Nomeados Para o Booker Prize 2021

booker prize 2021 longlist

Parece que ainda ontem saiu o nome do vencedor do Booker International, e já estamos novamente na altura do Booker Prize 2021. São 13 os nomeados, como de costume, e vou deixar as minhas impressões acerca de todos eles. Ainda não li nenhum e só conheço Kazuo Ishiguro, apesar de também ainda não ter lido nada dele. Isso é bom, significa que tenho mais autores para explorar.

A Passage North, Anuk Arudpragasam – O autor é do Sri Lanka, de origem Tamil, e estudou nos Estados Unidos. O personagem principal vive com o mesmo contexto e retorna ao Sri Lanka para um funeral. Seguimos a sua jornada pelo país que lhe faz falta, mas que ao mesmo tempo já está tão distante. Parece-me bonito, mas demasiado introspectivo para a minha cabeça agora.

Second Place, Rachel Cusk – Uma mulher que vive numa zona costeira convida um artista famoso para a visitar, na esperança de ganhar algum conhecimento sobre a sua zona e a sua vida. Apenas pela descrição não me parece apelativo. Se já leram, digam-me o que acharam.

The Promise, Damon Galgut – Livro de um autor sul-africano, passado em Pretória, que fala sobre a promessa de um novo mundo no país, mas em como muitas instâncias as coisas não mudaram assim tanto. Tudo contado pela observação duma família que se desmorona.

The Sweetness of Water, Nathan Harris – passado na Georgia (EUA) mesmo após o final da guerra civil. É o primeiro livro deste autor e tem críticas excelentes no Goodreads.

Klara and the Sun, Kazuo Ishiguro – este é sem dúvida o título mais conhecido desta lista. O autor é laureado com um prémio Nobel, o livro já foi traduzido para português, o tema (inteligência artificial) é pertinente e moderno.

An Island, Karen Jennings – um faroleiro vive sozinho numa ilha até um refugiado vir parar à sua costa. Isso leva-o a repensar o conceito de terra, pertença e os horrores a que ele próprio tinha fugido. Mais um livro com um tema muito atual.

A Town Called Solace, Mary Lawson – uma cidade pequena canadiana nos anos 70, e várias pessoas com histórias complicadas. Esta parece-me a sinopse mais ao meu gosto.

No One is Talking About This, Patricia Lockwood – uma história sobre a loucura das redes sociais, o seu contraste com a vida real, e o peso que têm na vida moderna. Tem uma sinopse muito apetecível, infelizmente algumas pessoas cuja opinião literária prezo muito não ficaram convencidas, por isso acho que vou passar.

The Fortune Men, Nadifa Mohamed – o que acontece quando um pequeno criminoso, étnico, é acusado dum assassinato em Cardiff nos anos 50? É nessa viagem que este livro nos pretende levar. Parece muito interessante.

Bewilderment, Richard Powers – outro autor muito conhecido que já ganhou um Pulitzer. Esta é a história dum pai viúvo que tem um filho de 9 anos com necessidades especiais. Demasiado específico para eu conseguir ler nesta altura, mas adorei a sinopse.

China Room, Sunjeev Sahota – uma história absolutamente deliciosa sobre 3 irmãs indianas que em 1929 casam com 3 irmãos, mas não sabem qual deles é o seu marido, já que a sogra lhes proíbe o contacto durante o dia. Tem reminiscências de Salman Rushdie, e até agora é o que mais me apetece ler.

Great Circle, Maggie Shipstead – mais um livro passado nos EUA de antigamente (aqui cerca de 1914), e mais um com duas linhas temporais diferentes. Não me parece muito para o meu palato.

Light Perpetual, Francis Spufford – Várias personagens em Londres em 1944. É este o resumo.

Bom, sou eu que posso estar a ficar demasiado esquisita, mas este ano a lista não me parece muito interessante. Estou de olho nos blogues e youtubes para ver se algum causa comoção, mas até lá creio que tenho demasiados livros em espera para pegar nalgum destes.

Já leram algum, aconselham? Digam-me tudo!

E até lá, Boas Leituras!

Resumo do 1º Semestre

The Yellow Books by Vincent Van Gogh

Já vamos quase no fim de Julho, mas ainda venho a tempo de reflectir sobre os primeiros 6 meses de 2021. Ao contrário do optimismo do final de 2020 parecia indicar, o ano novo não veio trazer grandes mudanças drásticas em matéria de covid. Temos finalmente vacinas, e parece vislumbrar-se alguma luz ao fundo do túnel, mas o comprimento do túnel ainda é uma incógnita. Esta incerteza, aliada aos confinamentos e isolamentos profiláticos, não deixam muita disponibilidade para ler, quer em termos de tempo, quer em termos de disposição para o fazer. 

No entanto, 2021 foi o ano em que fiz duas descobertas. A primeira foi o Booktube, nome pomposo para canais de pessoas que fazem vídeos e leituras. A segunda foram audiolivros que efectivamente consigo ouvir e me têm ajudado na tarefa de continuar a saga dos Poirots. 

Os vídeos do Youtube são engraçados, porque tal como no Goodreads e afins, conseguimos encontrar pessoas que têm um gosto parecido com o nosso e assim ter boas e acertadas recomendações, mas também pessoas que lêem coisas diferentes e que nos sugerem livros que de outro modo não leríamos. Por outro lado, há algo estranhamente motivador em ver pessoas a mostrar os livros que compraram/leram num determinado mês, e acho que isso me incentivou bastante. 

Nos primeiros 6 meses de 2021 consegui ler 24 livros . 5 foram em português, 2 foram BD’s, 5 foram Poirots. Um dei duas estrelas, 9 dei 3 estrelas, 10 com 4 estrelas e apenas 4 levaram as 5 estrelas. Deixo-vos as minhas recomendações 5 estrelas, que sinceramente acho que valem a pena. A diferença para os outros livros que leio, é que meses depois de os ter lido, a história ainda ressoa cá dentro, e lembro-me deles muitas vezes. 

Piranesi, de Susanna Clarke – A escritora do aclamado Jonathan Strange & Mr. Norrel voltou este ano com um livro completamente diferente em tudo, inclusivamente no tamanho. A história de Piranesi é simultaneamente estranha e envolvente, que nos agarra devagarinho até não o conseguirmos pousar. Recomendo imenso!

Comer/Beber, de Filipe Melo e Juan Cavia – as BD’s desta dupla não precisam de grande explicação. Ilustrações lindíssimas, aliadas a histórias interessantes e bem desenhadas, fazem estes livros ser dos melhores que se fazem em BD. 

Romance de Cordélia, de Rosa de Lobato Faria – Esta escritora foi uma agradável surpresa para mim, porque ia com baixas expectativas. Na realidade a escrita é limpa, escorreita e as histórias são muito interessantes. Recomendo muito também.

A Biblioteca da Meia-Noite, de Matt Haig – O último a que dei 5 estrelas e que foi recentemente traduzido para português. Uma história interessante que nos fala de escolhas e o seu impacto na nossa vida. Ideal para pessoas que pensam demais. Fiquei de olho neste autor e tenciono continuar a ler livros dele. 

Se já leram algum, digam se gostaram. Se têm alguma recomendação 5 estrelas para mim, podem deixar também, que eu tentarei ler. Neste momento estou a ler um livro que acho que supera qualquer um dos anteriores, falarei aqui em breve!

Até lá, Boas Leituras!

 

 

J.

Rui Costa

Na bicicleta tão pequena tu eras grande
de mais. Saltando muros, levantando a
roda, até os meus tios vinham ver-te
às voltas no terreiro de asas nas rodas
e jeito tão azul. Mas um dia
ganhei-te na corrida. Tu sorriste,
deste-me piratas e eu nunca soube bem porquê.
Mas não foi por causa disso que morreste.
Um dia de manhã os teus pés parados sem saber.
Morreste nesse dia e eu nem sequer
chorei. Não é preciso, amigo.
Chegaste primeiro desta vez. És o maior:
A morte é uma bicicleta, tenho
a certeza disso.
Rui Costa

Acabei de Ler – Oh William!

oh william

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O nome Elizabeth Strout dizia-me qualquer coisa, apesar de nunca ter lido nada dela, e não me conseguir lembrar de onde a conhecia. Mesmo assim vi este livro no Netgalley e requisitei. Ao começar a ler percebi que era um livro paralelo ao “O Meu Nome É Lucy Barton”, onde ela é novamente a protagonista.

Não senti falta de ter lido o outro primeiro, no sentido em que a história é completa por si só. Mas gostei tanto da personagem e da escrita, que o lerei muito em breve. William foi o primeiro marido de Lucy Barton, e estão divorciados há muitos anos, tendo ambos refeito as suas vidas. Mantiveram uma amizade tranquila, e são quase confidentes um do outro. Este é o ponto de partida desta narrativa, que nos é contada por Lucy quase como se estivéssemos a ler os seus pensamentos.

Agora que estão a entrar na velhice, William e Lucy vêem algumas alterações bruscas a acontecer, e serão o apoio um do outro, mostrando que apesar de tudo o que a vida nos dá, é possível manter civilidade e afeto.

Gostei bastante do livro, da forma como está escrito, das personagens e das suas imperfeições. Fiquei com muita vontade de ler mais coisas da autora, por isso creio que o Netgalley cumpriu a sua função neste caso.

Recomendo a todos os fãs da autora, e a todos os que gostam duma boa história, com uma escrita menos convencional.

Boas Leituras!

Goodreads Review

The name Elizabeth Strout was familiar to me even though I had not read any book from her. But when I saw this book on Netgalley I asked it straight away. When I started reading I realised it was a sequel to My Name is Lucy Barton, and she is the main character again. 

It was not relevant that I had not read the previous book as this is a complete story in itself, but I liked the story and the writing style so much, that I am sure I will read it asap. William was Lucy’s first husband, they have divorced many years ago and both remade their lives. They are still friends and confidents and the story starts here, with Lucy as the narrator. 

Now that they are both starting their old age, William and Lucy both witness some drastic changes in their lives, and they will support each other, showing us that, despite all that can happen to us, it is possible to maintain a friendship with respect and affection. 

I really enjoyed this book, the way it is written, the characters with their flaws and imperfections. I now want to read more books from this author, so I believe Netgalley did his job with this book. 

I recommend it to all Elizabeth Strout fans, and to all those that love a good story with unconventional writing. 

Happy Reading!

Acabei de Ler – How to Walk a Puma

walk a puma

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Peter Allison é um australiano que decidiu desde cedo que um trabalho de escritório não era para si, e resolveu rumar a África para trabalhar como guia de safari. Andou pela África do Sul, Botswana, Namíbia e as suas aventuras nesses locais belíssimos estão relatadas nos seus primeiros livros, de que eu já falei aqui e aqui.  Desta vez Peter decide voltar à natureza depois duma paragem de 10 anos onde tentou enquadrar-se na vida “normal”. Resolve fazer uma viagem pela América do Sul, sempre em busca dum jaguar, o maior felino do continente.

Pelo caminho vai ter aventuras incríveis com pumas, aves, anacondas, e acima de tudo, pessoas. Peter Allison tem o dom de fazer os seus interlocutores contarem histórias incríveis, que por sua vez vêm até nós sempre com muito humor.

Numa época em que as viagens se encontram tão amputadas por causa da pandemia, é um verdadeiro prazer poder viajar através dos livros. Infelizmente, o lado menos glamouroso destes livros é sempre pensar como estarão hoje as zonas que já estavam em perigo grave de destruição pela industria da madeira há 10 anos atrás, quando o autor as visitou. Ou aquela tribo que ainda vivia praticamente em isolamento na Amazónia. Dificilmente estarão melhores, pelos ecos que vamos ouvindo da zona.

De qualquer modo foi um prazer muito grande ler este livro, e recomendo para todos os amantes de literatura de viagem e vida selvagem.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Peter Allison is an australian that decided he was not fit for an office job very early in his life. This lead him to Africa, where he started a carreer as a safari guide, in amazing places like South Africa, Botswana and Namibia. His adventures in those countries are told on his first two books, that I already reviewed here e here. After a city break, where Peter tried to fit in some office jobs, he decides to get back on the road and this time he goes to South America, searching, among others, the elusive jaguar. 

While he’s there he experiences some amazing adventures with pumas, birds, anacondas, but most of all people. He has the gift to make people open up to him and tell him incredible stories that he shares with us, always filled with humour.    

In a time where travelling is has been so hindered by the pandemic, that has no end in sight, it is an absolute joy to be able to travel through books. Unfortunately not all is beautiful. Some of the places the author has visited 10 years ago where already severely under threat from the logging companies and other dangers, so one tends to wonder what has become of those places now. Or that tribe that still lived according to their old ways, always fighting for their land. We can infer that should not be better, especially considering the news we keep seeing from those countries. 

Despite that, it was a real pleasure to read this book, and I cannot recommend it enough to all travel and wildlife lovers. 

Happy Reading!

Pode-se Escrever

pedro oom

Pode-se escrever sem ortografia

Pode-se escrever sem sintaxe

Pode-se escrever sem português

Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua

Pode-se escrever sem saber escrever

Pode-se pegar na caneta sem haver escrita

Pode-se pegar na escrita sem haver caneta

Pode-se pegar na caneta sem haver caneta

Pode-se escrever sem caneta

Pode-se sem caneta escrever caneta

Pode-se sem escrever escrever plume

Pode-se escrever sem escrever

Pode-se escrever sem sabermos nada

Pode-se escrever nada sem sabermos

Pode-se escrever sabermos sem nada

Pode-se escrever nada

Pode-se escrever com nada

Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever

Pedro Oom

Acabei de Ler – Os Cinco Relógios, Poirot #37

Poirot 37

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Ora aqui está um Poirot que li de modo diferente. Encontrei o audiobook no Youtube, narrado por Hugh Fraser, o actor que faz de Hastings na série, e resolvi experimentar. E que experiência que foi. Maravilhoso. Foi o primeiro audiobook que eu consegui efectivamente ouvir, prestar atenção e seguir toda a história. Hugh Fraser é excelente a fazer as vozes e mesmo os sotaques dos diferentes personagens, recomendo muito.

E a história em si? Bom, Colin Lamb vai a passar na rua e cai-lhe nos braços uma jovem assustada, que acaba de encontrar um homem morto numa casa onde tinha sido chamada a fazer um trabalho de estenografia. Sheila Webb, a estenógrafa, não conhecia a vítima, e era a primeira vez que fazia um trabalho naquela morada. Colin Lamb vai ajudar a polícia a investigar o caso, já que este se cruza com o trabalho que ele estava a fazer para os serviços secretos. Resolve pedir ajuda a um antigo amigo do seu pai (fica a dúvida sobre quem será o seu pai), e nosso amigo também Hercule Poirot, que se encontra tão aborrecido que anda a ler a analisar todos os escritores de romances policiais.

Mais uma vez Poirot não aparece muito neste história, é quase um personagem secundário. Por outro lado a solução do problema é demasiado parecida com a do livro Jogo Macabro, e se foi surpreendente na altura, agora já não o foi tanto. Mais uma vez, não dos melhores da autora, o que me leva a pensar que não é como o vinho, e não melhorou com o passar do tempo.

Ainda assim recomendo, porque se quiserem ler todos os Poirots como certa gente doida que anda por aí terão que ler este, e se quiserem um bom audiobook este será também uma boa opção.

Boas Leituras!

Goodreads Review

This was a book that I read in a different way. I found the audiobook on Youtube, narrated by Hugh Fraser, our dearest Hastings from the Poirot series, and I decided to give it a go. And I am so glad that I did. The book was wonderful, his reading skills are incredible and the different voices and accents made this delicious to hear. I could actually understand and follow the story, which I’ve never been able to do before. 

And how was the story itself? We have Colin Lamb, a young man that is walking down a street when a young lady falls on his arms screaming. She had just encountered a dead man on a house where she had gone to do a typing job. Sheila Webb, the girl, did not know the man, or the person who had hired her for the job. Colin works for the secret services and decides to join this investigation, as it crosses paths with his own. Furthermore, he seeks the help from an old friend of his father (we are left guessing who that is), our own Hercule Poirot. 

Once again, Poirot is almost a side character in this book, rarely appears, even though he is the key to solve the mistery. This solution, however, was very similar to the one we just saw on Dead Man’s Folly. If it had been surprising then, now it is not so much. Again, this was not one of the best works from this author, which leads me to believe the best has passed already (maybe with the exception of the last one). 

I will still recommend it. To all of those that, like me, wish to read all the Poirot novels, but also to anyone who wishes to enjoy a great audiobook. 

Happy Reading!

Acabei de Ler – Apartamento Partilha-se

flatshare

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Estes últimos tempos têm sido pródigos em doenças infantis e noites mal dormidas e isso tem um grande impacto na minha concentração e capacidade de ler coisas elaboradas. Felizmente tenho andado a ver muitos canais do Booktube onde não faltam recomendações de coisas interessantes mas fáceis de ler.

Foi o caso de The Flatshare, mais um romance engraçado com personagens bem desenvolvidas. Tiffy está a sair duma relação complicada e precisa dum apartamento barato, o que é missão quase impossível em Londres. Acaba por aceitar dividir uma casa (e cama) com Leon, um enfermeiro que trabalha de noite e usa a casa só de dia, ficando Tiffy com as noites e fins de semana. Combinam comunicar-se apenas por mensagens, o que dá origem a uma deliciosa correspondência em post-its por todo o apartamento.

A história é engraçada e coerente e as personagens criam empatia, o que tornou a leitura deste livro um prazer. Aconselho a quem gosta de um bom romance e de um livro que entretém.

Boas leituras!

Goodreads Review

These past few weeks have been filled with child ilnesses and barely slept nights, and that has taken a toll on my ability to read elaborate books. Luckily I have been following several Booktube channels, so I have a fair amount of book recommendations that are easy to read and interesting at the same time. 

This was the case of The Flatshare, an interesting romance with great, well written characters. We have Tiffy that is coming out of a difficult break up and needs an unexpensive flat asap, so she can move out from her ex’s house. But that is very difficult to achieve in London. She ends up replying to an add from Leon, a nightime nurse that only uses the house by day, so she can have the nights and weekends. They end up sharing the house and the bed (at different times) and communicating via post-its. 

It is a endearing story, with some difficult subjects that are discussed in a nice manner and everything makes sense. I recommend it to everyone who likes a good romance. 

Happy Reading!

A Casada Infiel

Federico Garcia Lorca

Eu que a levei ao rio,
pensando que era donzela,
porém tinha marido.

Foi na noite de Santiago
e quase por compromisso.
Apagaram-se os lampiões
e acenderam-se os grilos.
Nas últimas esquinas
toquei seus peitos dormidos,
e se abriram prontamente
como ramos de jacintos.
A goma de sua anágua
soava em meu ouvido
como uma peça de seda
rasgada por dez punhais.
Sem luz de prata em suas copas
as árvores estão crescidas,
e um horizonte de cães
ladra mui longe do rio.

Passadas as sarçamoras,
os juncos e os espinhos,
debaixo de seus cabelos
fiz uma cova sobre o limo.
Eu tirei a gravata.
Ela tirou o vestido.
Eu, o cinturão com revólver.
Ela, seus quatro corpetes.
Nem nardos nem caracóis
têm uma cútis tão fina,
nem os cristais com lua
reluzem com esse brilho.
Suas coxas me escapavam
como peixes surpreendidos,
a metade cheias de lume,
a metade cheias de frio.
Aquela noite corri
o melhor dos caminhos,
montado em potra de nácar
sem bridas e sem estribos.
Não quero dizer, por homem,
as coisas que ela me disse.
A luz do entendimento
me faz ser mui comedido.
Suja de beijos e areia,
eu a levei do rio.
Com o ar se batiam
as espadas dos lírios.

Portei-me como quem sou.
Como um cigano legítimo.
Dei-lhe um estojo de costura,
grande, de liso palhiço,
e não quis enamorar-me
porque tendo marido
me disse que era donzela
quando a levava ao rio.

Federico García Lorca

Postal

peixoto

Chovem pais e filhos sobre os campos,
terrenos de árvores húmidas, outono.
Os pais tentam sempre proteger os filhos,
essa é a natureza que corre nas árvores,
essa é a lei e esse é o sentido. É outono
e não poderia ser outra estação, começou
o frio e a fome, olho a força dos campos
pela janela submersa deste último outono
e compreendo por fim a minha idade:
chovem pais e filhos de mãos dadas.
Lá longe, sou pai. Lá longe, sou filho.

José Luís Peixoto in Gaveta de Papéis