Acabei de Ler – Os Elefantes Têm Memória, Poirot #41

Os-Elefantes-Tem-Memoria

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Devagar e calmamente estou a aproximar-me do final desta empreitada. Este foi o penúltimo livro de Agatha Christie com Poirot como protagonista, e devo dizer que gostei bastante. Por um lado continua a ser bastante estranho ler um Poirot passado nos anos 70 (foi publicado pela primeira vez em 1972), por outro dá umas nuances interessantes de passagem e acompanhamento do tempo.

Mais uma vez temos aqui a amiga escritora de policiais, Ariadne Oliver, uma personagem muito bem construída e interessante, que está ao nível do Capitão Hastings, na minha humilde opinião. Mais uma vez o mistério é trazido por ela até Poirot, o que faz todo o sentido já que nesta altura ele é quase um ilustre desconhecido, cujo auge foi há muito tempo (embora ele tenha dificuldades em admiti-lo).

Há mais de uma década atrás um casal aparece morto perto de sua casa, e nunca se percebe se terá sido duplo suicídio, ou homicídio seguido de suicídio. Apenas se sabe que só estes cenários seriam possíveis. Agora, muitos anos depois, esta história volta à tona para a filha do casal conseguir ter paz e casar com o homem que ama. Parece que apenas Poirot conseguirá desenrolar este novelo, com a ajuda preciosa de Ariadne, que se encarrega de procurar as pessoas que têm memória de elefante, e não esquecem mesmo o que se passou há tanto tempo.

Gostei muito, o enredo estava muito bem construído e o desfecho, apesar de eu o ter conseguido perceber lá para meio do livro, foi mesmo assim muito satisfatório e bem escrito. Foi novamente um belo livro.

Estou quase, falta um título apenas! Apesar de já o ter lido há alguns anos, não tenho absolutamente memória nenhuma do enredo, tirando o facto conhecido que Poirot morre no final. Creio que vou demorar algum tempo a lê-lo porque ainda não estou preparada para encerrar esta tarefa.

Até lá, Boas Leituras!

Goodreads Review

Slow and steady I am about to win this race of reading all the Poirot novels in publication order. This is the one before last and it was really enjoyable. It is still weird to read a Poirot that is set on the 70’s (1972 was the first publication date), but on the other hand is also very interesting to witness the passage of time and how the narrative has adapted to it. 

Here we have again the mistery writter Ariadne Oliver, now a long time Poirot’s friend, that is a very interesting supporting character, alongside Hastings, in my humble opinion. She is the one bringing the mistery to Poirot, same as in previous books. And this makes sense, as by now Poirot is more or less unknown by the general public, even tough he struggles to admit it. 

Over a decade before a couple was found dead on a cliff near their home. The police investigation concludes it was either a double suicide, or a murder and suicide, but that’s about as much as they can find out. Many years after this story is brough back to life, as the couple’s daughter needs some closure. Ariadne will go on a search for ” elephants” that can remember, meaning, friends of the time that have great memories and can remember the feeling of that time, as well as facts. Poirot will help her reach thr truth about what really happened.

I really liked this plot, and it was very cohesive and well written. Around half the book I was able to predict the ending, but that is expected having read so many of her books. It was still very interesting and entertaining to read. It was another fine example of a mistery well crafted.

I am getting close to the end of this journey, with only one book left reading. I have read it in the past, but have no recollection at all. I expect it will take me some time to get to it, tough, as I am not eager to finish this task that has been so enjoyable. 

Until then, Happy Reading!

A Casa Onde Às Vezes Regresso

jose tolentino mendonça

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem que se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem que se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça in A noite abre meus olhos.

Acabei de Ler – The Final Girl Support Group

final girl

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Ainda há pouco tempo li um livro de vampiros deste autor, que me deixou bem impressionada, por isso achei que nada mais veranil que ler mais um livro dele sobre Final Girls. E o que são as final girls? Se virem filmes de terror (que eu normalmente não vejo), do género Texas Chainsaw Massacre ou Pesadelo em Elm Street, sabem que a mecânica é sempre a mesma. Vão morrendo todos lentamente, até que no final resta uma rapariga que mata o monstro e é a única que se salva. Mas nada sabemos sobre a sua vida depois dos acontecimentos, e essa é mesmo a premissa deste livro. Uma série de final girls que se encontram uma vez por mês, há muitos anos, para fazerem terapia e manter alguma sanidade mental. Mas o que acontece se voltarem a ser ameaçadas?

Achei que o livro estava bem escrito, a história fluía muito bem, com apenas as surpresas necessárias para nos manter atentos e interessados. Eu não gosto muito daqueles livros que têm plot twists em cima de plot twists, só para nos manter completamente baralhados. As coisas têm que fazer sentido e encaixar bem, por isso as surpresas são necessárias, mas não devem ser usadas exageradamente. E é mesmo isso que vemos aqui. De vez em quando há um facto que nos surpreende e apanha desprevenidos, para deixarmos de ter a certeza que sabemos como a história se vai desenrolar, mas continuamos a ter os pés bem assentes na história.

Depois as personagens eram interessantes e nós queremos saber o que se passa com elas, especialmente a nossa narradora que tem um lugar no meu coração. Lynnette Tarkington é tão… estranha e “avariada” que é impossível não estar sempre a torcer por ela, mesmo não sabendo quase nada sobre ela. O modo como nos vão dando apenas pequenos pedaços da sua história de cada vez torna o livro bastante interessante.

Recomendo a todos os que gostam de livros de terror, de mistério, de histórias com a dose certa de sustos.

Boas Leituras!

Goodreads Review

I’ve recently finished another book by this author that I really liked, about slaying vampires, and even though horror is not really my preferred genre, I decided to give this book a go. Nothing spells summer like a book about Final Girls. And what are final girls? If you like horror movies, especially slasher ones, like Texas Chainsaw Massacre or Nightmare in Elm Street (which I don’t), you know they are more or less the same. Everybody gets killed except one girl, that is able to survive at the end and usually kill the monster, or not if they are aiming for sequels. Those girls are the final girls, which are the main characters of this book. Several final girls that meet once a month for years, to do therapy and try to move on with their lives. But what happens when they are threatened again? This is what this book is all about. 

I really liked this book. It was well written, the story made sense and was very original. It had enough suspense and plot twists to keep us on our toes, but not so many that made the story seem unreal, and yet it totally was. Everything made sense and fitted in the plot, with just the right amount of twists. Every once in a while there’s a revelation that baffles you, but all very coherent with the story. 

The characters were all very interesting, even the ones not likeable. Especially the narrator, Lynnette Tarkington, completely weird and broken, but with a special place in my heart that made me root for her the whole book. The way her story is slowly unveiled is also very well done. 

I recommend this book to all horror and mistery fans, but also to all those that love an unconventional story, well told. 

Happy Reading!

Finalistas do Booker Prize 2021

booker 2021 shortlist

Foram anunciados no passado dia 14 de Setembro os finalistas do prémio Booker deste ano. Quando falei aqui na lista de nomeados tinha dito que nenhum me tinha parecia particularmente apelativo, e passado este tempo a minha opinião não mudou. No entanto, alguns destes títulos têm estado a fazer furor nas redes sociais livrólicas, por isso provavelmente sou eu que estou enganada.

De notar também o facto que Kazuo Ishiguro, laureado com um prémio Nobel, ficou de fora da lista. Não é de estranhar, porque as opiniões que tenho lido ou visto não têm sido muito favoráveis.

Deixo em baixo um pequeno resumo de cada finalista. Já leram algum?

A Passage North, Anuk Arudpragasam – O autor é do Sri Lanka, de origem Tamil, e estudou nos Estados Unidos. O personagem principal vive com o mesmo contexto e retorna ao Sri Lanka para um funeral. Seguimos a sua jornada pelo país que lhe faz falta, mas que ao mesmo tempo já está tão distante. Parece-me bonito, mas demasiado introspectivo para a minha cabeça agora.

The Promise, Damon Galgut – Livro de um autor sul-africano, passado em Pretória, que fala sobre a promessa de um novo mundo no país, mas em como muitas instâncias as coisas não mudaram assim tanto. Tudo contado pela observação duma família que se desmorona.

No One is Talking About This, Patricia Lockwood – uma história sobre a loucura das redes sociais, o seu contraste com a vida real, e o peso que têm na vida moderna. Tem uma sinopse muito apetecível, infelizmente algumas pessoas cuja opinião literária prezo muito não ficaram convencidas, por isso acho que vou passar.

The Fortune Men, Nadifa Mohamed – o que acontece quando um pequeno criminoso, étnico, é acusado dum assassinato em Cardiff nos anos 50? É nessa viagem que este livro nos pretende levar. Parece muito interessante.

Bewilderment, Richard Powers – outro autor muito conhecido que já ganhou um Pulitzer. Esta é a história dum pai viúvo que tem um filho de 9 anos com necessidades especiais. Demasiado específico para eu conseguir ler nesta altura, mas adorei a sinopse.

Great Circle, Maggie Shipstead – mais um livro passado nos EUA de antigamente (aqui cerca de 1914), e mais um com duas linhas temporais diferentes. Não me parece muito para o meu palato.

Boas Leituras!

Nossa Truculência

clarice_lispector

Quando penso na alegria voraz
com que comemos galinha ao molho pardo,
dou-me conta de nossa truculência.
Eu, que seria incapaz de matar uma galinha,
tanto gosto delas vivas
mexendo o pescoço feio
e procurando minhocas.
Deveríamos não comê-las e ao seu sangue?
Nunca.
Nós somos canibais,
é preciso não esquecer.
E respeitar a violência que temos.
E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo,
comeríamos gente com seu sangue.

Minha falta de coragem de matar uma galinha
e no entanto comê-la morta
me confunde, espanta-me,
mas aceito.
A nossa vida é truculenta:
nasce-se com sangue
e com sangue corta-se a união
que é o cordão umbilical.
E quantos morrem com sangue.
É preciso acreditar no sangue
como parte de nossa vida.
A truculência.
É amor também.

Clarice Lispector

Acabei de Ler – A Avozinha Gângster

avozinha gangster

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Vi algures num youtube da vida que o David Walliams escrevia livros para crianças, e sendo grande fã resolvi ler um para experimentar. Claro que não estava à espera duma reedição de Little Britain, mas tinha confiança no seu sentido de humor.

A Avozinha Gangster fala de coisas importantes debaixo de muito sentido de humor e nonsense. Ben é um rapazito que tem que ficar todas as sextas feiras à noite com a avó, para os pais poderem assistir ao Dança com as Estrelas ao vivo. O problema é que a avó é muito chata, só joga scrabble e cozinha tudo com couves. Mas quando descobre que ela era afinal uma ladra de jóias de gabarito internacional, a relação deles muda para sempre, bem como toda a dinâmica familiar.

O livro é muito divertido, cheio de situações cómicas e irónicas. As lições de vida estão muito bem disfarçadas, e no geral é uma leitura fácil e leve, mas que nos deixa com o coração cheio. Recomendo a todos os que gostam de livros de crianças, especialmente as ditas.

Boas Leituras!

Goodreads Review

I saw on Youtube somewhere that David Walliams wrote children’s books, and being a big Little Britain fan I just had to try it. I was not expecting it to be as good, but I was confident on David’s sense of humour. 

Gangster Granny talks about important issues, disguised under a lot of humour and nonsense. Ben is a little boy that has to stay with his grandma evey Friday night while his parents go watch “Dancing with the Stars”. Trouble is, his granny is very boring, loves all things cabbage and scrabble, and Ben really dislikes being there. But when he finds out she is a internationally acclaimed jewel thief, their relationship changes forever, as well as the family dinamics. 

This is a really funny book, filled with comic and ironic situations and life lessons in disguise. It is easy to read and mostly lighthearted, and also heartwarming. I recommend it to everyone that loves children’s books, or wants something good to read to their children. 

Happy Reading!

Vencedor do Women’s Prize for Fiction

piranesi

Foi anunciado no passado dia 8 de Setembro a vencedora do Women’s Prize for Fiction e fiquei muito contente por ter sido Piranesi de Susanna Clarke, de longe um dos melhores livros que li este ano e que ainda me vem à memória de vez em quando. Falei sobre ele aqui, podem ir lá espreitar.

Susanna Clarke tinha escrito anteriormente outro livro que gostei muito, Jonathan Strange & Mr. Norrel, que apesar de ser também fantasia, era completamente diferente em tudo, até no tamanho. Os dois valem muito a pena.

Foi a primeira vez que dei atenção a este prémio, mas fiquei entusiasmada por ver um livro que gostei tanto sair vencedor por isso definitivamente vou continuar a manter este prémio debaixo de olho.

Boas Leituras!

Número 5

pedro mexia

Dei um passo atrás
e vi pela primeira vez
o número da minha porta.
No passeio, olhando
o metal gasto do algarismo
que há vinte e seis anos
sei que existe,
pensei em recuar um pouco mais
para ver todas as coisas que habito
e não compreendo.
Mas três passos depois
do passeio
o trânsito automóvel
impedia a perspectiva
e a sabedoria.

Pedro Mexia in Menos Por Menos

Feira do Livro de Lisboa 2021

Peixinho de Prata_Feira do Livro 2021

Ainda têm até Domingo para visitar a Feira do Livro, se ainda não o fizeram. Eu, que já não ia desde 2017, consegui ir nas minhas férias. E que bem que soube passear ao sol, depois de tantos confinamentos/isolamentos e covidices em geral, e simplesmente ver capas e mais capas de livros que queria comprar.

A primeira diferença é que agora perdi muito mais tempo a ver livros de crianças e a querer comprar todos para trazer para casa. Mas, considerando que o jaquinzinho ainda é muito destrutivo, vamos aumentar a biblioteca dele mais tarde.

Gostei muito de passear na feira, de ver muita gente imersa em livros, com muitos sacos na mão. Eu, por variadíssimos motivos, acabei por só comprar um livrinho infantil com autocolantes e nada para mim. Por um lado, ainda tenho muitos livros físicos cá em casa por ler, e pouco espaço para albergar mais e isso ajuda-me a controlar os impulsos gastadores. Por outro lado, estou a ficar cada vez mais pitosga, e cada livro que abria parecia que tinha a letra minúscula. Isto porque já aumentei o tamanho de letra no Kindle umas 5 vezes, já só tenho umas três frases por página. Enfim, tenho mesmo que me começar a habituar a audiobooks.

Ia com a ideia de comprar finalmente um livro de João Reis, mas não fiz bem o trabalho de casa e acabei por não perceber que estava logo num dos primeiros pavilhões que tinha visitado. Assim, no fim de ter visto tudo, voltei ao pavilhão da 20/20 em busca de João Reis. Quando lá chego, os livros estavam na prateleira mais alta do expositor e euq eu sou baixota tive que pedir ajuda a um colaborador. Tive que escolher um para ver, ele tirou e foi prontamente à sua vida. Como esperado, achei a letra demasiado pequena, mas isso nem me ia deter desta vez. Mas a sinopse não me seduziu, achei um bocadinho tristonho e não estou em fase de ler coisas assim. Só que o colaborador já tinha ido à sua vida, eu já tinha 2h30 de feira debaixo dum belíssimo sol que me estava a deixar doida, e acabei por desistir e ir à minha vida também.

Já em casa, cheguei à conclusão que se tivesse lido a sinopse em inglês não acharia que o livro era tristonho, e teria possivelmente voltado com ele para casa, mas enfim. Ficará certamente para outras núpcias porque ando mesmo de olho neste autor.

Para o ano, se tudo correr bem, haverá mais feira e com mais livros. Este ano contentei-me com um belo gelado, uma água fresca, e um passeio que me alentou a alma.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – A Noite das Bruxas, Poirot #40

Poirot 40

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Vou voltar a repetir que estou mesmo a chegar ao final desta maratona de ler todos os Poirots por ordem de publicação, que começou em Agosto de 2015, há 6 anos atrás. Foi esse o tempo que demorei a ler os cerca de 42 títulos, um pouco menos porque saltei a maioria dos volumes de contos. Falta mesmo pouquinho.

Ao contrário dos anteriores, este mistério estava muito bem construído, e muito bem resolvido. Mais uma vez tivémos a autora Ariadne Oliver como acompanhante de Poirot, e isso é sempre sinónimo de diversão. Aqui ela foi convidada para uma festa de Halloween, onde uma jovem se gaba de ter assistido a um homicídio e aparece morta nessa mesma noite. Como não lhe parece coincidência, vai pedir ajuda ao seu velho amigo detective para investigar o assunto.

O mais engraçado nestes títulos mais recentes é a maneira como Poirot vê o mundo que evoluiu, e o modo como olha para a juventude. Vemos também a evolução nos métodos de investigação, e um papel mais preponderante da psiquiatria na análise mental dos criminosos. Uma perspectiva muito engraçada e que enriquece a leitura.

Vale a pena ler este livro, e recomendo a todos os que gostam de mistério e detectives.

Boas Leituras!

Goodreads Review

I’ll say again that I am almost at the end of my Poirot marathon, an enterprise that I started in August 2015, which means it has taken me 6 years to go through all the Poirot books in publication order, almost 42, considering I skipped a few of the short stories compilations. I am excited to see it come to the end.

Unlike the previous titles, this book is really well written, the plot is interesting and well developed, and the resolution makes total sense. We also have the appearance of Ariadne Oliver again, and that always spells fun. She was invited to a children’s Halloween party, where a young girl brags to her friends that she has witnessed a murder once, only for herself to appear dead later in the evening. Ariadne feels the obligation to ask Poirot for help, as they were discussing murders on account of her books.

The best part about these newest books, is the way the world has evolved, and how Poirot perceives it, and the impression he has on youth those days. We can also witness the evolution in the investigation methods, and the part psichiatry has begun to play in the analisys of the assassins. Very interesting and makes the books richer. 

I recommend this book to all mistery fans, Poirot fans and detectives in general.

Happy Reading!