Seventeen

seventeen

Mais uma vez recorri ao Netgalley para arranjar uma leitura diferente, e este autor, Hideoa Yokoyama apresentava-se como um mestre do thriller asiático. Foi com essa expectativa que comecei a ler este livro, uma investigação às causas dum grande desastre aéreo no Japão, com 520 mortos, o maior até então.

A realidade, no entanto, foi um bocadinho diferente, já que de investigação o livro teve muito pouco e centrava-se essencialmente em office politics, lutas de poder nos bastidores dum pequeno jornal local que ficou encarregue, um pouco por acidente, de cobrir a notícia da queda do avião. Através destas peripécias podemos ter um bocadinho de noção de como é rígida a hierarquia num local de trabalho japonês, como as coisas se vergam a outros interesses maiores para lá de simplesmente relatar as notícias.

Neste livro seguimos Kazumasa Yuuki, um homem de 40 anos, já velho para reporter de rua segundo os padrões da altura, e a sua luta para conseguir gerir o cargo de chefe de reportagem no caso da queda do avião, enquanto batalha com os seus próprios demónios internos que o tornam irascível e de pavio curto.

O livro foi interessante, se bem que por vezes difícil de seguir (não estou muito habituada a nomes japoneses e por vezes confundia algumas personagens), e uma das partes que descreviam no resumo e que me levou a pedir o livro, a escalada duma montanha dificil, quase não aparece.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Anúncios

Terra de Ninguém

Terra de Ninguém

Como já tenho dito aqui, este ano estou numa missão de libertar espaço aqui por casa, “curando” a minha colecção de livros, de modo a manter uma selecção de títulos que faça sentido para mim agora e no futuro, e libertando livros que não entrem nessa linha. Não porque não são bons, mas porque não há espaço para tudo.

Alguns não consigo deixar de reler antes de procurar nova casa para eles, como foi o caso deste. Há algo de único nos autores sul-americanos, no modo como vêm o mundo e como nos transmitem a realidade. Um realismo mágico, carregado de tradições e superstições, que nos envolve e deslumbra.

Este livro de contos dum autor mexicano, alia a isso o facto de se centrar também muito na realidade do além fronteira, do mito da vida melhor que se pode encontrar para lá do Rio Bravo, dos sacrifícios que se fazem, das famílias que se fragmentam, muitas vezes em troca de nada.

Os contos são duros, crus, muito bem escritos, e fazem-nos reflectir sobre uma realidade muito diferente da nossa, mas ao mesmo tempo muito próxima, já que o desejo duma vida melhor, de providenciar para a nossa família, de ter um futuro diferente do passado e diferente do que os nossos pais viveram está muito presente em todas as realidades.

Aconselho a todos os que gostem de livros de contos, bem escritos, e que nos mostrem uma realidade diferente mas próxima. Está neste momento à procura de casa, espreitem aqui.

Goodreads Review

 

A Instalação do Medo

Rui Zink

Imagine que está pacatamente em casa sabe Deus a fazer o quê, quando lhe entram pela porta dentro dois técnicos que vêm fazer a instalação do medo. Como quem instala TV cabo ou outro serviço semelhante, assim se instala o medo em casa das pessoas, por decisão governamental.

Esta é a premissa do livro de Rui Zink, que nos mostra o passo a passo desta instalação e demonstração, que no fundo reflecte a nossa sociedade portuguesa actual e de como estamos reféns duma série de medos, a maior parte das vezes exacerbados pelas redes sociais.

O Carlos e o Sousa são os funcionários que vêm a casa desta dona de casa e mãe instalar o medo (vai ver que é uma categoria) e demonstrar uma série de produtos que vêm com esta instalação. Medo de animais selvagens, de serial killers (mete muito mais medo do que assassinos em série, não concorda?), mas sobretudo medo da crise e dos mercados. Ai, os mercados, essa instituição que ninguém sabe quem é, ou se mesmo existe, mas que serve de justificação para as maiores atrocidades. Quando chegamos ao fim deste livro percebemos, que mesmo sem ter deixado o Carlos e o Sousa entrar nas nossas casas, muitos destes medos se infiltraram no nosso quotidiano , e a cartilha que estes funcionários debitam acompanha-nos todos os dias, está embebida na nossa cultura. Na realidade, sempre esteve, só tem tomado contornos diferentes ao longo das eras. Mas o diferente sempre nos há-de assustar. Que o digam o próprio Carlos e o Sousa.

Vale a pena ler este livro bem disposto, onde verdades vêm disfarçadas de comédia, e se dizem coisas muito pertinentes.

Recomendo a todos os que gostam de livros diferentes, com uma pitada de surrealismo, e em bom português.

Goodreads Review

Instalacao do Medo

Olhos Azuis, Cabelo Preto

Marguerite Duras

Li este livro pela primeira vez há muitos anos e não me impactou. Na realidade acho que não o entendi. Agora, não me quis desfazer dele sem o reler e resolvi dar-lhe uma nova oportunidade.

Na primeira leitura não me tinha apercebido que este livro era um poema. Apesar de já ter vivido alguns desamores e desencontros, na altura não tinha vivido ainda o grande amor, daqueles que preenche o coração todo e que só o pensamento que um dia pode desaparecer nos deixa noites a fio sem dormir.

Por isso este desencontro, esta comunicação difícil e mal conseguida fez  sentido para mim desta vez, e fui capaz de apreciar este pequeno livro como o tesouro que é. Um exercício de reflexão sobre a capacidade de vermos o outro, o que está à nossa frente, para nos focarmos no que idealizamos ou imaginamos e como isso nos faz sofrer.

A acção é cinematográfica e não linear, não é daqueles livros que possamos ler enquanto a televisão debita banalidades em pano de fundo. Necessita da nossa atenção indivisa, sob pena de perdermos não só o fio à meada, como o sentido das frases. A autora usa todas as armas à sua disposição para nos manter agarrados a tempo inteiro, incluindo uma gramática nem sempre fácil de seguir.

Mas, na minha humilde opinião é um livro que vale a pena o tempo que se lhe dedica. É erótico sem ser sexual, é profundamente disruptivo, e mais uma vez me leva a pensar se seria possível passar o crivo da nossa censurazinha politicamente correcta e pudica que assola os dias de hoje (o livro é de 1986) e ameaça tornar tudo um terreno estéril de coisas que não ofendem  ninguém mas também não desafiam mentalidades. Eu sou uma pessoa de convicções fortes, bem marcadas, e por isso mesmo não tenho medo de ler coisas que lhes façam frente e me ponham a pensar e a testar os meus limites, mas infelizmente nem todos pensam assim e hoje em dia domina a corrente: olhos que não vêem, coração que não sente.

Recomendo este livro a todos os que têm, antes de mais, paciência para lerem 95 páginas desafiantes. Depois os que querem ler qualquer coisa que fuja da hegemonia anglo-saxónica. Por fim, os amantes de literatura com um toque teatral.

Se quiserem uma review mais detalhada, podem ver aqui.

Tendo cumprido a sua missão comigo, este pequeno livro está agora à procura de casa nova. Não se esqueçam de espreitar o link para ver quem mais o acompanha.

Goodreads Review

Ele agarra-lhe nas mãos, segura-as encontadas ao rosto.

Pergunta-lhe se são os olhos azuis que a fazem chorar. Ela diz que é isso, sim, acontece que é isso, que pode dizer-se assim.
DSeixa-o pegar-lhe nas mãos.
Ele pergunta quando foi.
Hoje.
Ele beija-lhe as mãos como se fosse o rosto, a boca.
Ele diz que ela tem o perfume leve e doce do fumo.
Ela dá-lhe a boca para beijar.
Diz-lhe que a beije, ele, esse desconhecido, diz: Beije o corpo nu, a boca, a pele inteira, os olhos.
Choram até de manhã o desgosto mortal da noite de Verão.

Rise of Endymion – O Final do Ciclo

Rise of Endymion

Agora que finalmente terminei os quatro livros que constituem o Hyperion Cantos, fiquei com mais questões do que propriamente coisas resolvidas. E as minhas questões são muito simples. Não tenho dúvidas nenhumas que esta foi a melhor série de ficção científica que eu já li, não só pela sua complexidade temática, que abrange desde biologia a filosofia, religião, política, etc, etc, mas também pela mestria com que foi escrita, já que é uma história alucinante. Apesar de se desenrolar ao longo de quatro grandes livros, raras foram as vezes em que achei que o autor estava a ser repetitivo, ou que o que estava a ser relatado era redundante ou supérfluo.

No entanto isso leva-me a duas questões que para mim são relevantes. Porque é que, sendo estes livros tão bons (e não é apenas a minha opinião, o rating no Goodreads é altíssimo para qualquer dos 4 volumes, e todas as pessoas a quem recomendei tiveram a mesma opinião) nunca foram adaptados para série, filme ou qualquer coisa do género. E, questão 2, como é que não há uma tradução para português, nem sequer português do Brasil. Vi nalguns blogs que do outro lado do Atlântico, já em desespero de causa, alguns amantes de sci-fi se juntaram para fazer uma espécie de tradução caseira e tornar o livro mais acessível a quem não domina inglês.

Porque falando dum modo realista, ler sci-fi em inglês é um acto de amor. Por vezes é difícil perceber se estamos perante uma palavra que simplesmente não conhecemos ou se foi inventada pelo autor (e este inventou imensas palavras e conceitos). Felizmente o Kindle, com o seu dicionário incluído ajuda nessa tarefa, mas os primeiros capítulos são sempre tarefa árdua.

Eu tenho uma opinião em relação a isso, claro. Na minha visão, este autor fala de temas muito desconfortáveis, nomeadamente religião, política, e o modo como determinadas instituições são retratadas (e mesmo a espécie humana) não é propriamente numa luz favorável, o que não agrada numa perspectiva hollywoodesca.

Quanto à tradução para português, o problema é sempre o mesmo. Mercado pequeno, inundado de lugares comuns, em que pouco mais se tem para além de best-sellers garantidos, e ficção científica deve vir no fundo da lista de prioridades. No entanto, sei que mesmo assim há mercado, e há lançamentos a acontecer, por isso fica lançado o desafio. Agora, o que eu achei desta conclusão da história?

Para já foi interessante estar a acabar de ler este livro na Semana Santa, sendo que parte do culminar da acção acontece exactamente durante a Semana Santa. Certo que numa versão futurista e distorcida da igreja, mas interessante mesmo assim. Depois foi bom finalmente perceber ligações que demoraram 4 livros a entender (mas o que raio é o Shrike, sendo a principal delas), e saber o final de histórias paralelas sobre as quais apenas tínhamos tidos vislumbres e suposições. Mas o mais impactante é a mensagem que este livro transmite, que é não só ecológica, já que como sempre o Homem tem como instinto dominar toda a Natureza em que toca em vez de trabalhar colaborativamente com ela, mas também a mensagem mais filosófica.

No fundo neste livro fala-se de escolhas. A mensagem transportada por “Aquela que Ensina“, figura central da história, nova salvadora da humanidade, é incrivelmente simples. Escolhe novamente. Apenas isso. Em cada dia, quando recomeçares a viver, escolhe tudo novamente. Se estás feliz com as tuas escolhas (as tuas crenças o teu emprego, o teu companheiro), valida-as novamente e segue sendo feliz. Se alguma dessas coisas não te preenche, não faz sentido, não se enquadra no teu código de valores, escolhe uma coisa que se coadune melhor contigo. Parece simples, não? Juntamos a isso uma empatia universal por todos os seres vivos, e temos uma receita para o sucesso da nossa espécie.

Se fosse assim tão simples… Aconselho a todos os que gostam de ficção cientifica, e livros que façam pensar enquanto nos contam uma boa história.

Goodreads Review

 

Avelina, Criada para Todo o Çerviço

Avelina

Comprei a Avelina na Feira do Livro de 2017, e já isso me faz ter pena de ter decidido não comprar mais livros este ano, porque fiquei cheia de vontade de ter mais livros do Vilhena. A sua mordacidade e sentido de humor, tão brejeiramente portugueses, mas pejados de crítica social e visão global do que se passava no tempo do outro senhor, fazem ler os seus livros um verdadeiro prazer.

Mas quem é a Avelina? Avelina é uma moça pré-adolescente das Bouças, lugar fictício do interior rural português, mas que podia ser qualquer aldeia no final dos anos quarenta, onde se passa fome de rabo e por isso ela é mandada servir numa casa da vila mais próxima a troco de cama e comida. Aí começa a escrever o seu diário, muito livre, que nos vai dando conta das diferenças sociais vincadas, mas também do chico espertismo tão português e tão comum a toda a gente, independentemente do lugar social que ocupam. Vilhena tem um olhar muito aguçado sobre os males da sociedade, mas ao mesmo tempo descreve-os sem pena, sem “coitadismos” e com imenso sentido de humor.

Confesso que este livro me impressionou por dois motivos, não só por estar escrito dum modo muito cru e com graça, mas porque a minha avó materna também cresceu numas Bouças deste Portugal e quando tinha oito anos, consideravelmente mais nova que a nossa personagem, foi servir para casa da professora primária da terra, a troco de educação, comida, cama, etc. Confesso que sempre tive uma visão romântica sobre esse assunto, e este livro fez-me ver as coisas um bocadinho mais próximas da realidade.

O livro é a compilação de três volumes originais que seguem o crescimento da Avelina desde as Bouças até finalmente se instalar em Lisboa, com passagem pelo Porto, mas confesso que o último volume foi para mim o mais fraquinho, talvez pela perda da inocência da nossa protagonista.

Aconselho vivamente, não só porque a edição fac similada da E-Primatur está lindíssima, como já nos vêm habituando, mas porque é um documento dum tempo que já passou mas que não nos podemos esquecer, porque sem nos apercebermos a censura está sempre à espreita, e hoje está tão activa como no tempo da outra senhora, apenas se reveste de outros contornos. Mantenhamos a todo o custo a liberdade de ler o que queremos e pensar livremente.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Poirot – O Mistério do Comboio Azul

Poirot

O Peixinho que é só ligeiramente obsessivo compulsivo, começou há algum tempo a ler/reler os livros do Poirot por ordem de publicação. Li bastantes na minha adolescência, da colecção dos Livros do Brasil, mas agora estou a fazê-lo por ordem e na língua original.

No entanto o quinto volume foi tão fraquinho que me levou a fazer uma pausa de quase um ano até ter coragem de retomar. Mas ainda bem que o fiz porque este The Mistery of The Blue Train foi uma revelação.

Tal como o anterior foi escrito num estilo diferente ao que estamos habituados, dá a sensação que a autora andava em fase de experimentação, mas aqui resultou bastante bem. Temos uma longa descrição de vários personagens, cenários e situações e já o livro vai bem adiantado quando Poirot aparece pela primeira vez. Na realidade ele parece um personagem secundário, pouco importante na história, apenas bem visível para nós que o conhecemos tão bem, e isso empresta mais colorido à narrativa.

Seguimos as personagens e as suas motivações em primeira mão, ao invés de acompanharmos a investigação pelos olhos do detective e isso torna mais difícil fazer o que eu sempre faço que é mandar palpites sobre quem é o assassino. Na realidade mandei na mesma, porque isso faz parte do prazer de ler estes livros, mas desta vez estava sempre a mudar de ideias e foi mais difícil prever o raciocínio da Agatha Christie, que ao fim de alguns livros percebe-se que segue sempre mais ou menos o mesmo arco.

No entanto neste caso fomos sempre sendo surpreendidos e quase mesmo até ao final eu ainda não fazia ideia de quem era o assassino ou de como a história iria encontrar o seu desfecho.

Recomendo para fãs do género e pessoas que gostem duma história bem contada. E agora rumo ao próximo volume.

Goodreads Review

Boas leituras!

Trains are relentless things, aren’t they, Monsieur Poirot? People are murdered and die, but they go on just the same. I am talking nonsense, but you know what I mean.”
“Yes, yes, I know. Life is like a train, Mademoiselle. It goes on. And it is a good thing that that is so.”
“Why?”
“Because the train gets to its journey’s end at last, and there is a proverb about that in your language, Mademoiselle.”
“‘Journey’s end in lovers meeting.'” Lenox laughed. “That is not going to be true for me.”
“Yes–yes, it is true. You are young, younger than you yourself know. Trust the train, Mademoiselle, for it is le bon Dieu who drives it.”
The whistle of the engine came again.
“Trust the train, Mademoiselle,” murmured Poirot again. “And trust Hercule Poirot. He knows.

Verdade ou Ficção?

TSG

Depois de ter começado o ano a ler livros que tinha cá para casa, ou que tinha há muito tempo para ler, e que eram livros densos, de autores reconhecidos, resolvi que estava na altura duma coisa mais leve. O Netgalley tinha-me dado há algum tempo este The Traveling Sex Game, já para o Kindle novo, e resolvi que estava na hora de o ler.

Este livro, de ficção, apresenta-se como sendo o resultado duma investigação jornalística feita pelo autor para o jornal onde trabalhava sobre um jogo de caracter sexual jogado por pessoas em viagem. Cada pessoa põe na sua bagagem duas fitas, uma azul para indicar que joga, e outra de outra cor, sendo que cada cor corresponde a uma preferência de “jogo” chamemos-lhe assim. É como se fosse um Tinder offline, por assim dizer. O jogo assenta em regras muito rígidas para proteger a identidade dos jogadores, a sua privacidade e também garantir alguma segurança, mas há sempre um factor de risco inerente.

O autor vai viajando pelo país (América, onde mais poderia ser?) e conhecendo diferentes jogadores, contando as suas histórias de modo bastante pormenorizado, sem fazer julgamentos de valor e sem nunca nos dizer se chega a participar do jogo ou não.

O livro é engraçado e diferente desta nova vaga de livros eróticos escritos por donas de casa com demasiado tempo livre, e deixa sempre no ar a dúvida se os acontecimentos narrados são verdade ou ficção, se o jogo existe ou não. O autor deu-se ao trabalho de criar um website para “os jogadores” partilharem as suas histórias. Um conceito engraçado, um livro descomprometido que se lê rapidamente para descontrair, e que nos vai fazer andar a olhar para as malas nos aeroportos da próxima vez que viajarmos.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Luiz Pacheco -Como descrever o indescritivel?

luiz-pacheco

Há muitos autores dos quais só tive conhecimento muito tarde. O nosso mercado português é muito pequeno, limitado, não há muito espaço para coisas diferentes e alternativas serem divulgadas em meios com mais visibilidade.

Como já referi várias vezes o acesso ao Kindle veio ajudar-me a descobrir autores em inglês que nem sempre estão nos nossos tops editoriais. Quando chega a autores portugueses, a coisa é um bocadinho diferente, e descobrir coisas novas e interessantes pode ser um trabalho árduo.

E por vezes pode mesmo ser tarde demais, como no caso de Luiz Pacheco. Muita coisa tenho lido sobre este autor dito “maldito”, que tem uma história de vida conturbada, que viveu sem regras nenhumas a não ser as suas, e que era hábil a dizer exactamente o que pensava sobre toda a gente, o que não lhe granjeou muitas amizades. Era um homem profundamente livre, em todos os aspectos que a palavra inclui, e com todas as consequências que isso arca também. Não era subserviente a nada a não ser os seus desejos, e por isso foi tão marginal.

No entanto, pouco posso dizer sobre o seu estilo literário, porque os seus livros são muito difíceis de encontrar. Já corri vários alfarrabistas onde me costumo “abastecer” e nenhum tem livros disponíveis, ou se têm são muito caros. Nas livrarias, idem aspas. É possível recorrer a sites como o OLX e afins, mas o preço dos livros que aí se encontram é proibitivo, pelo menos para mim.

Os livros que ainda restam disponíveis por aí são itens de coleccionador e têm o preço ajustado a isso. Para uma pessoa como eu que apenas quer ler o texto, 60€ é um pouco demais. Por isso acho que estava na hora de reeditarem alguns textos deste autor para os tornarem mais acessíveis ao público em geral. De preferência também em formato digital.

Enquanto isso não acontece partilho aqui algumas coisas que se encontram espalhadas pelo mundo digital, para podermos ir descobrindo um pouco mais sobre este autor/editor.

Uma entrevista de Anabela Mota Ribeiro com Luiz Pacheco, quando ele vivia já num lar. Muito interessante.

Um especial do Observador já antigo onde podemos conhecer também muito da sua biografia e bibliografia.

E por fim esta gema, o conto Comunidade aqui ilustrado por Cruzeiro Seixas e disponibilizado online pela Livraria Almedina. Foi este conto que acabei agora de ler e de que vos venho aqui falar.

Comunidade é muito pequeno, mas é compacto e denso. A comunidade que Luiz Pacheco nos descreve é a sua família à altura, que vivia em condições muito precárias, como ele aliás viveu toda a vida. Escreveu sobre a miséria conhecendo-a por dentro.  É um corpo que mexe como um, mas que é feito de muitos corpos que vivem separadamente. No entanto, o livro não é miserabilista, e cada frase nos dá para pensar e reflectir na nossa própria vida e nas nossas escolhas.

Aconselho a todos os que tenham estômago forte e ideias livres e que queiram conhecer mais um dos nossos autores menos mainstream. Deixo-vos um excerto.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos,
lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o
vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo.
Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi
pior. Conheci gente variada nesta Viagem. Pobre gente:
estúpidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos,
foliões e parasitas da Vida, parasitas (os mais criminosos,
estes) chulos do próprio talento desperdiçando tudo: as horas
do relógio deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo
tem seu calor e seu exemplo; ou frustrados falhados tentando
arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por
impotência de criar, lazeira ou cobardia (mas o coveiro nada
perdoa). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e
muito mal mascarados. Uma caca a respirar.

The Golden House – Salman Rushdie

golden house

O terceiro livro do ano foi um que estava ainda no Kindle velho e que tinha que fazer a crítica para o Netgalley. Além disso, apesar de só ter lido um livro dele, Salman Rushdie é um excelente escritor, daqueles que pegam numa história aparentemente normal e a revestem de camada após camada de transcendência, contemporaneidade, urbanidade. É um habitante do tempo presente, com as suas nuances sociopolíticas, e isso permeia a sua escrita.

Este livro é mais um reflexo disso mesmo. Passado em Nova Iorque, na América de Obama, conta-nos a história de um pai e os seus 3 filhos que se vieram refugiar dum passado misterioso na sua Índia natal. A história é contada por um narrador que era um jovem vizinho estudante de cinema, e que vai usar os acontecimentos conturbados deste exílio num guião dum filme.

E assim desde o início sabemos que a história vai correr mal, mas não como nem com quem. E também nem sempre é linear a distinção entre a “realidade” dos nossos personagens e a ficção criada pelo narrador e isso mantém-nos sempre alerta e em tensão.

Tudo isto envolvido numa escrita belíssima, às vezes quase poética. O livro vai todo ele num crescendo que acompanha também a evolução da história recente americana. O final do mandato de Obama, a campanha eleitoral surreal que culmina com a eleição de Trump (aqui brilhantemente equiparado ao Joker), fazendo de Nova Iorque à vez uma Gotham City ou uma Metropolis. O livro está ricamente recheado de referências literárias e cinematográficas, que muitas vezes senti que a minha mente era demasiado pequena para abarcar, mas estava maravilhosamente escrito, envolvente, e eu recomendo seriamente a todos aqueles que, como eu, gostem de usar livros de ficção como veículos para pensar sobre a nossa realidade e actualidade. Deixo-vos com alguns extractos para terem um vislumbre daquilo que lá podem encontrar.

Goodreads Review

Boas leituras!

 

“When I’m done with a book,” she said, “it is also done with me and
moves on. I leave it on a bench in Columbus Park. Maybe the Chinese
people playing cards or Go won’t want my book, the nostalgic
Chinese bowing mournfully at the statue of Sun Yat-sen, but there
are the couples coming out of City Hall with their wedding licenses
and stars in their eyes, wandering for a minute among the cyclists
and the kids, smiling with the knowledge of their newly licensed
love, and I imagine they might like to discover the book, as a gift
from the city to mark their special day, or the book may like to
discover them. In the beginning I was just giving books away. I got
a new book, I gave away an old one. I always keep just seven. But
then I began to find that others were leaving books where I had
left mine and I thought, these are for me. So now I replenish my
library with the random gifts of unknown strangers and I never know
what I will read next, I wait for the homeless books to call out:
you, reader, you are for me. I do not choose what I read anymore. I
am wandering through the discarded stories of the city.”

 

It was a year of two bubbles. In one of those bubbles, the Joker
shrieked and the laugh-track crowds laughed right on cue. In that
bubble the climate was not changing and the end of the Arctic
icecap was just a new real estate opportunity. In that bubble, gun
murderers were exercising their constitutional rights but the
parents of murdered children were un-American. In that bubble, if
its inhabitants were victorious, the president of the neighboring
country to the south which was sending rapists and killers to
America would be forced to pay for a wall dividing the two nations
to keep the killers and rapists south of the border where they
belonged; and crime would end; and the country’s enemies would be
defeated instantly and overwhelmingly; and mass deportations would
be a good thing; and women reporters would be seen to be unreliable
because they had blood coming out of their whatevers; and the
parents of dead war heroes would be revealed to be working for
radical Islam; and international treaties would not have to be
honored; and Russia would be a friend and that would have nothing
whatsoever to do with the Russian oligarchs propping up the Joker’s
shady enterprises; and the meanings of things would change;
multiple bankruptcies would be understood to prove great business
expertise; and three and a half thousand lawsuits against you would
be understood to prove business acumen; and stiffing your
contractors would prove your tough-guy business attitude; and a
crooked university would prove your commitment to education; and
while the Second Amendment would be sacred the First would not be;
so those who criticized the leader would suffer consequences; and
African Americans would go along with it all because what the hell
did they have to lose. In that bubble knowledge was ignorance, up
was down, and the right person to hold the nuclear codes in his
hand was the green-haired white-skinned red-slash-mouthed giggler
who asked a military briefing team four times why using nuclear
weapons was so bad. In that bubble, razor-tipped playing cards were
funny, and lapel flowers that sprayed acid into people’s faces were
funny, and wishing you could have sex with your daughter was funny,
and sarcasm was funny even when what was called sarcasm was not
sarcastic, and lying was funny, and hatred was funny, and bigotry
was funny, and bullying was funny, and the date was, or almost was,
or might soon be, if the jokes worked out as they should, nineteen
eighty-four.