Émulos

margarida vale de gato

Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos

Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.

Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.

E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.

Margarida Vale de Gato in Mulher ao Mar, 2010

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Livros que Recomendo – Crónica dos Bons Malandros

Mario Zambujal

Há poucas semanas deu na televisão, não me lembro em que canal, a deplorável adaptação para cinema deste livro de Mário Zambujal feita em 1984. Apesar de recheada de actores bons e competentes, está demasiado psicadélica e pseudo artística para fazer jus ao ritmo frenético e bem humorado do livro.

Já não me lembro exactamente quem me falou deste livro pela primeira vez, há muitos, muitos anos. Creio que foram os meus padrinhos que me emprestaram, eles que foram fonte de tantos livros desde a minha infância. Mas tenho a certeza que o livro foi um empréstimo, e que só adquiri este exemplar quando quis partilhá-lo com o Peixinho Vermelho. O que eu recordo vivamente é ir numa carruagem do metro sentada a ler, e já não conseguir conter o riso e largar umas valentes gargalhadas, para espanto dos meus companheiros de viagem.

Mário Zambujal conta-nos, com muita graça, a história duns malandros à portuguesa, uns malandrecos, que se encontram todos por um acaso da vida e formam um gangue para fazer uns golpezitos. Um dia são contactados por um mafioso italiano para dar um passo maior que a perna, ou seja, para roubar a colecção de jóias Lalique que se encontra na Gulbenkian. E vão usar nada mais nada menos que abelhas.

A partir daí é uma sucessão de peripécias muito lusitanas, com um humor muito português e sempre tendo como pano de fundo uma Lisboa que já não existe. Que talvez já quase não existisse quando este livro foi escrito.

É um livro divertido, mas também nostálgico porque nos fala duma portugalidade de outros tempos, mas que ainda está profundamente enraizada em todos nós. Mas se calhar em vez de andar visível em bares duvidosos do Bairro Alto, ou tascas de bairro, anda exposta em comentários de Facebook um pouco por toda a parte, mas com menos graça e salero.

Recomendo a todos os que queiram uma leitura leve, descomprometida e nostálgica.

Boas Leituras

 

 

Às Vezes Não Se Aguenta!

Oh Please

Não sei se vos acontece frequentemente, a mim confesso que não. Mas às vezes lá calha, e normalmente significa que estou a meio dum livro mesmo bom, daqueles que estou a viver por dentro.

Daqueles que a história que se passa nas páginas passa-se na nossa cabeça e na nossa pele e de repente, vindo do nada e sem avisar acontece um facto verdadeiramente inesperado que simplesmente o nosso coração não aguenta e simplesmente fechamos o livro e deixamo-lo ali de lado para lhe pegar novamente quando tivermos recuperado o sangue frio.

A mim é raro porque sou chata e estou sempre a desconstruir o que leio, por isso raramente sou apanhada de surpresa, mas acabei de ter um desses momentos de “Oh please I cannot deal with this shit right now“, fechei o meu Kindle e não sei quando o vou reabrir.

Provavelmente daqui a umas horas… mas devagarinho.

Boas Leituras!

Avelina, Criada para Todo o Çerviço

Avelina

Comprei a Avelina na Feira do Livro de 2017, e já isso me faz ter pena de ter decidido não comprar mais livros este ano, porque fiquei cheia de vontade de ter mais livros do Vilhena. A sua mordacidade e sentido de humor, tão brejeiramente portugueses, mas pejados de crítica social e visão global do que se passava no tempo do outro senhor, fazem ler os seus livros um verdadeiro prazer.

Mas quem é a Avelina? Avelina é uma moça pré-adolescente das Bouças, lugar fictício do interior rural português, mas que podia ser qualquer aldeia no final dos anos quarenta, onde se passa fome de rabo e por isso ela é mandada servir numa casa da vila mais próxima a troco de cama e comida. Aí começa a escrever o seu diário, muito livre, que nos vai dando conta das diferenças sociais vincadas, mas também do chico espertismo tão português e tão comum a toda a gente, independentemente do lugar social que ocupam. Vilhena tem um olhar muito aguçado sobre os males da sociedade, mas ao mesmo tempo descreve-os sem pena, sem “coitadismos” e com imenso sentido de humor.

Confesso que este livro me impressionou por dois motivos, não só por estar escrito dum modo muito cru e com graça, mas porque a minha avó materna também cresceu numas Bouças deste Portugal e quando tinha oito anos, consideravelmente mais nova que a nossa personagem, foi servir para casa da professora primária da terra, a troco de educação, comida, cama, etc. Confesso que sempre tive uma visão romântica sobre esse assunto, e este livro fez-me ver as coisas um bocadinho mais próximas da realidade.

O livro é a compilação de três volumes originais que seguem o crescimento da Avelina desde as Bouças até finalmente se instalar em Lisboa, com passagem pelo Porto, mas confesso que o último volume foi para mim o mais fraquinho, talvez pela perda da inocência da nossa protagonista.

Aconselho vivamente, não só porque a edição fac similada da E-Primatur está lindíssima, como já nos vêm habituando, mas porque é um documento dum tempo que já passou mas que não nos podemos esquecer, porque sem nos apercebermos a censura está sempre à espreita, e hoje está tão activa como no tempo da outra senhora, apenas se reveste de outros contornos. Mantenhamos a todo o custo a liberdade de ler o que queremos e pensar livremente.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Café Castro

miguel_manso

com cigarros dando para altos janelões
com garrafas soturnas canções vazias
medito em esquemas falhos de viabilidade
financeira – são um descanso estas imaginações
diletantes e portuguesas na recuada
cidade de Budapeste

permitem chegar apenas a este lugar isolado
ao plano B: texto que o autor não
burila no interior do café

mas proponho-lhe:
esqueça tudo isto os cartazes cubanos a empregada
curiosa e loira e avance para o poema seguinte
sem grandes remorsos

evitará demorar-se num desenho de nuvens
no tecto de um quarto (qual?)
festejar o fim de nenhuma vindima
aperceber-se do erro juvenil que é fechar um poema
com a palavra morte
sobretudo não lhe falarei de Walt Whitman
ou David Beckham

mas depois, peço-lhe
atrase-se outra vez suspenda por um momento a leitura
num desses gestos vazios: coçar a cabeça
coçar o queixo

espere que este autor recupere de novo terreno
e partamos os dois para baixo – haverá outro sítio? –
para o poema seguinte

Miguel Manso, in Quando Escreve Descalça-se, ed. Trama

Livros que Recomendo – Into the Wild

into the wild

 

Mais uma vez venho aqui falar dum livro de não ficção, e um dos meus livros favoritos de sempre (quantas vezes já terei dito isto aqui? Mas é mesmo verdade). Não se passaram muitos anos desde que o li, mas deixou uma marca profunda em mim, e sempre que posso aconselho a sua leitura. E venho mais uma vez fazer o mesmo.

Este livro é o resultado de uma investigação feita por Jon Krakaeur sobre a vida e a morte de Christopher McCandless. Mas o que tem este jovem de especial para se dedicar um livro e um filme ao seu mito? Bom, tudo e nada.

Christ McCandless foi um jovem americano que após terminar a faculdade percebeu que estava insatisfeito com a sua vida e queria experimentar algo mais. Inspirado nos textos de Thoreau e Jack London, dois escritores/pensadores do século XIX, início do XX que se dedicaram a escrever sobre uma vida mais ligada à natureza no seu estado mais puro e selvagem (uma reação à industrialização que começava em força na altura), McCandless decidiu abandonar tudo o que possuía, e começar uma deambulação sem rumo pelos Estados Unidos, fazendo trabalhos manuais e conhecendo pessoas em diversos locais. Para isso assumiu a persona de Alexander Supertramp, mais uma vez baseado no poeta W. H. Davies.

Finalmente rumou ao Alaska, profundamente mal equipado, onde iria passar o Verão a sobreviver do que a terra lhe providenciasse numa experiência de grande ligação à Natureza, mas acabou por morrer de fome, ou possível envenenamento por alguma planta. As causas da sua morte foram alvo de muita polémica, bem como as suas escolhas de vida.

Muitos, e legitimamente, não conseguem ver nesta insatisfação mais do que uma birra dum pobre menino rico, que tinha tudo mas que resolveu abdicar duma vida segura para se pôr a si próprio em perigo e no caminho magoar a sua família sem consideração.

Mas para muitos outros, nos quais me incluo, Chris/Alexander era um visionário, um inquieto, que sabia que tinha de haver mais qualquer coisa para além deste quotidiano monótono onde todos somos iguais e conformados aos mesmos valores e estéticas e que a resposta para isso estará numa maior proximidade com as pessoas e com a natureza no seu estado mais inalterado. Para além de ter dado origem a um filme de Sean Penn, com música de Eddie Vedder, as citações dos escritos que Chris deixou nos seus cadernos e nas margens dos livros que lia encontram-se diariamente por toda a internet, mesmo já tendo passado 26 anos da sua morte.

No meu caso ainda me lembro bem de estar a chegar à minha paragem para o emprego quando o livro chegou ao fim, ter lágrimas grossas a correr cara a baixo e quase não ter presença de espírito para perceber que tinha de sair.

Um livro belíssimo, que aconselho a todos, nesta semana em que Chris teria feito 50 anos.

Boas leituras!

So many people live within unhappy circumstances and yet will not take the initiative to change their situation because they are conditioned to a life of security, conformity, and conservatism, all of which may appear to give one peace of mind, but in reality nothing is more damaging to the adventurous spirit within a man than a secure future. The very basic core of a man’s living spirit is his passion for adventure. The joy of life comes from our encounters with new experiences and hence there is no greater joy than to have an endlessly changing horizon, for each day to have a new and different sun

chris mccandless

 

 

 

Barbatana de Molho

pedemolho

Por razões inusitadas e francamente inexplicadas, o Peixinho tem uma barbatana de molho. Que é como quem diz, estou com um problema num pé que faz com que passe a maior parte do tempo, sentada/deitada/sem conseguir andar.

Em teoria isso dar-me-ia muito mais tempo para ler, acabar livros que tenho pendentes, etc, mas na realidade não é bem assim. Quando o cérebro está demasiado focado e preocupado, fico com menos espaço mental para conseguir acompanhar leituras mais complexas e histórias com muitas ramificações. Considerando que estou a ler Endymion, do Dan Simmons, não há muitas hipóteses de não estar completamente concentrada naquilo que se está a desenrolar nas “páginas” do meu Kindle.

Assim sendo tenho complementado com leituras menos exigentes, como a Avelina, ou no caso mais extremo de cérebro desligado, alguns episódios do Dr. Phil. Não sei como explicar, mas de cada vez que fico doente em casa acabo sempre por ver alguns episódios deste psicólogo texano, deve ter a ver com aquele famoso provérbio misery loves company.

Isto tudo para dizer que gostaria muito de colocar críticas interessantíssimas a livros de literatura fina nos próximos dias (semanas?), mas se calhar o mais provável é vir discutir teorias de psicologia de algibeira.

Até lá, boas leituras!

Livros que Recomendo – Mundos Paralelos

philip pullman

Sabendo que saiu há pouco tempo mais um livro do Philip Pullman, O Livro do Pó em português, que já está no meu Kindle para ler a seguir, acho que está na altura de recomendar a série que o originou, Mundos Paralelos, His Dark Materials no original. A maioria das pessoas podem lembrar-se mais desta trilogia por causa do tristissimo filme a que deu origem, A Bússola Dourada, baseado no primeiro volume, mas terão de acreditar em mim quando vos digo que o filme não faz minimamente justiça ao original.

No original estes são livros para jovens adultos, o que os ingleses chamam “coming of age books”, com histórias com crianças ou adolescentes onde acompanhamos o seu crescimento, mas que nos apresentam temas difíceis para ajudar os leitores a reflectir sobre eles e assim ajudar no seu amadurecimento. E esta trilogia é perita em mostrar-nos temas difíceis, sem condescendências, com dois dos mais interessantes protagonistas que eu já vi em livros deste género.

Lyra Belacqua e Will Parry são duas crianças em dois universos paralelos que se vão encontrar e viver a sua aventura juntos. No primeiro volume seguimos Lyra, que se encontra num orfanato com o seu daemon Pantalaimon, génio na muito desinspirada tradução. A figura do génio é das mais interessantes apresentada neste livro. São criaturas externas, mas ao mesmo tempo parte de nós, revelam o nosso ser interior e têm a forma de um animal. Enquanto somos crianças vão mudando livremente de forma, até em determinado momento da adolescência se fixarem na sua forma definitiva que supostamente revelará algo do caracter do seu possuidor. Tocar no daemon de alguém sem consentimento é uma ofensa gravíssima, e separar alguém do seu daemon deixava-o incapacitado. Escusado será dizer que quando li o livro queria muito ter um daemon para mim e pensava muitas vezes qual seria a forma do meu. Lyra tem também uma “bússola” que lhe mostra sempre a verdade, e se isso não é o instrumento mais útil/assustador do mundo, então não sei qual será.

No segundo volume Lyra encontra Will, um rapaz do nosso mundo que a partir vai passar a acompanhá-la na sua busca pela origem do Pó com uma faca capaz de abrir portas entre mundos. Esta aventura vai ser difícil e complexa, mas muito interessante.

Outra das características destes livros é que os protagonistas não são necessariamente livres de mácula como é costume neste tipo de literatura. Na realidade Lyria é uma criança mentirosa e difícil e quando finalmente conhecemos Will sabemos imediatamente que ele matou alguém. E isso também é importante na história. Às vezes pessoas boas fazem coisas más em determinadas circunstâncias.

A história está muito bem construída e os três livros devoram-se num ápice, mesmo se por vezes nos deixam um sabor amargo na boca ou um aperto forte no coração. A descrição da figura da morte é das mais interessantes que já vi num livro deste género. Diz-se que a sua estrutura está grandemente inspirada no Paraíso Perdido de Milton, no entanto não posso garanti-lo porque ainda não o li, apesar de ser daqueles que está eternamente na minha lista de leituras futuras.

Philip Pullman foi alvo de muitas críticas por causa destes livros, muitas vezes considerados como um ataque à Igreja ou por promover o ateísmo e o autor muitas vezes se afirmou ateu convicto, no entanto confesso que não li os livros com essa leitura, talvez porque não a procurei activamente, mas fica o aviso.

Aconselho vivamente a quem goste de leituras juvenis, mas também a quem goste de livros adultos, porque esta é uma história com potencial para agradar a todos. Mais tarde virei cá falar d’O Livro do Pó.

Boas Leituras.

Poirot – O Mistério do Comboio Azul

Poirot

O Peixinho que é só ligeiramente obsessivo compulsivo, começou há algum tempo a ler/reler os livros do Poirot por ordem de publicação. Li bastantes na minha adolescência, da colecção dos Livros do Brasil, mas agora estou a fazê-lo por ordem e na língua original.

No entanto o quinto volume foi tão fraquinho que me levou a fazer uma pausa de quase um ano até ter coragem de retomar. Mas ainda bem que o fiz porque este The Mistery of The Blue Train foi uma revelação.

Tal como o anterior foi escrito num estilo diferente ao que estamos habituados, dá a sensação que a autora andava em fase de experimentação, mas aqui resultou bastante bem. Temos uma longa descrição de vários personagens, cenários e situações e já o livro vai bem adiantado quando Poirot aparece pela primeira vez. Na realidade ele parece um personagem secundário, pouco importante na história, apenas bem visível para nós que o conhecemos tão bem, e isso empresta mais colorido à narrativa.

Seguimos as personagens e as suas motivações em primeira mão, ao invés de acompanharmos a investigação pelos olhos do detective e isso torna mais difícil fazer o que eu sempre faço que é mandar palpites sobre quem é o assassino. Na realidade mandei na mesma, porque isso faz parte do prazer de ler estes livros, mas desta vez estava sempre a mudar de ideias e foi mais difícil prever o raciocínio da Agatha Christie, que ao fim de alguns livros percebe-se que segue sempre mais ou menos o mesmo arco.

No entanto neste caso fomos sempre sendo surpreendidos e quase mesmo até ao final eu ainda não fazia ideia de quem era o assassino ou de como a história iria encontrar o seu desfecho.

Recomendo para fãs do género e pessoas que gostem duma história bem contada. E agora rumo ao próximo volume.

Goodreads Review

Boas leituras!

Trains are relentless things, aren’t they, Monsieur Poirot? People are murdered and die, but they go on just the same. I am talking nonsense, but you know what I mean.”
“Yes, yes, I know. Life is like a train, Mademoiselle. It goes on. And it is a good thing that that is so.”
“Why?”
“Because the train gets to its journey’s end at last, and there is a proverb about that in your language, Mademoiselle.”
“‘Journey’s end in lovers meeting.'” Lenox laughed. “That is not going to be true for me.”
“Yes–yes, it is true. You are young, younger than you yourself know. Trust the train, Mademoiselle, for it is le bon Dieu who drives it.”
The whistle of the engine came again.
“Trust the train, Mademoiselle,” murmured Poirot again. “And trust Hercule Poirot. He knows.