Eu, Assassino

Eu, Assassino

 

O Peixinho resolveu começar uma maratona de BD para finalmente ler alguns livros que já estão cá em casa há algum tempo à espera de atenção, e resolvi começar pelo mais negro de todos, Eu, Assassino, de Antonio Altarriba com desenhos de Keko.

Este livro segue um assassino em série que é simultaneamente um professor catedrático de história da arte numa universidade basca, em crise de meia idade.

O livro é muito violento e cru, as ilustrações em negro com pinceladas vermelhas ajudam a criar o ambiente opressivo que vai em crescendo até ao final. A história deste assassino nada mais é que um pano de fundo para nos fazer reflectir sobre alguns temas mais profundos, como a arte e tudo o que gira à sua volta, o mundo universitário com as suas bolsas e políticas associadas, as feridas que ficam num país que foi assolado por uma ditadura, uma guerra civil e atentados terroristas. Tudo isto faz com que a leitura deste livro se faça num ápice.

Fiquei com vontade de conhecer mais deste artista e recomendo a todos que gostem de novelas gráficas e não se impressionem facilmente.

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Na era da informação, existir implica gerar dados… A notoriedade cria-nos… Dir-se-ia que a privacidade, longe de reforçar a identidade, a bloqueia. Já não importa que nos conheçamos a nós próprios, mas sim que os outros nos conheçam… Quantos mais melhor, e não quanto mais melhor. Ser, depende do outro e só somos o que o outro quer que sejamos.

Paula Rego no Colombo

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Estávamos nós aqui por casa hoje um bocadinho sem ideias do que nos apetecia fazer, quando de repente me lembrei que tinha visto no Facebook duma amiga esta semana uma visita à exposição da Paula Rego que está no Colombo este Verão. Como o Colombo até é um pulinho da nossa casa, e o Peixinho Vermelho estava de olho noutras coisas que por lá se vendem achámos que podia ser um programa adequado, embora centros comerciais ao fim de semana não seja bem a nossa praia.

E em boa hora fomos, porque realmente a exposição está muito bem montada, com um stand todo em esferovite para isolar o ruído do centro comercial e fazer parecer que estamos num espaço à parte, e uma selecção de obras (são na realidade litografias, mas com muito bom aspecto) que nos conta uma história sobre “O Mundo Fantástico de Paula Rego”. De tal modo, que agora fiquei com vontade de ler Jane Eyre.

Está até 27 de Setembro e é grátis, por isso se passarem no Colombo não percam.

Paula Rego Colombo 02
Sala de Aula, Série Jane Eyre

 

Se calhar… rendo-me ao frio!

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Eu sei que aqui há uns tempos tinha dito aqui que não me conseguia entusiasmar com a série do Game of Thrones e que não entendia toda a comoção à volta do fenómeno. Verdade, continua a ser a realidade. Mas também é verdade que já perdi toda a esperança do George R. R. Martin alguma vez terminar a malfadada série A Song of Ice and Fire (não faço ideia de como traduziram isto) e gostava de saber como isto vai acabar. A somar a isso, tinha-me afeiçoado a Ragnar Lothbrok e aos outros Vikings, mas o AMC resolveu não continuar a passar a série, deixando-me orfã de aventuras televisivas e com necessidade de arranjar um substituto.

Posto isto, e já que a sétima temporada do GOT está quase a começar no SyFy, eu resolvi que se calhar é desta que tento. A pensar em pessoas como eu, eles decidiram fazer uma maratona de todas as temporadas, a começar já no dia 11. Muito apropriadamente, temporada 1 no dia 11, 2 no dia 12, e assim sucessivamente, até culminar com a estreia da sétima no dia 17. Para despassaradas como eu, não há melhor.

Ora, como não há cabeça que aguente tantas horas de televisão, espero que a minha box colabore comigo e aguente uma gravação tão intensiva, para eu depois ter tempo para calmamente ir vendo tudo durante o Verão. Sim, porque o Inverno já é suficientemente deprimente por si só, sem adicionarmos ainda mais frio. Se a box se recusar, it was not meant to be.

Relações Inacabadas

Quando era miúda lia vorazmente tudo aquilo a que deitava a mão. Quando ia um mês de férias para a terra, metade da bagagem eram livros que esgotava na primeira quinzena, e depois ficava reduzida a reler Selecções do Readers Digest dos anos 70 (que o meu pai assinava), livros do Harlequim da minha tia-avó (Bianca, Sabrina, que é feito de vocês?), ou a TV Guia que chegava às quintas feiras. Tempos duros.

Nesse tempo todos os livros eram para ser lidos até ao fim, e os melhores relidos incessantemente, até se decorar as partes favoritas. Na nossa visão de crianças somos imortais, com todo o tempo do mundo pela frente para ler todos os livros que existem.

Conforme fui crescendo e apareceu a faculdade, não só o horizonte de livros para ler aumentou exponencialmente com a exposição a pessoas novas de contextos diferentes, como o tempo diminuiu, porque pela primeira vez na vida tive que começar a estudar. Isso obrigou-me a fazer escolhas, decidir estilos que me agradavam mais, autores que se tornavam favoritos. Mas ainda assim não se deixa nunca um livro a meio, é quase um tabu que raramente é quebrado (excepção para o Memorial do Convento, que até hoje não consegui acabar).

Com o Kindle, nos dias de hoje em que já estou nos quarenta (inhos, mas mesmo assim) já percebi que há mais livros interessantes do que terei anos de vida para os ler, e todos os anos novos livros bons saem no mercado. A paciência também já não é a mesma e já não faço fretes. E sinceramente, se não me está a prender o interesse, se  recorrentemente quando tenho um momento livre prefiro ir ver o Facebook do que ir ler aquele livro, se calhar está na altura de seguir para o próximo, sem ressentimentos, amigos como dantes.

Por isso, meu caro Mário de Carvalho, és um dos meus autores portugueses favoritos,  adorei o Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre O Assunto (ainda hoje um dos meus livros portugueses favoritos), mas a minha relação com O Livro Grande de Tebas Navio e Mariana ao fim de 45 páginas vai ter de ficar por aqui.

Mario de Carvalho

Sunsets no CCB

Sunset CCB

Começou este fim-de-semana no CCB uma das propostas de animação de Verão que nós mais gostamos cá em casa. Os concertos de fim de tarde no Jardim das Oliveiras, sentados na relva, a ver o pôr-do-sol, enquanto ouvimos um jazz ou uma música do mundo a embalar-nos para o começo da noite.

O ano passado acabámos por ir duas vezes, e adorámos as duas. Um ambiente tranquilo e intimista, proximidade com os artistas, nada de enchentes, passam-se uns momentos relaxados que nos descontraem da loucura da semana.

Podem ver a programação aqui, há muita coisa boa por onde escolher.

A Amante Holandesa

A Amante Holandesa

Acabei de ler A Amante Holandesa do Rentes de Carvalho e ainda tenho um sabor amargo na boca. Este é um autor transmontano, relativamente desconhecido em Portugal, em parte porque abandonou cedo o nosso país, desencantado, em busca da liberdade que não encontrava cá. Acabou por se fixar na Holanda, tem desenvolvido a sua carreira literária a partir de lá, e não tem penetrado muito o nosso minúsculo mercado, saturado que está dos suspeitos do costume. No entanto, tem uma escrita forte, honesta, e ao mesmo tempo quase poética.

Chegou cá a casa pelo livro “O Meças” que ganhamos num passatempo da Time Out e ficamos apaixonados. De tal maneira que o Peixinho Vermelho não perdeu a oportunidade de comprar este.

Tal como O Meças, também este se passa na zona de Bragança, no interior profundo, e o autor não nos trata com paninhos quentes, não romantiza o que é viver num meio rural isolado, pobre e atrasado. Para mim, que estou profundamente cansada da cidade e sonho um dia estabelecer-me no campo, penso os seus livros como um alerta para uma possível realidade.

Tendo passado grandes temporadas numa aldeia minúscula desde miúda sei em primeira mão o poder do mexerico, da pressão social, das verdades instituídas. Mas este livro vai muito mais além e a aldeia é apenas o pano de fundo para a busca que um homem faz sobre o sentido da sua vida. O desespero de quem sente que viveu para as aparências, para as convenções sociais, nunca teve ambição porque nem teve espaço para isso. E chegando à meia idade sente também que chegou a um beco sem saída, preso numa vida sem sentido, onde as fantasias são o seu único escape, e as teias em que se vê enredado formam já um labirinto donde é difícil escapar.

Este livro questiona também quem somos na realidade, e se o modo como vivemos a nossa vida é honesto, ou se pudéssemos viver escondidos de todos seríamos mais fieis a nós próprios e aos nossos instintos. Na realidade, apesar de ter uma escrita muito poética como já disse acima, Rentes de Carvalho consegue ser por vezes brutal, e fez-me voltar atrás muitas vezes para reler várias passagens e ver se estava a entender todos os significados escondidos.

Eu costumo dizer de alguns livros que não são para todos (not for the faint of heart, como dizem os ingleses), mas a crueza serrana deste autor não será certamente do agrado de todos os públicos. Depois de ler o livro fica um sabor amargo, mas fica também um sentimento de reconhecimento, como se aquele narrador pudéssemos ser nós, as suas questões existenciais fossem semelhantes às nossas, os pensamentos em loop que só abrandam quando ele afadiga o corpo em longos passeios na serra não difere assim tanto de algumas pessoas que vemos no ginásio.

Os temas, como disse, não são para todos, mas as angústias são universais. Da minha parte, depois de digerir este, estarei já a pensar onde estará o próximo.

A Amante Holandesa_quote

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O Primeiro Maigret

Pietr the Latvian

Aqui há bem pouco tempo o Netgalley deu-me a oportunidade de conhecer o Inspetor Maigret e o seu autor, Georges Simenon. Como gostei tanto, aproveitei as férias para ler aquela que foi a sua primeira história, porque nada como começar pelo início para perceber bem a evolução duma personagem.

Maigret é radicalmente diferente do meu outro inspetor de estimação, o Poirot. Para começar, interessa-se muito mais pelo método científico, as provas, é um homem de acção, de fazer, mais do que ficar parado a pensar. No entanto, tal como o nosso amigo belga, é um profundo conhecedor da natureza humana e do que motiva as pessoas.

O facto de toda a acção se passar em Paris torna o livro muito refrescante, pois é uma quebra com a realidade anglo-saxonica que nos é constantemente apresentada.

O facto de ter sido escrito em 1929 torna este livro muito livre, sem a ditadura do politicamente correto que nos escraviza hoje em dia, por isso podemos encontrar coisas escritas que seriam impensáveis nos dias de hoje.

Aconselho a todos os amantes de policiais, e boas histórias, bem escritas.

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Férias no Sapal

Preparo este post nas notas do telemóvel à beira da piscina no meio do sapal de Castro Marim. Apesar de ter a aplicação do blog, ainda não me entendo a fazer os posts por lá, nem tive paciência para me dedicar a estudar como é que se faz.  Enquanto escrevo, temo pela saúde do telemóvel por causa de dois miúdos com verdadeiras metralhadoras de água que encetam uma guerra sem quartel à volta da piscina, com um intrincado conjunto de regras que faria inveja a um verdadeiro estratega militar. É refrescante ver miúdos que ainda sabem brincar sem ecrãs, mesmo enquanto eu temo pelo meu.

Vim passar uma semana a Castro Marim, no espírito vá para fora cá dentro que pauta este ano. Trouxe tudo o que preciso. Muitos livros novos no Kindle, dos quais vou ler apenas uma fração, revistas para a praia, que sou demasiado picuinhas para sujeitar o meu Kindle a tão altas temperaturas e perigo de roubos, muito protetor solar e, acima de tudo, muito stress acumulado para deixar na água do mar.

O sítio que descobrimos, o Sobral de Baixo, é uma quinta perdida no meio do sapal, com pequenos apartamentos acolhedores e uma piscina onde apetece estar. Está suficientemente isolado para só se ouvirem os passarinhos, mas perto para só demorarmos 5 minutoss para a praia ou restaurante mais próximos. Ideal para o tipo de férias que gostamos.

Os dias são passados entre caminhadas na praia, a tentar retomar alguma da forma física que o problema de costas me tem retirado. 7 a 8 kms por dia, devagarinho na areia rija. Depois muitos banhos de mar, que lavam a alma e levam consigo más energias e maus pensamentos. As tardes, como esta em que vos escrevo, à beira da piscina, a ver as andorinhas beber água e a ouvir pouco mais que os pássaros. Pelo meio tudo o que apeteça, entre gelados e peixe grelhado e muitos livros.

Quando finalmente puser este texto no blog, já estarei a trabalhar, e este vento que toca nas árvores não é mais que uma recordação, ou talvez nem isso, engolido pelo peso dos dias.

Mas enquanto isso não acontece, vou até ali dar umas braçadas, para aproveitar as tréguas na guerra sem quartel que se desenrola à minha volta.

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Caminhadas na praia
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Tardes de piscina
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Muita leitura
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Passeios no pomar, no meio do sapal
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Praia ao amanhecer
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Praia ao anoitecer
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Próxima paragem: Alentejo!

Para Isabel

Isabel

Acabei há pouco tempo de ler o livro de António Tabucchi, For Isabel, a mandala. Apesar de ser um autor bastante conhecido em Portugal, principalmente por causa de Afirma, Pereira, eu nunca tinha lido nada dele e não sabia o que esperar, para além dum livro dum autor estrangeiro passado no nosso país, que foi publicado após a sua morte.

Nesse sentido não sei sequer se o título que o Netgalley me proporcionou (mais uma vez esta fonte na origem de tantas alegrias) é ou não um típico livro deste autor, mas isso apenas me deixa com o”problema” acrescido de ter de ler outras obras para criar uma base comparativa. Parece-me um bom problema para se ter.

Este livro é tal e qual o que o nome indica, uma mandala. Isabel é uma mulher misteriosa que desapareceu antes do 25 de Abril e que o narrador procura incessantemente em círculos concêntricos, dentro e fora do seu pensamento. Não sabemos bem quem é Isabel, muito menos quem a procura, mas de algum modo isso não é relevante para a história, tanto quanto os círculos que vão sendo feitos na descoberta e que vão revelando um pouco dum país poético à beira da revolução, e a busca de alguém que perdemos e que está escondido no seu nada, que um dia se cruzará com o nosso.

Para quem for fã de histórias lineares em que tudo faça extremo sentido, este não é o livro certo. Mas para quem goste de ser conduzido por um certo realismo místico, lírico, esta pequena obra será uma companhia deliciosa.

Para mim, o único ponto fraco foi a sua tradução para inglês. Se encontrasse versão em português, leria de novo, porque é dos raros casos em que acho que a tradução era tosca. E nem me refiro ao triste bacallá, que demorei uns minutos a perceber que era o nosso fiel amigo.

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