Dezasseis Anos, Talvez

couto

Dezasseis anos, talvez.
Vejo-a, no café, cada manhã,
A folhear, atenta, um compêndio de inglês,
Com um perfume a Escola e a maçã.

Não me canso de a olhar. Às vezes, olha
(Um velho!), num desvio de atenção,
E logo volta a folha,
Enquanto molha
o bolo no «galão».

Eu saio, com pesar, bebida a «bica».
Ela é a minha manhã,
Tão natural, tão clara… que ali fica.

– Que saudades da Escola! Que fome de maçã!

António Manuel Couto Viana, in ‘Café de Subúrbio’

Retrato

rui caeiro

Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem

Rui Caeiro in Livro de Afectos

Livros que Recomendo – Cathy

cathy

Algures no início dos anos 90 começou a ser traduzida para português a BD Cathy, editada pela Gradiva. Nesse Natal eu e a minha melhor amiga oferecemo-nos mutuamente o livro, sem uma saber da outra. Cathy é uma BD que foi publicada nos Estados Unidos diariamente de 1976 a 2010 e reflectia a “mulher real”. Pelo menos uma mulher real com a qual nos podíamos relacionar. Sempre a lutar com o peso, namorados errados, e uma mãe que o que mais queria é que ela estivesse no lugar da Princesa Diana e casasse com realeza.

Muito divertido e escrito com muito auto-conhecimento, estas BD’s proporcionaram-me muitas horas de diversão, até a minha vida ter mudado de direcção e a personagem deixar de se adequar tanto à minha própria realidade.

Ainda devo ter muitos volumes em casa dos meus pais, que um dia gostarei de reler. Creio que na maior parte as piadas já estarão datadas, e mesmo o tipo de desenho já parece muito rústico, mas creio que o espírito divertido de auto-censura ainda se manterá. Para quem não se importa com o inglês, todas as tiras podem ser encontradas aqui, e uma descrição da autora aqui.

Recomendo a todos os amantes de BD e de mulheres reais.

Boas Leituras.

Acabei de Ler – Vénus na India

venus na india

Eu acho que já falei aqui algures que os meus pais tinham uma pequena colecção de livros eróticos (mal) escondidos, e aos quais eu acedi em tenra idade. Este foi um deles, que ajudou a preencher algumas tardes em vez de ver desenhos animados. Encontrei-o perdido na net, e resolvi descarregar para o Kindle e reler.

Este é supostamente um livro biográfico que narra as aventuras do capitão inglês, Charles Devereaux, aquando o seu destacamento na Índia e no Afeganistão, no final dos 1800. A primeira coisa que salta à vista é a escrita delicada, floreada e profundamente vitoriana. A quantidade de pormenores, nomes carinhosos e metáforas é bastante interessante, e está ao nível de alguns contos que eu li naquele livro que comecei, Dentro da Noute, contos góticos, e que falei aqui.

A segunda coisa que salta à vista é que a moralidade vitoriana é muito diferente da nossa, mas que em alguns aspectos se este livro fosse publicado hoje o seu autor seria preso por pedofilia. Talvez seja leitura difícil para quem não se consiga abstrair de como as coisas eram diferentes há mais de um século atrás, em que uma rapariga de 15 anos já estava em idade de casar.

Mas em geral é um livro muito bem escrito, um clássico deste género, e com uma história engraçada. Tem supostamente uma sequela, mas essa não a consegui encontrar em lado nenhum.

Aconselho a quem gosta de literatura erótica, e livros de época.

Boas Leituras!

Goodreads review

Acabei de Ler – Hyperion Tales

shrike

Como falei anteriormente, a minha escolha de leitura tem andado bastante reduzida e muito centrada em Agatha Christie. Mas como tudo o que é demais enjoa, resolvi pesquisar as coisas que tinha perdidas no Kindle e procurar algo que me satisfizesse.

Quem segue o blog sabe que Hyperion, de Dan Simmons, e subsequentes títulos da série, são dos melhores livros de ficção científica que li desde sempre. Por isso nada como “voltar a casa”, que neste caso significa ao Universo de Hyperion, e ler uma compilação de 3 contos passados no mesmo universo.

Estes contos foram uma forma do autor voltar a mostrar-nos o que se passava naquele universo, quer antes dos acontecimentos de Hyperion, quer algum tempo depois do final de Endymion, sem no entanto fazer uma sequela propriamente dita. O primeiro conto, Orphans of the Hellix foi o meu favorito, o que se passa muitos anos depois dos eventos de Rise of Endymion, e foi bonito e triste como deveria ser a despedida deste Universo. Porque é esse o sentimento que fica, de que nos estamos a despedir de um amigo que tanto nos agradou mas que não voltaremos a ver.

Remembering Siri, o segundo conto, esteve quase integralmente incluido em Hyperion, por isso não foi novidade. O terceiro conto, The Death of the Centaur, é talvez o mais biográfico dos 3, já que é uma alegoria contada por um professor de literatura à sua turma numa comunidade rural. Vemos um cheirinho da presença do Shrike, só para nos aguçar o apetite (tal como no primeiro conto, aliás).

Gostei muito, recomendo imensamente a todos os que leram os quatro Cantos de Hyperion. Aos que não leram, sinceramente não sei o que esperam. Ficção científica é tão mais do que naves espaciais aos tiros. Aqui reflecte-se sobre degradação ambiental, religião, filosofia, liberdades individuais versus obediência ao colectivo, política, e muito, muito mais, tudo com um monstro assassino de 4 braços à mistura. Recomendo!

Boas Leituras!

Goodreads Review

 

Hoje Também Não Recomendo Livros

estante

Já há cerca de dois anos que recomendo livros à sexta feira para nos alegrar os fins de semana. Segundo os meus registos já aqui falei de 86 livros, que de uma maneira ou outra me encheram as medidas, me deixaram recordações e que achei pertinente partilhar com os outros.

O ano passado pedi recomendações e recebi excelentes ideias de leitura, por isso este ano pergunto o mesmo. Que livros vos chamaram a atenção nos últimos tempos e que desejam recomendar?

Boas Leituras!

Os Poirots e a Acuidade Cerebral

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Imagem daqui

Pois como os leitores deste espaço já sabem, temos um jaquinzinho de 7 meses cá em casa. E quem já conviveu com essa realidade sabe o impacto que tem no cérebro duma pessoa. Não é só a falta de dormir, se bem que esse é o factor principal, mas também as mudanças hormonais que perduram no tempo, e o facto de termos sempre tarefas para fazer. Para além das prazeirosas, como brincar com o piolho, cantar para ele, temos também fraldas para mudar, sopas para fazer, biberões a meio da noite, e isso faz com que a capacidade cerebral disponível para outras actividades seja muito diminuta.

Já a contar com isso tinha baixado o meu objectivo anual no Goodreads de 50 para 30. O que não contava é que tivesse tanta dificuldade em seguir livros mais elaborados.

Na tentativa de pôr o cérebro a mexer já pus de lado 5 livros:

Glamorama de Brett Easton Ellis: OK, neste a culpa não é só do meu cérebro. Gostei imenso do American Psycho e outros livros do autor, por isso resolvi pegar neste achando que era um valor seguro. Enganei-me. É uma sátira à star culture dos anos 90, mas o constante desfilar de nomes de celebridades aborreceu-me imenso. Ao fim de 39% de livro desisti e não sei se lá irei voltar.

Death by Black Hole de Neil deGrasse Tyson: talvez um livro de astrofísica seja exagerar um bocadinho nesta altura do campeonato. Ainda aguentei alguns capítulos, mas quando adormeci no autocarro a voltar do trabalho percebi que tenho que o deixar para outra altura. Mas irei ler com certeza, porque está interessante e bem escrito.

The Evolutionary Mechanism of Human Dysfunctional Behavior de Ivan Fuchs: tendo o curso de biologia e interesse em ler sobre o assunto achei que este não poderia falhar. Uma abordagem genética à psiquiatria tinha tudo para correr bem. Só que não. Na realidade isto pareceu-me uma tese de doutoramento transformada em livro, e não dum modo muito apelativo. Fica para mais tarde, mais um para acrescentar à lista.

Dentro da Noute, Contos Góticos, compilado por Ricardo Lourenço: este foi aquele em que cheguei mais longe. Uma antologia de contos de escritores clássicos, portugueses e brasileiros, sempre na vertente gótica e macabra. Li todos os portugueses (desde Eça a Florbela Espanca, para nomear os meus favoritos), mas já não continuei para os brasileiros. Culpa inteiramente minha, que me cansei da linguagem antiga e rebuscada. A vantagem de serem contos é que em qualquer altura leio mais um.

Physics of the Impossible de Michio Kaku: mais um de física, que só um não chegava. Um livro onde um conceituado físico analisa vários exemplos de ficção científica para perceber se são impossibilidades científicas ou se com o avanço da ciência virão um dia a ser possíveis. Passamos por Klingons e Harry Potter, e é muito engraçado. Voltarei a ele com certeza.

E pronto, enquanto não melhoro a minha capacidade cerebral tenho sempre os mistérios do Poirot e do Inspector Maigret para me animar. Mas espero voltar a alguns destes livros num futuro próximo. Se tiverem lido algum, digam se vale a pena.

Boas leituras!

Livros que Recomendo – Ghostwritten

david mitchell

Já não é a primeira vez que falo aqui de David Mitchell, já que li alguns livros dele desde que comecei o Peixinho, e até já recomendei o Cloud Atlas. Foi com Cloud Atlas que conheci este autor. Primeiro vi o filme, depois li o livro que achei muito original e entusiasmante, e depois disso resolvemos ler toda a obra do autor por ordem de publicação, o que nos leva a Ghostwritten, o seu primeiro livro.

David Mitchell viveu alguns anos no Japão o que deu um toque muito especial e exótico à sua escrita, que tem muitos temas asiáticos. Este seu primeiro livro é uma colecção de histórias, aparentemente sem relação umas com as outras, mas que facilmente nos apercebemos que um aspecto da anterior passa sempre para a história seguinte. Como diz um jornalista da TVI, isto anda tudo ligado. Mas neste caso não se percebe imediatamente o que liga cada história, e se há algum fio condutor que una todo o livro. Isso vai sendo desvendado ao longo do livro, e tudo está conectado, tal como dum modo mais abrangente toda a obra de David Mitchell se comporta como se fosse uma história gigante.

Foi ao ler recentemente o Bone Clocks que me lembrei deste livro, já que uma entidade presente no primeiro livro está consideravelmente mais desenvolvida no mais recente. Também vários personagens de Ghostwritten vão aparecer mais tarde noutros livros do autor, sempre com outro prisma e com algo mais adicionado à sua história.

Recomendo a todos aqueles que gostam de boas histórias, bem contadas, que nos mantêm agarrados ao livro ansiosos por saber o fim. Também a quem gosta de histórias exóticas e que nos deixam ansiosos por mais.

Boas leituras!