The Third Swimmer

third swimmer

Keep scrolling if you prefer to read in English

Depois do último livro ter sido uma experiência de leitura brilhante mas aterradora, voltei a ler uma sugestão do Netgalley mais tranquila e intimista. Aliás, essa parece ser a temática de 2018, livros que contam histórias bonitas e delicadas, que se debruçam sobre as dificuldades de comunicação nas relações, sobre o manter a intimidade e o amor mesmo em face da adversidade.

Este livro acompanha a história de um casal, Olivia e Thomas, em dois momentos diferentes. Quando se conhecem em pleno despontar da Segunda Guerra Mundial, e mais tarde, em 1952, já casados e com 4 filhos, com um casamento longo mas algo distante, com dificuldade em manter intimidade, com muitas coisas que ficaram por resolver, por dizer e com as mazelas que a guerra deixou nos dois. Resolvem fazer uma viagem a dois ao Sul de França para ver o que restava do casamento, e perceber se ainda o podem salvar.

A história é relativamente simples, mas recheada de significados escondidos, camadas de interpretação, metáforas, interligações com momentos específicos da História real e da história pessoal da autora, que tornaram a experiência de ler este livro ainda mais prazerosa.

Mais uma vez uma experiência que não me deixou desiludida, e um livro que recomendo a todos os que gostem de histórias simples, mas bonitas e bem contadas.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Intimacy is just this, she thinks: talking to somebody in the night, talking and being heard. It’s harder than anything. And, there is no other way.

After the last book having been a brilliant yet terrifying reading experience, I went back to a more soothing suggestion from Netgalley. Actually, this seems to be this year’s trend, as in 2018 I’ve been reading books that tell beautiful and delicate stories, about relationship struggles, the difficulties in communicating, maintaining love and intimacy in the face of adversity.

This book leads us along the story of Olivia and Thomas in two separate moments. When they first met, at the dawn of WWII, and later, in 1952, when they are already a married couple with 4 children, with a long, difficult marriage, with many things left unsaid and struggling to remain intimate. It’s in this context that they decide to go on a trip to the south of France, trying to salvage what they can from their relationship.

This is a fairly simple story and yet filled with hidden meanings, layers of implications, metaphors, connections with real moments and people from History and from the author’s personal life, making the reading experience richer and more fulfilling.

Again, this was a very good experience, a book that I recommend to everyone that likes a simple story, beautiful and well told.

Happy Reading!

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O Terror de Dan Simmons

the terror

Durante várias semanas um colega de trabalho quase diariamente tentava convencer-me a ver esta série que passa correntemente no AMC e eu lá lhe explicava que não sou muito de séries. Entretanto nas férias estava eu à procura de coisas novas para ler e fui ver os títulos do meu novo autor fetiche, Dan Simmons, o mesmo que escreveu Hiperyon e Endimyon, quando encontrei um livro dele chamado, precisamente, The Terror. Mau, estaríamos a falar da mesma coisa?

Ignorei e comecei a ler um Poirot, porque ainda estava a digerir o livro anterior. À noite estava a ver os blogues que sigo quando me deparei com este post no blogue do Nuno onde ele fala exactamente da série e confirma que é baseada no livro do Dan Simmons do mesmo nome. Fiquei rendida, deixei o Poirot de lado, e ataquei o terror.

Se ignorarmos o sobrenatural, este livro, que é uma ficção sobre a expedição de Franklin ao Ártico que se perdeu para sempre, é uma elegia à Lei de Murphy. Tudo o que pode correr mal, vai correr mal. Mas como em muita coisa na vida, o que conta é a jornada até lá chegarmos, e Dan Simmons dá-nos uma jornada e pêras. Ainda não sei como será a série, mas digo-vos que o livro é passado com o coração nas mãos, e as mãos à vez na boca ou no estômago, ora vociferando ora pensando porque raio serão necessários tantos detalhes. Se, como eu, tiverem uma mente muito visual, dificilmente a série terá mais impacto do que a vossa própria imaginação. Mas este autor fez aqui o mesmo que em Hyperion, mantém-nos agarrados às mais de 700 páginas, a ler avidamente, sempre à espera do que vem a seguir, mesmo sabendo em traços largos o que vai acontecer.

Temos também a beleza do elemento das lendas Inuit que são o pano de fundo para muito do fantástico que se passa no livro, e o enchem com uma roupagem mais densa e mais bela do que uma simples história de terror. E por fim, depois do que muito reclamei quando finalizei a saga de Hyperion e Endymion, é bom ver finalmente um livro do Dan Simmons traduzido para português e pode ser que isto crie o interesse necessário para se abrir a porta a mais títulos.

Recomendo a todos os valentes que andam por aí e que gostam de bons livros, que não se deixam impressionar facilmente com descrições muito realistas, e que não sonham de noite com o que leram durante o dia (a mim acontece-me, mas não é necessariamente mau). A todos os que gostam de histórias fortes e fora do comum, e a todos os que gostaram da série.

Boas Leituras!

Goodreads Review

The sixam ieua knew through their forward-thoughts that when the Tuunbaq’s domain was finally invaded by the pale people — the kabloona — it would be the beginning of the End of Times. Poisoned by the kabloonas’ pale souls, the Tuunbaq would sicken and die. The Real People would forget their ways and their language. Their homes would be filled with drunkenness and despair. Men would forget their kindness and beat their wives. The inua of the children would become confused, and the Real People would lose their good dreams. When the Tuunbaq dies because of the kabloona sickness, the spirit-governors-of-the-sky knew, its cold, white domain will begin to heat and melt and thaw. The white bears will have no ice for a home, so their cubs will die. The whales and walruses will have nowhere to feed. The birds will wheel in circles and cry to the Raven for help, their breeding grounds gone. This is the future they saw. The sixam ieua knew that as terrible as the Tuunbaq was, this future without it — and without their cold world — would be worse.

Os Ingleses

l'anglaise

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Depois de Underwater Breathing, o Netgalley voltou a presentear-me com uma história bonita, difícil, sobre relações complicadas entre pessoas que foram profundamente marcadas por pais com doenças mentais. Novamente uma autora inglesa, desta vez o segundo livro de Helen E. Mundler, autora que eu também não conhecia.

Neste livro seguimos Ella, uma inglesa que vive em Estrasburgo e aí trabalha no meio académico literário. No entanto, como não casou nem tem filhos, nada do que faça poderá satisfazer as ambições da sua mãe para a sua vida. Margaret, a mãe, não teve propriamente um casamento feliz, e ambos os pais de Ella nunca foram muito presentes na sua vida.

Após a morte do pai ela conhece Max, mas terá de resolver muitos dos seus diálogos internos até estar preparada para uma relação.

Esta é a premissa deste livro, que está bem escrito e nos faz pensar mais uma vez no impacto que os pais têm na vida dos seus filhos, mesmo sem querer, mas que nos mostra também o sentimento de abandono que se sente quando se muda de país e já não se pertence bem nem cá nem lá.

Comparando com Underwater Breathing, a sua escrita é um pouco mais confusa e senti que por vezes algumas ideias ficavam a meio. Mas partilhou com este personagens muito bem construídas e das quais tive pena de me separar no final, e obriga os seus leitores a pensar mais, a escavar nas palavras para perceber os significados que estão escondidos por baixo e não nos são dados como papa para bebés, e isso também é muito gratificante.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história, bem contada, forte, e que nutrem como eu um certo carinho por França.

Goodreads Review

In English:

After Underwater Breathing I was again presented with a beautiful yet difficult  story from Netgalley, about complicated relationships between people that were deeply scarred by parents that struggled with mental health issues. Again a British author, another one that I was unfamiliar with.

In this book we follow Ella’s story, an English woman living in Strasbourg where she works in the academic literary world. Unmarried and childless, nothing that she has accomplished will be enough to satisfy her mother’s ambitions for her life. Margaret, her mother, has struggled through an unhappy marriage, and both her and her husband Hugo were in different ways absent from Ella’s upbringing and uninvolved in her life.

When her father passes away she meets Max, however she will have to deal with a lot of her own internal issues before she is ready to commit to a relationship.

This is basically the background story of this very well written book, that makes us think about the impact that the parents have in their children’s lives, even when they don’t mean to, but it also shows us the feeling of not belonging that we have when we move countries, and we are neither here nor there there anymore.

If compared with Underwater Breathing, the writing was a bit more confused and I sometimes felt some ideas were unclear, nonetheless it shared with it some very well constructed characters that I was really sad to part ways in the end and it also forced the readers to think more, and dig deeper in the words to find the hidden meanings that are not just given to us like baby food, and that was very gratifying.

I recommend it to everyone who likes a good story, strong and well told and all those, like me, who cherish France.

 

O Som dum Caracol Selvagem a Comer

sound of a wild snal eating

Foi precisamente este título curioso (ou a sua versão inglesa, the sound of a wild snail eating) que me chamou a atenção quando estava a pesquisar na minha biblioteca de livros digitais e me levou a pegar neste livro. E fiquei alegremente surpreendida com a história que ele tinha para me contar.

Elisabeth Tova Bailey estava de férias na Suíça quando começou a sentir-se doente. Voltou a sua casa nos Estados Unidos e percebeu que tinha um vírus estranho, e esteve doente durante vários anos, passando longos períodos confinada à sua cama. Durante esse tempo o seu companheiro foi um caracol que uma amiga lhe trouxe dum passeio no bosque que rodeava a sua casa, e que começou por viver num vaso de violetas, mas para o qual construíram um terrário muito semelhante ao seu habitat natural.

Isso permitiu a Elisabeth observar o seu mais fiel companheiro quase 24 horas por dia, ajudando-a a passar o tempo que passava isolada ao mesmo tempo que desenvolvia um profundo apreço pelo animal e pela espécie, lendo tudo o que conseguia sobre gastrópodes.

Apesar de ser um livro sobre doença e uma pessoa que está a passar uma fase muito complicada, o tom é sempre muito divertido, esperançoso e informativo. Em altura nenhuma sentimos comiseração ou tristeza. A autora limita-se a contar as coisas como são, e dá-nos apenas os factos que são relevantes para fazer paralelismos entre si própria e o caracol, o seu imobilismo comparado com a capacidade que o animal tinha de percorrer todo o seu habitat, o tempo que não passa para ela excepto quando se perde a observar o seu companheiro de quarto.

Poderíamos à partida pensar que os caracóis não são animais assim tão interessantes, que certamente não dão matéria para encher um livro inteiro, mas este volume cheio de factos, pensamentos e delicadeza vem provar-nos exactamente o contrário. Mostra-nos duma maneira diferente como o homem é mais feliz se estiver de algum modo ligado à natureza, e como a recuperação dum doente é mais fácil se se associarem animais a esse processo. Há mesmo estudos a indicar os benefícios de terrários em pacientes que estão confinados a espaços fechados, restringidos nos movimentos, como modo de ajudar a passar o tempo.

Recomendo a todos os amantes da Natureza, todos os que gostam de livros diferentes, histórias de superação e livros diferentes no geral. Eu pessoalmente fiquei cheia de vontade de ter um caracol de estimação.

Boas Leituras!

Goodreads Review

INCHES FROM MY bed and from each other stood the terrarium and a clock. While life in the terrarium flourished, time ticked away its seconds. But the relationship between time and the snail confused me. The snail would make its way through the terrarium while the hands of the clock hardly moved—so I often thought the snail traveled faster than time. Then, absorbed in snail watching, I’d find that time had flown by, unnoticed. And what about the unfurling of a fern frond? Its pace was undetectable, yet day by day it, too, reached toward its goal.

 

Nevoeiros Nocturnos

night fogs

Num futuro próximo, pós-Brexit, o Reino Unido desmembrou-se e tanto a Escócia como o País de Gales são nações independentes. Gales é uma nação jovem, a ajustar-se à nova soberania conquistada e tem de lidar com um fenómeno climatérico anormal, uns nevoeiros nocturnos que aparecem todas as noites e afectam mentalmente a população, especialmente as pessoas mais vulneráveis. Uma força de intervenção especial constituída por psiquiatras, psicólogos e neurologistas está todas as noites de prevenção para ajudar com os casos mais difíceis e impedir o caos. Mas qual será a verdadeira origem destes nevoeiros?

Esta é a premissa deste livro de Frances Hay, autora virtualmente desconhecida e sobre a qual não consegui encontrar nada a não ser a entrevista que deu ao Algonkian, mas do qual gostei bastante. Nem o livro tinha sido criado ainda no Goodreads, tive de ser eu a fazê-lo, o que classifica este livro como o mais obscuro que tenho lido nos últimos tempos.

Uma mistura entre ficção cientifica e fantasia, com um cenário bastante credível e que foi bastante agradável de ler, um bom esforço considerando que é o livro de estreia da autora. Juntamos a toda a história um americano que é acometido por visões do seu alter ego celta do tempo do Rei Artur, bem como das poucas vezes em que vi a profissão de psiquiatra retratada duma maneira tão dinâmica e digna dum filme de acção e temos a receita para umas horas bem passadas a ler esta história. Mais um título que me chegou à mãos através do Netgalley e mais um duma série de boas apostas que não têm desiludido.

Recomendo a todos os fãs do género.

Goodreads Review

Underwater Breathing

Underwater Breathing

Underwater Breathing foi o mais recente livro do Netgalley que eu terminei de ler e foi impressionante. É por este tipo de oportunidades que gosto tanto de pertencer a esta comunidade e ter acesso a livros que de outro modo nem teria conhecimento.

Neste livro de Cassandra Parkin, uma autora inglesa que já não é nova nestas andanças,  conhecemos Jason, Ella e Mrs. Armitage que vivem numa cidade de Yorkshire perto do mar, mesmo perto da falésia que está lentamente a ser erodida pela força do Mar do Norte, que ameaça levar as suas casas. Também conhecemos outros personagens, com mais ou menos relevância na história, mas estes são os três amigos que fazemos, os três actores principais se quisermos. A história em si não é tremendamente original, apesar de ser forte, mas o modo como o livro está tecido, em duas linhas temporais diferentes, onde tudo nos é desvendado aos poucos e sem concessões, faz com que a história brilhe. O principal aqui são as relações entre as personagens, as suas imperfeições, as suas debilidades face à adversidade, e isso torna o livro mais humano, bonito e credível.

Como pano de fundo temos a doença mental, o alcoolismo e as suas repercussões em toda uma família. Um livro difícil mas bonito que mais uma vez nos faz reflectir na nossa vida e nas nossas escolhas.

Vou ficar com saudades destes três personagens, e desejo-lhes uma vida feliz.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história sobre um tema difícil e muitas vezes tabu.

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Boas Leituras!

 

Para Lá do Mapa

Beyond the map

Alastair Bonnet é um professor universitário inglês que vive em Newcastle, cidade de onde eu já não esperava nada de melhor que os Geordie Shore‘s desta vida, mas que me surpreendeu com este livro muito agradável sobre geografia, particularmente lugares que escapam à geografia dos mapas comuns.

Neste livro Alastair Bonnet conduz-nos numa visita a espaços tão díspares como a cidade do lixo no Cairo ou as Hidden Hills de Hollywood, ambos excluídos da ferramenta Street View do Google por razões opostas (os muito pobres vs. os muito ricos), ilhas no meio do Pacífico feitas exclusivamente de plásticos mas que há alguém a lutar para as reconhecer como país em nome próprio. O país mais pequeno do mundo (a Ordem Soberana e Militar de Malta) que tecnicamente ocupa um edifício em Roma, mas que na realidade tem lugar de observador nas Nações Unidas, emite passaporte, cunha moeda e tem muitas centenas de anos, e que fez o autor pensar no que realmente define um país, que fronteiras são essas que podemos defender.

Mas a parte que mais me tocou foi toda a reflexão sobre os espaços públicos, que à força de serem pertença de todos, dessa entidade abstracta que é o Estado, na realidade não pertencem a ninguém e muitas vezes nos sentimos inibidos de fazer as mais corriqueiras actividades nesses espaços. Temos o exemplo extremo da China, com a introdução de bancos de jardim com moedas, que se não forem pagos libertam espigões que obrigam os caminhantes cansados a voltar a andar ou gastar moedas de x em x minutos pelo privilégio de usufruir do mobiliário urbano. Mas temos exemplos mais próximos de mobiliário urbano aqui na Europa para nos impedir de caminhar em determinados espaços que à partida seriam públicos, em nome da “segurança”, ou as polémicas medidas anti sem-abrigo que tanto têm dado que falar.

Por tudo isto este autor nos conduz, sempre com uma visão muito sóbria, realista, mas nada iludida sobre a realidade que nos rodeia. Os últimos capítulos foram para mim particularmente penosos de ler, porque mais uma vez nos falam que enquanto andamos todos distraídos com as nossas vidinhas internas, os campeonatozinhos de futebol, os casamentos de revista, festivaizinhos, os fait-divers para distrair e essas coisinhas que a comunicação social nos vai dando à boca como papinha para bebés, a Rússia, o Reino Unido, Os EUA, a Dinamarca, desbravam a última fronteira possível, disputam as reservas do Ártico, e prevêem que tão cedo como 2020 já se consiga fazer uma rota exclusivamente marítima através do Pólo Norte graças ao contínuo degelo dos últimos anos, tornando cada vez mais acessíveis os recursos de gás natural e petróleo que se encontram lá por baixo, e dando mais uma machadada (a derradeira?) no já tão precário ambiente em que vivemos.

Como diz o autor: In future years, we may be known as the generation that gave away the Artic, even though it was not ours to give. Mas o que interessa isso, já não estaremos cá para ver, certo?

Boas Leituras!

Goodreads Review

There are many types of love, and many bonds between them. The love of nature and the love of place – biophilia and topophilia – have a particularly intimate relationship. Our lifelong affinity with animals and plants is a passionate commitment that tumbles over and into our bond with place. These love affairs merge in the garden, the age-old site and symbol of human well-being. This helps explain why we have such a problem with the modern city. Walking or, more likely, driving past barren and stony land – shards of unloved territory in between roads heavy with traffic, or endlessly ripped-up and rubbish-strewn ‘development sites’ – is an affront, a poke in the eye and, more than that, a source of guilt and loss. The land should be a garden. It should not just be beautiful; it should be alive. To see others treat it with contempt and, worse, to know that I treat it with contempt – for, of course, I just hurry past, eyes down – is unforgivable.

 

 

Luíz Pacheco Essencial

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Aproveitei os dias de descanso em Aljezur para pôr alguns livros em dia, nomeadamente este que foi presente de aniversário.

Foi um livro que li num dia, talvez porque, para além do muito tempo livre, o tema era muito interessante. Luiz Pacheco foi um personagem sui generis, entre o genial e o louco, mas sem dúvida fracturante, e saber mais sobre a sua vida ajuda a perceber a sua obra que era tão biográfica.

Ler este livro ajudou-me a apreciar ainda mais o conto que li no início deste ano, Comunidade, já que o contextualizou, e fiquei a perceber exactamente quem eram os membros desta tribo.

No entanto o estilo demasiado coloquial desta biografia às vezes pareceu-me desnecessário, e faltou um certo distanciamento em relação ao objecto da biografia. Claramente o autor é grande admirador de Luiz Pacheco e com isso tudo se torna normal ou desculpável. Por exemplo, não deve ter sido nada fácil ser filho do escritor, viver sempre na incerteza do amanhã, mas o autor escreve levemente que Paulo Pacheco amadureceu cedo, para poder cuidar do pai.

Eu não sou apologista de julgamentos em praça pública, ou de falsos moralismos, mas um certo reconhecimento que estas escolhas de viver em profunda liberdade têm efeitos nos que nos rodeiam não seria descabido.

Mas é uma boa biografia, fluida, aconselho a quem queira saber mais sobre este autor maldito mas que teve um papel importante no surrealismo português.

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Boas Leituras!

Caminho Imperfeito

Caminho Imperfeito

Há alguns anos atrás comprei um livro de José Luís Peixoto na feira do livro. Era Uma Casa na Escuridão, e aproveitei que ele estava lá numa sessão de autógrafos para me pôr na fila à espera de uma assinatura no meu exemplar. Assim aconteceu, uma assinatura, um beijinho, um sorriso e umas palavras do autor que me disse: sabes, este livro é um bocadinho negro, pesado, mas eu costumo dizer que não é mais pesado que o Telejornal. Eu agradeci, e disse que no ano seguinte logo diria o que tinha achado, coisa que nunca aconteceu. Mas vim-me embora a pensar no que o teria levado a dizer isso. Teria eu um ar frágil, ou inocente? Deveria ter respondido que já levava um livro de Sade no saco?  Quando li o livro percebi o que ele me quis dizer, mas não deixei de achar curioso.

Vem isto a propósito de José Luís Peixoto dizer neste livro que nós leitores fazemos assunções acerca dos autores que lemos, principalmente se escrevem não ficção, e ficarmos desiludidos quando não se comportam na vida real de acordo com as expectativas que criamos deles. É justo. Sei do José Luís que é fã de Moonspell, como eu, frequentou o Gingão na mesma altura que eu (descobri-o agora, ao ler este livro) e uma das vezes que esteve na Tailândia, eu também lá estava.

Mas, acima de tudo, tem uma escrita bonita, não imediata, que me obriga a pensar, e é por isso que sou fã dele. E foi isso que aconteceu mais uma vez, com um livro que tanto nos transporta à Tailândia, a Las Vegas ou às memórias do escritor. Que nos põe a reflectir sobre o impacto do turismo na representação cultural dum povo, sobre os refugiados birmaneses ou sobre a diversidade de experiências pessoais. Que me fez reflectir que necessariamente a minha Tailândia é diferente da dele, e diferente da de todos os outros viajantes que connosco se cruzam em cada momento, e isso é válido para qualquer país que se visite.

Gostei do livro, recomendo a fãs do escritor, de literatura de viagens e da Tailândia.

E meu caro José Luís, se algum dia nos cruzarmos, eu quebro a minha regra pessoal de nunca me meter com gente conhecida, porque aceito o desafio da tatuagem!

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Boas leituras!

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A Verdade Sobre os Animais

truth about animals

Ou pelo menos alguns.

Em 1822 o Conde Christian Ludwig von Bothmer estava a caçar no seu castelo em Klutz, na Alemanha, quando abateu uma cegonha que trazia consigo algo estranho. O seu longo pescoço trazia atravessado uma longa lança de madeira, cheia de pinturas e gravações que cedo se descobriu serem de origem africana. E só aí se descobriu um enigma milenar. O que acontece às cegonhas que desaparecem todos os Invernos? Até então pensava-se que se transmutavam noutros animais (inclusive humanos), que hibernavam, ou até mesmo que ficavam dormentes no fundo de lagos.

São este tipo de curiosidades que enchem este livro, sobre bichos fofinhos como a cegonha, mas essencialmente sobre os mal amados como os morcegos, os abutres e os sapos. O livro está muito bem escrito, cheio de sentido de humor e se as minhas aulas de História do Pensamento Biológico tivessem tido metade da piada deste livro, eu teria faltado muito menos vezes.

Livros como este, escritos por cientistas (a autora é uma zoóloga da National Geographic com um largo currículo no estudo de preguiças, fundadora da Sociedade para Apreciação das Preguiças), mas bem escritos, com bom humor e recheados de factos que os tornam ao mesmo tempo informativos e interessantes, fazem mais pelo interesse pela ciência do que muitas aulas a que somos obrigados a assistir.

Neste livro vamos encontrar, como já disse, muitas curiosidades sobre pandas e hienas, perceber que as preguiças são afinal um prodígio de adaptação ao meio em que vivem, mas temos também uma lição de História Natural, e como os métodos de investigação evoluíram (e ainda bem) ao longo dos tempos. Devemos muito aos primeiros naturalistas que, aventureiramente, se lançaram em busca de explicações para o mundo que nos rodeia, mas os métodos que eles usavam fazem-nos hoje tremer por dentro. O ilustre cientista Lazzaro Spallanzani, responsável por desmistificar a Teoria de Geração Espontânea e primeiro a estudar a ecolocalização dos morcegos, recorreu a métodos de investigação que tinham tanto de sistemáticos como de assustadores, e muitos morcegos sofreram nas suas mãos. No entanto, o modo como tudo está descrito não pode deixar de nos pôr pelo menos um sorriso nos lábios.

Mas não pensemos que hoje é tudo um mar de rosas, pois se lermos o capítulo sobre os fofíssimos pandas, e o modo como eles estão a ser reproduzidos em cativeiro, em tudo semelhantes às puppy farms que tanto queremos extinguir, em nome de serem usados como moeda de troca em negócios diplomáticos, se calhar vamos pensar duas vezes da próxima vez que quisermos partilhar um vídeo viral daqueles bebés de cativeiro.

Aconselho a todos os que são fãs de National Geographic, natureza, conhecimento, história e sobretudo livros bem escritos que nos façam pensar.

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Boas Leituras!

There is nothing terminally wrong with these animals that we need to fix; the only thing we need to fix is to give them their home back.” Sarah Bexell agreed. “I really worry that it is wildlife conservation’s way of saying, ‘see, guys, we can do this, we are scientists and we’re fixing this huge biodiversity crisis problem and we can right the wrongs of our entire species by doing these little projects.’ it’s a feelgood story. The public feels good and sits back and eats their potato chips in their la-Z-boys and drives their SUVs, has a five-bedroom house and three kids, and says, ‘Great, those scientists are out there fixing this problem for me,’” she said. “but science is not going to save biodiversity; a shift in human behavior is the only thing that is going to save it. I think there needs to be more effort, first and foremost, in getting the human population under control globally, and for people to start contemplating not being such mass consumers.”