O Bazar

couto

Mergulho-me na vida, na voz deste bazar,
Com lojas, tendas, vendedores de rua:
É um rio de rumor e cor, tentacular,
Que flui, reflui e, de repente, estua.

Afoga-me o fascínio da faiança, do jade,
Dos electrônicos subtis, sofisticados,
Dos adivinhos da felicidade
Com óculos severos de letrados.

Aqui, na margem de um afluente,
Junto de velhos móveis, de ferragens, de moedas,
De um deus irado, de outro sorridente,
Ambos sujos de pó, nuns farrapos de sedas.

De um disco fatigado de rock, da legenda
Que eu não decifro, com provérbios chins,
Senta-se atento à mão que, ávida, se estenda,
homem dos tintins.

(Viu ele um português, pertinaz e sem pressa,
De olhar estranho, magro, a longa barba preta,
Descobrir, entre o inútil, o valor de uma peça,
Com ciência de sábio e arte de poeta ?)

Além, fumega e aromatiza o gosto
A tenda dos petiscos. Tentação!
Como tudo apetece, quando exposto!
Mas, comê-lo… Não sei se sim se não.

Mais além, Hóng-Kông, no templo do Bazar,
Um bom mercado ao mercador promete
Se ele, submisso, lhe vem pôr no altar
A tangerina, a flor, e lhe acende um pivete.

Entro no Loc-Koc, “casa de tomar chá”.
No alvor das madrugadas,
É uma gaiola imensa, durante o iam-chá
Sorvido entre gorgeios e asas excitadas.

Lá fora, o riquexó, hoje triciclo, rasa
A multidão: persegue uma nesga de espaço,
Levando a rapariga a caminho de casa,
Com os sacos das compras no regaço.

E, ao ritmo da rua e da emoção,
Os meus olhos descobrem, deslumbrados,
Navegando ao pulsar do coração,
Um navio vermelho de caracteres doirados!

António Manuel Couto Viana

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La Colomba Ferita

ines dias

A António Barahona

Quando me cansar de voar ou
a ferida estiver finalmente visível,
promete-me que a faca
será afiada e silenciosa.
Que eu não a veja chegar,
como se não tivesse passado
uma vida a pressenti-la nas dobras
do lençol, mortalha de tantas noites.
E antes, dá-me de beber
entre as mãos, conta-me
de céus azuis, sem garras
e sem abismos. Espera que
o meu coração de novo pequenino
se aninhe no calor das tuas veias
e se torne apenas a memória de
um sobressalto contra a tua pele.
Por este livro, por este poema, regresso a Campolide.

Inês Dias

Livros que Recomendo – Salamão e Mortadela

salamao

Ora quem segue o Peixinho sabe da minha predilecção por BD, especialmente aquela que é mesmo uma arte, como Neil Gaiman ou Miguelanxo Prado. Mas às vezes também sabe bem ler daquela BD que não tem mais intuito nenhum a não ser fazer-nos dar umas gargalhadas, e muitas vezes por coisas bastante parvas.

É o caso destes livros do Salamão e Mortadela que li algures no final da minha adolescência e muito me divertiram. O humor não é fino e refinado, e o traço não é absolutamente belo, como tantas coisas que tenho partilhado aqui, mas é entretenimento para toda a família, e sobretudo ideal para alturas, como aquela em que me encontro, que o cérebro não consegue absorver informação muito complexa.

Salamão e Mortadela são agentes da TIA, mas não são uns agentes quaisquer. Salamão é profundamente azarado, e Mortadela tenta sempre resolver tudo com um disfarce inútil, que só ajuda à confusão. São também ajudados por uma fiel secretária, um inventor duvidoso, e claro, têm um chefe irascível e pouco eficaz. Clara paródia aos mistérios do James Bond e às agências secretas como a CIA. O seu autor é um espanhol Francisco Ibañez e a primeira publicação em Espanha já data de 1958.

Sei que se fez um filme recentemente, mas sinceramente não vi e não creio que seja uma obra prima. Os livros também já devem andar esgotados nas livrarias, mas ainda anda muita coisa nos OLX da vida, caso estejam mesmo interessados.

Recomendo a todos os que gostam de divertimento sem compromissos, humor com um toque ibérico e BD em geral.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – A Sangue Frio

in cold blood

Estava outro dia a passar a ferro e a fazer zapping para encontrar alguma coisa digna de se ver na TV, coisa nem sempre fácil nos dias de hoje, quando me cruzei com um filme que já tinha visto e que gostei bastante, Capote, com o fenomenal Philip Seymour Hoffman. Ora, isso levou-me a pensar no livro a que o filme se refere, que já li há alguns anos e que achei bastante bom.

A Sangue Frio (In Cold Blood), foi o livro que Truman Capote se propôs escrever na sequência duma investigação para o New Yorker acerca do homicídio duma familia inteira na sua própria casa, aparentemente sem nenhum motivo conhecido.

No filme seguimos toda a sequência de investigação de Capote, o modo como foi ficando cada vez mais envolvido com os assassinos na tentativa de entender o que se teria passado nas suas cabeças naquela noite em 1959.

No livro, uma espécie de romance real, seguimos todos os personagens desse dia, e Capote quase que faz uma análise psicológica de todos os intervenientes em vez de se limitar a contar factos friamente. Acho que é isso que torna este livro tão rico, muito mais que um relato desapaixonado dum evento macabro, e terá sido esse envolvimento do escritor que o levou a entrar numa espiral depressiva e de abuso de alcóol que eventualmente levou à sua morte.

É um livro interessantíssimo que nos mostra sem pudores a natureza humana, ou pelo menos a sua faceta mais negra. Recomendo a todos os que não se impressionam facilmente e que são fascinados por livros envolventes e bem escritos.

Boas Leituras!

Colecção Livros B Renascida

livros b

Lembro-me de ser mais miúda e ainda não ter o gosto literário muito amadurecido, e virem-me parar às mãos uns livros de capa preta e letras prateadas com toques de fantástico pelo meio. Um dos volumes que tive foi um de contos de Arthur Conan Doyle, aos quais não dei o devido valor e acabei por perder esses livros na espuma dos dias.

Agora, que já leio coisas diferentes e mais abrangentes, tenho pena de já não os ter para lhes dar uma nova oportunidade. Estes livros eram editados pela entretanto desaparecida Editorial Estampa, e foram no total 55 volumes, editados entre 1970 e 1991.

Ora aparentemente não sou a única a ter saudades desta colecção, porque a E-primatur, editora já nossa conhecida por ter reeditado o livro de Vilhena em edição fac-simile, resolveu retomar a colecção e continuá-la.

Assim, já saiu o volume 56 (na foto), e há pelo menos mais 3 na calha, de nomes que vão de Dumas a Chesterton. Deixo-vos aqui um artigo que fala sobre isso, e não se esqueçam de visitar a página da editora, onde se perfilam os novos projectos que eles planeiam desenvolver e onde temos a oportunidade de praticar mecenato.

Boas Leituras!

Bar dos 4 Gémeos

rui caeiro

Para o Manuel de Freitas

E se por acaso quiseres beber, tens
não direi toda a terra pois tudo
aquilo que nela há é escasso
mas uma estreita faixa em forma
de rectângulo ou em forma de país
e lá dentro à beira mar uma cidade
grande bonita e feia que é até
a capital e lá um largo – Praça do Rossio,
assim chamada – e lá um bar
(ah, finalmente) mas um bar
a céu aberto, sem balcão de zinco
e sem barman, sem tamboretes
nem cadeiras e também sem copos
nem garrafas, mas bar à mesma
– dos 4 gémeos, assim chamado –
situado cerca do meio da praça
e se por acaso tiveres mesmo sede
abeira-te deles (isto é, dos 4 gémeos
em bronze), põe a cabeça a jeito
aproxima a boca e bebe, consoante
a sede que for a tua, e bebe – água,
que é o que há lá para se beber.

Rui Caeiro in Revista Criatura 5

Livros que Recomendo – A Varanda do Frangipani

Mia Couto

A semana passada recomendei aqui um livro de realismo mágico sul-americano, e esta semana, para não fugir muito ao tema, venho recomendar um outro livro de realismo mágico, mas desta vez africano. A literatura africana tem alguns autores com uma voz muito peculiar, e Mia Couto é um desses casos. Este foi o primeiro livro que li deste escritor, já lá vão mais de 20 anos, e fiquei rendida.

É quase poética a maneira como Mia Couto nos conta a história de Ermelindo Mucamga, um fantasma preso nas raízes dum frangipani numa fortaleza do tempo colonial. Através dos seus olhos vamos poder observar Moçambique e as suas adaptações à realidade da independência, vamos poder estar imersos na cultura e nas dificuldades dum povo que luta para se afirmar, e vamos poder também assistir a uma resolução utópica para esta nova fase histórica.

Este é talvez o melhor livro do autor, que é também biólogo de formação, e talvez por isso entrem pangolins e frangipanis na sua escrita, símbolos da riqueza ecológica de Moçambique. Este é um livro muito poético, muito pertinente, e que é um prazer de ler.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história, salpicada de elementos fantásticos, mas que nos retratam realidades muito concretas.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Intimate Ties

intimate ties

Keep scrolling if you prefer to read in English

Robert Musil é um autor que eu desconhecia, mas que resolvi ler tendo em conta a descrição do livro no Netgalley. Entretanto investiguei um bocadinho e percebi que Musil era um escritor austríaco do início do século XX, um dos principais do movimento modernista, e que o seu livro mais importante foi o inacabado “Homem sem Qualidades”.

Estas duas novelas que compõem este livro, Intimate Ties, são uma espécie de treino do autor para aprimorar a sua escrita, uma primeira incursão neste estilo, e o próprio Musil as considerava uma experiência falhada.

Qual então o interesse em ler um livro que é um fracasso à partida? Boa pergunta. Eu só posso falar da minha experiência, que considerei muito enriquecedora. Este livro tem um estilo de escrita muito diferente. Quase faz lembrar o “On The Road” de jack Kerouac, escrito muitos anos depois, no sentido em que parece um desfilar de pensamentos do autor sem edição, quase em escrita automático. Isso teve tanto de desafiante e confuso, como de interessante. Depois, as duas novelas são escritas no ponto de vista feminino, e é como se estivéssemos dentro da cabeça daquelas duas mulheres, a assistir em directo às suas dúvidas, hesitações, convoluções intelectuais. No primeiro conto temos uma mulher casada e feliz, que ao fazer uma viagem sozinha para visitar a filha do primeiro casamento no colégio se vê de algum modo transportada à vida mais livre que viveu antes do casamento, e acaba por cair nos braços dum pedante provinciano mais para provar um ponto a si mesma, do que por verdadeiro interesse. Achei este conto muito interessante, e a corrente dos pensamentos da personagem muito bem escrito.

No segundo conto temos uma mulher indecisa entre dois pretendentes, totalmente diferentes. Este conto foi para mim mais enigmático e difícil de seguir, e não tão interessante como o primeiro.

Mas no geral, foi uma experiência literária interessante, e mais um autor que surgiu na minha lista de leituras futuras.

Boas Leituras!

Goodreads Review

I didn’t know any of Robert Musil’s writings, however I read the book description on Netgalley and decided it was a good book to request. In the meantime I researched the author a bit ans found out that is was a modernist Austrian writer from the early XX century and his most important book was “A Man Without Qualities”.

The two novellas that make this book were a practice before he dove in the modernist style in more depth, and Musil himself considered them a failure.

So, what’s the point in reading a book that the author himself deems a failure? That’s a good point. I can only speak from my experience, and I can assure you I found it very interesting, as the book as an unique writing style. It somehow resembles Jack Kerouac’s “On The Road”, in the sense that it seems written in a spur of a moment, with little to no editing. Just a train of thoughts written in auto pilot. That was  as challenging and confusing, as it was rewarding.

The two novellas are written in the female view point, as if we were inside those women’s minds, inside a live broadcast of their thoughts and emotions. The first one was a happily marries woman, that embarks on a train ride to the country to visit her daughter from a previous marriage. There, she finds herself snow trapped, and starts to recall how was life before marriage, how she was free and experimented everything, and she ends up allowing herself to fall for the sweet talk of a pedantic man of the small village. There are many interesting scenes in this novella, and it makes you think.

The second novella we have a woman that cannot decide between two suitors, and this one was more difficult to follow and a bit less interesting than the first one.

But it was a great experience, that added another author to my list of future readings, and I recommend it to all the curious people out there.

Happy Readings!