Acabei de Ler: The Quiet You Carry

the quiet you carry

Keep scrolling if you prefer to read in English

Apesar do que eu disse num dos últimos posts, acabei por conseguir descolar um bocadinho da série Wheel of Time. Quando peguei no quarto volume, percebi que afinal queria mesmo alguma coisa nova e diferente e por isso fui até às minhas sugestões do Netgalley buscar qualquer coisa radicalmente diferente para me entreter. E não me arrependi.

The Quiet You Carry é o romance de estreia de Nikki Barthelmess, uma escritora americana que passou parte da sua juventude em lares de acolhimento (dos 12 aos 18 anos percorreu 6 casas diferentes) e resolveu traduzir a sua experiência num livro. Como ela própria diz no posfácio, a história que ela conta não é a dela, nem a de ninguém próximo dela, mas o resultado de anos de experiência com um sistema que por vezes falha, e que ela conhece por dentro.

Neste livro seguimos a história de Victoria, uma jovem de 17 anos que vê a sua vida virada do avesso numa noite em que determinados acontecimentos com o seu pai precipitam a sua saída de casa e realojamento num lar de acolhimento com uma mãe adoptiva que gere as suas “filhas” como se fosse um militar num quartel. A partir daí acompanhamos as suas dificuldades de adaptação, as suas inseguranças, a falta de confiança em toda a gente quando a pessoa em quem ela mais confiava lhe falhou.

As reacções são muito verossímeis, conseguimos imaginar que a cabeça duma adolescente abusada tenha aquela espiral de pensamentos, oscilando entre a culpa, a raiva, a suspeita e a dúvida, causando um turbilhão interno que se estende ao meio envolvente.

Como sempre com estes livros do Netgalley não faço ideia se será editado em português, e ainda é cedo para saber porque o livro só será comercializado em Março de 2019, mas de qualquer modo fica já a recomendação para quem gosta de histórias bem contadas, sobre temas difíceis, sem melodramatismos desnecessários.

Boas Leituras!

Goodreads Review

No one can really see the quite you carry, unless you let them.

Despite what I said in one of my previous posts, that I would not be able to let go the Wheel of Time series to embark on a different reading, I managed to do just so. When I started the 4th book of the series I just felt like I wanted something different, so I opened my Netgalley folder on my Kindle and picked “The Quiet You Carry” on the hopes that it would be different enough. And I wasn’t wrong.

This book is Nikki Barthelmes debut novel, an american writer that spent part of her teen years in foster care in Nevada (from 12 to 18 years old she had 6 different homes) and she decided to translate her experience into a book. This story is not her personal story, or from anyone she knows, but a conjunction of the experiences she learned while in foster care, a system that is flawed and she knows from inside out.

We follow Victoria’s story, a 17 year old young girl that finds herself thrown out of her home by her own father overnight, and sees her life be turned upside down just when she was about to graduate. One night events send her to foster care, to Connie’s house that is ruled with an iron fist and is filled with rules and regulations. We then go on to see how she adapts to her new school, how she struggles to fit in, and how she has a difficulty in trusting someone else, seeing that the person she should trust the most failed her.

Her reactions are very believable, and it’s not hard to believe that those conflicted emotions would fill the mind of an abused teenage girl. She goes from guilt to anger to self-doubt causing such turmoil that will escalate to her environment.

As usual with Netgalley books, I have no idea if this will ever be translated to Portuguese, and it is still early to tell, as the book is only coming out next March, but I leave the recommendation anyway to all of those who like good stories, well told, about different things and settings than the ones we are used to.

Happy Readings.

 

 

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Pastelaria

cesariny

Afinal o que importa não é a literatura nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que
importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que
importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que
importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

e cair verticalmente no vício
Não
é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal
o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal
o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal
o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora!
– rir de tudo
No riso admirável
de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mario Cesariny

Livros que Recomendo – A Lua de Joana

Lua de Joana

Este é um daqueles livros que li bem no final da adolescência, e ficou para sempre comigo. Perdi a conta à quantidade de vezes que o reli e ficava sempre emocionada. A autora deste livro, Maria Teresa Maia Gonzalez, foi professora de Português e Inglês e escreveu inúmeros títulos infanto-juvenis, incluindo vários volumes do Clube das Chaves, outra das minhas séries de eleição.

Neste “A Lua de Joana” falam-se de temas importantes na adolescência, como a perda dum amigo, pais que são ausentes, a sensação de que ninguém nos compreende nem vê o mundo como nós.

Joana era uma miúda certinha, que tinha um baloiço em forma de lua no quarto onde se sentava a pensar, ou a afastar a tristeza. A sua melhor amiga, Marta, morreu de overdose e ela tem alguma dificuldade em lidar com isso. Vai então escrever uma série de cartas para a amiga que partiu onde descreve o seu dia-a-dia e os seus sentimentos. Joana vai iniciar o seu próprio caminho de descida e descoberta, e perceber as razões da amiga.

É um livro muito forte, mas bem escrito e, na minha opinião, indicadíssimo para se ler no início da adolescência. Aliás, poucas foram as pessoas que o leram e não ficaram marcadas por ele. Sei que há alguns (muitos) anos atrás ele fazia parte do programa escolar, mas não sei se ainda é assim. Também não sei se isso é bom ou mau, na realidade. Para certo tipo de miúdos, ler por imposição ainda os afasta mais da palavra escrita.

Recomendo a todos os que ainda não leram, que não devem ser muitos, aos que querem ver o mundo com outros olhos e não têm medo de recordar a adolescência.

Boas Leituras!

Acabei de Ler: The Dragon Reborn – The Wheel of Time #3

Wheel of time

Já não é novidade nenhuma que o Peixinho anda a ler esta série de fantasia. Gostava de ter outros e excitantes livros sobre os quais falar-vos, mas de momento é só isto que posso oferecer. E este, apesar de ter estado em casa doente, foi difícil de terminar. A história é boa e anda rápido, mas a minha cabeça não estava “na zona”.

No entanto, e apesar de tudo, ele lá foi em 15 dias. Neste volume o grupo inicial que saiu de Dois Rios em fuga, encontra-se todo fragmentado. Por um lado temos o personagem principal, Rand Al’Thor, o dragão de que se fala no título, que segue sozinho. E isso é bom, porque nos permite conhecer melhor outros personagens, a mesmo ficar a gostar de alguns que não gostávamos (e vice-versa). A história segue grupos diferentes, e os capítulos vão alternando entre pontos de vista, e isso traz diversidade e interesse a este terceiro capítulo da história.

O sistema de magia é complexo e muito bem conseguido, e, dentro daquele mundo de faz de conta, faz bastante sentido e nada é inverossímil.

Aconselho a fãs do género, pessoas que gostam duma boa história bem contada, e sobretudo gente com tempo e paciência.

Boas Leituras!

Goodreads Review

 

Ainda Tenho um Sonho ou Dois

pop dellarte

Quase tanto como de livros, o Peixinho gosta de música. Enquanto as outras meninas iam para casa depois da escola e viam a Candy Candy, eu ficava deslumbrada a ver o Top of the Pops que dava na RTP na minha infância, e a ver um homem dançar com um ramo de rosas no bolso de trás das calças (Morrisey) ou um homem de lábios pintados (Robert Smith) e perguntava à minha mãe porque é que eles faziam aquilo.

O fascínio pela música diferente ficou, e sempre me acompanhou em todas as fases da vida, passando por (quase) todos os estilos musicais.

Com as bandas portuguesas passou-se o mesmo e eu sempre fiquei fascinada por coisas diferentes e fora dos circuitos comuns da rádio. O que me leva ao que vos venho falar hoje. Deu a semana passada na RTP2 um documentário sobre uma das bandas portuguesas mais experimentais e incatalogáveis, os Pop Dell’Arte. O documentário foi realizado pelo Nuno Duarte, que é normalmente conhecido por Jel, e está muito bem feito.

É documental sem ser chato, mostra as realidades sem ser melodramático, e tem testemunhos em primeira mão dos (muitos) artistas que passaram pela banda. Confesso que um ou dois me surpreenderam, não fazia ideia que tinham tocado com eles (por exemplo JP Simões).

Aconselho a todos os que são fãs, os que querem saber mais sobre música portuguesa e sobre a nossa história cultural. E para que não fiquem a lamentar ter perdido, deixo em baixo os links para o documentário, que está disponível no RTP Play. Verdadeiro serviço público da estação.

Boas Leituras e Boas Cantorias

Documentário aqui

Música que dá título ao filme e ao post aqui

Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça

antónio_amaral_tavares

Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça
um euro e trinta e cinco cêntimos 16 de Agosto de 2011
não dá para o tabaco. Quero lembrá-lo que o verão está a acabar

e eu já ouço passos nos caminhos da lama e do medo
e há coisas que só no verão se fazem e eu ainda não fiz
como ouvir o rumorejar do mar nos meus pulsos.

Os seus medicamentos doutor deixam-me sem mim
o meu pai disse-me que a minha doença só lhe traz problemas
doutor há uma pedra intraduzível entre nós dois

quero dizer-lhe que há pessoas muito pobres que querem
o meu rim esquerdo doutor o mundo não é perfeito
e não me diga para lhe contar tudo como a um padre

eu não quero morrer outra vez essa frase fá-lo muito feio.
Acredite que vi gente morrer porque era maior que o corpo
tenho a impressão que o corpo não sabe o que tem dentro

acredite que consigo fundir uma lâmpada só com o olhar
já fundi muitas lâmpadas só com o olhar
e que vi um anjo atravessar os muros de um hospício

rasante e belo como uma garça.
Doutor há muito pouco tempo para a poesia.
Isto que lhe digo é verdade todos os dias doutor.

António Amaral Tavares

Livros que Recomendo – O Nome da Rosa

nome da rosa

Já não me lembro exactamente há quanto tempo atrás li este livro, mas lembro-me bem de onde ele veio. Daquelas colecções Mil Folhas, se não estou em erro do Público, da qual eu recebi bastantes livros vindos duma amiga da minha mãe.

Já tinha visto o famoso filme de Jean-Jacques Annaud em 1986, com o Sean Connery num belíssimo papel, e isso espicaçou a minha curiosidade para pegar neste livro, o único até agora que eu li do Umberto Eco, escritor italiano, professor universitário de semiótica, e detentor duma escrita rica, densa e recheada de referências a autores clássicos e outras obras.

E é exactamente isso que este Nome da Rosa é, um livro denso e cheio de referências a outros autores, mas ao mesmo tempo com uma história bem desenvolvida e interessante. Não é para se ler de animo leve, mas para saborear lentamente e tentar abarcar tudo. Tenho a certeza que não consegui entender todas as ligações e pistas escondidas que o autor deixou para nós, mas um dia voltarei a ler este livro, numa fase em que esteja mais introspectiva que agora.

A história é simples, um monge morre num convento beneditino na Idade Média, e é pedida ajuda a um frade franciscano, de nome William Baskerville numa clara invocação de Sherlock Holmes. A partir daí os assassinatos sucedem-se e a investigação tem de ser célere para impedir que alguém vá parar injustamente às mãos da Inquisição.

Recomendo a todas as pessoas que gostam de “policiais”, de mistério, de aprender conceitos e História enquanto lêem, a todos os que gostam de se sentir desafiados.

Boas Leituras!

 

Os Livros e as Gripes

ch_stayhome

O Peixinho teve de ficar de molho por causa duma bela carraspana. À primeira vista seria a oportunidade ideal para dar andamento aquela série de livros que estou a ler, já que a maior parte do tempo é passado na cama. Ou pegar em coisas novas, e seguir por novos caminhos.

Mas na realidade, tal como nas salas de espera, quando estamos doentes nem sempre temos a capacidade que esperamos para decifrar histórias complexas, ou seguir enredos intricados. Quando tento ler, dou por mim no meio duma névoa estranha, em que tenho dificuldade de seguir os nomes dos personagens, e as paragens para tossir/espirrar a cada 5 minutos também não ajudam a manter o ritmo.

O meu kindle tem uma função que nos diz quanto tempo falta para terminar o livro, adaptado ao nosso ritmo do leitura. Faltam-me os últimos 20% do livro e cerca de duas horas e meia… desde o início da semana, apesar de me parecer que já li imenso.

Por isso vou fazendo como o Calvin ali em cima e passo a maior parte do tempo enfiada debaixo dos cobertores a ver episódios antigos da Anatomia de Grey, só para me lembrar como realmente não gosto da série. Ou pior, episódios do Dr. Phil, por algum motivo doentio. Acho que nunca vi um programa destes sem ser estando em casa doente.

De qualquer modo já me alonguei muito fora das mantas e sofá, e acho que já começou um episódio repetido das Mentes Criminosas, algures do início deste século.

Boas Leituras!

 

Ler Séries de Livros

serie

Quem segue o Peixinho já se apercebeu que eu comecei recentemente a ler uma série de fantasia, Wheel of Time de Robert Jordan. Ora, esta série é um portento com 14 volumes, se ignorarmos os spin offs, todos eles com um tamanho bastante respeitável.

Vários motivos me levaram a começar uma série tão ambiciosa nesta altura. Primeiro, estou muito próxima de terminar o meu desafio de leitura do Goodreads, só me faltam 3 livros, por isso não tenho pressa, nem motivos para ler livros mais pequenos. Depois, neste momento sei que tenho tempo, cabeça e paciência para me dedicar a uma empreitada destas, no futuro não sei se será assim, por isso mais vale despachar já.

Mas ler uma série tem implicações práticas, especialmente para um Peixinho esquisito como eu. Primeiro, é preciso muita paciência. Quando li o Game of Thrones, ou O Senhor dos Anéis, sabia que não eram muitos volumes, por isso o facto de algum poder ter mil páginas, não era nada de especial porque num instante tudo estaria lido. Por outro lado, quando li o Harry Potter, que teve mais “prestações”, os livros eram mais pequenos, muito fluidos e a história absolutamente viciante. Nesse caso eu estava a ler ao mesmo tempo que eram editados (em Inglês), por isso não tinha outro remédio que não esperar pelo próximo e entreter-me com outras coisas no intervalo.

Agora não é o caso. Tenho todos os volumes no meu Kindle, por isso quando termino um a caminho do trabalho posso pegar imediatamente no outro, e normalmente é isso que faço porque acabam sempre com qualquer coisa mal resolvida da qual queremos saber o desfecho (e invariavelmente o livro seguinte começa noutro ponto qualquer da história, completamente disconexo, só para prolongar a agonia).

Já vou no terceiro volume, mas começo a sentir falta de ler outras coisas, ver outros mundos, entrar dentro de outros imaginários. Mas isto é como uma dependência, e enquanto não se vir o fundo ao tacho, dificilmente conseguirei desprender. A consequência para este espaço é que faço muito menos posts, tenho menos do que falar, sou um peixe menos interessante em geral.

Enfim, vou continuar a dar conta do que vou lendo por aqui, mas não pensem que me fui embora ou que isto ficou em auto-gestão. Simplesmente estou presa na história do Dragão Renascido até nova ordem.

Boas Leituras!

Se Existe Uma Chave

Vasco Gato

 

Se existe uma chave,
se existe uma chave que não derreta na boca,
se existe uma boca capaz de se abrir para outra boca,
então eu amo, eu beijo, eu deixo de esperar.

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo
no gesto sem mágoa de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar,
e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.

Ah forte como a loucura é o amor,
o amor como a electricidade dos campos.
O amor-pirâmide,
o amor-trevo-de-quatro-folhas,
o amor-moeda-achada-no-chão.
Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva.
Não recues, assombra-te.

Vasco Gato