Trump e o Acordo de Paris

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Como já devem ter percebido o Peixinho não é muito de debater política, pelo menos neste espaço. No entanto, se há tema que me deixa com os cabelos (guelras?) em pé é o ambiente, ou que dele fazemos. Por isso foi com profundo pesar que assisti há pouco na televisão ao discurso do senhor acima em que anunciava a sua saída do acordo de Paris.

Resumindo dum modo muito simplista o senhor diz que não quer saber do dito acordo porque isso vai influenciar negativamente os seus contribuintes, e os seus votantes, e fazer fechar fábricas, e nós temos é que tornar a América grandiosa outra vez.

É como se vivêssemos todos na mesma casa e o vizinho do lado insistisse em ouvir música aos berros às 5h da manhã porque só assim é que se conseguia concentrar, independentemente do que o resto do condomínio tivesse decidido. Ou aquele miúdo que acabava sempre a brincar sozinho porque insistia em mudar as regras dos jogos todos sempre que estava a perder pontos. Irritante, não é?

A minha pergunta (retórica, claro) é porque é que nós temos que aturar isto? Antigamente dizia-se que os malucos deviam deixar-se a falar sozinhos. Se o senhor diz que os carros alemães são muito maus, só por se venderem na América, se os mexicanos são muito maus, só por tentarem entrar na América, se basicamente tudo o que entra/se vende/se consome na América que não seja Americano é inerentemente mau, porque raio temos nós de consumir coisas americanas, a começar pelo tempo de antena incessante que ele tem na nossa comunicação social?

Se todos nós deixássemos de ver filmes, séries, ler livros, consumir produtos, ver as conferências de imprensa do senhor. Se não quiséssemos saber o que andam as Kardashians a fazer (eu já não quero, por isso perdia pouco nesse campo), quem perderia na realidade? Se boicotássemos tudo o que vem dos Estados Unidos?

É certo, que como viciados em Netflix, ao principio seria complicado e sofreriamos sintomas de abstinência. E obviamente que teríamos perdas dolorosas e significativas. Mas passado o choque inicial, descobriríamos que o resto do mundo não é o deserto que pensamos e tem, pasme-se, bom cinema, boa literatura, boa fast (e slow) food. E teríamos um resto de mandato Trumpiano muito mais descansado. E quando o senhor finalmente se fosse embora logo poderíamos retomar a normalidade com o que ainda restasse.

Eu estou a brincar, mas isto é sério. Enquanto andamos distraídos com frivolidades nas redes sociais diariamente, o nosso futuro (ou falta dele) desenha-se nestas decisões populistas que não vêem para além do imediato. Para reflectir.

Rumo ao Sul

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O Peixinho Vermelho fez anos no fim de semana passado e nós resolvemos tirar um dia para descansar e aproveitar uns raios de sol. São Pedro quase que nos estragava os planos, mas manteve-se firme até ao final, e foi simpático connosco.

Acabou por calhar tudo lindamente, porque morando em Benfica, previa-se um fim de semana um bocadinho mais agitado do que gostaríamos, mais a mais com Salvador e Fátima à mistura. E assim fomos rumo a terras de Aljezur. Mais concretamente um monte perdido perto do Rogil, terrinha que nunca tinha ouvido falar, mas que gostei muito de conhecer.

Andávamos há que tempos para ir para o “outro” Algarve, mas na realidade apenas um fim de semana sabe-nos a pouco, porque parecendo que não ainda são cerca de 3 horas de caminho, e uma viagem tão longa merece que lá estejamos mais tempo a desfrutar. Assim o aniversário do Peixinho Vermelho foi a desculpa perfeita.

Sábado fomos em passo de caracol por aí abaixo e fizemos a nossa primeira paragem num cantinho que gostamos muito, que é Porto Covo, para almoçar um belo peixe grelhado. Fomos ao Torreão, o peixe estava mesmo no ponto, bem grelhado e saboroso, os acompanhamentos é que podiam ser um bocadinho mais elaborados. Um naco gigante de couve cozida e espapaçada já não é coisa que se apresente nos dias de hoje, especialmente com tanto pesadelo na cozinha a passar na televisão. O pudim da sobremesa era delicioso.

Passeio pela vila para desmoer, sentadinhos à beira mar a ver as ondas bater na rocha, e lá nos pusemos a caminho que o Rogil ainda estava a mais de meio caminho. O nosso destino, o Monte da Xara, estava perdido no meio da Costa Vicentina, mesmo a seguir a uma terrinha chamada Azia. Valeu-nos o são GPS para lá chegar, mas valeu bem a pena.

O Monte da Xara é encantador, um oásis de calma e silêncio, uma casinha muito bem decorada, muito funcional, a 10 minutos de praias fantásticas e um pequeno-almoço digno de reis. E claro, a D. Isabel tem dois cães absolutamente maravilhosos, o Mar e a Nala, que sempre que lhes apetece nos vêm fazer uma visita, pedir festas e ver se temos petisquinho para lhes dar.

No dia em que chegámos já estava o dia no final e pouco mais fizemos que passear a pé pelas imediações e deitarmo-nos preguiçosamente no alpendre a apanhar sol e a fingir que líamos. Na realidade acho que passámos pelas brasas. Fomos cedo para dentro de casa, porque apesar de longe ainda havia quem quisesse ver o Benfica ser campeão, e temos de respeitar esses desejos. Essa foi a parte mais engraçada, ver pela televisão todo um  mundo de loucura pelas vitórias nessa noite, e nós virmos até ao alpendre escutar o barulho das rãs nos charcos, que era a única coisa que se conseguia ouvir na noite algarvia. O sossego é uma coisa maravilhosa.

O domingo e a segunda foram muito semelhantes. Fomos até à praia do Vale dos Homens, recomendada pela D. Isabel, a nossa anfitriã, que no auge de ocupação tinha umas 10 pessoas, e aproveitamos a maré baixa para ir até à praia deserta do lado e ficar por lá a torrar ao sol e a tomar banhos de mar numa piscina improvisada. Três dias de Costa Vicentina deram para recarregar baterias para mais umas semanas de trabalho intenso.

Pelo meio ainda conseguimos encaixar uma visita a Aljezur a à praia da Amoreira. Bonitos, mas estávamos mais virados a isolamento. Uma coisa que achei curiosa e me deixou com esperança na humanidade e na sua capacidade de fazer escolhas e encetar lutas, foi que um pouco por toda a parte, nas estradas, nas paredes das casas se podiam ver cruzes vermelhas a dizer não ao petróleo e gás natural no Algarve. E estando na beleza natural daquelas praias selvagens, que ainda esta semana a Conde Nast classificou como um dos melhores lugares do mundo para fazer caminhada em trilhos naturais, parece-me incrível que sequer se pense em trocar uma coisa absolutamente irrecuperável, que pode durar gerações, por um punhado de dólares que vai para o bolso dos mesmos do costume.

Como sempre, estamos distraídos com o nosso fado e futebol, e quem pode faz pela calada, e quando um dia realmente dermos por isso teremos este tesouro irremediavelmente destruído. O Vale do Tua já foi, quanto tempo restará à Costa Vicentina?

E assim deixo as fotos possíveis, mas que vos inspirem a ir até lá, ou pelo menos a estar atentos àquilo a que ninguém quer que estejamos atentos, as decisões que dizem respeito ao nosso futuro e que estão a ser tomadas nas nossas costas.

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O alpendre do Monte da Xara
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Deitados a ver o céu
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A praia de Vale dos Homens
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A vista cá de cima
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As poças de água e os seus tesouros

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O nosso spa
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A praia da Amoreira, mais perto de Aljezur, mais acessível e com apoio de praia. 
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Há que lutar!

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Por Aldeias de Xisto

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Uma rua em Gondramaz

Como já referi em vários posts anteriores, este ano vai ser a oportunidade de ir para fora cá dentro. No fim de semana passado os planos eram passar pelo Porto para ver a exposição de Miró em Serralves que já vos tinha sugerido aqui, e depois rumar até Bragança para passarmos uns dias imersos no Parque Natural de Montesinho, sítio onde estive há alguns anos atrás e onde desejo muito voltar.

Infelizmente uma crise muito grande de coluna há umas semanas deixou-me imprópria para consumo, caminhadas longas, e longos percursos de carro. Aliás, até bem perto do fim de semana nem sabia se conseguiria sair da cama, mas finalmente, com ajuda de muitos analgésicos lá voltei ao mundo da mobilidade e fomos até Penela, para um hotel já nosso conhecido, para uns dias de descanso à beira duma piscina rodeada por rãs verdes e momentos de zen.

No primeiro dia resolvemos ir explorar um bocadinho a região e fomos dar a uma aldeia de xisto próximo de Miranda do Corvo, mesmo no cimo duma encosta da Serra da Lousã, chamada Gondramaz. Muito diferente das aldeias que eu conheço na zona, principalmente pela cor do xisto que aqui é mais avermelhado, é uma aldeia encantadora, super arranjadinha, cheia de percursos pedestres e mesmo um centro de BTT. E, apesar de muito pequenina, tem dois turismos rurais com um ar muito interessante.

Mas nós fomos até lá para eu apanhar um bocadinho de sol e ar de montanha depois de tanto tempo fechada em casa, e ao mesmo tempo para almoçarmos num sítio catita, porque andamos sempre à cata de sítios onde se coma bem com boa vista. No final da aldeia temos o Pátio do Xisto, restaurante pequeno e com ementa exclusivamente feita de pratos do dia. É preciso ir de mente aberta para este restaurante. A senhora tem o que eu chamaria de “simpatia serrana”. Eu, que passei os verões na Serra do Açor, mesmo ali ao lado, estou perfeitamente habituada a ouvir comentários como: não queria a tua saia nem dada para ir ao mato, de pessoas da minha família, por isso os modos directos da dona do restaurante não nos chocaram minimamente, mas pude ver pelos comentários do trip advisor que algumas pessoas ficaram mais melindradas.

A chanfana foi das melhores que já comi num restaurante e sinceramente fez-me lembrar a da minha avó. A única diferença é que a caçoila não era de barro preto mas vermelho. Mas sinceramente quando me lembro ainda me cresce água na boca. A sopa era normal, e as sobremesas também não estavam mal. Com tanta medicação apenas bebi uma águinha, mas ouvi dizer que os vinhos eram bons. Sinceramente, só aconselho a quem esteja alojado na aldeia, porque a estrada sinuosa precisa dos sentidos bem alerta. E no final a conta foi muito simpática.

O resto da tarde foi passada à beira da piscina a aproveitar o sol que fez o fim de semana passado envergonhar este. Não consegui não ficar enervada por ver 2 pessoas a tarde toda a guardar 9 cadeiras de piscina, não deixando mais nenhuma vaga para as pessoas que chegavam, e para pessoas fantasma que nunca chegaram a aparecer. Sinceramente não percebo a fobia que os portugueses têm a ficar uns minutos sem cadeiras. Sempre nestas situações, ou em centros comerciais cheios, acumulam cadeiras como se fosse um bem precioso que fosse acabar a qualquer momento e que toda a humanidade dependesse disso, e eles, machos e fêmeas alfa e muito mais espertos que os outros mortais, sobrevivessem rodeados de cadeiras vazias.

Enfim, normalmente ter-me-ia sentado no chão sem problema, mas as costas não mo permitiram. Felizmente apanhamos um casal a ir embora quando saímos da piscina e pudemos sentar-nos tranquilamente sem ter de perturbar os acumuladores e tudo terminou em bem.

O resto do fim de semana foi passado em serena tranquilidade Penelense, entre piscina com relas e D. Sesnando, como quem revê velhos amigos. É sempre um prazer voltar e ser tão bem recebido.

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Mesmo à entrada da aldeia de Gondramaz está esta casa de sonho, com um poço e tudo. 
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As casas do largo
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Um pouco por toda a aldeia podemos encontrar estas esculturas nas paredes das casas.
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A vista do Pátio do Xisto
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Chanfana… hum…
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A piscina das relas no Duecitânia… 

Passeata na Tapada

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Pois quem anda pelo Peixinho já percebeu que isto é tanto um blog de livros como de passeata, e foi isso que aconteceu mais uma vez este Domingo. Depois de alguns fins de semana mais caseiros por causa duma constipação/asma que teimavam em não me deixar em paz, este Domingo resolvi que, mesmo que tossisse os pulmões para fora do peito, estava na altura de caminhar na natureza.

Conseguimos um voucher do Sapo para a Tapada de Mafra, sítio onde marcamos o ponto pelo menos uma vez por ano, e que dava direito a um percurso 360º, incluindo um atelier de apicultura, uma demonstração de aves de rapina e um percurso pedestre.

A ideia inicial era fazer um percurso de 8km, mas como eu queria terminar ainda com pulmões, e eventualmente vir dormir a casa, tivemos de optar por uma solução de compromisso, e dar uma volta a pé pelos caminhos principais, menos íngremes, mas não menos interessantes. No final do passeio o podómetro do Peixinho Vermelho marcava um pouco mais de 7km, por isso parece-me missão cumprida. O meu podómetro marca 12km, mas sendo do chinês tenho as minhas dúvidas.

O melhor da Tapada, para além de ser pouco humanizada e dar para fazer uns percursos pedestres engraçados como se estivéssemos no meio do mato, é que se formos silenciosos (coisa difícil para a maioria das famílias com que nos cruzamos, facto) conseguimos ver imensa fauna, porque os senhores do parque alimentam-nos perto do caminho. Ontem vimos um gamo, veados e javalis. Os machos são muito engraçados e olham-nos duma distância considerável, a tentar perceber se vão investir ou passar ao largo. Felizmente para nós, até hoje optaram sempre pela segunda opção, e ficaram a comer alegremente, sempre de olho em nós não fosse necessário tomar medidas a qualquer momento. Era mútuo, nós também não tirámos os olhos deles e das hastes do senhor veado, que aquilo ainda tem ar de poder aleijar.

Final do passeio ainda teve direito a paragem na Malveira para comer umas trouxas do Oeste, que há que repor as calorias gastas a caminhar. A Tapada é daqueles tesouros mesmo à porta de casa, que por uns tostões nos providencia horas de contacto com a Natureza. Vale a pena.

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Os veados no ínicio da refeição

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Uma ponte para um dos caminhos secundários que não pudemos seguir
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Calmamente a ruminar depois do almoço
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As trouxas do Oeste. Alguém comeu duas, mas não fui eu 😉

Livros com muita vida

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Já aqui falei várias vezes que a maioria dos livros que ainda compro é em alfarrabistas, mesmo quando o faço na Feira do Livro, e são várias as razões que me levam a fazer isto.

Primeiro porque acho que os livros em Portugal são muito caros, falta-nos a figura do paperback baratinho e acessível de transportar. É um dos defeitos de sermos um mercado ridiculamente pequeno, se não compensa investir em autores diferentes, muito menos em formatos diferentes para o mesmo autor.

Mas também por uma questão de reciclagem. Sou uma recicladora activa (e activista, sempre a arengar sobre o assunto), por isso também nas letras me parece relevante fazer o mesmo. Não me faz confusão nenhuma não ler um livro assim que sai (ok, não desde que me passou a febre do Harry Potter), e fico com uma certa satisfação interna ao pensar nas árvores que foram poupadas.

Foi pois com muita satisfação que esta semana li esta notícia que nos diz que o negócio de compra e venda de livros escolares em segunda mão tem crescido imenso nos últimos anos. E isto com vários desafios acrescidos como pedir aos petizes que deixem os livros em bom estado no fim do ano, esperar que as escolas e as editoras mais uma vez não troquem as voltas aos pais que tentam poupar algum (significativo) dinheiro no orçamento familiar. Este é sem dúvida um tema/debate que nos levava longe e que não se esgotaria nas linhas deste blog, mas fico contente por ver o esforço que as pessoas fazem em aproximar vontades quando necessário.

Animais de São Tomé

Faz hoje exactamente um mês que eu regressei de São Tomé e por isso achei que estava na altura de recordar uma vez mais esta viagem que me marcou tanto.

Como disse sempre  o melhor de São Tomé são as pessoas e as experiências que com elas passámos. Mas eu não seria uma verdadeira Bióloga de formação se não estivesse sempre atenta a todos os bichos que nos rodeavam.

Pessoalmente adoro todos, e só tenho pena de não ter visto mais (as baleias e as tartarugas terão de ficar para uma próxima, mas é sempre bom ter razões para voltar). Tenho também muita pena de não termos levado uma camera subaquática, mas quando voltarmos não repetiremos o mesmo erro. Há vida linda debaixo daquele mar.

Por isso, e para atenuar um bocadinho as saudades, deixo aqui alguns dos animais que trouxe comigo para casa. Mas só em imagem! A maior parte não tem identificação, por isso se alguém conseguir ajudar, melhor ainda. Quase todas as fotos foram tiradas no Mucumbli

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As garças estavam sempre ao pé da praia, tranquilamente à procura de peixe.
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Havia caranguejos de todas as cores, tamanhos e feitios
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Um destes era perito em esconder-se nos meus sapatos de ir ao banho. Passei a sacudi-los cuidadosamente todas as manhãs.
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Uma das muitas aves belissimas de São Tomé.
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Um dos danadinhos que nos acordava às 5h30 da manhã
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Alvíssaras a quem souber a espécie.
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a rola de São Tomé, espécie endémica.
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Um dos poucos búzios que vimos vivos. Na sua maioria vimos cascas vazias e “descascados” à venda no mercado.
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Um corvo-marinho em vôo.
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Um dos inúmeros lagartitos que faziam barulho durante o dia.
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E o caranguejo terrestre que enchia a noite de sons.
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O “falcão” a descansar.
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O “falcão” a voar mesmo em frente ao nosso bungalow…
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… e a dizer-nos até um dia.

 

 

Dia 10 – Voltar para casa e as 7 razões pelas quais havemos de regressar a São Tomé

E finalmente chegou o último dia. Já não temos nada planeado a não ser uma vontade inabalável de visitar o mercado e levar coisas boas. Partimos nessa direcção de manhã muito cedo decididos a aproveitar o dia ao máximo.

O mercado é tudo o que esperávamos de caos e alegria. Toda a gente nos incentiva a comprar, por vezes de modo fisico. Já íamos avisados que os vendedores não gostam de ser fotografados, por isso nem tentámos, limitámo-nos a absorver a experiência e a fazer as compras que tínhamos planeado. Conseguimos trazer banana pão e uns limões que se parecem com limas e sabem a qualquer coisa intermédia. Óptimos. Compras feitas resolvemos começar o passeio pelas ruas da capital.

Sendo domingo de manhã as ruas estavam quase desertas porque as pessoas estavam numa das muitas igrejas que enchem a ilha. Foi um passeio tranquilo, mas muito dificil, porque estava um calor sufocante que nos fazia ficar cansados a cada 10 passos. Exaustos e imundos, resolvemos voltar para a Guest House com almoço, e passar o resto da tarde em leve-leve.

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A vista da baía. 

Como já disse inúmeras vezes o melhor desta experiência foi as pessoas que conhecemos. E assim passámos o resto do dia, na conversa com o Edner, dono da Guest House e, surpreendentemente, antigo colega de Geologia. Com o Wagner, alemão que tem como missão ir a todas as capitais do mundo antes dos 50, e com quem trocámos muitas ideias de percursos e passeios. A ele se deve o facto de agora considerarmos Cabo Verde como um destino a conhecer no futuro. A Isabel e a Rosário também se juntaram a nós para contar aventuras desse dia e das experiências anteriores em São Tomé e no mundo. Definitivamente saímos mais ricos desta experiência.

E, para culminar em beleza, o Domingos apareceu por lá com uns mimos da terra para trazermos connosco. Banana-maçã, docinhos, banana-pão e fruta-pão fritas, coisas deliciosas e um lindo ramo de rosas de porcelana que me acompanhou por muitos dias. Memórias que vão ficar.

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O terraço da Sweet Guest House, lugar de descanso e confraternização. Já tenho saudades.
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Um disputado jogo de bola domingueiro. Por cada 3 passes, 2 minutos de discussão sobre a validade do lance. Igual em todo o lado! 
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Os miminhos que trouxemos de São Tomé. Uns comprados, outros oferecidos, todos deliciosos!

É um sítio onde quero muito voltar, por muitas razões, muitas delas dadas pelo Edner ou pelos outros viajantes com quem trocámos impressões. Porque é que queremos voltar a São Tomé?

  1. Visitar a ilha do Príncipe. Todos os que a visitam dizem que a sua beleza é ainda mais deslumbrante que a de São Tomé, e só questões de orçamento (ou falta dele) nos impediram de ir até lá desta vez. Mas falámos com um casal que tinha lá estado numa pensão na capital (evitando o unico e caro resort da ilha) e que recorriam a um motorista para se deslocarem e dizem que assim ficou muito mais em conta. A considerar na próxima viagem.
  2. Ver baleias e tartarugas: desta vez fomos na época da gravana para evitar o calor extremo mas isso impediu-nos de ver este lindissimos animais. Mesmo as tours de barco eram mais escassas porque se acredita que há menos para ver. Peixinho que se preze adora andar de barco e eu não sou excepção, por isso terei de colmatar essa falha.
  3. Visitar o Ilhéu das Rolas: porque é um marco importante. Aparentemente o Equador cruza-se com o meridiano de Greenwich na ilha e isso é um marco a não perder.
  4. Fazer snorkelling junto ao Ilhéu das Cabras: mais uma dica que nos deram, dizem que é fácil de arranjar alguém que nos leve lá, e que é como nadar dentro dum aquário.
  5. Ver os mangais no rio Iô Grande: mais um passeio de barco, pois claro. Mas este para entrar dentro do parque natural do Obô via rio e observar a avifauna, as árvores, todas as maravilhas do interior selvagem da ilha.
  6. Voltar onde fomos felizes: e isso claro significa os sítios onde nos sentimos bem, acolhidos e que nos deslumbraram. Portanto regressar a São Tomé significa obrigatoriamente passar pelo Mucumbli e pela Sweet Guest House e desfrutar de tudo o que têm para oferecer.
  7. Ultimo e mais importante: Viver a vida em leve-leve. Este é o ensinamento que levo daqui que espero aplicar na correria diária de Lisboa.

Até breve São Tomé!

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Viver a vida leve-leve.

 

Dia 9 – As lindas praias do Sul

Este dia começou cedo porque o caminho para o Sul era longo. Felizmente as estradas estão melhores, pelo menos na maioria do percurso. Quando o Domingos chegou para nos vir buscar já nós tinhamos dado um salto à cidade para beber um café. Nada como começar o dia bem cedo e aproveitar todos os minutos. Os santomenses, tanto quanto nos foi dado ver, são muito empreendedores e em cada espacinho fazem uma quitanda onde vendem de tudo um pouco. Os manequins femininos que haviam mesmo ao pé de nós no meio da rua eram deliciosos, com um traseiro de fazer inveja a qualquer modelo europeu escanzelado.

Mas lá fomos em direção ao tão famoso sul de que toda a gente nos falava como ex-libris da beleza, ficando só atrás do Príncipe. A estrada pelo menos começou bem, porque era a melhor que já tínhamos feito e as minhas costas puderam ter um bocadinho de alívio.

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Como sempre, em cada bocadinho de água doce há gente a lavar roupa.

Passámos pela Roça Água Izé sem parar, vimo-la apenas da janela do carro. A nossa primeira paragem nesse dia foi na Boca do Inferno. Diz a lenda que a D. Amélia que se perdeu na lagoa com o mesmo nome veio sair aqui na Boca do Inferno. Creio que é da praxe haver sempre uma história fantástica com estes sítios de beleza selvagem.

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Boca do Inferno
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Ainda a Boca do Inferno

O dia ainda era jovem e banhos viriam mais tarde, seguimos para a praia das Sete Ondas, que como o nome indica tem umas ondas muito bonitas e regulares. Se não tivéssemos guia nunca conseguiriamos dar com estes sitios, porque não estão assinalados e simplesmente se sai da estrada para um bocadinho de terra batida, estaciona-se o jipe e chega-se a uma bela praia onde não está ninguém para além de nós e possivelmente umas crianças.

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Praia das Sete Ondas
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Praia das Sete Ondas

Mais uma vez pusemo-nos a caminho, ainda havia muito para ver e o dia tinha de ser bem aproveitado. Próxima paragem Ribeira Peixe. Esta foi a paragem mais estranha, porque entrámos dentro duma aldeia cheia de gente, principalmente miúdos, e ainda tivémos de andar a pé por uns caminhos onde escorria uma água que eu prefiro não pensar muito no que seria. As crianças aqui tinham novamente um ar apático e extremamente pobre, e até os meus elásticos de cabelo que trago sempre no pulso causaram fascínio. Lá ficou o elástico e algumas canetas que trago sempre comigo para tentar animar algumas daquelas caras. No final, a beleza da cascata não apagou a pobreza daquelas caras.

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A praia em Ribeira Peixe
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A cascata.

De novo no jipe, que havia ainda muita coisa para ver. Mais à frente começamos finalmente a ver o Cão Grande, a famosa elevação que parece nascida no meio do nada e que aparece em todos os guias de São Tomé. O nosso vizinho japonês da guesthouse contou-nos que descobriu o país porque viu uma foto do Cão Grande e pensou: tenho de subir àquilo. Depois viu um documentário sobre São Tomé e resolveu inclui-lo na sua viagem (já estava a viajar há um ano quando o conhecemos, e só vai para algures em 2017).

Infelizmente nesta zona vê-se também a enorme plantação de palmeira que tem vindo gradualmente a substituir o parque natural. Num país com pouco emprego e muitos recursos naturais, uma solução como esta pode parecer ideal como geradora de emprego e riqueza, no entanto se não for feita com cuidado e precauções pode não só matar a biodiversidade única da ilha, como provocar alterações climáticas importantes. Há no Público um artigo antigo mas que reflecte um pouco sobre este assunto. Aqui.

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O Cão Grande ali ao fundo
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Nesta vista consegue ver-se a extensão da plantação de palmeira que se estende nesta zona de parque natural.
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Matrícula pintada à mão, pois claro. 
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O rio Iô Grande, o maior de S. Tomé.
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Pode ir-se de barco ver os mangais. Fica para a próxima.

Mais à frente a estrada deixa de ser boa, para deixar mesmo de ser estrada. Chegámos outra vez aos caminhos de terra batida e com eles praias escondidas. Estas, como são mais famosas não estão vazias. Mas em nenhuma delas encontrámos mais de 20 pessoas de cada vez. Acho que dificilmente voltarei à Costa da Caparica com o mesmo entusiasmo. Nem no inverno está tão vazia. Fazemos a visita em crescendo de beleza, e isso significa que começamos pela praia Jalé, seguimos para a praia Piscina e terminamos na deslumbrante Praia Inhame. Nesta existe um eco-lodge que nos parece em espírito muito semelhante ao Mucumbli. Pergunto-me porque não viémos passar aqui uns dias (lembrei-me entretanto porquê, os sitios que escolhemos não foram à toa), mas naquele momento aquela praia parecia o paraíso com o Ilhéu das Rolas como pano de fundo. Foi aqui que fomos dar um belo mergulho e refrescar da viagem.

13 Praia Jalé
Praia Jalé
14 Praia Piscina
Praia Piscina
15 Praia Piscina
O outro lado da praia Piscina
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A praia Inhame – Sem Stress
17 Praia Inhame
O Ilhéu das Rolas
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Praia Inhame – 2 minutos depois da foto estavamos dentro de água. 

Banho tomado, roupa trocada, aproximava-se um momento pelo qual eu ansiava desde Lisboa. Amante de culinária que sou, vi bastante vezes o programa Na Roça com os Tachos, e gosto do jeito do João Carlos Silva, por isso ia com expectativas altas almoçar em São João dos Angolares. E, tal como na fábrica do Corallo, as expectativas foram superadas. Para além de chef ele é também um entertainer e o almoço foi uma experiência única. Com direito a ver a cozinha de fogões a lenha, e ter o chef a vir à mesa falar com todos os convivas. Adorei!

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O enpratamento. O restaurante é também uma escola, e o chef trabalha com alunos da região. 
20 Roça Angolares
A cozinha da roça.
21 Roça Angolares
Tragam-me a banana meus queridos!
22 Roça Angolares
A vista!
23 Roça Angolares
Uma das entradas, ceviche com maracujá. Nham nham!

Estava na altura de dar o passeio por terminado e voltar a São Tomé. Mas o dia estava longe de terminar. Jantámos qualquer coisa cedo em casa (6 e picos tornara-se a nossa hora de jantar habitual), mas o Edner e a Jandira, anfitriões da Sweet Guest House andavam a desafiar os hóspedes para uma festa particular. “Sardinha vs Kuá-Kuá“. Kuá-kuá é o nome dado ao peixe voador quando assado como a sardinha, assim inteiro e só com sal. É o único peixe que os santomenses cozinham assim, todos os outros levam uns temperos próprios (e deliciosos) antes de grelhar.

E assim fomos para parte incerta da cidade, nós e quase todos os hóspedes da Guest House participar duma verdadeira festa santomense. Nesse dia tinham chegado também a Isabel e a Rosário, na sua segunda visita a São Tomé, e foi uma noite de comida, bebida, música e experiências partilhadas. Para nós marcava o fim duma aventura, para elas apenas o começo do reencontro.

Fomos dormir tardissimo e com o coração já cheio de saudades. O dia seguinte seria o último e esperava-nos a ida ao mercado para levar alguns produtos para casa.

Dia 8 – O Centro de São Tomé

O dia amanhece cedo também na cidade, com a diferença que desta vez tivémos que fazer o nosso próprio pequeno-almoço, que foi bastante menos glamouroso. No entanto o terraço da Sweet Guest House oferecia não só alguma protecção contra o calor como oportunidade de socializar com os outros hóspedes enquanto fazíamos tempo para a partida. Era dia de Portugal, e iríamos fazer a visita ao centro onde passaríamos também na Casa-Museu Almada Negreiros. Pareceu-nos apropriado.

O centro é a região natal do Domingos, nosso motorista, e isso vê-se no à-vontade com que cumprimenta as pessoas e com que se movimenta na região. A primeira paragem é na cascata de S. Nicolau, maior do que a que tinhamos visto anteriormente e igualmente bonita. Esta é menos selvagem, e está arranjadinha para permitir visitas e banhocas.

A zona centro é incrivelmente fresca quando comparada com todo o resto de S. Tomé e houve alturas em que quase cheguei a sentir um bocadinho de frio quando o jipe andava mais rápido e a janela estava bem aberta. Soube bem sentir esse fresquinho novamente.

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Há de tudo nas estradas em São Tomé.
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Cascata de São Nicolau
03Cascata
Ainda na cascata.
04Matabala
Folhas de matabala, um tubérculo comestível que cresce em todo o lado.

Depois de algum tempo na cascata, fomos ver o Jardim Botânico.  Visita guiada só para nós os dois com um guia muito conhecedor mas muito desiludido com a vida. Infelizmente a minha memória é péssima (mas eu ainda não acredito nisso), por isso achei que me ia lembrar de todos os nomes fantásticos das plantas que vimos, e lembro-me de aproximadamente zero. Fica a nota que são quase todas afrodisíacas, o guia tentou vender-nos a sua mezinha caseira durante toda a visita, e mesmo num dia tão cinzento como aquele o jardim é lindissimo apesar do ar ligeiramente decadente e abandonado. Dos 22 guias de antigamente restam apenas 3 após São Tomé ter perdido acesso a uns fundos de auxílio internacionais para conservação. Não se cobra bilhete mas a melancolia do local convida a deixar um contributo que é devidamente registado num livro. Espero que a desilusão com a vida tivesse a ver com o tempo nublado daquele dia, e não seja uma constante daquele senhor, mas sinceramente duvido. Tivémos o bónus de nos explicar a diferença entre feiticeiro e curandeiro e o simples mal de invejas, e que há plantas para curar e proteger de tudo isso.

05Rosa de Porcelana
Se bem me lembro, esta é uma rosa de porcelana.
06Bico de Papagaio
Bico de papagaio.
07Bico de Papagaio
Bico de papagaio
08Begónia
As eternas begónias.
09Feto
A beleza dos fetos.
10Orquideas
O mais perto que estivemos do Príncipe.
11Aranhas
Pois… elas andam por lá.
12Jardim Botânico
Mais uma planta lindissima que não me recordo o nome.
13Rabo de Gato
Rabo de gato.
14Jardim Botanico
Mesmo num dia tão nublado, a vista do jardim botânico é fenomenal.
15Cientistas
Tantos, e tão poucos para tanta riqueza.

Novamente a caminho, parámos de seguida no “quintal” do Domingos. Uma coisa que reparámos neste passeio ao centro foi na multitude de pedacinhos de terra cultivados de legumes, tão diferente das bananeiras caóticas que víramos no norte. E realmente o Domingos tem um belo cantinho cheio de legumes cultivados e uma vista linda e partilhou-o connosco.

16Quintal
O “quintal”.

Paragem seguinte, a Casa-Museu Almada Negreiros. Novamente o luxo dum guia só para nós e uma visita muito interessante. Até ter começado a pesquisar esta viagem não fazia ideia que o Almada tinha nascido em São Tomé e o trabalho que esta associação está a fazer parece-me muito interessante, principalmente na envolvência com a comunidade em que estão inseridos. Deixaram o repto: se tivermos coisas do Almada que queiramos doar, eles aceitam, por isso estendo este pedido a quem lê estas linhas. Importante, especialmente se considerarmos que algumas das poucas doações que eles têm já foram roubadas por visitantes.

17Almada Negreiros
A Casa-Museu. Só as fundações são originais já que estavam num estado avançado de degradação. Está tudo a ser reconstruido aos poucos.
18Almada Negreiros
Pormenor do terraço
19Almada Negreiros
Pormenor da zona de exposições, máscaras feitas por artesãos locais.
20Almada Negreiros
O restaurante.

Este prometia ser um dia cheio, e dali partimos para a Roça Monte Café onde fomos almoçar e ver um bocadinho do processo do café. Cada vez que o carro parava percebíamos que afinal o dia estava muito quente, e eu estava novamente mais em baixo de forma. Mais um almoço de peixinho e uma visita interessante se bem que curta. Depois disso fomos para a cidade descansar no terraço e fazer tempo para a segunda parte do dia, a visita à fábrica de chocolate do Cláudio Corallo. Pelo meio ainda conhecemos a Marta, a organizadora dos nossos passeios destes últimos dias. Viajar a São Tomé é acima de tudo uma experiência social e as pessoas que conhecemos foi o melhor que trouxemos desta aventura.

21Roça Monte Café
A Roça Monte Café
22Roça Monte Café
Café a secar numa estufa solar.
23Roça Monte Café
Café a secar numa estufa de forno.

Mas entretanto lá fomos para o Corallo e acho que nada me tinha preparado para o que ia acontecer. Não tinha lido nada sobre isso, por isso fui totalmente surpreendida. O Claudio ele próprio faz a visita, que consiste em provas de vários chocolates, como se fossemos escanções de cacau. Divinal! Tudo, desde a eloquência do Claudio até a todos os chocolates que provámos. Foi precisa muita força de vontade para não estourar o orçamento e o espaço nas malas todo naquela tarde.

24Corallo
O Claudio Corallo a explicar como chegou ao melhor chocolate do mundo.
25Corallo
O C. Corallo a distribuir o melhor chocolate do mundo…

Visita do dia terminada, pedimos ao Domingos para nos deixar no centro da cidade. Fomos até à marginal e ficámos lá a fazer o mesmo que muitos santomenses, a namorar! Depois de caminharmos um bocadinho a absorver a energia fabulosa da cidade fomos petiscar ao Café do Xico e de repente sentimo-nos transportados a um qualquer Café Central duma vila portuguesa. Àquela hora eu era a única mulher presente, e o grande ecrã gigante preparava-se para dar o jogo de estreia do Europeu. Havia olhares de soslaio para os intrusos que ocuparam uma mesa com uma vista privilegiada para o jogo, e claramente não tinham interesse em vê-lo (foi sem querer!). No final comemos uma tosta mista e um sumol por tuta e meia e viemos embora recuperar forças, para gáudio de quem saltou para agarrar a nossa mesa.

Mais descontração no terraço com os nossos vizinhos da Guest House antes de irmos dormir, e o dia seguinte ia ser longo. A aventura ainda não tinha chegado ao fim.

Dia 7 – Passeio pelo Norte

Estava na hora de rumar a novas paragens e depois dum último pequeno-almoço principesco, felizmente com direito a papaia, estávamos prontos a embarcar. Despedidas feitas, ficámos tristes por deixar a Ana que tinha sido uma grande companhia nesses dias. Viajar também é isto, conhecer pessoas novas, trocar experiências, e esta viagem foi sem dúvida mais generosa neste aspecto do que as costumeiras que temos feito pela Europa. Mais um factor que nos levou a voltar completamente apaixonados por esta pequena ilha.

Com uma pontualidade santomense o nosso motorista veio buscar-nos. O Domingos iria ser o nosso companheiro de viagens nos próximos 3 dias e desvendar um bocadinho do muito que a ilha tinha para oferecer. Partimos em direcção a Santa Catarina pelo bocado que já tinhamos conhecido quando da nossa caminhada pelos túneis. Felizmente desta vez fomos só até ao túnel de Santa Catarina e não passámos novamente pela vila que eu acho que o meu coração não ia aguentar. Ainda tinha as imagens de pobreza bem gravadas na minha mente (ainda tenho) e não queria revive-las. Por isso foi com alívio que vi que voltavamos para trás no túnel.

01Praia Brita
A já conhecida praia Brita
02Tunel Sta Catarina
O túnel de Sta Catarina.

Voltámos para trás na estrada, passámos novamente pelo Mucumbli, Neves, e daí em diante era território inexplorado. Agora, dia de semana, Neves parecia uma cidade tão normal. As duas vezes que tinhamos por lá passado foi numa sexta à noite e num domingo de manhã e de ambas as vezes nos pareceu uma feira com toda a gente na rua. Aliás, no domingo de manhã tinha passado por uma senhora a vender uma cabeça de tubarão na rua, o que me deixou um bocadinho inquieta de cada vez que ia ao mar nos dias seguintes. Mas agora era um dia de semana perfeitamente normal, os meninos estavam na escola, e parecia uma cidade muito pacata e tranquila. Ficámos com pena de não termos explorado mais.

A estrada do norte é uma aventura cheia de enormes crateras, uma verdadeira gincana para qualquer condutor. Quando olhamos para o mar vemos sempre os mesmos pescadores artesanais e as mulheres a secar roupa nas pedras negras. Passado pouco tempo estávamos num dos ex-libris do norte, a Lagoa Azul. O nome já deixa antever o que é, uma enseada onde o mar é espectacularmente azul e as fotos obviamente não fazem justiça. Como em todas as outras zonas turisticas a que fomos, estavamos sozinhos. Nunca haviam mais do que algumas pessoas, e esse foi um dos maiores encantos de toda a viagem, a falta de pressão de pessoas, do turismo desenfreado, do termos que lutar por espaço e por paz de espírito. Da Lagoa Azul seguimos para a Praia dos Tamarinos para dar um mergulho, ideia que parece mais esperta do que foi na realidade porque sem a ajuda dos meus habituais sapatinhos de borracha magoei os pés nos calhaus rolados, levei com uma forte onda no rabo quando ia a sair e raspei um joelho todo no chão. Como dizem os ingleses: small price to pay. A água estava maravilhosamente queste e cristalina.

03Estrada Norte
Destroços de navios na estrada do norte
04Lagoa Azul
A Lagoa Azul, a verdadeira e não a cinematográfica.
05Praia Tamarinos
A praia dos Tamarinos (Tamarindos?)

O programa para o almoço era santola, aparentemente uma iguaria santomense, mas os peixinhos não comem marisco por isso fomos novamente para o peixe assado. E comemos um belo petisco, parecido com pastel de bacalhau mas versão fruta pão. Por mim tinha almoçado só aquilo, tão bom que era.

Depois de almoço passámos pela Roça Agostinho Neto. Grande, cheia de gente a viver e meninos fora da escola, como muitas das que passámos. Em São Tomé, pelo que percebemos, a escola primária é de manhã ou de tarde, por isso há sempre meninos a brincar a toda a hora. Os meninos do norte não estão tão habituados a turistas e ainda não têm o ritual de pedir doces quando passamos. Aqui já vieram ter connosco com o cântico costumeiro: doce, doce. Não tinhamos doce mas tinhamos uma caixa de lápis de cor que causou as delicias de 12 meninos, especialmente do que “pegou o violeta“.

Fomos ver um secador de cacau, de estufa e de forno, e o cheiro era maravilhoso.

06Roça Agostinho Neto
Roça Agostinho Neto
07Roça Agostinho Neto
Ainda a Roça Agostinho Neto
08Roça Agostinho Neto
Os meninos a pedir doces.
09Roça Agostinho Neto
Peguei o violeta!
10Secador cacau
Cacau a secar na estufa
11Secador Cacau
Cacau a secar com calor por baixo.

Era tempo de recolher à cidade de São Tomé. Depois de tantos dias protegidos no Mucumbli a cidade parecia-nos um pouco caótica. Ficámos na Sweet Guest House e fomos logo recebidos num maravilhoso terraço onde corria uma brisa. Seria aí que faríamos as refeições nos próximos dias, e onde passaríamos belos momentos de conversa com os outros hóspedes. O Domingos só nos deixou depois de ter a certeza que estávamos no sítio certo e com as malas seguras, e no dia seguinte teríamos novo passeio.

Fomos recebidos pela Jandira que nos fez uma introdução à geografia da cidade e nos ofereceu um precioso mapa que nos guiou nos dias seguintes. Mesmo com instruções precisas de como chegar ao supermercado ainda conseguimos andar meio perdidos nas ruas de São Tomé. Mas a cidade tem uma luz e uma côr muito próprias e aproveitámos por dar uma voltinha a pé.

De volta à Guest House foi banhinho e jantar no terraço. Jantar às 7h da noite (ou um bocadinho antes) estava a tornar-se rotina. Nessa noite conhecemos o nosso colega japonês e alemão e estivémos em amena cavaqueira. Depois caminha cedo que no dia seguinte haveria novo passeio e nova descoberta!