Livros que Recomendo – O Principezinho

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Pensando em retrospectiva este talvez fosse um dos primeiros livros que eu devesse ter recomendado aqui neste meu espaço. Não tenho livros ou autores favoritos, vou tendo gente que me acompanha em determinadas alturas da vida e leituras que deixam marcas para sempre. No entanto, este livro será o que mais se aproxima dum livro favorito. Dizia uma amiga de infância que o mundo se divide entre pessoas que gostam do principezinho e pessoas que não gostam do principezinho, sendo que estas últimas são para termos cuidado com elas.
Eu não terei porventura uma visão tão radical, mas confesso que me faz arrepiar os cabelos da nuca se alguém confessa não gostar. No entanto, este é um dos livros mais vendidos de sempre, daí não ter tido ainda urgência em vir aqui recomendá-lo.

E o que torna este livro tão especial? Bom, por onde começar? Não nos deixemos iludir pela história simples do menino que anda pelo universo à procura de amigos, nem fiquemos demasiado presos às dezenas de citações que podemos encontrar em todo o lado. Apesar de à primeira vista ser um livro infantil, na realidade os significados ocultos, a dor da perda, o amor, tudo isso se dirige à um público adulto e capaz de entender nas entrelinhas.

E depois o próprio Saint-Exupéry com a sua morte misteriosa e o cunho biográfico imprimido na obra, tornaram este livro um dos mais importantes da literatura do século XX.

Uma ode à descoberta do que realmente é importante na nossa vida, de como podemos cativar e amar os outros à nossa volta, este é daqueles livros que deviam ser de leitura obrigatória para formação pessoal.

Recomendo a todos, sem excepção. E se  não gostarem, por favor não me digam.

Boas leituras!

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Man Booker 50

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Já aqui falei no início do ano que este era o ano em que se oferecia o quinquagésimo prémio Man Booker, e que para isso se iria escolher o melhor entre os melhores. Na altura publiquei a lista de todos os vencedores, e esta semana foi finalmente escolhido o grande vencedor, O Paciente Inglês, de Michael Ondaatje.

Um painel de especialistas escolheu o que achava melhor de cada década, e depois coube ao público eleger o grande vencedor. Podem consultar os pormenores do evento aqui.

Devo dizer que fiquei contente por ser um livro que gostei bastante, e que realmente é um belíssimo trabalho de ficção que nos envolve e emociona. Se ainda não leram, agora é uma boa oportunidade.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Sandman Slim

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Já aqui falei de Sandman Slim quando li as suas oitava e nona aventuras, e achei que estava na altura de finalmente falar destes livros nesta rubrica.

James Stark era um jovem meio desmiolado e interessado no oculto quando foi traído pelos seus amigos de então e mandado vivo para o Inferno para passar uma temporada como mercenário de alguns demónios poderosos, assassinando rivais em seu nome ou lutando nas arenas infernais para seu entretenimento.

Onze anos depois está de volta às ruas de Los Angeles, um Inferno em nome próprio, onde vai finalmente poder pôr todas as competências que adquiriu a uso para causas um pouco mais nobres. Aí descobre que é metade homem, metade Anjo e isso o torna muito forte, mas ao mesmo tempo uma Abominação aos olhos de muitos.  Aliamos a isto um terrível mau feitio, uma sala que o transporta magicamente para qualquer sítio à escolha, uma atitude punk dos tempos modernos e um planeta a precisar de ser salvo e temos aqui a receita para umas boas horas de entretenimento e bom humor.

Sandman Slim é uma série de fantasia urbana, cheia de motas e carros rápidos, uma cidade voraz e esmagadora e suficientes referências da cultura pop para nos deixar agarrados às páginas. Não é alta literatura, nem as histórias são incrivelmente densas, mas são coerentes, coesas, bem trabalhadas e sem pontas soltas, fazem sentido e, pelo menos a mim, divertem-me imenso. Até o Inferno parece um sítio divertido para se beber uns copos.

De cada vez que preciso de descontrair o cérebro, como quem faz alongamentos depois duma longa sessão de ginásio, vou ver se Richard Kadrey já acrescentou mais algum volume à série do Sandman Slim. Tendo em conta que é um autor muito prolífico, normalmente não me desiludo. Vem mesmo a propósito que o décimo volume destas aventuras está quase a ser lançado, Hollywood Dead, e espero dar conta da sua leitura em breve.

Se não conhecem, aconselho obviamente a começar de início, por este mesmo título e perceberem quem é na realidade O Sandman Slim, anti herói que voltou do Inferno e que está sempre a um passo de lá voltar.

Boas Leituras!

The Third Swimmer

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Keep scrolling if you prefer to read in English

Depois do último livro ter sido uma experiência de leitura brilhante mas aterradora, voltei a ler uma sugestão do Netgalley mais tranquila e intimista. Aliás, essa parece ser a temática de 2018, livros que contam histórias bonitas e delicadas, que se debruçam sobre as dificuldades de comunicação nas relações, sobre o manter a intimidade e o amor mesmo em face da adversidade.

Este livro acompanha a história de um casal, Olivia e Thomas, em dois momentos diferentes. Quando se conhecem em pleno despontar da Segunda Guerra Mundial, e mais tarde, em 1952, já casados e com 4 filhos, com um casamento longo mas algo distante, com dificuldade em manter intimidade, com muitas coisas que ficaram por resolver, por dizer e com as mazelas que a guerra deixou nos dois. Resolvem fazer uma viagem a dois ao Sul de França para ver o que restava do casamento, e perceber se ainda o podem salvar.

A história é relativamente simples, mas recheada de significados escondidos, camadas de interpretação, metáforas, interligações com momentos específicos da História real e da história pessoal da autora, que tornaram a experiência de ler este livro ainda mais prazerosa.

Mais uma vez uma experiência que não me deixou desiludida, e um livro que recomendo a todos os que gostem de histórias simples, mas bonitas e bem contadas.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Intimacy is just this, she thinks: talking to somebody in the night, talking and being heard. It’s harder than anything. And, there is no other way.

After the last book having been a brilliant yet terrifying reading experience, I went back to a more soothing suggestion from Netgalley. Actually, this seems to be this year’s trend, as in 2018 I’ve been reading books that tell beautiful and delicate stories, about relationship struggles, the difficulties in communicating, maintaining love and intimacy in the face of adversity.

This book leads us along the story of Olivia and Thomas in two separate moments. When they first met, at the dawn of WWII, and later, in 1952, when they are already a married couple with 4 children, with a long, difficult marriage, with many things left unsaid and struggling to remain intimate. It’s in this context that they decide to go on a trip to the south of France, trying to salvage what they can from their relationship.

This is a fairly simple story and yet filled with hidden meanings, layers of implications, metaphors, connections with real moments and people from History and from the author’s personal life, making the reading experience richer and more fulfilling.

Again, this was a very good experience, a book that I recommend to everyone that likes a simple story, beautiful and well told.

Happy Reading!

Livros que Recomendo – A Rapariga que Roubava Livros

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O livro que recomendo hoje é um dos muitos que nos fala sobre a Segunda Guerra Mundial. Se calhar não será o melhor ou o mais completo, e é certamente controverso, daqueles que se ama ou odeia. Eu enquadro-me na primeira categoria.

Creio que foi a cara-metade que sugeriu a leitura, mas seja como for lemos os dois, e gostámos igualmente. Apesar do pano de fundo pouco original (há largas dezenas de livros passados na Segunda Guerra Mundial), este livro consegue manter alguma frescura na história e na forma como é narrado. Começa por se enquadrar num género denominado em inglês de Young Adult, que na nossa língua teria mais ou menos a correspondência à literatura infanto-juvenil, mas que na realidade não é bem a mesma coisa. Young Adult pressupõe não crianças a entrar na adolescência, mas sim jovens adultos em formação, que estão precisamente a sair dos anos da adolescência e a entrar na idade adulta. Os vintes, diria eu. E nesta categoria incluem-se livros muito interessantes e de temáticas muito ricas, este é um deles.

Começa pelo facto da guerra nos ser mostrada com um olhar alemão, contrariamente ao que estamos habituados, e percebemos que há impactos negativos dos dois lados da barricada, e que as pessoas comuns vêem as suas vidas afectadas sempre. Depois o narrador é também pouco convencional, a morte, e o modo sarcástico como ela interage com os leitores e a história foi o que para mim ganhou pontos, mas que para muitos leitores os fez desgostar do livro.

Depois as demonstrações de sensibilidade e amor escondidas nos sítios e nas pessoas mais improváveis são também uma pérola desta história, que nos faz descobrir que toda a gente tem um coração, por mais que se esforce por o esconder. Depois, é um livro sobre livros, não há como não gostar.

A história é sobre Liesel, uma jovem alemã que vai viver com uma família de acolhimento numa pequena cidade alemã perto de Munique em plena Segunda Guerra Mundial, a sua adaptação ao local, às pessoas e à realidade da guerra. Pelo meio ajudam um rapaz judeu a esconder-se e os livros desempenham um papel crucial de união.

Tal como muitos dos livros que já recomendei aqui, também deste se fez um filme. Já vi, não é mau, mas falta-lhe algo da intimidade do livro, como seria de esperar.

Recomendo a todos os que gostam de histórias fortes, ver temas sérios por diferentes ângulos e que lidam bem com emoções.

Goodreads Review.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Andam Faunos Pelos Bosques

aquilino ribeiro

Não sei quantas vezes referi aqui que tirei o curso de Biologia, nomeadamente Biologia Ambiental na sua variante de recursos terrestres. Isso fez-me ter cadeiras interessantíssimas, como por exemplo Fauna de Portugal. O professor dessa cadeira era em si mesmo um personagem, mas isso fez com que fosse das cadeiras onde mais informação me ficou retida na memória, e aprendi imenso com ele. Um dos  muitos ensinamentos que ele nos transmitiu é que Aquilino Ribeiro era um autor português onde era possível aprender imenso sobre a fauna do nosso país, e isso fez-me andar desde então em romaria à procura dos seus livros.

Longe estava eu de imaginar que seria tão difícil de encontrar livros dele à venda, pelo menos há uns anos atrás não se encontrava nada nas livrarias. Ora, eu não sou de me atrapalhar, e consegui uns quantos volumes a 2€ cada um num alfarrabista e comecei por ler este Andam Faunos Pelos Bosques, porque bosques e criaturas míticas apelam ao meu lado amante de fantasia.

Ler num Kindle tem a vantagem de se ter um dicionário na ponta dos dedos. Quando se pega novamente em papel percebe-se que essa facilidade deixa de estar lá. Normalmente não é problemático porque em papel leio essencialmente em português, mas Aquilino Ribeiro é uma leitura muito desafiante. Há imensas palavras que não sei o significado, e como são especificas das beiras (ou inventadas pelo escritor?), não consegui encontrar no dicionário. Talvez pelo seu intenso domínio do português e pela sua temática tão regional ande tão desaparecido dos escaparates.

Mas isso não diminuiu em nada o prazer de ler esta história fantástica, carregada de crónica de costumes dum Portugal que já não existe a não ser de forma residual. Algures nas serras das Beiras as donzelas andam a perder a sua pureza e atribuem esse facto a uma criatura peluda e viril, que não as força, mas que as deixa sem vontade de resistir. O fauno tem bom gosto e escolhe as mais jovens e mais belas, as feias e desinteressantes só Deus quer. Instala-se o pânico, os homens organizam-se e faz-se uma batida por essas serras fora para encontrar o culpado. Que obviamente nunca será encontrado, e são os padres da região, reunidos em Viseu, quem desvendará o mistério.

No meio desta história simples faz-se uma crítica social apurada, onde não escapa nem povo, nem clero, nem nenhum dos costumes estranhos que definem a nossa portugalidade rural. Os padres são, aliás, um dos principais alvos desta crónica, e não escapam a uma crítica mordaz, mas são também a chave de todo o livro. Uma pérola que recomendo muito a todos os que gostam de literatura portuguesa que nos ajuda a viajar no tempo e na história. Estão na calha pelo menos mais 3 títulos deste escritor, assim que tiver novamente cabeça para andar confundida com a minha língua mãe.

Goodreads Review

Boas Leituras!

O Terror de Dan Simmons

the terror

Durante várias semanas um colega de trabalho quase diariamente tentava convencer-me a ver esta série que passa correntemente no AMC e eu lá lhe explicava que não sou muito de séries. Entretanto nas férias estava eu à procura de coisas novas para ler e fui ver os títulos do meu novo autor fetiche, Dan Simmons, o mesmo que escreveu Hiperyon e Endimyon, quando encontrei um livro dele chamado, precisamente, The Terror. Mau, estaríamos a falar da mesma coisa?

Ignorei e comecei a ler um Poirot, porque ainda estava a digerir o livro anterior. À noite estava a ver os blogues que sigo quando me deparei com este post no blogue do Nuno onde ele fala exactamente da série e confirma que é baseada no livro do Dan Simmons do mesmo nome. Fiquei rendida, deixei o Poirot de lado, e ataquei o terror.

Se ignorarmos o sobrenatural, este livro, que é uma ficção sobre a expedição de Franklin ao Ártico que se perdeu para sempre, é uma elegia à Lei de Murphy. Tudo o que pode correr mal, vai correr mal. Mas como em muita coisa na vida, o que conta é a jornada até lá chegarmos, e Dan Simmons dá-nos uma jornada e pêras. Ainda não sei como será a série, mas digo-vos que o livro é passado com o coração nas mãos, e as mãos à vez na boca ou no estômago, ora vociferando ora pensando porque raio serão necessários tantos detalhes. Se, como eu, tiverem uma mente muito visual, dificilmente a série terá mais impacto do que a vossa própria imaginação. Mas este autor fez aqui o mesmo que em Hyperion, mantém-nos agarrados às mais de 700 páginas, a ler avidamente, sempre à espera do que vem a seguir, mesmo sabendo em traços largos o que vai acontecer.

Temos também a beleza do elemento das lendas Inuit que são o pano de fundo para muito do fantástico que se passa no livro, e o enchem com uma roupagem mais densa e mais bela do que uma simples história de terror. E por fim, depois do que muito reclamei quando finalizei a saga de Hyperion e Endymion, é bom ver finalmente um livro do Dan Simmons traduzido para português e pode ser que isto crie o interesse necessário para se abrir a porta a mais títulos.

Recomendo a todos os valentes que andam por aí e que gostam de bons livros, que não se deixam impressionar facilmente com descrições muito realistas, e que não sonham de noite com o que leram durante o dia (a mim acontece-me, mas não é necessariamente mau). A todos os que gostam de histórias fortes e fora do comum, e a todos os que gostaram da série.

Boas Leituras!

Goodreads Review

The sixam ieua knew through their forward-thoughts that when the Tuunbaq’s domain was finally invaded by the pale people — the kabloona — it would be the beginning of the End of Times. Poisoned by the kabloonas’ pale souls, the Tuunbaq would sicken and die. The Real People would forget their ways and their language. Their homes would be filled with drunkenness and despair. Men would forget their kindness and beat their wives. The inua of the children would become confused, and the Real People would lose their good dreams. When the Tuunbaq dies because of the kabloona sickness, the spirit-governors-of-the-sky knew, its cold, white domain will begin to heat and melt and thaw. The white bears will have no ice for a home, so their cubs will die. The whales and walruses will have nowhere to feed. The birds will wheel in circles and cry to the Raven for help, their breeding grounds gone. This is the future they saw. The sixam ieua knew that as terrible as the Tuunbaq was, this future without it — and without their cold world — would be worse.

Os Ingleses

l'anglaise

Keep scrolling if you prefer to read in English

Depois de Underwater Breathing, o Netgalley voltou a presentear-me com uma história bonita, difícil, sobre relações complicadas entre pessoas que foram profundamente marcadas por pais com doenças mentais. Novamente uma autora inglesa, desta vez o segundo livro de Helen E. Mundler, autora que eu também não conhecia.

Neste livro seguimos Ella, uma inglesa que vive em Estrasburgo e aí trabalha no meio académico literário. No entanto, como não casou nem tem filhos, nada do que faça poderá satisfazer as ambições da sua mãe para a sua vida. Margaret, a mãe, não teve propriamente um casamento feliz, e ambos os pais de Ella nunca foram muito presentes na sua vida.

Após a morte do pai ela conhece Max, mas terá de resolver muitos dos seus diálogos internos até estar preparada para uma relação.

Esta é a premissa deste livro, que está bem escrito e nos faz pensar mais uma vez no impacto que os pais têm na vida dos seus filhos, mesmo sem querer, mas que nos mostra também o sentimento de abandono que se sente quando se muda de país e já não se pertence bem nem cá nem lá.

Comparando com Underwater Breathing, a sua escrita é um pouco mais confusa e senti que por vezes algumas ideias ficavam a meio. Mas partilhou com este personagens muito bem construídas e das quais tive pena de me separar no final, e obriga os seus leitores a pensar mais, a escavar nas palavras para perceber os significados que estão escondidos por baixo e não nos são dados como papa para bebés, e isso também é muito gratificante.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história, bem contada, forte, e que nutrem como eu um certo carinho por França.

Goodreads Review

In English:

After Underwater Breathing I was again presented with a beautiful yet difficult  story from Netgalley, about complicated relationships between people that were deeply scarred by parents that struggled with mental health issues. Again a British author, another one that I was unfamiliar with.

In this book we follow Ella’s story, an English woman living in Strasbourg where she works in the academic literary world. Unmarried and childless, nothing that she has accomplished will be enough to satisfy her mother’s ambitions for her life. Margaret, her mother, has struggled through an unhappy marriage, and both her and her husband Hugo were in different ways absent from Ella’s upbringing and uninvolved in her life.

When her father passes away she meets Max, however she will have to deal with a lot of her own internal issues before she is ready to commit to a relationship.

This is basically the background story of this very well written book, that makes us think about the impact that the parents have in their children’s lives, even when they don’t mean to, but it also shows us the feeling of not belonging that we have when we move countries, and we are neither here nor there there anymore.

If compared with Underwater Breathing, the writing was a bit more confused and I sometimes felt some ideas were unclear, nonetheless it shared with it some very well constructed characters that I was really sad to part ways in the end and it also forced the readers to think more, and dig deeper in the words to find the hidden meanings that are not just given to us like baby food, and that was very gratifying.

I recommend it to everyone who likes a good story, strong and well told and all those, like me, who cherish France.

 

Livros que Recomendo – Justine ou os Infortúnios da Virtude

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Quando falei do último livro do José Luís Peixoto, contei um episódio de há alguns anos onde levava este livro num saco quando lhe pedi um autógrafo num exemplar d’Uma Casa na Escuridão. Não me lembro exactamente qual dos dois li primeiro, mas sei que foram semanas de negrume, pois foram dois portentos do lado negro da natureza humana.

Justine é uma moça jovem (seguimos a sua vida dos 12 aos 26 anos), que se esforça muitíssimo para se manter no caminho do bem e da virtude, mas a quem todo a espécie de vilanias e impropérios acontecem. Quanto mais ela se esforça para se manter no bom caminho, mais as pessoas que a rodeiam a enganam, trapaceiam, e abusam da sua ingenuidade e boa vontade para a meter em situações cada vez mais complicadas até ela se ver presa e condenada à morte por um crime que não cometeu.

O Marquês de Sade escreveu este livro em duas semanas enquanto estava preso na Bastilha, num dos seus muitos períodos de encarceramento, e é uma das suas primeiras obras, talvez por isso mais suave que outras (por exemplo 120 Dias de Sodoma, que ainda não consegui ler, nem ver o filme do Pasolini até ao final, apesar das várias tentativas). Há muita obra escrita sobre o Marquês e as suas motivações, sobre se era um génio revolucionário ou um louco sádico (pun intended), mas esse não é o caminho que vou seguir aqui. É muito difícil viver de acordo com normas espartilhadas que não são as nossas, e aderir a princípios que não nos dizem nada. Este livro respira rebeldia e inconformismo e foram mais as partes em que eu estava com um sorriso pelo absurdo da situação do que as que me incomodaram. Mas claro, cada pessoa tem uma sensibilidade diferente e este livro não será certamente para todos.

Para mim foi uma caricatura a um determinado conjunto de valores, a uma hipocrisia instituida e nesse aspecto está muito bem conseguido. O modo como Justine se reencontra com a irmã que teve um percurso exactamente oposto ao seu é muito engraçado e é corolário do que eu disse acima, como se os bons fossem castigados e os maus recompensados neste mundo ao contrário de Sade. Há quem descreva isto como literatura erótica, mas sinceramente não fiquei com essa impressão. A literatura erótica é suposto deixar-nos mais bem dispostos, na minha humilde definição, ou ter um impacto diferente, e não se classifica de erótico apenas por poder ter descrições mais sexuais.

Recomendo a pessoas de mente aberta, sem medos nem preconceitos, nem que se choquem facilmente. Prossigam com cuidado.

Boas Leituras!

 

 

Nevoeiros Nocturnos

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Num futuro próximo, pós-Brexit, o Reino Unido desmembrou-se e tanto a Escócia como o País de Gales são nações independentes. Gales é uma nação jovem, a ajustar-se à nova soberania conquistada e tem de lidar com um fenómeno climatérico anormal, uns nevoeiros nocturnos que aparecem todas as noites e afectam mentalmente a população, especialmente as pessoas mais vulneráveis. Uma força de intervenção especial constituída por psiquiatras, psicólogos e neurologistas está todas as noites de prevenção para ajudar com os casos mais difíceis e impedir o caos. Mas qual será a verdadeira origem destes nevoeiros?

Esta é a premissa deste livro de Frances Hay, autora virtualmente desconhecida e sobre a qual não consegui encontrar nada a não ser a entrevista que deu ao Algonkian, mas do qual gostei bastante. Nem o livro tinha sido criado ainda no Goodreads, tive de ser eu a fazê-lo, o que classifica este livro como o mais obscuro que tenho lido nos últimos tempos.

Uma mistura entre ficção cientifica e fantasia, com um cenário bastante credível e que foi bastante agradável de ler, um bom esforço considerando que é o livro de estreia da autora. Juntamos a toda a história um americano que é acometido por visões do seu alter ego celta do tempo do Rei Artur, bem como das poucas vezes em que vi a profissão de psiquiatra retratada duma maneira tão dinâmica e digna dum filme de acção e temos a receita para umas horas bem passadas a ler esta história. Mais um título que me chegou à mãos através do Netgalley e mais um duma série de boas apostas que não têm desiludido.

Recomendo a todos os fãs do género.

Goodreads Review