Seventeen

seventeen

Mais uma vez recorri ao Netgalley para arranjar uma leitura diferente, e este autor, Hideoa Yokoyama apresentava-se como um mestre do thriller asiático. Foi com essa expectativa que comecei a ler este livro, uma investigação às causas dum grande desastre aéreo no Japão, com 520 mortos, o maior até então.

A realidade, no entanto, foi um bocadinho diferente, já que de investigação o livro teve muito pouco e centrava-se essencialmente em office politics, lutas de poder nos bastidores dum pequeno jornal local que ficou encarregue, um pouco por acidente, de cobrir a notícia da queda do avião. Através destas peripécias podemos ter um bocadinho de noção de como é rígida a hierarquia num local de trabalho japonês, como as coisas se vergam a outros interesses maiores para lá de simplesmente relatar as notícias.

Neste livro seguimos Kazumasa Yuuki, um homem de 40 anos, já velho para reporter de rua segundo os padrões da altura, e a sua luta para conseguir gerir o cargo de chefe de reportagem no caso da queda do avião, enquanto batalha com os seus próprios demónios internos que o tornam irascível e de pavio curto.

O livro foi interessante, se bem que por vezes difícil de seguir (não estou muito habituada a nomes japoneses e por vezes confundia algumas personagens), e uma das partes que descreviam no resumo e que me levou a pedir o livro, a escalada duma montanha dificil, quase não aparece.

Boas Leituras!

Goodreads Review

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Man Booker International 2018

Manbooker 2018

 

No passado dia 12 de Abril, quinta feira, foi anunciada a lista de finalista ao prémio Man Booker International, ou seja livros que foram traduzidos para o inglês. De todos eles apenas conheço o da francesa Virginie Despentes, mas gostei bastante e falei dele aqui no blog.

Os outros serão, como é hábito, uma boa sugestão de livros a conhecer, podem saber a lista toda no site oficial aqui.

Boas Leituras!

Terra de Ninguém

Terra de Ninguém

Como já tenho dito aqui, este ano estou numa missão de libertar espaço aqui por casa, “curando” a minha colecção de livros, de modo a manter uma selecção de títulos que faça sentido para mim agora e no futuro, e libertando livros que não entrem nessa linha. Não porque não são bons, mas porque não há espaço para tudo.

Alguns não consigo deixar de reler antes de procurar nova casa para eles, como foi o caso deste. Há algo de único nos autores sul-americanos, no modo como vêm o mundo e como nos transmitem a realidade. Um realismo mágico, carregado de tradições e superstições, que nos envolve e deslumbra.

Este livro de contos dum autor mexicano, alia a isso o facto de se centrar também muito na realidade do além fronteira, do mito da vida melhor que se pode encontrar para lá do Rio Bravo, dos sacrifícios que se fazem, das famílias que se fragmentam, muitas vezes em troca de nada.

Os contos são duros, crus, muito bem escritos, e fazem-nos reflectir sobre uma realidade muito diferente da nossa, mas ao mesmo tempo muito próxima, já que o desejo duma vida melhor, de providenciar para a nossa família, de ter um futuro diferente do passado e diferente do que os nossos pais viveram está muito presente em todas as realidades.

Aconselho a todos os que gostem de livros de contos, bem escritos, e que nos mostrem uma realidade diferente mas próxima. Está neste momento à procura de casa, espreitem aqui.

Goodreads Review

 

A Instalação do Medo

Rui Zink

Imagine que está pacatamente em casa sabe Deus a fazer o quê, quando lhe entram pela porta dentro dois técnicos que vêm fazer a instalação do medo. Como quem instala TV cabo ou outro serviço semelhante, assim se instala o medo em casa das pessoas, por decisão governamental.

Esta é a premissa do livro de Rui Zink, que nos mostra o passo a passo desta instalação e demonstração, que no fundo reflecte a nossa sociedade portuguesa actual e de como estamos reféns duma série de medos, a maior parte das vezes exacerbados pelas redes sociais.

O Carlos e o Sousa são os funcionários que vêm a casa desta dona de casa e mãe instalar o medo (vai ver que é uma categoria) e demonstrar uma série de produtos que vêm com esta instalação. Medo de animais selvagens, de serial killers (mete muito mais medo do que assassinos em série, não concorda?), mas sobretudo medo da crise e dos mercados. Ai, os mercados, essa instituição que ninguém sabe quem é, ou se mesmo existe, mas que serve de justificação para as maiores atrocidades. Quando chegamos ao fim deste livro percebemos, que mesmo sem ter deixado o Carlos e o Sousa entrar nas nossas casas, muitos destes medos se infiltraram no nosso quotidiano , e a cartilha que estes funcionários debitam acompanha-nos todos os dias, está embebida na nossa cultura. Na realidade, sempre esteve, só tem tomado contornos diferentes ao longo das eras. Mas o diferente sempre nos há-de assustar. Que o digam o próprio Carlos e o Sousa.

Vale a pena ler este livro bem disposto, onde verdades vêm disfarçadas de comédia, e se dizem coisas muito pertinentes.

Recomendo a todos os que gostam de livros diferentes, com uma pitada de surrealismo, e em bom português.

Goodreads Review

Instalacao do Medo

Olhos Azuis, Cabelo Preto

Marguerite Duras

Li este livro pela primeira vez há muitos anos e não me impactou. Na realidade acho que não o entendi. Agora, não me quis desfazer dele sem o reler e resolvi dar-lhe uma nova oportunidade.

Na primeira leitura não me tinha apercebido que este livro era um poema. Apesar de já ter vivido alguns desamores e desencontros, na altura não tinha vivido ainda o grande amor, daqueles que preenche o coração todo e que só o pensamento que um dia pode desaparecer nos deixa noites a fio sem dormir.

Por isso este desencontro, esta comunicação difícil e mal conseguida fez  sentido para mim desta vez, e fui capaz de apreciar este pequeno livro como o tesouro que é. Um exercício de reflexão sobre a capacidade de vermos o outro, o que está à nossa frente, para nos focarmos no que idealizamos ou imaginamos e como isso nos faz sofrer.

A acção é cinematográfica e não linear, não é daqueles livros que possamos ler enquanto a televisão debita banalidades em pano de fundo. Necessita da nossa atenção indivisa, sob pena de perdermos não só o fio à meada, como o sentido das frases. A autora usa todas as armas à sua disposição para nos manter agarrados a tempo inteiro, incluindo uma gramática nem sempre fácil de seguir.

Mas, na minha humilde opinião é um livro que vale a pena o tempo que se lhe dedica. É erótico sem ser sexual, é profundamente disruptivo, e mais uma vez me leva a pensar se seria possível passar o crivo da nossa censurazinha politicamente correcta e pudica que assola os dias de hoje (o livro é de 1986) e ameaça tornar tudo um terreno estéril de coisas que não ofendem  ninguém mas também não desafiam mentalidades. Eu sou uma pessoa de convicções fortes, bem marcadas, e por isso mesmo não tenho medo de ler coisas que lhes façam frente e me ponham a pensar e a testar os meus limites, mas infelizmente nem todos pensam assim e hoje em dia domina a corrente: olhos que não vêem, coração que não sente.

Recomendo este livro a todos os que têm, antes de mais, paciência para lerem 95 páginas desafiantes. Depois os que querem ler qualquer coisa que fuja da hegemonia anglo-saxónica. Por fim, os amantes de literatura com um toque teatral.

Se quiserem uma review mais detalhada, podem ver aqui.

Tendo cumprido a sua missão comigo, este pequeno livro está agora à procura de casa nova. Não se esqueçam de espreitar o link para ver quem mais o acompanha.

Goodreads Review

Ele agarra-lhe nas mãos, segura-as encontadas ao rosto.

Pergunta-lhe se são os olhos azuis que a fazem chorar. Ela diz que é isso, sim, acontece que é isso, que pode dizer-se assim.
DSeixa-o pegar-lhe nas mãos.
Ele pergunta quando foi.
Hoje.
Ele beija-lhe as mãos como se fosse o rosto, a boca.
Ele diz que ela tem o perfume leve e doce do fumo.
Ela dá-lhe a boca para beijar.
Diz-lhe que a beije, ele, esse desconhecido, diz: Beije o corpo nu, a boca, a pele inteira, os olhos.
Choram até de manhã o desgosto mortal da noite de Verão.

Rise of Endymion – O Final do Ciclo

Rise of Endymion

Agora que finalmente terminei os quatro livros que constituem o Hyperion Cantos, fiquei com mais questões do que propriamente coisas resolvidas. E as minhas questões são muito simples. Não tenho dúvidas nenhumas que esta foi a melhor série de ficção científica que eu já li, não só pela sua complexidade temática, que abrange desde biologia a filosofia, religião, política, etc, etc, mas também pela mestria com que foi escrita, já que é uma história alucinante. Apesar de se desenrolar ao longo de quatro grandes livros, raras foram as vezes em que achei que o autor estava a ser repetitivo, ou que o que estava a ser relatado era redundante ou supérfluo.

No entanto isso leva-me a duas questões que para mim são relevantes. Porque é que, sendo estes livros tão bons (e não é apenas a minha opinião, o rating no Goodreads é altíssimo para qualquer dos 4 volumes, e todas as pessoas a quem recomendei tiveram a mesma opinião) nunca foram adaptados para série, filme ou qualquer coisa do género. E, questão 2, como é que não há uma tradução para português, nem sequer português do Brasil. Vi nalguns blogs que do outro lado do Atlântico, já em desespero de causa, alguns amantes de sci-fi se juntaram para fazer uma espécie de tradução caseira e tornar o livro mais acessível a quem não domina inglês.

Porque falando dum modo realista, ler sci-fi em inglês é um acto de amor. Por vezes é difícil perceber se estamos perante uma palavra que simplesmente não conhecemos ou se foi inventada pelo autor (e este inventou imensas palavras e conceitos). Felizmente o Kindle, com o seu dicionário incluído ajuda nessa tarefa, mas os primeiros capítulos são sempre tarefa árdua.

Eu tenho uma opinião em relação a isso, claro. Na minha visão, este autor fala de temas muito desconfortáveis, nomeadamente religião, política, e o modo como determinadas instituições são retratadas (e mesmo a espécie humana) não é propriamente numa luz favorável, o que não agrada numa perspectiva hollywoodesca.

Quanto à tradução para português, o problema é sempre o mesmo. Mercado pequeno, inundado de lugares comuns, em que pouco mais se tem para além de best-sellers garantidos, e ficção científica deve vir no fundo da lista de prioridades. No entanto, sei que mesmo assim há mercado, e há lançamentos a acontecer, por isso fica lançado o desafio. Agora, o que eu achei desta conclusão da história?

Para já foi interessante estar a acabar de ler este livro na Semana Santa, sendo que parte do culminar da acção acontece exactamente durante a Semana Santa. Certo que numa versão futurista e distorcida da igreja, mas interessante mesmo assim. Depois foi bom finalmente perceber ligações que demoraram 4 livros a entender (mas o que raio é o Shrike, sendo a principal delas), e saber o final de histórias paralelas sobre as quais apenas tínhamos tidos vislumbres e suposições. Mas o mais impactante é a mensagem que este livro transmite, que é não só ecológica, já que como sempre o Homem tem como instinto dominar toda a Natureza em que toca em vez de trabalhar colaborativamente com ela, mas também a mensagem mais filosófica.

No fundo neste livro fala-se de escolhas. A mensagem transportada por “Aquela que Ensina“, figura central da história, nova salvadora da humanidade, é incrivelmente simples. Escolhe novamente. Apenas isso. Em cada dia, quando recomeçares a viver, escolhe tudo novamente. Se estás feliz com as tuas escolhas (as tuas crenças o teu emprego, o teu companheiro), valida-as novamente e segue sendo feliz. Se alguma dessas coisas não te preenche, não faz sentido, não se enquadra no teu código de valores, escolhe uma coisa que se coadune melhor contigo. Parece simples, não? Juntamos a isso uma empatia universal por todos os seres vivos, e temos uma receita para o sucesso da nossa espécie.

Se fosse assim tão simples… Aconselho a todos os que gostam de ficção cientifica, e livros que façam pensar enquanto nos contam uma boa história.

Goodreads Review

 

Dado Não É Comprado

Presentes

Não sei se estão recordados, mas um dos desafios que coloquei a mim própria em 2018 foi o de não comprar livros, para ver se finalmente dava um destino aos livros por ler que ainda tenho aqui em casa e arranjar espaço na estante para os que se começam a amontoar em todos os recantos disponíveis (cadeiras, chão, em cima de caixas de arrumação onde estão livros técnicos… começa a ser dramático).

No entanto os meus amigos sabem que pouca coisa me faz mais feliz que um livro novo, e neste aniversário encheram-me de mimos e títulos novos. E eu não podia ter ficado mais agradecida, porque isso significa que tenho coisas novas na estante para ler, sem ter feito batota! Ora então vamos ver o que tenho para ler nas próximas semanas:

Everything is Iluminated – de Jonathan Safran Foer. Curiosamente ainda há poucos dias tinha andado a investigar este livro no Goodreads nem me lembro a propósito de quê, e tinha decidido que seria um dos próximos a adquirir, assim que pudesse adquirir coisas novas. Acontece que é um dos autores favoritos desta minha amiga que partilha comigo o amor por Neil Gaiman, e foi assim que me veio parar às mãos. Estou ansiosa para o ler.

O Caminho Imperfeito – de José Luís Peixoto. Dispensa apresentações, é um dos meus autores de conforto e esta aventura passada na Tailândia estava na nossa lista de livros a ler ainda ele o estava a escrever.

Luiz Pacheco Essencial – de António Cândido Franco. Este é o tiro no escuro, mas à falta de originais disponíveis de Luiz Pacheco será pelo menos interessante ler uma boa biografia desta figura tão complexa, e é isto que eu espero que este livro seja.

E pronto, depois virei prestar contas da leitura destes títulos, bem como do progresso do desafio. Para mim não comprar poesia está a revelar-se de longe a tarefa mais difícil, já que este ano parece que os livros de poesia estão a saltar de baixo das pedras e aparecem de todos os lados, só para me afrontar, e cada vez descubro mais autores que queria MESMO ter. Felizmente ainda não me cruzei com nenhum livro de Manuel de Freitas em pessoa, porque não sei se conseguirei resistir. Vamos ver como corre a Feira do Livro este ano… se calhar não corre…

Boas Leituras!

De Novo em Hyperion

Endymion

Há mais ou menos um ano atrás eu li os dois primeiros volumes daquilo que considero os melhores livros de ficção científica com que me cruzei até hoje. Claro que a minha opinião vale o que vale, porque como leitora multigénero que sou, não me cruzei com uma infinidade de livros de sci-fi, no entanto acho que conheço o suficiente para perceber quando estou diante dum belíssimo exemplar.

Hyperion, e a sua sequela The Fall of Hyperion, são espécimes muitíssimo bem escritos, recheados de ideias bem fundamentadas e que nos obrigam a pensar. Mas o facto de terem sido livros tão bons levaram-me a ter alguma reticência em pegar no resto da história, Endymion e The Rise of Endymion, com medo de me sentir de algum modo defraudada.

Mas tendo começado 2018 a um bom ritmo e já com 9 livros lidos, achei que podia dispender umas semanas a saborear o resto da história com calma.

Este primeiro volume, Endymion, começa 274 anos depois dos acontecimentos de Fall of Hyperion, que terminou com a queda da Hegemonia e do mundo como o conhecíamos naquela altura. As viagens interestelares são agora uma sombra do passado, apenas possíveis se dispendermos muitos anos de dívida temporal, e quem governa agora todo o Universo conhecido é a Igreja, através do seu braço armado da Pax, porque são possuidores do parasita cruciforme que confere a capacidade de ressurreição. No meio de tudo isto Aenea está prestes a sair das Time Tombs onde entrou há 250 anos, e é temida por uns e esperada por outros como uma possível futura messias. Raul Endymion é contratado por um personagem nosso conhecido para a acompanhar, e ainda se junta a esta dupla A. Betik, um andróide de pele azul.

Juntos vão embarcar numa aventura por muitos mundos, com muita intriga política e muita especulação cientifica à mistura. Este livro teve alguns momentos mais parados, em que foi preciso alguma militância para continuar a seguir a história e não sucumbir à tentação de pôr o livro de lado, ou intercalar com uma leitura mais leve. Mas à medida que o final se vai aproximando, todas as peças do puzzle complexo se vão encaixando e as coisas começam a fazer sentido, por vezes dum modo espectacular. Há personagens que conseguem surpreender-nos pelas suas atitudes, e outras que mesmo que não nos surpreendam fazem o que é suposto dum modo extremamente competente.

Acaba a meio da história, já que esta segunda prestação vem dividida em duas, e comecei já avidamente a ler o segundo volume, que como seria esperado não retoma no ponto exacto em que este parou.

Gostei, recomendo a amantes do género porque continuamos a abordar temas muito pertinentes à espécie humana, como ecologia, ciência, politica, religião. Porque é que o homem se acha sempre superior a todas as outras espécies e sente que tem autoridade para alterar todos os ecossistemas em que toca, terrestres ou extraterrestres? E para quem pensa que isto está no domínio da ficção cientifica, pesquise terraforming mars ou venus e perceba que a ideia de alterar todo um planeta que existe na sua perfeição há muitos milhões de anos só para ser habitável por uma especiezinha que somos nós é uma ideia que já existe há muitos anos em alguma comunidade cientifica.

Recomendo também a todos os que gostam simplesmente de um bom livro com uma boa história.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Avelina, Criada para Todo o Çerviço

Avelina

Comprei a Avelina na Feira do Livro de 2017, e já isso me faz ter pena de ter decidido não comprar mais livros este ano, porque fiquei cheia de vontade de ter mais livros do Vilhena. A sua mordacidade e sentido de humor, tão brejeiramente portugueses, mas pejados de crítica social e visão global do que se passava no tempo do outro senhor, fazem ler os seus livros um verdadeiro prazer.

Mas quem é a Avelina? Avelina é uma moça pré-adolescente das Bouças, lugar fictício do interior rural português, mas que podia ser qualquer aldeia no final dos anos quarenta, onde se passa fome de rabo e por isso ela é mandada servir numa casa da vila mais próxima a troco de cama e comida. Aí começa a escrever o seu diário, muito livre, que nos vai dando conta das diferenças sociais vincadas, mas também do chico espertismo tão português e tão comum a toda a gente, independentemente do lugar social que ocupam. Vilhena tem um olhar muito aguçado sobre os males da sociedade, mas ao mesmo tempo descreve-os sem pena, sem “coitadismos” e com imenso sentido de humor.

Confesso que este livro me impressionou por dois motivos, não só por estar escrito dum modo muito cru e com graça, mas porque a minha avó materna também cresceu numas Bouças deste Portugal e quando tinha oito anos, consideravelmente mais nova que a nossa personagem, foi servir para casa da professora primária da terra, a troco de educação, comida, cama, etc. Confesso que sempre tive uma visão romântica sobre esse assunto, e este livro fez-me ver as coisas um bocadinho mais próximas da realidade.

O livro é a compilação de três volumes originais que seguem o crescimento da Avelina desde as Bouças até finalmente se instalar em Lisboa, com passagem pelo Porto, mas confesso que o último volume foi para mim o mais fraquinho, talvez pela perda da inocência da nossa protagonista.

Aconselho vivamente, não só porque a edição fac similada da E-Primatur está lindíssima, como já nos vêm habituando, mas porque é um documento dum tempo que já passou mas que não nos podemos esquecer, porque sem nos apercebermos a censura está sempre à espreita, e hoje está tão activa como no tempo da outra senhora, apenas se reveste de outros contornos. Mantenhamos a todo o custo a liberdade de ler o que queremos e pensar livremente.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Poirot – O Mistério do Comboio Azul

Poirot

O Peixinho que é só ligeiramente obsessivo compulsivo, começou há algum tempo a ler/reler os livros do Poirot por ordem de publicação. Li bastantes na minha adolescência, da colecção dos Livros do Brasil, mas agora estou a fazê-lo por ordem e na língua original.

No entanto o quinto volume foi tão fraquinho que me levou a fazer uma pausa de quase um ano até ter coragem de retomar. Mas ainda bem que o fiz porque este The Mistery of The Blue Train foi uma revelação.

Tal como o anterior foi escrito num estilo diferente ao que estamos habituados, dá a sensação que a autora andava em fase de experimentação, mas aqui resultou bastante bem. Temos uma longa descrição de vários personagens, cenários e situações e já o livro vai bem adiantado quando Poirot aparece pela primeira vez. Na realidade ele parece um personagem secundário, pouco importante na história, apenas bem visível para nós que o conhecemos tão bem, e isso empresta mais colorido à narrativa.

Seguimos as personagens e as suas motivações em primeira mão, ao invés de acompanharmos a investigação pelos olhos do detective e isso torna mais difícil fazer o que eu sempre faço que é mandar palpites sobre quem é o assassino. Na realidade mandei na mesma, porque isso faz parte do prazer de ler estes livros, mas desta vez estava sempre a mudar de ideias e foi mais difícil prever o raciocínio da Agatha Christie, que ao fim de alguns livros percebe-se que segue sempre mais ou menos o mesmo arco.

No entanto neste caso fomos sempre sendo surpreendidos e quase mesmo até ao final eu ainda não fazia ideia de quem era o assassino ou de como a história iria encontrar o seu desfecho.

Recomendo para fãs do género e pessoas que gostem duma história bem contada. E agora rumo ao próximo volume.

Goodreads Review

Boas leituras!

Trains are relentless things, aren’t they, Monsieur Poirot? People are murdered and die, but they go on just the same. I am talking nonsense, but you know what I mean.”
“Yes, yes, I know. Life is like a train, Mademoiselle. It goes on. And it is a good thing that that is so.”
“Why?”
“Because the train gets to its journey’s end at last, and there is a proverb about that in your language, Mademoiselle.”
“‘Journey’s end in lovers meeting.'” Lenox laughed. “That is not going to be true for me.”
“Yes–yes, it is true. You are young, younger than you yourself know. Trust the train, Mademoiselle, for it is le bon Dieu who drives it.”
The whistle of the engine came again.
“Trust the train, Mademoiselle,” murmured Poirot again. “And trust Hercule Poirot. He knows.