Livros que Recomendo – Contos do Gin Tonic

gin tonic

Mário Henrique-Leiria já fez umas aparições aqui no Peixinho na Poesia de segunda-feira, mas achei que já estava na altura de recomendar o livro que me fez chegar até ele. Já não me lembro bem qual a história que me trouxe até este livro, no fundo da minha memória está associado a uma amiga muito louca com quem partilhei umas noitadas e o amor pelos livros, mas pode ter vindo de qualquer outra pessoa.

Sem dúvida que A nêspera foi o primeiro poema que me despertou a atenção e que me levou a querer conhecer mais deste autor surrealista.

Mário Henrique-Leiria era um escritor que fazia parte dum grupo  de surrealistas e isso está bem marcado na sua obra. Este livro é um conjunto de contos, mais em prosa que em poesia, mas todos com uma veia fantástica, humorística e satírica, a condizer com o espírito pré 25 de Abril que para se dizer umas verdades sociais e politicas elas tinham de vir mascaradas de algo diferente. Lido nesse contexto, a nêspera pode ser visto como um apelo à acção, a tomar o nosso destino nas próprias mãos, e muitos dos contos que estão contidos neste livros estão carregados de mensagens. Mas acima de tudo dão imenso prazer a ler.

Recomendo a todos os que gostam de literatura portuguesa, de coisas divertidas e diferentes e que se querem deixar encantar.

Se quiserem saber mais sobre o autor têm bons artigos aqui e aqui.

Boas Leituras!

Noivado
Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
– És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia.

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Livros que Recomendo – O Rapaz que Prendeu O Vento

prendeu o vento

Imaginem que nasceram numa pequena aldeia remota no Malawi e que um dos maiores prazeres que têm é ir à escola, aprender e ler tudo aquilo a que conseguem deitar a mão. Depois imaginem que uma seca assola o vosso país, dependente duma agricultura incipiente, tradicional, e que uma fome avassaladora se abate por todo o lado, e os vossos pais deixam de ter capacidade de pagar o vosso uniforme escolar, e consequentemente vocês deixam de poder ir à escola.

Este é o começo da história de William Kamkwamba, que tinha tudo para ser uma história trágica como tantas que vemos na comunicação social diariamente, mas que na realidade é um hino à superação, à aprendizagem e ao engenho humano. William aprende com os livros que lhe vão emprestando na biblioteca enquanto não pode ir à escola, e com os conhecimentos rudimentares de física e engenharia, acaba por desenvolver um moínho de vento que vai trazer electricidade primeiro a casa dos seus pais, e mais tarde à sua aldeia.

Isto fez com que ele fosse descoberto no seu país e internacionalmente, fosse convidado a dar uma TedTalk, e a partir daí conseguiu patrocínios para concluir a sua educação.

Este livro, que me foi oferecido por uma amiga, impressionou-me bastante e eu própria já o ofereci algumas vezes. É uma lição de vida sobre como não desistir em face da adversidade, em como olhar à nossa volta e pensar que tudo são recursos e oportunidades e não obstáculos, e como realmente o lixo de uns são os tesouros dos outros.

Recomendo muito este livro a todos os que gostem de saber mais sobre outros países, outras culturas e realidades, mas que queiram ao mesmo tempo aprender sobre si próprios e sobre as suas capacidades.

Boas Leituras!

O Oitavo Poirot

End House

 

Sempre que estou numa fase em que não sei o que ler, ou sem vontade de ler no geral, como a que estou a atravessar, tendo a recorrer a zonas de conforto, autores que sei que não só dificilmente vão falhar, como também não irão escrever tratados densos de mil páginas.

Obviamente poderia simplesmente fazer uma pausa na leitura, como me disse alguém, mas nem vou comentar isso. Nem faço ideia como ocupar as duas horas diárias de tortura na Carris se não for a ler e a abstrair-me das pessoas. Ler é para mim uma questão de sobrevivência e sanidade mental.

Mas assim sendo voltei a refugiar-me numa segura história do Poirot, a oitava agora que os estou a ler por ordem de publicação, e não fiquei desiludida, antes pelo contrário. Apesar de me lembrar visualmente de já ter visto o episódio na televisão, continuei sem fazer ideia de quem era o verdadeiro culpado, e mesmo quase até às últimas páginas estive em verdadeira expectativa a disparar possibilidades para o ar. Para quem, como eu, tem a mania que é esperta e sabe mais que os autores, foi refrescante ser surpreendida desta vez.

Recomendo a todos os amantes do género, os que gostam de Poirot, e os que gostam de uma boa história para passar o tempo. Em português está editado como Perigo na Casa do Fundo.

Boas Leituras!

Goodreads Review

The Watchmen

watchmen

Depois de ter terminado toda a saga do Sandman, fiquei um bocadinho sem saber o que ler em termos de BD. Claro que tenho muita coisa cá em casa ainda à espera de ser lida, e que entretanto já se compraram mais alguns, mas a mesma amiga que me emprestou os do Neil Gaiman percebeu a minha sensação de perda e imediatamente a colmatou emprestando-me este volume e garantindo-me que eu iria gostar.

Tendo acabado de sair dum mundo tão fantástico e onírico, o choque que senti com as primeiras páginas deste livro não foi pequeno. Ambos são negros, mas Neil Gaiman é mais negro gótico, e este é mesmo negro desespero. Distopia, como seria o mundo se uma série de premissas não se tivessem verificado. Não me senti preparada para uma transição tão abrupta, e deixei-o a marinar um bocadinho na minha estante.

Até que finalmente nestas férias achei que estava na altura de o agarrar de frente, e enfrentar este mundo de super heróis decadentes, tão decadentes e proscritos que a própria BD que se vende aqui é toda sobre piratas, porque ninguém quer ler sobre super heróis. Aliás, de preferência, ninguém quer saber que eles ainda existem, tirando um que ainda pode ter alguma utilidade desde que bem controlado pelo governo, e isolado numa redoma da restante população.

Este livro é a simbiose perfeita entre desenho e argumento. Não consigo imaginar esta história contada de outro modo que não este, e só as múltiplas camadas atingidas com o texto e o desenho nos conseguem transmitir todos os significados que o autor nos queria fazer chegar. Desenganem-se aqueles que estão convencidos que BD é coisa de crianças, ou que o universo dos super heróis é tão linear e insípido como Hollywood nos quer fazer crer.

Estes super heróis são pessoas com algumas características que lhes permitem serem diferentes de nós e lutarem contra o crime de algum modo, no entanto as próprias máscaras que os ajudam a proteger a identidade a partir de certa altura denunciam-nos e cobrem-nos de ridículo. A certo ponto um deles, depois duma cena mais violenta, pergunta contra quem é que eles estão a proteger o público, se dos vilões se dos “bons”. Estes “bons” são pessoas carregadas de defeitos, neuroses, dificuldades sociais e de adaptação e que no momento em que história começa estão não só proibidos de exercer, como começam a ser atacados por uma força desconhecida e mortos um a um. É este o catalisador de toda a série de acontecimentos que se seguem, embebidos numa história mundial e de guerra fria muito complexa, e com imensos sub textos paralelos que eu tenho sérias dúvidas que tenha conseguido abarcar na totalidade.

Aconselho a todos os fãs de BD, mas principalmente aos que não se deixam intimidar por uma história longa, complexa, que é preciso ler com uma atenção que normalmente não associamos a este género de livro. Vão ver que não se vão arrepender, este é um verdadeiro clássico do género.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Também o Que É Eterno

Manuel Resende

Também o que é eterno morre um dia.
Eu tusso e sinto a dor que a tosse traz;
O doutor quer por força a ecografia,
Mas eu não estou pra tantas precisões.

Eu rio à morte com um riso largo:
Morrer é tão banal, tão tem que ser!
Disto ou daquilo, que me importa a mim?
Mas, ó horror, com fotos, não, nem documentos!

A tanta exactidão mata o mistério.
O pH, o índice quarenta…
Não quero as pulsações, os eritrócitos,
O temeroso alzaimer, ou o cancro,
Nem sequer o tão raro, do coração.

Ver o pulmão, o peito aberto, o coração,
A palpitar a cores no computador?
Eu morro, eu morro, não se preocupem,
Mas sem saber, de gripe, ou duma coisa,
Ou doutra coisa.

Manuel Resende, in ‘O Mundo Clamoroso, Ainda’

Foto e entrevista aqui

Livros que Recomendo – Toda a Mafalda

mafalda

Quando era miúda ia passar muitos fins-de-semana a casa dos meus padrinhos. Uma coisa que eles tinham eram imensos livros, um dos quais já recomendei aqui, O Meu Pé de Laranja Lima. Mas também tinham muita BD alternativa dos anos 70, muita obscura de que não se ouviu mais falar, mas a minha favorita era sem dúvida a Mafalda.

A Mafalda é uma menina de 6 anos, que não gosta de sopa e tem uma visão do mundo surpreendentemente actual, considerando que é um cartoon argentino que foi publicado  por Quino de 1964 a 1973. A sua visão política e social é muito apurada, e a interacção com os seus amigos e mais tarde o irmão permitem-nos reflectir sobre problemas importantes da sociedade sempre com uma capa de aparente leveza.

Foi uma daquelas BD’s que eu comecei a ler em pequena e a rir de algumas tiras, principalmente as que relatavam o ódio à sopa, e quanto mais ia crescendo mais ia abarcando os significados que estavam contidos em cada quadradinho.

Já há muito tempo que não leio a minha Mafalda, mas tenho saudades. É um daqueles livros a que recorro quando o cérebro precisa de descanso informado.

Recomendo a todos os que gostam de pensar, divertir-se, rir enquanto pensam sobre coisas sérias, e perceber que embora o mundo evolua muito, se calhar tudo continua na mesma.

Boas Leituras!

mafalda 02

Livros e Música no Fim-de-Semana

Lisb-On 2

Este fim-de-semana que passou eu tinha muitas tentações à porta. Era a já famosa Festa do Livro de Belém, à qual fui pela primeira vez o ano passado, diverti-me muito e acabei por não resistir a comprar um livro do Gonçalo Cadilhe que terminei de ler estas férias.

Mas como sabem o Peixinho está determinado em não comprar livros este ano, por isso tinha de encontrar alternativas. Entretanto era também o fim-de-semana do meu festival de música favorito, o Lisb-on, eu já tinha comprado bilhetes para Domingo há meses e estava animadíssima.

Trocar música por livros, parece-me bem, uma tarde bem passada é sempre uma tarde bem passada. Claro que o que eu não contava é que depois de tanto tempo à espera em ansiedade, na semana antes do concerto apanhei uma bicheza qualquer desconhecida e estive com uma febre baixa mas persistente durante mais de uma semana, e estava bastante debilitada.

Por isso o que se esperava uma festa de dançar sem parar, na realidade tornou-se numa dança de cadeiras. Sentadinha num banco de jardim próxima do Hilside Stage, depois sentadinha na colina a ouvir os dois palcos ao mesmo tempo, depois sentadinha a jantar e a ouvir o palco principal. Depois finalmente um pezinho de dança no palca principal durante Larry Heard, que fez com que quase caísse dentro do wc portátil quando fui fazer um xixizinho a seguir.

Mas valeu a pena, como sempre. É o meu festival favorito porque a localização é muito bonita, central, um jardim de música mesmo. Para o ano espero estar mais arrebitada, e quem sabe conseguir usufruir do jardim da música e da escrita.

Boas leituras!

Lisb-On

Ponto da Situação

estante

Logo no início do ano vim aqui fazer um desafio a mim própria de não comprar nenhum livro este ano, na tentativa de ler os que ainda tenho aqui na estante ao mesmo tempo que me vou desfazendo de alguns que tenho cá por casa e que nunca mais relerei. A situação é grave, já tenho duas filas de livros em frente uma à outra, livros por cima, e espalhados pelo resto da casa.

Eu tenho-me mantido fiel ao desafio, recebi livros pelo aniversário, que já li, mas ainda não comprei nada. O outro Peixe cá de casa já comprou alguns livros, mas ele está livre destes meus desafios, obviamente. Também já li os livros que ele comprou.

O balanço é claramente positivo. Este ano que está longe de ter chegado ao fim, já li 9 livros que andavam por cá na estante a ganhar pó, e alguns já ganharam uma nova casa. O ano passado, por comparação, li 8 livros cá de casa no ano todo. O plano para o resto do ano vai ser continuar a ler livros que tenho por aqui, intercalados com outros, para continuar a dar um rumo mais coerente à minha colecção de livros.

Mas mais tarde, porque neste momento, e contrariamente ao que disse num post anterior, que só era capaz de ler um livro de cada vez, estou a ler um livro no Kindle e uma BD. Comecei pela BD, que é longa e complexa e está a demorar-me mais do que eu antecipei. Como não consigo transportá-la comigo, lá tenho de ler outra coisa no autocarro. O que significa que nunca mais acabo nem um, nem outro. Enfim, há problemas piores.

Boas Leituras!

As Amoras

eugenio de andrade

O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade (porque estamos no Verão, tempo de amoras)