Livros que Recomendo – Jonathan Strange & Mr. Norrel

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Quem segue o Peixinho sabe do meu amor por fantasia, ficção cientifica, ficção especulativa e tudo o que nos leve para fora da nossa realidade por vezes limitada e aborrecida. Por isso teria de inevitavelmente vir recomendar um livro que obedecesse a essa temática, mais cedo ou mais tarde, e resolvi acabar as recomendações de 2017 com um toque de magia.

Este não foi um livro da minha infância ou adolescência, como alguns dos que já recomendei aqui, na realidade já o li no Kindle. Foi publicado em 2006 e durante muitos anos vi a sua capa nas prateleiras das livrarias e olhei para ele com algum desdém. Acho que a capa das edições portuguesas me remetia para o que eu designo na minha cabeça como “literatura de gaja” e eu sou um bocadinho (pouco…) preconceituosa em relação a esse “género literário”.

No entanto, depois de aderir ao Goodreads, ele foi-me sistematicamente sendo recomendado e eu finalmente dei-me ao trabalho de ler a sinopse e percebi que se calhar até ia gostar. Não estava enganada e passei a dar mais atenção às recomendações feitas pelo Goodreads.

Jonathan Strange e Mr. Norrel é uma história passada em Inglaterra na era vitoriana e que tem como pano de fundo a magia numa altura em que ela já está em declínio no mundo. Na realidade, longe dos esplendores de outrora, os mágicos limitam-se apenas a escrever longos tratados e a fazer maçadoras reuniões entre si onde discutem regras e limitações. Mr. Norrel vive bem nesse ambiente e é um seu grande defensor. Entretanto surge sangue novo, Jonathan Strange, um mágico com sangue na guelra, que quer deixar marca no mundo e voltar à antiga influência que os mágicos tinham nos destinos da nação. E de certo modo consegue fazê-lo, mesmo que por tempo limitado.

Durante 800 páginas Susanna Clarke leva-nos pela história do século XIX mas com uma pitada extra de excitação e de deslumbramento. Para mim, este livro teve o bónus extra de parte dele ser passado a acompanhar o exército de Wellington aquando das suas incursões pelas Linhas de Torres, em defesa dos portugueses contra as invasões napoleónicas, com um twist diferente.

É uma história muito elaborada, mas fácil de seguir. A autora recheou o livro de pormenores deliciosos, como notas de rodapé para dar credibilidade história a factos puramente inventados, e eu recomendo vivamente a todos os que gostam de se deixar encantar por um mundo maravilhoso de magia.

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Projectos para 2018

New Year

Tal como no ano passado, depois de fazer o balanço está na altura de pensar em projectos. O que é que eu espero deste ano que se avizinha, para além do que é espectável, saúde, paz e amor? Vejamos, por pontos, que o Peixinho é amigo de listas.

– Regressar às viagens. Um ano de descanso foi o suficiente para pôr o Peixinho de novo com vontade de aventura e à procura do novo destino. Vontade há muita e há um destino em particular que me anda a falar ao ouvido, mas tenho de ver para onde o vento sopra em 2018, porque algumas surpresas podem estar detrás da porta. A ver.

– Não vale a pena fazer por menos, e lá vão os 50 livros do costume como objectivo do Goodreads. Se for mais é lucro, se for menos ninguém morre por isso.

– Continuar a minha utilização frequente do Netgalley e manter a percentagem  de feedback a 80%. Neste momento está a 85%.

– Poesia, poesia e mais poesia, no blog como na vida!

– O Peixinho está cheio de histórias cá dentro que querem ver a luz do dia. Será este ano?

E pronto, estes são os meus objectivos literários e bloguisticos para 2018 que se vão juntar aos pessoais no brinde das 12 badaladas.

FELIZ 2018!!

O Elogio da Mentira

Patricia Melo

Algures no início do ano conheci Patrícia Melo através do seu livro Inferno, de que falei aqui, e fiquei bastante impressionada. Aliás, ficámos os dois cá em casa, o que levou a cara-metade a comprar outro exemplar dela para prosseguirmos leitura.

Infelizmente, este Elogio da Mentira não é tão interessante. A premissa está engraçada, um escritor de romances policiais de cordel que se envolve com uma bióloga especialista em ofídios (cobras e afins) e tentam planear o crime perfeito para se verem livres do marido dela. No entanto a história por vezes perde-se em demasiadas voltas e torna-se um pouco maçadora.

O ponto alto é o sentido de humor de Patrícia Melo, e o sarcasmo com que analisa a nossa sociedade actual, neste caso a brasileira. Há personagens verdadeiramente deliciosas, como a mãe do protagonista que entra numa luta de megafones com os vendedores ambulantes e acaba por conseguir expulsá-los da rua, ou os escritores de livros de auto-ajuda e seus clichés, que me fizeram sorrir nas minhas viagens de autocarro. No entanto está longe do brilhantismo e do ritmo frenético que nos brindou com o livro que eu li no inicio deste ano.

Com O Elogio da Mentira cheguei à minha meta de 50 livros no Goodreads, mesmo na reta final do ano, por isso venham mais 50 para o ano.

Goodreads Review

Os livros de 2017 no Goodreads

Boas Leituras!

A Gata Terminada

Colette

 

A Gata é um livro pequeno que eu adquiri recentemente e que nos descreve um momento que se passa durante poucos meses na vida de um casal recém-casado, mas que descreve com força e intensidade uma grande variedade de sentimentos humanos.

O primeiro que salta imediatamente à vista é o amor pelos animais, na pele do nosso protagonista Alain, que tem uma gata, Saha, pela qual tem um profundo amor e admiração pelos seus modos felinos. É mesmo um conhecedor de comportamento animal e predatório, e isso vai ser fundamental no desenrolar da história.

Outro que também é óbvio é o ciúme, neste caso o ciúme que Camila sente daquela que considera ser a sua rival, a gata que disputa o lugar no coração do seu marido.

Mas mais dissimuladamente encontramos outros sentimentos, uma incapacidade de crescer e entrar no mundo adulto, o olhar de cima pessoas que são de estratos sociais inferiores, o casar por convenção social com quem nos é vantajoso social e comercialmente, mas sem estar preparado ou sequer interessado.

Apesar de Alain ser retratado como o personagem com o enorme amor ao animal, gerou em mim um desprezo profundo pela sua indolência e espírito de menino mimado. Acho mesmo que esta foi uma das melhores características deste livro, ser tão bem escrito e tão envolvente apesar de nenhuma das personagens despertar simpatia.

Mas na realidade não é bem assim, porque Colette foi mestra em descrever a sensualidade felina de Saha, as suas deambulações, movimentações e comunicação em geral estavam tão bem descritas que ela foi sem sombra de dúvida a minha personagem favorita.

Recomendo a todos os que gostam de livros de época, de imaginário francês, de sensualidade.

Goodreads Review

Gata

Natal Africano

Cabral_Nascimento

Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convendonal,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz… Mas é Natal.

Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.

Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.

Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.

Cabral do Nascimento, in ‘Cancioneiro’

Livros que Recomendo – Persepolis

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Nas passadas semanas tenho vindo aqui recomendar livros que me marcaram ou que acho importantes de algum modo. Até agora (e já passaram 5 títulos) ainda não tinha entrado no território das novelas gráficas, ou banda desenhada como são mais conhecidas, mas já não era sem tempo. Muita gente pode pensar que apenas se falam de heróis da Marvel, histórias fantásticas e sobrenaturais, ou coisas da Disney e afins. No entanto as novelas gráficas são um meio como outro qualquer para se falar de coisas muito sérias, e por vezes produzem-se livros com uma qualidade fenomenal, como este que vos apresento hoje.

Persepolis veio até mim primeiro na versão filme (animado também, pois claro), mas assim que tive a oportunidade (graças à biblioteca que gentilmente a minha empresa disponibiliza) agarrei a versão livro e fiquei deslumbrada. Esta é uma auto biografia da autora que cresceu no Irão na altura em que este se transformava politica e religiosamente, e que mais tarde veio para a Europa terminar os seus estudos. Mostra-nos a dificuldade de crescer num sítio onde a realidade dentro de portas contrasta largamente com a que se tem na rua, como é ter-se uma opinião num sítio onde isso é potencialmente perigoso, mas que nunca deixa de lado o bom humor.

Todo o livro (e o filme) é a preto e branco, com um traço forte, mediterrânico, e foi daqueles livros que eu li, partilhei e tenho vindo a aconselhar a plenos pulmões desde que me cruzei com ele. Recomendo a todas as pessoas, de todas as idades, pois é uma maneira muito oportuna de descobrirmos um pouco da história duma zona do mundo que por vezes nos é tão desconhecida. Deixo-vos algumas vinhetas, muito exemplificativas.

Persepolis 1

Persepolis 2

Balanço de 2017

Balance
Imagem daqui

Tal como no ano passado, em chegando o final do ano gosto de fazer uma retrospectiva e perceber o que fiz e o que deixei por fazer. No final de 2016 tinha deixado um post com uma série de intenções para 2017, e posso começar por os rever.

– Um ano de descanso das viagens, já que 2016 tinha sido tão intenso. Como puderam ver aqui pelo blog, isso foi um objectivo mais que cumprido, já que andei alegremente a passear dentro de portas, a conhecer locais novos como Mértola e Aljezur onde ainda não tinha ido. Infelizmente era para ter ido também a Montesinho em Abril, mas as minhas costas não me deixaram ir a lado nenhum. Viagem adiada apenas.

– Apesar de ter dito que ia apostar em 40 livros no Goodreads, acabei por me propor a ler 50 (sem pressão). Com certeza que ultrapassei este número, porque nem todos os livros gratuitos a que tenho acesso acabo por rever, mas não sinto que tenha andado a correr para cumprir calendário, nem tive de fazer concessões aos títulos que escolhia. Como sempre, li apenas o que me apeteceu. Muitos livros valeram a pena este ano, desde BD do Sandman, a ficção científica fenomenal de Dan Simmons, empréstimos de amigos e muita coisa do Netgalley. Foi um ano em cheio, e tecnicamente ainda me falta um livro para atingir os 50.

– Continuar a  ler Agatha Christie e Terry Pratchett foi o mais retumbante fracasso. Não li nenhum de Terry Pratchett e o que li de Agatha Christie era tão mauzinho que nem me dei ao trabalho de falar dele aqui, e vacinou-me para o resto do ano. Enfim, estas coisas são uma maratona não um sprint, e fretes não se fazem, por isso voltarei a eles um dia.

– Acabar a saga do Sandman do Neil Gaiman, que comecei em 2016, era outro dos objectivos. No entanto, por variadíssimas razões, este foi um projecto que andou devagarinho este ano, e ainda me falta o décimo volume. Com certeza acabará em 2018.

– Continuar rodeada de poesia. Acho que esse foi um objectivo superado, já que publico recorrentemente poesia de expressão portuguesa no blog, e isso faz-me estar sempre muito atenta e pesquisar muito. Continuará a ser uma coisa que faço com prazer, por isso poesia espera-se neste estaminé.

De resto foi um ano de pausa, com algumas complicações de saúde minhas e muitas na família, um ano de recuperar baterias e energias, e fazer um ponto de situação interior. Neste momento estou em modo de meditação e preparação para o ano que se avizinha, que espero que seja melhor que este a todos os níveis.

Boas leituras.

 

 

Os Andróides e as Ovelhas Eléctricas

Philip K Dick

Já andava com o livro que deu origem ao mítico Blade Runner no meu Kindle há muito tempo à espera de vontade ou inspiração para o ler. Agora, nesta reta final do ano pareceu-me finalmente a altura acertada para finalmente pegar nele e deixar-me enredar pela história.

A primeira coisa que tive de ter em consideração é que o livro foi escrito em 1968 e isso explica uma certa falta de elegância nos termos usados quando comparamos com o filme. Por exemplo Rick Deckard é um bounty hunter e não um blade runner, e os Nexus 6 são “andys” e não replicants. No entanto, passando a fase inicial de habituação, percebemos que o livro está muito bem escrito. Todo ele é como um filme noir policial dos anos 50, mas passado num futuro à altura ainda distante (2021), distópico como convém, e onde as fronteiras entre ser humano e não o ser continuam, como sempre, muito difusas.

A segunda coisa que temos de ter em consideração é que o filme foi apenas vagamente baseado no livro, e este último tem várias histórias paralelas que o tornam muito mais intrincado e rico em imagética. As diferenças que mais se destacam são a esposa de Rick Deckard, que nos ajuda a perceber o tecido social da altura, bem como o impacto que o apocalipse nuclear teve na vida familiar e reprodutiva da humanidade. Temos também o Mercerismo, uma ideologia desenhada para promover a empatia entre os seres humanos, na realidade aquilo que os coloca no topo da escala evolutiva, antes dos especiais (pessoas com deficiências mentais), animais, andróides e finalmente a importância dos poucos animais verdadeiros que ainda restam, e os animais eléctricos que os substituem. Cuidar de um animal é mais uma vez um potenciador de empatia, e um sinal exterior de riqueza e balanço psicológico, e muitas vezes até a progressão na carreira dependia disso.

Como já tenho dito aqui, nomeadamente quando falei doutro grande livro de ficção cientifica, o Hyperion, este é o género por excelência onde por trás duma grande história se podem debater grandes temas filosóficos, religiosos, ecológicos, e mais uma vez este livro é prova disso mesmo, já que os andróides são em tudo semelhantes aos seres humanos, aparentemente só lhes faltando empatia, respeito pela vida, incluindo a sua própria, no entanto os humanos que à partida seriam os seres empáticos são também aqueles que se esforçam tanto por erradicar os androides que vêem como ameaça por serem tão parecidos consigo.

Este foi um livro qua gostei bastante de ler, apesar de achar que não foi o melhor livro do género que já li. Pareceu-me muito completo e deixou-me várias vezes a pensar no que é que se estava realmente a passar, e que mensagem é que o autor nos queria passar, que é normalmente a marca dum grande livro.

Recomendado a todos os fãs do filme, de ficção cientifica e de livros que nos deixem a pensar num amanhã que está aí mesmo ao virar da esquina.

Goodreads Review

Banda Sonora

He thought, too, about his need for a real animal; within him an actual hatred once more manifested itself toward his electric sheep, which he had to tend, had to care about, as if it lived. The tyranny of an object, he thought. It doesn’t know I exist. Like the androids, it had no ability to appreciate the existence of another.

 

Blade Runner

I Was Made to Love Magic

Rui Pires Cabral

 

A manhã com as suas proibições
na tua fala. A claridade estava a crescer
numa cama que já se tinha atravessado no escuro
como uma nave enfileirando para a guerra.Eu não tinha ficado para conhecer a vista
das tuas janelas: imaginava um pátio riscado por ervas
mas não cheguei a levantar as persianas.
Talvez fosse um sítio ao qual não se pudesse regressar
porque quando falávamos os nossos olhos
não coincidiam com nenhuma palavra.Teria gostado de te levar comigo outra vez
mas era difícil recuperar as razões
para o desejo. E no caso de nos ter acontecido
uma mudança, onde é que havíamos de procurar
os seus indícios? Estavas a dar de comer aos peixes
e eu só falava em livros.

Rui Pires Cabral, in ‘Música Antológica & Onze Cidades’

Livros que Recomendo – Os Sotãos Furados

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Hoje venho aqui recomendar um livro que me acompanhou na fase final da minha infância e me fez sonhar. Durante algum tempo tive este livro lá perdido em casa, mas por algum motivo não me puxou a lê-lo. A capa não me dizia nada, e o título também não. Mas um dia lá se devem ter esgotado as novidades e resolvi dar-lhe uma oportunidade, e foi como se um mundo de fantasia se abrisse.

A história é muito simples, mas para a mente duma criança cheia de transgressão e aventura. Centra-se em duas crianças (não me lembro se eram irmãos) que brincam no sótão da sua casa quando um dia são surpreendidos por um barulho nas paredes, e entra-lhes pelo sotão dentro um menino do sotão da casa vizinha.

E isso dá inicio ao abrir dos sótãos, sempre na expectativa de não se saber o que se vai encontrar do outro lado, se mais meninos para brincar, se adultos para terminar a brincadeira, até unirem todos os sotãos da rua inteira e forjarem uma sociedade dominada pelas crianças com regras e reuniões onde o único adulto que entra era o proprietário do sótão cheio de aves.

O objectivo final seria unir toda a cidade através das crianças, e fazer tudo às escondidas dos pais, e lembro-me que sempre que lia esse livro ficava desapontada por não haver sótãos na minha rua.

Infelizmente creio que o livro já não está em circulação, fazia parte duma antiga colecção infanto-juvenil da Verbo, e mesmo em alfarrabista será difícil encontrar. Tenho esperança que o meu exemplar ainda esteja perdido em casa dos meus pais e que o possa passar a uma criança sonhadora que goste de ler. Darei notícia se assim for.

Mas recomendo muito, se conseguirem deitar as mãos a algum exemplar, porque é um pedacinho de sonho em forma de livro.