mesma amiga que me emprestou os do Neil Gaiman percebeu a minha sensação de perda e imediatamente a colmatou emprestando-me este volume e garantindo-me que eu iria gostar.

Tendo acabado de sair dum mundo tão fantástico e onírico, o choque que senti com as primeiras páginas deste livro não foi pequeno. Ambos são negros, mas Neil Gaiman é mais negro gótico, e este é mesmo negro desespero. Distopia, como seria o mundo se uma série de premissas não se tivessem verificado. Não me senti preparada para uma transição tão abrupta, e deixei-o a marinar um bocadinho na minha estante.

Até que finalmente nestas férias achei que estava na altura de o agarrar de frente, e enfrentar este mundo de super heróis decadentes, tão decadentes e proscritos que a própria BD que se vende aqui é toda sobre piratas, porque ninguém quer ler sobre super heróis. Aliás, de preferência, ninguém quer saber que eles ainda existem, tirando um que ainda pode ter alguma utilidade desde que bem controlado pelo governo, e isolado numa redoma da restante população.

Este livro é a simbiose perfeita entre desenho e argumento. Não consigo imaginar esta história contada de outro modo que não este, e só as múltiplas camadas atingidas com o texto e o desenho nos conseguem transmitir todos os significados que o autor nos queria fazer chegar. Desenganem-se aqueles que estão convencidos que BD é coisa de crianças, ou que o universo dos super heróis é tão linear e insípido como Hollywood nos quer fazer crer.

Estes super heróis são pessoas com algumas características que lhes permitem serem diferentes de nós e lutarem contra o crime de algum modo, no entanto as próprias máscaras que os ajudam a proteger a identidade a partir de certa altura denunciam-nos e cobrem-nos de ridículo. A certo ponto um deles, depois duma cena mais violenta, pergunta contra quem é que eles estão a proteger o público, se dos vilões se dos “bons”. Estes “bons” são pessoas carregadas de defeitos, neuroses, dificuldades sociais e de adaptação e que no momento em que história começa estão não só proibidos de exercer, como começam a ser atacados por uma força desconhecida e mortos um a um. É este o catalisador de toda a série de acontecimentos que se seguem, embebidos numa história mundial e de guerra fria muito complexa, e com imensos sub textos paralelos que eu tenho sérias dúvidas que tenha conseguido abarcar na totalidade.

Aconselho a todos os fãs de BD, mas principalmente aos que não se deixam intimidar por uma história longa, complexa, que é preciso ler com uma atenção que normalmente não associamos a este género de livro. Vão ver que não se vão arrepender, este é um verdadeiro clássico do género.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Crónica duma Morte Anunciada

GGM

Já há muito tempo que queria recomendar no Peixinho um livro do Gabriel García Márquez que me acompanhou no final da adolescência, no entanto demorei muito tempo a decidir qual. Muitos são aqueles que me encantaram, mas finalmente percebi que este tem um lugar especial no meu coração de leitora.

Este livro começa pelo fim. Começamos a saber que Santiago Nasar vai morrer, e como vai morrer. Na realidade, nunca houve morte mais anunciada e é isso que torna este pequeno livro absolutamente delicioso.

O narrador retorna à sua aldeia muitos anos depois dos acontecimentos terem ocorrido, e vai investigar como morreu o seu amigo. Bayardo San Roman casou com Angela Vicario e descobriu na noite de núpcias que ela já não era virgem. Pressionada a nomear o culpado, ela acusou Santiago Nasar, e foi devolvida à familia. Os irmãos juraram vingar a sua honra e matar o culpado. E a partir daí a sorte de Santiago está lançada, e toda uma série de eventos se desenrolam permitindo que a sua morte efectivamente aconteça, perante a impassividade/cumplicidade de toda a aldeia.

É realmente um livro pequeno, com cerca de 100 páginas ou menos, mas poderoso na forma com a história se desenrola, como o autor nos obriga a testemunhar este facto como se estivéssemos nós próprios nesta aldeia perdida do interior colombiano, e fossemos de algum modo coniventes com o que se está a passar. É, como muitos outros livros, um forte retrato das convenções sociais, dos moralismos e das regras rígidas que nos regem, um testemunho do facto que muitas vezes acreditamos no pior das pessoas.

Recomendo a todos os que gostam de literatura sul-americana, ou a querem descobrir, ou simplesmente querem uma história pequena mas muito bem contada.

Boas Leituras!

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón

carlos ruiz zafon

Já andava há imenso tempo para ler algo deste autor porque em todo o lado eu via excelentes críticas aos seus livros. Entretanto comecei a ler um livro do Netgalley que me estava genuinamente a enervar, resolvi mudar para outro e achei que estava na altura de dar uma chance a este senhor.

Pois, olhando para o Goodreads, se calhar eu não vou ser muito consensual desta vez, porque apesar de ter achado um bom livro, não achei espectacular como a maioria das críticas faziam antever. Primeiro tive de me adaptar à prosa excessivamente floreada do autor. Muitos adjectivos para mim complicam, mais do que embelezam a escrita, mas obviamente isso é uma questão de gosto pessoal, e uma vez que a história descolou eu estava prontinha para ignorar esse facto, já o enredo era suficientemente criativo e absorvente para nos fazer querer ler o livro a toda a hora.

O segundo problema para mim foi a dificuldade em perceber a passagem do tempo. Nós seguimos a história de Daniel Sempere, um rapaz que começa a narrativa poucos dias antes de fazer 11 anos, quando vai com o seu pai ao Cemitério de Livros Esquecidos, local mágico onde se encontram todos os livros que já ninguém lê. Aí ele escolhe (ou é escolhido) um livro escrito por Julian Carx e assim começa toda uma história de mistério que se passa nas ruas de Barcelona, na tentativa de descobrir qual foi o destino desse obscuro escritor e de toda a sua vida. Ao longo da investigação Daniel vai crescendo e de alguma forma a sua vida vai espelhando a de Julian. No entanto, para mim foi confuso seguir a evolução do tempo e perceber qual a idade de Daniel a cada momento da história.

Mas a machadada final, que não poderei contar aqui, foi o chamado plot twist, que para mim me pareceu algo infantil, digno de uma novela da TVI. Mas isto tem tudo a ver com gestão de expectativas. Quando vemos toda a gente a dar 5 estrelas a um livro, esperamos uma coisa perfeita, e começamos a ler com essa ideia, e cada pequena coisa que não corresponde torna a desilusão maior. Por isso, como disse no início, um bom livro, com uma história envolvente e cativante, mas não um livro genial.

Parece-me o livro perfeito para nos acompanhar nas férias e nos proporcionar boas horas de entretenimento, com a vantagem adicional que se conhecerem Barcelona irão reconhecer muito do cenário onde é passado. Tem também a vantagem de ser passado durante a guerra civil espanhola e nos dar a conhecer um pouquinho mais dessa realidade. Nesse aspecto foi bastante bem conseguido.

Goodreads Review

Boas Leituras!

 

Livros que Recomendo – Pela Estrada Fora

on the road

Jack Kerouac é um escritor medianamente conhecido, pelo menos entre nós, mas a sua influência na literatura anglo-saxónica foi fundamental. A ele é atribuído o nascimento da “Beat Generation“, uma geração de escritores e poetas pós segunda guerra mundial, que tentaram quebrar barreiras, ver o mundo com outros olhos e pavimentaram a posterior revolução que foram os anos 60. A isso tudo Jack Kerouac junta o facto de ser o único escritor que conheço que partilha o meu aniversário, por isso foi com redobrada curiosidade que li este seu livro.

Se retirarmos todo o contexto à obra, ela pode parecer-nos seca e desprovida de elegância. Parecem-nos as viagens sem rumo duns tipos falhados na vida, divorciados, alcoólicos, a experimentar com tudo o que deitam a mão.

Mas se pensarmos que isto é um relato de viagens feitas no final dos anos 40, com o pano de fundo duma América a recuperar da guerra, das casas de jazz, a pobreza das zonas mais interiores, o desespero e falta de visão de futuro duma nova geração, vemos que à altura isto foi tudo muito inovador. Estes amigos iam visitar locais onde a classe média não se atrevia a entrar, e voltavam para contar a história, que era escabrosa.

Também o modo como a história foi contada foi inovador. Jack Kerouac tirou anotações em blocos de notas aquando das suas viagens, e só alguns anos mais tarde, em 1951, se sentou durante 3 semanas e escreveu tudo de seguida, sem parar, num manuscrito de folhas todas iguais que colou umas às outras para formar um enorme rolo contínuo, que ainda hoje se encontra em exposição em algumas bibliotecas.

Hoje em dia, que já todos vivemos tudo, que tudo é permitido embora tudo seja criticado, pode ser difícil perceber qual foi a relevância desta obra na altura, mas ainda hoje é considerado um livro importante e influencia muitos escritores e músicos. Em 2012 foi feito um filme, que eu ainda não vi, mas que não me parece muito promissor.

Já o livro recomendo a todos os que gostam de literatura de viagem, de retratos duma geração, de coisas diferentes.

Boas Leituras!

The Winter’s Child, de Cassandra Parkin

winters child

 

Keep scrolling if you prefer to read in English!

Mal vi um novo livro da Cassandra Parkin disponível no Netgalley não consegui resistir e tive que o pedir. Felizmente deram-me a oportunidade de o ler e passei-o bem à frente de outros que tenho na lista para me proporcionar o prazer de um livro bem escrito.

Em Winter’s Child, Cassandra conta-nos a história de Susannah Parker, a quem o filho Joel desapareceu vai fazer 5 anos. Susannah é uma mulher forte, que nunca desistiu de procurar o filho, mesmo depois do seu casamento não ter resistido ao trauma, e mesmo quando mais ninguém parece ajudar. Esta história é forte, complexa e recheada de pormenores interessantes.

Esta autora escreve muito bem. Mesmo quando os personagens não são simpáticos nem causam propriamente empatia, nós queremos saber o que lhes acontece. E as coisas nunca são como parecem à primeira vista. É exímia em descrever doença mental, e em mostrar-nos o que se esconde por trás duma capa de aparente normalidade.

O único senão para mim, que sou chata, é que a meio do livro já tinha adivinhado o plot twist e isso retirou um bocadinho o impacto do final.

Mas é um bom livro, bem escrito, e recomendo a todos os que gostam de histórias bem contadas.

Goodreads Review

Boas leituras!

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As soon as I saw a Cassandra Parkin’s book available for request on Netgalley, I was unable to resist and had to try and get. Luckily I was given the chance to read it, so I moved it forward on my TBR list so I could enjoy the pleasure of a well written book.

In Winter’s Child, Cassandra tells us Susannah Parker’s story, whose 15 year old son went missing 5 years ago. Susannah is a strong woman who has never given up the search for her son, even after her marriage has failed, not resisting the trauma, and even if no one else seems to be helping her in that quest. This is a strong and complex story, rich in details.

Cassandra is an amazing writer. Even when her characters are not nice or relatable (like Susannah, after a while), we still want to know their fate. And things are never quite as they meet the eye. She describes mental illness brilliantly, and is able to show us what lies behind what seems to be normal.

The only thing that was not quite there for me was that by middle of the book I was already guessing the ending, but I’m annoying that way.

But it’s a very good, well written book, and I recommend it to everyone who likes a story well told.

Goodreads Review

Happy Readings!

Livros que Recomendo – Harry Potter

harry potter

Pode parecer estranho à primeira vista vir aqui recomendar um livro infanto-juvenil, mas quem segue este espaço sabe que não é a primeira vez que o faço, uma vez que já falei de livros de banda desenhada e livros para esta faixa etária, como A Rapariga que Roubava Livros, por exemplo. Pode parecer ainda mais estranho recomendar um livro que já toda a gente que queria ler, leu, mas eu acho que este é um livro (ou série de livros) incontornável na minha história e no conhecimento de todos os bibliófilos.

A história é do mais simples que pode haver. Um órfão de pai e mãe é educado por uns tios que o desprezam e maltratam (vêem as semelhanças com tantas outras histórias do género?) mas consegue algum alívio quando descobre que vai passar todos os anos lectivos numa escola de magia onde goza de algum prestígio devido à sua ascendência, e onde é amado por uns e odiado por outros. Vai tornar-se um líder entre os seus pares, atravessar a adolescência superando grandes desafios e tornar-se um jovem adulto no meio de muitas aventuras e consolidando amizades que se transformam numa família alargada.

Até aqui isto é a sinopse de muitos e muitos livros infanto juvenis. Este tem a particularidade de se ter imerso no mundo da magia, ter mexido com o nosso imaginário criando feitiços e criaturas, reaproveitando outras e colocando isso tudo no cenário bem nosso conhecido e também por si só dado à fantasia, da velhinha Inglaterra.

Quando comecei a ler estes livros já era adulta (young adult, se quiserem), mas mesmo assim não fiquei imune ao charme da magia e da história simples mas bem contada, com a dose certa de aventura e personagens antagónicos, com heróis e vilões na medida certa. Estes livros têm também a virtude de me terem introduzido na leitura em inglês. Algures por altura do lançamento do quarto volume percebi que não ia aguentar esperar meses pela tradução, e se dava explicações de Inglês estava na altura de testá-lo na vida real. O meu primo, que era tão fã como eu, foi para a fila da Fnac no dia do lançamento e comprou um exemplar para mim. E a partir daí nunca mais parei. Todos os volumes seguintes li em inglês e daí a ler maioritariamente nessa língua no meu Kindle foi um passo muito pequeno, e as portas que isso me abriu foram inúmeras.

Estes livros são fáceis de ler, proporcionam horas de entretenimento e eu recomendaria a todos os que têm jovens que querem entusiasmar pela leitura, ou adultos que gostam de sonhar de vez em quando. Não são clássicos da literatura mundial, podem ver os filmes em vez de ler os livros, mas ficam mais mal servidos porque nada bate a nossa própria imaginação a funcionar.

Acredito que a grande maioria dos meus seguidores já tenham lido o Harry Potter, e os que não leram também não o vão fazer, mas mesmo assim deixo aqui a minha recomendação.

Boas Leituras!

O Elixir da Eterna Juventude

SG 02

Imaginem que aquelas músicas que vocês passaram a vida a cantarolar desde miúdos e que viram dezenas de vezes em concertos são agora transformadas num livro de banda desenhada. Foi o que aconteceu com este “Elixir da Eterna Juventude” de Fernando Dordio, que resolveu pegar no universo de Sérgio Godinho e transformá-lo numa aventura alucinada por páginas bem ilustradas.

É quase impossível não gostar dum livro que está tão imerso no nosso imaginário colectivo, a menos que sejam uma daquelas 15 pessoas em Portugal que não gostam do Sérgio. Mas se esse for o caso, aviso já que o Zeca faz uma aparição especial.

E, melhor que tudo, ainda temos direito à árvore dos patafúrdios, esse clássico de qualquer infância de todos os portugueses com mais de 30 anos. Um bocadinho mais, vá…

No entanto, nem tudo é perfeito neste livro, e para quem já leu as BD’s de Filipe Melo, por exemplo, vê que a cadência e coerência desta história ficam um bocadinho aquém. No entanto eu continuo a achar que vale a pena ler e tentar descobrir todas as referências musicais contidas nas suas páginas. Tenho de agradecer ao programa do Raminhos, Missão 100% Português, por me ter dado a conhecer este livro.

Recomendo a todos os amantes de BD e de boa música portuguesa!

Goodreads Review

Boas Leituras!

SG 01

Livros que Recomendo – A Troca

A-Troca

O livro que venho recomendar hoje foi um ícone dos meus anos 90, mas foi escrito em 1975 e a acção é passada na loucura dos anos 60. Foi o primeiro livro que li deste autor, David Lodge, de quem fui seguidora assídua ao longo de toda a década de noventa, e cujos livros ainda leio com prazer.

David Lodge é (era?) um professor universitário inglês de literatura e A Troca centra-se neste meio que ele conhece tão bem. Segue dois professores, um inglês dum meio académico fechado, antiquado e pequeno, e outro americano dum meio bastante maior e mais moderno, a viver em pleno a revolução de costumes dos anos sessenta. Estes dois personagens vão trocar de posto por um semestre, cada qual com as suas motivações, e as situações que daí se despoletam são cheias de humor e um sarcasmo muito característicos deste autor.

Porventura algo datado, já que desde os anos 70 o meio académico inglês evoluiu muito e está hoje a par com o americano, em termos de abertura de espírito, não pretendo discutir aqui méritos educativos que não é a minha área, este livro não deixa de nos divertir e ser uma crónica de costumes muito engraçada. É também uma porta aberta para outros títulos deste autor, nomeadamente os outros dois que finalizam a sua campus trilogy.

A acção passa-se nas cidades ficcionadas de Rummidge e Euphoria, que são baseadas em Birmigham e Berkeley, bastante conhecidas pela sua realidade universitária, e ainda hoje me lembro de algumas situações que me fizeram rir alto. David Lodge é exímio a caricaturar uma certa inadequação e inadaptação à vida real, com a qual muitas vezes nos identificamos.

Vale a pena ler nem que seja como documento dum tempo e dum lugar, e é entretenimento garantido. Haverá por certo por aí perdido em bibliotecas e alfarrabistas.

Boas Leituras!

A Maldição de Hill House

hauting of hill house

Depois de ter lido We Have Always Lived in the Castle desta autora fiquei com o bichinho de ler mais livros. O escolhido para ser o seguinte era o também muito aclamado The Lottery, mas entretanto li um artigo onde escritores que eu prezo (Neil Gaiman e Dan Simmons) diziam que esta Maldição de Hill House era dos livros mais assustadores que já tinham lido, e como o tinha no meu kindle decidi imediatamente que seria a minha leitura seguinte.

Eu tenho particular aversão a filmes de terror, na realidade nem sequer consigo ver nenhum, mas com livros isso não acontece, leio qualquer género, e o pior que pode acontecer é incorporar a história do livro nos meus sonhos, mas isso sinceramente acontece com qualquer livro (passei noites sem fim a bordo dum navio quando li O Terror). Foi por isso que abracei corajosamente a leitura desta mansão assombrada sem olhar para trás.

O começo é bastante interessante, logo a frase de abertura determina qual vai ser o rumo da história. A personagem que nos acompanha, Eleanor Vance, é deliciosa e remete-nos imediatamente para Merricat Blackwood, a personagem principal de “Sempre Vivemos no Castelo”, e de algum modo estranho eu relacionei-me bastante com ela e com os seus modos bizarros. Acho que é este modo peculiar de ter uma vida paralela a decorrer dentro da cabeça para onde nos retiramos quando o que se passa cá fora nos agride ou simplesmente nos aborrece. No entanto, descansem os amigos (e marido) que lêem este blog, estou a anos luz de qualquer uma das duas personagens (acho eu…)

Mas esta “casa dos espíritos” é na realidade um livro bastante interessante porque nada nos é dito, nada nos é mostrado, tudo é insinuado e a linha que separa a ficção da realidade é bastante ténue. De tudo o que está a acontecer, o que é que está realmente a acontecer, e o que é que pertence apenas ao domínio da imaginação de uma ou de todas as personagens?

Shirley jackson é exímia a descrever pessoas perturbadas, complicadas, mas cheias de doçura e com as quais criamos imensa empatia. Qualquer um dos habitantes iniciais da casa são nossos amigos e nós preocupamo-nos genuinamente com o destino deles.

Eleanor Vance é das personagens mais deliciosas com que me cruzei este ano, e eu aconselho este livro a todos os que não se impressionam facilmente e gostam de ler histórias que os deixam a questionar o que se passa. Se lerem a edição da Penguin, como eu, aconselho a lerem a introdução no fim, sob pena de ficarem a conhecer toda a história, incluindo o final, antes de entrarem no próprio livro. Nunca vi tamanho spoiler ser chamado de introdução, e felizmente parei a tempo.

O livro teve também duas adaptações para filme, uma logo em 1963, e outra em 1999. A primeira não vi mas é considerado por muitos um filme de culto e um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. A segunda é ela própria uma sessão de terror pelo modo infantil como assassinou a história original. Vejam por vossa conta e risco.

Goodreads Review

Boas leituras!

No live organism can continue for long to exist sanely under conditions of absolute reality; even larks and katydids are supposed, by some, to dream.