Acabei de Ler – As Cortes Todas da Sarah J. Maas

ACOTAR

Imagem retirada daqui

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Quem segue o Peixinho sabe que em 2021 eu li muitos romances. A certa altura do ano parecia que o meu cérebro não conseguia absorver mais nada. Foram tantos que a minha cabeça se rebelou e só de pensar em chick lit dá um nó.

Foi por isso que resolvi começar o ano de 2022 com uma coisa radicalmente diferente para desenjoar e pensei em ler fantasia. Resolvi pegar na trilogia da Sarah J Maas, que andava toda a gente a ler/reler e a discutir nas redes sociais bibliófilas. Pausa dramática para quem já leu os livros dela se rir da minha ingenuidade. Pois é, eu sabia que era fantasia com Fae, e que as pessoas amam ou odeiam, mas como não costumo ler sinopses atirei-me para o desconhecido.
Na realidade ACOTAR é um grande romance com Fae (um crossover entre fadas e elfos). E nem é um romance qualquer, é uma história erótica explícita. A autora é completamente obcecada com personagens masculinas muito másculas (passe a redundância), daqueles cheios de músculos e que grunhem/rosnam/fazem ruídos estranhos em geral. E se leram alguns dos meus artigos anteriores, sabem o que eu penso em relação a isso. Mas passado o choque inicial a coisa fluiu, e foram os 4 livros duma assentada, que ainda foi coisa para 2500 páginas.

Agora, eu achava que tinha acordado tarde para esta festa porque o primeiro livro já é de 2015 e teve bastante sucesso, mas entretanto descobri que só vai sair em português de Portugal em 2022. Sem comentários em relação ao modo como o nosso mercado editorial se mantém actualizado.

Mas como não quero maçar (muito) mais, dou aqui a opinião dos 4.

Corte de Espinhos e Rosas – este é o primeiro livro da trilogia que nos fala da Feyre, uma rapariga humana duma família que empobreceu de repente, e desde os 14 anos que ela é o sustento da casa, principalmente através da caça. Qualquer semelhança com a Gata Borralheira não é coincidência, porque ela basicamente faz tudo pelas irmãs e o pai, enquanto eles reclamam da vida. Um dia, numa das suas caçadas, mata um lobo que afinal era Fae, e como resultado tem que ir viver para o mundo das fadas-elfos, e nós passamos a ler a história da Bela e o Monstro. Eu fui para este livro com expectativas muito baixas, por isso tenho a dizer que fiquei surpreendida. Acabei por gostar mais do que estava à espera, muito por culpa da terceira parte do livro que é mais tipo Harry Potter e o Cálice de Fogo. E por causa do Rhysand, que é um personagem com pinta. Acabei por dar 3 estrelas e seguir imediatamente para o próximo. Já vos disse que o Rhysand é xuxu?

A Court of Mist and Fury – no segundo volume as coisas mudam muito de feição. Feyre percebe que há amores que não são para a vida, e pessoas que nos surpreendem pela positiva. O livro continuou a ser interessante, se bem que começaram a existir algumas partes que me maçaram mais. A autora passa grande parte do tempo a descrever a masculinidade dos seus personagens dum modo algo infantil, e isso sobrepõe-se à história. O Rhysand também perdeu parte da sua ambiguidade e amoralidade, e com isso muito do seu interesse enquanto personagem. E para mim ciúmes e possessividade não são sexy, são motivo para passar páginas à frente.  Mas foi interessante o suficiente para eu querer saber o final da história. É célebre o capítulo 55 pelas suas cenas explícitas, que mais uma vez me pareceram um bocadinho infantis. Mas, vamos ao próximo que tudo isto não foi suficiente para me deter. Nem imagino quando este será publicado em Pt-Pt, mas não sustenham a respiração.

A Court of Wings and Ruin – E eis que chegamos aqui e as coisas descarrilam de vez. Já se estava a ver pelo livro anterior o rumo que isto ia levar, mas ainda assim consegui surpreender-me. Passamos a ter aqui um romance da Bianca. A palavra “mate” é dita 202 vezes, contou alguém no Goodreads. Imagino que másculo em todas as suas variantes ainda tenham superado esta contagem. O livro tinha tudo para ser engraçado, batalhas, intriga política, negociação, mas como é feito tudo de forma atabalhoada e infantil e ao fim de alguns capítulos eu já tinha medo que os olhos me caíssem, de tanto os revirar. Temos muito sexo, novamente, mas tudo muito dramático e exagerado. Foi uma festa, mas no mau sentido. Quero também salientar que querer matar toda a gente, desmembrar ou torturar pessoas não torna uma personagem feminina numa mulher forte. O mesmo se aplica a ser mal educada. Depois deste livro seria de esperar que nunca mais conseguiria ler um livro da Sarita, mas como sou profundamente masoquista, peguei logo no volume seguinte.

A Court of Silver Flames – Ora que este livro saiu o ano passado e os ânimos ainda estão agitados. As pessoas que se atreveram a dar poucas estrelas e ser muito verbais nas suas reviews do Goodreads foram trucidadas pela larga comitiva de fãs da Sarita. Eu confesso que já não tenho idade para estas coisas, dei duas estrelinhas e poucas explicações. Mas se investigarem há criticas de 1 estrela muito boas a explicar porque este livro é, como o anterior, mauzinho. Não vos vou maçar com muitas descrições, porque na realidade as razões são as mesmas. Excessivamente infantil e dramático, confunde propensão para a violência e ciúme doentio com força interior e amor assolapado. Mas este junta a isso tudo um péssimo tratamento a pessoas que sofrem de depressão e stress pós-traumático. A personagem principal deste livro, que inicia uma nova trilogia, é Nesta, a irmã da Feyre, que por razões várias que não posso divulgar sofre do que descrevi acima. Isso tornou-a num dos personagens mais enervantes da história dos personagens. Mas que ainda assim não é nada comparado com a maneira como é tratada, ou o seu “assunto” resolvido.

Enfim, desta vez posso mesmo dizer que não vou ler mais nenhum livro desta série, principalmente porque não há mais nenhum escrito. Corro sempre o risco de quando sair o próximo, daqui a uns aninhos, eu me ter esquecido do sofrimento e achar que é boa ideia ler. Espero vir ler este artigo antes.

Desculpem este grande testamento, mas foram 4 livros e muita refilice. Se aguentaram estoicamente até ao final, deixem um comentário com a palavra Sarita.

Até lá, Boas Leituras!

If you follow this blog, you know that I have read a lot of romance books in 2021. I read them until my brain hurt and started complaining he could not take it anymore. So, I decided to start 2022 in a totally different way and read some fantasy. As everyone on social media was discussing the ACOTAR series, I decided to give it a go. And now a pause for everyone who has read these books to laugh at me. I had no idea what these books were about, because I don’t read synopsis, or listen to YouTube about books I want to read, so I had no idea about the plot, except for the fact that it was about Fae. I also knew that people either hated or loved them, but that is a good thing for me, I always like to see where I stand in that.

In reality, ACOTAR is a big romance novel with Fae (imagine fairies mixed with elves). And not only a regular romance, it is an erotic one. Full of very explicit scenes, every other chapter. Sarah J. Maas is totally obsessed with big manly males, with muscles galore, that growl, groan and snarl every chance they gate. And if you have read any of my previous reviews, you know how I feel about that. After the initial shock subsided, I actually read pretty fast, and knocked over the 2500 pages in the first 10 days of the year.

I don’t want to drag this any more than necessary, so below you will find my opinion on the 4 books I read.

A Court of Thornes and Roses – ACOTAR is the first book in this trilogy that talks about Feyre, a human girl from a family that was well in life and suddenly lost everything. Since she was 14, she has been the main provider for the household, mainly through hunting. If you are getting Cinderella vibes, so did I. She basically does everything around the house whilst her sisters spend all the money she earns, and her father is paralysed with depression. One day, when she is out hunting, she kills a big wolf that was actually a Fae and as a result she has to go and live in the Spring Court, on the Fae side of the world, and suddenly we are now reading Beauty and the Beast. My expectations were very low, so I ended up enjoying this book more than I thought I would. Especially because of the last part of the book, that reads more like Harry Potter and the Goblet of Fire, and has some cool trials. And because of Rhysand, which was a very cool character, some kind of amoral goth guy. I ended up rating this 3 stars and picked up the next one immediately.

A Court of Mist and Fury – On this second book things change a lot. Feyre realizes some not all love stories end with happily ever after, and some dodgy people actually turn out pretty ok. It is still an interesting story; however, it starts to be both annoying and boring at times. The author is very thorough in describing the male characters, keeps referring to them as males, powerful males, very big and very powerful males, and this starts to overcome the actual story. Rhysand also loses his mystery aura, and most of his interest as a character. And I’ sorry, but jealousy and possessiveness are not sexy, are scary and make me flip pages like a mad woman. But it was engaging enough to make me want to know how their story ends. Chapter 55 is well known for his explicit sex scenes, but I have to say they were childish and overly dramatic. Still, on to the next one that I am not getting any younger and these books need to be read.

A Court of Wings and Ruin – We have come this far and now things really turn from bad to worse. I could sense from the previous book that this was not getting any better, but I still was surprised that this turned out to be a Harlequin novel. Someone in a Goodreads review went to the trouble of counting that the world mate appears 202 times. I can only imagine how many times the word male (and all its variations) also appears, but I expect it was even more. This book had potential. Battles, political intrigue and fierce negotiations, but it was all poorly executed, to the point of being childish. By the end of the first few chapters I had rolled my eyes so many times I was afraid they were going to fall. There’s a lot of sex, again, but all overly dramatic and exaggerated. It was a treat, only not! Also, being violent, threatening to kill or dismember everyone does not define a strong female character. Neither does being rude and obnoxious. After this book I thought I was really done with Sarah’s books, but as I am deeply masochistic, I had to pick up the next one.

A Court of Silver Flames – This book came out in 2021 and people are still very sensitive about it. Anyone who dared to rate it low on GRs was bullied by the raging fans. I’m too old for this, so I gave it 2 stars and few explanations why. But if you look closely there are a lot of very good 1-star reviews, that reflect what I thought about this book. It was not a good book. I won’t go into much detail, because I do not want to bore you to death, and also the reasons are the same as the last books. But this one also adds to the pot the poor way in which mental health was addressed. The main character is now Nesta, Feyre’s oldest sister, and for many reasons that I will not go into, she suffers from depression and PTSD. She was one of the worse characters to begin with, but the way her issues were handled and “solved” was appalling.

I believe I can safely say I will not read more books from this series, but chances are I will forget how much I disliked how it turned out, and pick it up whenever it comes out. I just hope that when the time comes and check what I wrote here.

Sorry for the long rant, and don’t mind me if you believe you will like the books, or if you have loved them. If you endured till the end, just leave me a comment down below with the word Sarita.

Happy Reading!

Acabei de Ler – Diário da Coreia do Norte

north korea journal

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Não é segredo para quem segue o estaminé que eu gosto muito de literatura de viagem e tenho lido imensas coisas do Michael Palin. Por norma as viagens que tenho lido foram passadas há algumas décadas, por isso foi uma mudança interessante passar para uma tão recente (2018).

Mais uma vez Michael Palin foi convidado para fazer um programa de televisivo de viagens, e este livro é uma compilação das anotações que ele fez no seu diário, uma espécie de complemento e behind the scenes do programa televisivo. Eu já tinha visto o documentário quando passou cá há alguns anos, e tinha achado muito interessante, por isso gostei bastante de ler.

Todos sabemos que as viagens à Coreia do Norte têm uma série de restrições, por isso podemos imaginar que se essa viagem inclui filmagens para uma cadeia de televisão estrangeira, os constrangimentos são ainda maiores. Por exemplo, a equipa andou sempre acompanhada com um conjunto de oficiais de turismo que supervisionavam tudo o que se filmava, e que influenciavam até os planos captados, para nunca passar má impressão do país.

Mas no livro conseguimos ter uma noção maior de até onde vai essa interferência, das dificuldades do país, mas também do dia a dia das pessoas comuns, e conseguimos perceber o esforço que Michael Palin fez para conseguir que os seus interlocutores lhe dessem mais algum retorno para além do discurso oficial.

Este não será o livro mais exaustivo ou profundo sobre como é viver num país como a Coreia do Norte, mas foi certamente um vislumbre interessante numa sociedade tão fechada e manipulada.

Recomendo a todos os amantes de literatura de viagem, e a todos os que gostam de ler sobre realidades radicalmente diferentes da nossa.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Those who follow me know that I really enjoy travel literature and I am particularly fond of Michael Palin. Usually, his travels have been done decades ago, which is not the case with this book, set in 2018. This was an interesting change, as the events leading up to it are so recent. 

Michael Palin was once again asked to do a travel documentary, this time to North Korea, and this book is a compilation of the notes he made on his travel journal, which complements really well the TV show. I had seen it already a few years ago, and could now get some insight to the behind the scenes, the preparation and all the difficulties in filming it, which was really good. 

We can all imagine how restricted and limited a trip to North Korea can be, especially when you are filming a documentary for a western channel. We know we can only see and experience what is allowed, and carefully negotiated. The film crew was always accompanied by a team of minders that worked for the Tourism Department, and that carefully selected the things to see and even the angles in which they could film, to ensure nothing could tarnish their country’s reputation. 

In the book we can understand how far this interference extends, the day-to-day difficulties of the film crew, but we can also see Palin’s efforts in maintaining normal interactions and bringing out the best in people, in order to get something more than the officially approved speech. 

This is not the deepest, most thorough book about life in North Korea, but it was an interesting glimpse into a very closed society, and a book that was very good to read. 

I recommend it to all those that love travel literature, and everyone who enjoys reading about realities very different from ours. 

Happy Reading!

12 Livros Para 2022 (mais coisa menos coisa)

estante

Já aqui falei várias vezes que não sou muito dada a fazer listas de leitura, porque prefiro ler o que me apetece em cada momento, sem sentimentos de culpa. Mas isso não impede que eu eu, como boa livrólica, não goste de ter alguma ideia de livros que gostava de ler num futuro próximo. Vi algumas pessoas a fazer este desafio, de listar 12 livros para o este ano, e achei uma excelente ideia. Não consegui arranjar mesmo 12 livros, fiquei-me pelos 6 abaixo.

Balada Para Sophie, Filipe Melo – A única BD deste autor que ainda tenho por ler. Já comprei em 2020, mas estou a guardá-lo como um tesouro para ler quando conseguir dedicar atenção completa e desfrutar desta obra de arte. Espero que seja já este ano.

Slade House, David Mitchell – Comecei há vários anos a ler os livros deste autor por ordem de publicação. Acho que é o que mais se aproxima do conceito de autor favorito para mim. Os seus livros são histórias independentes, no entanto deixam sempre traços uns nos outros, quer em personagens, quer em pedaços de história. O último que li já em 2019, Bone Clocks, foi tão bom que me fez ter medo de pegar no seguinte e ter uma desilusão. Mas creio que está na hora.

Dune, Frank Herbert – Anda toda a gente a ler por causa do novo filme, e na realidade está no meu Kindle desde que tenho um, ou seja há 10 anos. Juntando a isso a pressão do outro leitor cá de casa, está na hora de pegar nele. Assim haja cabeça para entrar num mundo tão complexo.

Navegador Solitário, João Aguiar – Um dos livros de João Aguiar que comprei no OLX há algum tempo, e que tenho vindo a ler lentamente para saborear. Gosto muito deste autor, principalmente a sua ficção proto-histórica. Mas toda a sua prosa é muito boa, um dos autores subvalorizados da nossa língua. Recomendo muito!

A Trança de Inês, Rosa Lobato de Faria – Escolhi este, como poderia ter escolhido outro qualquer. Na realidade quero muito ler mais livros da Rosa, com o seu ar de senhora dondoca, mas que escondia dentro de si uma prosa escorrida, directa e cheia de humor. Uma maravilha!

Abraço, José Luis Peixoto – Outro dos autores cujo gosto partilhamos aqui em casa. Comprámos este livro quando saiu o ano passado, mas ainda nenhum de nós o leu. Está na lista de livros para serem lidos este ano.

Junto a isto um livro de poesia, um livro de viagens, uma não ficção sem ser de viagens, e tenho a minha lista de desejos completa. Veremos quantos destes consigo mesmo ler.

Até lá, Boas Leituras!

Não Gosto de Contar os Desastres em Detalhe

golgona-anghel

Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbarie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
à medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje, por exemplo, quanto tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
Golgona Anghel

Os Cinco Melhores Livros de 2021

Ora já estamos a meio de Janeiro, mas ainda assim gostava de partilhar aqui os cinco melhores livros que li durante o ano passado. 2021 foi um ano surpreendente, principalmente no número de livros que consegui ler, uns prodigiosos 63. Mas, como é óbvio, nem todos ficaram com lugar marcado na minha memória. Mesmo assim, a grande maioria foi muito prazerosa e vou aproveitar para revisitar os que considero os 5 melhores, sem nenhuma ordem em particular.

Piranesi – Susanna Clarke

Foi dos primeiros livros que li em 2021, e mesmo assim ainda me lembro dele frequentemente. Comprei para oferecer no Natal, sugeri a quem me quis ouvir. Foi o vencedor do Women’s Prize for Fiction de 2021, não surpreendentemente.

É um livro estranho, passado numa casa que não tem fim, com vários andares, quartos, mares e marés, corredores cheios de estátuas e habitada por Piranesi, um homem que a conhece profundamente. É fantasia, mas daquela sem fadas nem elfos, é um thriller de mistério, é sobretudo um livro que nos faz pensar. Se ainda não leram, contemplem fazê-lo.

The Midnight Library – Matt Haig

Mais um livro que me fez pensar. Este dividiu opiniões, houve quem o achasse um “favorito para a vida”, outros acharam-no assim-assim. Eu gostei bastante, achei que tem uma abordagem interessante aos problemas de ansiedade, depressão, saúde mental, e acho que é interessante para ler e nos ajudar a refletir sobre a nossa vida e a dos outros.

The Collected Works – Scott McClanahan

Que pérola de livro. Cheguei a ele por uma recomendação feita no Goodreads a outra pessoa, mas aquela capa não me deixou indiferente. Maravilhoso, é como estar num café com um amigo meio estranho e ouvi-lo falar da vida, e sermos surpreendidos a cada instante. Apesar de ser feito de pequenas histórias, não fui capaz de o pousar até ter tudo lido.

Recomendo muito, vale mesmo muito a pena.

Romance de Cordélia – Rosa Lobato de Faria

Obviamente que tinha que incluir um autor português nesta lista, e o ano passado Rosa Lobato de Faria foi a que mais se distinguiu. Como é que demorei tanto tempo a perceber que os livros desta senhora eram pérolas refinadas que eu precisava mesmo ler. A subtileza, o humor, a clareza da escrita, é tudo maravilhoso.

Este livro em particular não tem uma história muito feliz, mas a maneira como está escrito é muito boa, e prende-nos do princípio ao fim. Aconselho muito a lerem livros desta autora!

Odeio-te e Amo-te – Sally Thorne

Considerando que dos 63 livros que li em 2021, 16 foram romances no sentido estrito, acho que é justo que ponha nesta lista o que eu gostei mais. Há alguns mesmo muito fraquinhos, nem sei o que me passou pela cabeça, mas houve alguns muito engraçados e bem escritos. É o caso deste de Sally Thorne, que me agradou imenso. Foi o primeiro desta autora, e da minha experiência o único que vale a pena. Os dois seguintes eram muito fraquinhos.

Mas descobri com este livro que o enredo que mais me diverte é o de enemies to lovers, e que sabe sempre bem ter um pouco de humor à mistura. No geral foi um livro que dispôs bem, divertiu e que se leu num sopro.

Estes foram os meus livros favoritos de 2021 e que eu aconselho a quase toda a gente. Se lerem, partilhem comigo o que acharam.

Até lá, Boas Leituras!

Acabei de Ler – Luster

Luster

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Começo 2022 com um livro que acabei de ler ainda em 2021, coisa que se vai manter por alguns livros ainda. Conjuntivites, otites e creches fechadas mantiveram-me longe do Goodreads mas não dos livros em si.

Luster foi um livro que descobri num dos muitos Youtubes que vejo sobre livros, e que me pareceu interessante. E, na realidade, não desapontou. Eddie é uma jovem afro-americana de 23 anos a viver em Nova Iorque, com dificuldades em manter um emprego e com um histórico de fazer escolhas duvidosas, ou que não são do seu melhor interesse. Conhece Eric na internet, um homem de meia idade com um casamento aberto e uma filha adotiva também afro-americana. Quando Eddie perde o emprego e o sítio onde viver, a esposa de Eric convida-a a ficar em casa do casal.

A história é suficientemente estranha para ser interessante, e o livro faz-nos pensar muito sobre o que é ser jovem numa sociedade cheia de oportunidades, mas que ao mesmo tempo nos devora, e a dificuldade acrescida de ser negro. Foi muito interessante, e mesmo tendo passado já bastante tempo desde que o terminei, ainda penso nele recorrentemente, o que para mim é a marca dum bom livro.

Recomendo a todos os que gostam de pensar sobre questões actuais com histórias diferentes.

Boas Leituras!

Goodreads Review

I start 2022 with a book I finished reading still last year, and this will be the trend for the following books. Between illnesses and closed day care, I was not able to update my Goodreads, but I did not stay away from books.

I discovered this book in one of the many Youtubes I’ve been watching. It seemed really interesting, and indeed it was. It talks about Eddie, a young African American woman living in New York that is struggling to keep a job and survive in general. She has a long history of making poor choices and sabotaging herself. Then she meets Eric online, a middle-aged man in an open marriage and with a teenager African American adopted daughter. When Eddie loses both her job and her home, Eric’s wife will bring her to their home, and the story goes from there. 

The plot was weird and strange enough to be interesting, and it makes us reflect on how difficult it is to be young in a city equally full off opportunities and threats and that can eat you up. And how being an African American young woman makes everything harder. It was a great read, and even after all this time I still think about it a lot, which for me is the mark of a good book.

I recommend it to everyone who likes to reflect on current affairs, and walk on someone else’s shoes for the duration of a book. 

Happy Reading!

Quase

mario-de-sa-carneiro

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo… e tudo errou…
– Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou…
Momentos de alma que, desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…
Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…
Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Mário de Sá-Carneiro

Projectos para 2022

gfd 5-10-2021

Depois de um ano em que li 63 livros, coisa que não acontecia desde os meus tempos de jovem e inconsciente, que tipo de planos é que posso fazer para 2022 e que não sejam impossíveis à partida? Boa pergunta, eu própria não sei.

Não vou certamente propor-me a ler a mesma quantidade de livros, para depois não andar a escolher os mais curtos que tenho no Kindle só para atingir metas virtuais. 50 é o meu número mais comum, e é por aí que vamos ficar.

Como já acabei os Poirots, também não há nenhuma série recorrente que eu queira terminar. Se conseguir ler mais um volume de Wheel of Time, já me darei por muito satisfeita.

O maior problema é que neste momento estou numa daquelas fases sem inspiração para ler. Estamos em plena época festiva, o que significa bebé em casa. Depois vamos ter uma semaninha de reflexão, que também significa bebé em casa. E bebé em casa significa pouco tempo para ler, como devem calcular. Por isso é difícil ter projectos elaborados. Mas mesmo assim, fica em baixo o que já alinhavei na minha cabeça para 2022.

  • Ler mais um volume da Roda do Tempo, no caso o oitavo volume, The Path of Daggers. Já comecei a ler, mas ainda estou no prólogo, que nestes livros é coisa para ter dezenas de páginas. Mesmo assim, este livro é o mais pequeno de toda a série, com “apenas” 685 páginas.
  • Ler autores portugueses. É uma coisa que faço todos os anos, e que quero garantir que continuo a fazer, há muita coisa boa por aí que merece ser lida. Com certeza pelo menos mais um de Rosa Lobato de Faria, e um físico que tenho aqui de João Aguiar, antes que fique pitosga de vez e deixe de conseguir ler livros em papel sem lupa. Mas as possibilidades são infinitas!
  • Ler as BDs que ainda tenho aqui por casa que não lhes peguei. Já não são muitas, mas ainda há muita coisinha boa por aqui. Estou especialmente interessada em ler Balada Para Sophie, da dupla Filipe Melo/Juan Cavia, que ainda não li porque estou a guardá-lo como um tesouro para quando possa desfrutar em pleno.
  • Ver menos Booktubes. Os vídeos de Youtube sobre livros foram um dos grandes motivadores do meu sprint de leituras deste final de ano, com muitas recomendações boas, e grande impulsionador das largas dezenas de livros que engrossaram as minhas listas de futuras leituras, no entanto consomem muito tempo que podia ser passado a ler as recomendações que já tinha. Por isso vou deixar de seguir criadores de conteúdo com os quais não me identifico tanto, e cujos gostos são muito díspares dos meus. Mantenho os que me divertem mais e me dão mais ideias de leituras diferentes das minhas habituais.

Mas o meu projecto mais importante é abrandar a minha aquisição de novos livros. Em 2021, de cada vez que ficava numa reading slump a minha solução era adicionar uma mão cheia de títulos à minha lista de livros para ler, como se isso me fosse encher de inspiração para voltar a ler. Não só não encheu, como aumentou a minha ansiedade pela quantidade enorme de livros em lista de espera. Não vou fazer como há uns anos e banir-me de comprar livros, mas serei certamente mais criteriosa na selecção de novos títulos. Daqui a um ano logo direi como isto correu.

Desejo a todos um 2022 em pleno, cheio de Boas Leituras!