A Revolução Informática

Saiu por estes dias na comunicação social que pela primeira vez um livro escrito por um software de inteligência artificial conseguiu passar a primeira fase dum concurso literário. O livro chama-se, muito a propósito, “The day a computer writes a novel”, e tudo isto se passa obviamente no Japão.

E isso deixou-me a pensar. Não sou uma pessoa purista, nem tenho ideias preconcebidas. Não tive qualquer dificuldade em deixar o suporte de papel e passar a ler (quase) tudo em formato digital. No entanto, isto é um salto mental que ainda me custa dar.

Poderemos fazer grandes reflexões sobre o que define arte e literatura, para saber se este livro será efectivamente um trabalho literário na verdadeira acepção do termo. Mas isso levar-nos-ia a uma longa discussão, quase sempre infrutífera, já que outros autores muito humanos claramente também não se enquadram na definição “artistica” de literatura.

Por isso limito-me a dar a minha opinião de leiga. Para mim, cada livro que leio, daqueles que valem mesmo a pena e não são só para passar o tempo, levam-me a longas investigações online sobre a história e contexto do autor para tentar descortinar um pouco mais sobre o que o terá levado a escrever assim. O que o autor viveu, pensou, experienciou, influencia claramente tudo aquilo que ele escreve. Também a sua ideologia passa para o papel, pela qual nós nos podemos deixar ou não influenciar, mas é importante saber que ela está lá.

Por isso parece-me que estes livros escritos em computador são interessantes enquanto exercicio de inteligência humana, e de teste dos seus limites, mas dificilmente me convencerão a ler algum para já. Especialmente quando ainda tenho tantos humanos para descobrir.

Desvios à Leitura – Música

Dias da musica

 

De cada vez que viajamos por cidades europeias aproveitamos sempre para visitar os seus museus. Normalmente de arte mais contemporânea, que é aquela que nos apela mais. Mas depois de alguns anos a viajar, e algumas cidades visitadas parece que o cérebro começa a pedir conhecimento diferente. Em Março do ano passado, depois de quase todo o dia no Museu d’Orsay, acho que ficámos um bocado vacinados e à procura de experiências mais exóticas.

O mesmo se passa em relação à música clássica. Depois de no dia 13 de Março termos ouvido um excelente concerto de Mozart no CCB pensámos que estava na altura de emoções diferentes.

E eis que os Dias da Música no CCb estão quase a chegar e este ano brindam-nos com músicas do mundo. É que parece que foi feito à medida, ou que os senhores da programação ouviram os nossos pedidos. O díficil vai ser escolher entre tudo o que está a disposição.

Recomendo vivamente a todos os que gostam de música. Não só os concertos a que já fui eram bons, como o ambiente que se vive pelo CCB nesses dias é muito especial e descontraído.

Leio Por Aqui – Eucaliptal de Benfica

Leio Por Aqui_Eucaliptal

Quem vê o tempo hoje mal acredita que ainda sexta estava uma magnífica tarde para se estar sentada numa esplanada a ler. Mas na realidade estava um sol que convidava a passar uns momentos de calma e descontracção, mesmo no meio do bulício que é usualmente a minha Páscoa.

Felizmente tenho ao pé de casa um sítio que me permite passar uns momentos mesmo como gosto. Depois de ter estado muitos anos abandonado, o café do eucaliptal foi reactivado há já algum tempo e tem dinamizado uma zona onde por vezes faltam este tipo de equipamentos. Peca talvez por não ser muito barato, e por isso acabo por não ir lá mais vezes.

Mas é muito pacato, e os eucaliptos permitem-nos fazer esquecer que já ali ao lado passa uma estrada com imenso trânsito. Ainda é um segredo aqui do bairro, o nome Koala é o mais indicado a um eucaliptal. Como valor adicional, aderiram ao projecto de mini bibliotecas de Benfica (aqui), por isso quem não traz um livro consigo é só ir lá buscar, na garantia que depois o devolva num dos 10 espaços para o efeito.

Boas leituras.

Tua – Ainda há tempo?

Tua
Estação do Tua – 2014. Foto Peixinho de Prata

Há 2 anos fui dar um passeio pela zona do Douro, e entre muitos outros sitios maravilhosos acabei no Tua. E fiquei deslumbrada com o vale, com aquela linha de comboio muito pequenina lá em baixo.

E as encostas dramáticas com vinhas a perder de vista. E mesmo junto ao rio a estação de comboios velha, com ar deserto cheia de enredos para desvendar. Andámos por ali inspirados a fotografar e a absorver o lugar mágico.

No regresso o coração fica apertado quando se vê as toneladas de betão a rasgar a terra, obras mal amanhadas e criminosas a devastar uma paisagem que se diz património da humanidade, mas que se sente que é apenas instrumento da ganância de alguns.

O lobby do betão está vivo e de saúde, e não se conseguem parar as inúmeras barragens por todo o país. Esta é só mais uma. Mas é uma que está numa zona lindissima, que nos vai fazer perder um património natural, visual e emocional importantíssimo, e estas coisas já não se recuperam. Eu acredito que se restar alguém daqui a umas centenas de anos irão olhar para algumas das nossas decisões actuais com a mesma estranheza como nós olhamos agora para coisas que eram tidas como normais, como a escravatura ou o analfabetismo.

Entretanto, pode não servir de nada, mas eu já assinei esta petição. Faço o que posso, nem que seja só barulho. Os filmes incluidos na página são de cortar o coração e explicam bem o que se está a perder. Tua, uma causa que me deixa emocionada com o sentimento de impotência. Não percebo como esta perde enorme de património deixa toda a gente indiferente, como só alguns parecem afectados. Quando um cão ou um gato facilmente se tornam virais, mas um ecossistema inteiro nos passa ao lado. Amamos uns, ignoramos outros.

Dia Mundial da Poesia

Assim que aprendi a escrever que comecei a brincar com as palavras e a fazer pequenos versos. Creio que a maioria deles perdidos para sempre em cadernos que ficaram na casa dos meus pais. Quando entrei na adolescência a minha madrinha ofereceu-me O Livro em Branco para eu poder registar os fervores da vida que me assolavam. Esse ainda o tenho lá por casa, guardado numa estante.

Quando comecei a crescer e a realmente apreciar poesia, percebi que faria melhor em ler quem percebe do assunto e deixar-me de fantasias. E mergulhei de cabeça, primeiro nos clássicos de Florbela Espanca, e depois por ali fora, devagarinho, saboreando, partilhando com que desfruta do mesmo prazer.

Isto tudo para dizer que na próxima segunda feira dia 21 é o Dia Mundial da Poesia. E que o CCB vai fazer amanhã uma série de actividades ligadas a esse tema, incluindo uma feira do livro de poesia. Programação aqui.

E para celebrar a poesia, nada melhor que Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis, in “Odes”

Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!…
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado…
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira…
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar…
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!…

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho– que amor!…
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor –
Plo menos era o sossego completo… História! Era a melhor das vidas…

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito…

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?…
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo –
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza…

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co’a breca! levem-me prá enfermaria! –
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda…
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo…

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras…
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Mário de Sá-Carneiro
Poemas Completos

Notícias do Espaço Ulmeiro

Já tinha falado num post anteriorsobre a Livraria Espaço Ulmeiro, espaço emblemático em Benfica desde 1969 que está neste momento a lutar pela sobrevivência. Conhecida também por Livrarte, ou livraria do gato à porta, está recheada de história e tem vindo a fazer um esforço estóico, desmultiplicando-se em contactos de imprensa, leilões de Facebook (aqui), entre outros.

Domingo no Publico saiu mais uma entrevista muito completa com José Antunes Ribeiro, o dono do espaço, da editora Ulmeiro, co-fundador da Assirio e Alvim, e principal dinamizador dos leilões online. Está aqui e vale a pena ler.

Assim como vale a pena visitar o espaço, ajudando a que ele não feche.

Perto do Céu

after the wind

Thanks to Netgalley and Good Hart Publishing for an ARC of this book in exchange for an honest review.

Que melhor maneira de comemorar o aniversário do que terminar um bom livro? Não estou a ver.

Eu, que sou uma pessoa que tem vertigens a subir um banco de cozinha, por alguma razão sinto-me muito atraida para livros sobre montanhismo, e quanto mais alta a montanha melhor. Já tinha lido um livro sobre esta tragédia do Evereste, do Jon Krakauer, um livro muito bem escrito que me marcou imenso. Este é mais um relato na primeira pessoa sobre o que se passou, escrito 16 anos depois por um dos sobreviventes, um dos que voltou para trás e por isso sobreviveu.

A tragédia de 1996 foi a maior de sempre até às avalanches de 2014 e 2015, onde morreram 8 pessoas e várias feridas com gravidade. Muita coisa já se escreveu e debateu sobre os eventos que culminaram nesta tragédia, culpas foram discutidas e atribuidas, mas nunca se conseguirá saber com toda a certeza exactamente o que aconteceu.

Quando leio estes livros fico sempre a pensar o que levará uma pessoa a ultrapassar os seus limites dessa maneira, a colocar-se em risco de vida tendo em troca breves momentos no cimo duma montanha sabendo que poderá estar em condições fisicas demasiado fracas para poder apreciar o feito.

Creio que é acima dos 8000m que se chama “death zone” porque literalmente o nosso corpo está a morrer, e não se pode permanecer muito tempo por lá. As descrições que leio são sempre de intenso sofrimento fisico e emocional. No entanto, todos os anos, muitas pessoas continuam a procurar essa “satisfação” pessoal.

É atribuida uma frase a George Mallory, um dos primeiros a tentar este feito, que creio define isto dum modo definitivo: “Porque é que queres escalar o Everest? Porque está lá!”

Goodreads Review

A Espuma dos Dias

Há dias em que a minha cabeça fervilha de ideias, em que o livro que estou a ler se escoa rapidamente como areia pelos dedos ou eu própria podia escrever um livro. E depois há os outros. Os quotidianos e rotineiros. Os que constituem 90% do tempo.

Porque na realidade não se acaba um livro todos os dias, não se lê o dia todo e boas ideias para escrever não são comuns como as estrelas no céu. Durante oito horas há folhas de excel que se atropelam furiosamente à frente dos meus olhos na ansia de chegar primeiro. Há clientes que exigem a minha atenção plena, há tarefas que adormecem todos os centros do meu cérebro que estão minimamente relacionados com a criatividade.

Na vida real, essas 8h diárias são a base firme a partir da qual todos os outros sonhos se constroem aos poucos. Os livros, as viagens, as histórias para contar. Hoje é mais um dia de plataforma, de construção, de trabalhar aqui dentro para poder voar lá fora.

A Terra do Fim do Mundo

Last Tango in Buenos Aires

Thanks to Netgalley and Matador for an ARC of this book in exchange for an honest review.

 
Aqui temos mais uma vez a prova que é preciso mais do que um destino interessante para fazer um bom livro. E este parecia uma receita para o sucesso. Uma viagem pela Argentina, essa terra de promessa e dramatismo, das paisagens inóspitas do fim do mundo que é a Patagónia. 
É um destino que já está vendido à partida para mim, e no entanto soube a tão pouco. Existiram muitos episódios interessantes ao longo do livro, aflorou-se muito sobre a história e as histórias, no entanto os capítulos eram disconexos, não haviam uma sensação de jornada, de caminho percorrido, de intencionalidade. 
Mesmo o próprio trajecto Norte-Sul seguido pelo autor foi dificil de descortinar no meio de tanta inconsequência e a maior parte do tempo eu senti-me perdida geografica e cronologicamente. E o fim foi chocho, sem força. Teve a mais valia de citar um poema de Guerra Junqueiro algures lá pelo meio a propósito de qualquer coisa que não me lembro bem, e aquecem sempre o coração estas referências pátrias.
Portanto, não é um mau livro, mas também não é bom, e de livros mornos estão as prateleiras cheias.