Hoje É Dia de Coisas Simples

al-berto

 

hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira
na aldeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das
chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia… jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças
descalças
hoje

Al Berto

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Livros que Recomendo – A Lagoa do Sherman

Sherman

Não é a primeira vez que falo aqui no Peixinho deste tubarão castiço, meio tolo, que habita numa lagoa tropical dum atol no Pacífico. Vive lá com a sua esposa, e os seus amigos. Uma tartaruga existencialista, um caranguejo vigarista, um peixe adolescente que é um génio de computadores e um urso polar que vai e vem consoante lhe apetece calor. Todos os outros habitantes são mais ou menos território livre de alimentação, incluindo os “macacos peludos” que se passeiam inocentemente pelas praias a desfrutar do lugar paradisíaco.

Por baixo de tudo isto temos uma forte mensagem ambiental e de reflexão sobre a importância de todos os seres marinhos, por mais insignificantes que nos possam parecer, bem como alertas vários sobre situações actuais graças ás viagens que Sherman vai fazendo por outros mares do mundo.

Eu sei isto tudo porque sigo diariamente a tira que vai sendo publicada aqui, já que em Portugal apenas foram publicados dois volumes pela Devir. Mas creio que hoje já não se encontram disponíveis.

Recomendo a todos os que gostam de BD, principalmente com um tom humoristico/educativo.

Boas Leituras!

 

Um dia em Miranda do Corvo

Miranda_05
Pirâmide do Templo Ecuménico de Miranda do Corvo, cujo vértice se v~e um pouco por toda a vila. 

O Peixinho, como já devem estar cansados de saber, não gosta mesmo nada de ter férias em Agosto, mas tem mesmo de ser. Há muito poucas coisas que se consigam fazer com qualidade e sem magotes de gente, mas há que continuar a tentar.

Este ano fomos tentar um local mais interior, mas ainda assim com algo para fazer, e rumámos a Miranda do Corvo com a ideia de visitarmos uma ou duas coisas catitas por lá.

A primeira impressão com que ficámos é que Miranda é uma vila fantasma. Tudo bem que é Agosto, mas a quantidade de gente que não se via em todo o lado era impressionante. Os cafés e restaurantes fechados (e sem papel a dizer férias), as casas para venda, casas em que a construção parou a meio davam a tudo um ar de que as pessoas a meio desistiram e foram para outro sítio qualquer. E não pensem que estou a exagerar, porque na vizinha Lousã, por exemplo, via-se muito mais gente a andar na rua e as coisas estavam muito mais vibrantes. Mistérios.

Miranda tem um centro engraçado, com umas esplanadas agradáveis, das quais só uma tem clientes. Escusado será dizer que foi a essa que fomos, e fomos sempre bem atendidos, apesar da obessão do sítio por kebabs.

Mas o ponto alto da vila é sem sombra de dúvida o Parque Biológico da Serra da Lousã e o Templo Ecuménico Universalista. Ambos valem a pena uma visita, e pode comprar-se um bilhete que inclua os dois.

Nós fomos visitar o Parque Biológico muito cedinho para fugir ao calor, e fomos recebidos pela Noz, a cadela serra da estrela que é a mascote do local. Muito meiguinha e brincalhona, andou connosco boa parte do percurso, até nos trocar por umas saudáveis corridas atrás de patos suficientemente ingénuos para se cruzarem no seu caminho. O facto de irmos cedo significou também que fomos antes da hora da alimentação, por isso quase todos os animais se aproximavam de nós para ver se já lhes trazíamos o mata-bicho. Uma maravilha.

O parque biológico está cheio de animais que são típicos do nosso país (ou foram em tempos, como o urso pardo, extinto há alguns séculos), o que torna a visita ainda mais especial. Para quem nunca viu um saca-rabos ao vivo, por exemplo, será com certeza uma experiência maravilhosa. Eu gostei muito e recomendo. Dá também para fazer várias actividades, vejam na página deles.

À tarde fomos visitar o templo ecuménico, que fica no alto dum monte, e se são daqueles que só não levam o carro para casa para dormir convosco, pensem duas vezes antes de ir, porque parte do caminho é em terra batida. Como o nosso boguinhas desde os 4 dias de vida que anda nestas andanças, já nem estranha, mas à saída demos um zig em vez dum zag, descemos pelo caminho errado e confesso que foi uma descida arrepiante. Mas valeu a pena. Não só as vistas lá de cima são maravilhosas, como a experiência da visita foi muito interessante. Suponho que seja diferente de pessoa para pessoa, por isso não vale a pena desvendar muito, mas só o local em si já fala muito ao coração.

Deixo algumas fotos como partilha, e recomendo uma visita a Miranda para visitar pelo menos estes dois sítios.

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Noz, a cadela do Parque Biológico da Serra da Lousã, que nos acompanhou parte do percurso. 
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Um gamo, à espera da hora da alimentação, que ainda não vinha connosco.
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Uma raposa já com qualquer coisa peluda na boca.
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O percurso dos 7 pecados que nos afastam do divino, à volta da pirâmide no Centro Ecuménico de Miranda. 
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Um cheirinho a Tailândia em Miranda. 

Planisfério Pessoal de Gonçalo Cadilhe

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Comprei este livro em 2017, na Festa do Livro de Belém e comecei logo a lê-lo. No entanto não passei dos primeiros capítulos e apesar de ter gostado muito, não andava com cabeça para viagens.

Este ano, num dia em que me refugiei numa fresca praia do Oeste para fugir à onda de calor resolvi levá-lo comigo e li-o quase todo duma vez.

Planisfério Pessoal é a compilação de crónicas que Gonçalo Cadilhe escreveu para o Expresso em 2002/4 durante a sua volta ao mundo por terra e por mar. A premissa era dar uma volta ao globo sem utilizar avião, ou utilizá-lo apenas quando esgotadas todas as outras possibilidades.

Este não é um livro de dicas de viagem, nem de melhores lugares para se visitar em cada país, ou melhores transportes para apanhar. Se o fosse, 15 anos depois estaria bastante desactualizado. Neste livro seguimos a jornada pessoal do autor, as partes boas e as partes más. As emoções vibrantes, os encontros felizes e as muitas horas de solidão e aborrecimento. Vemos que estas coisas às vezes são mais giras no papel, outras vezes são perigosas, outras vezes são deliciosas.

Pelo facto de já terem algum tempo podemos também ver como muita coisa mudou no nosso mundo. Sítios que o Gonçalo visitou sozinho em relativa tranquilidade, são hoje um amontoado de turistas. Países como a Colômbia são hoje muito mais seguros e visitáveis, outros como a Venezuela regrediram no tempo. Este livro é também um testemunho de mudança e daquilo que já não volta.

Gosto da maneira como o Gonçalo escreve. Os ingleses diriam que ele não põe sugar coat nas coisas, diz como elas são, para o bem e para o mal, sempre com uma boa dose de humor. Semelhante ao Bill Bryson, mas sem o seu excesso de sarcasmo que muitas vezes percorre a linha ténue da troça. Gonçalo Cadilhe nunca faz pouco dos seus interlocutores, mesmo quando nos mostra situações risiveis, e eu agradeço-lhe por isso. Talvez nisso transpareça a sua Portugalidade, afinal somos melhores a fazer pouco de nós que dos outros.

É um livro duma jornada feita por um ser humano, que também é jornalista e por isso muitas vezes se questiona sobre o que vê e faz opções de acordo com a sua consciência social e ambiental. Aconselho a todos os que gostam de saber mais sobre o mundo em que vivemos, e a sua evolução.

Goodreads Review

Boas leituras!

Sem Título

pedro tamen

o que me sobra: febra
ardendo em febre sobre a brasa,
estorricada sola que se quebra
se dente, qual um pé, nela se casa;

febra na brasa, sim, em fim de festa,
quando o lume se apaga, tosse e esfria,
em fim tão fim que não se leva desta
mais que fumo e odor ao que soía

ser do que eu fora uma solar comida,
e não febra da porca desta vida.

Pedro Tamen em Memória Indescritível, 2000

Livros que Recomendo – Harry Potter

harry potter

Pode parecer estranho à primeira vista vir aqui recomendar um livro infanto-juvenil, mas quem segue este espaço sabe que não é a primeira vez que o faço, uma vez que já falei de livros de banda desenhada e livros para esta faixa etária, como A Rapariga que Roubava Livros, por exemplo. Pode parecer ainda mais estranho recomendar um livro que já toda a gente que queria ler, leu, mas eu acho que este é um livro (ou série de livros) incontornável na minha história e no conhecimento de todos os bibliófilos.

A história é do mais simples que pode haver. Um órfão de pai e mãe é educado por uns tios que o desprezam e maltratam (vêem as semelhanças com tantas outras histórias do género?) mas consegue algum alívio quando descobre que vai passar todos os anos lectivos numa escola de magia onde goza de algum prestígio devido à sua ascendência, e onde é amado por uns e odiado por outros. Vai tornar-se um líder entre os seus pares, atravessar a adolescência superando grandes desafios e tornar-se um jovem adulto no meio de muitas aventuras e consolidando amizades que se transformam numa família alargada.

Até aqui isto é a sinopse de muitos e muitos livros infanto juvenis. Este tem a particularidade de se ter imerso no mundo da magia, ter mexido com o nosso imaginário criando feitiços e criaturas, reaproveitando outras e colocando isso tudo no cenário bem nosso conhecido e também por si só dado à fantasia, da velhinha Inglaterra.

Quando comecei a ler estes livros já era adulta (young adult, se quiserem), mas mesmo assim não fiquei imune ao charme da magia e da história simples mas bem contada, com a dose certa de aventura e personagens antagónicos, com heróis e vilões na medida certa. Estes livros têm também a virtude de me terem introduzido na leitura em inglês. Algures por altura do lançamento do quarto volume percebi que não ia aguentar esperar meses pela tradução, e se dava explicações de Inglês estava na altura de testá-lo na vida real. O meu primo, que era tão fã como eu, foi para a fila da Fnac no dia do lançamento e comprou um exemplar para mim. E a partir daí nunca mais parei. Todos os volumes seguintes li em inglês e daí a ler maioritariamente nessa língua no meu Kindle foi um passo muito pequeno, e as portas que isso me abriu foram inúmeras.

Estes livros são fáceis de ler, proporcionam horas de entretenimento e eu recomendaria a todos os que têm jovens que querem entusiasmar pela leitura, ou adultos que gostam de sonhar de vez em quando. Não são clássicos da literatura mundial, podem ver os filmes em vez de ler os livros, mas ficam mais mal servidos porque nada bate a nossa própria imaginação a funcionar.

Acredito que a grande maioria dos meus seguidores já tenham lido o Harry Potter, e os que não leram também não o vão fazer, mas mesmo assim deixo aqui a minha recomendação.

Boas Leituras!

O Elixir da Eterna Juventude

SG 02

Imaginem que aquelas músicas que vocês passaram a vida a cantarolar desde miúdos e que viram dezenas de vezes em concertos são agora transformadas num livro de banda desenhada. Foi o que aconteceu com este “Elixir da Eterna Juventude” de Fernando Dordio, que resolveu pegar no universo de Sérgio Godinho e transformá-lo numa aventura alucinada por páginas bem ilustradas.

É quase impossível não gostar dum livro que está tão imerso no nosso imaginário colectivo, a menos que sejam uma daquelas 15 pessoas em Portugal que não gostam do Sérgio. Mas se esse for o caso, aviso já que o Zeca faz uma aparição especial.

E, melhor que tudo, ainda temos direito à árvore dos patafúrdios, esse clássico de qualquer infância de todos os portugueses com mais de 30 anos. Um bocadinho mais, vá…

No entanto, nem tudo é perfeito neste livro, e para quem já leu as BD’s de Filipe Melo, por exemplo, vê que a cadência e coerência desta história ficam um bocadinho aquém. No entanto eu continuo a achar que vale a pena ler e tentar descobrir todas as referências musicais contidas nas suas páginas. Tenho de agradecer ao programa do Raminhos, Missão 100% Português, por me ter dado a conhecer este livro.

Recomendo a todos os amantes de BD e de boa música portuguesa!

Goodreads Review

Boas Leituras!

SG 01

Ágata

ines dias

Foi amor à primeira vista.
Ela tinha nome de pedra preciosa
e, na literalidade dos meus cinco anos,
cabelo em forma de pássaro – negro
asa de corvo.

Era o tempo em que ainda
aprendia com o corpo todo:
uma fractura exposta para entender
o significado da maioria, uma pneumonia
para descobrir a solidão.
Quando ela me cravou um lápis
sob o olho esquerdo, pressenti que a escrita,
grafite fria à flor do sangue,
deixaria marcas para sempre.

Nunca mais nos separámos.
Eu e as palavras,
a Ágata mudou de escola.

Inês Dias em Em Caso de Tempestade este Jardim Será Encerrado, 2011

Livros que Recomendo – A Troca

A-Troca

O livro que venho recomendar hoje foi um ícone dos meus anos 90, mas foi escrito em 1975 e a acção é passada na loucura dos anos 60. Foi o primeiro livro que li deste autor, David Lodge, de quem fui seguidora assídua ao longo de toda a década de noventa, e cujos livros ainda leio com prazer.

David Lodge é (era?) um professor universitário inglês de literatura e A Troca centra-se neste meio que ele conhece tão bem. Segue dois professores, um inglês dum meio académico fechado, antiquado e pequeno, e outro americano dum meio bastante maior e mais moderno, a viver em pleno a revolução de costumes dos anos sessenta. Estes dois personagens vão trocar de posto por um semestre, cada qual com as suas motivações, e as situações que daí se despoletam são cheias de humor e um sarcasmo muito característicos deste autor.

Porventura algo datado, já que desde os anos 70 o meio académico inglês evoluiu muito e está hoje a par com o americano, em termos de abertura de espírito, não pretendo discutir aqui méritos educativos que não é a minha área, este livro não deixa de nos divertir e ser uma crónica de costumes muito engraçada. É também uma porta aberta para outros títulos deste autor, nomeadamente os outros dois que finalizam a sua campus trilogy.

A acção passa-se nas cidades ficcionadas de Rummidge e Euphoria, que são baseadas em Birmigham e Berkeley, bastante conhecidas pela sua realidade universitária, e ainda hoje me lembro de algumas situações que me fizeram rir alto. David Lodge é exímio a caricaturar uma certa inadequação e inadaptação à vida real, com a qual muitas vezes nos identificamos.

Vale a pena ler nem que seja como documento dum tempo e dum lugar, e é entretenimento garantido. Haverá por certo por aí perdido em bibliotecas e alfarrabistas.

Boas Leituras!