As Mulheres Aspiram a Casa Para Dentro dos Pulmões

Daniel Faria

 

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos – digo,

As mulheres – ainda que as casas apresentem os telhados inclinados

Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram

Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas

Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens

Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram

Nos ramos – no pescoço das mães – ainda que as árvores irradiem

Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro

E geram continuamente. Transformam-se em pomares.

Elas arrumam a casa

Elas põem a mesa

Ao redor do coração.

Daniel Faria em Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)

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Livros que Recomendo – A Máquina do Tempo

HGWElls

O Peixinho anda virada aos clássicos nas últimas semanas. Desta vez escolhi um clássico de ficção científica, por um dos mestres, H. G. Wells. A máquina do tempo foi uma expressão que apareceu pela primeira vez nesta novela e a partir daí nunca mais deixou de ser utilizada. Uma máquina como instrumento para nos fazer viajar através de diferentes épocas foi uma ideia que apelou ao nosso imaginário colectivo e que tem sido utilizada infinitamente desde a publicação deste livro em 1895.

O nosso viajante do tempo, como a personagem é apresentada, é um cientista e um inventor, explica aos seus convidados de jantar que descobriu que o tempo é uma quarta dimensão que pode ser percorrida como as outras e que está a construir uma máquina para o fazer.

Na semana seguinte convida as mesmas pessoas e assume a narração da história para contar tudo aquilo que viu nas suas viagens. A partir daí entramos num mundo fantástico em que nos é relatada a evolução do planeta através das paragens que o nosso viajante vai fazendo, descobrindo cada vez mais diferenças até à espécie humana estar quase irreconhecível. Temos aqui uma forte alegoria à diferença entre classes, à industrialização e ao fim do mundo como o conhecemos.

Este livro já deu azo a muitos estudos académicos, e inúmeras obras relacionadas, quer em livro, quer em teatro e cinema.  Todo um mundo de obras que se baseiam nesta simples premissa, que viajar no tempo é possível e desejável.

Recomendo muito este livro, não só a amantes de ficção científica, mas a todos os que gostam de ler os clássicos, de descobrir livros bem escritos e que serviram de inspiração a tantos outros. Eu gostei muito e sinto que tenho de o reler em breve.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – A Change of Time

change of time

Keep scrolling if you prefer to read in English

Depois do último título do Netgalley ter sido um prazer tão grande de ler, entusiasmei-me e pesquisei que mais tinha na minha pastinha do Kindle. E descobri este livro, duma autora dinamarquesa pouco conhecida entre nós, mas bastante relevante no seu país, e agora traduzida para inglês. Quem segue o Peixinho sabe que eu gosto de me afastar da hegemonia do mundo anglo-saxónico sempre que tenho essa oportunidade, e esta foi mais uma dessas vezes.

A Change of Time é uma narrativa construída com base no diário escrito pela protagonista, uma professora primária retirada, casada com o médico duma pequena vila dinamarquesa. A trama passa-se no início do século XX, quando o mundo era muito diferente e se encontrava em grande mudança. Quando fica viúva, de repente todo um mundo de possibilidades se abre, tão vasto como assustador.

E tal como o nome indica, este livro reflecte a passagem do tempo, desde as estações do ano, aos anos que passam pela nossa vida. O que muda em nós quando o tempo passa, o que muda no mundo que nos rodeia, e a percepção que temos dele. É um livro bonito e introspectivo, um pouco ao estilo dos filmes escandinavos, que nos fazem pensar sem grandes explosões a acontecer no ecrã.

Como sempre, acho difícil que este livro seja traduzido para português, graças à pequena dimensão do nosso mercado, dominado pelos suspeitos do costume, mas se dominarem o inglês isso não será obstáculo.

Recomendo a todos os que gostam de livros bonitos, diferentes, com tempo.

Boas Leituras

Goodreads Review

After having so much pleasure reading the last Netgalley book, I decided to look at my Kindle once again and choose another one. And I came across this one, a book from a Danish author, not very known in Portugal, but well known in her home country. This has now been translated into English and as you might know, I like to experiment with other books that are not from the Anglo-Saxon universe.

A Change of Time is built from diary entries from a former school teacher that is married to the local doctor. He is a domineering husband, and when he dies she is left with all the choices that are now in front of her.

This book reflects the passage of time, either in our lives, the seasons, the world around us and our perception of it. Everything changes and we change with it. It’s a beautiful and introspect book, just like Scandinavian movies, that make us think without all the fireworks we see nowadays.

Unfortunately I find it difficult that this book will be translated into Portuguese, as our market is so small, nonetheless if you are proficient in English you will not find it difficult to read.

Recommend it to all those that like beautiful slow paced books.

Happy Reading!

Acabei de Ler – Berezina

berezina

Please scroll down if you prefer to read in English.

Depois de vários livros do Poirot, resolvi investigar que livros do Netgalley ainda tinha para ler para ver se me apetecia algum deles. Deparei-me com este Berezina, do francês Sylvain Tesson e pensei que era mesmo isto que me estava a apetecer, um misto de livro de viagens e história.

Ainda hoje em França Berezina refere-se a estar em sarilhos, numa situação complicada de que é difícil sair. Berezina é também o nome do local onde se deu uma das mais brutais batalhas entre o exército russo e o que restava do grande exército napoleónico que se encontrava em fuga depois duma campanha sem sucesso na Rússia.

Em 2012, 200 anos depois de Napoleão ter tentado unificar toda a Europa através da conquista da Rússia, Sylvain Tesson resolveu reconstituir o caminho seguido pelos franceses na sua fuga desde Moscovo até Paris, em pleno inverno, onde os inimigos se multiplicavam, desde o exército russo, a grupos de cossacos, camponeses e pior que todos o frio extremo. Para isso juntou-se a mais 2 franceses e dois russos, em motas russas com side-car da marca Ural e deu-nos a conhecer a história daqueles homens.

De uma força de quase 500 mil homens que entraram pela Rússia directamente até Moscovo, e sem nunca serem derrotados no campo de batalha, os franceses foram de vitória em vitória até à aniquilação final, pelo frio, fome e doenças. Nada correu como Napoleão planeara nesta empreitada, e as consequências foram sérias, não só para os homens que o seguiram, mas também politicamente. Pode dizer-se que foi o princípio do fim do império. 200 anos depois a viagem destes 3 franceses e 2 russos é muito interessante e informativa, e dá-nos vontade de ir conhecer aquelas cidades, ver como são nos dias de hoje. Fiquei principalmente fascinada com as descrições da Bielorússia e da Lituânia, e deu-me vontade de fazer a minha própria road trip.

Recomendo a todos os que gostam de literatura de viagem, com um toque de história, e todos os que gostam de ler livros fora do universo anglófono.

Boas Leituras!

Goodreads Review

After Reading several Poirot books I decided to check which Netgalley books I still had outstanding and see if I felt like reading any of them. I came across this Berezina, from French author Sylvain Tesson, and it was exactly what I was looking for, a mix of travel and history book.

To this day in France, Berezina refers to impending disaster, something that will go really wrong. But it is also the place of one of the most important battles between The Grande Armée and the Russian army, when the first one was trying to escape from Russia after a disastrous campaign.

In 2012, 200 years after Napoleon tried unifying Europe by conquering Russia, Sylvain Tesson decided to gather some friends, some Ural bikes, and recreated the escape path followed by Napoleon’s army on their desperate attempt to return to Paris. This was in the peak of winter, and their enemies multiplied, as they were chased by the Russian army, the Cossacks, extreme cold and famine, and at last disease.

From nearly half a million soldiers that started the russian campaign, the French went from victory to victory until total annihilation. Nothing went as planned, and the consequences were dire, not only in casualties, but also in the turn the French empire had afterwards. It was like Napoleon’s luck ran out. 200 years later, 3 french and 2 russian friends embark on this trip and tell us about it in an interesting and informative way, and make us want to go and see these cities, and check how they are today. I was delighted with the depictions of Belarus and Lithuania.

Recomendo a todos os que gostam de literatura de viagem, com um toque de história, e todos os que gostam de ler livros fora do universo anglófono.

Recommend it to all those that enjoy travel literature, with a touch of history and to all those that like to read books that fall out from the anglo-saxon scope.

Happy Reading!

Sobre os Dois Adolescentes que Esta tarde Atravessaram a Rua de Mãos Dadas

luis filipe parrado

 

Foi depois do fim das aulas.
Passaram o portão de ferro da escola
e deram as mãos
para atravessarem a rua.
E, de mãos dadas, formaram
uma corrente
tão poderosa, tão compacta,
que o trânsito teve mesmo de parar
e ficou completamente imobilizado. Não vou ceder
agora à tentação
de afirmar que assisti
à materialização de um milagre,
afinal é coisa
que deve estar sempre a acontecer,
em algum lugar, ao fim
da manhã ou da tarde, logo
depois das aulas,
dois adolescentes dão
as mãos, atravessam a rua, bloqueiam
a circulação rodoviária
de uma cidade.
Mas pensa nisso por um segundo,
pensa na força dessa corrente.

Luis Filipe Parrado

Acabei de ler – Os Crimes do ABC, Poirot #13

Os-Crimes-do-ABC

Acho que depois de tanto tempo a ler livros que me demoravam um mês, como a saga Wheel of Time, ganhei o gosto por voltar a ler livros de um dia para o outro e peguei em mais um Poirot.

Não sei se já tinha lido este livro no passado, ou visto o episódio da série, mas a base da história era minha conhecida. Um assassino em série que desafia Poirot a apanhá-lo enquanto vai matando pessoas em ordem alfabética. No entanto os pormenores eram-me desconhecidos e deu-me muito prazer ler este livro. Também porque voltou o nosso amigo, Capitão Hastings, que é um personagem quase tão querido como o próprio Poirot.

Mais uma vez a história é fluida e bem construída e com um desfecho surpreendente. A narrativa é novamente diferente, já que todo o livro é narrado por Hastings, que está a documentar o caso em livro. Muito engraçado.

Recomendo a todos os apaixonados por Poirot, ou a quem lhe apetece uma boa história de crime.

Boas leituras!

Goodreads review

Acabei de Ler – Morte nas Nuvens, Poirot #12

Morte-nas-Nuvens

Depois de ter (re)tomado o gosto de ler livros do Poirot, já não quero outra coisa e peguei logo noutro. Este teve a vantagem acrescida de ser uma história que eu ainda não conhecia, coisa rara mas muito agradável.

Voltamos a uma narrativa mais tradicional, Poirot está presente quando se dá o crime, e faz até parte dos suspeitos. Vai trabalhar rápido para evitar mais mortes e limpar o seu nome para a opinião pública.

Gostei, está bem escrito como sempre, e a história é fluida e rápida. Só quase no fim é que percebi quem era o assassino, o que torna a leitura mais apetecível. Poirot mostra aqui os seus dotes de casamenteiro.

Recomendo a todos os que gostam de policiais e boas histórias.

Boas leituras!

Goodreads Review

O Esterco do Mundo

jose tolentino mendonça

Tenho amigos que rezam a Simone Weil;
Há muitos anos reparo em Flannery O’Connor

Rezar deve ser como essas coisas
que dizemos a alguém que dorme
temos e não temos esperança alguma
só a beleza pode descer para salvar-nos
quando as barreiras levantadas
permitirem
às imagens, aos ruídos, aos espúrios sedimentos
integrar o magnífico
cortejo sobre os escombros

Os orantes são mendigos da última hora
remexem profundamente através do vazio
até que neles
o vazio deflagre

São Paulo explica-o na Primeira Carta aos Coríntios,
«até agora somos o esterco do mundo»
citação que Flannery trazia à cabeceira

José Tolentino Mendonça in “A noite abre meus olhos – Poesia reunida”

Finalistas do Man Booker 2019

manbooker

Desde que nasceu o jaquinzinho, o Peixinho parece aqueles jornais regionais que dão as notícias com um mês de atraso. Isto para dizer que já saíu a lista de finalistas para o Man Booker 2019 no dia 3 de Setembro, e só agora venho aqui falar disso.

Este ano temos 6 finalistas de peso, alguns nomes já aqui falados, como Margaret Atwood e Salman Rushdie, outros que quero ler como Elif Shafak. Este ano ainda não tive a oportunidade de ler nenhum deles, mesmo tendo alguns estado disponíveis no Netgalley. Aliás o de Salman Rushdie ainda lá está, mas só em wish list.

Fico curiosa para saber quem vai ser o vencedor, porque este ano promote. Se alguém já leu algum destes livros, partilhe comigo se vale mesmo a pena. A 14 de Outubro saberemos o vencedor, ou, se seguirem pelo Peixinho, algum tempo indeterminado depois. Em baixo, a lista completa.

Margaret Atwood, The Testaments – sequela do Handmaid’s Tale, o seu livro tornado ainda mais famoso pela série de TV. Passa-se 15 anos depois do final do livro anterior.

Lucy Ellmann, Ducks Newburyport – um retrato acutilante da América dos dias de hoje, feito por uma dona-de-casa do Ohio. Pelo resumo que li parece-me bastante interessante.

Bernardine Evaristo , Girl, Woman, Other – seguimos os destinos de 12 personagens negras e britânicas por todo o país.

Chigozie Obioma , An Orchestra of Minorities – amores desencontrados na Nigéria e a história de Chinonso, que por amor vai tentar estudar no Chipre, e o que se segue é uma odisseia inspirada em Homero.

Salman Rushdie, Quichotte – Como este autor já nos habituou, este livro está recheado de humor, acção e ritmo. Um conto de amor quixotesco passado na América dos dias de hoje.

Elif Shafak, 10 Minutes 38 Seconds in This Strange World – talvez o mais interessante de todos os finalistas, na minha humilde opinião. Nos primeiros minutos após a sua morte, Leila vai relembrando as memórias mais relevantes da sua vida, com todos os sentidos, enquanto os amigos a tentam descobrir. Sem dúvida um livro a descobrir.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Frango com Ameixas

ameixas

 

Já sabem que sou grande fã de novelas gráficas, e também de Marjane Satrapi, autora de Persepolis que já aqui recomendei.

Descobri através do Instagram do Peixinho que o Público e a Levoir tinham lançado este Frango com Ameixas e corri a comprá-lo. Claro que nesta fase da vida, livros em que precise das duas mãos para ler tendem a ficar na estante mais tempo (já sou pró a usar o Kindle pousado numa superfície e passar páginas quase com o cotovelo), mas finalmente arranjei um tempinho para me dedicar a ele.

A história é a do tio avô da autora, famoso tocador de tar, a quem partem o precioso instrumento. Depois de muitas tentativas para o substituir, Nasser Ali Khan perde o sentido da vida e decide que quer morrer.

É uma história triste e romântica, cheia de volte faces tão surpreendentes como a natureza humana, simples mas muito bem construída.

Recomendo a todos os que gostam de novelas gráficas, histórias de amor, beleza em geral. Não se vão arrepender.

Boas leituras!

Goodreads Review