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Antonio Maria Lisboa

As formas, as sombras, a luz que descobre a noite

e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista

meus braços são dois espaços enormes

os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada

minhas pernas são duas árvores floridas

os meus dedos uma plantação de sargaços

a tua figura era ao que me lembro da cor do jardim.

António Maria Lisboa

Uma Vida Esquecida

Antonio Maria Lisboa

Para o Fernando Alves dos Santos

Eu conheço o vidro franja por franja

meticulosamente

à porta parado um homem oco

franja por franja no espaço

meticulosamente oco uma porta parada.

Um relógio dá dez badaladas ininterruptamente

dez badaladas por brincadeira dança

um homem com pernas de mulher

e um olhar devasso no Marte

passo por passo uma criança chora

uma águia e um vampiro recuados no tempo.

António Maria Lisboa

Poema do Começo

Antonio Maria Lisboa

Eu num camelo a atravessar o deserto
com um ombro franjado de túmulos numa mão muito aberta

Eu num barco a remos a atravessar a janela
da pirâmide com um copo esguio e azul coberto de escamas

Eu na praia e um vento de agulhas
com um Cavalo-Triângulo enterrado na areia

Eu na noite com um objecto estranho na algibeira
-trago-te Brilhante-Estrela-Sem-Destino coberta de musgo

António Maria Lisboa

Poema

 

Antonio Maria Lisboa

Para o Mário Cesariny

Moveu-se o automóvel – mas não devia mover-se

não devia!

 

Ontem à meia-noite três relógios distintos bateram:

primeiro um, depois outro e outro:

o eco do primeiro, o eco do segundo, eu sou o eco do terceiro

Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começam

Pregões de varina sem peixe

– o peixe morreu ao sair da água

e assim já não é peixe

Assim como eu que vivo uma VIDA EXTREMA.

António Maria Lisboa

Rêve Oublié

Antonio Maria Lisboa

 

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.

António Maria Lisboa, in “Ossóptico e Outros Poemas”

Projecto de Sucessão

Antonio Maria Lisboa

 

Para o Mário Henrique

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
por-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se índias.

António Maria Lisboa, in “Ossóptico e Outros Poemas”