Acabei de Ler – O Clube do Crime das Quintas-Feiras

thursday murder club

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Depois de muito tempo em lista de espera resolvi pegar no Clube do Crime das Quintas Feiras, que ganhei há algum tempo no canal da Dorinha. De vez em quando apetece-me um bom mistério, e chegou a altura deste. Ia um bocadinho de pé atrás porque as opiniões que tenho visto não são espectaculares, mas resolvi ver por mim própria.

Este clube é um grupo de 4 idosos que vivem num empreendimento para a terceira idade, algures no campo inglês. Juntam-se todas as quintas feiras para tentar deslindar casos antigos e sem solução. Mas quando se dão não um, mas dois assassinatos na aldeia, está na hora de porem os seus dotes a mexer. Os personagens são claramente o ponto forte desta história, estão bem construídos, são divertidos e no fundo todos esperamos conseguir viver a velhice com (quase) todas as faculdades intactas.

Gostei muito dos personagens, do ambiente, do sentido de humor subtil. A história flui bem e mantém-nos interessados, com a quantidade certa de reviravoltas e pistas falsas. Passei a maior parte do tempo a questionar porque razão as pessoas não gostavam do livro até chegar à resolução final. Aí é que foi a desilusão que fez este livro baixar umas estrelas. O culminar da história não fez sentido nenhum, não era verossímil, e não fez jus à qualidade do resto do livro. Mesmo assim valeu as três estrelas no Goodreads por tudo o que se passou até lá.

Recomendo a todos os que gostam de policiais, e de histórias que nos mostram que velhice não significa morrer em vida. Apesar de tudo foram umas horas bem passadas.

Rumo ao próximo. Até lá, Boas Leituras!

Goodreads Review

After a long time on the TBR, I finally picked up The Thursday Murder Club, that I won some time ago on Dorinha’s YouTube channel. Every once in a while, I’m on the mood for a cosy mystery, and this was one of these times. I was a bit reluctant, as I saw some not so good reviews, but that did not deter me.

This club refers to a group of 4 elderly people that live in a retired community somewhere in the English countryside. They get together every Thursday to look at old police cases and try to solve them together. But when no tone, but 2 murders happen in their neighbourhood it’s time to get together and solve them, the characters are this book’s strong point. They are engaging, well developed and most of all, fun. They are what we all hope will be a portrait of our older years, living a full life with all our capabilities.

I really enjoyed the main characters, the ambience, and the subtle sense of humour. The story has a nice pace, keeps us interested at all times with a lot of plot twists, some more obvious that others. I wondered throughout the book why there were so many negative opinions. But then I reached the end and I understood. Unfortunately, the ending is not very good. It did not make sense; it was sloppy and not on par with the rest of the book. Still, I gave 3 stars on Goodreads, as the overall experience was so enjoyable.

I recommend it to all that love cosy mysteries, and stories that show us that being old is not the same as being dead. In the end it was a time well spent.

On to the next, until then Happy Reading!

Meteorológica

adilia_lopes

Para ouvir maravilhosamente este poema, vão aqui.

para o José Bernardino

Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico

Adília Lopes

Acabei de Ler – A Casa no Mar Cerúleo

house in the cerulean sea

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Eu sou uma pessoa que não gosta por aí além de ler as coisas que toda a gente anda a ler, normalmente porque já vou com predisposição para não gostar. E por vezes esses receios são fundamentados, como aconteceu recentemente com Os Sete Maridos de Evelyn Hugo. Mas depois, noutras alturas, descobrimos que na realidade toda a gente tinha razão, como aconteceu com Bear Town. Este livro foi um desses.

A Casa no Mar Cerúleo é o que se chama uma “cosy fantasy”. Assim um livro de fantasia que aquece o coração, em vez de encher a cabeça com raças de elfos, e batalhas sem fim. Gosto de uns e outros, mas ultimamente ando mais virada a coisas simples, porque há muita beleza na simplicidade.

E há muita beleza na história de Linus Baker, um empregado da agência governamental encarregue dos orfanatos dedicados a crianças que são simultaneamente seres mágicos. Uma CPCJ da magia, e Linus tem como principal função garantir que as crianças são bem tratadas nestas instituições, e caso isso não se verifique, recomendar o seu encerramento. O que acontece às crianças depois, já não faz parte da sua jurisdicção, e por isso ele não sabe nem tenta saber. Mas um dia recebe como missão ir investigar um orfanato ultra-secreto, e vai descobrir que a sua vida cinzenta se calhar precisa de mais cor.

Houve duas coisas que me conquistaram neste livro. A primeira é sem dúvida o sentido de humor que está imbuído. Dum modo muito diferente, mas fez-me lembrar o À Boleia Pela Galáxia. Dei por mim com um sorriso na cara muitas vezes. A outra coisa que gostei foi da naturalidade com que a história fluiu. Muitas vezes parece que há personagens/situações que são colocadas na história “a martelo”, para fazer o livro estar mais dentro dos valores actuais, e isso não me deixa apreciar a história como ela é. Mas aqui tudo é natural, tudo flui, tudo faz sentido sem esforço. As personagens são fabulosas, e carregam toda a história que não tem nada de original, mas que é bonita e aquece o coração.

Se ainda não leram, eu recomendo muito, acho que vão passar umas boas horas, com um sorriso no rosto e um quentinho no coração.

Rumo ao próximo, até lá Boas Leituras!

Goodreads Review

I usually don’t like reading books that are trending because I have a predisposition to dislike them. Sometimes I am right, as it recently happened with The Seven Husbands of Evelyn Hugo, but in many cases I am wrong, as was the case of Bear Town, that I loved. This book was in the Bear Town category.

The House in the Cerulean Sea is a cosy fantasy. Like a warm blanket on your heart, instead of a head full of elf races and endless battles. I like both versions, but lately I’m more inclined to read simpler things, as there is a lot of beauty in simplicity.

And there was a lot of beauty in Linus Baker story. He is a case at the Department in Charge Of Magical Youth, DICOMY, a government agency that overseas the orphanages for children with magical abilities. His main job is to ensure that the children are well taken care off, and don’t suffer any abuse, and if that happens, he recommends said orphanage to be shut down. What happens after that is no longer his responsibility, and will be taken over by other departments. But one day he receives a very important mission, to conduct an investigation on a top-secret orphanage, with very special children and a unique master, and that will lend some colour to his otherwise grey life.

Two things grabbed with this book. First its sense of humour that permeates every page. Reminded me of The Hitchhikers’ Guide to the Galaxy, albeit being very different, and I had a smile on my face for most of the time. I also enjoyed the easiness with which the story flows. In some books we see characters or situations that are there mainly as conduit for the author’s ideas, or as a way to make the book trendier but that does not happen here. Everything makes sense, all has a purpose, everything flows naturally. The characters are fabulous and carry the story, that is not incredibly original but beautiful and endearing.

If you haven’t read it yet, I highly recommend it. It will warm your hearts and fill a couple of hours with much joy.

On to the next, until then Happy Reading!

Acabei de Ler – The London Séance Society

london seance society

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Mais ou menos há um ano li o romance de estreia de Sarah Penner, O Segredo da Boticária, e gostei. Não foi extraordinário, mas foi bom para passar o tempo, a parte histórica estava bem escrita e o ambiente da época estava bem descrito e bem criado. Por isso, quando apareceu o segundo livro da autora no Netgalley resolvi embarcar na aventura.

The London Séance Society é uma espécie de thriller histórico, passado em Londres em 1873. O ambiente está mais uma vez muito bem descrito, e é a melhor parte do livro. Conseguimos, sem esforço, visualizar ruelas sujas, estreitas e empedradas, miúdos de cara suja, e quase sentimos o cheiro nauseabundo do rio Tamisa. Neste cenário ocorreram dois assassinatos. O do presidente da London Séance Society, um clube só de cavalheiros dedicado às artes espiritualistas, coisa muito em voga na Londres vitoriana, e o de Evie, a irmã da nossa protagonista, que também era uma crente fervorosa do ocultismo. Leena tenta desvendar o mistério da morte da sua irmã, e para isso vai estudar com a médium mais famosa da altura, Vaudeline, que é perita em desvendar casos de homicídio. O que se segue é uma história interessante, com mistério, suspense, e muito ambiente gótico.

A primeira reviravolta do livro era muito óbvia, mas creio que isso foi propositado. As outras foram coerentes e fizeram sentido. A história estava bem construída e foram umas horas bem passadas a desenrolar este mistério com um pano de fundo tão interessante. Recomendo a todos os que gostam de ficção histórica, e de um bom mistério.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Close to a year ago I read Sarah Penner’s debut novel The Lost Apothecary and I liked it. It wasn’t extraordinary, but it was entertaining, the story was well told and the ambiance was great. So, when her second novel was made available on Netgalley, I did not hesitate.

The London Séance Society is an historical thriller set in the Victorian London, more precisely in 1873. Again, the ambiance was perfectly created and is indeed the best part of the book. I could easily envision London’s dirty, narrow alleys, filled with children with dirty faces, and smell the foul Thames River. It was in this setting that two murders occurred. The president of the London Séance Society, a gentleman’s club that dwells in the occult, which was very fashionable at that time, and Evie, our protagonist’s sister, also a believer in these arts. Leena tries to find out the truth about her sister’s death, and to do so she enlists the help of Evie’s former teacher, Vaudeline, a French medium, very famous for solving murder mysteries. What comes next is an interesting gothic story, filled with mystery and suspense.

The first plot twist was very obvious, and almost threw me off, but I soon realised it must have been done on purpose, so I persevered and ended up enjoying myself a lot. The plot was well constructed and I spent a few hours unravelling this mistery with such an interesting background. I recommend to everyone who likes historical fiction and a good mystery murder.

On to the next, until then Happy Reading!

Acabei de Ler -Acts of Service

acts of service

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Acho que depois de ler muitos romances seguidos fico demasiado xaroposa e tenho que encontrar coisas para contrabalançar. Foi essa premissa que me levou até este romance de estreia de Lillian Fishman, sobre o qual li e vi bastantes opiniões que me deixaram curiosa.

À semelhança do livro de Otessa Moshfegh, My Year of Rest and Relaxation, que li algures já este ano, aqui também parece que não se passa muito em termos de história. No entanto, passa-se imensa coisa, nomeadamente dentro da nossa cabeça. Eve tem uma vida pacata, uma namorada há bastante tempo, um emprego num café, no entanto sente-se inquieta e descontente com algo. Depois de postar algumas fotos suas online, conhece Olivia e, através dela, Nathan, que vão passar a fazer parte do seu quotidiano dum modo quase obsessivo.

Este triangulo, sexual mais que amoroso, vai fazer Eve questionar tudo sobre si própria, a sua relação, a sua (falta de) ambição de vida. Aquilo que ela sempre julgou ser, lésbica, activista dos direitos das mulheres, é agora posto em causa pelo lugar que ela encontra com Nathan e Olivia. Ela sabe que há algo muito errado na sua relação com Nathan, mas continua a voltar como uma traça atraída pela luz.

É no meio destes momentos de intimidade que se passam muitas conversas sobre sexualidade, identidade, o trabalho como algo que nos define, relações laborais e pessoais, o que é abuso e o que é auto-confiança. Foi um livro estranho, mas é daqueles que fica na nossa cabeça por algum tempo, e que nos faz questionar muita coisa.

Gostei muito, recomendo a todos os que gostam de uma boa história e que não se impressionam com copiosas quantidades de cenas sexuais.

Boas Leituras!

Anytime I want, I can forsake this dinner party and jump into real life.

Goodreads Review

After reading too many romance novels in a row I become too syrupy and need to find different things to balance me up. This was what lead me to this debut novel by Lillian Fishman, after reading and watching many online reviews.

Same as Otessa Moshfegh’s book, My Year of Rest and Relaxation, that I read earlier this year, the plot doesn’t seem to be much. There aren’t many things going on, apparently. However, there are a lot of things happening, mainly inside our heads. Our protagonist, Eve, has a normal, boring life, a steady girlfriend of many years, a job in a café as a barista. But she is also restless and one day she posts some nudes on a website, not quite sure why. As a result, she will meet Olivia, and that leads to meeting Nathan. Both of them will start to be a part of her life, almost in an obsessive way.

This triangle, sexual more than romantic, will make Eve question everything about herself, including her relationship and her (lack of) ambition. All the things that used to define her, being lesbian and a women’s rights activist, for example, is now confronted by her relationship with Nathan and Olivia, and the place she occupies in it. She senses there is something deeply wrong in their love triangle, and in her submissiveness to Nathan, but she keeps coming back, as a moth attracted to the light.   

It’s amidst their intimate moments that many important conversations go on. Reflections on identity, sexuality, work as something that defines us, work vs personal relations, what can be considered abuse and what can be considered assertiveness, and all the grey lines in between. This was a strange book, that stayed in my thoughts for a long time.

I really liked it and recommend it to anyone who loves a good story and doesn’t get put off by an abundance of sex scenes.

Happy Reading!

As Raparigas

poesia as segundas 5 anos

Quando eu era miúda 

a minha mãe chamava rapariga 

a mulheres da idade dela, 

e eu ria-me 

porque achava que eram muito velhas 

para serem raparigas.

Agora, quando eu falo em ser miúda

refiro-me a um tempo indefinido

algures entre os cinco e os trinta e cinco anos

e percebo que estou mais velha

que a minha mãe quando se achava rapariga.

Peixinho de Prata, 2018

#OutubroHorrivel

livros outubro

Outubro é o mês do Halloween e nos últimos anos esse evento tem tido cada vez mais importância entre nós. Na comunidade livrólica isso traduz-se em dar uma maior visibilidade aos livros de terror/horror. Ora, essa não é certamente a minha praia, que sou uma fraquinha em termos de emoções fortes. Já tenho que chegue disso na minha vida pessoal, e prefiro ler coisas com menos suspense.

Mas no início deste Outubro decidi que me ia dedicar mais a este tipo de livros. Como anteriormente li dois livros do Gary Hendrix que até gostei, achei que era uma aposta segura, e peguei no Horrorstor. Claro que percebi que estava enganada, e apesar de ter gostado do livro, não conseguia ler de noite, e na realidade estava a causar-me ansiedade.

E foi então que o #OutubroHorrivel passou a ser mais um mês como outro qualquer, em que eu li exactamente o que me deu prazer. E houve muita coisinha boa a passar por este Outubro, incluindo não ficção em português, de que falei aqui. No total li 6 livros, menos que em Setembro, mas não-ficção demora sempre um bocadinho mais a ler. Li dois romançolas que não foram dignos de nota, e não deixaram grandes memórias. E um dos livros veio do Netgalley, foi uma agradável surpresa, e já falei dele aqui.

Terminei o mês com mais um daqueles livros publicados recentemente e que são ligeiramente estranhos, que ainda estou a digerir antes de vos falar aqui.

Foi um belo mês, e agora parece que finalmente chegou o frio, que convida a leituras mais aconchegantes. Sigamos para o #NovembroFrio.

Até lá, Boas Leituras!

Acabei de Ler – Da Costa, Praias e Montes da Caparica

da costa

Há uns tempos os ebooks da Fundação Francisco Manuel dos Santos estiveram em promoção e resolvemos comprar alguns. Especificamente este comprámos pelo meu apego sentimental às praias da Costa, onde passei muitos e bons fins de semana nos anos 70 e 80. Nunca tinha lido nada desta autora, por isso ia completamente às escuras sem expectativas nenhumas.

E foi tudo uma agradável surpresa. Luísa Costa Gomes leva-nos a passear pela Costa da Caparica no tempo e no espaço, com uma escrita muito escorreita e recheada de humor. Conhecemos a Costa desde os seus primórdios, e a sua relação com os pescadores, mas também com a fidalguia, que aí tinha as suas quintas para gerarem rendimento e subsidiarem os faustos da corte. Conhecemos testemunhos em primeira mão de pessoas conhecidas que passaram lá a infância, ou lá viveram. “Visitamos” algumas das antigas quintas da nobreza e vamos recebendo factos históricos, demográficos e sociológicos quase sem nos apercebermos.

Mas a grande mais valia deste pequeno livro foi a descoberta da escrita da sua autora. Um humor inteligente, uma escrita sem floreados excessivos, foi um imenso prazer ler. Agora tenho que ir conhecer sem dúvida mais livros de Luísa Costa Gomes, porque quem escreve assim num pequeno tomo sobre uma zona balnear, quanto mais não fará num dos seus romances. Alguém por aí já leu e pode atestar?

Já estou em busca de mais títulos desta escritora nas minhas fontes de segunda mão habituais. Entretanto vamos ao próximo, e até lá, Boas Leituras! Fiquem com um excerto.

Goodreads Review

Os dados a que tive acesso são de 2011e a única informação que pode ter alguma relevância é a de que, nessa época, havia mais homens fixos na Costa da Caparica do que mulheres. Havia mais 24, para ser exacta. Isto, na classe dos 30 aos 34 anos. Se a estatística serve de alguma coisa é para avisar disto as potenciais interessadas, embora a estatística, tal como a filosofia, seja vespertina, ou seja, chegue sempre tarde e a más horas.