Trump e o Acordo de Paris

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Como já devem ter percebido o Peixinho não é muito de debater política, pelo menos neste espaço. No entanto, se há tema que me deixa com os cabelos (guelras?) em pé é o ambiente, ou que dele fazemos. Por isso foi com profundo pesar que assisti há pouco na televisão ao discurso do senhor acima em que anunciava a sua saída do acordo de Paris.

Resumindo dum modo muito simplista o senhor diz que não quer saber do dito acordo porque isso vai influenciar negativamente os seus contribuintes, e os seus votantes, e fazer fechar fábricas, e nós temos é que tornar a América grandiosa outra vez.

É como se vivêssemos todos na mesma casa e o vizinho do lado insistisse em ouvir música aos berros às 5h da manhã porque só assim é que se conseguia concentrar, independentemente do que o resto do condomínio tivesse decidido. Ou aquele miúdo que acabava sempre a brincar sozinho porque insistia em mudar as regras dos jogos todos sempre que estava a perder pontos. Irritante, não é?

A minha pergunta (retórica, claro) é porque é que nós temos que aturar isto? Antigamente dizia-se que os malucos deviam deixar-se a falar sozinhos. Se o senhor diz que os carros alemães são muito maus, só por se venderem na América, se os mexicanos são muito maus, só por tentarem entrar na América, se basicamente tudo o que entra/se vende/se consome na América que não seja Americano é inerentemente mau, porque raio temos nós de consumir coisas americanas, a começar pelo tempo de antena incessante que ele tem na nossa comunicação social?

Se todos nós deixássemos de ver filmes, séries, ler livros, consumir produtos, ver as conferências de imprensa do senhor. Se não quiséssemos saber o que andam as Kardashians a fazer (eu já não quero, por isso perdia pouco nesse campo), quem perderia na realidade? Se boicotássemos tudo o que vem dos Estados Unidos?

É certo, que como viciados em Netflix, ao principio seria complicado e sofreriamos sintomas de abstinência. E obviamente que teríamos perdas dolorosas e significativas. Mas passado o choque inicial, descobriríamos que o resto do mundo não é o deserto que pensamos e tem, pasme-se, bom cinema, boa literatura, boa fast (e slow) food. E teríamos um resto de mandato Trumpiano muito mais descansado. E quando o senhor finalmente se fosse embora logo poderíamos retomar a normalidade com o que ainda restasse.

Eu estou a brincar, mas isto é sério. Enquanto andamos distraídos com frivolidades nas redes sociais diariamente, o nosso futuro (ou falta dele) desenha-se nestas decisões populistas que não vêem para além do imediato. Para reflectir.

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Animais de São Tomé

Faz hoje exactamente um mês que eu regressei de São Tomé e por isso achei que estava na altura de recordar uma vez mais esta viagem que me marcou tanto.

Como disse sempre  o melhor de São Tomé são as pessoas e as experiências que com elas passámos. Mas eu não seria uma verdadeira Bióloga de formação se não estivesse sempre atenta a todos os bichos que nos rodeavam.

Pessoalmente adoro todos, e só tenho pena de não ter visto mais (as baleias e as tartarugas terão de ficar para uma próxima, mas é sempre bom ter razões para voltar). Tenho também muita pena de não termos levado uma camera subaquática, mas quando voltarmos não repetiremos o mesmo erro. Há vida linda debaixo daquele mar.

Por isso, e para atenuar um bocadinho as saudades, deixo aqui alguns dos animais que trouxe comigo para casa. Mas só em imagem! A maior parte não tem identificação, por isso se alguém conseguir ajudar, melhor ainda. Quase todas as fotos foram tiradas no Mucumbli

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As garças estavam sempre ao pé da praia, tranquilamente à procura de peixe.
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Havia caranguejos de todas as cores, tamanhos e feitios
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Um destes era perito em esconder-se nos meus sapatos de ir ao banho. Passei a sacudi-los cuidadosamente todas as manhãs.
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Uma das muitas aves belissimas de São Tomé.
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Um dos danadinhos que nos acordava às 5h30 da manhã
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Alvíssaras a quem souber a espécie.
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a rola de São Tomé, espécie endémica.
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Um dos poucos búzios que vimos vivos. Na sua maioria vimos cascas vazias e “descascados” à venda no mercado.
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Um corvo-marinho em vôo.
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Um dos inúmeros lagartitos que faziam barulho durante o dia.
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E o caranguejo terrestre que enchia a noite de sons.
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O “falcão” a descansar.
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O “falcão” a voar mesmo em frente ao nosso bungalow…
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… e a dizer-nos até um dia.

 

 

Dia 5 – Uma praia cheia de sorrisos

Acordar no Mucumbli é uma experiência única. Por volta das 5h30 da manhã começa a ouvir-se um ruído como se estivessemos mesmo à beira duma estrada, mas na realidade são apenas os primeiros pescadores que estão a partir para o mar nos seus barcos a motor (ou os últimos a regressar duma noite de pesca de peixe voador). Juntamos a isto a fauna de pássaros e temos uma sinfonia ininterrupta até finalmente nos levantarmos da cama. Muitas manhãs levantei-me mais cedo e fui para o terraço absorver o “fresco” matinal, os sons, os cheiros e apreciar o facto de que finalmente estava em África e no país com que sonhava desde miúda.

Canoas
As canoas a regressar a Neves ao inicio da manhã

Nessa manhã e contrariamente ao que tinha acontecido até aí, a praia não era só nossa. Éramos 7 pessoas no total. Nós, um casal russo, um casal francês e a Ana que tinha vindo ter connosco depois de treinar os burrinhos no passeio. Casa cheia. Como havia gente no areal pudemos fazer snorkelling à vontade sem receio que o nosso amigo patudo do costume nos viesse tentar roubar a mochila. Foi o melhor dia para ver o fundo do mar, até teve direito a moreias. Só saímos de dentro de água por receio de torrar demasiado as costas. E na realidade minutos depois eu acabei por voltar.

E vejo chegar ao longe um grupo de cerca de 20 meninos com a farda da escola a encaminharem-se para a praia. As nossas amigas do dia anterior tinham trazido os colegas para ver as pessoas estranhas que estavam na praia, e melhor, tinham o bónus de ser mais. Como os outros casais não falavam português cedo se desinteressaram deles e ficaram só a fazer-nos companhia.

Primeira tarefa foi apedrejar as árvores. O caroço (carrrrrroço em sotaque local) é um fruto que se come a parte de fora, parte-se o dito cujo caroço e tem uma semente semelhante a uma amêndoa por dentro que também é comestível. Os nossos amigos tinham pontaria e fizeram cair imensos maduros, e quando isso falhou toca a descalçar e a subir às árvores.

A tatuagem da Ana revelou-se entretém para uns largos minutos, eram uns pássaros a levantar vôo e deixou-os fascinados. Tal como as nossas (possíveis) relações familiares. Três pessoas juntas na praia têm obviamente de ter uma relação familiar qualquer para além da simples amizade e a primeira conclusão é que a Ana era nossa filha. O meu desagrado foi bastante vocal, mas caramba, apesar de ser tecnicamente possível eu ser mãe duma mulher de 24 anos, não quer dizer que essa ideia me seja simpática. “Estão a chamar-me velha?”

Depois de muita conversa e brincadeira, os meninos vão todos para a água atirar pedrinhas.  Há muitos anos que eu não brincava assim na água, e resolvi juntar-me a eles com a Ana. O Peixinho Vermelho já tinha tido a sua quota parte de raios solares do dia e ficou à sombra a fazer companhia a um menino caladinho que não se juntava às brincadeiras. Mas foi um desastre total. Por mais que o Rai, o meu novo amigo, me desse as melhores pedrinhas da praia, elas simplesmente se afundavam com um ploc, enquanto ao meu lado a franzina Suzete mandava lindos voos de 5 saltos com as suas pedritas. “Mais força senhora” diziam-me eles a rir. Isso, façam pouco da velhinha, que nem tem força nos braços.

A brincadeira terminou com um merecido banho de mar e muitos risos à mistura. “Vem ao banho connosco, senhora?” As meninas sempre que podiam agarravam-me os cabelos para sentir a textura, tão diferente dos delas. Foi uma risota pegada, e sem dúvida o melhor banho que tomei em São Tomé.

Perto da uma a brincadeira acabou com a urgência de quem terá mães em casa à espera para o almoço e largaram todos a correr em direcção a Neves. Nós voltámos para cima de coração cheio e sorrisos na cara. Não há fotos porque há momentos que são só para viver.

O resto do dia passou-se a desfrutar da vista, do terraço e do calor. Jantar espetada de peixe, acompanhada de banana pão frita. Tudo delicioso como sempre. Mais um dia estava para vir.

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A eterna vista do terraço.
Papaia
As papaias que crescem por todo o lado.
Mucumbli
É sim senhora!

Dia 4 – Descansar e burricar

Depois dum dia de caminhada estávamos oficialmente de rastos. Eu mais que o outro confesso. O calor misturado com os efeitos do comprimido anti-malária tornaram-me uma pessoa muito pouco funcional neste dia. E completamente dependente de ultralevur e imodium deste dia em diante. Mas, como já disse a alguém, pequeno preço a pagar para desfrutar do paraíso.

Depois do já costumeiro pequeno-almoço de fruta fresca, sumo natural e hoje sem ovo por razões acimas descritas, fomos mais uma vez relaxar na praia. Passadas umas horas apareceram 3 meninas com a farda da escola da Irmã Lúcia que nos vieram cumprimentar e investigar, como seres estranhos que éramos. O mais engraçado era a maneira descomplexada como faziam comentários sobre nós entre elas, como se não as pudéssemos ouvir, ou, mais realisticamente falando, completamente desinteressadas do facto de as conseguirmos ouvir. Acabámos a partilhar o nosso lanche com elas antes de voltarmos para cima.

Praia Mucumbli
Eu e um pescador artesanal naquela manhã de praia.

Optámos por ter um dia mais relaxado, e depois da praia e duma refeição ligeira fomos passear pela propriedade que tem muito que ver. O Mucumbli tem um programa de criação de burros com o apoio da Embaixada da Austrália, e pudémos vê-los a passear tranquilamente, a comer ou a recolher a galope ao sítio onde passam a noite. A Ana, estagiária em eco-turismo que estava no Mucumbli por esta altura e que tantas vezes nos fez companhia, está a desenvolver um programa de passeios para crianças com alguns dos burrinhos, mas não chegámos a acompanhá-la.

Depois do passeio o dia acabou da maneira a que já estávamos habituados. Pôr-do-sol no bungalow e jantar cedo com a bela cerveja nacional, Rosema, cuja fábrica era ali mesmo em Neves. O dia seguinte estava já ao virar da esquina.

Flor S Tome
Flor à porta do quarto
Flor S Tome 2
Mais uma das muitas flores que embelezam o Mucumbli
Por do Sol Mucumbli
O pôr-do-sol visto do Piri-Piri
Rosema
Uma Rosema fresquinha para terminar o dia.

Tua – Ainda há tempo?

Tua
Estação do Tua – 2014. Foto Peixinho de Prata

Há 2 anos fui dar um passeio pela zona do Douro, e entre muitos outros sitios maravilhosos acabei no Tua. E fiquei deslumbrada com o vale, com aquela linha de comboio muito pequenina lá em baixo.

E as encostas dramáticas com vinhas a perder de vista. E mesmo junto ao rio a estação de comboios velha, com ar deserto cheia de enredos para desvendar. Andámos por ali inspirados a fotografar e a absorver o lugar mágico.

No regresso o coração fica apertado quando se vê as toneladas de betão a rasgar a terra, obras mal amanhadas e criminosas a devastar uma paisagem que se diz património da humanidade, mas que se sente que é apenas instrumento da ganância de alguns.

O lobby do betão está vivo e de saúde, e não se conseguem parar as inúmeras barragens por todo o país. Esta é só mais uma. Mas é uma que está numa zona lindissima, que nos vai fazer perder um património natural, visual e emocional importantíssimo, e estas coisas já não se recuperam. Eu acredito que se restar alguém daqui a umas centenas de anos irão olhar para algumas das nossas decisões actuais com a mesma estranheza como nós olhamos agora para coisas que eram tidas como normais, como a escravatura ou o analfabetismo.

Entretanto, pode não servir de nada, mas eu já assinei esta petição. Faço o que posso, nem que seja só barulho. Os filmes incluidos na página são de cortar o coração e explicam bem o que se está a perder. Tua, uma causa que me deixa emocionada com o sentimento de impotência. Não percebo como esta perde enorme de património deixa toda a gente indiferente, como só alguns parecem afectados. Quando um cão ou um gato facilmente se tornam virais, mas um ecossistema inteiro nos passa ao lado. Amamos uns, ignoramos outros.

Caminhar com Sentido

Ken Ilgunas_Trespassing Across America

Thanks to Netgalley and Blue Rider Press for an ARC of this book in exchange for an honest review.

Desde que tenho o Kindle que desenvolvi uma preferência por não ficção, especialmente livros de viagens ou ciência. Este livro encerra em si um misto das duas coisas. Por um lado descreve uma jornada dum norte-americano pelo caminho destinado a um novo oleoduto, megalómano como tudo naquele continente. Por outro lado vai-nos levando pelas polémicas do aquecimento global naquele que deve ser o país ocidental que mais nega a sua existência.

É uma jornada ao mais profundo da América da actualidade, ao conflicto de mentalidades naquele país tão bipolar. E é ao mesmo tempo enternecedor. Porque as pessoas são genuinas e multidimensionais e o autor soube retratar bem isso. Ao mesmo tempo, está bem documentado de factos, estudos, correntes de pensamento que nos vai apresentando sem nunca ser entediante.

Escusado será dizer que a minha visão está muito próxima da do autor. É necessário tomar consciência, acção, perceber que gastamos demasiada energia, antes que estejamos no ponto de não retorno (se é que já não estamos). Por vezes é dificil não entrar em desespero, principalmente quando vemos noticias como as da Amazónia, que nunca chegam cá porque estamos demasiado entretidos nas nossas quintas. Mas podem ler-se aquiaqui ou aqui.

Por fim é sempre curioso ver como as coisas são tão culturalmente diferentes noutros sitios. A mim parece-me tão estranho não poder caminhar livremente pelo meu próprio país, observar as belezas naturais. Poucos são os sitios onde não nos é permitido caminhar, onde a figura do “trespassing” está presente. E creio que se passa o mesmo a nivel europeu (o autor aliás menciona isso mesmo). No entanto, na América passa-se o contrário. Tudo está vedado, tudo é propriedade privada onde não se pode caminhar livremente, a ameaça de se ser atingido a tiro é bem real.

Aconselho a todos os que gostam de ler sobre viagens, ciência, o mundo de hoje, questões ambientais. Mas com cuidado, porque dá uma vontade irresistivel de largar a pé até ao fim do mundo.

“When I think about our culture’s addition to fossil fuel, its indifference to the natural world, and the sheer impossibility of any major change happening soon, I can’t help but despair. Almost as depressing as an inevitable collapse is how powerless I feel as an individual.”

Goodreads Review

Running With Rhinos – Ed Warner

Rhinos

Thank you to NetGalley.com and Greenleaf Book Group for the ARC of this novel in exchange for my honest review.

Se há coisa que eu gosto é de ler livros sobre sitios exóticos. Livros de viagens são actualmente os meus favoritos. Se juntarmos a um livro sobre viagens um outro tema interessante, temos o jackpot. Foi o que pensei quando comecei a ler este livro que é sobre as aventuras dum voluntário em projectos conservação de rinocerontes em África.

 Impossivel falhar, pensei eu. Estava errada, descobri penosamente não muitas páginas depois. Ed Warner é um ex geólogo, actual voluntário do programa de conservação de rinocerontes em África, Rhino Ops. É um homem com boas ideias e muitas histórias para contar. No entanto, escolhe fazê-lo da pior maneira possivel. Todas as histórias o têm como personagem central, os pormenores são absurdos e incluem quanto ele pagou por jantares que ofereceu a amigos, e em que denominação eram as notas que lhes deu para fazerem o pagamento. A meio do livro já quase deitava lágrimas de profundo aborrecimento.

 E porque continuei? Porque tenho um pequenino traço obssessivo compulsivo que me obriga quase sempre a levar os livros até ao fim, principalmente quando esperam de mim uma critica. E porque sou no essencial uma optimista que acha sempre que tudo vai melhorar. Não foi o caso. Manteve-se aborrecido, minucioso e presunçoso até ao final.

Recomendado apenas a fanáticos de paisagens africanas que aguentem largas doses de tédio.

Goodreads Review