Livros que Recomendo – Ensaio Sobre a Cegueira

saramago

O livro que venho recomendar hoje é bastante diferente do que já fiz até agora. Mais concretamente porque vos venho recomendar um livro que eu própria não li. Quando estava no 9º ano, era sócia do Círculo de Leitores e comprei o Memorial do Convento, e confesso que isso me vacinou de vez contra os livros de Saramago. Nunca consegui ultrapassar o facto daquilo não ter pontuação, e a história era qualquer coisa de surreal e surrealmente aborrecida para a minha mente de 14 anos.

Claro que já uma vida se passou, e acho que deve estar na altura de fazer as pazes com o nosso único Nobel. Ou pelo menos tentar reatar a relação. Resolvi escolher este livro porque me parece kamikaze retomar o Memorial do Convento. Por outro lado gostei bastante do filme de Fernando Meirelles retirado deste livro e parece-me uma aposta mais segura.

Já todos conhecemos a história, uma epidemia de cegueira atinge a maioria da população duma cidade e as consequências na estrutura social que daí advêm. Uma premissa simples, mas poderosa.

Recomendo a todos os amantes de Saramago, ou aqueles que, como eu, estão a tentar começar uma relação com ele. Se tiverem alguma sugestão a fazer, sejam livres! Se quiserem ler uma excelente crítica, vão aqui.

Boas Leituras!

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Acabei de Ler – Go

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Quem segue o Peixinho sabe que sempre que posso gosto de me debruçar em literatura asiática, porque há muitas maneiras de viajar e ler é uma delas. Assim, quando surgiu a hipótese de ler este livro através da Amazon First Reads, eu não perdi a oportunidade.

Go é classificado como uma “coming of age novel”, que é como quem diz uma história para quem está a entrar na idade adulta. Neste caso, a história de amor entre um rapaz de ascendência coreana, e uma rapariga duma familia tradicional japonesa. Foi muito interessante ler este livro, principalmente porque foca muita a descriminação a que estão sujeitos todos aqueles que não são considerados verdadeiros japoneses. Principalmente os descendentes de coreanos, que mesmo tendo nascido e sido criados no Japão (bem como já os seus pais tinham sido), continuam a ter que se registar como estrangeiros, e sentem que não pertencem verdadeiramente a pátria nenhuma.

O livro tem uma história rápida, e quase que nos sentimos a percorrer as ruas de Tóquio com os protagonistas, e a extensa rede de metro.

Recomendo a todos os que gostam de literatura asiática e que gostam de aprender enquanto lêem uma boa história.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Acabei de Ler – Septuagenarian Stew

bukowski

 

Depois de ter terminado um livro de poesia de Bukowski, fiquei com vontade de mais e por isso resolvi pegar noutro logo de seguida. Desta vez escolhi um que foi escrito mais no final de vida do escritor, em 1994.

São grandes as diferenças em relação ao último que li. Para já não é exclusivamente poesia, mas também de contos. É como se seguissemos diferentes personagens pela Califórnia, mas todas elas nos mostrassem a condição humana. Temos o operário fabril, o vagabundo, a estrela de cinema, mas temos também o nosso conhecido alter ego Henry Chinaski.

O livro está muito bem escrito, tem poemas maravilhosos, mas tem também muitos contos sobre boxe, baseball, corridas de cavalos, tudo temas que não domino e que sinto que me faltou qualquer coisa para apreciar devidamente essas histórias.

Recomendo a todos os amantes de poesia, de livros diferentes e transgressivos, mas que são apenas como a vida real.

Boas Leituras!

Goodreads Review

 

Pára-me de Repente o Pensamento

Angelo de Lima

Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento…

Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado…
Pára e fica e demora-se um momento.

Pára e fica na doida correria…
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora…
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

Ângelo de Lima, in ‘Antologia Poética’

Livros Que Recomendo – A Arte de Viajar

a arte de viajar

Viajar é uma das actividades favoritas do Peixinho, no entanto está neste momento em banho maria devido à recente adição familiar. No entanto isso não significa que não se continue a fazer planos futuros e a ler sobre o assunto.

E é sobre este assunto o livro que hoje vos recomendo. Alain de Botton é um filósofo suíço que se dedica a reflectir sobre diversos temas dum modo que seja apelativo aos comuns mortais. Já falou sobre o amor, relações, religião, mas neste livro reflecte sobre viagens. Porque temos o desejo de viajar? Porque escolhemos determinados sítios em detrimento de outros? O que é realmente viajar?

Este é um livro muito fácil de ler e ao mesmo tempo muito enriquecedor. Está recheado de pequenos episódios e histórias de outros viajantes famosos, ou famosos que viajam. Mas famosos a sério, como Van Gogh, Baudelaire, Flaubert. Gente que viajou dum modo muito diferente do nosso, mas com motivações semelhantes.

Podemos ler sobre a antecipação da viagem, as motivações associadas. Viajar para descobrir a beleza, para entrar em contacto com a natureza ou a arte, para procurar o exotismo. Mas o mais importante é que qualquer que seja o destino, não podemos fugir a nós próprios.

Termina com Xavier de Maistre, que fez viagens no seu quarto, para nos mostrar que muitas vezes basta olhar para o que nos rodeia com olhos de viajante para termos uma percepção muito diferente.

Recomendo a todos os que gostam de viajar, de pensar e reflectir sobre o quotidiano e nós próprios.

Boas leituras!

Ode aos Livros que Não Posso Comprar

jorge_sena

Hoje, fiz uma lista de livros,
e não tenho dinheiro para os poder comprar.

É ridículo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.

Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros
– sem eles, também eu morreria de fome,
porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quanto sentiram, ou sós, ou mal-acompanhados,
alguns outros que, se lhe falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanta humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que se não perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.
Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
nem de que, em breve, se morrerá de uma fome maior,
do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.

Por isso, preciso de comprar alguns livros,
uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,
para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,
folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
e sair de casa, contando os tostões que me restam,
a ver se chegam para o carro eléctrico,
até outra porta.»

Jorge de Sena in “40 Anos de Servidão”

Livros Que Recomendo – Graças e Desgraças na Corte de El-Rei Tadinho

alice vieira

Agora que tenho um jaquinzinho cá em casa tenho andado a remexer na minha memória de infância em busca de livros que gostaria de partilhar com ele. Alice Vieira é uma escolha óbvia, mas dentro da panóplia de títulos desta escritora, este é um dos menos óbvios mas muito divertido.

Algures no final dos anos 80, no mesmo ano da eleição Soares-Freitas do Amaral, a minha professora de português do ciclo resolveu convidar escritores conhecidos para nos visitar e fazer-nos encenar partes dos seus livros. À nossa turma calhou este, a história dum rei desajeitado que se casa com uma fada desempregada e as peripécias em que ele envolve a família.

Dentro do livro resolvemos encenar o último capítulo, em que a princesa, filha dos dois, passa por dificuldades na escola porque acredita que todas as palavras ficam mais bonitas com muitos hhhh no meio, no príncipio e no fim. Eu fiz o papel de professora desesperada que tenta por todos os meios corrigir a princesa, e ainda hoje me lembro muito bem desse teatro que fizemos.

É um livro muito divertido, cheio de ironia e uma caricatura ao típico desenrascanço português. Excelente leitura para toda a família.

Recomendo a todos os que gostam de livros infantis, ou que querem partilhar boa literatura com os seus pequenotes.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Love is a Dog From Hell

bukowski

Na sequência de estar a preparar um “Livros que Recomendo” aqui para o estaminé tive que ir pesquisar Bukowski e deu-me uma vontade avassaladora de ler um livro de poemas dele. Como tenho o Kindle sempre bem apetrechado, foi isso mesmo que fiz, e escolhi este Love is a Dog from Hell, de 1977, um dos seus primeiros livros de poemas.

Nem sei bem o que dizer deste livro, coisa rara em mim. Acho que a poesia de Bukowski tem que ser experimentada, mais que descrita, mas admirada sem os condicionalismos politicamente correctos deste nosso inicio de século XXI. Muitas coisas que estão escritas neste livro não sei se seriam aceites hoje em dia, mas é lembrar-nos que a moral dominante nos anos 70 era muito diferente, e que há beleza em todas as vidas, apenas depende de como olhamos para elas e do significado que retiramos.

E por baixo dos versos aparentemente simples e quotidianos de Bukowski esconde-se um universo de significados, uma descida ao que significa ser humano, e as escolhas ou falta delas que a vida nos traz.

Ir às corridas de cavalos, ter sexo com desconhecidas que lhe telefonam por gostar dos seus versos, beber cerveja na rua, observar jovens adolescentes nas paragens do autocarro, tudo é motivo para fazer poesia, e para analisar a vida.

Aconselho a todos os amantes de poesia, pessoas de cabeças arejadas em geral, e quem queira descobrir o sentido da vida no fundo duma garrafa de cerveja!

Boas Leituras!

Goodreads Review

Sem Título

golgona-anghel

Somos daqueles que limpam os ouvidos
com a chave do Mercedes
e fazem estalar os dedos,
às escuras, nas salas de cinema;
filhos das vindimas e da apanha da azeitona,
homens, quando a noite usa decote.
Somos, hoje, a melhor geração
de cansados profissionais, os mais vendidos autores do acaso.
Treinamos predadores de moscas,
limpamos passados, fígados gordos, rins cheios de diamantes.
Temos as mãos trémulas, é certo,
mas arrumamos,
seguros,
o dominó, no pátio do Alzheimer,
pois é a nós que procura a seta.
De maneira que não adianta muito termos pressa:
um dia, alguém chamará por nós
e nos marcará no peito
o número da sorte
com o ferro quente
com que se conta,
na Primavera,
o gado.
Golgona Anghel in Nadar na Piscina dos Pequenos

Livros que Recomendo – Post Office

bukowski

Charles Bukowski é um dos meus poetas favoritos e já aqui partilhei um poema dele. Só não o faço mais frequentemente porque tento privilegiar poesia escrita em português, que é vasta e com muita qualidade. Mas dos estrangeiros Bukowski tem certamente um toque especial.

Mas ele não se limitou a escrever poesia, escreveu também outros livros de “ficção”, grandemente baseados na sua própria vida e onde também deixou o seu cunho único. Bukowski tem o condão de pegar nas situações mais corriqueiras e cruas da nossa vida e pintá-las com cores de genialidade. Este foi o seu primeiro romance, escrito em 1971, quando ele já tinha 50 anos de idade. Aparentemente nunca é tarde para se ser descoberto e começar a publicar, e isso é uma esperança a que me agarro.

Mas voltando a este livro, nele seguimos Henry Chinaski, a versão autobiográfica do próprio Bukowski nos dois períodos em que ele trabalhou para os correios americanos nos anos 50, como carteiro primeiro e mais tarde como distribuidor de correspondência (sorter). A crueza com que ele descreve a sua própria realidade, a falta de condescendência para consigo próprio e o humor cínico com que vê a sua realidade são as grandes mais valias da escrita deste autor. Bukowski não é um modelo a seguir. Alcoólico, viciado em jogo e em mulheres, Bukowski não é sem dúvida um escritor dos nossos tempos politicamente correctos e asséticos. Ele diz as coisas como elas são, sem paninhos quentes, e na sua vida, como tantas vezes na nossa, as coisas não são flores e passarinhos. São erros, excessos, vertigem, culpa e situações complicadas, mas que mesmo assim conseguem ser poesia e mestria.

Recomendo o livro a todas as pessoas que não se impressionam ou escandalizam facilmente, que conseguem ver para lá das aparências, que gostam de escrita crua e apaixonada, que abraçam a diferença e se deixam surpreender.

Boas Leituras!

Can you remember who you were, before the world told you who you should be?