Livros Que Quero Ler – Guards! Guards!

guards guards

Em 2013, por recomendação de alguns amigos no trabalho, comecei a ler os livros de Terry Pratchett, nomeadamente o seu universo de fantasia Discworld. Discworld, porque o mundo aqui é um enorme disco, com cataratas nas margens, que repousa nas costas de 4 enormes elefantes, que por sua vez estão às costas duma tartaruga gigante que nada pelo espaço. É um mundo repleto de magia e fortemente influenciado por ela.

É também um mundo repleto de livros, cerca de 41, com vários subtemas de histórias centrados em diferentes personagens (como a Morte, por exemplo, um dos meus favoritos). Em teoria, não precisa de ser lido por ordem de publicação, pode começar-se pelo início de qualquer um dos subtemas, e seguir por aí. Digo em teoria, porque sendo eu a ligeiramente obsessiva que vocês já conhecem, obviamente que para mim não há outra maneira de ler senão por ordem de publicação.

A grande mais valia destes livros é serem extraordinariamente bem escritos, com um fino e subtil humor britânico, cheios de personagens e situações que nos fazem lembrar a vid real e soam a caricaturas. As personagens e os diálogos são de excepção e eu dei por mim muitas vezes a rir abertamente. Li os primeiros, e até já aqui recomendei o início da série, mas o sétimo livro foi mais fraquinho, e entretanto enveredei por novos caminhos e nunca mais retomei a série.

Mas entretanto Terry Pratchett, apesar de já não estar entre nós, voltou a ser muito falado em 2019, graças à série Good Omens, baseada num livro que foi escrito a 4 mãos, entre ele e Neil Gaiman. Good Omens é outro livro que ainda não li, mas o sururu à volta desta série fez-me ter vontade de retomar o mundo de Discworld, e avançar para Guards! Guards!. Este é não só o oitavo livro deste universo, mas é também o começo do subtema Nightwatch, que me dizem ser um dos melhores, por isso espero grandes coisas.

Sei que estes livros foram traduzidos para português e ainda se encontram alguns à venda, mas não sei se todos e se ainda estão disponíveis, por isso a minha leitura tem sido toda feita na lingua original.

Até lá, Boas Leituras!

Poema

 

Antonio Maria Lisboa

Para o Mário Cesariny

Moveu-se o automóvel – mas não devia mover-se

não devia!

 

Ontem à meia-noite três relógios distintos bateram:

primeiro um, depois outro e outro:

o eco do primeiro, o eco do segundo, eu sou o eco do terceiro

Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começam

Pregões de varina sem peixe

– o peixe morreu ao sair da água

e assim já não é peixe

Assim como eu que vivo uma VIDA EXTREMA.

António Maria Lisboa

Livros que Recomendo – Bad Science

bad science

Ora aqui está um livro que eu acho perfeito para se ler nesta época de pandemia, em que somos inundados de factos que tentam passar como cientificos, mas que muitas vezes não passam de banha da cobra, e onde todos têm uma opinião sobre tudo.

Ben Goldacre é psiquiatra, provém duma família dedicada à ciência, mais concretamente à medicina, e escreve semanalmente no The Guardian, um crónica com o mesmo título do livro, onde tenta desmistificar aquilo que tenta passar como ciência mas que não tem nenhuma aderência real ao assunto. Em Portugal foi editado pela Bizâncio com o prosaico nome de Ciência da Treta, mas não sei se ainda andará em circulação.

Neste livro o autor leva-nos aos meandros da ciência, como são feitos ensaios clínicos, estudos cientificos, como se chegam a conclusões verdadeiras. Ao mesmo tempo mostra-nos com muito humor aquilo que não pode ser levado a sério. Nomeadamente muitas das conclusões e estudos nutricionais que abundam por aí (super alimentos, dietas detox, etc, etc), mas desmonta também muito do jornalismo “cientifico” com que somos inundados, e que não tem ponta por onde se lhe pegue.

Um livro muito simples de ler, divertido, mordaz, mas que nos faz pensar muito naquilo que nos rodeia, ao mesmo tempo que estimula o nosso sentido crítico, e que nos convida a olhar duas vezes para muitos dos “factos” que nos apresentam diariamente, principalmente numa altura como esta.

Se forem crentes em óleos essenciais, terapia de cristais, detoxs estranhos, se calhar vão ficar mais enervados com este livro do que apreciar a sua franqueza, por isso não vos recomendo de todo a leitura. Se forem como eu, pessoas que estudaram ciência mas que a vida vos levou por outros caminhos, e que ficam desiludidos com a falta de rigor cientifico das publicações generalistas que encontramos pela frente, então vão gostar mito deste livro e perceber que não estão sozinhos na vossa percepção do mundo.

Entretanto, Boas Leituras!

Acabei de Ler – Contos da Montanha

contos da montanha

Ainda há pouco tempo vim aqui recomendar o Bichos, de Miguel Torga, e o que me fez lembrar deste livro foi ter começado a ler o também seu Contos da Montanha. Ou se calhar foi ao contrário, agora não consigo precisar. O que é certo é que este livro me acompanhou nas últimas semanas, alguns contos de cada vez, antes de mudar para um novo livro. Porque este livro é assim, um tesouro para ser saboreado aos poucos e nos encher de arte.

Miguel Torga é transmontano, e a montanha que esse livro se refere são as terras altas transmontanas, onde a vida era (e ainda será?) difícil, dura, dependente dos caprichos da natureza, que tanto dá e tanto exige. Cada conto destes é uma pequena porta de entrada para um mundo que se passava no nosso país, mas que bem podia ser na lua. Há histórias duras, diferentes, outras cheias de beleza, mas todas nos marcam de algum modo.

A primeira de todas, Maria Lionça, é fortíssima, uma espécie de Pietá transmontana, e marca logo o tom de todo o livro, dureza, dignidade e beleza.

Gostei muito, consegue perceber-se porque Miguel Torga foi candidato a um Nobel, e recomendo a todos os que gostam de boa literatura, de clássicos portugueses, que gostam dum livro que é para ser saboreado aos poucos. Uma pérola.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Morte na Praia, Poirot #24

Poirot 24

Mais uma vez, com espírito de missão, resolvi pegar no Poirot seguinte para me entreter nos poucos minutos que tenho livres agora. Foi difícil levar esta história avante, pois mal “abri” o livro e vi um pequeno mapa ilustrativo do local onde se passa a trama, percebi imediatamente de que história se tratava, e lembrei-me quem era o assassino. Isso foi um bocadinho desanimador, e quase desisti de ler, mas como tenho que ler estas coisas por ordem para ter algum equilibrio interno, perseverei.

E ainda bem que o fiz, pois já não me lembrava das motivações do crime, e tenho que reconhecer que esta trama está muito bem desenhada. E depois, como em todos os anteriores, é uma delícia ler em inglês e ver pedaços da personalidade da escritora a permear a história.

É uma história simples, um triangulo amoroso, em que um homem casado se apaixona por uma deslumbrante mulher, também casada. Enquanto passam férias todos juntos num pitoresco hotel da costa inglesa, ela aparece morta por estrangulamento numa praia. Suspeitos óbvios não faltam, mas a história, como sempre, não cai em facilitismos.

Recomendo a todos os fãs de Agatha Christie e Poirot, mas também a todos os que gostam duma boa história para estar entretidos nestes tempos de pandemia.

Goodreads Review

Boas Leituras!

6

claudia r sampaio

 

sou desde há muito tempo uma pequena humana anasalada
desvio mesas com as ancas a bater nos bicos
quando são redondas, entorno os copos
quando não existem entorno as ancas
sou desde há muito um holograma de combate
existo mas tenho fome
faço ricochete em pássaros doidos
bebo de almas mal lavadas

sou desde há muito a condição de
um amor sem guerra
entornado numa chávena de
cinco da tarde
bebido por ti
atirado à cara

fica-se assim, uma amálgama de
bocas bonitas que se estendem em
esguelha mas às vezes se perdem
fica-se nos livros e numas botas
que abriram à frente
em recantos que não inspiram confiança
mas que ressuscitam
se não soubermos disso

fica-se em multas e em estado de choque
em dúzias e dúzias de ovos que
estalaram com os nervos
em toques de sobressalto, em partituras
em carreirinhos de formigas, tão lindas
numa pintura do Basquiat

sabes o que é uma alma mal lavada?
são as memórias todas arrumadas em
cinzeiros
abraçadas a beatas,
sem irem à cremação

é saíres da cama, inspirares urgência
e salvares a primeira urina da manhã

Cláudia R. Sampaio in A primeira urina da manhã

Livros que Recomendo – Os Pilares da Terra

pilares da terra

Ora aqui está um livro dum género que não costumo ler muito, que é ficção histórica. Nada contra este tipo de livros, até já aqui falei de João Aguiar que tem uns quantos de extrema qualidade, mas no geral acabo por ler pouco.

No entanto, em 2013 li este “Os Pilares da Terra” e gostei bastante. É um grande livro, de quase 1000 páginas, essencialmente sobre a construção duma catedral numa vila inglesa, e o nascimento do estilo gótico na Europa medieval, mas na realidade está recheado de acção e personagens interessantes e manteve-me agarrada às páginas (do Kindle) até ao final. Ken Follet escreve muito bem,  sabe manter o ritmo duma boa história com reviravoltas inesperadas, e sabe certamente construir personagens interessantes e credíveis.

Em Portugal, por razões editoriais, o livro foi dividido em dois volumes, bem como o seu sucessor “Um Mundo Sem Fim”, livro que está na calha para eu ler, assim que me achar com coragem de atacar um livro com pouco mais de mil páginas. Não será com certeza num futuro próximo.

Recomendo este livro a todos os que gostam de ficção histórica, mas também a quem gosta de mistérios, thrillers e livros que não se conseguem pousar antes de se saber o fim da história.

Boas Leituras!

Livros que Quero Ler – Vernon Subutex 2

vernon 2

Falei aqui há uns tempos no Peixinho dum livro que me foi proporcionado pelo Netgalley, Vernon Subutex 1, um livro fabuloso duma escritora francesa que me tinha sido desconhecida até então. Vernon é dono de uma loja de discos que não se consegue manter à tona de água e vai deslizando pela vida até se tornar um sem abrigo, desaparecendo lentamente da vista e do pensamento de todos os que o rodeiam, até se tornar invisível.

No entanto Vernon é possuidor dum tesouro, sem saber. As cassetes com as últimas gravações de Alexandre Bleach, uma estrela e guru. Todos procuram Vernon e Vernon desaparece (involuntariamente) da vista de todos. Foi um livro interessantíssimo que diz muito sobre nós enquanto sociedade e que nos mostra que andamos todos num equilibrio muito precário, apesar de acharmos que não.

Mas este era apenas o primeiro volume duma trilogia, e os dois volumes seguintes já foram publicados, mas em francês. Escusado será dizer que não é uma lingua que domine. Curiosamente, este livro já está à venda em formato físico em português, mas considerando que comecei a leitura em inglês parece-me esquisito agora mudar. Já tentei comprar a versão em inglês, mas apenas estava disponível para a kindle app e não para o kindle em si. Finalmente, consegui recentemente pedi-lo no Netgalley, mas o pedido está pendente há semanas, por isso não há grande esperança também por aí.

Enfim, 1st world problems, mas que têm dificultado o meu seguimento da série, que espero que esteja para breve.

Até lá, Boas Leituras!

 

Acabei de Ler – Don’t Look Behind You

peter allison 2

É uma realidade que neste momento grande parte de nós está fechada em casa há cerca de 4 semanas. É também uma realidade que neste contexto para mim tem sido difícil conseguir concentrar-me em leituras novas. Por isso resolvi voltar a um conhecido recente, e viajar através dos livros. No início deste ano tinha lido o primeiro livro deste autor, guia de safaris em África, mais concretamente no Botswana. Esse foi mais um país que acrescentei à lista daqueles que gostava de conhecer, se bem que já andava de olho nele há alguns anos (mas é caro… ). Agora, depois de ler este livro, acrescentei também as paisagens inóspitas da Namibia à minha já longa lista de possíveis viagens.

Peter Allison mostra-nos mais uma vez os bastidores dos campos de safaris, desde os mais glamourosos, aos mais perdidos no interior de África, já que na sua vasta experiência ele fez um pouco de tudo para uma das empresas mais conhecidas de safaris em África. Conta-nos episódios caricatos que lhe foram acontecendo nos seus longos anos de experiência, sempre com muito humor. Neste livro foca-se menos nas descrições de animais e mais nas peripécias da vida num campo africano, mas o humor é o mesmo, e a maneira interessante como cada história é contada é o que nos deixa cativados desde o início. Ele é um guia experiente, mas o modo como descreve as suas aventuras faz parecer que é apenas mais um de nós.

Recomendo a todos os que gostam de viajar, aos que planeiam fazer um safari para perceberem um pouco da etiquete recomendada nestes locais para não perturbar a vida selvagem e desfrutar ao máximo a experiência, mas recomendo também a todos aqueles que, como eu, gostam de ler sobre coisas novas e diferentes.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Gosto da Tua Boca

hmp

Gosto da tua boca quando sabe
a chocolate, a vinho tinto de Portalegre,
a mar (é sempre a mesma coisa, tem
de aparecer sempre o mar), pensando
bem gosto da tua boca sempre.

Às vezes a tua boca ri e nada sabe,
ri porque prevê a hora certa da minha alegria.
Também eu mergulho no mar, porém
logo secos ficam meus cabelos quando
me lembro que hoje é outra vez dia de S. Nunca.

Helder Moura Pereira, in ‘A Tua Casa Não Me é Estranha’