Acabei de Ler – Midnight Library

midnight library

Keep scrolling if you prefer to read in English.

Se aos 35 anos ainda acordavam de noite a pensar em coisas que podiam ter mudado no secundário, então este é o livro para vocês. Claramente foi livro para mim, que me encontro nesta categoria.

Nora Seed tem 35 anos e decide morrer. Isto não é um spoiler, está bem visível desde as primeiras páginas do livro. Só que em vez de morrer, Nora fica presa num limbo, neste caso uma biblioteca, em que cada livro conta a história de como é a vida dela naquele momento se ela tivesse tomado decisões diferentes. E é-lhe dada a possibilidade de experimentar tudo aquilo que ela sempre achou que teria mudado a sua vida. A partir desta premissa vamos ver as diferentes vidas de Nora Seed, ao mesmo tempo que avaliamos o impacto de grandes e pequenas decisões.

A história é muito interessante e muito bem explorada. Claramente o autor percebe de ansiedade, depressão e outros males semelhantes que nos assolam neste mundo moderno. E apesar de abordar temas complicados o livro não é derrotista nem pesado de ler. Avança muito bem e ficamos colados às páginas a tentar perceber o que vai acontecer a seguir.

Lá para meio do livro eu já suspeitava como iria ser o final, e mais lá para a frente tinha medo que o final pudesse ser doutra maneira, que para mim não faria qualquer sentido. Afinal não foi muito diferente do que tinha imaginado, e pude sossegar o meu coração.

Aconselho a todos os que lamentam algumas decisões que tomaram na vida, aos que desejavam poder ter feito algumas coisas de modo diferente, aos que acham que outro caminho teria sido melhor. Talvez fiquem surpreendidos com este livro. A todos os outros aconselho na mesma, porque vale a pena conhecer outras visões do mundo.

Boas Leituras!

Goodreads Review

If by the time you were 35 you turned in bed at night thinking about things you could have done better back in high school, then this book is for you. It was a book for me, as I fit in this category like a glove.

Nora Seed is 35 years old when she decides to die. This is not a spoiler, it’s a fact presented to us since the beggining of the book. But instead of dying, Nora becomes stuck in a limbo, in this case a library, where every book is one of her lives, in which she has made different options, either big or small. From this we will be able to watch many of her different lives and the outcome of many different decisions.

This is a very interesting and well written story. Clearly Matt Haig is no stranger to the struggles of anxiety, depression and other mental health issues that are so common nowadays. And even though the book speaks about delicate issues, it is not a heavy read and is indeed a page turner. We are glued to the book trying to figure out what is happening next. 

By the middle of it I started suspecting how it would end, and a little later I started dreading that the end might be different than what I envisioned, as in my head ending differently would not make any sense. I was reassured to see that it was very similar to what I had imagined, and my heart could finally rest. 

I recommend it to everyone who has any regret in life, some decisions that could be changed and things done differently. Maybe this book will surprise you, or make you see things differently. To all the others I also recommend this book, as different perspectives are always enriching. 

Happy Reading!

Nomeados do International Booker Prize 2021

international booker 2021

Foi anunciado no passado dia 30 de Março os nomeados para o International Booker Prize, que premeia livros traduzidos para inglês e editados no Reino Unido ou na Irlanda. Os 13 nomeados deste ano são diversificados, de muitas nacionalidades e línguas diferentes, como se espera dum prémio cujo objectivo é divulgar literatura não anglófona. O prémio é partilhado pelo escritor e pelo tradutor. Deixo-vos abaixo a lista dos nomeados, com respectivo link para o Goodreads e uma brevíssima impressão minha.

  1. I Live in the Slums, de Can Xue. Traduzido do chinês por Karen Gernant e Chen Zeping (Yale University Press) – Livro de contos, tem potencial, mas tenho lido bastantes contos ultimamente.
  2. At Night All Blood is Black, de David Diop. Traduzido do francês Anna Mocschovakis (Pushkin Press) – Pode ser fabuloso ou aterrador, provavelmente uma mistura dos dois. A história pouco comum de soldados senegaleses na Primeira Guerra Mundial.
  3. The Pear Field, de Nana Ekvtimishvili. Traduzido do georgiano por Elizabeth Heighway (Peirene Press) – Uma história passada num orfanato da Georgia, parece ser uma história bonita e triste.
  4. The Dangers of Smoking in Bed, de Mariana Enríquez. Traduzido do espanhol por Megan McDowell (Granta Books) – Mais um livro de contos, mas com um título destes é impossível não ter vontade de ler. Ainda mais porque a autora é associada a Shirley Jackson e Jorge Luis Borges. Direitinha para a minha TBR list.
  5. When We Cease to Understand the World, de Benjamín Labatut. Traduzido do espanhol por Adrian Nathan West (Pushkin Press) – Uma espécie de livro de ficção científica sobre ciência, com excelentes críticas no Goodreads. Parece muito interessante, mas talvez necessite de mais cérebro que aquele que tenho disponível no momento.
  6. The Perfect Nine: The Epic Gikuyuand Mumbi, de Ngũgĩ wa Thiong’o. Traduzido da língua quicuio pelo próprio autor (VINTAGE, Harvill Secker) – Um épico em verso sobre um povo queniano. Não me parece o meu género de livro.
  7. The Employees, de Olga Ravn. Traduzido do dinamarquês por Martin Aitken (Lolli Editions) – Mais um de ficção cientifica sobre condições de trabalho numa sociedade dum futuro distante. Muito potencial aqui.
  8. Summer Brother, de Jaap Robben. Traduzido do holandês por David Doherty (World Editions) – Dois irmãos que vão passar o verão juntos, o mais velho com necessidades especiais, e que fica ao cuidado do mais novo. Não consigo ler nada sobre pessoas com necessidades especiais neste momento, mas parece um livro muito bonito.
  9. An Inventory of Losses, de Judith Schalansky. Traduzido do alemão por Jackie Smith (Quercus, MacLehose Press) – Em que serão relevantes para nós 12 tesouros que foram definitivamente perdidos para o mundo. É o que vamos descobrir neste livro.
  10. Minor Detail, de Adania Shibli. Traduzido do árabe por Elisabeth Jaquette (Fitzcarraldo Editions) – a visão palestiniana sobre os acontecimentos do verão de 1949, parece ser um livro muito interessante.
  11. In Memory of Memory, de Maria Stepanova. Traduzido do russo por Sasha Dugdale (Fitzcarraldo Editions) – Através das memórias duma família vamos meditar nas memórias dum povo e dum país, a Rússia. Parece um documento interessante, mas demasiado para mim.
  12. Wretchedness, de Andrzej Tichý. Traduzido do sueco por Nichola Smalley (And Other Stories) – Umas voltas no underground europeu, dadas por duas personagens de origens muito distintas. Uma espécie de fábula urbana que vai direitinha para a minha lista.
  13. The War of the Poor, de Éric Vuillard. Traduzido do francês por Mark Polizzotti (Pan Macmillan, Picador) – As injustiças sociais como base de lutas por melhores direitos, no Séx XVI tal como hoje.

Como sempre parece-me que temos aqui uma lista muito rica e muito diversa. Potencialmente poderia lê-los todos, pois todos me parecem interessantes na sua essência. Alguns, pela forma ou pelo conteúdo estão mais distantes daquilo a que me proponho (ou consigo) ler neste momento. Conhecem algum?

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Bad Behaviour

bad behavior

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Ainda recentemente aqui disse que queria ler este livro, e toca de lhe pegar logo a seguir. É um livro de contos passados em Nova Iorque no final dos anos 80, sobre pessoas com vidas que não se enquadram na normalidade, como geralmente eu costumo gostar. O pormenor desta vez é que comecei a lê-lo quase no início deste segundo confinamento, o que esmoreceu um bocadinho a minha capacidade literária. Sendo um livro de contos foi perfeito para esta altura, já que pelo menos conseguia ler um de cada vez e nunca perdia o fio à meada da história.

Em todos os contos há pessoas estranhas, desenquadradas, que lutam para ser felizes. Ou pelo menos para serem aceites e reconhecidas. As histórias são provocadoras e interessantes, com aquela aura de desespero que encontramos nos livros desta altura. Tem personagens que são bem sucedidas, outras que passam dificuldades, mas todas têm em comum a dificuldade em lidar com o mundo real.

Gostei da maioria das histórias, estavam bem escritas e prendiam a atenção. Houve duas coisas neste livro que não me permitiram disfrutá-lo mais. Primeira, a obsessão da autora com ombros que transmitem emoções. Pode ser dificuldade minha, admito, mas ombros envergonhados, subtis, alegres, etc, simplesmente são uma coisa que não consigo visualizar. E no momento em que nos apercebemos, já não conseguimos deixar de ver estas expressões em todo o lado.

A segunda coisa foi o único conto que eu conhecia, A Secretária, o tal que deu origem a um filme com o mesmo nome. O filme, mesmo com toda a sua estranheza, era leve e esperançoso, deixava-nos com um gostinho a final feliz e a boas possibilidades para a vida. O conto que lhe deu origem não é nada disso, é só desadequação e estranheza, e sentimentos de desespero, e isso desiludiu-me um bocadinho.

Um livro interessante, mas não fabuloso. Recomendo se gostarem de contos diferentes e estranhos, e se não forem com demasiadas expectativas.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Not long ago I mentioned here that I wished to read this book. Not long after I just had to do it. It is a book with short stories set in New York in the late 80’s, about weird people with weird lives, something I usually enjoy. I started reading it right before the second confinement and that has impacted the time it took for me to finish it. Luckily I could read one story at the time, and not loose track of any plot. 

In all the stories we find misfits, strange people that are trying to be happy, or at least to fit in. The stories are thought provoking and interesting, with that aura of desperation that we sometimes find in books from the 80’s. Some of the characters are sucessfull, some are looser, but they are all inadequate and struggle to adjust to the real world. 

I enjoyed the majority of the stories, they were well written and kept us hooked. However there were two things I just could not ignore. The first one was the author’s obsession with shoulders and the way they portrayed emotions. Weird, right? I for one have never seen timid shoulders, happy shoulders, shy ones, etc, and I cannot picture them in my mind. And once you notice this pattern, there’s no way you can unsee it. 

The second thing was The Secretary, the only story I’ve know previously. The movie, even tough it was different, had an upbeat vibe about it, and allowed us to dream of happy endings, of everyone finding a shoe that fits. In reality, the story was bleak and desperate, the main character was depressive, and just left me in a sad mood. 

Um livro interessante, mas não fabuloso. Recomendo se gostarem de contos diferentes e estranhos, e se não forem com demasiadas expectativas. 

It is an interesting book, but not a fabulous one. I recommend it if you like this kind of literature and if you are not deterred by emotional shoulders. 

Happy Reading!

Poema do Começo

Antonio Maria Lisboa

Eu num camelo a atravessar o deserto
com um ombro franjado de túmulos numa mão muito aberta

Eu num barco a remos a atravessar a janela
da pirâmide com um copo esguio e azul coberto de escamas

Eu na praia e um vento de agulhas
com um Cavalo-Triângulo enterrado na areia

Eu na noite com um objecto estranho na algibeira
-trago-te Brilhante-Estrela-Sem-Destino coberta de musgo

António Maria Lisboa

Estivemos de livros fechados

livro fechado

Li, desde o início de 2021, 5 livros e, como o Goodreads me relembra cruelmente, estou atrasada 4 livros se pretendo atingir o meu objectivo. Felizmente isso não me deixa nada stressada, e a realidade é que terminei o último livro que li em 9 de Fevereiro, há quase 2 meses. O livro nem foi nada de extraordinário, mas o seu final coincidiu com o início deste segundo confinamento e este ano simplesmente não consegui conjugar a leitura com isso.

Acho que o cansaço desta situação toda finalmente me atingiu, e foi muito difícil conjugar o trabalho dos dois com um bebé que nem dois anos tem ainda, e foi impossível pôr leituras à mistura. Felizmente as escolas reabriram, e lentamente o humor foi melhorando por estes lados. Principalmente do príncipe pequeno, que tem influência nos restantes.

Por isso os livros estiveram fechados quase dois meses por aqui. Não todos, porque os livros infantis foram lidos todos os dias, e mais recentemente começámos também com os livros de colorir, mas as coisas mais adultas estavam em banho maria.

A emissão retomará dentro de momentos, assim como novas e (espera-se) boas leituras.

Até lá, Boas Leituras!

Retrato de Uma Princesa Desconhecida

sophia melo breyner

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vê Se Há Mensagens

manuel antonio de pina

no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas,as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo,agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu,pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor,permite que algo permanença,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte,nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agoa o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.”

Manuel António de Pina

Roteiro de Lisboa

Maria Teresa Horta

Vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

É uma cidade
cercada colhida
é uma cidade
uma rapariga

Casas de ocultar
os homens lá dentro
mulheres que se mostram
envoltas no vento

Vejam meus senhores
é uma cidade
com seus monumentos
histórias de braçado

Histórias de braçado
que ensinam na escola
um castelo um rei
mais uma glória
vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

Lá em baixo o Tejo
que é nome do rio
a lamber as armas
com suas colunas

Com seus prédios velhos
um rio lá em baixo
a lamber as pedras
as pernas-guindastes

De onde o seus bateis
partiam diurnos
vejam meus senhores
é uma cidade
de mãos empurradas
no fundo sem idade
com suas crianças
homens dos olhos

De bruços o céu
com seus girassóis
Lisboa é cidade
com heróis de luto

Maria Teresa Horta

Estou cansado da inteligência

fernando-pessoa

Estou cansado da inteligência.

Pensar faz mal às emoções.

Uma grande reacção aparece.

Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo

Na casa antiga da quinta velha.

Pára. meu coração!

Sossega, minha esperança factícia!

Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui…

Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!

Meu horizonte de quintal e praia!

Meu fim antes do princípio!

Estou cansado da inteligência.

Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!

Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas

Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.

Álvaro de Campos