Acabei de Ler – Above the Clouds

boukreev

Talvez por as minhas possibilidades de viajar para sítios exóticos estarem agora mais diminuídas, comecei este ano a ler sobre sítios maravilhosos e encantadores, mas que estão fora do meu alcance. Já li sobre o Everest, Botswana, e agora resolvi voltar ao montanhismo de altitude outra vez.

Quando li a perspectiva de Anatoli Boukreev sobre o desastre de 1996 no Everest, percebi que este russo/casaque era um homem muito interessante, culto e com uma filosofia de respeito pelas montanhas muito especial. E isso levou-me a pegar neste livro, que nada mais é que a compilação de algumas reflexões que ele fazia no seu diário pessoal após cada expedição a altas montanhas, e ele teve inúmeras dessas.

Anatoli Boukreev começou a sua carreira como alpinista na União Soviética, onde o desporto de alta competição era incentivado como um modo de enaltecer a pátria russa e levar o seu nome a todo o lado, nomeadamente ao pico do Everest, batendo records e fazendo história. O desporto era considerado um objectivo colectivo e a vontade do grupo estava acima do sucesso individual.

Entretanto dá-se a desagregação da União Soviética e esse paradigma muda radicalmente. Deixa de haver dinheiro estatal para patrocinar os atletas, a iniciativa privada não vê qualquer vantagem em patrocinar expedições a altas montanhas, e Anatoli vê-se repentinamente sem um meio de financiar a sua paixão e razão de viver. Ao mesmo tempo as expedições comerciais começam a ser uma realidade que pode providenciar emprego e rendimentos, mas a contrapartida é liderar expedições a locais muito perigosos com clientes de condição física questionável.

São estas dúvidas e pedaços de história recente que podemos encontrar neste livro, bem como espreitar a mente de um homem que considerava as montanhas como uma religião e uma forma de superação pessoal, acabndo por vir a falecer numa. Muito interessante, uma leitura que se faz num fôlego.

Recomendo a todos os que gostam de viajar nas palavras, os que gostam de ler sobre desporto, aventura, locais remotos e que exercem fascínio, mesmo que nunca tenhamos a oportunidade de lá ir.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Viajar

alves redol

Viajar é correr mundo,
voar mais alto que os pássaros
ou pisar o chão da Terra
ou as ondas do Mar Alto…
É ver bichos
de muitas cores e feitios,
montanhas,
rios,
e ribeiros
e pessoas
e lugares…
Conhecer e descobrir,
inventar e duvidar,
sabendo cada vez mais,
sem nunca pensar que basta
o mundo que se conhece.
E alargá-lo com amor
dentro de nós e dos outros.

Alves Redol

Livros que Recomendo – Deaf Sentence

david lodge

Se há um autor do qual eu li quase todos os livros é David Lodge, e não me lembro de alguma vez me ter sentido desiludida. Possuidor dum sentido de humor muito britânico e apurado, os seus livros são sempre divertidos, mesmo quando abordam temas sérios, tal como este que recomendo hoje e que foi o último que escreveu até à data.

Em Deaf Sentence conhecemos a história de Desmond Bates, um professor universitário de Inglês (muitos dos seus personagens são, como ele, professores universitários do departamento de Inglês), que se reforma quando há uma restruturação do seu departamento. Isso faz com que ele comece a lidar com o facto de que está a envelhecer, e sobretudo que está a ficar surdo. Isso dá azo a muitas peripécias engraçadas, mas sobretudo ao desespero do próprio e da família.

Lutando eu com alguns problemas de audição, revi-me muito neste personagem. Não tem graça quando consecutivamente não percebemos o que nos dizem, não conseguimos seguir conversas com muita gente, e sobretudo desespera aqueles à nossa volta o facto de terem que se repetir até ao infinito, mesmo sabendo que não estamos a fazer de propósito. E eu nem sou efectivamente surda, por isso imagino a dificuldade de quem está consideravelmente pior que eu. David Lodge consegue falar de tudo isso com o seu costumeiro bom humor e divertir-nos com coisas sérias. Suponho que muito do que ele escreve neste livro ele saiba por experiência, o que ainda o torna mais interessante.

Recomendo a todos os que gostam de boas histórias, boa literatura e ver a vida real noutra perspectiva.

Boas Leituras!

Livros que Quero Ler – The Elephant Whisperer

elephant

Depois de tanto tempo a recomendar livros que tinha lido, resolvi que estava na altura de falar de livros que estão no meu radar para futuras leituras, por variadíssimas razões. Este já me foi recomendado pelo Goodreads há bastante tempo, mas nem sempre estou com a mente virada para livros de não-ficção.

Este ano passa-se exactamente o contrário, apetece-me estar imersa no mundo real através dos livros, por isso parece-me uma excelente altura para me dedicar a esta história.

Lawrence Anthony tinha uma reserva natural na África do Sul e foi-lhe pedido para acolher um grupo problemático de elefantes. Mesmo antes de chegarem a matriarca e a sua cria são abatidas, o que faz com que todo o grupo esteja ainda mais agressivo e difícil de controlar. Este é o ponto de partida para toda uma história de relações entre homens e animais no seu habitat natural, sobre conservação e os esforços que se fazem preservar espécies importantes, mas principalmente sobre uns animais inteligentíssimos que eu muito gosto, os elefantes.

Espero conseguir lê-lo nas próximas semanas, já que 2020 parece ser definitivamente o ano da não ficção e dos livros em localizações exóticas.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – O Pintor Debaixo do Lava-Loiças

afonso cruz

Recomendaram-me este livro de Afonso Cruz, e como já há algum tempo que tinha curiosidade em ler este autor resolvi aproveitar. Também gosto de intercalar as minhas leituras normais com autores portugueses e por isso resolvi aproveitar.

Não comecei a ler com expectativa nenhuma, tirando o facto de saber que ele é um autor que tem sido muito falado e apreciado nos últimos tempos. E no decorrer do livro lembrei-me dum presente que ofereci ao meu marido no tempo em que éramos apenas bons amigos e que era O Pequeno Livro dos Aforismos, recheado de pequenas frases feitas. Foi essa a sensação que tive com este livro, que era uma sucessão de frases pensadas para serem bonitas e replicadas nas redes sociais ou sites de citações.

No entanto, e ultrapassada a aversão que essa sensação me deu, resolvi persistir na leitura do livro. Por trás das muitas frases complexas há uma belíssima história a querer espreitar. Poderia a história ter funcionado com outro tipo de linguagem? Sinceramente não sei, e acredito que é problema meu esta aversão a este tipo de escrita.

Este pintor é Josef Sors, um pintor que almejava ter uma vida vertical, sempre a crescer na mesma direcção e sem nada que o desviasse do seu objectivo. Não era um personagem muito simpático e as suas acções eram muitas vezes questionáveis, mas o evoluir da sua história foi muito interessante, e as tangentes que fez com a nossa história nacional, e a história pessoal do autor foi mesmo muito bonita.

Resumindo, recomendo a todos os que gostem de histórias interessantes, mas que tenham paciência para uma literatura de frases muito rebuscadas e floreadas. Lá no meio há uma história com pés e cabeça.

Boas Leituras!

Goodreads Review

A paixão é o sentimento que contém tudo, por isso, quando um homem se apaixona, dentro dele está tudo. desde a coisa mais pequena à coisa maior, que muitas vezes são a mesma coisa.

Original É o Poeta

ary dos santos

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos

Livros Que Recomendo – O Pequeno Livro dos Medos

sergio godinho

Mesmo sem a perspectiva de algum dia vir a ser mãe, desde sempre fui muito fã de livros infanto-juvenis, e continuei a lê-los muito depois de já ser adulta. Acho que se encontram verdadeiras pérolas de beleza neste mundo de livros, e é uma dessas pérolas que venho hoje recomendar.

Sérgio Godinho é não só um belíssimo escritor de canções, mas também se aventurou no mundo da literatura infantil. Este Pequeno Livros do Medos é a sua segunda incursão neste campo e data de 1991. É um livro pequeno, de 55 páginas, e que leva os seus leitores a reflectir no que é o medo, a racionalizar sobre ele com exemplos da vida do narrador, e no final a conseguir superá-los.

Muito bonito e bem escrito, sobre um tema que é tranversal a miúdos e graúdos e que nos ajuda a reflectir sobre as coisas que nos impedem de olhar em frente.

Recomendo a todos os que têm filhos e querem partilhar histórias com eles, ou todos aqueles que são sempre jovens no coração e apreciam boa escrita.

Boas Leituras!

O Peixinho e as Maratonas Literárias

Livros

O Peixinho gosta de ler o que lhe apetece, quando lhe apetece, e nem sempre sabe exactamente o que lhe apetece. Confuso, eu sei, mas obrigações temos muitas na vida, ler não pode contar como uma delas. Por isso nunca me juntei a nenhum clube de leitura, daqueles que se encontram e debatem livros previamente escolhidos. Sei que provavelmente estou a perder umas belíssimas discussões edificantes, mas na realidade elas acabam por surgir naturalmente quando discutimos livros com outro bookworm como nós.

Mas as maratonas literárias sempre me pareceram mais engraçadas. Aqui temos várias categorias e acabamos por encaixar o livro que estamos a ler na que for mais relevante.  Por exemplo, ler um livro com um tema de inverno.

Nunca me tinha juntado a nenhuma porque me tinha faltado o incentivo certo. Mas agora fui convidada por uma amiga a juntar-me a uma maratona literária espalhada pelas estações do ano, e em que cada estação temos novas categorias para preencher. Começámos, obviamente, no Inverno. Achei a ideia engraçada e os livros que tinha lido desde o início do Inverno eram facilmente distribuídos por algumas categorias.

Neste momento já tenho 4 das 16 categorias preenchidas e, apesar de dificilmente conseguir completar todo o desafio, estou a achar isto muito divertido.

Se têm experiências semelhantes, ou sugestões, apitem no comentários.

Boas Leituras, com ou sem maratonas.

Acabei de Ler – The Climb

the climb

Já falei aqui algumas vezes sobre livros de montanhismo. Apesar de não ser desporto para mim, tenho bastante prazer em ler sobre escaladas difíceis e montanhas complicadas. E o Everest é a mãe de todas as montanhas.

 Já recomendei aqui o livro de Jon Krakauer sobre a tragédia de 1996, em que várias pessoas morreram e muitas ficaram com sequelas no decorrer duma tempestade que apanhou duas expedições comerciais ainda no topo da montanha. Não foi a última tragédia, nem a maior, mas graças ao livro do jornalista que ia na expedição foi talvez a mais conhecida e mais debatida.

Muita gente discorda dos factos como são apresentados por Krakauer, e os livros de relato próprio de quem viveu a experiência têm-se multiplicado (o Netgalley proporcionou-me um há algum tempo). No entanto este livro de Anatoli Boukreev é um dos mais conhecidos, já que é uma resposta directa à imagem que Krakauer passou deste montanhista no seu livro, e também porque Anatoli faleceu em no dia de Natal de 1997 enquanto tentava escalar o Annapurna.

O livro foi co-escrito por Weston de-Walt, que não tem o dom das palavras que Krakauer tem, no entanto este livro é muito útil para percebermos outro ponto de vista sobre o que se passou na montanha naquela fatídica escalada. Se pensarmos racionalmente, nenhum cliente da expedição em que Boukreev era um dos guias faleceu naquele dia, nem sequer sofreram danos permanentes, ao contrário do que se passou na expedição em que Krakauer era cliente. Na realidade Boukreev fez um esforço sobre-humano para ainda salvar a vida de 3 pessoas, após ter subido ao cume do Everest. É por isso estranho que tenha sido escolhido como alvo da ira de Krakauer.

Suponho que tenha a ver com o estilo jornalístico americano, em que é sempre necessário encontrar um culpado para queimar na fogueira, e neste caso um russo taciturno com fraco domínio do inglês é mesmo um personagem que está a jeito.

Este livro tem uma boa reconstituição dos eventos que ocorreram em Maio de 1996, bem como a transcrição da reunião que foi feita por quase todos os elementos da expedição Mountain Madness para deixar um registo do que tinha acontecido tal como todos se recordavam.

Recomendo a todos os que são fãs de montanhismo, de aventura, de histórias emocionantes.

Boas Leituras!

Goodreads Review